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domingo, 20 de outubro de 2013
(DES) CAMINHOS DE UM TEXTO EM NOITE DE DOMINGO
Já tinha escrito bem umas trinta linhas sobre a polêmica das biografias não autorizadas quando me irritei, rabisquei tudo com raiva (ainda tenho o antiquado costume de escrever primeiro à mão, para depois transportar os garranchos para o computador), fiz uma bolotinha de papel amassado, devidamente arremessado em seguida no cesto dos recicláveis. O texto estava muito chato, nenhuma novidade, ao contrário, era muito mais do mesmo que já havia sido dito e repetido durante a semana. Ainda tentei pedir ajuda aos universitários cadernos especiais dos jornais de domingo, a ver se encontrava alguma inspiração, um "gancho" original, como a gente costuma dizer em linguagem jornalística. Nada. Vai ver o assunto esgotou-se mesmo. Além do mais, para mim a questão é tão cristalina, biografias devem ser livres, sem necessidade de prévia autorização, a consagrar não apenas a máxima da liberdade de expressão e do direito à informação, mas também a premissa que diz que as histórias de pessoas públicas à humanidade pertencem, como patrimônio coletivo indispensável à construção de nossa memória e identidade. Sobre essas trajetórias, é possível construir diferentes narrativas, versões que se entrelaçam e se questionam, num exercício honesto e equilibrado de busca da melhor versão possível dos fatos. Parece-me tão óbvio. É? Não sinto entusiasmo algum em investir outras tantas linhas nesse discurso. Melhor tomar banho. Quem sabe aparece alguma ideia melhor, mais palpitante, como diria uma de minhas primeiras chefes e editoras, ainda no início dos anos 1990, quando eu era um jovem primeiro anista do curso de Jornalismo, a perseguir pautas relevantes e arriscando textos que pudessem ser encantadores (assim eu achava) para os professores. Ela me deixava experimentar, corrigia, sugeria, com toda a paciência do mundo. Era delicada até para dizer "meu querido, aqui não dá, está piegas demais, literatice sem sentido. Vai lá e melhora". Pois neste domingo me lembrei dela e lá fui eu então para o chuveiro tentar esquecer as biografias e deixar vir à tona outro assunto. Pode parecer tremenda sandice, só coincidência, mas o banho tem sido momento mágico para desencalacrar pautas que se anunciavam ameaçadoras, incógnitas indecifráveis, ajudando a água morna ainda a jogar luz sobre trechos de textos com os quais já tinha brigado com todas as minhas forças, sem ficar satisfeito com o que tinha escrito. Um artigo sobre a atual fase do Santos? Não quero. Chato. Monótono. Repetitivo. A cara do time. É, o time anda numa draga danada, jogos sofríveis, de dar nervoso - ou sono. Está certo, ganhou ontem. Não fez mais que a obrigação. Foi goleada? Só fez a lição de casa. Quero só mais cinco pontos e vou finalmente respirar aliviado, Claudinei. Duas vitórias. Exatamente. Outro estalo. É, pode ser, resenhas dos últimos livros que li. Pensei em dois, em especial. "A maçã envenenada", do Michel Laub, que rompe com a narrativa linear, investe nos períodos longos e tem como pano de fundo um show do Nirvana para mais uma vez combinar angústias individuais com tragédias coletivas e contar uma história de liberdades e prisões da alma, incluindo suicídios. "Reprodução", do Bernardo Carvalho, faz uso de fluxos de consciência e das repetições de falas e raciocínios de um jovem estudante de chinês e de uma delegada descontrolada para criticar duramente a sociedade da avalanche de informações, consumidas rapidamente em blogs e colunas de ditos "formadores de opinião", numa tendência que só faz reforçar a carência de conhecimento mais aprofundado e a fragilidade dos argumentos como marcas do nosso tempo, a "era das redes". Concordo, são dois bons livros, mas não foram arrebatadores, ao menos para mim. Não quero escrever sobre eles. O drible, do Sergio Rodrigues? Esse me tocou profundamente, na alma! E não só porque fala de futebol. Mas ainda não terminei. Não, ainda não. Estou no finalzinho. Decidi corrigir provas, à espera da tão desejada inspiração para um texto. E, sei lá, num estalo, lembrei que, depois de quase quinze anos atuando como professor universitário, posso dizer modestamente que ajudei a formar 24 turmas de jornalistas. Não sei se isso é bom ou ruim. Noutro relâmpago de memória, e comecei a gargalhar sozinho, me veio à cabeça uma situação recentemente vivida na universidade. Estava no posto bancário, pilha de boletos na mão, aproveitando o intervalo da aula para resolver as pendências financeiras do mês. Comecei a ouvir as vozes de duas meninas, uma mais aguda, outra mais grave. "Meu, aquela vadia agora resolveu me ignorar. Não respondeu as mensagens que mandei no final de semana. Sabe o que é isso? Fal-ta de pê-nis! Fal-ta de pênis!", cantava uma delas, a mais estridente, no ritmo do "é cam-pe-ão" entoado nas arquibancadas. Não pude resistir. Abandonei o caixinha e virei para ver quem eram aquelas figuras. Ficaram vermelhas. "É... então, vamos ao Hopi Hari no final de semana?", emendou sem conseguir remendar a de voz mais forte. Engraçadíssimo, mas também não rende mais do que isso. É a história quem nos diz o tamanho que quer ter. Não adianta forçar. Enquanto ainda ria com as lembranças da cena, Daniel vociferava na frente da televisão, contra o vídeo-game. "Ah, meu deus, assim não dá. Esse cara é muito ruim. Grosso! Não acerta um chute. É uma calamidade! E esse juiz é um roubão, não marca uma falta. Torce para o outro time! Só pode". Comecei a rir de novo. E nada de aparecer um texto, curtinho que fosse. Fui acompanhar a rodada do Brasileirão. Futebol sempre alimenta boas histórias. Vi a vitória do São Paulo, o empate entre Internacional e Grêmio, o empate entre Vasco e Botafogo. Nenhuma novidade. Nenhum texto. Já é final de noite de domingo, primeiro dia do horário de verão, por quem não tenho apreço algum. Vai tocar a maldita musiquinha do Fantástico. Não quero mais escrever.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A INACEITÁVEL TENTATIVA DE PROIBIR A PUBLICAÇÃO DE BIOGRAFIAS
O movimento dos músicos que de forma autoritária tenta proibir a livre publicação de biografias pretende evidentemente cercear a liberdade de expressão e ter sob fino controle as narrativas que serão construídas sobre eles. Desejam ardentemente transformar a História, fascinante porque rica em versões e contradições, em via de mão única, impositiva, verdade absoluta e inquestionável, um exercício de chapabranquismo oficialesco, a derramar elogios sobre tais celebridades, como se fossem sujeitos supremos, perfeitos e infalíveis. Se for dessa maneira, uma história só de "coisas boas" (sempre nas avaliações deles, claro), vão adorar ver suas biografias publicadas. Não seria exercício jornalístico, mas estratégia de marketing. E, sim, a assessoria de Chico Buarque, quem te viu, quem te vê, confirmou à Folha de São Paulo que ele faz parte do time da truculência, acreditem.
Tenho cá comigo, no entanto, que esse bloqueio ultrapassa essa esfera da discussão do "a quem pertence a história" para assumir ares ainda mais nefastos de "quanto custa essa história" - e, se as editoras pagarem bem aos cantores potencialmente biografados, talvez e quem sabe eles possam muito generosamente mudar de posição e, num átimo de respeito pelo interesse público, conceder imediata autorização para que suas vidas sejam contadas. Fazem valer a máxima do "pagando bem, por que não?".
Na Folha de hoje, diz o sambista Wilson das Neves que "tudo o que se usa, paga", para completar: "Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. Quem faz a revisão, a capa, não é remunerado? E o assunto do produto, não?". E fulmina: "É até bom um dinheiro que entra na conta. Só estou esperando a minha vez".
Não vou nem me alongar no mérito de discussão mais profunda, a escrachada mercantilização de vidas e trajetórias humanas que são públicas, histórias que, por direito, pertencem à humanidade. Para além dessa dimensão, o discurso do sambista mistura alhos com bugalhos para propositalmente confundir, numa torpe tentativa de seduzir e conquistar adeptos que, em sociedade cada vez mais pautada pela força de grana que ergue e destrói coisas belas (lembra, Caetano?), só pensam na bufunfa, nos bolsos cheios, no valor de troca, e não no valor de uso, para resgatar expressões marxistas.
Vamos lá: quem faz a capa, quem diagrama, quem faz a revisão, quem fotografa e quem apura, pesquisa e escreve o texto de uma biografia está evidentemente sendo remunerado por trabalhos concretamente desenvolvidos. Numa sociedade capitalista, parece-me que a troca da força e capacidade de produção (braçal e intelectual) por remuneração justa e digna, ao menos em tese (chama-se salário, genericamente), é a única maneira de garantir sobrevivência. Agora, a dúvida: qual é o trabalho desenvolvido pelo possível biografado, a merecer remuneração? Qual o tempo socialmente gasto por ele diretamente nessa produção da obra? A história já está lá, é a vida dele, já aconteceu. Será apenas narrada e tornada pública. E quem vai correr para costurar as informações é exatamente o biógrafo. São pressupostos e ações completamente diferentes.
Percebam como esse raciocínio é reacionário e perigosíssimo: todos os dias, nas diferentes redações de jornais, emissoras de TV e de rádio e nos portais, pauteiros pautam, diagramadores diagramam, repórteres entrevistam e escrevem, editores editam. Trabalham todos com histórias que não são exatamente as deles, mas as dos outros. E são todos remunerados por todas essas distintas atividades. A seguir o raciocínio estapafúrdio de gente como Wilson das Neves (que não é voz isolada), todas as fontes entrevistadas para todas as matérias, nas mais diferentes editorias (Política, Economia, Internacional, Cultura, Cidades, Esportes), distintos veículos, precisariam ser também remuneradas. Afinal, o assunto do produto não ganha? E estaria assim definitivamente enterrada e inviabilizada a prática jornalística, ao menos aquela que pretende publicizar a melhor versão possível dos fatos, em nome dos direitos de cidadania e do fortalecimento da democracia.
Mais triste é constatar que esse cerco à liberdade de expressão está sendo patrocinado por muitos daqueles que sofreram diretamente as agruras da repressão, nos terríveis anos de chumbo da ditadura militar.
É proibido proibir. Vai passar. E, apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia.
Tenho cá comigo, no entanto, que esse bloqueio ultrapassa essa esfera da discussão do "a quem pertence a história" para assumir ares ainda mais nefastos de "quanto custa essa história" - e, se as editoras pagarem bem aos cantores potencialmente biografados, talvez e quem sabe eles possam muito generosamente mudar de posição e, num átimo de respeito pelo interesse público, conceder imediata autorização para que suas vidas sejam contadas. Fazem valer a máxima do "pagando bem, por que não?".
Na Folha de hoje, diz o sambista Wilson das Neves que "tudo o que se usa, paga", para completar: "Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. Quem faz a revisão, a capa, não é remunerado? E o assunto do produto, não?". E fulmina: "É até bom um dinheiro que entra na conta. Só estou esperando a minha vez".
Não vou nem me alongar no mérito de discussão mais profunda, a escrachada mercantilização de vidas e trajetórias humanas que são públicas, histórias que, por direito, pertencem à humanidade. Para além dessa dimensão, o discurso do sambista mistura alhos com bugalhos para propositalmente confundir, numa torpe tentativa de seduzir e conquistar adeptos que, em sociedade cada vez mais pautada pela força de grana que ergue e destrói coisas belas (lembra, Caetano?), só pensam na bufunfa, nos bolsos cheios, no valor de troca, e não no valor de uso, para resgatar expressões marxistas.
Vamos lá: quem faz a capa, quem diagrama, quem faz a revisão, quem fotografa e quem apura, pesquisa e escreve o texto de uma biografia está evidentemente sendo remunerado por trabalhos concretamente desenvolvidos. Numa sociedade capitalista, parece-me que a troca da força e capacidade de produção (braçal e intelectual) por remuneração justa e digna, ao menos em tese (chama-se salário, genericamente), é a única maneira de garantir sobrevivência. Agora, a dúvida: qual é o trabalho desenvolvido pelo possível biografado, a merecer remuneração? Qual o tempo socialmente gasto por ele diretamente nessa produção da obra? A história já está lá, é a vida dele, já aconteceu. Será apenas narrada e tornada pública. E quem vai correr para costurar as informações é exatamente o biógrafo. São pressupostos e ações completamente diferentes.
Percebam como esse raciocínio é reacionário e perigosíssimo: todos os dias, nas diferentes redações de jornais, emissoras de TV e de rádio e nos portais, pauteiros pautam, diagramadores diagramam, repórteres entrevistam e escrevem, editores editam. Trabalham todos com histórias que não são exatamente as deles, mas as dos outros. E são todos remunerados por todas essas distintas atividades. A seguir o raciocínio estapafúrdio de gente como Wilson das Neves (que não é voz isolada), todas as fontes entrevistadas para todas as matérias, nas mais diferentes editorias (Política, Economia, Internacional, Cultura, Cidades, Esportes), distintos veículos, precisariam ser também remuneradas. Afinal, o assunto do produto não ganha? E estaria assim definitivamente enterrada e inviabilizada a prática jornalística, ao menos aquela que pretende publicizar a melhor versão possível dos fatos, em nome dos direitos de cidadania e do fortalecimento da democracia.
Mais triste é constatar que esse cerco à liberdade de expressão está sendo patrocinado por muitos daqueles que sofreram diretamente as agruras da repressão, nos terríveis anos de chumbo da ditadura militar.
É proibido proibir. Vai passar. E, apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
FERNANDO MORAIS E LIRA NETO CONVERSAM SOBRE BIOGRAFIAS
Foi da revista Carta Capital, em seus "Diálogos Capitais", a preciosa ideia de reunir, na noite da segunda-feira, 15 de julho, na livraria FNAC de Pinheiros, em São Paulo, os escritores Fernando Morais e Lira Neto, para um papo sobre o universo das biografias. E quando o biógrafo de Olga, Assis Chateaubriand, Paulo Coelho e do ex-presidente Lula encontra-se com o biógrafo do marechal Castelo Branco, da Maysa, do padre Cícero e de Getúlio Vargas, o resultado só pode ser uma conversa danada de boa, com a contação de muitos causos e a certeza que poderíamos tranquilamente ouvi-los durante outras tantas horas, a invadir a madrugada (com o perdão do clichê).
Em pouco mais de noventa minutos, tempo de uma partida de futebol, em tabelinhas clássicas e harmônicas, como se fossem Pelé e Coutinho, e afinados como Tom Jobim e Vinicius de Moraes, os escritores revelaram os encantos e os riscos de escrever sobre a vida dos outros. Fizeram questão de ressaltar que biografias são oxigênio que procura renovar a viciada produção jornalística tradicional contemporânea, a perseguir a excelência da grande reportagem, um caminho para escapar da camisa-de-força das pautas burocráticas e dos textos curtos videoclipados. "Acho um contra-senso quando ouço donos de jornais dizendo que os leitores não têm tempo para ler. É como se eu decidisse abrir um restaurante já tendo constatado que os brasileiros não gostam de comer", comparou Lira.
Num percurso rigoroso de compreensão, o mergulho que o biógrafo faz na vida de seu personagem é tão intenso que não raro as relações entre escritor e personagem se confundem, e a vida real é invadida por arroubos de imaginação, quase delírio. Ruy Castro, outro dos principais biógrafos brasileiros, já disse em mais de uma oportunidade que acordou, cantou, dormiu, viajou e teve ciúmes de Carmem Miranda, durante os cinco anos em que escreveu a história da Pequena Notável. Quando estava debruçado sobre "O rei do Brasil", e a previsão era entregar o livro em três anos, mas acabou demorando sete para concluí-lo, Fernando teve não um, mas alguns pesadelos com seu biografado. Era o próprio Chatô, e não o editor da Companhia das Letras, quem cobrava o atraso na produção. O magnata das comunicações sempre aparecia impecavelmente bem vestido, com a cartola na cabeça, num elevador com porta sanfonada. No melhor estilo Chateaubriand, educação mandada às favas, era cortante e bem objetivo: "seu filho da puta, quando é que você vai entregar essa merda?".
Lira também sonhou com a cantora Maysa - que inclusive lhe mandava recados, enquanto ele dormia. "O biógrafo é um cara obsessivo,chato, monotemático. A relação que a gente estabelece com o personagem atrapalha até o casamento. Há um trabalho de possessão, sem ser sobrenatural, mas sem o qual é impossível escrever com fidelidade", revelou. Alertou, no entanto, que é obrigatório, mesmo apaixonado, manter em funcionamento permanente o senso crítico, para não transformar a narrativa apenas num meloso (e não jornalístico) desfile de elogios e exaltação de virtudes. O segredo está na transparência, no equilíbrio e no rigor de pesquisa, a confrontar falas e buscar a melhor versão possível da realidade. "Foi assim que pude perceber que a Maysa mentia nos diários que ela mesma escrevia", completou.
Esse fio da navalha foi enfrentado por Lira também na escrita da biografia de Getúlio Vargas, alguém ainda hoje, mesmo depois de quase 60 anos de sua morte, capaz de mobilizar sentimentos de ódio e de paixão. O biógrafo não queria consagrar nas páginas de seu livro um santo - mas também não desejava demonizar o ex-presidente. Superou a armadilha, conseguiu o que queria? Ele diz que sim - e ampara sua avaliação no fato de a contracapa do segundo volume, que está no forno e deve chegar às livrarias em agosto, trazer textos de recomendação produzidos por duas lideranças nacionais, colocadas em espectros políticos distintos, quando olham para Getúlio: Fernando Henrique Cardoso (que em várias oportunidades de seu mandato afirmou que era hora de afastar o país da herança varguista) e Lula (que fez movimento contrário e procurou não raro associar sua imagem à do carismático líder trabalhista).
Há ocasiões em que o insólito parece ser a confirmação mais efetiva de acerto do biógrafo. Algumas semanas após ter publicado a biografia de Castelo Branco, Lira tomou um susto ao receber uma ligação de um general, uma voz gutural do outro lado da linha. Imaginou que viria encrenca. Mas o interlocutor, todo efusivo, queria parabenizá-lo pelo livro, dizendo que pela primeira vez alguém havia tido a decência de colocar o militar no seu devido lugar de relevância e respeito. "Deu tudo errado", pensou Lira. "Fiquei deprimido". Mais algumas semanas depois, no lançamento da obra em Fortaleza, reencontrou um velho amigo estalinista, dos tempos do movimento estudantil, que fez questão de elogiar Lira publicamente, dizendo ter adorado o livro, que mostrava que Castelo era um grande filho da puta. Bingo! O escritor finalmente aquietou-se - se a esquerda e a direita tinham apreciado a narrativa, era sinal de que o tão desejado equilíbrio havia sido alcançado. "Você faz bom jornalismo exatamente quando busca pluralidade. Esses personagens polêmicos nos dão espaço para explorar contradições que não são apenas deles, mas nossas também".
Fernando não escapou dessas provações - aliás, está justamente vivendo tarefa tão instigante quanto delicada, daqueles riscos que todo biógrafo adoraria correr, já que está escrevendo um pedaço da trajetória política recente do ex-presidente Lula (o período que vai da prisão do sindicalista, em abril de 1980, até o final do segundo mandato, em 2010). "Quem poderia imaginar que aquele pernambucano analfabeto e sem dedo poderia virar presidente da República?", provocou. "Estou me deliciando, embriagado pelo novo projeto", confessou. A encrenca está justamente nas relações muito próximas que o escritor e jornalista sempre manteve com o ex-presidente, amplificadas pelo fato de Fernando ser confesso admirador de Lula. Polêmica à vista.
Equilíbrio sufocado, impossível? Receberemos um livro chapa-branca? A tensão existe, é inerente, mas quem conhece o trabalho idôneo e competente de Fernando sabe que pode ficar sossegado. Ele próprio garante ter duas vantagens em relação a qualquer outro autor que se aventurasse a tocar a proposta: conheceu Lula ainda em São Bernardo do Campo e acompanhou muito de perto boa parte das histórias que serão narradas. "Eu vi, testemunhei. Ninguém vai precisar me contar". Além disso, vangloria-se de não ter qualquer vínculo funcional ou partidário com o ex-presidente. "Quem paga meu livro? Não é o PT, não é o governo, não é uma fundação. É meu editor. Será um trabalho jornalístico", definiu.
Conseguir o aval não foi fácil. Fernando precisou ser paciente e teve de gastar muita saliva. Quando Lula foi eleito, em 2002, fez a primeira investida. A intenção era passar quatro anos acompanhando todos os passos do presidente, anotando cada movimento dele, nos bastidores do governo, para contar a história ao final do mandato. Proposta negada. Com a reeleição, a ideia renasceu. "Nem pensar", devolveu novamente Lula. Em 2010, Fernando arriscou o que imaginou ser cartada de mestre: acessou o jornalista e amigo de longa data Ricardo Kotscho, que havia trabalhado no Planalto e era uma das pessoas mais próximas de Lula, para que o ajudasse e fizesse a ponte. Kotscho rebateu com uma gargalhada: "Fernando, você e mais 400 jornalistas querem essa história. Inclusive eu".
O desejo adormeceu. Surpreso e já sem muitas expectativas, Fernando voltaria a ser procurado por emissários do ex-presidente em julho de 2011, quando o escritor passava férias na França. O celular tocou. "O Lula quer almoçar com você", foi convidado. "Pode ser na minha volta ao Brasil?", sugeriu. Concordaram. Quando estiveram frente a frente, Lula foi objetivo: "não quero uma biografia, prefiro um ângulo específico". Depois de muita conversa, definiram o recorte: do sindicalista ao presidente, período que costura justamente a formação política mais explícita do líder popular. O jornalista conta que já deve ter gravado entrevistas com quase 50 pessoas. Tem viajado com Lula pelos mais diferentes cantos do mundo - apenas numa delas, para a Índia, foram mais de 23 horas de conversa. O editor da obra, no entanto, deve ter saído da Fnac com a pulga atrás da orelha. "Olha, devo confessar que estou meio preocupado. Há uns dez dias, Frei Betto me procurou e me entregou um saco plástico com trinta fitas cassete. São 50 horas de gravações que o Betto e o Chico Buarque fizeram com o Lula, entre 1978 e 80. Estou ouvindo as fitas. São informações absolutamente virgens. É ouro puro. Acho que meu editor vai ter de esperar mais um pouquinho para eu terminar o livro".
Com o ex-presidente, Fernando revive o trauma que já o havia atormentando com Paulo Coelho - biografar personagem vivo. O autor de "Diário de um mago" e "Brida" passou meses sem falar com o próprio biógrafo, depois do lançamento do livro. "Não me atendia", lembrou. Na volta de uma viagem para a Líbia, Fernando passou por Paris. Sem avisar, bateu na porta da casa de Paulo Coelho, que tomou um susto. Refeito, admitiu que não havia erro algum na biografia, mas confessou que tinha ficado chocado ao ler sobre a própria vida. Reclamou apenas que o jornalista não conseguira enxergar o lado espiritual do mago - mas reconheceu ainda que já esperava esse comportamento de um marxista, de um comuna. Fernando disse que bem que tentou, mas notou que seria bem mais complicado quando, certa vez, Paulo Coelho disse ter sido visitado por um anjo. "Você estava na França... o anjo falava francês ou português?", cutucou e questionou o jornalista, com certo sarcasmo apropriado. Ouviu como resposta alguns impropérios. "Mas respeitei profundamente a espiritualidade dele. No livro, não assumo, mas digo que ele me narrou todas as experiências extra-sensoriais, sem deboches ou julgamentos". O estranhamento passou. Os dois voltaram a se falar. Mais leve, Fernando prometeu que nunca mais biografaria gente viva. "Mas, sabem como é, a tentação é grande, a gente acaba tendo recaída". E, afinal, o novo desafio não era de pequena monta. Nunca antes na história desse país.
Nas idas e vindas das estradas das biografias, as penas (ou os arquivos, os computadores) de Fernando e Lira já se cruzaram algumas vezes. O autor de "Getúlio" recordou que foi justamente o escritor de "Chatô" o responsável por despertar nele a paixão pelas histórias dos outros. No início da carreira, quando morava em Fortaleza e já tinha narrado a trajetória do sanitarista Rodolfo Teófilo, Lira foi chamado por Fernando, que pensava num livro sobre a história "B" do Brasil (anônimos e pouco conhecidos), e convidado a atuar na pesquisa sobre Floro Bartolomeu, médico e político que atuou no Nordeste no início do século XX e acabou por tornar-se espécie de alter ego de padre Cícero. A obra acabou não saindo - mas fez despertar em Lira o desejo de biografar o Romão Batista. Com aval de Fernando, pôde publicizar uma história real tão fascinante e desconcertante que, segundo o escritor cearense, talvez nem Gabriel García Márquez, em seus melhores momentos e mesmo sob efeito de alucinógenos, seria capaz de inventar. Com Maysa, viveu o receio de biografar uma mulher, por quem acabou mesmo se apaixonando, literariamente falando. Reportar a história de Getúlio significou a disposição para encarar o mais amado e odiado personagem da história republicana brasileira. "Assim é que vale a pena. Deve ser tedioso biografar personagens que caminham em linha reta, sem conflitos. Com todo o respeito, mas eu não gostaria de escrever sobre Madre Teresa de Calcutá".
Fernando, que já concluiu a apuração para um livro sobre Antônio Carlos Magalhães e não descarta trazer à tona a história de José Dirceu, concordou com a tese da não linearidade e do gosto por personagens contraditórios. Reconheceu que essas opções são sempre marcadas por singularidades, empatias, e citou Tancredo Neves e Juscelino Kubitschek como personalidades que não o encantam, quando pensa em possíveis biografados. "O personagem precisa me tirar o fôlego". Ao final do papo, depois de criticar o culto às celebridades, efêmeras e vazias de conteúdo, e de condenar duramente as restrições legais ao trabalho dos biógrafos, que estão alçando os departamentos jurídicos das editoras a papeis que não deveriam ter, Fernando retomou uma fala do antropólogo Darcy Ribeiro, para quem "o Brasil tem muitas histórias para contar. Falta quem queira contá-las".
quarta-feira, 25 de maio de 2011
JON LEE ANDERSON, REPÓRTER CONTADOR DE HISTÓRIAS
Fotos de Elisa Marconi
Li "Che Guevara, uma biografia", do jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, em 1997, logo depois que a obra foi lançada no Brasil. Chamaram-me muito a atenção - na verdade, um encantamento imediato - a mais do que minuciosa e cuidadosa pesquisa desenvolvida pelo autor a respeito das andanças e dos ensinamentos do guerrilheiro argentino-cubano e a maestria com que costurava e articulava todas as entrevistas feitas e as informações apuradas. É um texto denso, profundo, reflexivo, intenso nos detalhes e nos diálogos, mas absolutamente acessível e agradável, sem grandes malabarismos ou arroubos de sofisticações estilísticas. Uma boa história, bem contada - era disso que se tratava. Vale dizer que o livro ocupa atualmente lugar de destaque em minha estante, na seção "obras Che".
Pois tive o privilégio de participar no último sábado, 21 de maio, de um encontro com Jon Lee (é assim que ele gosta de ser chamado) promovido pela Faculdade Cásper Líbero. Na ocasião, o jornalista contou que a vontade de escrever a biografia do Che nasceu depois de ter acompanhado e reportado, nos anos 1980, nos mais diferentes países do mundo, histórias de movimentos guerrilheiros, de guerras civis e de lutas por liberdades. "Che era sempre uma referência e inspiração, inclusive no Afeganistão, para os muçulmanos fundamentalistas. Não era um ídolo pop estampado em camisetas, mas um herói revolucionário fomentador de sonhos e de utopias", disse. "Era um idealista que achava que a única forma de mudar a sociedade era por meio da luta armada", completou.
O jornalista norte-americano não demorou muito a constatar que a bibliografia específica a respeito do médico guerrilheiro era escassa - além dos diários escritos na Bolívia, apenas alguns discursos compilados. Aquela história incrível ainda estava por ser contada, avaliou. Jon Lee abraçou o desafio. Foram várias as viagens para Cuba, até conquistar a confiança de pessoas que tinham convivido com Che e finalmente poder ter acesso a escritos inéditos do guerrilheiro, que pertenciam à viúva, Aleida. Fundamental foi também a viagem pela América Central feita em companhia de Alberto Granado, grande companheiro do Che, repetindo inclusive percurso que os dois inseparáveis camaradas já tinham feito no início dos anos 1950, quando jovens (e retratada no filme "Diários de Motocicleta", de Walter Salles, 2004).
"Com essas andanças, conheci o Che jovem. Os diários me apresentaram ao pensamento político dele", revelou Jon Lee. Assim nasceu o livro, que consumiu cinco anos de trabalho e intensa dedicação do jornalista - e boa parte das economias dele. "Calculei que levaria dois anos no projeto. Foi mais que o dobro. Renegociei em três oportunidades os direitos com a editora. Houve um momento em que não podia mais pedir dinheiro, não tinha mais crédito. Só não vendi minha alma. Mas foi um privilégio poder me dedicar apenas ao livro".
Desde 1998 atuando como repórter da revista The New Yorker, uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos, Jon Lee de certa forma acabou se especializando na arte de escrever perfis - Gabriel García Márquez, o rei Juan Carlos (Espanha) e o falecido ditador chileno Augusto Pinochet foram alguns dos personagens já retratados pelas letras sempre precisas do jornalista norte-americano. "Acabo me empolgando. Há sempre um editor a dizer chega, é preciso parar e cortar o texto, é revista, não é livro", admitiu. O perfil de Pinochet, disse, foi um dos mais marcantes.
Jon Lee contou que chegou a ouvir o filho do ditador divertir-se e revelar a um amigo, sem constrangimento algum, que havia roubado de um país africano um objeto que era verdadeira relíquia arqueológica, enquanto a esposa dele, com salto alto, corria atrás de um coelho no jardim - e a criada, uniformizada, cuidava dos filhos do casal. Em outro momento da apuração, Jon Lee teve de dirigir o carro da filha de Pinochet (o motorista estava de folga), com destino a uma estância de vinho nas imediações de Santiago, onde encontrariam outras fontes da reportagem. Jon Lee, claro, errou o caminho. A dupla se perdeu. E foi parar na entrada de uma favela chilena. A senhorita Pinochet ficou histérica e começou a berrar: "vamos sair daqui, aqui moram os homossexuais, os terroristas e os ladrões". Jon Lee guardou bem essa sequência: homossexuais, terroristas e ladrões.
Para o jornalista, aqueles dois episódios valeram mais do que muitas entrevistas. Eram representativos das mentalidades daquelas pessoas, das relações que estabeleciam com a sociedade, da superioridade e soberba que procuravam sustentar. "Apenas observei. E comecei a colocar carne em alguém que até então para mim era apenas um fantasma", lembrou.
Já a reportagem mais recente de Jon Lee foi feita na Líbia, entre fevereiro e abril. Segundo ele, foi uma história de luto, a tragédia da guerra civil narrada a partir do assassinato de um jovem rebelde pelas tropas do ditador Muamar Kadafi. O pai buscou o corpo do filho por três semanas, recusando-se a aceitar a morte. Quando encontrou, o corpo estava praticamente intacto, muito bem preservado. Para os muçulmanos, é sinal divino de santidade, de alguém que luta por aquilo que é justo. "É uma história de sacrifícios, dos impactos que a morte pode ter e de como as pessoas buscam explicações espirituais diante de fatos tão cruéis. Assim é a guerra. Essa foi minha história", afirmou.
Antes da Líbia, o jornalista tinha passado sete meses no Sri Lanka, país mergulhado durante quase 30 anos (1983-2009) em uma sangrenta guerra civil. E foi essa a história que Jon Lee foi buscar. Depois de derrotados pelo governo, os militantes rebeldes do grupo "Tigre do Tâmil", que lutavam por um Estado independente, foram dizimados - estima-se as mortes em mais de cem mil. Outros milhares foram encaminhados a campos de concentração. "E ninguém estava escrevendo sobre o que estava acontecendo por lá. Foi muito difícil investigar, andar pelo país. Fiz viagens clandestinas. Foi um de meus trabalhos mais importantes, certamente". A reportagem, com 20 páginas, foi recentemente publicada pela New Yorker.
"Escrevo em média quatro reportagens por ano. Cada uma delas me consome cerca de três meses de produção. Sim, sou muito privilegiado, pois tenho recursos da revista para trabalhar dessa forma e cerca de um milhão de assinantes e leitores que gostam de narrativas de fôlego", admite Jon Lee. Nessas coberturas de guerra, ele revela que uma das armadilhas é escorregar na divisão maniqueísta do mundo entre bons x maus. "Ser vítima não significa necessariamente ser do bem", sentencia. Para ele, a guerra torna todos perversos - e suscita vários dilemas morais.
"É bom ter dúvidas, para que a gente se fiscalize o tempo todo". Jon Lee recusa o rótulo de jornalista-ativista e diz que prefere criar caminhos para que os leitores pensem criticamente, por conta própria. "Prefiro contar histórias que capturem o leitor e o transportem para a narrativa", disse. Para ele, o jornalismo é uma missão pública, que exige forte compromisso social. Se, diante de tantas situações cruéis e trágicas, já pensou em desistir das reportagens? Jon Lee responde: "Sou como as mulheres. Dar à luz é extremamente doloroso. Mas quando terminam de amamentar, elas já começam a pensar em outro filho".
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