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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
MENINA BOLEIRA
Saio de casa pedindo 'torça direitinho, hoje é quarta. Tem jogo'. É um código nosso, mandinga que costuma dar certo. Lanço em seguida o mesmíssimo pedido. 'Você sabe, estarei em aula. Vá me mandando notícias'. Ela sorri com os olhos enigmáticos de jabuticaba e balança a cabeça afirmativamente, chacoalhando os cachinhos castanhos que me hipnotizam desde que a peguei no colo pela primeira vez. Ninguém mais no mundo tem esses cachinhos. Continua com os fones no ouvido, celular sintonizado em alguma série do Netflix. Once upon a time? Friends? Anos Incríveis? Não pergunto. Estou atrasado. 'Pai, sim, nem vem, eu já estudei', antecipa-se, esboçando caretinha de reprovação. Não perguntei também. Tudo bem, reconheço. Ia perguntar. 'Tchau. Vai com cuidado', faz questão de dizer, me abraçando apertado. Volta a se esticar no sofá. Não falha. Na hora combinada, lá está ela. Cumpre à risca o bordão 'missão dada é missão cumprida'. Quando busco apressado o celular na pasta, intervalo da aula, a narração da peleja via zapzap é precisa. Em cima de cada lance. José Silvério, Fiori Gigliotti, Osmar Santos e Milton Leite não fariam melhor. 'Times em campo. Começou. Estamos mal, sem pegar na bola. Só bicão. Dez minutos. Melhorou um pouco. Ricardo Oliveira machucou. Nada grave. Time passou a atacar bem. Três chances perdidas. Uma delas na cara do gol. Pênalti! Gol! Fim do primeiro tempo. Um a zero para nós'. No melhor estilo Primavera Feminina, Simone de Beauvoir no ENEM, meu corpo, minhas regras e #foracunha, conversa de igual para igual com os boleiros da escola. 'Pai, fiz uma aposta com um garoto da perua. Ele ficou espantado. Disse que sei muito de futebol'. Nas férias de final de ano no hotel em Atibaia, gincanas na piscina, desafiou um rapaz que duvidava que existem dois Borussias na Alemanha. De bate pronto, sem deixar a bola pingar no chão, a boleira emendou: "Borussia Dortmund e Borrusia Mönchengladbach. Tudo bem, não sei pronunciar esse nome direito. Mas existe esse time'. Golaço. O garoto pediu tempo para consultar os universitários. Voltou a campo reconhecendo o acerto. E aplaudiu. Vá lá, às vezes ela é turrona, cabeça dura, demora a dar o braço a torcer, mesmo depois de perceber o equívoco. Outro dia um professor nos disse: 'é muito respondona essa menina. Das mais respondonas que conheço. No bom sentido, claro'. Era um elogio. Além do Santos, gosta de acompanhar os campeonatos espanhol, inglês e alemão. Torce um tiquinho para o Barcelona (efeito Neymar), um tanto para o Chelsea ('David Luiz é maravilhoso') e um montão para um dos Borussias - o Dortmund ('Lewandowski foi para o Bayern de Munique, principal rival, é um traíra'). Conseguem ouvir? É certamente uma das grandes corneteiras do futebol contemporâneo. Cornetadas de gente grande. Profissionais. Resmunga, reclama, detona, xinga, diz que está tudo errado. Bufa. Provoca o irmão. 'Que cara horrível. Como pode jogar no Santos?'. Adora ser o centro das atenções. Sei não. Suspeito que às vezes seja só para me irritar. Para a gente começar a discutir. E dar início a mais uma mesa-redonda entre pai e filha. Às vezes a gente briga, bate de frente. Sou ariano torto, metido a perfeccionista. Atormento. Duelo de titãs. 'Pai, chega, deixa de ser chato'. É a senha para colocar ponto final no debate. E começar a pensar na próxima rodada. Lembro-me com ternura da primeira vez em que estivemos juntos na Vila Belmiro. Santos e Santa Cruz, última rodada do Brasileirão de 2006. Ela tinha quatro anos. Viu o time do coração fazer 3 x 1. Pulou, comemorou, cantou. Quando faltavam cinco minutos para o fim do jogo, esgotada, apagou. Dormiu no meu colo. Profundamente. Não a acordei. Encostei o rostinho dela no meu ombro, transformado em travesseiro de pena de ganso. Como fazia desde que ela era bebê, urrando de cólicas e sem conseguir sossegar, comecei a cantar o hino do Santos no ouvido dela, bem baixinho, suavemente, das sociais da Vila até o carro. Uns dez minutos. Cantiga de ninar. Acomodei-a na cadeirinha. Prendi os cintos de segurança. Subi a Serra em silêncio, transbordando alegria. Sorriso do rosto. Peito estufado. Coração enternecido. Minha filha no estádio comigo, na cadeira cativa que tinha sido do meu avô. Afetos, ontem e hoje. Sempre. Como acorda cedinho - também desde pequenina - e corre para abrir a internet e pegar os jornais, é a Lui quem tradicionalmente me faz um resumo das notícias futebolísticas do dia. Adora os programas da ESPN Brasil. 'O Trajano é muito engraçado'. Não perdoa nem os escorregões ou deslizes dos comentaristas profissionais. Às vezes deixa escapar um sonoro 'nossa, quanta besteira esse cara está falando'. E o machismo nosso de cada dia teima em afirmar que futebol não é esporte para mulheres. Somos uns pobres idiotas.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
ALIANÇA VOADORA
Já não lembro se era campeonato paulista ou brasileiro, final de 1997 ou primeiro semestre de 98. Sei que era noite de quarta-feira. De sopetão, na última hora, depois de chegar do trabalho, combinei com meu irmão, vesti meu manto branco sagrado e fomos ver Santos e Palmeiras no antigo Parque Antártica (amigos palestrinos, a nova arena é lindíssima, moderna e padrão mais que FIFA, tem elevador e escada rolante, mas charmosos mesmo eram os jardins suspensos do antigo Palestra Itália).
Ingresso a gente comprava na bilheteria, chegando cedo, desviando dos cambistas, enfrentando fila, discutindo com os espertalhões que fingiam não saber que a fila existia e também enrolando aqueles malacos que colavam nas gradinhas separadoras das filas para dizer 'ô, completa aí, só falta um conto, vai...'. Não tenho, cara, fica para a próxima. Era meu discurso padrão. Uns ficavam bem bravos; outros nem esperavam para ouvir a resposta e já estavam falando com outro parceiro.
Se não me engano, aquele foi o primeiro jogo no estádio depois de casado. Ainda não estava acostumado com a aliança na mão esquerda, meu dedo anular que de tão fino lembra aquele ossinho que o João, irmão da Maria, usava para enganar a bruxa má, doidinha para vê-los gordinhos e servi-los cozidos, irritada porque esse dia chegava nunca. MInha magreza, aliás, defeito de fabricação, deixava minha mãe desesperada, quando eu era criança. Ela só sossegou quando, depois de peregrinar por vários pediatras, alguns cheios de diplomas pendurados nas paredes e a inventar as doenças mais esdrúxulas, ouviu de um deles, doutor de confiança da família: 'minha senhora, fique tranquila, não há o que fazer, é a constituição dele. Não vai engordar nem com bomba de encher bicicleta". Há quem recorra ao dito popular para garantir que sou magro de ruindade. Adoro mesmo me esbaldar com pizzas, pasteis, batatas fritas, sanduíches e coca-cola. Magro era, magro continuo sendo. E foi naquela noite futebolística no estádio do Verdão que descobri de maneira quase trágica que dedo fino e aliança não combinam.
Como de praxe, sentamos perto da Torcida Jovem, bem na curvinha, atrás do chamado gol da ferradura. Bunda no cimento gelado. Cadeirinha e lugar marcado eram luxos que só existiam, ouvia dizer, nos estádios europeus. Besta, tenso, sem tirar os olhos do campo, hipnotizado, tinha a mania de assistir aos jogos brincando com a aliança. Sem dificuldade, aproveitando a largueza, atrito nenhum, arrastava a argolinha matrimonial de ouro pelo anular, subindo e descendo, subindo e descendo, até a pontinha do dedo, em movimentos repetitivos e incessantes. Era natural, mecânico. Instintivo. Jamais passou pela minha cabeça que o pior poderia acontecer.
Numa dessas idas e vindas, aliança vai, aliança vem, bola de lá, bola de cá, cruza na área... gol do Santos! Levantei para comemorar junto com a torcida. Fiquei no grito de GO. O "L" não saiu. Ficou engasgado. Emudeci. Senti as pernas bambas. Não ouvi mais nada.. Fechei a mão direita inteira no anular esquerdo, para confirmar. A aliança não estava lá. Naqueles malabarismos dedais, euforia e festa ao ver a bola estufando as redes bem na minha frente, a danada saiu voando.
Enquanto eu tentava passar em revista e montar bem direitinho o que diria para Elisa - sim, sou um cretino, nem um ano de casado e perdi a aliança, sério, pode acreditar, me desculpe, bobagem, você tem razão, foi no estádio, verdade, na hora do gol, pode perguntar para o meu irmão (e irmão lá é álibi nessas horas?) -, empurrava todos os que estavam perto de mim e dizia 'ninguém mexe, ninguém mexe, ajudem aí, rápido, perdi minha aliança'.
Um clarão se abriu imediatamente em minha volta. Zona de segurança. Solidariedade santástica. Ceninha patética - éramos uns dez de joelhos, rastreando e apalpando cada centímetro quadrado da arquibancada. Sou míope, a iluminação do Palestra era de lascar. Foi no tato mesmo. E na sorte. Agachado, dando batidinhas com as mãos em concha no cimento, como se jogasse bafo, achei a danada. Estava bem na minha frente, um degrau para baixo. Brilhante. Intacta. Formosa. O vôo da aliança tinha sido curto; a aterrissagem, tranquila. Sem traumas. Voltou rapidinho para o dedo. Gritei muito. Os camaradas se levantaram e gritaram junto. Parecia o segundo gol do Santos. Quem estava mais longe fez cara de ponto de interrogação e entendeu nada. Na minha lembrança, tudo isso demorou, vá lá, uns dois minutos.
Sei não. Desconfio que a mandinga de ver os jogos do Santos e da Seleção com o celular agarrado na mão esquerda nasceu naquela noite. Não tem jeito de fazer a aliança dançar. Dá sorte. E agora vocês já sabem de onde vem o nome - Allianz Parque - da nova arena verde. O Parque da Aliança. Justa homenagem.
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quinta-feira, 23 de julho de 2015
FUTEBOL DIVERTIDA MENTE
A animação da Disney/Pixar que faz estrondoso sucesso no cinema, incentivando inteligências e arrebatando sensibilidades de crianças e de adultos, foi exibida em sessão doméstica especial ontem, com as devidas adaptações e em sua versão ludopédica. Porque foi assim que nasci - com uma ilha do futebol que ocupa espaço gigantesco na minha cabeça. Acabou se espalhando por terras improdutivas e ocupou inclusive lugar de várias outras ilhas. Reforma agrária neuronal democrática. Nessas terras férteis de sinapses, um montão das bolinhas das memórias de longo prazo - e, vejam só a coincidência, estamos falando de bolas - estão relacionadas a campeonatos, gols, artilheiros, tabelinhas e partidas inesquecíveis. Quando o jogo finalmente começa na telinha da TV (queria estar na arquibancada, a chuva não deixou), Copa do Brasil, mata-mata, noite fria de quarta-feira, a bagunça começa na zona mista da minha cachola, todos lá, gesticulando de montão, falando sem parar e brigando para ver quem aparece mais e manda nessa sinfonia. A alegria, bela e formosa, confetes e serpentinas, chama logo a atenção e tenta me convencer que 'hoje é barbada, saíremos da Vila classificados'. A tristeza, sábia e prudente, insiste em me obrigar a acessar as caixinhas guardadas de lembranças melancólicas de horrorosas derrotas conhecidas naquele mesmo palco futebolístico. É empurrada de lado pela raiva, chega para lá, ombrada e cotovelada, cutuco na canela, bicuda no tornozelo, aos berros e sem pedir licença, vociferando contra a diretoria que não paga salários e dizendo que é inadmissível que o Santos, com tanta história, tantas glórias, esteja na zona do rebaixamento do Brasileirão. 'Impeachment do Modesto já!', grita, para lá de vermelha, quase explodindo. O medo amigo de todas as horas faz disparar meu coração. E se a gente não ganhar? E se acontecer o pior? Lá vem então a nojinho, plumas e paetês, vestidinho modernoso, requebrando na passarela, desdenhando da competição. Bem, meus amores, quem quer ganhar a Copa do Brasil? Já temos esse troféu. Se perder, disputa a Sul-Americana. Sem dramas. Muito melhor. Torneio internacional, de prestígio. Chacoalho a cabeça. Que confusão. Será que meu amigo imaginário de infância tem algo a dizer, para aliviar a tensão? Ele era bem legal. Claro, jogava bola comigo. Eu era o goleiro, ele batia pênaltis. Depois a gente invertia. Eu ganhava sempre. Era tudo tão mais fácil e divertido. No jogo de verdade, o Santos marcou logo aos três minutos. Gabriel, camisa 100. Sorrisos e comemorações. A alegria não se conteve - eu te disse, eu te disse, eu te disse. Quase mandei desligar a buzina. O time até que jogava bem, surpreendentemente. Marcação pressão, velocidade no ataque, trocas de posições, defesa bem postada. Não demorou muito saiu até o segundo gol. De novo Gabriel, passe de Ricardo Oliveira. A alegria foi às nuvens, única e soberana, apertando todos os botões de euforia do painel de controle da minha mente. Darling, quem é esse timeco que está jogando contra a gente? Bem fraquinho, hein?, exagerou nojinho. Cantou vitória muito antes da hora. Gol do Sport. De falta. Com desvio na barreira. A raiva surtou e correu para empurrar com força as alavancas. Chutou o pau da barraca, espumando e espalhando fumaça por toda a sala cerebral principal. Quem mandou essa besta que estava na barreira virar de costas? O técnico fez o time recuar! Anta, estava tudo sob controle. Agora vamos para os pênaltis. Outra vez. Porcaria de time. Diretoria incompetente. Saio xingando pela sala. Sobra chute para o banquinho, o controle remoto quase voa na parede. Os vizinhos já estão acostumados com a barulheira. É assim toda quarta, domingo também; às vezes, quintas e sábados. Culpa do calendário maluco e mal planejado da Confederação Brasileira de Falcatruas/Fiascos. Relaxa, meu querido, somos um dos únicos times que não sabe o que é segunda divisão, sussurra a nojinho. Medo. Não vamos chegar nem às oitavas? Vai ser uma vergonha, tiração de sarro federal. Tristeza. E pensar que só faz quatro anos estávamos levantando o tri da Libertadores. O que fizeram com meu Santos... Como o cérebro de boleiro destrambelhado em dias de jogo de futebol só pode mesmo ser explicado por psiquiatras de excelência - tripolaridade, tetrapolaridade, múltiplas polaridades simultâneas, sei lá - tudo volta a ficar lindo e maravilhoso no início da segunda etapa. Três a um. Geuvânio. Classificação à vista. A alegria samba, batuca e canta 'nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter'. O diabo é que aí começa a martelar na minha cabeça um personagem que não fazia parte do filme original. A angústia. Esse cronômetro não anda. Juizão, foi falta. Segura a bola no ataque, no ataque. Tira, tira, tira! Quer me matar do coração? Nossa, essa passou raspando a trave. Caraca, o time estava bem, por que substituir e colocar esse morto-vivo em campo? Vixi, olha o tombo que esse jumento levou! Calma, pai, foi escanteio nosso. Cinco minutos de acréscimo?! Ficou louco, meu senhor? Vá à merda. Filhote de Eduardo Cunha! Apitou! Fim! Acabou, ganhamos, estamos classificados. Agora é só festa. Minha cabeça, porém, continua rodando a mil. Algazarra. Zorra. Alegria, nojinho, medo, raiva e tristeza adoraram o jogo. Resolveram engatar mesa-redonda na madrugada, terceiro e quarto tempos, debate-bola, linha de passe, arena, tudo junto e ao mesmo tempo. Estão elétricos. Indomáveis. Quem disse que consigo dormir?
segunda-feira, 15 de junho de 2015
ZITO, CAPITÃO, MEU CAPITÃO
Morreu José Ely de Miranda. Zito. Como dizia meu avô, o capitão do mais fantástico esquadrão de futebol que o mundo já viu atuar. "Filho, vai demorar muito tempo para aparecer outro time como aquele. Se é que vai aparecer", completava. E recitava poeticamente a escalação que também aprendi a declamar. Gilmar, Mauro, Dalmo e Calvet; Zito e Lima; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Com o Santos, foram quinze anos de glórias (1952-1967), 727 jogos, 57 gols. Dez títulos do Paulista, cinco da Taça Brasil, duas Libertadores e dois Mundiais de Clubes. Bicampeão do mundo pela Seleção Brasileira (58 e 62), com direito a gol de cabeça na segunda final. Será que a gente consegue ter a noção do que é fazer gol em decisão de Mundial e sair de campo com a faixa no peito? Quantos são os privilegiados que alcançaram tal feito? Técnico, habilidoso, daqueles volantes clássicos e estilosos que jogam de cabeça erguida (o uniforme todinho branco ficava lindíssimo e impecável nele), aliava a arte dos poucos que têm a prerrogativa de chamar a pelota de "minha querida" à competitividade de quem detestava perder. Distribuía broncas em campo - em partidas mais tensas, contam, distribuía também algumas pernadas. Pedagógicas. Providenciais. Tinha autoridade para gritar com Pelé e com Garrincha. Fazia o Rei e o Mané jogarem. Em campo - e depois fora dele - era conhecido como 'o gerente'. Terminadas as partidas, subia a placa e os esbrufos bruscos e exigentes eram imediatamente substituídos por abraços e palavras de afeto. Quem o conheceu garante: era coração generosíssimo. Depois de pendurar as chuteiras, continuou a prestar serviços inestimáveis ao glorioso alvinegro praiano, clube do coração, atuando nas categorias de base do Santos. Revelou Clodoaldo, Robinho, Diego e Neymar. Tinha cadeira cativa na Vila Belmiro. Não perdia um jogo. Tentem imaginar os impropérios que vociferava de lá, angustiado e desesperado, ao ver em campo tantos boleiros que, na época dele, talvez não fossem aproveitados nem mesmo no quinto quadro do Santos. Quem o conheceu de perto afirma sem pestanejar: era dos mais sonoros corneteiros que o futebol já conheceu. Não recusava um pedido de entrevista. Bom papo, era memória viva dos tempos dourados do nosso futebol, quando por aqui se praticava de verdade arte com os pés. "Um grande camarada", na definição do meu avô. Guardei aqui algumas matérias que saíram entre ontem e hoje, lembrando quem foi "seu Zito", para mostrá-las ao Daniel quando ele chegar da escola. Para dizer "filho, esse craque jogou no nosso time. É um dos grandes do nosso futebol". Não tenho tanta certeza se essa molecada que hoje compete para ver quem tem a chuteira mais chamativa e colorida nos subs 13, 15, 17 da vida, empresários em volta e contratos polpudos de publicidade e direitos de imagens devidamente assinados, sabe dizer quem foi Zito. Garrincha. Djalma. Didi. Bellini. Vavá. Nilton Santos. Será que sabem quem foi Sócrates? Nossa história. Nossos craques. Nossa identidade. Ignorada e esquecida. Vai ver é também por isso que agora sofremos para ganhar de Honduras e do Peru. Prometi não falar dos 7 x 1. Se cuida, capitão, meu capitão. Manda abraços para todos os gigantes boleiros que te receberam de braços abertos para uma fantástica pelada em outras dimensões. Claro que você não vai querer perder esse jogo. Não dá mole para o Mané. Muito obrigado.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
ROLEZINHO NA VILA. PARA VER O GOL DOZE MIL.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), precisa com urgência instalar uma base avançada de pesquisas na cidade de Santos, para estudar o aquecimento global. Porque, se é fato que as temperaturas médias do planeta estão subindo, o epicentro desse fenômeno, não tenho dúvidas, acontece na cidade litorânea que abriga o maior porto da América do Sul, terra natal do Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrade e Silva. Talvez Santos pudesse até servir como ambiente-piloto para experiências que pretendam garantir a preservação da espécie, preparar a humanidade para o que está por vir, nos ensinar o que precisaremos fazer para sobreviver em ambientes semi-infernais, de calor escaldante e implacável. Já passava das sete da noite – e a temperatura ultrapassava facilmente os quarenta graus. O suor escorria, o corpo ficava grudento, a camisa, encharcada. Vento? Nem brisa. Água, sorvete, mais água, rosto e cabeça molhados, outro sorvete, por favor. “Pai, não aguento mais...”. Nem eu. Imaginei por um instante poder virar a chavinha que controla as temperaturas – para uns vinte graus, quem sabe, já seria bem mais civilizado. Bom mesmo seria ter na Vila Belmiro a princesa Elsa, protagonista da animação ‘Frozen, uma aventura congelante’, em cartaz nos cinemas, senhora do frio a mover as mãos em malabarismos dançantes, transformando o estádio num fenomenal e agradabilíssimo castelo de gelo. Você quer brincar na neve? Já que não há H2O em estado sólido, vamos nos esbaldar com líquido mesmo. ‘Moça, por favor, aqui em cima. Mais três copos d’água, bem gelados’. Em campo, torcida brasileira, cortinas abertas para mais um espetáculo, a impressão é que o time do Santos havia estabelecido algum tipo de pacto diabólico com o calor. Quanto mais quente, melhor. Depois da categórica goleada sobre o Corinthians, o ritmo contra o Botafogo no início da partida foi frenético, alucinante. Aos dois minutos, uma estupenda enfiada de bola de Leandrinho, no meio da zaga, a lembrar os melhores dias inspirados da ave ingrata. Geuvânio entrou livre, cortou o goleiro e bateu seco de esquerda, na diagonal, para abrir o placar. Comemorou com duas cambalhotas, saltos mortais. Faltavam só mais três. Aos dez minutos, Cícero desperdiçou pênalti. No finalzinho do primeiro tempo, a conta caiu pela metade quando, em mais um contra-ataque mortal, Gabriel cruzou da esquerda, Arouca mergulhou, mas não alcançou de cabeça, e a redonda sobrou para Geuvânio. Foram dois toques, como manda o manual do bom futebol – um para matar a bola, outro para rolar o balão com açúcar e com afeto para Cícero fulminar e marcar o segundo. Faltavam dois. Intervalo. Os vendedores de água e sorvete continuavam fazendo a festa. Diminuiu o calor? Quem disse? Tomamos o gol logo no início do segundo tempo, quase sem querer, escanteio meio besta, falha de saída de Aranha. Tivemos ali uns dez minutos de certo desarranjo, talvez até que o time novamente percebesse que o calor continuava a castigar e voltasse a fazer girar o motor que empurrava os meninos da Vila. Energia solar acumulada. Funcionou. Um tapa de primeira de Geuvânio – para mim, o melhor em campo -, furada do zagueiro do Botafogo e biquinho de esquerda de Gabriel, no melhor estilo Ronaldo contra a Turquia na Copa de 2002. Três a zero Santos. Um só. Unzinho. Nas arquibancadas, começamos a gritar ‘mais um’. Havia tempo de sobra. E quis o deus dos calores dos infernos que não demorasse muito. Foram só dois toques na bola. Aranha estourou para a frente, a bola veio caindo quase na linha da área do Botafogo. Gabriel não tirou os olhos dela, acompanhou toda a trajetória, ganhou no corpo do zagueiro, esperou a pelota pingar três vezes e emendou de primeira para o fundo das redes. Doze mil gols na história! O time de futebol que mais marcou! Nenhum outro tem essa marca! Foi bonita a festa, pá! Fiquei contente... Nada mais justo que o tento tivesse sido anotado por um dos nossos tantos meninos! Abraços e beijos nos filhos, no sobrinho, no irmão camarada de tantos jogos. “Nós vimos!”. Lembrei na hora do meu avô, que também tanto sofria com o calor do Saara de Santos, mandei um beijo para ele, recebido imediatamente em outras dimensões. Estávamos juntos na mesma Vila em 1988, quando o Tuíco, legítimo representante dos anos das vacas magras, marcou o gol nove mil do Peixe, num empate (1x1) contra a Portuguesa. De volta para o presente. No caldeirão (e nunca o apelido carinhoso fez tanto sentido) da Vila, até o último fio de nossos cabelos estava molhado (e, vamos combinar, cabelos fartos não são mais o meu forte). Experimente pular cinco minutos em Santos, com quarentinha nos termômetros. Definitivamente, não é para os fracos. A torcida gritou “é doze mil”! E ainda deu tempo para, no finalzinho, marcar o quinto e já começar a caminhada em direção aos treze mil – Emerson Palmieri marcou, depois de bela jogada de linda de fundo do estreante Rildo. Placar final – 5 x 1. De novo? Cincomuito. Tenho medo de ficar mal acostumado. Na volta para São Paulo, viemos ouvindo a narração dos gols, comemorando e comentando. Com o ar condicionado ligado no máximo.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
UM BANDEIRINHA ARROMBADO. E A PEDAGOGIA DO FUTEBOL
A noite estava fria para um sábado de outubro, início de primavera, Dia das Crianças. Chegamos cedo ao aconchegante Paulo Machado de Carvalho, o velho Pacaembu, disparado o melhor e mais charmoso dos palcos paulistanos para se ver futebol. Daniel, meu filho, e Leonardo, sobrinho, tinham um compromisso: entrar em campo com os jogadores do Santos, como mascotes.
Sorriso de criança é sempre recompensador, gratificante, faz a gente esquecer as contas do mês, as reuniões improdutivas e estafantes, o trânsito de malucos da cidade, as decisões truculentas do presidente do Supremo Tribunal Federal, as bobagens que a gente lê no face book e até mesmo a má fase vivida pelo time do coração. Os dois pequenos estavam elétricos, andando nas nuvens, risadas deliciosas. Não paravam um minuto, lembrando as peripécias em outros jogos, os sorvetes e salgadinhos ('vou querer de chocolate'; 'eu, de limão') e escolhendo para qual jogador queriam dar a mão. Tudo certo e bem resolvido. "Pai, entrei com o Arouca!", contou Daniel, fã do futebol e das trancinhas do médio-volante. "Tio Chico, eu fui com o Tiago Ribeiro! Ele é nosso artilheiro!", comemorou o Leo. "Foi muito legal. E quando a gente pode ir de novo? Queremos na Vila!", mataram a charada.
Em campo, vimos um jogo fraco, sonolento, irritante e que chegou a ser angustiante nos minutos finais. A cara do Santos de 2013. Para variar, time esparramado em campo, bicões para todos os lados e a sorte de um gol de bola parada (Montillo cobrou falta na cabeça do Everton Costa!) no final do primeiro tempo. No começo da segunda etapa, talvez o único lampejo de criatividade e futebol vistoso, quando Cícero arrancou da defesa, driblou três jogadores da Ponte Preta (um deles com um quase chapéu) e tocou para Montillo, que ainda deu mais um corte antes de fazer o segundo gol.
Quem imaginava que pudesse vir goleada se decepcionou profundamente - o time sumiu em campo, Cicinho foi expulso no final, tomamos um gol besta, quase cedemos o empate. Vimos os últimos cinco minutos da partida em pé, tradicional setor laranja, gritando para o juiz acabar logo com aquele martírio.
Aliás, talvez para evitar cair no sono, xingar juiz e bandeirinhas foi uma de nossas diversões naquela noite - não porque estivessem errando ou prejudicando o Santos, mas para garantir descontração e tentar dar graça a uma partida que não tinha gosto de coisa alguma. Claro que apelamos para xingamentos leves, pueris, por conta das crianças. "Babaca, cretino, você não entende nada de futebol". Leonardo até arriscou um que já tinha gritado em outros jogos, com aplausos da galera: "desgraçado!".
Mas, e Garrincha era um sábio, a gente esqueceu de combinar o repertório permitido com o restante da torcida. Vou guardar o lance eternamente nas minhas memórias de pai. Saia justíssima, lutador no canto do ringue, com a contagem já aberta... Era metade do segundo tempo e, num dos 'lançamentos' (melhor escrever 'bicão') para o ataque, Tiago Ribeiro estava impedido. O auxiliar levantou a bandeira, corretamente. e parou o lance. Imediatamente, ouviu coleção infinita de palavrões e muitos elogios à honra e honestidade da senhora mãe dele. Daniel e Leonardo riram, se empolgaram e começaram a gritar alguns impropérios mais duros e ousados também. Nosso combinado: no campo, alguns palavrões são permitidos. Alguns. Ajudam a desopilar o fígado.
Eis que, na fileira da frente, um torcedor se levanta e grita a plenos pulmões, em direção ao bandeira, exatamente na nossa linha: "SEU ARROMBADO!". Para não deixar dúvidas, repetiu o berro, lentamente, quase sílaba por sílaba, e mais alto ainda. "ARROMBADO!". Daniel riu. Gelei, pressentindo o perigo. A ratoeira estava sendo engatilhada. E foi solta no meu pescoço.
"Pai, o que é arrombado?", Daniel fulminou. Tentando não gaguejar, procurando manter expressão serena, aquela cara de paisagem de 'tudo bem, está tudo sob controle, é só uma pergunta, sem dramas, vamos lá, é dúvida legítima da criança', fingi que tinha lance de perigo em campo, só para ganhar segundos preciosos. De canto de olho, vi meu irmão gargalhando, de costas para os meninos, para não dar na vista.
"Ah, filho, é quando a pessoa está machucada, arrebentada". Foi o que deu para fazer, pensei. É o melhor que posso, nesse momento. Respirei. Apertei os olhos. E fiquei esperando a réplica, algo como "mas o bandeirinha está machucado, pai?", suando frio para já tentar construir uma réplica aceitável. Mas o pequeno calou-se, virou novamente para o campo e continuou a acompanhar o jogo. Será que mandei bem? Acho que ele ficou satisfeito com minha resposta. Ou, sei lá, sabedoria infantil aguçada, sete anos bem vividos, vai ver entendeu foi tudo mesmo. E resolveu me poupar. Valeu, filhão!
Quem foi que disse que o futebol não é educativo?
Sorriso de criança é sempre recompensador, gratificante, faz a gente esquecer as contas do mês, as reuniões improdutivas e estafantes, o trânsito de malucos da cidade, as decisões truculentas do presidente do Supremo Tribunal Federal, as bobagens que a gente lê no face book e até mesmo a má fase vivida pelo time do coração. Os dois pequenos estavam elétricos, andando nas nuvens, risadas deliciosas. Não paravam um minuto, lembrando as peripécias em outros jogos, os sorvetes e salgadinhos ('vou querer de chocolate'; 'eu, de limão') e escolhendo para qual jogador queriam dar a mão. Tudo certo e bem resolvido. "Pai, entrei com o Arouca!", contou Daniel, fã do futebol e das trancinhas do médio-volante. "Tio Chico, eu fui com o Tiago Ribeiro! Ele é nosso artilheiro!", comemorou o Leo. "Foi muito legal. E quando a gente pode ir de novo? Queremos na Vila!", mataram a charada.
Em campo, vimos um jogo fraco, sonolento, irritante e que chegou a ser angustiante nos minutos finais. A cara do Santos de 2013. Para variar, time esparramado em campo, bicões para todos os lados e a sorte de um gol de bola parada (Montillo cobrou falta na cabeça do Everton Costa!) no final do primeiro tempo. No começo da segunda etapa, talvez o único lampejo de criatividade e futebol vistoso, quando Cícero arrancou da defesa, driblou três jogadores da Ponte Preta (um deles com um quase chapéu) e tocou para Montillo, que ainda deu mais um corte antes de fazer o segundo gol.
Quem imaginava que pudesse vir goleada se decepcionou profundamente - o time sumiu em campo, Cicinho foi expulso no final, tomamos um gol besta, quase cedemos o empate. Vimos os últimos cinco minutos da partida em pé, tradicional setor laranja, gritando para o juiz acabar logo com aquele martírio.
Aliás, talvez para evitar cair no sono, xingar juiz e bandeirinhas foi uma de nossas diversões naquela noite - não porque estivessem errando ou prejudicando o Santos, mas para garantir descontração e tentar dar graça a uma partida que não tinha gosto de coisa alguma. Claro que apelamos para xingamentos leves, pueris, por conta das crianças. "Babaca, cretino, você não entende nada de futebol". Leonardo até arriscou um que já tinha gritado em outros jogos, com aplausos da galera: "desgraçado!".
Mas, e Garrincha era um sábio, a gente esqueceu de combinar o repertório permitido com o restante da torcida. Vou guardar o lance eternamente nas minhas memórias de pai. Saia justíssima, lutador no canto do ringue, com a contagem já aberta... Era metade do segundo tempo e, num dos 'lançamentos' (melhor escrever 'bicão') para o ataque, Tiago Ribeiro estava impedido. O auxiliar levantou a bandeira, corretamente. e parou o lance. Imediatamente, ouviu coleção infinita de palavrões e muitos elogios à honra e honestidade da senhora mãe dele. Daniel e Leonardo riram, se empolgaram e começaram a gritar alguns impropérios mais duros e ousados também. Nosso combinado: no campo, alguns palavrões são permitidos. Alguns. Ajudam a desopilar o fígado.
Eis que, na fileira da frente, um torcedor se levanta e grita a plenos pulmões, em direção ao bandeira, exatamente na nossa linha: "SEU ARROMBADO!". Para não deixar dúvidas, repetiu o berro, lentamente, quase sílaba por sílaba, e mais alto ainda. "ARROMBADO!". Daniel riu. Gelei, pressentindo o perigo. A ratoeira estava sendo engatilhada. E foi solta no meu pescoço.
"Pai, o que é arrombado?", Daniel fulminou. Tentando não gaguejar, procurando manter expressão serena, aquela cara de paisagem de 'tudo bem, está tudo sob controle, é só uma pergunta, sem dramas, vamos lá, é dúvida legítima da criança', fingi que tinha lance de perigo em campo, só para ganhar segundos preciosos. De canto de olho, vi meu irmão gargalhando, de costas para os meninos, para não dar na vista.
"Ah, filho, é quando a pessoa está machucada, arrebentada". Foi o que deu para fazer, pensei. É o melhor que posso, nesse momento. Respirei. Apertei os olhos. E fiquei esperando a réplica, algo como "mas o bandeirinha está machucado, pai?", suando frio para já tentar construir uma réplica aceitável. Mas o pequeno calou-se, virou novamente para o campo e continuou a acompanhar o jogo. Será que mandei bem? Acho que ele ficou satisfeito com minha resposta. Ou, sei lá, sabedoria infantil aguçada, sete anos bem vividos, vai ver entendeu foi tudo mesmo. E resolveu me poupar. Valeu, filhão!
Quem foi que disse que o futebol não é educativo?
domingo, 20 de outubro de 2013
(DES) CAMINHOS DE UM TEXTO EM NOITE DE DOMINGO
Já tinha escrito bem umas trinta linhas sobre a polêmica das biografias não autorizadas quando me irritei, rabisquei tudo com raiva (ainda tenho o antiquado costume de escrever primeiro à mão, para depois transportar os garranchos para o computador), fiz uma bolotinha de papel amassado, devidamente arremessado em seguida no cesto dos recicláveis. O texto estava muito chato, nenhuma novidade, ao contrário, era muito mais do mesmo que já havia sido dito e repetido durante a semana. Ainda tentei pedir ajuda aos universitários cadernos especiais dos jornais de domingo, a ver se encontrava alguma inspiração, um "gancho" original, como a gente costuma dizer em linguagem jornalística. Nada. Vai ver o assunto esgotou-se mesmo. Além do mais, para mim a questão é tão cristalina, biografias devem ser livres, sem necessidade de prévia autorização, a consagrar não apenas a máxima da liberdade de expressão e do direito à informação, mas também a premissa que diz que as histórias de pessoas públicas à humanidade pertencem, como patrimônio coletivo indispensável à construção de nossa memória e identidade. Sobre essas trajetórias, é possível construir diferentes narrativas, versões que se entrelaçam e se questionam, num exercício honesto e equilibrado de busca da melhor versão possível dos fatos. Parece-me tão óbvio. É? Não sinto entusiasmo algum em investir outras tantas linhas nesse discurso. Melhor tomar banho. Quem sabe aparece alguma ideia melhor, mais palpitante, como diria uma de minhas primeiras chefes e editoras, ainda no início dos anos 1990, quando eu era um jovem primeiro anista do curso de Jornalismo, a perseguir pautas relevantes e arriscando textos que pudessem ser encantadores (assim eu achava) para os professores. Ela me deixava experimentar, corrigia, sugeria, com toda a paciência do mundo. Era delicada até para dizer "meu querido, aqui não dá, está piegas demais, literatice sem sentido. Vai lá e melhora". Pois neste domingo me lembrei dela e lá fui eu então para o chuveiro tentar esquecer as biografias e deixar vir à tona outro assunto. Pode parecer tremenda sandice, só coincidência, mas o banho tem sido momento mágico para desencalacrar pautas que se anunciavam ameaçadoras, incógnitas indecifráveis, ajudando a água morna ainda a jogar luz sobre trechos de textos com os quais já tinha brigado com todas as minhas forças, sem ficar satisfeito com o que tinha escrito. Um artigo sobre a atual fase do Santos? Não quero. Chato. Monótono. Repetitivo. A cara do time. É, o time anda numa draga danada, jogos sofríveis, de dar nervoso - ou sono. Está certo, ganhou ontem. Não fez mais que a obrigação. Foi goleada? Só fez a lição de casa. Quero só mais cinco pontos e vou finalmente respirar aliviado, Claudinei. Duas vitórias. Exatamente. Outro estalo. É, pode ser, resenhas dos últimos livros que li. Pensei em dois, em especial. "A maçã envenenada", do Michel Laub, que rompe com a narrativa linear, investe nos períodos longos e tem como pano de fundo um show do Nirvana para mais uma vez combinar angústias individuais com tragédias coletivas e contar uma história de liberdades e prisões da alma, incluindo suicídios. "Reprodução", do Bernardo Carvalho, faz uso de fluxos de consciência e das repetições de falas e raciocínios de um jovem estudante de chinês e de uma delegada descontrolada para criticar duramente a sociedade da avalanche de informações, consumidas rapidamente em blogs e colunas de ditos "formadores de opinião", numa tendência que só faz reforçar a carência de conhecimento mais aprofundado e a fragilidade dos argumentos como marcas do nosso tempo, a "era das redes". Concordo, são dois bons livros, mas não foram arrebatadores, ao menos para mim. Não quero escrever sobre eles. O drible, do Sergio Rodrigues? Esse me tocou profundamente, na alma! E não só porque fala de futebol. Mas ainda não terminei. Não, ainda não. Estou no finalzinho. Decidi corrigir provas, à espera da tão desejada inspiração para um texto. E, sei lá, num estalo, lembrei que, depois de quase quinze anos atuando como professor universitário, posso dizer modestamente que ajudei a formar 24 turmas de jornalistas. Não sei se isso é bom ou ruim. Noutro relâmpago de memória, e comecei a gargalhar sozinho, me veio à cabeça uma situação recentemente vivida na universidade. Estava no posto bancário, pilha de boletos na mão, aproveitando o intervalo da aula para resolver as pendências financeiras do mês. Comecei a ouvir as vozes de duas meninas, uma mais aguda, outra mais grave. "Meu, aquela vadia agora resolveu me ignorar. Não respondeu as mensagens que mandei no final de semana. Sabe o que é isso? Fal-ta de pê-nis! Fal-ta de pênis!", cantava uma delas, a mais estridente, no ritmo do "é cam-pe-ão" entoado nas arquibancadas. Não pude resistir. Abandonei o caixinha e virei para ver quem eram aquelas figuras. Ficaram vermelhas. "É... então, vamos ao Hopi Hari no final de semana?", emendou sem conseguir remendar a de voz mais forte. Engraçadíssimo, mas também não rende mais do que isso. É a história quem nos diz o tamanho que quer ter. Não adianta forçar. Enquanto ainda ria com as lembranças da cena, Daniel vociferava na frente da televisão, contra o vídeo-game. "Ah, meu deus, assim não dá. Esse cara é muito ruim. Grosso! Não acerta um chute. É uma calamidade! E esse juiz é um roubão, não marca uma falta. Torce para o outro time! Só pode". Comecei a rir de novo. E nada de aparecer um texto, curtinho que fosse. Fui acompanhar a rodada do Brasileirão. Futebol sempre alimenta boas histórias. Vi a vitória do São Paulo, o empate entre Internacional e Grêmio, o empate entre Vasco e Botafogo. Nenhuma novidade. Nenhum texto. Já é final de noite de domingo, primeiro dia do horário de verão, por quem não tenho apreço algum. Vai tocar a maldita musiquinha do Fantástico. Não quero mais escrever.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
EM 2011, NEYMAR JÁ ERA PARÇA DO BARÇA
Sei não. Parece que a caixa de Pandora apenas começou a ser aberta. Se for escancarada e revirada até o fundinho, muitas outras maldades provavelmente saltarão de lá, a nos atormentar e assombrar. Que me desculpem os amigos santistas que já conseguiram virar a página e seguir em frente, mas ainda não consegui digerir o fato de um desses monstrinhos maldosos ter nos anunciado que a transferência de Neymar foi efetivamente sacramentada no final de 2011, por coincidência na mesma época em que o contrato com o Santos foi renovado (o tal do "eu fico") - e apenas um mês antes do Mundial de Clubes, quando enfrentamos o Barcelona na final.
Não estou me referindo a ilações ou a boatos que vez ou outra são plantados e reverberados midiaticamente, a contemplar interesses de grupos políticos internos, na disputa pelo comando do clube. A afirmação foi feita pelo vice-presidente do time catalão, Josep Maria Bartolomeu, em entrevista coletiva realizada logo após o desfile do craque brasileiro pelo Camp Nou: em novembro de 2011, o Barça pagou a Neymar pai a bagatela de dez milhões de euros (cerca de 28 milhões de reais), amarrando o negócio e firmando o compromisso da futura transferência, afastando assim a concorrência de outras verdadeiras fortunas que já estavam sendo oferecidas a Neymar por gigantes europeus como Real Madrid e Chelsea.
Não me perguntem qual é a expressão jurídica que deve ser aqui usada, não tenho esse conhecimento técnico, mas a realidade é que, ali, naquele momento, um pré-acordo ficou combinado, um pré-acordo foi firmado. Eram os tais dez milhões de euros que já apareciam em balanços financeiros e prestações de contas do Barcelona, como informavam os jornais espanhóis, mas que Neymares (pai e filho) e a diretoria do Santos faziam questão de ignorar, assobiando dissimuladamente, fazendo cara de paisagem e respondendo, sempre que questionados ou provocados, com convicção, que "não havia acordo algum". Havia. Em novembro de 2011, Neymar Jr. foi alçado à condição de parça do Barça.
Agora que a informação tornou-se pública, na voz de fonte oficial e fidedigna, e reforçada no site do clube catalão, o staff de Neymar calou-se. Num primeiro momento, o silêncio reinou também nas salas da Vila Belmiro. O alvinegro, no entanto, ficou numa saia justíssima: se tivesse conhecimento do acordo fechado entre o menino gênio e o Barça em 2011, ainda que fosse um "acerto entre cavalheiros" (belo eufemismo, que os dez milhões de euros parecem desmentir), o clube brasileiro teria de imediatamente ter acionado a FIFA, para processar os espanhóis por tentativa de aliciamento do atleta, já que pré-contratos só podem ser pactuados seis meses antes do encerramento de qualquer outro compromisso. No limite, juridicamente, o negócio poderia até ser desfeito.
O Santos pressentiu o perigo, entendeu a armadilha. Acusou o golpe. À coluna Painel FC da Folha de São Paulo (5 de junho), o vice-presidente do clube, Odílio Rodrigues, disse que "nunca tivemos conhecimento deste acerto. Nunca nos foi dito nada pelo Neymar, pelo pai do Neymar ou pelo Barcelona. Não pretendemos fazer nada. Negociamos o Neymar com o Barcelona porque achamos que foi vantajoso para o Santos. E havia o desejo do Neymar em jogar no time".
Então ficamos assim: o Barça revela que o negócio já estava garantido e parcialmente pago em 2011, o staff de Neymar não nega e a diretoria do Santos afirma que, apesar de "só saber agora", pretende fazer nada e deixar por isso mesmo (a direção catalã garante que recebeu anuência do Santos). Estou, insisto, trabalhando com declarações públicas de fontes oficiais, não com suposições ou boatos. Se foi assim, posso imediatamente inferir que, desde o final de 2011, Neymar já era jogador do Barcelona, temporariamente e generosamente emprestado ao Santos, e que partiria para a Espanha, mediante pagamento do restante da bolada, no exato momento em que o clube catalão avaliasse que seria mais adequado e conveniente para seus projetos e interesses.
Foi exatamente assim que aconteceu - enquanto a hegemonia de Messi e companhia no continente europeu foi capaz de se impor, o Barça achou por bem deixar Neymar no Santos, talvez para não criar atritos, imaginando que não deveria mexer no que estava dando certo. Esse tempo pode ter servido ainda tanto para projetar mundialmente a imagem de Neymar quanto para massagear o ego de Messi, que sabidamente não gosta de dividir espaços com outras estrelas ou sombras. Quando o caldo entornou, o fim de um ciclo se anunciou, a torcida começou a cobrar e a renovação tornou-se urgente, a plaquinha subiu, o Barcelona estalou os dedos, fez cumprir o que já estava sacramentado e levou o craque brasileiro.
Não estou questionando o desempenho de Neymar em campo, com a camisa do Santos. Reconheço que o camisa 11 sempre honrou o manto sagrado. Mas tudo isso que acaba de vir oficialmente à tona nos leva a sugerir, por fim, que o tal do "projeto inovador e revolucionário no futebol brasileiro para manter por aqui nossos craques e mostrar definitivamente que não somos mais apenas exportadores de talentos" pode não ter passado de conversinha para inglês ver, uma farsa, jogo de cena. No palco, os atores principais estavam todos acertados, combinados. Era só questão de tempo. Na plateia, nós, torcedores tolos e bobos da corte, comemoramos e aplaudimos iludidos um enredo de teatro do absurdo.
sábado, 25 de maio de 2013
O SANTOS DEVERIA TER SEGURADO NEYMAR
Não faço parte de comitês gestores. Não sou executivo, tampouco empresário. Não uso terno e gravata. Não tenho canetas para assinar (ou romper) contratos. Mas algumas contas elementares eu (acho) consigo fazer. E o fato incontestável é que, nas últimas quase cinco temporadas do nosso futebol, Neymar da Silva Santos Jr. garantiu ao Santos e aos santistas abundância de ganhos tangíveis e intangíveis - expressão que os marqueteiros e os diretores de clube adoram usar.
O menino-craque nos brindou com seis títulos - o tri Paulista, a Copa do Brasil, a Recopa Sul Americana e a Libertadores. Ficamos ainda com um vice mundial, fazendo reaparecer nossa marca e nosso escudo no cenário internacional. Voltamos a ser protagonistas, a receber holofotes e a ser novamente observados e respeitados pelo mundo da bola. Durante dois anos (2010-11), fomos o esquadrão a ser batido por aqui. Resgatamos o orgulho de ver em campo alguém que atuava por prazer, com ousadia e alegria, a honrar a cada instante e em todas as partidas a camisa do clube. Um craque. Foi o melhor que vi jogar, artista dono de repertório infinito de dribles e de toques refinados e desconcertantes, raciocínios rapidíssimos, lances de bailarino ou malabarista. Vestindo o manto sagrado, Neymar ganhou o Prêmio Puskas de gol mais bonito de 2011, oferecido pela FIFA. Foi finalista da mesma disputa no ano passado. Foi o único boleiro das Américas a ser incluído, por dois anos seguidos, na lista dos melhores do mundo da entidade máxima do futebol.
O moleque prodígio disputou 229 partidas pelo Santos. Marcou 138 gols. É o maior artilheiro do time depois da era Pelé, o décimo terceiro da história da nossa fantástica fábrica de gols. Arrematou prêmios atrás de prêmios - revelação, destaque, artilheiro, melhor do certame. Ganhou duas Bolas de Prata, outra de Ouro, um título de hors concours ("fora da disputa"), honraria até então exclusivamente oferecida ao Rei do Futebol, em eleições organizadas pela ESPN/Revista Placar. Por onde passou, Neymar mobilizou multidões de fãs, encheu os estádios de torcedores e de admiradores. Se o Brasil tem alguma chance de levantar o sexto título de Copa do Mundo no ano que vem, essa mínima possibilidade passa diretamente pelos pés do menino santista.
Os números são oficiais, conhecidos publicamente. Em 2009, o Santos tinha 19 mil sócios - atualmente, somos 65 mil, dos quais quase 52 mil pagam rigorosamente em dia suas mensalidades (importante fonte de arrecadação). Somos o quarto clube do Brasil com maior número de sócios adimplentes, atrás apenas de Internacional (82 mil), Grêmio (72 mil) e Corinthians (muito pouco na nossa frente, com 53 mil). No Estado, nadamos de braçada e superamos por gigantescas margens Palmeiras (24 mil) e São Paulo (20 mil). Muito por conta de Neymar (ou será que foi graças à bela barba do Laor?), a torcida do Santos cresceu e rejuvenesceu - conheço vários pais que, torcedores de outros clubes, se desesperam vendo seus filhos abraçando o alvinegro da Vila.
Em patrocínios de camisa, arrecadamos seis milhões de reais em 2009 - e 35 milhões de reais em 2012. O faturamento total do clube saltou de 70 milhões para 198 milhões, no mesmo período citado. Em 2011, nossos cofres receberam 25 milhões de reais com cotas de transmissão de TV, valor que triplicou e alcançou 75 milhões no ano passado - estamos no mesmíssimo patamar de São Paulo, Palmeiras e Vasco e abaixo apenas e tão somente de Corinthians e Flamengo, que tiveram cotas de 84 milhões cada. A marca Santos está hoje avaliada, segundo consultorias da área, em 380 milhões de reais (é a sexta do ranking nacional).
Manter Neymar foi mesmo um péssimo negócio para o Santos. Só tivemos prejuízos. Era preciso mesmo vendê-lo - ou melhor, quase doá-lo. Ação entre amigos. Da negociação (algo próximo de 75 milhões de reais), o Santos deve abocanhar cerca de 40 milhões. Lucas foi vendido, no ano passado, por 108 milhões de reais. O Chelsea pagou 78 milhões por Oscar. O Zenit da Rússia investiu 150 milhões de reais no passe de Hulk. Para ter Thiago Silva, o Paris Saint Germain pagou 125 milhões ao Milan. A diretoria do Santos fez uma baita negócio. Eu é que não sei fazer contas. O Barcelona agradece.
Ironias deixadas de lado, e como já vimos, havia várias razões de "mercado" para lutar com muito mais afinco e carinho pela permanência de Neymar no Santos até o final do contrato, em julho de 2014 (que, aliás, quando foi renovado, em novembro de 2011, foi cantado em verso e prosa pelo mandatário santista como uma revolução no nosso futebol, a iniciar novos tempos, que deixariam para trás a 'colônia exportadora de craques'. Pois bem, esse documento inovador foi literalmente rasgado e jogado na lata do lixo). Se o camisa 11 tivesse ficado, o departamento de marketing do Santos que se virasse e mostrasse competência para viabilizar novas estratégias e ações para transformar o último ano dele por aqui em novos retornos financeiros para o clube. Será que os nossos doutos marqueteiros sabem que Neymar é o atleta com maior potencial de mercado do planeta? O jogador que o Santos 'vendeu' por 40 milhões de reais.
Para além dos euros, dos dólares, dos reais, confesso, tinha mais um motivo para defender Neymar no Santos até a Copa do Mundo. Era uma razão quase filosófica. Penso que teria sido fundamental mostrar, ainda que pontualmente, uma vezinha só, que o futebol ainda guarda resquícios de um esporte apaixonante, para além das ditaduras do negócio, e que os clubes entendem que, mais do que os ativos bancários, é preciso preservar e privilegiar os craques que dão espetáculo, que tratam a bola com carinho.
Claro, podem começar a jogar pedras, é a visão de um romântico, ingênuo, anacrônico e sonhador. Por um tempo, tolamente, imaginei que a diretoria do Santos seria minha parceira nessa utopia. Fui traído. Era preciso fechar as contas, fazer dinheiro (da forma mais simplista e imediatista). O mundo é mesmo dos cifrões. E foi assim que Neymar se foi.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
A MATEMÁTICA BURRA DE PH GANSO
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| Fonte - Blog do Milton Neves Crédito imagem - @CowboySl |
Não vou aqui nem de longe enveredar pela discussão a respeito do "beijo no escudo" ou sobre "as juras eternas de amor e fidelidade, na saúde ou na doença, a este ou àquele clube". Vou tratar de negócios, de mercado, de imagens, de patrocínios, de empresários, de contratos, de potencial de venda/consumo. Foi nisso tudo, afinal, em que se transformou o cantado em verso e prosa "futebol moderno". Nesse campo onde o esporte também acontece, verde não pela grama, mas pela grana que movimenta, os jogadores são protagonistas, assessorados por novos oráculos, os empresários. E, se essas são as variáveis a considerar, lamento, mas os fatos me obrigam a concluir que Paulo Henrique Ganso e seu staff de empresários (a DIS, do grupo Sonda) parecem não saber fazer contas elementares.
A novela da renovação do contrato do meia com o Santos - e a tal da "valorização", tão cobrada pelo atleta - começou no início do segundo semestre de 2010, quando o time paulista já tinha se sagrado campeão paulista e da Copa do Brasil. Mas Ganso machucou seriamente o joelho numa partida contra o Grêmio, em agosto daquele ano, pelo Brasileirão. Ficaria quase sete meses afastado (o retorno aconteceu em 12 de março de 2011, contra o Botafogo de Ribeirão Preto, na Vila Belmiro, pelo Campeonato Paulista). As conversas esfriaram.
O Santos retomou as investidas, com força, em abril de 2011, quando Ganso voltou a disputar a Taça Libertadores da América, mais especificamente às vésperas da partida decisiva contra o Cerro Porteño, no Paraguai, ainda pela fase de grupos (dia 14 de abril). Especula-se que, naquela ocasião, o Santos fez oferta de cerca de 500 mil reais mensais ao camisa 10, mais porcentagem significativa nos direitos de imagem/contratos publicitários, além de equipe profissional para assessorar a carreira do jogador, como acontece atualmente com Neymar.
Admitamos que a oferta tenha sido de "apenas" 400 mil reais/mês (salário próximo ao de Elano, oferta bastante razoável para a época). Coloquemos ainda como hipótese que, ao aceitar, Ganso receberia esse valor já a partir de maio do ano passado. Àquela altura, a remuneração dele era (e ainda é) de 160 mil reais/mês - a diferença entre o "velho e o novo" alcançaria assim 240 mil reais/mês. Mas Ganso fez birrinha e biquinho, foi tolinho, blefou (ameaçou até jogar no Corinthians, lembram?), vazou ofertas que nunca chegaram ao Santos (Milan, Internazionale...) e recusou a oferta santista, o que voltou a fazer no final do ano passado, antes e depois do Mundial de Clubes.
Resultado inteligentíssimo - entre maio de 2011 e julho de 2012 (período de quinze meses), Ganso deixou de arrecadar uma quantia bastante modesta: três milhões e seiscentos mil reais (240 mil vezes 15 meses). E, notem, estou somando apenas salários "normais" (sem férias, décimo terceiro...), e não estou contando também contratos publicitários possíveis. Já ouvi comentaristas da rádio Estadão/ESPN citarem especialistas e consultores no negócio futebol para garantir que, nesse período, Ganso deixou de embolsar cinco milhões de reais. Só.
Pois bem. Recentemente, relações aparentemente restabelecidas, o Santos entusiasmou-se a novamente procurar o jogador e apresentou a ele nova proposta de renovação. Notem bem, é importante: o Santos está amparado e resguardado, pois o atleta tem contrato até 2015, com multa rescisória fixada em 50 milhões de euros, para o mercado internacional. Ou seja, o Santos, em tese, sequer precisaria reajustar os valores pagos ao meia. Ainda assim, colocou à mesa, ao final da Libertadores/2012, uma oferta de 400 mil reais/mês (salário), mais 70% de participação nos contratos publicitários fechados a partir de então. Ganso disse... "NÃO"! Biquinho e birrinha, de novo.
O caldo entornou. Porque o Santos, que não tem coisa alguma a perder, disse "então, dane-se. Chega". A DIS veio a público para anunciar que "PH Ganso não mais vestiria a camisa do Santos". Com o mercado internacional ressabiado, para dizer o mínimo (o futebol de Ganso anda bem pequenino, as lesões e cirurgias são frequentes, há boatos de mais uma operação no joelho depois da Olimpíada...), a crônica esportiva anuncia que o atleta deve ter como destino o Internacional de Porto Alegre, que parece estar se especializando em receber jogadores que arrumam encrencas em outros clubes e saem deles pelas portas dos fundos.
De acordo com informação divulgada pelo Painel FC, do jornal Folha de São Paulo, nesta quarta-feira, 11 de julho, o clube gaúcho ofereceu (e Ganso já teria aceitado) salário de 350 mil reais/mês, mais 50% de publicidade - menos do que foi portanto oferecido pelo Santos. Vamos considerar hipoteticamente que Ganso assine - e cumpra - um contrato até dezembro de 2015, a contar de agosto de 2012. Seriam cinco meses neste ano e outros 36 meses (três anos) de vencimentos, totalizando 41 meses. A diferença entre o Santos e o Inter é de 50 mil/mês, pró alvinegro. Jogando no clube gaúcho, Ganso perderia mais dois milhões de reais, para arredondar (41 vezes 50 mil). Somando esse valor ao que já foi perdido no ano que passou (os três milhões e seiscentos mil já citados), chegamos a cinco milhões e 600 mil reais (repito, sem medo de ser chato: estou sendo conservador e contando só os salários).
Imaginemos em seguida que Ganso resolva cumprir apenas um ano (é o que vem sendo ventilado) do contrato com o Inter (agosto 2012-agosto 2013), usando o clube colorado como trampolim para a Europa, aproveitando-se da janela de transferências do meio do ano que vem. Acumularia, em doze meses, prejuízo de mais 600 mil reais (50 mil vezes doze).
Para resumir: no cenário mais otimista, Ganso contabilizaria um baque de pelo menos quatro milhões e 200 mil reais; na situação mais periclitante, a perda seria de cinco milhões e 600 mil. São valores que resolveriam - e com folga - a vida de muita gente, não? Eu daria pulos de alegria se pudesse ganhar qualquer uma dessas boladas. Para efeito de comparação, estamos falando de algo em torno de nove mil ou de seis mil e setecentos salários-mínimos, a depender do cenário considerado.
Que prejuízo, que bobagem, hein, Ganso? Quanta tolice! E, se futebol é negócio sério, profissionalizado, penso que chegou a hora, PH, de você demitir e mandar às favas os caras que "administram" sua carreira. Porque eles são simplesmente muito ruins com os números.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
UM SANTISTA TRISTE, MAS ENCANTADO COM O FUTEBOL DO BARCELONA
A adrenalina voltou aos níveis normais, vou tentar escrever com distanciamento e equilíbrio. Estou espantando com a quantidade de sábios que apareceram nos programas esportivos e nas redes sociais, desde ontem, apresentando as fórmulas mágicas para derrotar o time do Barcelona. Já teve até portal na internet que cravou em manchete que "Muricy destruiu o sonho santista cultivado durante seis meses". É fácil? Deixo aqui então uma sugestão: escrevam para o José Mourinho, técnico do Real Madri (nem vou falar do Santos, que "amarelou", tem um time "fraco", foi "humilhado"), e contem para ele com detalhes os tais segredos do sucesso. E vamos aguardar o resultado do próximo Real x Barça.
A realidade é a seguinte, meus caros: sofri, perdi, chorei. Vi o pequeno Daniel também chorar e não querer ver o segundo tempo, para não sofrer mais ainda. Passei o domingo de ressaca. Foi triste e doído. Claro que eu queria conquistar a terceira estrela, desejava muito que o Santos fosse tricampeão do mundo. Mas seria um título falso, mais uma das injustiças do nosso futebol. Porque reconheço a infinita superioridade e sou cada vez mais apaixonado pelo futebol jogado pelo Barcelona. É mágico, dá gosto de ver. É, disparado, o melhor time que já vi jogar. E escrevo isso com tranquilidade, porque desde antes da partida, a quem me perguntava, eu respondia que só uma hecatombe seria capaz de fazer o Santos ganhar do Barça.
Porque a equipe da rebelde Catalunha manda às favas as regras, os esquemas, os medos, a burocracia, o "guardar posições" e simplesmente adora jogar futebol, com o coração, como se jogasse uma pelada de fundo de quintal, um futebol que o Brasil inventou e com o qual encantou o mundo, mas que deixou esquecido em algum lugar do passado, em nome da "eficiência", dos empresários, dos "proxetos" dos "profexores", dos desmandos de uma CBF que faz a seleção jogar em um pântano no Gabão apenas para dar conta de compromissos políticos e de patrocinadores, de uma emissora de TV que não se cansa de repetir que "o melhor futebol do mundo está aqui".
Não está. O Barça prova que não está. E vira as costas para o tal do "futebol de resultados", aquele que diz que "um a zero é goleada", para jogar com absoluta alegria, ímpeto, vontade, paixão, precisão, combinando arte com eficiência, escancarando ao mundo que é possível jogar bonito, no ataque, e ser campeão. Nos últimos anos, foram 13 títulos, em 16 disputados. Fantástico. Mestre Telê Santana adoraria treinar esse time. Seria justíssimo.
O Muricy errou ao escalar três zagueiros? O Santos respeitou demais o Barcelona, resvalou de certa forma num sentimento de medo? Talvez. Sinceramente, não penso que esteve em campo o "complexo de vira-lata", como escreveria Nelson Rodrigues. Os santistas simplesmente ficaram aparvalhados, atônitos diante de tanta competência, acuados com a fúria catalã, sem saber como reagir. O Santos fez no domingo o que pôde. E, ainda bem, decidiu não partir para os pontapés e a violência. Foi uma postura que fez jus a um 2011 glorioso, que merece também ser comemorado. Mas nada disso tem importância ou faria mudar o vencedor da partida de ontem. Estamos discutindo alegorias e adereços, procurando culpados (uma característica da nossa crônica esportiva que nós, torcedores, repetimos e reverberamos), quando de fato devemos valorizar e exaltar a genialidade do time adversário.
O principal? Um time que marca sob pressão, o campo inteiro, durante toda a partida (que fez os laterais santistas jogarem na bandeirinha de escanteio do campo de defesa); que privilegia a posse de bola (ninguém tira a redonda deles); que toca de pé em pé, sem errar passes ou rifar a bola (até o goleiro encontra espaços e se recusa a dar bicões); que tem jogadores que mudam de posição como se mudassem de uniforme, com habilidade e tranquilidade impressionantes (no quarto gol, Daniel Alves jogou como ponta esquerda); que, quanto mais marca gols, mais quer marcar; que tem um gênio chamado Messi e vários outros craques (a matada de bola de chaleira de Xavi no primeiro gol é impressionante) - e que sabe como usá-los (coisa que a seleção da Argentina ainda não aprendeu); que joga sempre em direção ao gol, sem firulas; e que faz de tudo isso uma filosofia de jogo, pois já nas categorias de base os jogadores são formados para dar conta desse jogo. O técnico Guardiola, em sua entrevista coletiva, depois da partida, deu a senha: nove dos onze que terminaram a final contra o Santos foram formados nos centros de treinamento da própria equipe catalã. Custo zero, "zero euros", como ressaltou Guardiola.
Hoje, qualquer time brasileiro seria goleado pelo Barça. Com facilidade. A seleção brasileira do Mano perderia para o Barça. Sem impor muita resistência. O resto é papo furado. Ontem, o Barcelona me fez acordar. E mostrou que estamos, aqui no Brasil, resignados e contentes com muito pouco. Quem dera os times brasileiros estivessem mesmo dispostos a aprender com o Barcelona. "Meus pais e avós me diziam que o Brasil jogava assim", fulminou Guardiola, também na coletiva. Certeiro. Mas minha sensação é que essa disposição para mirar o exemplo do Barça ficará só discurso, será apenas fogo de palha, mais uma vez. Infelizmente.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
SOY LOCO POR TRI, AMÉRICA

Eu cresci usando o manto branco sagrado com duas estrelas douradas estampadas, altura do peito, lado esquerdo, acima do escudo. Tinha (e tenho) muito orgulho delas. Mas desdenhavam, faziam chacotas e diziam que aquilo não valia, porque eu nem era nascido quando as conquistas que justificavam aquelas duas estrelas tinham sido alcançadas.
Eu cresci torcendo entusiasmadamente para o esquadrão que teve a honra de ser a equipe a abrigar o maior camisa 10 da história do futebol, o melhor de todos os tempos, o gênio incomparável, o Rei do futebol, o craque com mais de mil gols. Mas diziam que também não valia, porque eu jamais tinha visto uma jogada, um gol sequer de Pelé (a não ser, claro, em jogos gravados, arquivos de emissoras). Me chamavam de "viúva do Pelé".
Cresci - e foram longos os anos difíceis de vacas magras - torcendo sem arredar pé e apaixonadamente por um clube que encantou o mundo, que mostrou como o futebol jogado como arte pode ser também eficiente e vencedor, que parou guerras, que deixou boquiabertos brasileiros, italianos, espanhóis, sul-africanos, argelinos, costa-riquenhos, argentinos, uruguaios... Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Era fácil recitar a escalação. Mas diziam que, mais uma vez, não valia, porque eu também não tinha visto estes craques desfilarem em campo. Enfim, era como se valessem apenas o imediato e o aqui e agora, como se só a História que a gente viu tivesse valor e pudesse ser contada e valorizada.
Mas foi então que eu comecei a ver. Vi a primeira geração de Meninos da Vila, com Pita e Juari. Vi Serginho Chulapa bater na bola de canela e carimbar o Paulistão de 1984. Vi Giovani fazer tremer o Pacaembu e o título brasileiro de 1995 bater na trave - ou melhor, no apito do árbitro Marcio Rezende de Freitas. Vi Robinho chamar a responsabilidade e pedalar sete vezes diante de um Rogério atônito e aparvalhado. Foi quando veio o título brasileiro de 2002 - e as faixas das torcidas, até aquele dia de ponta cabeça, foram viradas.
Fui até São José do Rio Preto, interior paulista, mais de 400 quilômetros de estrada, mais de nove horas de viagem (ida e volta) para ver de perto a oitava taça de Campeonato Brasileiro ser erguida. Vi o esquadrão alvinegro praiano abocanhar mais quatro títulos paulistas - aliás, em uma dessas finais, a de 2010, vi um Ganso já genial, craque maduro que sabe o que faz, dedo em riste, a bater no peito e dizer para o técnico: "não vou sair", garantindo a conquista de um time valente, que jogava com dois a menos. Vi o primeiro gol de um (mais ainda) franzino Neymar, que nem cabelo moicano ainda usava, no Pacaembu, num 3 x 0 contra o Mogi Mirim, em março de 2009. Vi um inesquecível 9 x 1 contra o Ituano. Vi o maestro Ganso reger a orquestra afinada e pródiga em goleadas na Copa do Brasil do ano passado, quando também contamos com a volta de Robinho, fundamental naquela conquista. Vi o primeiro gol do Arouca com a camisa do Peixe, contra o Corinthians, na última final paulista.
E ontem eu vi.... o Pacaembu lotado em festa, um mar branco a cantar, o bandeirão a ocupar toda a arquibancada, a esperança tensa e ao mesmo tempo confiante na chegada da terceira estrela. Vi Rafael, sempre seguro, quase não precisar pegar na bola. Vi Danilo fazer um golaço, um tapa de canhota com curva na redonda, a morrer no pé da trave direita do goleiro uruguaio. Vi Edu Dracena e Durval ganharem todas de cabeça e anularem o tímido ataque de camisas amarelas e pretas (liga não, xerife Durval, o gol contra foi mero acaso). Vi Leo, santista de alma e de coração, ser aplaudido de pé. Vi Adriano, limitado tecnicamente, correr o campo todo, um guerreiro incansável na marcação. Vi Arouca, peito estufado, bola grudada no pé, romper sem dó nem medo a defesa adversária, passar por cinco uruguaios e abrir caminho para a vitória, como que a dizer: "faz, Neymar". Vi Elano, ainda longe de sua melhor forma, quase fazer um golaço de falta. Vi Zé Love perder gols, como de costume, mas participar talvez da melhor partida dele no ano. Vi o Ganso, genial, absoluto dono do meio de campo, cadenciar a partida, com toques sutis e repentinos, assistências milimétricas a encontrar companheiros sempre mais bem colocados - e aquele passe de letra no primeiro gol é realmente coisa para poucos iluminados boleiros. Vi Neymar decidir mais uma vez, com um gol de chapa, batida rápida, curta e seca na bola, que saiu traiçoeira e manhosa, fez ligeira curva e foi morrer no fundo da rede. Neymar foi feito provavelmente em forma de outro mundo, onde deve se jogar um futebol de outra dimensão. Não há como pará-lo. Ontem, eu vi um time jogando coletivamente, de forma inteligente, com raça, de forma coesa, sem cair na catimba uruguaia, combinando técnica e vontade imensa de ganhar.
Amigos secadores, eu vi o Rei Pelé correr pelo gramado de mãos dadas com o mago e vencedor Muricy Ramalho, um obstinado campeão (quem foi mesmo que disse que ele era ruim de mata-mata?). E vi finalmente a Taça Libertadores da América ser levantada pelo capitão Edu Dracena. Vou ver em breve essa taça no Memorial das Conquistas. Vou ver o Mundial de clubes, no final do ano (dezembro, Japão). E outra Libertadores, no ano mágico do centenário (2012). Santástico!
Carrego agora três estrelas no peito. E posso, com muito orgulho e com muito amor, falar com detalhes sobre a História de cada uma delas, de todas elas, as não vistas - e a que vi ser alcançada. Todas merecem respeito. Admiração. Reverência. São parte de um passado e de um presente só de glórias.
Porque nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter.
Soy loco por tri, América.
sábado, 16 de abril de 2011
A NOVELA PH GANSO EM SETE LIÇÕES
Virou uma novela, com requintes de um disse-que-disse bem ao gosto de uma certa parcela da crônica esportiva brasileira (grifo proposital, para escapar de generalizações injustas), o possível rompimento (ou não, como diria Caetano Veloso) do contrato que o craque Paulo Henrique Ganso tem com o Santos Futebol Clube. O desavisado que não acompanha futebol ficaria perdidinho da silva se de repente decidisse se informar sobre o caso e buscasse então notícias publicadas a respeito do jogador santista no último mês: Ganso já vestiu as camisas do Milan, da Internazionale de Milão e do Corinthians. Mas continua mesmo atuando pelo alvinegro praiano. Desse enredo confuso e estranho, consigo extrair sete lições, a saber:
Primeira lição - O clube de origem merece respeito
Jogador de futebol não é escravo. Tem o direito de escolher por qual clube deseja atuar, avaliando as condições de trabalho que lhe são oferecidas, como qualquer outro profissional. Trata-se de livre arbítrio. Cumprindo a legislação em vigor, as determinações fixadas em contrato e respeitados os compromissos estabelecidos por tal documento (assinado pelo atleta, não custa lembrar), pode trocar de time quando bem entender. O que se espera, no entanto, eticamente falando, é que o jogador tenha maturidade para encaminhar essa negociação de ruptura de maneira equilibrada e transparente, com lisura. E, se de fato estiver se encontrando com dirigentes de outras agremiações na calada da noite, sem que o Santos saiba de tais encontros e sem que participe diretamente das negociações (como aliás exige o estatuto da FIFA), para depois negar diante das câmeras e dos microfones que essas conversas nas catacumbas tenham sido encaminhadas, Paulo Henrique Ganso pode sim ter seu comportamento, para além dos gramados, fortemente questionado e duramente criticado. Jogadores, invariavelmente e com razão, cobram dos clubes que representam que sejam tratados com respeito e dignidade. Devem oferecer a contrapartida, mesmo nos momentos mais tensos e enrolados. O que vale para um precisa valer também para o outro lado. É via de mão dupla.
Segunda lição - Em campo, o craque tem sido exemplo
Se é possível criticar Ganso por aquilo que supostamente estaria negociando com outras equipes, a conduta do craque em campo, dentro das quatro linhas, tem sido até aqui irreparável, digna de aplausos. O jogo contra o Cerro Portenho do Paraguai, pela Copa Libertadores, foi a demonstração máxima desse profissionalismo. Ganso assumiu a responsabilidade de liderar a equipe que estava desfalcada, deu passes preciosos, cansou de colocar companheiros na cara do gol e foi um dos responsáveis pela vitória importantíssima. Foi com toda a justiça que o técnico Muricy Ramalho elogiou a participação do craque na partida. Justo reconhecer que já vinha sendo assim desde o jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto, quando retornou aos gramados. Não procedem, na minha leitura, os gritos que às vezes têm ecoado das arquibancadas e repercutido nas redes sociais acusando Ganso de mercenário. Em campo, repito, não tem sido assim. O atleta vem honrando o sagrado manto santista. O que ainda falta é um pouco de ritmo de jogo, natural para quem ficou sete meses sem atuar. Nesse aspecto, vale como referência para outros companheiros.
Terceira lição - Que diferença faz um técnico!
Diante das idas e vindas do folhetim, Muricy Ramalho mostra que técnico ainda é peça estratégica e mais do que relevante em uma equipe de futebol. O treinador conseguiu isolar Ganso das pressões e reforçou ao jogador que, noves fora e transações à parte, é preciso treinar e jogar bola, enquanto o barco estiver ancorado em porto santista. Foi isso o que Ganso preocupou-se em fazer em Assunção, quando muitos corneteiros diziam que ele pouco se importaria com a disputa, pois uma eventual derrota do Santos aceleraria a ida do craque para o Corinthians, com quem já estaria apalavrado. Melhor: Muricy montou um esquema de jogo que favoreceu a genialidade de Ganso - ou seja, longe de queimar o jogador, tratou de aproveitar o que ele tem de melhor. O "se" não faz história, mas o enredo poderia hoje ser outro se Muricy tivesse chegado ao Santos antes. Tomara que ele consiga usar sua experiência e liderança para chamar Ganso à realidade e convencê-lo do que ainda tem a conquistar (em todos os sentidos, inclusive financeiramente) se decidir permanecer no Santos. Ainda dá tempo.
Quarta lição - rivalidades clubísticas não podem assumir ares de trairagem
Caso as especulações se confirmem (prefiro tratar dessa maneira) e se Ganso for mesmo jogar no Corinthians, terá sido deplorável e lamentável a atitude da direção da equipe de Parque São Jorge, ao aliciar o jogador, à revelia da diretoria do Santos (prática que, reforço, é condenada pela FIFA). Pior: em público, o mandatário corinthiano só faz negar a eventual negociação e, de acordo com o presidente santista, Luis Álvaro Ribeiro, teria inclusive se preocupado em entrar em contato com a cúpula da equipe praiana para negar boatos e garantir que em hipótese alguma agiria de forma desleal e anti-ética. Chegou a chamar o Santos de "co-irmão". Se (sempre no condicional) Ganso desembarcar no Parque São Jorge apenas para concretizar o "clube de aluguel" e aguardar a janela de transferências do final do ano, será possível inferir que palavras corinthianas empenhadas valem quase nada e que as várias faces da conveniência e da dissimulação ditam as regras de conduta e comportamento por lá. Pode parecer antigo, ingênuo, romântico, "futebol é negócio", mas ainda sou de um tempo em que promessas - verbais inclusive - eram cumpridas. Tapetes puxados devem ser repelidos. Acirram ânimos dos torcedores, sempre passionais; deixam orgulhos tocados e feridas que demoram a cicatrizar, encaminhando projetos de vingança e de futuras disputas. Desnecessário.
Quinta lição - forças não tão ocultas assim querem prejudicar o Santos
Foi Antero Greco, respeitado (com muita justiça) comentarista da ESPN Brasil e colunista do jornal O Estado de São Paulo, quem escreveu no twitter, em 12 de abril: "Não tenho rabo preso com ninguém e, graças a Deus, posso falar o que quero. Nessa história do Ganso, tem sacanagem contra o Santos. Fato." Não é segredo para ninguém que a DIS, braço futebolístico do grupo Sonda, detentora de 45% do passe do Ganso e responsável ainda por gerenciar a carreira do atleta, ficou ressentida com as mudanças promovidas no clube pelo presidente Luis Álvaro, principalmente em relação à divisão sobre porcentagens dos direitos de jogadores e à participação nas categorias de base do Santos. Há inclusive sérias disputas judiciais entre as partes. E ao que parece a DIS está usando Ganso para dar o troco no clube, tentando criar todas as condições para tornar insustentável a permanência do craque na Vila Belmiro. Dirá então que o clube não soube valorizar o atleta, que o camisa 10 está sendo hostilizado pela torcida e que deseja respirar outros ares. Vai fazer do jogador o santo e do clube, o vilão. Está de olho no negócio, nos milhões (de euros ou de reais) em questão. O experiente Elano declarou recentemente: "Ganso está sendo mal assessorado". Já é mais do que tempo de a legislação esportiva repensar tudo isso e se adaptar aos novos tempos. A Lei Pelé foi fantástica ao acabar com o passe e com a servidão. Mas fez um mal danado ao futebol ao dar brecha para o surgimento da figura do empresário - os novos senhores feudais do esporte, que controlam exércitos de jogadores.
Sexta lição - Há uma guerra política interna. E a atual direção do Santos também erra.
2011 é ano eleitoral no Santos. A oposição, que deseja ardentemente retomar o comando do clube, não mede esforços para alcançar tal objetivo. O ex-presidente da agremiação tem aproveitado toda essa situação para tentar faturar politicamente e enfraquecer a atual administração. Já deu diversas declarações públicas afirmando que o patrimônio do Santos não está sendo bem cuidado. E, embora seja louvável o esforço feito para resgatar, modernizar e moralizar o clube (não há termos de comparação com projetos anteriores), precisa ser dito também que o presidente Luis Alvaro e sua diretoria escorregaram e não foram felizes ao congelar as negociações para renovação de contrato com Ganso, depois da contusão do craque. Deram munição para a DIS. Pisaram novamente na bola ao tentar fazer com que o jogador assinasse novo compromisso na concentração, às vésperas da partida contra o Colo Colo do Chile. Ficou parecendo pressão - e voltou a elevar a temperatura de uma disputa que vinha arrefecendo. Deram outra vez discurso para a DIS. Por fim, é preciso democraticamente debater e questionar a decisão da diretoria de também dividir direitos de jogadores com grupos de amigos. Permanecem pouco transparentes, ao menos para mim, as parcerias envolvendo o Santos e a Terceira Estrela Investimentos (TEISA), ligada à Guia, um grupo de empresários próximos do mandatário santista e que participa da aquisição de atletas (Neymar é o caso mais gritante. Não entendi as contas divulgadas pela diretoria). Para ser diferente, é preciso fazer diferente. Ser transparente. E explicar. Sem tergiversar. Não estariam sendo fomentadas novas relações duvidosas e futuras disputas envolvendo investidores e clube, outros "casos Ganso?".
Sétima lição - Jornalismo não pode abrir mão de apuração
Infelizmente, o que se nota é que parcela representativa do jornalismo esportivo brasileiro parece se deliciar com a prática da boataria, em detrimento da velha e boa apuração. Polêmicas vazias envolvendo rivalidades entre clubes ajudam a vender jornais - mas prestam desserviço aos leitores. Talvez Ganso esteja mesmo negociando sua ida para o Corinthians. É uma hipótese, que precisa ser devidamente sustentada. Não nego - mas não boto a mão no fogo. Até porque até aqui ele só fez negar essa possibilidade. E olha que os urubus estão tentando com todas as forças arrancar essa declaração do jogador. Claro, dirão os iluminados, ele não seria tolo ou ingênuo de confirmar. Faz sentido, certamente. Não sou bobo. O que não se pode aceitar é que esse "não dizer" seja imediatamente substituído por especulações, boatarias, disse-que-disse, declarações secretas, declarações bombásticas, pirotecnias, desmentidos e balões de ensaio. Mesmo para oferecer o off (informação em que a fonte não é identificada) é preciso apurar, checar, confrontar, buscar segurança. Bob Woodward e Carl Bernstein, ícones do jornalismo investigativo e responsáveis pelo caso Watergate, teriam muito a ensinar a alguns de nossos afoitos repórteres (insisto: não é justo generalizar. Há gente séria fazendo jornalismo esportivo). Ganso pode ir para o Milan? Sim. Para a Inter? Sim. Para o Corinthians? Sim. Pode resolver ficar no Santos? Sim. No limite, tudo vale. Espalha-se a confusão e abre-se o leque de alternativas - para que, a partir do "tudo pode ser", o veículo possa ao final faturar, qualquer que seja o resultado da disputa. Se um dos clubes italianos sair vencedor, o discurso será "avisamos e levantamos essa lebre"; se o destino for o Parque São Jorge, comemorarão: "o furo foi nosso". Por fim, se nada mudar e o Santos renovar com o jogador, escreverão que "foi uma reviravolta inesperada de última hora". E seguirão em frente. Até o próximo folhetim.
terça-feira, 22 de março de 2011
FICA, GANSO!
O jogo assumia contornos dramáticos. Já bem perto do final, a placa sobe e indica mais uma substituição, a última permitida: deve sair o camisa 10. Bem na minha frente, quase na linha da grande área, perto da arquibancada verde do Pacaembu, expressão indignada, o craque olha para o treinador no banco de reservas e, com os dois dedos indicadores em riste, faz incisivo e repetido sinal de negativo. O camisa 10 não sai. Em grande medida, foi ele o responsável por garantir ao Santos o título paulista de 2010, contra o Santo André. E o que muitos enxergaram como um ato de rebeldia e insubordinação, como quebra de hierarquia a ser punida, eu classifico como momento máximo de lucidez e de maturidade, merecedor de elogios.
Paulo Henrique Ganso não é mais promessa. É jóia rara, craque, daqueles que enxerga outro jogo, invisível aos olhos dos simples mortais e dos boleiros comuns. Inteligente, clássico, andar sempre de cabeça erguida, drible curto, rapidez de raciocínio, procura o jogo, chama a responsabilidade, acelera a bola quando é preciso, cadencia a partida quando necessário - e num piscar de olhos e micro-fração de segundo é capaz de um lançamento mortal ou de uma refinada enfiada de bola nas costas do zagueiro, a colocar o ataque em condição privilegiada para marcar. Salvo tempestades e tragédias de última hora, será o dono da camisa 10 da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Sem concorrência. Ponto final.
Mas Ganso é também ainda um jovem, com muita vontade de desfilar seu futebol pelos gramados europeus. Justo, legítimo. A Europa traz glamour, transforma craques em astros midiáticos e celebridades, em pop stars planetários, faz fortunas - e, sugere-se, amplifica tremendamente as chances de se alcançar o posto de melhor do mundo. Ganso naturalmente sonha com tudo isso. Está no seu direito. Manifestou hoje esse desejo, de forma explícita, em reunião com a diretoria do Santos. Melhor que tenha sido assim, de forma honesta.
A diretoria do clube alvinegro, em uma novela que já se arrasta há alguns meses (pelo menos desde que Paulo Henrique machucou gravemente o joelho, em partida contra o Grêmio, em agosto do ano passado, tendo de passar por cirurgia e ficando sete meses longe dos gramados), fez mais uma tentativa para oferecer ao jogador um plano de carreira e aumento salarial, com propósito de renovar o contrato do atleta, colocando-o no mesmo patamar das estrelas da equipe, Neymar e Elano.
Depois de muitas idas e vindas, divergências incontornáveis sobre direitos de imagem, a última proposta colocada à mesa aumentava o salário de Ganso dos atuais R$ 130 mil mensais para cerca de R$ 400 mil. O jogador recusou, mais uma vez. Quer apenas e tão somente a redução da multa de rescisão prevista pelo atual contrato, de 50 milhões de euros para 35 milhões de euros, o que facilitaria imensamente sua saída para um clube europeu.
Esse número não deve ter sido tirado da cartola - desde o final do ano passado, os empresários que gerenciam a carreira de Ganso (estes sim de olhos bem gordos na polpuda parte que lhes caberia em uma provável negociação, já que têm 45% dos direitos econômicos do atleta) mantêm contatos permanentes com pelos menos dois times italianos, Milan e Internazionale, que, arrisco dizer, já devem ter deixado escapar a disposição para pagar no máximo e por coincidência... 35 milhões de euros. A conta fecha.
Mas por que afinal de contas o Santos deveria aceitar essa redução? A situação do clube é confortável - o atual contrato de Ganso vale até 2015, com a multa de 50 milhões de euros. O clube é detentor de 45% do passe. Em eventual transação pelo valor máximo, ganharia 22,5 milhões de euros; se a multa for diminuída, contemplando a pedida de Ganso (dono dos outros 10% do passe), o clube alcançaria pouco menos de 16 milhões de euros.
De acordo com a legislação em vigor, o clube não é dono e não pode prender o atleta. Corretíssimo. Avanço inquestionável da Lei Pelé, que colocou fim à relação de servidão e à escravidão no mundo do futebol. Mas, ironia, empurrou os jogadores para os colos dos empresários, figuras muito mais preocupadas com as comissões, as porcentagens nas vendas, os cifrões e contas bancárias bem abastecidas do que em de fato pensar estrategicamente as carreiras dos atletas que representam, sempre a atormentar e tumultuar o cotidiano dos clubes e a anunciar mundos e fundos às jovens promessas.
E o que se espera de Ganso? Que aja com o profissionalismo e a maturidade que até aqui marcaram sua trajetória. Que continue sendo o ídolo merecedor de toda a admiração, reverência, respeito e gratidão da torcida santista. Que não entre no jogo de chantagens promovido por empresários. Que não tumultue o ambiente do clube. Que não crie grupos e panelas no time. E que coloque brevemente um ponto final nessa novela.
Se decidir ficar no Santos, que aceite o aumento salarial que está sendo oferecido pela diretoria, capaz de reconhecer a importância e a grandeza do jogador. E que entenda que o clube deve ser protegido dos aventureiros de plantão por uma multa rescisória elevada, que seja coerente inclusive com os vencimentos pagos ao atleta.
De outra forma, concretizado mesmo o desejo de ir para a Europa, que o faça de forma serena, correta e legal, sem pressões ou bravatas. Basta aguardar a próxima janela de transferências para o exterior, no meio do ano, e acertar com o clube interessado o depósito integral da multa estipulada pelo atual contrato. Estaria assim liberado para atuar pelo novo clube. Perfeito. Justo. Sem traumas.
Enquanto isso não acontecer, que mantenha a grandeza de uma estrela e atue com responsabilidade e profissionalismo, cumprindo o contrato e participando com vontade e entrega dos treinos, das viagens, das partidas, dos campeonatos e de toda a rotina que envolve qualquer atleta com vínculo empregatício com o Santos Futebol Clube.
Porque, se é ótimo e civilizado que nenhum clube seja mais proprietário ou dono de qualquer jogador, é também necessário lembrar que há regras e contratos assinados, palavras empenhadas - por meio de documentos registrados. Que devem ser cumpridos, sem birras ou manhas, e com profissionalismo.
Pensa bem, Ganso. Fica, Ganso!
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