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sábado, 16 de abril de 2011

A NOVELA PH GANSO EM SETE LIÇÕES

Virou uma novela, com requintes de um disse-que-disse bem ao gosto de uma certa parcela da crônica esportiva brasileira (grifo proposital, para escapar de generalizações injustas), o possível rompimento (ou não, como diria Caetano Veloso) do contrato que o craque Paulo Henrique Ganso tem com o Santos Futebol Clube. O desavisado que não acompanha futebol ficaria perdidinho da silva se de repente decidisse se informar sobre o caso e buscasse então notícias publicadas a respeito do jogador santista no último mês: Ganso já vestiu as camisas do Milan, da Internazionale de Milão e do Corinthians. Mas continua mesmo atuando pelo alvinegro praiano. Desse enredo confuso e estranho, consigo extrair sete lições, a saber:

Primeira lição - O clube de origem merece respeito
Jogador de futebol não é escravo. Tem o direito de escolher por qual clube deseja atuar, avaliando as condições de trabalho que lhe são oferecidas, como qualquer outro profissional. Trata-se de livre arbítrio. Cumprindo a legislação em vigor, as determinações fixadas em contrato e respeitados os compromissos estabelecidos por tal documento (assinado pelo atleta, não custa lembrar), pode trocar de time quando bem entender. O que se espera, no entanto, eticamente falando, é que o jogador tenha maturidade para encaminhar essa negociação de ruptura de maneira equilibrada e transparente, com lisura. E, se de fato estiver se encontrando com dirigentes de outras agremiações na calada da noite, sem que o Santos saiba de tais encontros e sem que participe diretamente das negociações (como aliás exige o estatuto da FIFA), para depois negar diante das câmeras e dos microfones que essas conversas nas catacumbas tenham sido encaminhadas, Paulo Henrique Ganso pode sim ter seu comportamento, para além dos gramados, fortemente questionado e duramente criticado. Jogadores, invariavelmente e com razão, cobram dos clubes que representam que sejam tratados com respeito e dignidade. Devem oferecer a contrapartida, mesmo nos momentos mais tensos e enrolados. O que vale para um precisa valer também para o outro lado. É via de mão dupla.

Segunda lição - Em campo, o craque tem sido exemplo
Se é possível criticar Ganso por aquilo que supostamente estaria negociando com outras equipes, a conduta do craque em campo, dentro das quatro linhas, tem sido até aqui irreparável, digna de aplausos. O jogo contra o Cerro Portenho do Paraguai, pela Copa Libertadores, foi a demonstração máxima desse profissionalismo. Ganso assumiu a responsabilidade de liderar a equipe que estava desfalcada, deu passes preciosos, cansou de colocar companheiros na cara do gol e foi um dos responsáveis pela vitória importantíssima. Foi com toda a justiça que o técnico Muricy Ramalho elogiou a participação do craque na partida. Justo reconhecer que já vinha sendo assim desde o jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto, quando retornou aos gramados. Não procedem, na minha leitura, os gritos que às vezes têm ecoado das arquibancadas e repercutido nas redes sociais acusando Ganso de mercenário. Em campo, repito, não tem sido assim. O atleta vem honrando o sagrado manto santista. O que ainda falta é um pouco de ritmo de jogo, natural para quem ficou sete meses sem atuar. Nesse aspecto, vale como referência para outros companheiros.

Terceira lição - Que diferença faz um técnico!   
Diante das idas e vindas do folhetim, Muricy Ramalho mostra que técnico ainda é peça estratégica e mais do que relevante em uma equipe de futebol. O treinador conseguiu isolar Ganso das pressões e reforçou ao jogador que, noves fora e transações à parte, é preciso treinar e jogar bola, enquanto o barco estiver ancorado em porto santista. Foi isso o que Ganso preocupou-se em fazer em Assunção, quando muitos corneteiros diziam que ele pouco se importaria com a disputa, pois uma eventual derrota do Santos aceleraria a ida do craque para o Corinthians, com quem já estaria apalavrado. Melhor: Muricy montou um esquema de jogo que favoreceu a genialidade de Ganso - ou seja, longe de queimar o jogador, tratou de aproveitar o que ele tem de melhor. O "se" não faz história, mas o enredo poderia hoje ser outro se Muricy tivesse chegado ao Santos antes. Tomara que ele consiga usar sua  experiência e liderança para chamar Ganso à realidade e convencê-lo do que ainda tem a conquistar (em todos os sentidos, inclusive financeiramente) se decidir permanecer no Santos. Ainda dá tempo.

Quarta lição - rivalidades clubísticas não podem assumir ares de trairagem
Caso as especulações se confirmem (prefiro tratar dessa maneira) e se Ganso for mesmo jogar no Corinthians, terá sido deplorável e lamentável a atitude da direção da equipe de Parque São Jorge, ao aliciar o jogador, à revelia da diretoria do Santos (prática que, reforço, é condenada pela FIFA). Pior: em público, o mandatário corinthiano só faz negar a eventual negociação e, de acordo com o presidente santista, Luis Álvaro Ribeiro, teria inclusive se preocupado em entrar em contato com a cúpula da equipe praiana para negar boatos e garantir que em hipótese alguma agiria de forma desleal e anti-ética. Chegou a chamar o Santos de "co-irmão". Se (sempre no condicional) Ganso desembarcar no Parque São Jorge apenas para concretizar o "clube de aluguel" e aguardar a janela de transferências do final do ano, será possível inferir que palavras corinthianas empenhadas valem quase nada e que as várias faces da conveniência e da dissimulação ditam as regras de conduta e comportamento por lá. Pode parecer antigo, ingênuo, romântico, "futebol é negócio", mas ainda sou de um tempo em que promessas - verbais inclusive - eram cumpridas. Tapetes puxados devem ser repelidos. Acirram ânimos dos torcedores, sempre passionais; deixam orgulhos tocados e feridas que demoram a cicatrizar, encaminhando projetos de vingança e de futuras disputas. Desnecessário. 

Quinta lição - forças não tão ocultas assim querem prejudicar o Santos
Foi Antero Greco, respeitado (com muita justiça) comentarista da ESPN Brasil e colunista do jornal O Estado de São Paulo, quem escreveu no twitter, em 12 de abril: "Não tenho rabo preso com ninguém e, graças a Deus, posso falar o que quero. Nessa história do Ganso, tem sacanagem contra o Santos. Fato." Não é segredo para ninguém que a DIS, braço futebolístico do grupo Sonda, detentora de 45% do passe do Ganso e responsável ainda por gerenciar a carreira do atleta, ficou ressentida com as mudanças promovidas no clube pelo presidente Luis Álvaro, principalmente em relação à divisão sobre porcentagens dos direitos de jogadores e à participação nas categorias de base do Santos. Há inclusive sérias disputas judiciais entre as partes. E ao que parece a DIS está usando Ganso para dar o troco no clube, tentando criar todas as condições para tornar insustentável a permanência do craque na Vila Belmiro. Dirá então que o clube não soube valorizar o atleta, que o camisa 10 está sendo hostilizado pela torcida e que deseja respirar outros ares. Vai fazer do jogador o santo e do clube, o vilão. Está de olho no negócio, nos milhões (de euros ou de reais) em questão. O experiente Elano declarou recentemente: "Ganso está sendo mal assessorado". Já é mais do que tempo de a legislação esportiva repensar tudo isso e se adaptar aos novos tempos. A Lei Pelé foi fantástica ao acabar com o passe e com a servidão. Mas fez um mal danado ao futebol ao dar brecha para o surgimento da figura do empresário - os novos senhores feudais do esporte, que controlam exércitos de jogadores.   

Sexta lição - Há uma guerra política interna. E a atual direção do Santos também erra.
2011 é ano eleitoral no Santos. A oposição, que deseja ardentemente retomar o comando do clube, não mede esforços para alcançar tal objetivo. O ex-presidente da agremiação tem aproveitado toda essa situação para tentar faturar politicamente e enfraquecer a atual administração. Já deu diversas declarações públicas afirmando que o patrimônio do Santos não está sendo bem cuidado. E, embora seja louvável o esforço feito para resgatar, modernizar e moralizar o clube (não há termos de comparação com projetos anteriores), precisa ser dito também que o presidente Luis Alvaro e sua diretoria escorregaram e não foram felizes ao congelar as negociações para renovação de contrato com Ganso, depois da contusão do craque. Deram munição para a DIS. Pisaram novamente na bola ao tentar fazer com que o jogador assinasse novo compromisso na concentração, às vésperas da partida contra o Colo Colo do Chile. Ficou parecendo pressão - e voltou a elevar a temperatura de uma disputa que vinha arrefecendo. Deram outra vez discurso para a DIS. Por fim, é preciso democraticamente debater e questionar a decisão da diretoria de também dividir direitos de jogadores com grupos de amigos. Permanecem pouco transparentes, ao menos para mim, as parcerias envolvendo o Santos e a Terceira Estrela Investimentos (TEISA), ligada à Guia, um grupo de empresários próximos do mandatário santista e que participa da aquisição de atletas (Neymar é o caso mais gritante. Não entendi as contas divulgadas pela diretoria). Para ser diferente, é preciso fazer diferente. Ser transparente. E explicar. Sem tergiversar. Não estariam sendo fomentadas novas relações duvidosas e futuras disputas envolvendo investidores e clube, outros "casos Ganso?". 

Sétima lição - Jornalismo não pode abrir mão de apuração
Infelizmente, o que se nota é que parcela representativa do jornalismo esportivo brasileiro parece se deliciar com a prática da boataria, em detrimento da velha e boa apuração. Polêmicas vazias envolvendo rivalidades entre clubes ajudam a vender jornais - mas prestam desserviço aos leitores. Talvez Ganso esteja mesmo negociando sua ida para o Corinthians. É uma hipótese, que precisa ser devidamente sustentada. Não nego - mas não boto a mão no fogo. Até porque até aqui ele só fez negar essa possibilidade. E olha que os urubus estão tentando com todas as forças arrancar essa declaração do jogador. Claro, dirão os iluminados, ele não seria tolo ou ingênuo de confirmar. Faz sentido, certamente. Não sou bobo. O que não se pode aceitar é que esse "não dizer" seja imediatamente substituído por especulações, boatarias, disse-que-disse, declarações secretas, declarações bombásticas, pirotecnias, desmentidos e balões de ensaio. Mesmo para oferecer o off (informação em que a fonte não é identificada) é preciso apurar, checar, confrontar, buscar segurança. Bob Woodward e Carl Bernstein, ícones do jornalismo investigativo e responsáveis pelo caso Watergate, teriam muito a ensinar a alguns de nossos afoitos repórteres (insisto: não é justo generalizar. Há gente séria fazendo jornalismo esportivo). Ganso pode ir para o Milan? Sim. Para a Inter? Sim. Para o Corinthians? Sim. Pode resolver ficar no Santos? Sim. No limite, tudo vale. Espalha-se a confusão e abre-se o leque de alternativas - para que, a partir do "tudo pode ser", o veículo possa ao final faturar, qualquer que seja o resultado da disputa. Se um dos clubes italianos sair vencedor, o discurso será "avisamos e levantamos essa lebre"; se o destino for o Parque São Jorge, comemorarão: "o furo foi nosso". Por fim, se nada mudar e o Santos renovar com o jogador, escreverão que "foi uma reviravolta inesperada de última hora". E seguirão em frente. Até o próximo folhetim.

terça-feira, 22 de março de 2011

FICA, GANSO!

O jogo assumia contornos dramáticos. Já bem perto do final, a placa sobe e indica mais uma substituição, a última permitida: deve sair o camisa 10. Bem na minha frente, quase na linha da grande área, perto da arquibancada verde do Pacaembu, expressão indignada, o craque olha para o treinador no banco de reservas e, com os dois dedos indicadores em riste, faz incisivo e repetido sinal de negativo. O camisa 10 não sai. Em grande medida, foi ele o responsável por garantir ao Santos o título paulista de 2010, contra o Santo André. E o que muitos enxergaram como um ato de rebeldia e insubordinação, como quebra de hierarquia a ser punida, eu classifico como momento máximo de lucidez e de maturidade, merecedor de elogios.

Paulo Henrique Ganso não é mais promessa. É jóia rara, craque, daqueles que enxerga outro jogo, invisível aos olhos dos simples mortais e dos boleiros comuns. Inteligente, clássico, andar sempre de cabeça erguida, drible curto, rapidez de raciocínio, procura o jogo, chama a responsabilidade, acelera a bola quando é preciso, cadencia a partida quando necessário - e num piscar de olhos e micro-fração de segundo é capaz de um lançamento mortal ou de uma refinada enfiada de bola nas costas do zagueiro, a colocar o ataque em condição privilegiada para marcar. Salvo tempestades e tragédias de última hora, será o dono da camisa 10 da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Sem concorrência. Ponto final.

Mas Ganso é também ainda um jovem, com muita vontade de desfilar seu futebol pelos gramados europeus. Justo, legítimo. A Europa traz glamour, transforma craques em astros midiáticos e celebridades, em pop stars planetários, faz fortunas - e, sugere-se, amplifica tremendamente as chances de se alcançar o posto de melhor do mundo. Ganso naturalmente sonha com tudo isso. Está no seu direito. Manifestou hoje esse desejo, de forma explícita, em reunião com a diretoria do Santos. Melhor que tenha sido assim, de forma honesta.

A diretoria do clube alvinegro, em uma novela que já se arrasta há alguns meses (pelo menos desde que Paulo Henrique machucou gravemente o joelho, em partida contra o Grêmio, em agosto do ano passado, tendo de passar por cirurgia e ficando sete meses longe dos gramados), fez mais uma tentativa para oferecer ao jogador um plano de carreira e aumento salarial, com propósito de renovar o contrato do atleta, colocando-o no mesmo patamar das estrelas da equipe, Neymar e Elano.

Depois de muitas idas e vindas, divergências incontornáveis sobre direitos de imagem, a última proposta colocada à mesa aumentava o salário de Ganso dos atuais R$ 130 mil mensais para cerca de R$ 400 mil. O jogador recusou, mais uma vez. Quer apenas e tão somente a redução da multa de rescisão prevista pelo atual contrato, de 50 milhões de euros para 35 milhões de euros, o que facilitaria imensamente sua saída para um clube europeu.

Esse número não deve ter sido tirado da cartola - desde o final do ano passado, os empresários que gerenciam a carreira de Ganso (estes sim de olhos bem gordos na polpuda parte que lhes caberia em uma provável negociação, já que têm 45% dos direitos econômicos do atleta) mantêm contatos permanentes com pelos menos dois times italianos, Milan e Internazionale, que, arrisco dizer, já devem ter deixado escapar a disposição para pagar no máximo e por coincidência... 35 milhões de euros. A conta fecha.

Mas por que afinal de contas o Santos deveria aceitar essa redução? A situação do clube é confortável - o atual contrato de Ganso vale até 2015, com a multa de 50 milhões de euros. O clube é detentor de 45% do passe. Em eventual transação pelo valor máximo, ganharia 22,5 milhões de euros; se a multa for diminuída, contemplando a pedida de Ganso (dono dos outros 10% do passe), o clube alcançaria pouco menos de 16 milhões de euros.

De acordo com a legislação em vigor, o clube não é dono e não pode prender o atleta. Corretíssimo. Avanço inquestionável da Lei Pelé, que colocou fim à relação de servidão e à escravidão no mundo do futebol. Mas, ironia, empurrou os jogadores para os colos dos empresários, figuras muito mais preocupadas com as comissões, as porcentagens nas vendas, os cifrões e contas bancárias bem abastecidas do que em de fato pensar estrategicamente as carreiras dos atletas que representam, sempre a atormentar e tumultuar o cotidiano dos clubes e a anunciar mundos e fundos às jovens promessas.

E o que se espera de Ganso? Que aja com o profissionalismo e a maturidade que até aqui marcaram sua trajetória. Que continue sendo o ídolo merecedor de toda a admiração, reverência, respeito e gratidão da torcida santista. Que não entre no jogo de chantagens promovido por empresários. Que não tumultue o ambiente do clube. Que não crie grupos e panelas no time. E que coloque brevemente um ponto final nessa novela.

Se decidir ficar no Santos, que aceite o aumento salarial que está sendo oferecido pela diretoria, capaz de reconhecer a importância e a grandeza do jogador. E que entenda que o clube deve ser protegido dos aventureiros de plantão por uma multa rescisória elevada, que seja coerente inclusive com os vencimentos pagos ao atleta.

De outra forma, concretizado mesmo o desejo de ir para a Europa, que o faça de forma serena, correta e legal, sem pressões ou bravatas. Basta aguardar a próxima janela de transferências para o exterior, no meio do ano, e acertar com o clube interessado o depósito integral da multa estipulada pelo atual contrato. Estaria assim liberado para atuar pelo novo clube. Perfeito. Justo. Sem traumas.

Enquanto isso não acontecer, que mantenha a grandeza de uma estrela e atue com responsabilidade e profissionalismo, cumprindo o contrato e participando com vontade e entrega dos treinos, das viagens, das partidas, dos campeonatos e de toda a rotina que envolve qualquer atleta com vínculo empregatício com o Santos Futebol Clube.

Porque, se é ótimo e civilizado que nenhum clube seja mais proprietário ou dono de qualquer jogador, é também necessário lembrar que há regras e contratos assinados, palavras empenhadas - por meio de documentos registrados. Que devem ser cumpridos, sem birras ou manhas, e com profissionalismo.

Pensa bem, Ganso. Fica, Ganso!