quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

2015


"A revolução acontece quando o extraordinário se transforma em cotidiano" (Ernesto Che Guevara).

Um 2015 de muitas revoluções para todos. 


domingo, 21 de dezembro de 2014

COM OU SEM 3D?

Discussões políticas-cinematográficas acaloradas em uma manhã seca, quentíssima e grudenta de um preguiçoso domingo de férias.
- Vamos ver o Hobbit?, convidou Elisa Marconi.
- Sim!, gritamos todos.
Primeiro tema da pauta do dia superado e resolvido por consenso.
- No final da tarde, sugeri.
Proposta também aprovada com quatro votos, sem divergências, questões de ordem ou de encaminhamento.
- 3D ou não?, continuou Elisa, presidindo a mesa.
A bancada rachou. Discursos e argumentos inflamados.
- Sem 3D!, bradou Luiza.
- Com 3D!, defendeu Daniel.
Eu disse que era indiferente. Abstenção. Elisa engrossou o desejo da bancada feminina. Voto de minerva. Daniel ficou isolado. Mas não desistiu.
- Deve ser muito mais emocionante com 3D.
Em silêncio, ponderei e concordei. Fiquei imaginando as batalhas dos cinco exércitos ao alcance das mãos. Mas Luiza respondeu com propriedade.
- Eu fico com muita dor de cabeça. E a mamãe também prefere sem. Dois a um. Vence a maioria. Democracia.
O moleque resolveu apelar para teses aecistas.
- Então vou pedir seu impeachment!
Achei mais sensato suspender a sessão extraordinária. Breve recesso. Para acalmar os ânimos. Voltaremos em breve, com as resoluções finais.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

REVISITANDO PALAVRA CANTADA

Espíritos dezembrinos. Corações sinceramente abertos a retrospectivas críticas e a caraminholar planos para os 365 dias vindouros. Ventos de uma boa e alegre nostalgia entraram pela janela do quinto andar de um prédio que fica no topo de uma das tantas ladeiras do bairro de Perdizes. 

Procura daqui, fuça de lá, não gosta desse, não quero aquele. Nariz torcido e caretinha para vários filmes. Nem pensar em desenho animado, adolescente que já é. Sem muita paciência para escolher, é verdade, como de costume. Mas depois de uns cinco minutos, finalmente Luiza dá um grito de quem ganhou a caça ao tesouro. Pai, posso alugar esse show do Palavra Cantada? Está no NOW, três e noventa. Quero ver. É aquele que a gente foi, tinha o DVD. Eu adorava, o Dani também. Deixa, deixa, deixa, vai. 

Devo ter feito cara de espanto. Fui pego de surpresa, confesso. Nada de Harry, Zayn, Louis, Niall ou Liam? Nada de One Direction? Trocados por Sandra Peres e Paulo Tatit? Autorização imediatamente concedida. Quem sou eu para atrapalhar esse reencontro repentino e delicioso com a infância? 

Palavra Cantada. A Lui era menininha; o Dani, um bebê. Era uma febre. O tal amado DVD, de um show no Auditório Ibirapuera, rodava várias vezes por dia, sem tréguas. Até quase furar. Com direito a rodas, palmas, danças e coreografias imitadas e inventadas. Tombos, cambalhotas e gargalhadas. "Brincadeira, choradeira, Pra quem vive uma vida inteira. Mentirinha, falsidade, Pra quem vive só pela metade". 

Paulo e Sandra são Luiza e Daniel no colo, leite na mamadeira, passeios no carrinho, manhas no berço, nas sonecas das tardes, nos tanques de areia, nas brincadeiras de bonecas e bonequinhos, nos tapetes coloridos de livrarias ouvindo histórias e fuçando prateleiras. Perninhas curtas, braços pidões sempre estendidos. Abraços e beijos estalados. "Rato, meu querido rato. Eu não sou assim de fino trato. Pra selar este contrato. Minha luz é passageira. Fico sempre por um triz. Mesmo quando estou inteira. Vem a nuvem me cobrir. Ela sim, nuvem faceira. É que lhe fará feliz". 

Eram os tempos da escola Alecrim, os amigos e amigas inseparáveis, a Lulu, a Sossô, a Julia, a Dani, o Danilo, o Ian, o Ernesto, além das aventuras no cavalão branco, no balanço de pneus, na ponte colorida, na caverna do urso imaginário. Saudades dos banhos de esguicho só com calcinha ou cueca, no ritmo gingado da capoeira e da malemolência dos primeiros toques na bola. "Gosto quando vou brincar na rua. Gosto quando encontro meu amigo. Gosto quando a mãe do meu amigo. Me oferece uma bolacha. De água e sal". 

Lembro de termos ido a três shows do Palavra. O primeiro foi comemorativo, o famoso, no Ibirapuera, com o palco se abrindo ao fundo e revelando os encantos do Parque na música final, para deleite das crianças, boquiabertas e sem piscar. O segundo foi uma espécie de acústico, apresentação intimista para pequeno público, na FNAC de Pinheiros. Conseguimos os três últimos lugares, quando os dois já ameaçavam beicinho e faziam menção de começar a chorar, decepcionados. Não foi só: ao final, abraços, beijos, fotos e autógrafos no CD. "Luiza e Daniel, beijos do Paulo e da Sandra". O terceiro, animadíssimo, foi num carnaval, com direito, claro, às canções do CD Carnaval. Sem esquecer os clássicos. "Entre o Oriente e ocidente. Onde fica? Qual a origem de gente? Onde fica? África fica no meio do mapa do mundo do atlas da vida. Áfricas ficam na África que fica lá e aqui. África ficará". Os tambores dessa música são impressionantemente fortes e tocantes. Tribais. Contagiantes. 

Eles gostavam muito também dos Saltimbancos, Casa de Brinquedos, Arca de Noé, Plunct-Plact-Zum, cantigas de roda, Hélio Ziskind. Mas não havia quem pudesse concorrer com Palavra Cantada. Quantas não foram as vezes em que se fantasiaram de Paulo e Sandra, na companhia da prima Maristela, e atormentaram a vida da tia-madrinha para que desenhasse a dupla com seus instrumentos musicais. Palavra Cantada é cheirinho de infância saudável e feliz. Gosto de diversão com cidadania. Textura híbrida de ritmos maluca e harmonicamente variados e costurados. É também um tantão do meu aprendizado como pai. "Lápis, caderno, chiclete, pião. Sol, bicicleta, skate, calção. Esconderijo, avião, correria, tambor, gritaria, jardim, confusão. Criança não trabalha, criança dá trabalho. Criança não trabalha..".

Estão lá de novo, grudados no sofá, só no pé com pé e esperando a sopa do neném - a garbosa fã de One Direction, doze anos, e o marrento campeoníssimo boleiro, oito anos. Com quase 43, vou lá me juntar a eles.  Saborosa sexta-feira. "Oi, oi, oi... Olha aquela bola. A bola pula bem no pé. No pé do menino. Quem é esse menino? Esse menino é meu vizinho...Onde ele mora? Mora lá naquela casa...Onde está a casa? A casa tá na rua...Onde está a rua? Tá dentro da cidade... Onde está a cidade? Do lado da floresta... Onde é a floresta? A floresta é no Brasil... Onde está o Brasil? Tá na América do Sul, no continente americano, cercado de oceano e das terras mais distantes de todo o planeta". 

AMANHÃ



Fazia muito tempo que não tinha insônia. Nem sou capaz de dizer quando foi a última vez que contei carneirinhos, sem sucesso, e vi o dia clarear, sem ter conseguido pregar os olhos. Pois nessa madrugada a maldita da danada me pegou de jeito. Sem avisar nem pedir licença. Implacável. E tome virar na cama, de um lado para o outro, setecentas e sessenta e oito vezes, sem encontrar (nem passei perto) os caminhos de sonhos para alcançar os aconchegantes embalos dos braços de Morfeu. Ariano é aquele sujeito que, além de não fugir de briga alguma (está olhando por quê?) e de ter sempre fé na vida (vai dar tudo certo, confia em mim), carrega consigo a deliciosa e teimosa mania racional de achar que tudo pode controlar. E não pode? Olhando para o teto, braços cruzados atrás da cabeça, cidade incrivelmente silenciosa, comecei a agendar, passo a passo, como vai ser o sábado. Acordar, controlar a ansiedade, votar nas eleições do Santos, controlar mais um pouco a ansiedade, almoçar, continuar controlando a ansiedade, tomar banho, não esquecer de controlar a ansiedade, vestir o uniforme. Ansiedade. Nada de ficar enrolando nos vestiários. O jogo começa seis em ponto. É importante chegar cedo, com antecedência, para preparar as arquibancadas e respeitar os convidados-torcedores. Quando o árbitro apitar e a bola começar a rolar, será preciso ter muita técnica e disciplina, como ensina o hino do glorioso alvinegro praiano, e ser ligeiro (para poder fazer tabelinhas e trocar passes com todos os que lá estarão) e hábil (para agradecer, com palavras, autógrafos, fotos e dedicatórias singulares os representantes das diferentes tribos e torcidas que prometem marcar presença).  Excepcionalmente, por motivos óbvios, na arena padrão FIFA onde acontecerá a partida literária de confraternização de final de ano – também conhecida como Arena Bar São Cristovão – será permitida a venda de bebidas alcoólicas. Recomenda-se deixar os carros em casa.  99 táxis pode ajudar. O time treinou forte, o grupo está unido, vamos colocar em prática tudo o que o professor pediu, o coração vai na ponta das chuteiras. Ousadia e alegria, muita alegria, um sete a um (a nosso favor) de alegrias, numa noite que se anuncia como inesquecível. O friozinho na barriga é inevitável. É decisão de campeonato. Já enfrentei outras finais e lancei outros dois livros, é verdade, golaços muito queridos, a sugerir reflexões sobre o fazer jornalístico e algumas contribuições sobre as relações entre Saúde e Cidadania. Mas não posso negar – “Memórias de uma Copa do Mundo” é especial. Aquele gol de placa, uma matada no peito e um sem-pulo no ângulo. Porque é meu primeiro (de muitos, espero) livro de histórias. Trinta e cinco crônicas que preservam um tanto do que foi o Mundial disputado por aqui. Relatos de um torcedor, o universo boleiro – outra de minhas paixões – em cena, em suas mais diferentes e fascinantes facetas. Ficção e realidade juntas e misturadas. Fez o caminho inverso – legítimo filho das redes sociais, saiu primeiro em formato digital, para então ter os direitos federativos e econômicos generosamente adquiridos pela Chiado Editora, que abraçou o projeto e fez nascer a tão sonhada versão impressa. Tornou-se possível graças aos bondosos incentivos dos leitores-torcedores, que fizeram tremular as bandeiras e não pararam de cantar um minuto – “publica! Publica! Publica!”. E como o mundo do futebol é marcado por mandingas e superstições (prometo seguir à risca os rituais amanhã), devo lembrar que há exatamente vinte anos, numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1994, com as arquibancadas do auditório Freitas Nobre da querida ECA/USP lotadas, explosão de afetos, defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso e me formei nas artes e ciências do Jornalismo. Naquele mesmo dia, conheci a Elisa, amor da minha vida, eterna capitã da minha Seleção. Bons presságios. Duas décadas depois, e agora já com Luiza e Daniel, joias das categorias de base, oxalá outros universos narrativos, não necessariamente jornalísticos, estejam a exigir e cobrar minhas letras. Um novo tempo de escritas. Sei que todos já sabem, muitos já confirmaram presença. É ansiedade de autor-atleta principiante. Reforço o convite – será imenso prazer poder abraçá-los amanhã, no lançamento de “Memórias de uma Copa no Brasil”.  De certa forma, Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo, Suárez, James Rodriguez, Robben, Feghouli, Navas, Kroos e tantos outros craques estarão conosco. Os deuses do Himalaia, senhores soberanos e protetores do futebol, também já compraram ingressos para a festa. Abraços e beijos e até lá (goooool da Alemanha...). 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

MELIANTES DE ALTA PERICULOSIDADE

Foi dos medos mais terríveis que já senti na vida. Aquela adrenalina que toma conta de cada mitocôndria de cada célula do corpo e paralisa todos os músculos. Só tenho lembrança de pavor parecido quando, aos seis anos, em férias de verão, chácara em São Bernardo, moleque abusado, achei que poderia encarar numa boa o filme "Sete máscaras da morte". Cabeças degoladas rolando escadas e mulheres afogadas em banheiras, sem contar os choques elétricos. A calça do pijama quase amanheceu molhada. Na madrugada, corri para a cama do meu avô. Três noites sem dormir. Pesadelos e lencóis cobrindo a cabeça, artimanha que, imaginava em minha incocência de criança, seria suficiente para me proteger e escapar dos assassinos televisivos que, àquela altura, tinha certeza, sabiam quem eu era e me perseguiam.
No meio da tarde de ontem, cruzamento da rua Cardeal Arcoverde com a João Moura, agradável e tradicional bairro de Pinheiros, fui tomado por aquela mesma tremedeira, subindo em ondas arrebatadoras pelas pernas e braços. O trânsito estava lento - o que não é exatamente uma novidade na cidade que é senhora da maior frota de carros do país (quase seis milhões de carangos). Amarelo. Vermelho. Parei. Antes da faixa de pedestres. Foi quando bati os olhos na ladeira onde ainda resistem bravamente alguns sobradinhos simpáticos e aconchegantes, que me remetem a cheiros e cores da minha infância. Eles estavam se aproximando. Pedaladas firmes e ritmadas. Caras de gente dos infernos. Pouco enxergava dos rostos deles, é verdade, escondidos por máscaras e capacetes. Mas eram expressões perversas. Tenho certeza. Nem olhavam para os lados. Luvas e joelheiras ajudavam a compor o figurino dos meliantes. Cavaleiros medievais repaginados, versão século XXI. Darths Vaders com roupas coloridas.
Eram três. O primeiro vinha um pouco mais à frente, como um líder destemido, seguido de perto por mais dois malfeitores. Um triângulo, típica posição de ataque. Já tinham certamente tudo combinado e e ensaiado. O comandante dá o bote. A retaguarda protege e termina o serviço. Eu era a vítima escolhida. As rodas continuavam girando em sintonia, rasgando com firmeza a faixa vermelha lulo-petista. O líder soltou a mão esquerda do guidão. Ergueu o tronco. Fez um sinal. Os três imediatamente apertaram os breques, reduzindo em seguida a frequência das pedaladas. Assaltos, sequestros-relâmpago, espancamentos... São capazes das mais terríveis atrocidades, essa escória sob duas rodas.
Travei as portas do carro. Fechei os vidros. Cerrei os dentes, maxilar doendo com tanta pressão. A mão esquerda procurou a carteira. Com a direita, digitei 190 no celular. Bastaria apertar discretamente a tecla verde com a figurinha do telefone e gritar, sei lá, 'socorro, atenção, marginais na Cardeal com João Moura'. Os policiais militares entenderiam a senha, meu sufoco. Pelo retrovisor, pude notar que a motorista do carro de trás, sei lá qual desses possantes de luxo, conversava animadamente pelo viva-voz, sem qualquer receio. Que cretina. Fiz menção de avisá-la, de gritar 'cuidado, vagabundos de bicicleta'. Recuei. Permaneci imóvel. Se perceber qualquer movimentação suspeita, não reaja, não faça movimentos bruscos e que possam assustar. É o que recomendam os bons manuais de segurança e sobrevivência nessa selva urbana.
Com todo cuidado, desligo o rádio. Tocava Raul. 'Mamãe não quero ser prefeito. Pode ser que eu seja eleito. E alguém pode querer me assassinar'. Não digo matar, que não sou dessas coisas, sou gente de bem; mas bem que tenho vontade de dizer poucas e boas para esse prefeito gato que resolveu atrapalhar o trânsito paulistano com essas malditas e imprestáveis ciclofaixas vermelhas. Para quê? Só para enfeiar a metrópole? Para atrair e juntar essa corja? Olho para elas e me revolto. Diabos, como farão os moradores dessas ruas nesse final de ano? Onde os familiares e amigos vão estacionar seus carros para as ceias natalinas e as confraternizações sempre muito autênticas e verdadeiras, embriagadas de sinceros afetos e de presentes com valores mínimos? Como vão essas pessoas carregar os perus? As saladas? Os manjares? Os fios de ovos? As cerejas e uvas? Fico imaginando a correria desbragada pelas calçadas e as trombadas, choques de travessas e tabuleiros, já que serão obrigados a deixar os automóveis sabe-se lá onde.
Foi só insight. Voltei. As bicicletas estão muito perto, sei lá, uns vinte metros, se tanto. Pé na embreagem. Engato a primeira. Cinco metros. Pedal direito, pedal esquerdo, pedal direito, pedal esquerdo, as correias girando em compassos sincronizados. Chegaram. É agora. Vamos lá. Mais duas pedaladas. Tomara que levem só o dinheiro. Dos males, o menor. Sem violência física. Não tiro os olhos deles. Eles me ignoram. Passam reto. Nem olham para mim. Escapei. Escapei! Perceberam que eu estava esperto, preparado. Só pode ser. Certamente. Vão atacar algum outro desavisado logo mais adiante. Ainda deu tempo de observar aquelas luzinhas vermelhas piscando acima das rodas traseiras. Verde. Acelerei, ainda com a adrenalina estourando. Parti cantando pneus. Pedestres olharam assustados. Fiquem espertos, seus tontos, não sou eu a ameaça. Ainda estão rondando por aí. Virei à direita na Cardeal. Músculos queimando de tão doloridos, as pernas ainda tremendo, sem conseguir controlar direito o pedal da embreagem (exatamente como acontece quando a gente faz exame de auto-escola).
O susto ainda não passou. Aquelas figuras pedaleiras não me saem da cabeça. Quem anda de bicicleta não presta. Todos sabemos disso. São gente sem qualificação. São pessoas do mal. Meliantes. Vagabundos. Muito, muito cuidado com esses calhordas. Olha, está cada vez mais difícil viver em São Paulo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

ACHO...

Acho uma temeridade e tremendo erro político a tentativa de rever meta fiscal no apagar das luzes do ano. Acho de um cinismo atroz ver exércitos de oposição com a faca nos dentes e batendo nos escudos, formação de ataque, posando de vestais da tal da austeridade e da moralidade no trato da coisa pública, apenas querendo ver o circo pegar fogo, como se nunca antes na história desse país administrações com penas e bicos tivessem pedido socorro para maquiar e enbelezar alguns números para então finalmente dar conta da cantada em verso e prosa 'responsabilidade fiscal'. Acho que deveríamos mesmo era parar para pensar se, em tempos bicudos de economia internacional em pandarecos, não seria mais sensato e pertinente mandar às favas, sem escrúpulos de consciência, o superávit que serve para fazer carinhos e afagos no senhor mercado e investir firme esses bilhões de reais na geração de empregos e em políticas públicas de qualidade, priorizando sobretudo o andar de baixo. Acho que tem candidato derrotado em exercício (acho o máximo essa expressão, que colhi aqui nas redes) apostando numa vociferação histérica e irresponsável, a colocar em risco nossa estabilidade democrática, tão duramente conquistada e ainda tão sensível. Acho que tem lobo no aumentativo que resolveu assumir de vez um tão ridículo quanto tosco papel de porta-voz dos reaças inconformados com as urnas. Acho que a presidenta eleita não pode continuar com a cabeça escondida no buraco, como se nada estivesse acontecendo. Acho Katia Abreu da motosserra um escárnio, um chute nas canelas das esquerdas que garantiram a reeleição. Acho deplorável e indefensável arrotar discurso em defesa das mulheres e dos direitos humanos, vomitando cartilhas e guias de conduta por onde passa, para depois não perder a chance de exibir imageticamente a genitália desnuda e investir num machismo que só faz ofender, humilhar e reforçar preconceitos. Acho um saco esse tempo natalino de etiquetas, marcas, compras, lojas, poses, ostentações, correrias, shoppings e 'qual é o valor mínimo do amigo secreto'. Acho 'Judas', do Amós Oz, um baita livro. Acho que o Palmeiras não cai e acorda na segunda na primeira. Quem sou eu para achar tudo isso? Ninguém. Ou um chato de plantão. Acho.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

OS MINISTROS DE DILMA

Embora a tragédia já tivesse sido anunciada, a confirmação de Katia Abreu como Ministra da Agricultura é uma lástima. Péssima notícia. 

E, se forem mesmo oficializados os demais nomes que estão hoje sendo anunciados pelos jornalões, Dilma parece querer repetir o desenho ministerial do primeiro mandato do governo Lula (2003-2006).

Em 2003, o ex-presidente usou a área econômica (Antonio Palocci na Fazenda + Henrique Meirelles no Banco Central), a Agricultura (Roberto Rodrigues) e o Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Luiz Fernando Furlan) para agradar os empresários, dar satisfações ao reizinho mandão mercado e apresentar-se aos investidores como uma administração confiável, cumpridora dos contratos. 

Para os chamados ministérios sociais, foram chamados políticos que pudessem colocar em marcha as políticas públicas de distribuição de renda e inclusão: Educação ficou com Cristovão Buarque; Cidades, com Olívio Dutra; Assistência e Promoção Social, com Benedita da Silva; Meio Ambiente, com Marina Silva; Desenvolvimento Agrário, com Miguel Rosseto; Trabalho, com Jaques Wagner; Minas e Energia, com Dilma Rousseff; Saúde, com Humberto Costa; e Previdência, com Ricardo Berzoini. 

Além disso, os Direitos Humanos, além de Ministério específico (Nilmário Miranda), foram contemplados também com a Secretaria de Políticas de Igualdade Racial (Matilde Ribeiro) e com a Secretaria de Direitos da Mulher (Emilia Fernandes). Ao fazer essa opção, Lula levou a 'luta de classes' para dentro do governo, como já observou o cientista político André Singer, em suas análises sobre o lulismo. Ortodoxia econômica versus desenvolvimentismo. Muitas disputas - algumas delas acirradíssimas - colocavam em pólos opostos ministros do mesmo governo. Lula arbitrava e mediava esses confrontos. 

Doze anos depois, minha impressão inicial é que Dilma deseja apostar na mesma estratégia. Fazenda (Joaquim Levy), Planejamento (Nelson Barbosa), Agricultura (Katia Abreu, argh...) e Desenvolvimento (Armando Monteiro) são os presentes entregues ao mercado. O preço que deve ser pago para tentar fazer o país continuar avançando na área social, de acordo com a avaliação da presidenta (e também do ex-presidente, obviamente, que certamente tem forte participação nessas escolhas. Os dois trocaram muitas figurinhas nos últimos dias). Em contrapartida, espera-se um cenário menos instável e/ou sujeito a especulações. Apenas na expectativa do anúncio dos nomes, a bolsa de valores de São Paulo subiu hoje 5,02%, e o dólar registrou queda de 2%, fechando perto de R$ 2,50. Dilma e Lula devem ter comemorado. 

Se meu raciocínio político estiver correto, a presidenta terá reservado novamente a área social para ministros que tenham competência, experiência, habilidade e jogo de cintura para superar os desafios e inaugurar um novo ciclo de políticas públicas e de distribuição de renda. Aqui, Dilma deve fazer acenos evidentes às esquerdas, aos setores progressistas da sociedade. Por fim, os ministérios da chamada cota política (Casa Civil e Relações Institucionais, por exemplo) devem ser destinados a pessoas da mais absoluta confiança da presidenta, com bom trânsito com o Congresso e capazes de fazer da Reforma Política uma prioridade. Não é por acaso que Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, é um curinga que pode aparecer em diferentes pastas dessa natureza. 

Meus poréns e ressalvas: a conjuntura política é hoje gigantescamente diferente daquela vivida no início de 2003. Dilma enfrenta um cenário muito menos amistoso, com muitas turbulências, uma oposição que garante que não vai lhe dar tréguas, a mídia grande atuando de maneira implacável para desestabilizar o governo, além de cretinos ressentidos que, insuflados por discursos de ódio, ocupam as ruas para pedir impeachment e golpe. Lula tinha um capital político (a novidade, a esperança, a mudança) e uma paciência social para esperar que Dilma não terá. Para ela, é aqui e agora. A presidenta está longe também de manifestar a habilidade de negociação encarnada pelo antecessor. Conseguirá mediar os conflitos que vão explodir no interior do governo? Vale lembrar, como bem já ressaltaram intelectuais como o filósofo Vladimir Safatle, que o modelo lulista já deu sinais de esgotamento. Não é mais possível garantir inclusão apenas via ampliação do consumo. Será preciso radicalizar. Dilma vai bancar essa inflexão? 

Por fim, e não menos importante, Dilma conseguiu sair vitoriosa na eleição, depois de um segundo turno duríssimo, exatamente porque os movimentos sociais e populares e as forças progressistas e de esquerda assumiram, inclusive nas ruas, a responsabilidade histórica de reelegê-la, para escapar da tragédia do retrocesso representado pela outra candidatura. Sem tergiversar, para usar uma palavra cara à presidenta: Dilma só foi reeleita porque foi abraçada, na reta final, pelas esquerdas. Como vai agora, ministério sendo montado, dialogar com essas forças políticas? As esquerdas ficarão satisfeitas com esse desenho ministerial? O que o MST e os indígenas, por exemplo, vão dizer de Katia Abreu na Agricultura? Repito - uma lástima. Até porque a ruralista deverá ser protagonista do segundo mandato.

Por ora, Dilma fez agrados ao mercado e aos conservadores do latifúndio. É mais do que momento de acertar as contas políticas com quem deu a cara a tapa durante a campanha e que verdadeiramente representa a base social de apoio do segundo mandato. Alimentada pelo antecessor e guru político, a presidenta parece querer resgatar uma estratégia de governabilidade que pode ter dado certo em outros tempos, mas que, por conta das andanças e mudanças do bonde chamado História, é uma roupa que já não nos serve mais. A hora é de tensionar, marcar posição, não de acomodar. As urnas indicaram o caminho.

sábado, 15 de novembro de 2014

SE OS GRAÚDOS DAS EMPREITEIRAS RESOLVEREM ABRIR O BICO...

Um espectro ronda a disputa política nacional. É uma assombração que faz uma força danada para referendar a falsa premissa que sugere que a luta contra a corrupção é uma pauta exclusiva dos conservadores, dos partidos políticos localizados à direita do arco ideológico e sobretudo dos pitbulls midiáticos que se tornaram especialistas em semear ódio na sociedade. 

Pois esse fantasminha nada camarada mente. As esquerdas, os progressistas, também não aceitam e rechaçam com veemência as relações perigosas e espúrias entre os setores público e privado, o desvio de verbas, o pagamento de propinas, os caixas dois, jamais se anunciando coniventes com licitações fraudulentas ou obras conseguidas a partir de jogo de cartas marcadas. Não há como pensar em transformações de ordens ou avanços sociais significativos sem considerar e respeitar sobretudo o interesse coletivo, o bem público. As esquerdas sabem disso.    

A diferença - é aí essa divergência é brutal - manifesta-se no tratamento narrativo que se dá ao tema  corrupção. É uma guerra de discursos. Para a direita, esse é um debate meramente moralista, o "mar de lama que detona a República", uma fala superficial que separa "os puros dos sujos", os "éticos dos malandros", que seletivamente aponta o dedo para quais casos devem ser investigados (sempre aqueles localizados no jardim vizinho) e que se recusa a entender e combater as raízes mais profundas do problema. Não se pretende alterar o status quo. As esquerdas procuram enfrentar essa discussão a partir da análise política. Para além dos mocinhos e dos bandidos - afinal, seres humanos somos todos marcados por deslizes e contradições, as dores e as delícias de sermos o que somos -, é preciso encarar as mazelas e fraturas do sistema, para atuar sobre as causas, e não apenas em relação às consequências. 

Exemplo: enquanto a direita grita "petralhas corruptos, vivemos numa cleptocracia", as esquerdas consideram prioridade rever o financiamento de partidos e de campanhas políticas no Brasil, relação que está no cerne de todos os escândalos (independentemente da coloração partidária, do mensalão ao metrô de São Paulo) recentes (e ancestrais) vividos no país. Os milhões de reais doados por empreiteiras a candidatos de todos os grandes partidos não são entregues a fundo perdido. A fatura é sempre cobrada. E os governos de plantão, para além das siglas, rendem-se ao "é assim que funciona" para, em nome de uma suposta "governabilidade", aproveitar tais oportunidades para cobrar pedágios e alcançar recursos que vão custear campanhas que são milionárias e cada vez mais caras, além de bancar alianças.

As prisões de altos executivos de grandes empreiteiras nacionais representa, portanto, para as esquerdas, enorme avanço democrático. Não assustam - ao contrário, é pauta da agenda política progressista bastante antiga. Agora não mais apenas simbolicamente, mas a partir de ações concretas, a mensagem que pode estar sendo transmitida à sociedade é que não basta apenas atuar sobre os corruptos - é fundamental atacar também os corruptores. Sem privilégios ou condescendência com o andar de cima, os abastados da nação. 

E, se de fato os graúdos empresários resolverem abrir o bico e contar tudo o que sabem, sem manipulações instrumentalizadas nem depoimentos oportunistas ou seletivos, a base política de apoio da presidenta Dilma Rousseff vai sangrar. E não vai ser pouco. Que seja assim. Mas os tucanos e demos que agora comemoram com sorrisos efusivos e esfregar de mãos incontidos - insisto, se a disposição para investigações for ampla e irrestrita - em breve deverão estar também chorando. As barbas - e as penas - devem ser colocadas de molho. Que seja assim também. Não há santinhos nessa história.  

Nessa nova etapa da mesma guerra de narrrativas, as oposições já colocaram as tropas em movimento. O roteiro é velho conhecido - fazer dos desmandos na Petrobras mais um capítulo de uma saga que tem como único e exclusivo protagonista o PT. A intenção evidente é restringir as apurações à administração petista. Os "puros" saem a campo justamente para, dedo em riste, denunciar "o maior escândalo da história da República" e reivindicar o monopólio da ética. O objetivo político é claro: desgastar o governo Dilma. Respeitados os marcos da democracia, essa disputa não é só legal - é legítima. 

Mas vale lembrar que, até agora inconformados com o resultado das urnas, não são poucos os setores e atores que militam na oposição dispostos a investir na máxima lacerdista do "não pode ganhar. Se ganhar, não pode assumir. Se assumir, não deve governar". De forma irresponsável, apostando fichas num inaceitável terceiro turno eleitoral, flertando perigosamente com serpentes golpistas e vozes truculentas que chegam das ruas, não medem esforços para quem sabe ganhar no grito algo que não foram capazes de alcançar por meio dos votos.Ao agir dessa maneira, não só colocam em risco o regime democrático como só fazem destilar ódios que vão dramaticamente contaminando nosso cotidiano (vociferações intolerantes e preconceituosas contra nordestinos e delírios separatistas são apenas a pontinha desse iceberg).  

A tarefa das esquerdas é movimentar as placas tectônicas e cobrar da Polícia Federal e demais instituições que as investigações não parem, que sejam profundas e que não escolham contas bancárias ou siglas partidárias. A Camargo Correa, por exemplo, que já escapou da Operação Castelo de Areia, interrompida sabe-se lá por quais pressões (ou talvez tais interesses sejam bem conhecidos, vai saber...), é uma das responsáveis pela construção do Rodoanel de São Paulo. Vamos falar da Dersa e de Paulo Vieira de Souza, mais conhecido nos meios políticos e empresariais como Paulo Preto? Vamos falar dos indícios fortíssimos que sugerem que foram desviados cerca de 425 milhões de reais do Metrô de São Paulo, com farta distribuição de caixinhas para políticos e gestores públicos, durante os já longos e fartos anos de administração tucana no estado? Vamos falar das doações milionárias das empreiteiras nesta última campanha eleitoral, beneficiando com polpudos valores tanto o caixa de Dilma quanto o de Aécio Neves? OAS, Andrade Gutierrez, UTC e Odebrecht estão no topo da lista dos maiores doadores das duas campanhas - petista e tucana. 

As empreiteiras não escolhem bandeiras ideológicas. Fazem negócios - não raro, negociatas. Querem ganhar contratos públicos. Em qualquer governo. Por consequência e coerência, investigações sobre essas grandes corporações não podem se retringir a um partido específico. Polícia Federal, follow the money. Todos os 'moneys'. 

Por fim, modesta sugestão à presidenta Dilma: nessa guerra política e de narrativas que pode de fato levar a resultados históricos, silenciar e fingir que nada está acontecendo não é a melhor estratégia a recomendar aos generais.   

domingo, 2 de novembro de 2014

OS ACERTOS DO LULISMO ALIMENTARAM A SERPENTE DO GOLPE

A serpente peçonhenta e golpista que andou rastejando e mostrando seus olhos esbugalhados e dentes afiados ontem na avenida Paulista não quebrou a casca do ovo nem dele escapou empurrada pelos erros e pelos não feitos dos governos Lula-Dilma (que são muitos, muitos mesmo, e devem ser apontados, criticados e combatidos, democraticamente).
A cobra sorrateira encontrou as condições favoráveis de temperatura e pressão para se apresentar publicamente, sem pudores ou constrangimentos, exibindo-se perigosamente, porque foi fortemente impulsionada pelos acertos oferecidos pelos doze anos de administrações petistas no plano federal.
Os avanços garantidos pelo lulismo é que não são tolerados por quem agora sente saudade de tempos horrendos e obscuros. O que a Casa Grande não aceita é uma democracia com presença e cheiro de povo. Morrem de medo do andar de baixo cutucando o andar de cima. Ficam horrorizados quando constatam que espaços até muito recentemente destinados quase que exclusivamente aos filhos das elites foram também justamente ocupados por herdeiros daqueles que consideram uma 'ralé que já não aceita mais seu devido lugar de origem'. O bacana da SUV não se conforma em ter de pedir passagem no trânsito para o 'pobretão do carro popular, comprado por conta de redução de IPI e em suaves prestações'. A madame tem úlceras doloridíssimas quando tromba com sua empregada frequentando a mesma loja, o mesmo salão de beleza, usando o mesmo perfume. É ódio de classe.
O professor Jessé de Souza já escreveu que "é a raiva ancestral de uma sociedade escravocrata, acostumada a um exército de servidores cordatos e humilhados, que explica a tolice dos que compram a ideia absurda de mais mercado no país do mercado já mais injusto e concentrado do mundo. A raiva, no fundo, é contra o fato de muitos desses esquecidos estarem agora competindo pelo espaço antes reservado à classe média, como vimos nos 'rolezinhos', nas reclamações dos aeroportos cheios e na perda da distinção com relação à 'gentinha' não mais tão cordata e humilhada. Sem o ressentimento e o desprezo ao populacho - no fundo, o medo da competição social transformada em agressão -, não há como entender que tanta gente seja manipulada por um discurso hoje tão descolado da realidade como o da virtude do mercado e demonização do Estado". Vale reforçar: para ele, esse sentimento de ódio que se espalha e cria raízes cada vez mais profundas é "o medo da competição social revertido em agressão".
Na esteira desse ressentimento raivoso, e como uma das complexas consequências das manifestações de junho do ano passado, que destravou pautas progressistas tanto quanto escancarou a caixa de Pandora, o filósofo Paulo Arantes aponta o surgimento, no Brasil, de "uma direita não convencional, que não está contemplada pelos esquemas tradicionais da política, interessada apenas em impedir que aconteçam governos".
Esperavam, os endinheirados coléricos, interromper esse processo ainda muito incipiente - não dá para superar 500 anos de exclusões em doze de governo, há muito ainda a avançar e conquistar - no último domingo. Jogaram muitas fichas nessa virada, no retorno triunfal. Como as urnas não lhes foram favoráveis, passaram a apostar fortemente na serpente da instabilidade institucional e do golpe. Pitbulls da mídia, passeata na Paulista, pedidos sórdidos de auditoria em urnas, o silêncio conivente do principal partido de oposição do país, que não tem a dignidade de vir a público para rechaçar com veemência essas aventuras autoritárias (ao contrário, só faz reforçá-las e legitimá-las, para desespero de democratas como Franco Montoro e Mario Covas), vociferações e mimimis em redes sociais...
Para esses iluminados que fazem juras de amor ao Brasil e se enrolam na bandeira verde e amarela (mas que querem mesmo é escapar para Miami, porque lá é tudo mais bacana e moderno) e que berram feito loucos contra uma tal de 'ditadura bolivariana de Cuba' (ao mesmo tempo em que pedem outra ditadura, via golpe militar), vale qualquer negócio ou ação para tirar o PT do poder. Qualquer negócio, insisto. Por consequência, estariam empurrando essa ralé que teve a ousadia de botar as manguinhas de fora de volta para a senzala.
A 'democracia' brasileira voltaria, então, a cheirar bem. Fragrância de patchouli. Com muito orgulho e com muito amor.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

NAMORO POLITICAMENTE PROIBIDO

Pediu licença, deu boa noite a todos. Primeiro jantar com a família da namorada. Estava tenso. Levou flores. Aceitou um copo d'água. Conversaram sobre amenidades. O calor, a brisa fresca, o trânsito, que loucura, cada vez mais caótico, futebol, a rodada do final de semana promete. Sorte de principiante, descobriu que torcia para o mesmo time do pai da moçoila. Agradou. Arrasou. Bastante articulado. Inteligente. Boa impressão. Engraçado. A mãe chamou a filha na cozinha. Precisava de ajuda. Não se conteve. 'Filha, muito simpático esse rapaz! Será que ele não quer ir para Miami com a gente no final do ano? A casa foi reformada, vamos passar o mês todo lá. Convida, vai! Convida!'. Riram baixinho. No jantar, antes que o convite pudesse ser feito, a conversa escorregou na política. Eleições. Segundo turno. Ousou dizer: 'votei na Dilma'. Cinco segundos de um silêncio pesado. Corrupto, safado, sem-vergonha, ladrão, burro, ignorante, mensalão, devolve o dinheiro da Petrobras, vai para Cuba viver com bolsa esmola, petralha! A garota chorava copiosamente. 'Mentiroso, cretino, você não me falou nada. Me enganou!'. Foi expulso da casa. O namoro? Proibido. A garota nunca mais ouviu falar dele.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

COMPARAR PROJETOS. E VOTAR DILMA

O primo Raphael Bicudo, craque economista com quem aprendo sempre, professor da FGV/SP, do Mackenzie e da Belas Artes, resume com precisão e competência a disputa que será decidida no próximo domingo:
"As eleições presidenciais caminham, mais uma vez, para a escolha entre dois projetos antagônicos em termos político-econômicos e sociais: (i) o social-desenvolvimentismo (Dilma) e (ii) o projeto neoliberal da Casa das Garças (Aécio).
A opção por um dos dois projetos através do voto implica na continuidade dos avanços sociais conquistados até aqui ou na possibilidade bastante grande de grave retrocesso político, econômico e principalmente social.
Vejamos:
- o projeto da Casa das Garças (Aécio): desde o início da campanha eleitoral enfatiza o corte de gasto público - pressuposto fundamental dessa proposta, bem como a inserção, a qualquer custo, da economia brasileira no cenário internacional. Para os economistas tucanos, o Brasil precisa de um choque de capitalismo, pautado por abertura comercial irrestrita e liberalização financeira. Não está fora da pauta também a privatização, o enxugamento do papel do Estado e autonomia total do Banco Central.
O pensamento econômico que norteia tal projeto está fundamentado em ideias que vêm de Chicago (a escola dos Novos Clássicos). É dai que saiu o “mantra” do tão propalado tripé macroeconômico: metas de inflação, metas de superávit primário e câmbio flutuante. A crença nas leis naturais do mercado e na estabilidade de preços como resolução de todos os outros problemas, inclusive os sociais, é a forma de pensar desses cientistas “ isentos” de qualquer juízo de valor – todos são completamente neutros – APESAR DE ATUAREM EM GRANDES BANCOS DE INVESTIMENTO E CORRETORAS.
O resultado líquido que deriva desse pensamento é o corte de gasto público, aumento da taxa de juros, redução do papel do Estado, tudo em nome da estabilidade de preços. Uma vez assegurada a tal estabilidade, a credibilidade no país fará com que o gasto privado nacional e principalmente o investimento externo conduzam o crescimento da economia. As questões sociais seriam resultado natural dessa estratégia.
- O projeto social-desenvolvimentista (Dilma): o projeto de Dilma, ainda não implementado na íntegra, por conta da força exercida pelo poder dos grandes grupos econômicos no Brasil e de fora, principalmente aqueles ligados a esfera financeira, poderá a partir de um segundo mandato ser aprofundado, o que seria fundamental para o avanço ainda maior das questões sociais.
A estratégia social-desenvolvimentista possui como elemento central a estabilidade macroeconômica (que não é só de preços) e sua compatibilidade com as questões sociais. Para isso, priorizam política macroeconômica conciliada com políticas industrial (para reindustrializar a indústria brasileira), infraestrutura, saúde, educação, habitação, bem como o alargamento do mercado interno, através, principalmente, dos investimentos em setores que produzam bens de consumo de massa com alto potencial de geração de emprego e renda.
Para isso, o papel do Estado se faz fundamental, bem como a abertura dos canais de acesso a participação popular (tão criticados pela mídia e a Casa Grande). Portanto, o modelo social-desenvolvimentista, através dos meios apontados acima, possui como finalidade uma distribuição de renda mais justa e uma vida cada vez mais digna para as pessoas."
Humildemente, assino com ele. E voto como ele. ‪#‎Dilma13‬

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

SOBRE PETROBRAS, DELAÇÕES PREMIADAS E JORNALISMO

Vou tentar brincar de ligar os pontos. Peço só um tiquinho de paciência.
Há denúncias - o que significa dizer ponto de partida para investigações, não conclusões cabais - de corrupção na Petrobras. É evidente que o Judiciário deve entrar em cena e investigar, com rigor, independentemente das colorações partidárias, sem comportamentos seletivos. Corruptos e corruptores (há grandes empreiteiras denunciadas também, não? Hum...). Seguindo os trâmites legais. Investigação demanda persistência, paciência, cautela, responsabilidade, justamente para não antecipar etapas ou cometer injustiças. Pode ser um processo longo, em geral mais demorado do que demanda a histeria por 'justiça' (ou seria vingança, chantagem?) de muitos 'formadores de opinião'.
Pois bem. Aparecem então um ex-diretor da Petrobras e um doleiro que, para escapar de condenação que poderia chegar a 50 anos de cadeia, se oferecem voluntariamente para fazer delação premiada. Trocando em miúdos, temos aqui a velha deduragem, como se dizia lá na minha vila. Nesse momento, os dois podem falar o que quiserem, o que der nas telhas deles. Ao se colocarem nessa posição, os sujeitos reconhecem e assumem ter cometido crime(s). São réus confessos. Estão acuados, isolados, assustados, guardam rancores e ressentimentos. São metralhadoras cheias de mágoas. Talvez (e aqui vai uma suposição) estejam raciocinando da seguinte maneira: 'eu caio, mas não vou sozinho', comportamento bastante comum nessas situações. É da natureza humana.
O processo corre em segredo de Justiça - ou seja, até aqui tudo o que se diz só pode ser de único e exclusivo conhecimento dos agentes públicos envolvidos na investigação. Ninguém mais. Exatamente para ainda preservar inocências, já que as provas não começaram a ser apuradas e levantadas. A Petrobras não consegue ter acesso aos depoimentos. Mas as gravações vazam, na íntegra, para veículos de comunicação. Quem vazou? Porque essa prática, salvo engano, também é criminosa.
Sem se importar - porque, claro, a imprensa nunca comete crimes, é sempre e eternamente perfeita e imaculada, infalível, neutra e imparcial -, o Jornal Nacional, principal telejornal da mais importante emissora de televisão do país, exibe, em horário nobre e para todo o Brasil, matéria de dez minutos sobre o tema, com trechos das gravações. Por coincidência, a veiculação se dá na noite da quinta-feira em que são divulgadas as primeiras pesquisas eleitorais do segundo turno (decepcionantes para o candidato tucano e para o deus mercado, que esperavam vantagem bem mais significativa sobre a adversária petista) e também quando o horário eleitoral gratuito é retomado.
As denúncias (até aqui sem provas) reverberam em rádios, portais, jornais impressos. O panfleto da Abril não deve ficar de fora da sinfonia, no final de semana. Cria-se um círculo (circo?) midiático vicioso, que se auto-alimenta. Todo esse material provavelmente será usado à exaustão pelas peças publicitárias da campanha e pelo próprio candidato do PSDB, nos debates que se avizinham. Ao que tudo indica, os depoimentos que compõem a delação premiada serão fatiados em doses homeopáticas, ao longo das próximas duas semanas - período que corresponde ao segundo turno da eleição. Coincidência novamente, claro como a luz do sol.
Aprendi com os muitos advogados que há na família - pai, mãe, irmãos, avôs, tios, primos - que um dos princípios basilares do Estado Democrático de Direito, inviolável, determina que 'todos são inocentes, até que se PROVE o contrário'. No Brasil, já faz tempo, estamos invertendo essa máxima, transformada agora em 'você é culpado porque eu quero e digo e dane-se se não conseguir provar sua inocência'. Pobre democracia.
E os veículos jornalísticos ainda alegam que estão "prestando serviço público", quando na verdade estão representando e publicizando poderosos interesses privados. Querem ter o direito de informar - mas se 'esquecem' que essa prerrogativa deve ser acompanhada do dever de fazê-lo com justiça, transparência, equilíbrio, honestidade e responsabilidade. Pobre jornalismo.
Pronto. Já podem me chamar de 'petralha corrupto'.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

AMIGOS, ESTOU PENSANDO EM CASAR DE NOVO

Confesso que andava meio acabrunhado com o facebook. Vontade danada de sumir por uns tempos, fazer hibernar minha conta, acatando conselho de alguns amigos que se arretaram e decidiram se afastar do festival de asneiras que assola a rede. Já não tinha mais Dramin B6 que desse jeito nas náuseas. Estava quase concordando com uma amiga muito querida, que costuma chamar o face de anticristo, por conta das intolerâncias, preconceitos e namoros com a Idade Média que encontramos por aqui. Mas eis que a engenhoca criada pelo geniozinho Zuckerberg me fez sorrir de novo. Acorda, Chico, deixa de ser ranzinza. Quanto pessimismo. Não reclama. Sua vida é bela. Fui obrigado a concordar. Compungido. Tomei um choque de realidade. Depois do que li hoje, nada mais tem importância - o fedor do debate político que anda insuportável, o fato de o Brasil estar sendo varrido por onda conservadora, os tempos cinzentos que se anunciam no horizonte. Tudo bobagem, babaquice e mesquinharia. Fundamental é mesmo prestar irrestrita solidariedade a quem confiou piamente em padrinhos de casamento e foi mortalmente traída. Sabes o que é isso? Terrível! Uma desgraça! Você entrega seu futuro nas mãos de alguém que você considerava pra caramba e... fica a ver navios. Abandonada. Esquecida. Jogada às traças. Como assim? Foi o que aconteceu com uma pobre coitada que resolveu usar o face para fazer um tocante e justíssimo desabafo. Em resumo, a rapariga dizia no texto que postou "estar muito chateada com um casal de padrinhos que não tem noção do quanto custa pra fazer um casamento". O drama: quando fez os convites, a moçoila especificou para cada casal convidado para abençoar o matrimônio quais os presentes que deveriam ser ofertados, definindo ainda prazos para as entregas. Ela precisava montar a casa dela, oras bolas. Como a data estabelecida já tinha estourado, e um presente ainda não havia chegado, ela resolveu conversar com os padrinhos furões. Tudo com muita educação e elegância, claro. Regras de etiqueta. Pois não é que os maledetos e ingratos tiveram a ousadia de dizer que não poderiam mais arcar com o presente combinado, pois tinham investido em equipamentos de um curso para o filho? Quanta audácia. Não satisfeita, a dupla teve a pachorra de dar apenas 500 reais para os afilhados, em espécie, para que pudessem gastar a verba da forma como julgassem melhor. Aí já é demais. Quinhentos mangos? E a noiva é lá senhora de aceitar esmolas? Justo para ela, que detesta e abomina o bolsa família, essa migalha doada a vagabundos. Teve impulso de rasgar o dinheiro, de cuspir nos padrinhos. No face, a rapariga traída escreveu "o que eu faço com 500 reais? Achei uma falta de consideração da parte deles. Se não iam poder dar o presente, por que aceitaram ser padrinhos? Depois, se sabiam que tinham uma responsabilidade como padrinhos, podiam muito bem ter esperado mais um pouco para o curso do filho. Afinal, eu estava contando com isso. Tô muito chateada e com muita vontade de desconvidar o casal, mas ele é o melhor amigo do meu noivo (imagina se fosse inimigo) e acho chato chamar alguém tão em cima da hora". Que situação. Daqui, só posso dizer: minha filha, tens toda a minha incomensurável solidariedade. Tremenda sacanagem. Absurdo. Que raios de padrinhos são esses que não entendem esse negócio chamado casamento? Mais, querida do face: preciso te agradecer, do fundo do coração. Porque você me acordou para a vida, me deu uma ideia genial. Vou pedir de novo a mão da Elisa Marconi em casamento. É, nossa união é apenas civil, vamos agora investir forte no matrimônio religioso. Sagrado sacramento mercantilista. Certamente vamos aprender com os erros tão tristemente relatados pela senhorita. Antes de fazer os convites para os padrinhos, faremos uma reunião solene e exigiremos declarações de imposto de renda, holerites e extratos de movimentações das contas correntes dos últimos três meses. A partir dessa triagem, será estabelecida a divisão dos presentes. Tudo com muita parcimônia. Queremos um apartamento novo, área nobre da cidade, terracinho gourmet, sauna, piscina, quadras, academia e pelo menos quatro vagas na garagem. Óbvio, câmeras de segurança espalhadas pelo condomínio, cercas eletrificadas e homens de preto nas guaritas e nos muros, armados, para reforçar proteção. Uma casa em Orlando, para passar as férias com o Mickey. Viagem de lua de mel para Cancún. Tinha pensado numa SUV, mas diferenciados já me disseram que é meio brega. Melhor exigir uma mercedes. Ah, vá, tudo bem, pode ser uma SUV também. Para variar. Ostentar. Tudo a nossa cara, Elisa! Nada mais de vida miserável! E seremos felizes para a sempre, até que a morte nos separe. Meus amigos, por essas e por outras é que não saio mesmo do face. Não arredo pé. É muita felicidade. Um manancial de ótimas ideias. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

VOU-ME EMBORA PRA REPÚBLICA DO NORDESTE

Meus queridos irmãos nordestinos, lamento muito, peço desculpas, mas a latrina fedorenta foi novamente destampada pelos bandeirantes civilizados aqui do estado que é a locomotiva da nação. E aí vocês já sabem como é, diarreia esclarecida e água barrenta diferenciada para todos os lados. Alto nível, sempre. Não do Cantareira. Das falas nossas de cada eleição. Porque aqui somos todos bem educados, muito informados, graduados, especialistas, doutores. Nada de grotões, dos quais queremos distância. E tome 'bolsa vagabundo, só pensam em ter filhos, ignorantes que não sabem votar, vermes da nação' e outras elegâncias quatrocentonas. Óbvio, já resgataram e vociferam o progressista e ancestral 'é preciso separar São Paulo desse resto do país. Não dá mais para aguentar essa ralé nordestina'. Pois querem saber, meus companheiros aí de cima? Tomem as rédeas do processo e da história e definam a separação. Desenhem as linhas divisórias. Proclamem a independência da República Nordestina. Antes que algum aventureiro o faça. Deixem o Sul maravilha a ver navios. Só peço que me concedam, por gentileza, a cidadania nordestina. Para mim, Elisa Marconi, Luiza e Daniel. Será uma honra imensa pular o muro, atravessar a fronteira e conviver com nossos iguais. Nas dores e nas delícias de sermos o que somos. Humanos. Recebam em terras de vocês essa família que tanto respeita e admira essa região e seu povo. Que prazer. Que alívio. Muito obrigado. De coração.

domingo, 28 de setembro de 2014

GERALDO, DEVOLVA MEU BANHO

Você nem bem começou a entoar, afinadíssimo, aqueles mágicos primeiros versos do clássico do Wando, ‘você é luz, é raio, estrela e luar, manhã de sol...’, e lá vêm aquelas pancadas nada delicadas e que te fazem pular de susto, ‘pow, pow, pow’ na porta do banheiro. O grito de alerta que chega lá de fora lembra a tragédia anunciada. ‘Ei, vai logo, não demora, sem enrolação. Vai acabar a água do Cantareira’. Fato consumado: Geraldo Alckmin alcançou a proeza de colocar ponto final num dos mais humanos prazeres que já fomos capazes de inventar. Nada mais de um bom, reconfortante e demorado banho. Nem pensar em cantar no chuveiro. A ordem agora é ser breve. Brevíssimo. Bravíssimo, Geraldo. Entra, molha, ensaboa, enxagua e sai. Para ajudar a preservar o tantinho que ainda resta de um reservatório moribundo, agonizante, em seus últimos suspiros. Estamos chegando ao volume de cadáver em composição. Porque o morto já foi novamente assassinado. Duplo homicídio. Gerenciamento exemplar, planejamento de dar inveja. Privatiza a empresa que cuida da água, vende ações nos Estados Unidos. Prática de primeiro mundo. Arrebenta. Esgota. Esgoto. Tudo o que for possível. Sem dó. É ano de eleição. Não pára, não pára, não pára. Racionamento? Não, que bobagem. Só contingenciamento, para não acabar com a reserva técnica. Os tucanos adoram eufemismos. Especialistas alertam para resíduos, elementos químicos, tratamento não adequado. Estado de atenção. Doenças. O governador garante que não há perigo. Faz pose para fotos em tempo de campanha. Jura que bebe água da torneira. Selo de qualidade alquimista. Estamos trabalhando. Qualquer dia desses, aliás, no meio de um debate ou da propaganda eleitoral, cuidado, Geraldinho Boa Pessoa vai ter uma distensão buco-maxílica. Sério. Fico preocupado. Porque ele movimenta todos os músculos da face - e mais alguns outros - para dizer sempre que 'esss-ta-mos trrra-ba-llhhan-do peee-lass peeess-ssso-ass'. Impressionante. Fico aqui na frente do espelho ainda embaçado, depois de mais um banho relâmpago, tentando imitar, reproduzir. Não consigo. Deu câimbra. Socorro, acudam, preciso de massagem facial! E de um bom banho. Daqueles de deixar a água cair sem dó enquanto se pensa na vida, sem compromisso, quentinho, fumaça tomando conta do banheiro, sem vontade alguma de sair do box. Frio danado do lado de fora. Seis da matina. Numa cidade bipolar climática como São Paulo, dez de temperatura pela manhã e trinta no final da tarde, tenho saudade também de uma ducha gelada antes de dormir, daquelas de refrescar todos os ossos e músculos do corpo. Sem chances. Agora é só tcheco, tcheco, imita o gato, bacia e canequinha. Rapidinho. Mais grave, dom Geraldo de Pinda conseguiu por tabela estragar um de meus mais produtivos momentos intelectuais. É duro. A falta de água atinge diretamente instantes mágicos de minha criatividade. Sério, já perdi a conta de quantos lides (abres de matérias, no jargão jornalístico) escrevi enquanto tomava banho. Lembro de uma reportagem sobre estudos a respeito de atraso na percepção de objetos que não havia jeito de desencalacrar. Conceitos de Física, modelos matemáticos, circuitos neuronais, córtex cerebral. Um inferno. Anda de lá, anda de cá, revisa anotações, rabisca. Nada. Deixei quieto. Fui tomar banho. Relaxa. Desliga. Eureka! Os parágrafos começaram a aparecer, um a um, bonitos, encorpados, coerentes. No compasso da água que batia no chão. Com o chuveiro funcionando a todo vapor, sem olhar para o relógio, encontro maneiras mais didáticas de explicar um problema de Matemática para a filha, faço as contas dos pontos que faltam para escapar do rebaixamento (que fase, Santos), monto questões de provas de várias disciplinas, organizo o orçamento do mês. Dá até para pensar com cuidado no que responder para aquele sujeito mala que você sabe que, bem cheirosinho, vai ter que encontrar logo em seguida numa festa e que faz sempre questão de dizer em alto e bom som que bolsa-família é coisa de vagabundo e que casamento entre homossexuais é inadmissível, negócio de gente doente. Claro, ele elogia o Geraldo, que considera excelente administrador. Não fosse o governador, jura, a água já teria acabado. Competência acima de qualquer suspeita. Vão vendo. Se estamos assim em setembro, imaginem na Copa, quer dizer, perdão, imaginem no verão. Dezembro de fritar ovo no asfalto. Aquele calor insuportável, reuniões e relatórios em salas fechadas e sem ar condicionado durante todo o dia, corpo grudento e melado. No final do expediente, a vontade inenarrável de ligar o chuveiro e esquecer que existe amanhã. Opa, alto lá, pode parar por aí, só pode banho bem rápido. Manda ver no estilo francês. Perfuminho no cangote. Bota a sovaqueira para arejar. Desodorante 48 horas. E taca-lhe pau. Porque o nível do Cantareira é o mais baixo da história. Quanto mais cai, mais sobem as intenções de voto no governador do volume morto. Reeleição à vista. Em primeiro turno. Ele nada de braçada em águas calmas e cristalinas. A gente fica com a crise de água no colo. Mais quatro anos alquimistas. Cantareira seco, tropa de choque e balas de borracha, estupendos setenta quilômetros de metrô, escândalo do trensalão, professores mal pagos, saúde sucateada, movimentos sociais criminalizados, especulação imobiliária, reintegrações de posse violentas. Sem direito sequer a um banho que se preze, banho de verdade. Mais quatro anos de Tucanistão. Putz, preciso tirar o moleque do chuveiro. Quase cinco minutos. Pow, pow, pow. ‘Chega de cantoria, filho. Sai já daí. Olha o nível do Cantareira. Vai acabar.'

domingo, 14 de setembro de 2014

FUTEPINHA

Daniel passou três dias num acampamento com a escola, perto de Campos do Jordão. Na véspera, era só alegria e empolgação. Folgado que só ele, ajudou até a arrumar a mala, preocupadíssimo em levar as trocentas camisas de times de futebol. O resto era absolutamente supérfluo, desnecessário. Fizemos, claro, e várias vezes, todas aquelas recomendações chatas e cansativas que todos os pais fazem, desde os tempos das cavernas - agasalhe-se, coma direitinho, não esqueça das frutas, cuidado com as brincadeiras em piscinas e lagos, nada de empurrar amigos ou de pular no raso, terminando com o efusivo 'divirta-se, aproveite muito'. E aquele aperto no coração quando o ônibus partiu, a garotada pulando, batucando e acenando. Tempo curto, só 60 horas sem o moleque por perto, mas bateu saudade danada, que tentava resolver procurando fotos das aventuras no site do acampamento. Encontramos bem poucas - uma no lanche, outra numa brincadeira com corda e algumas em que o maluco aparecia com lama do dedinho do pé até a raiz do último fio de cabelo, depois de atravessar a famosa e temida Trilha do Barroso. E só. Ainda comentei em casa - acho que o Dani foge do fotógrafo. Quando ele chegou, Elisa Marconi não perdeu tempo em aplicar a também tradicional sabatina de checagem.
- Filho, você não foi na piscina?
- Fui, mãe, mas só uma vez.
- Por quê?
- Estava jogando bola.
- E na tirolesa?
- Preferi ficar jogando bola.
- Teve charrete também, né?
- Teve. Mas eu estava jogando bola.
- Poxa, mas você passou três dias jogando bola?
- É... Quase. Porque teve uma hora que os monitores tiraram a bola da gente.
- Ah...
- Mas aí a gente jogou futepinha!
- Como?
- É futebol com a pinha, aquela fruta!
E ninguém teve ideia de tirar foto do sensacional clássico de futepinha.

sábado, 6 de setembro de 2014

DESCULPAS? NÃO ACEITO

No estádio de futebol, partida transmitida ao vivo para todo país, não teve o menor pudor de berrar e de xingar de macaco o goleiro do time adversário. Mas foi sem querer, tensão do momento, o time estava perdendo. Arrependeu-se, chorou sem lágrimas. Pediu desculpas, a intenção nunca foi ofender. No programa de humor ou no palco de uma dessas comédias stand-up, contou piada fazendo troça da homofobia. Morreu de rir da própria fala, quase perdeu o fôlego, achando-se estratosfericamente engraçado. Aproveitou para dizer que judeus do bairro de Higienópolis não querem metrô porque a última vez que eles chegaram perto de um vagão de trem foram parar em Auschwitz. Como tudo era afinal só mesmo um espetáculo, show, entretenimento, não perdeu a oportunidade de tirar sarro também dos nordestinos, que não reclamam de viver sem água, sem eletricidade e sem papel higiênico. Mas foi tudo piada, tranquilo, sem essa de politicamente correto, por favor, o que se desejava era só fazer rir, sem ofensas ou preconceitos. Achou tudo tão normal e inofensivo que nem precisava pedir desculpas. O garanhão engravatado desferiu uma violentíssima cotovelada no rosto da moça que tentava falar com ele. A garota foi parar na UTI de um hospital, traumatismo craniano. O mancebo disse que agiu por impulso, sem pensar, ela estava enchendo o saco. Perdeu o controle. Nada de machismo, violência contra a mulher. Culpa de um instinto instantâneo. Pede desculpas. O governo federal não tem muito a fazer sobre os casos de racismo e a respeito dos assassinatos de negros. Mas pede desculpas. A candidata que tinha incluído no programa de governo a aprovação da lei que criminaliza a homofobia e o casamento de homossexuais pede desculpas, mas não era bem isso, houve um erro de diagramação. Sumiu tudo, num passe divino de mágica. O candidato com penas não tem mesmo muito a dizer sobre a violência contra a mulher. Nem pede desculpas. Não está preocupado com o tema. Sem que ninguém pedisse desculpas, quarenta mil negros foram assassinados no Brasil em 2013, a imensa maioria nas periferias, franjas e favelas das grandes cidades. Higienização social. Podemos dormir tranquilos. Não há racismo no Brasil. Sem que ninguém peça desculpas, um homossexual é assassinado a cada 26 horas no Brasil. Intolerância perversa. Não estressem, a homofobia é realidade apenas de outros países. Aqui, não. Sem qualquer pedido de desculpas, foram quase 50 mil os estupros registrados no Brasil em 2013, sem contar os casos não notificados pelas mulheres humilhadas. Sem desculpas. A culpa, lógico, é de quem sai com roupas provocantes na rua. Está pedindo para ser atacada. Se souber se vestir e se comportar como menina de bem e de família, nada vai acontecer. Amém. Caros, me desculpem. Não há desculpas. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

CAMINHANDO COM AS PRÓPRIAS PERNAS

A mensagem pipocou e iluminou a tela do celular no final da manhã. “Posso ir a pé e sozinha para a aula de agora à tarde?”. Truco. E não tenho cartas na mão. Fui pego de surpresa. Primeira vez. Vá lá, já zanzou sozinha aqui pelas redondezas, mas foram sempre distâncias curtinhas, saídas breves. Treinos. Seria a primeira aventura pedestre tão ousada. Será? “É muito longe, filha”, respondi. Sem convicção. Bobagem. Só para ganhar tempo. Sabia que ela insistiria no assunto. Conheço a fera. Só estava cobrando a fatura daquilo que estamos conversando nos últimos tempos – autonomia, independência, confiança. Cresceu. É mocinha. Desafios novos. Estaremos sempre, sempre por perto. Mas tem um novo mundo aí para você. Vá lá, desbravá-lo. Bonita fala. Mas agora é para valer. Truco. Nem bem tinha entrado em casa para o almoço, volta das aulas da manhã, bateu de novo na tecla. “Viu minha mensagem? Quero ir sozinha agora à tarde. Posso?”. Saída estratégica leão da montanha pela esquerda, ainda acusando o cruzado de direita no queixo, saí do corner, quando o árbitro já ameaçava abrir contagem para o nocaute, e ofereci solução intermediária. “Daqui até lá não dá, é uma boa pernada, como escrevi. Mas te deixo ali perto, naquela esquina onde normalmente a gente pára. Dali, você segue sozinha. E eu vou para a universidade”. Topou sem piscar os olhos. Com sorriso de conquista no rosto. Que se cumpra o combinado. Guardou o celular? Fechou a bolsa? Anda sempre com ela na frente do corpo, tá?. Atenção aos sinais, certo? Espere o verde de pedestres. Atravesse sempre na faixa. Linha reta. Sempre atenta. Cuidado. Ela logo percebeu que a lista seria infinita. Talvez fosse uma última tentativa de adiar aquele momento. Vai que ela desiste. Nada. Pode deixar, pai. Fique sossegado. Confie em mim. Ainda teve tempo de me fazer delicioso carinho no ego. Que aula você dá hoje, pai? Pois você vai ter de esperar eu passar na faculdade. Porque quero ter aulas de Teoria Literária com você. Agora sim, nocaute. E ainda ganhei um beijo! Nocaute duplo, implacável. Bateu a porta do carro. Lá foi ela, lindíssima, botas novas, boina na cabeça, cachos esvoaçantes. Ainda a vi caminhar por uns cem metros, mirando o espelho retrovisor. Até sumir do meu ângulo de visão. Respirei. Acelerei. Liguei o rádio, como sempre faço, para ouvir notícias. Zero de atenção. Não sou capaz de lembrar de qualquer fala da âncora, dos repórteres. Só fazia olhar para o relógio do celular. Contava os minutos e tentava imaginar onde ela estaria. Atravessando a avenida. Descendo o ladeirão, agora. Isso, virando na curvinha. Cinco minutos. Cheguei a discar para o celular dela. Cancelei. Caramba, já deu tempo. Parei num farol. Dez minutos. Pintou mensagem no zapzap! Ufa... Pai, cheguei bem. Engatei a primeira marcha, aliviado. Orgulhoso. Ri de mim mesmo. Foi só a estreia.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

ENTREVISTA RÁDIO GLOBO - 'MEMÓRIAS DE UMA COPA NO BRASIL"

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São quase vinte minutos de uma animada conversa futebolística/copística com a Juliana Cabral e o Rafael Esgrillis, da rádio Globo AM. Foi na noite de quinta-feira, 24 de julho. Muito divertido. Espero que se divirtam também. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

RECEITA PARA CHEGAR AOS 50% DE VOTOS

Há coisas na vida que, confesso, já desisti de entender. Por exemplo: os 50% de intenção de votos em certo governador tucano que administra o maior estado da nação e, candidato à reeleição, provavelmente sairá vencedor da disputa já no primeiro turno. Trata-se de fenômeno que escapa das minhas modestas capacidades de análise. Indecifrável. Já pedi até ajuda aos universitários. Refugaram. Passaram a vez. Tentei recorrer às ciências políticas, à sociologia adorniana e da Escola de Frankfurt, à ideia dos aparelhos ideológicos do Estado, à reificação da mercadoria, aos estudos culturais latino-americanos sem dinheiro no banco, aos realistas, aos idealistas, à geometria analítica, à teoria dos conjuntos, à regressão à média, ao teorema de Pitágoras, ao como queríamos demonstrar e à análise combinatória. Em momento de desespero sufocante de necessidade de compreensão, apelei de olhos fechados para as ervilhas amarelas e verdes, tentei fazer como aquele descabelado linguarudo e apostar corrida com a luz, recorri à física quântica e à bioinformática, fui estudar de novo cálculo estequiométrico e gritei 'socorro' para o acelerador de partículas que conseguiu confirmar a existência do Bóson de Higgs.Nada funcionou. Nadinha. Não há cristo (nem mesmo ele) que consiga me apresentar explicações minimamente convincentes para tamanha tragédia que se anuncia. Um segundinho... Num estalo que veio como faísca, acabo de lembrar de um conto do mestre Machado, chamado "Teoria do Medalhão". Em linhas bem gerais, e assumindo o assassinato literário (me perdoe, Bruxo do Cosme Velho), a história sugere o que fazer para ser um medalhão - aquele sujeito bacana, boa pinta, líder de equipes, que jamais manifesta opinião própria, abusa dos clichês de linguagem e reproduz o senso comum para cair no agrado de todos. É um libelo contra a mediocridade que contamina as sociedades. O cretino que convence. Será que é por aí? Vai ver talvez então exista uma fórmula para cair nas graças da população, bater 50% no Ibope/Datafolha e reeleger-se em primeiro turno. O que fazer? Prioridade número um - arrebentar os reservatórios de água do Estado. Puxar deles até o que não têm. Volume morto nas torneiras! Algum técnico boi de piranha se encarrega de garantir que a situação está sob total controle e que não será preciso adotar racionamento. Importante também é prometer quilômetros e quilômetros de metrô, estações espalhadas por todas as regiões da capital do estado, exibindo gráficos mirabolantes e coloridos e animações impressionantemente futuristas e escalafobéticas durante a campanha. Para depois deixar todas essas promessas dormirem tranquilamente em gavetas da administração. O que sair do papel terá certo custo extra, não previsto nos orçamentos originais, recursos não contabilizados, sabem como é, umas relações, sei lá, meio esquisitas com empreiteiras e empresas estrangeiras, uns negócios chamados pela Justiça de propinas (palavrinha esdrúxula, nem sei o que é isso), uns depósitos amigáveis em contas de figurinhas carimbadas. Aposte ainda em deixar o poder público ser submetido aos ditames do crime organizado. Mas garanta sempre, nas entrevistas coletivas e não coletivas, que a organização criminosa foi destroçada, não ameaça mais nem mesmo uma formiguinha. Jogo de cena. Espetáculo. Não esqueça. Em protestos de rua, deixe a Polícia Militar descer o cacete e o cassetete nos manifestantes. Democraticamente. Convoque a Tropa de Choque. Viaturas. Bombas de gás lacrimogênio. Balas de borracha. Meta a bota na porta e faça a limpa nas periferias e favelas. Poucos são mesmo os que se importam com o que acontece com nessas franjas infestadas de bandidos. Governe para os homens de bem. Sucateie Saúde e Educação. Não repasse verbas para a Santa Casa. Desvalorize os professores. Arrende as estradas, a preços de ocasião, autorizando a cobrança de tarifas de pedágio escorchantes. Vinte e cinco contos para andar cinquenta quilômetros, descer a Serra do Mar e desembarcar na Baixada. Se o trânsito enroscar, rasgue mais pistas marginais. Com asfalto do bom e do bonito, claro. Transporte público? Nem pensar. Jamais atrapalhe a vida dos motoristas de carrões. Finalmente, sempre que questionado, escancare sua expressão de picolé de chuchu e repita bem pausadamente o ensaiado "estamos trabalhando. Já instalamos comissão para investigar o assunto. O que nós queremos é trabalhar para as pessoas. A culpa é do PT". Funciona. 50% de votos! Por quê? Não faça pergunta difícil. Continuo não sabendo. Mas vou correndo lá reconhecer firma, registrar em cartório e solicitar patente desse método infalível. Antes que algum marqueteiro aventureiro lance mão dele.

terça-feira, 29 de julho de 2014

PROCURA-SE BAKUNIN. PAGA-SE BEM

Era difícil se movimentar na sala discreta, acanhada e inundada por parafernália de fios coloridos pendurados em todos os cantos. Fumavam freneticamente. Era automático, em sequência, nem pensavam - acendiam um novo cigarro na bituca do outro, antes de finalmente apagá-la no pires de café que fazia as vezes de cinzeiro. Os olhos lacrimejavam. Pouco se importavam. Durante o dia, tinham matado meia dúzia de barras de chocolate. As embalagens vermelhas e melecadas ainda estavam rasgadas e jogadas no chão. Agora, mandavam ver em sanduíches do McDonald's. Dois Big Macs e dois Quarteirões. Batatas fritas. P1 limpou com o dorso da mão o filete de queijo cremoso que ficou preso no bigode. Virou de uma vez só um golaço de coca-cola, copo grande. Light. Soltou um arroto, falando quase o abecedário inteiro. P2 caiu na gargalhada. Maluco, pegamos aqueles terroristas de surpresa. Que maravilha. Os elementos nem tiveram tempo de se evadir, meu chapa. QAP. Certo, copiei. QSL. Valeu. TKS. Perdão, foi esse maldito rádio. Como estava dizendo, a operação foi nota dez. Tudo na maciota. Sigilo total. E a carinha daquele babaca daquele filhinho de papai que estava com a lata de vinagre escondida na mochila? Molotov puro. A namoradinha estava limpa. Mas o Vagnão foi mais esperto, rato velho, soltou um panfleto subversivo na bolsa da malandra. Foi enquadrada junto. Cretina. E agora fica esse povinho dos direitos humanos falando em prisões ilegais, fazendo campanha sem vergonha pela libertação desses terroristas. Porra, os caras são meliantes, sujeitos de alta periculosidade, ameaçam quebrar tudo, falam em revolução, pregam contra o tal de sistema. Formam quadrilha. Planejam atentados. E querem ficar soltos? Tem de prender preventivamente mesmo. Antes que a porcaria da merda aconteça. Se ainda não fizeram, vão aprontar. Pode ter certeza, meu irmão. Às favas com os escrúpulos de consciência. Ouvi isso outro dia, do chefe. Ele contou que é da época da ditadura. Outros tempos. Hoje a coisa é bem diferente. Só estou encafifado porque ainda falta o cabeça. É, o cabeça, maluco. O chefão. O que apita. O que manda. P2 fez sinal com as mãos, agitado. Rápido, para de falar e ouve. Ouve! Estão se falando! Vai, vai, vai! Sentaram imediatamente. P1 quase se estatelou no chão. Foi salvo pela pontinha da cadeira. O ossinho da bunda doía. Fones de ouvido a postos. Garranchos começaram a aparecer nas folhas de papel estrategicamente colocadas ao lado dos aparelhos de gravação. A ligação foi rápida, pouco mais de um minuto. Olharam-se. Quase ao mesmo tempo, arrancaram os fones, atirados longe, e saíram correndo. P1 empurrava P2, que atropelava P1, que tentava ganhar a frente de P2, que quase conseguiu passar um rodo em P1. Entre ombradas e pernadas, chegaram juntos à sala do delegado. Chefe, chefe, conseguimos, não falta mais nada. Quadrilha completa. Missão cumprida. Temos o nome do chefão da quadrilha! É, a ligação estava meio ruim, uns chiados. Mas deu para ouvir os dois subversivos grampeados falando em destruir o sistema, em anarquismo coletivista, em acabar com as classes. E citaram com todas as letras o sujeito que está inspirando esses atos terroristas todos. É o manda-chuva, vai na nossa, só pode ser. Chama-se Bacurin. Não, peraí, está aqui anotado. É Bakunin! Isso, Bakunin! Tenho certeza. Anotei direitinho, não tem erro. Ba-Ku-Nin. Veja aqui. Deve ser gringo. E precisamos ser rápidos, senhor, os tontinhos estavam saindo de casa para um seminário com ele. Sim, certeza, textos xerocados e tudo. Encadernados. Material explosivo. Onde? Na universidade. Federal. Se a gente acelerar, pegamos todos juntinhos, de uma tacada só. Perfeitamente, vou pedir os mandados de prisão e preparar a equipe. Preciso dos outros dados do tal Bakunin, Procura lá nos registros, P2, RG, CPF, filiação, endereço. Rápido e rasteiro. Chegou seu dia, Bakunin. Nos aguarde! E lá se foram os dois pelos corredores da delega, punhos e dentes cerrados, sem conseguir esconder a felicidade da conquista.

sábado, 26 de julho de 2014

A MÃO INVISÍVEL DOS BANCOS

Quer saber qual é seu saldo? Um momentinho, por gentileza. Pode antes confirmar seus dados? Nome completo. CPF. RG. Endereço completo. Data de nascimento. Tipo sanguíneo. Time do coração. Nome da sogra. Não sabe? Sem problemas, pulamos essa. Tudo certinho. Confere. Ok, meu senhor, já localizei. Mas tem uma taxa. É quase irrisória. Sim, mesmo sendo informação por telefone, pelo Disque XYZ. Apenas a ligação é gratuita. E olhe lá. Lamento. Já é grande diferencial. Quer ainda saber o saldo? Anote, por favor. Extratos? Tens direito a dois detalhados por mês. Se precisar de extrato extra? É pago. Nada sai de graça nessa vida. Mas, veja, oferecemos uma série de contrapartidas. Cheque especial com juros bem modestos, por exemplo. Percentual acima da inflação, claro. Porque não somos instituição de caridade, oras. Lucro por acaso é pecado? A bíblia condena? Pois se até as igrejas se transformaram em entidades com muitos fins lucrativos. Alô, senhor fulano? Ainda está na linha? Não desligue. Sua ligação é muito importante. Quero aproveitar a oportunidade. Sou consultora de pessoal do banco XYZ. Trabalhamos sempre em seu benefício. Para fazê-lo feliz. Estamos aqui analisando sua movimentação de conta corrente. O senhor é um homem de bem. Por isso vou estar te oferecendo mais algumas vantagens. Limite maior, por exemplo. Dez dias sem juros. Já tem? Quinze, então. Podendo parcelar a dívida em até doze meses. Qualquer dívida. Cartão de crédito para ser usado no exterior, em qualquer país. O senhor é cliente master. O banco? Tem retorno garantido. Ganha sempre, claro. Mas isso são outros quinhentos. Se já fiz as contas de todas essas operações e multipliquei pelo número de correntistas para apurar com mais precisão quanto fatura a instituição? Não, não fiz. Sinto muito, senhor, essa não é minha tarefa. Não posso. Não adianta insistir. Por favor. O mais importante é a satisfação do senhor. Veja só, temos também seguro-saúde, previdência privada, financiamento para o seu carro zero, poupança universitária para os filhos. Tudo com condições especiais e facilitadas. Oferta única. Pacotão da felicidade. Cobrimos qualquer proposta da concorrência. Se a instituição XYZ não ganha? Já me fez essa pergunta. Eu respondi. Quer ouvir de novo? Ganha muito. Desde sempre. Capitalismo sem riscos. Até porque, se a gente quebrar, o senhor sabe, haverá sempre um programa emergencial com dinheiro público para resgatar nossa liquidez. Mas não espalhe. Segredo. Boatos são sempre prejudiciais ao sistema. Não, essa ligação não está sendo gravada. Para minha segurança. Se há ao menos preocupação com o meio ambiente? Não entendi sua dúvida. Ah, sim, Perfeitamente. É um tema fundamental para o planeta. Toda corporação deve ser socialmente responsável. Desenvolvimento sustentável. Lógico, sua vontade é muito importante. E sustentabilidade também é nossa meta. Nosso valor. Nossa missão. Posso ajudá-lo em algo mais? O banco XYZ agradece sua ligação e preferência. Nunca antes na história desse país os bancos ganharam tanto dinheiro. É grana que não consigo imaginar. Só o tal do Santander abocanhou seis bilhões de reais de lucro no ano passado. Se eu trabalhar cem anos, não vou ver quantia sequer parecida. Pois esse mesmo Santander resolveu alertar seus clientes vips, que são de fato aqueles que interessam ao sistema - 'cuidado, esse nefasto governo é prejudicial à saúde do país. Quando Dilma sobe nas pesquisas, o mercado fica nervoso. Tenso. E você, cliente, sai perdendo'. Sei não. Deixa ver se entendi... se o sistema treme quando a presidenta sobe, logo deve ficar mais calmo e sereno se ela cair e outro candidato melhorar seu desempenho nas pesquisas. Bingo. Campanha eleitoral escancarada. Espalhando medo e insegurança. Eita tática velha. O governo faz cara feia, mas acha legal dormir com o inimigo. É a governabilidade. Aceita as desculpas. Até a próxima investida bancária. E tem gente, meus amigos, que ainda acredita na neutralidade e na mão invisível do mercado. São os mesmos que acreditam nos projetos sociais patrocinados pelos bancos. Marketing puro. Em nome da força da grana que ergue e destrói coisas belas, vale qualquer negócio. Até sabotar e detonar o governo que é a galinha dos ovos de ouro. Vai ver quem sabe talvez pode ser que alguma galinha (ou seria tucano?) esteja solta por aí, prometendo nos bastidores ovos com quilates mais polpudos de ouro. Trim, trim, trim. Alô? Pois não... quem é? Do banco ABC?