Mostrando postagens com marcador Corinthians. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Corinthians. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de julho de 2011

UMA VERGONHA CHAMADA ITAQUERÃO

O buraco começou a ser cavado - e não, não falo das obras de terraplanagem e fundação do estádio Itaquerão, mas dos recursos públicos canalizados para financiar o tal empreendimento. No mesmo dia em que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, levou às lágrimas Andrés Sanchez, presidente corinthiano, e assinou a lei que concede generosíssimos 420 milhões de reais em incentivos fiscais para a construção do estádio do Corinthians (e há quem diga que não são recursos públicos; me belisquem, por favor), a Odebrecht, empreiteira responsável pela obra, revelou que o governo do Estado de São Paulo bancará outros 70 milhões de reais para erguer o elefante branco, garantindo assim que a capacidade de público alcance os 68 mil lugares, mínimo exigido pela FIFA (comandada por executivos de ilibada reputação) para abrigar a partida de abertura da Copa do Mundo de 2014. 

Em linguagem matemática: os 820 milhões iniciais (orçamento oficialmente divulgado pelo Corinthians) já se transformaram, em menos de 24 horas, em 89o milhões de reais. Do montante total, os poderes públicos (municipal e estadual) se responsabilizarão por 490 milhões (55% do total, de cara, sem considerar as porteiras sempre abertas para novos auxílios, incentivos e aditivos). Os 45% restantes? Sabe-se lá de onde sairão - mas de que importa ter garantias e transparência, não é mesmo? O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está aí para o que der e vier, sempre a postos para bem servir, certo? Uma conta bem rápida e simples: 890 milhões de reais significam mais de 1 milhão e meio de salários-mínimos brasileiros (valor = R$ 545,00).

Não há santos nessa história (farra seria melhor?), que é para lá de suprapartidária: a prefeitura é do PSD (era do DEM), o Estado é administrado pelo PSDB, o BNDES é órgão federal (portanto sob orientação do PT), a aproximação entre a empreiteira e o presidente do clube foi em grande medida estimulada pelo ex-presidente Lula, aliado desde o primeiro mandato do grão-duque do futebol brasileiro, que por sua vez, além de muito próximo do mandatário corinthiano, finge ter rusgas com o pessoal da FIFA, mas vislumbra no horizonte e deseja ardentemente a presidência da entidade a partir de 2015 (depois da Copa, portanto). O Itaquerão acaba sendo portanto mais uma das tantas ações entre amigos que serão gestadas por conta dos megaeventos esportivos que acontecerão no Brasil nos próximos anos.

Antes que me ataquem, não escreve aqui o torcedor, mas o cidadão inconformado. Não condeno a construção do estádio do Corinthians, especificamente, mas o uso de milhões de orçamentos públicos já tão limitados para custear devaneios privados. Esse é o "xis" da questão. São essas relações espúrias e inaceitáveis que combato. Capitalismo sem riscos e sustentado pelo Estado - eis o melhor dos mundos! E não me venham dizer "ah, mas o São Paulo fez o mesmo com o Morumbi". Um erro afinal justifica o outro? Não demora muito e o Palmeiras vai entrar também na fila, a cobrar a fatia para erguer a Arena Palestra. 

Aliás, com tantos estádios na cidade que poderiam ser reformados e modernizados (Morumbi, Pacaembu, Parque Antártica, Canindé e até mesmo o de Barueri, nas fronteiras da metrópole), por que é mesmo que será preciso construir um novo? Na Copa do Mundo de 1994, os Estados Unidos não ergueram arenas - dedicaram-se a aproveitar e adaptar estádios de futebol americano, na maior parte das vezes. Aproveitamento futuro, desenvolvimento econômico e social da região? Perguntem aos sul-africanos que vivem no entorno do Soccer City, palco de abertura do último Mundial, o que aconteceu com o estádio e como vem sendo usado depois de 2010... São Paulo precisa mesmo sediar a partida de abertura? Por que, se Tóquio, por exemplo, que é capital do Japão, não recebeu jogos em 2002?

Sei que estou chovendo no molhado, batendo em teclas já tocadas por tantos outros brasileiros sérios e responsáveis, desnudando o óbvio ululante. Mas não consigo conter a indignação. Triste: para as "autoridades" brasileiras, as questões acima não são relevantes. Importante mesmo é "cumprir as exigências da FIFA". E usar e abusar do dinheiro público - de todos nós, portanto.

sábado, 16 de abril de 2011

A NOVELA PH GANSO EM SETE LIÇÕES

Virou uma novela, com requintes de um disse-que-disse bem ao gosto de uma certa parcela da crônica esportiva brasileira (grifo proposital, para escapar de generalizações injustas), o possível rompimento (ou não, como diria Caetano Veloso) do contrato que o craque Paulo Henrique Ganso tem com o Santos Futebol Clube. O desavisado que não acompanha futebol ficaria perdidinho da silva se de repente decidisse se informar sobre o caso e buscasse então notícias publicadas a respeito do jogador santista no último mês: Ganso já vestiu as camisas do Milan, da Internazionale de Milão e do Corinthians. Mas continua mesmo atuando pelo alvinegro praiano. Desse enredo confuso e estranho, consigo extrair sete lições, a saber:

Primeira lição - O clube de origem merece respeito
Jogador de futebol não é escravo. Tem o direito de escolher por qual clube deseja atuar, avaliando as condições de trabalho que lhe são oferecidas, como qualquer outro profissional. Trata-se de livre arbítrio. Cumprindo a legislação em vigor, as determinações fixadas em contrato e respeitados os compromissos estabelecidos por tal documento (assinado pelo atleta, não custa lembrar), pode trocar de time quando bem entender. O que se espera, no entanto, eticamente falando, é que o jogador tenha maturidade para encaminhar essa negociação de ruptura de maneira equilibrada e transparente, com lisura. E, se de fato estiver se encontrando com dirigentes de outras agremiações na calada da noite, sem que o Santos saiba de tais encontros e sem que participe diretamente das negociações (como aliás exige o estatuto da FIFA), para depois negar diante das câmeras e dos microfones que essas conversas nas catacumbas tenham sido encaminhadas, Paulo Henrique Ganso pode sim ter seu comportamento, para além dos gramados, fortemente questionado e duramente criticado. Jogadores, invariavelmente e com razão, cobram dos clubes que representam que sejam tratados com respeito e dignidade. Devem oferecer a contrapartida, mesmo nos momentos mais tensos e enrolados. O que vale para um precisa valer também para o outro lado. É via de mão dupla.

Segunda lição - Em campo, o craque tem sido exemplo
Se é possível criticar Ganso por aquilo que supostamente estaria negociando com outras equipes, a conduta do craque em campo, dentro das quatro linhas, tem sido até aqui irreparável, digna de aplausos. O jogo contra o Cerro Portenho do Paraguai, pela Copa Libertadores, foi a demonstração máxima desse profissionalismo. Ganso assumiu a responsabilidade de liderar a equipe que estava desfalcada, deu passes preciosos, cansou de colocar companheiros na cara do gol e foi um dos responsáveis pela vitória importantíssima. Foi com toda a justiça que o técnico Muricy Ramalho elogiou a participação do craque na partida. Justo reconhecer que já vinha sendo assim desde o jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto, quando retornou aos gramados. Não procedem, na minha leitura, os gritos que às vezes têm ecoado das arquibancadas e repercutido nas redes sociais acusando Ganso de mercenário. Em campo, repito, não tem sido assim. O atleta vem honrando o sagrado manto santista. O que ainda falta é um pouco de ritmo de jogo, natural para quem ficou sete meses sem atuar. Nesse aspecto, vale como referência para outros companheiros.

Terceira lição - Que diferença faz um técnico!   
Diante das idas e vindas do folhetim, Muricy Ramalho mostra que técnico ainda é peça estratégica e mais do que relevante em uma equipe de futebol. O treinador conseguiu isolar Ganso das pressões e reforçou ao jogador que, noves fora e transações à parte, é preciso treinar e jogar bola, enquanto o barco estiver ancorado em porto santista. Foi isso o que Ganso preocupou-se em fazer em Assunção, quando muitos corneteiros diziam que ele pouco se importaria com a disputa, pois uma eventual derrota do Santos aceleraria a ida do craque para o Corinthians, com quem já estaria apalavrado. Melhor: Muricy montou um esquema de jogo que favoreceu a genialidade de Ganso - ou seja, longe de queimar o jogador, tratou de aproveitar o que ele tem de melhor. O "se" não faz história, mas o enredo poderia hoje ser outro se Muricy tivesse chegado ao Santos antes. Tomara que ele consiga usar sua  experiência e liderança para chamar Ganso à realidade e convencê-lo do que ainda tem a conquistar (em todos os sentidos, inclusive financeiramente) se decidir permanecer no Santos. Ainda dá tempo.

Quarta lição - rivalidades clubísticas não podem assumir ares de trairagem
Caso as especulações se confirmem (prefiro tratar dessa maneira) e se Ganso for mesmo jogar no Corinthians, terá sido deplorável e lamentável a atitude da direção da equipe de Parque São Jorge, ao aliciar o jogador, à revelia da diretoria do Santos (prática que, reforço, é condenada pela FIFA). Pior: em público, o mandatário corinthiano só faz negar a eventual negociação e, de acordo com o presidente santista, Luis Álvaro Ribeiro, teria inclusive se preocupado em entrar em contato com a cúpula da equipe praiana para negar boatos e garantir que em hipótese alguma agiria de forma desleal e anti-ética. Chegou a chamar o Santos de "co-irmão". Se (sempre no condicional) Ganso desembarcar no Parque São Jorge apenas para concretizar o "clube de aluguel" e aguardar a janela de transferências do final do ano, será possível inferir que palavras corinthianas empenhadas valem quase nada e que as várias faces da conveniência e da dissimulação ditam as regras de conduta e comportamento por lá. Pode parecer antigo, ingênuo, romântico, "futebol é negócio", mas ainda sou de um tempo em que promessas - verbais inclusive - eram cumpridas. Tapetes puxados devem ser repelidos. Acirram ânimos dos torcedores, sempre passionais; deixam orgulhos tocados e feridas que demoram a cicatrizar, encaminhando projetos de vingança e de futuras disputas. Desnecessário. 

Quinta lição - forças não tão ocultas assim querem prejudicar o Santos
Foi Antero Greco, respeitado (com muita justiça) comentarista da ESPN Brasil e colunista do jornal O Estado de São Paulo, quem escreveu no twitter, em 12 de abril: "Não tenho rabo preso com ninguém e, graças a Deus, posso falar o que quero. Nessa história do Ganso, tem sacanagem contra o Santos. Fato." Não é segredo para ninguém que a DIS, braço futebolístico do grupo Sonda, detentora de 45% do passe do Ganso e responsável ainda por gerenciar a carreira do atleta, ficou ressentida com as mudanças promovidas no clube pelo presidente Luis Álvaro, principalmente em relação à divisão sobre porcentagens dos direitos de jogadores e à participação nas categorias de base do Santos. Há inclusive sérias disputas judiciais entre as partes. E ao que parece a DIS está usando Ganso para dar o troco no clube, tentando criar todas as condições para tornar insustentável a permanência do craque na Vila Belmiro. Dirá então que o clube não soube valorizar o atleta, que o camisa 10 está sendo hostilizado pela torcida e que deseja respirar outros ares. Vai fazer do jogador o santo e do clube, o vilão. Está de olho no negócio, nos milhões (de euros ou de reais) em questão. O experiente Elano declarou recentemente: "Ganso está sendo mal assessorado". Já é mais do que tempo de a legislação esportiva repensar tudo isso e se adaptar aos novos tempos. A Lei Pelé foi fantástica ao acabar com o passe e com a servidão. Mas fez um mal danado ao futebol ao dar brecha para o surgimento da figura do empresário - os novos senhores feudais do esporte, que controlam exércitos de jogadores.   

Sexta lição - Há uma guerra política interna. E a atual direção do Santos também erra.
2011 é ano eleitoral no Santos. A oposição, que deseja ardentemente retomar o comando do clube, não mede esforços para alcançar tal objetivo. O ex-presidente da agremiação tem aproveitado toda essa situação para tentar faturar politicamente e enfraquecer a atual administração. Já deu diversas declarações públicas afirmando que o patrimônio do Santos não está sendo bem cuidado. E, embora seja louvável o esforço feito para resgatar, modernizar e moralizar o clube (não há termos de comparação com projetos anteriores), precisa ser dito também que o presidente Luis Alvaro e sua diretoria escorregaram e não foram felizes ao congelar as negociações para renovação de contrato com Ganso, depois da contusão do craque. Deram munição para a DIS. Pisaram novamente na bola ao tentar fazer com que o jogador assinasse novo compromisso na concentração, às vésperas da partida contra o Colo Colo do Chile. Ficou parecendo pressão - e voltou a elevar a temperatura de uma disputa que vinha arrefecendo. Deram outra vez discurso para a DIS. Por fim, é preciso democraticamente debater e questionar a decisão da diretoria de também dividir direitos de jogadores com grupos de amigos. Permanecem pouco transparentes, ao menos para mim, as parcerias envolvendo o Santos e a Terceira Estrela Investimentos (TEISA), ligada à Guia, um grupo de empresários próximos do mandatário santista e que participa da aquisição de atletas (Neymar é o caso mais gritante. Não entendi as contas divulgadas pela diretoria). Para ser diferente, é preciso fazer diferente. Ser transparente. E explicar. Sem tergiversar. Não estariam sendo fomentadas novas relações duvidosas e futuras disputas envolvendo investidores e clube, outros "casos Ganso?". 

Sétima lição - Jornalismo não pode abrir mão de apuração
Infelizmente, o que se nota é que parcela representativa do jornalismo esportivo brasileiro parece se deliciar com a prática da boataria, em detrimento da velha e boa apuração. Polêmicas vazias envolvendo rivalidades entre clubes ajudam a vender jornais - mas prestam desserviço aos leitores. Talvez Ganso esteja mesmo negociando sua ida para o Corinthians. É uma hipótese, que precisa ser devidamente sustentada. Não nego - mas não boto a mão no fogo. Até porque até aqui ele só fez negar essa possibilidade. E olha que os urubus estão tentando com todas as forças arrancar essa declaração do jogador. Claro, dirão os iluminados, ele não seria tolo ou ingênuo de confirmar. Faz sentido, certamente. Não sou bobo. O que não se pode aceitar é que esse "não dizer" seja imediatamente substituído por especulações, boatarias, disse-que-disse, declarações secretas, declarações bombásticas, pirotecnias, desmentidos e balões de ensaio. Mesmo para oferecer o off (informação em que a fonte não é identificada) é preciso apurar, checar, confrontar, buscar segurança. Bob Woodward e Carl Bernstein, ícones do jornalismo investigativo e responsáveis pelo caso Watergate, teriam muito a ensinar a alguns de nossos afoitos repórteres (insisto: não é justo generalizar. Há gente séria fazendo jornalismo esportivo). Ganso pode ir para o Milan? Sim. Para a Inter? Sim. Para o Corinthians? Sim. Pode resolver ficar no Santos? Sim. No limite, tudo vale. Espalha-se a confusão e abre-se o leque de alternativas - para que, a partir do "tudo pode ser", o veículo possa ao final faturar, qualquer que seja o resultado da disputa. Se um dos clubes italianos sair vencedor, o discurso será "avisamos e levantamos essa lebre"; se o destino for o Parque São Jorge, comemorarão: "o furo foi nosso". Por fim, se nada mudar e o Santos renovar com o jogador, escreverão que "foi uma reviravolta inesperada de última hora". E seguirão em frente. Até o próximo folhetim.