quarta-feira, 11 de junho de 2014

É TEMPO DE COPA

Pintou quadradinho amarelo na tela. Média disponibilidade. "A gente vai conseguir? Finalmente? Vai dar certo? Por favor...". O pai continuou em silêncio. Queria muito, mas não dependia só dele. Olhou só de relance para a expressão aflita do filho, fração de segundo. Cantinho do olho. Deu uma vontade danada de pegar o moleque no colo, dar um abraço nele, dizer bem baixinho "vai dar certo". Mas não podia mentir. Quem dera pudesse decidir. Fixou novamente as atenções no computador, aquela máquina que insistia em guardar a sete chaves as tão sonhadas entradas. Tentou se concentrar apenas nos movimentos dos dedos, nos cliques no mouse e nas caixinhas que iam sendo abertas, solicitando mil e uma informações. Já tinham tentado outras vezes, sempre sem sucesso. Na fase de sorteio, duas vezes, receberam e-mail agradecendo a participação. "Infelizmente, você não foi contemplado. Mas não desista. Em breve novos lotes de bilhetes serão colocados à venda". O filho chorou, decepcionado. Frustrado. "É a abertura. Eu quero, pai. É a primeira Copa que eu vou ver de verdade". "Eu sei, filho, eu sei. É a minha décima. Porque da de 74 eu não me lembro. Mas essa é especial mesmo". Foco. Rápido. Quadradinho amarelo. Média disponibilidade. Setor 3. Indique a quantidade de ingressos. Três. "Sua irmã também vai". Processando. Produto adicionado ao seu carrinho de compras. Ficará reservado para você por quinze minutos. Avançar para o próximo passo. Dados do solicitante. OK. Nomes dos convidados. OK. Doze minutos. Tudo na ponta dos dedos. Mínimos cuidados. O garoto entendeu o significado do momento solene. Calou-se. Nem respirava. "Vai, pai, vai, pai, vai, pai...", torcia, por dentro, mordendo os lábios, mexendo as pernas sem parar. Dados do pagamento. O cartão de crédito da esposa  estava ao lado da impressora havia dias (ele não tem essas facilidades modernosas capitalistas, é ponto fora da curva. Das antigas, dinossauro, diz que só consegue gastar o que está na conta. Se deixassem, guardaria o dinheiro do mês todinho no colchão). Número do cartão digitado. Nove minutos. O moleque começou a pular. O pai também já não se continha. Estavam muito perto. Quase lá. Duzentos batimentos cardíacos por minuto. Boca seca. Mãos tremendo, levemente. Certa sensação de que a garota tão durona, tão difícil e tão desejada finalmente ia sorrir e dizer 'sim, eu aceito'. O filho não se aguentava mais. Começou a cantarolar "vou ver Neymar, vou ver Neymar". O pai imaginava o estádio cheio. A emoção que só um jogo de futebol no campo é capaz de proporcionar. O drible. O toque de trivela. Três dedos. A tabelinha. Não está mais comigo. A falta cobrada por cima da barreira. O chute de longe, no ângulo. Ninho da coruja. A defesa de mão trocada do goleiro. A bola no meio das pernas. Olé! O zagueiro adversário incrédulo, bunda no chão. O pulo, socando o ar. Aquele grito que nem é ensaiado, mas vem de uma vez só, do fundo da alma. Gol! Tinha esperado 43 anos por aquele jogo (certo, ele tem só 42, mas é que gosta de futebol desde antes de nascer). Cinco minutos. Senha do cartão. Concluir compra. Clicou. Um, dois, três segundos. Nem pai nem filho se mexiam. OPERAÇÃO NÃO REALIZADA. "Pai"! O grito do filho foi gutural. "Tenta, tenta de novo, aperta o confirmar". O pai apertou. Uma vez. Mais forte. Começou a esmurrar o teclado. A mensagem não desaparecia. "Não é possível, fizemos tudo certinho. Caiu o sistema? Alguém comprou antes? O que aconteceu? Calma filho, não chora. Vem cá. Vem.. Filho...". O moleque estava no quarto. Tinha desabado na cama. Chorava descontroladamente. "Não é justo. Estava lá...". Era tudo o que conseguia dizer. As lágrimas pulavam dos olhos, aos borbotões. "Filho, olha para mim. Não sei o que aconteceu. Não dá para saber. É tudo pelo site. Não tem com quem falar. Escute, claro que a gente queria estar no estádio na abertura. Mas vai ser um grande barato. Uma festa bacana. É Copa do Mundo. No Brasil. Talvez você veja outra. Eu não. Estaremos no campo em outros jogos. Juntos. Combinado? Paciência. Não deu a abertura. Não deu para conseguir o Brasil. Mas já tem um monte de torcedor de outras seleções perambulando pela cidade. Bem divertido. Vamos passear na Paulista amanhã?". O pai tentava também se convencer. Tão perto... Que merda! Que grande merda! O moleque ainda chorava. Tentou falar. A voz a-in-da sai-iu-aos-so-qui-nhos. Soluçava. Parou. "Pai, por-fa-vor-me-dá-dez-mi-nu-tos-já-vou-pa-ra-a-sa-la". Foram vinte minutos, na verdade. Mas o garoto apareceu sem chorar. "Estou muito triste". O pai concordou com os olhos. "A gente vai no jogo da Argentina?" O pai balançou a cabeça, confirmando. "Vamos ver todos as partidas pela televisão?" O pai ergueu o dedo polegar, quase sorrindo. "Vamos fazer buzinaço nos jogos do Brasil?" Claro!, berrou o pai. "Promete?" Com todo o meu coração, respondeu o pai, que lançou então o convite: "vamos enfeitar o carro? Pegue ali as bandeirinhas, por favor". Pela primeira vez depois da tragédia dos ingressos para a abertura da Copa quase comprados e repentinamente evaporados nalguma nuvem virtual, o filho esboçou sorriso. De leve. Levinho. "Então vai ter Copa?", mandou. "Claro que vai!". Caíram na gargalhada. Pegaram a chave do carro. Abriram a porta. O filho saiu. O pai o seguiu. Chamaram o elevador. "Pai...É... Sei lá... Deixa o computador logado no site da Fifa. A abertura é só amanhã. Vai que...".  

5 comentários:

  1. Maravilhoso, como sempre caro amigo! Beijão no Dani, um grande boleiro para continuar sua estirpe. E força Brasil!

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  2. Eliane Gonçalves12 de junho de 2014 00:01

    Pelo seu texto, sinto que você é um paizão sensível, animado, vibrante e participante! Sorte dos seus filhos. Acompanhei toda a operação em busca dos tão sonhados ingressos. Ansiosa, mordendo os lábios, esfregando as mãos e contando os minutos. Não deu. Que raiva que dá não poder FALAR com alguém e tentar resolver. Seu filho desmoronou, chorou, ficou triste. Não mais do que você, imagino. Tenho certeza que descobrirão outras formas de participar desse evento raro aqui no nosso país, de torcer, se divertir e se emocionar juntos. A ocasião é excelente para reunirmos amigos e parentes. Então, vão pra Paulista, façam buzinaço no carro todo enfeitado, alegrem-se. Será inesquecível para ele e para você também. E ...... VAI, BRASIIIIIIILLLLLLL!!!!!!! Não nos conhecemos, sou colega e amiga dos seus pais, dos tempos da faculdade. Muito prazer, Eliane.

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  3. Eliane Gonçalves12 de junho de 2014 00:11

    Lendo seu delicioso texto, senti que você é um paizão sensível, vibrante e participante. Acompanhei toda a 'operação' na busca dos ingressos. Ansiosa, mordendo os lábios, contando os minutos. Não deu... Que raiva que dá não ter ninguém para FALAR e tentar resolver! Tenho certeza que vocês descobrirão outras formas de torcer, de se divertir e se emocionar juntos. A ocasião é excelente para se reunir com amigos e parentes. Vão pra Paulista fazer um buzinaço no carro todo enfeitado. Será inesquecível. E... VAI, BRASIIIIIIIILLLLLLL!!!!!!! Não nos conhecemos. Sou colega e amiga dos seus pais, do tempo de faculdade. Muito prazer, Eliane.

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  4. Que texto lindo, me emocionei. Essa Copa é nossa! Vai Brasil! ❤

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