quinta-feira, 31 de março de 2011

O GOLPE, OS DESAPARECIDOS E O DIREITO À VERDADE

As lembranças inocentes da primeira infância me dizem que eram tempos estranhos. Não entendia muito bem a movimentação e a correria na praça da igreja matriz, as tropas marchando nas ruas, a cavalaria, as bombas de gás lacrimogênio, os professores agitados e tensos, os comerciantes apressados fechando suas lojas, as pessoas caminhando com passos largos e acelerados querendo chegar logo em suas casas, os semblantes carrancudos e nervosos espalhados pelas esquinas. 

Aos sete anos, reconheço que, sem saber ao certo o que estava acontecendo, ficava feliz quando as aulas eram suspensas e saíamos mais cedo da escola, o saudoso colégio São José. Em casa, vivíamos uma espécie de pacto do silêncio motivado pelo medo: eu desconfiava que algo não ia bem, mas não perguntava; como não eram provocados, meus pais não respondiam. São as primeiras memórias que guardo da ditadura militar, na minha São Bernardo, ABC paulista, em 1979.

Muitos anos depois, morando então na capital paulista, já tinha conseguido escapar dos limites dos segredos para começar a montar essa história e perceber o tamanho da tragédia que havia se abatido sobre o Brasil no dia 1 de abril de 1964, com o golpe militar - e as perseguições, prisões, censura, exílios, torturas, mortes e desaparecimentos. Ao final da graduação, ao decidir o tema de meu Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo (ECA/USP), conheci Helena Pereira dos Santos, àquela época presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo. 

Nascida em Ilha das Flores, interior de Pernambuco, em 1919, Helena conheceu uma infância sofrida, vagando pelas usinas de açúcar da região, com o pai sempre em busca de trabalho. Sonhava ser professora. O pai proibiu. Casada muito jovem, veio para São Paulo em busca do eldorado em março de 1954, já com dois filhos, Miguel e Misael. Enfrentou na megalópole toda sorte de preconceitos - "o nordestino atrasado e preguiçoso, que chega para tirar os nossos empregos". Começou a trabalhar como costureira.

Para orgulho da mãe, Miguel, o filho mais velho, terminou o ensino secundário na Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo e entrou em Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq, em Piracicaba. Pouco mais de um ano depois, em 1965, aos 19 anos, abandonaria o curso, dizendo para a mãe que "queria conhecer o mundo". Terminou um namoro de quatro anos. Mergulhou na militância política e logo caiu na clandestinidade, para finalmente participar da Guerrilha do Araguaia, integrando o exército revolucionário popular mantido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B). 

Helena passou anos sem ter notícias do primogênito. Com a Anistia, conseguiu confirmar que Miguel combatera mesmo no Araguaia. Em 1979, decidiu procurar José Genoino, que a colocou em contato com João Amazonas. Consternado, o então presidente do PC do B confirmou a morte de Miguel na guerrilha, vítima das forças de repressão. "Ele me disse que foi uma perda irreparável, que o Miguel era muito dedicado e preparado, que era ele quem abria os caminhos na selva para os companheiros passarem", me contou Helena, durante a produção do TCC.

Os anos restantes da vida dela foram incansavelmente dedicados a buscar informações sobre as condições da morte - e o corpo - do filho, que a ditadura (e depois a democracia) insistiam em lhe negar. Participou de caravanas ao Araguaia, de reuniões com representantes dos governos e das forças armadas, presidiu o Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo. Faleceu em 28 de novembro de 1996, sem conseguir reencontrar e enterrar Miguel. Quando viu o filho pela última vez, em 1967, estava doente, tinha sido operada e se recuperava da cirurgia. Foram apenas 15 minutos. "Ele estava muito maltratado, magro, um bigode enorme. Quase nem reconheci. Chorou nos meus braços", lembrou, sempre em nossos encontros para o TCC. 

Miguel Pereira dos Santos, conhecido também pelo codinome Cazuza, é um  dos 379 mortos e desaparecidos políticos assassinados pela ditadura militar brasileira. De acordo com depoimentos de companheiros, foi morto pelas forças armadas em 20 de setembro de 1972. Na Argentina, foram julgados e condenados 486 ex-militares por terrorismo de Estado ou violações de direitos humanos cometidas durante o regime militar que governou o país vizinho (1976-1983). No Brasil, torturadores e militares que participaram da repressão seguem impunes. Muitos dos arquivos produzidos sobre o período continuam fechados, secretos e inacessíveis. A História recente do país vem sendo apagada. 

"Lamentavelmente, temos que dizer que as forças armadas brasileiras, as daquele período histórico, têm as mãos sujas de sangue. Essa gente tem nome e sobrenome. Daí a importância do resgate da verdade. Se ainda estão vivos, torturadores e assassinos precisam ser punidos, e o primeiro passo é o conhecimento da verdade. Não há prescrição para esse tipo de crime. Não pode haver. À luz do direito internacional, do nosso direito e à luz dos direitos humanos", escreve o jornalista e deputado federal Emiliano José (PT/SP), em artigo publicado pela Agência Carta Maior. Ele continua: "a Comissão da Verdade quer apenas a verdade, o exercío do direito à verdade, à memória. O direito que tem qualquer pai, qualquer mãe de família, qualquer parente de saber o que ocorreu com seus entes queridos, muitos deles desaparecidos, milhares torturados pelos criminosos fardados ou não sob as ordens dos generais-presidentes entre 1964 e 1985".

Em entrevista publicada originalmente pelo jornal "O Estado de São Paulo", o cientista político Paulo Sergio Pinheiro afirmou que "é preciso saber a verdade sobre os crimes cometidos pelos agentes do Estado. O que aconteceu com os dissidentes estamos cansados de saber". Segundo o pesquisador, "as pesquisas mostram que nos países onde houve comissões da verdade as democracias tornaram-se muito mais eficientes, os crimes contra os direitos humanos diminuíram e se tortura muito menos. No Brasil, os torturadores atuais continuam torturando, apesar de ser crime. Eles acham que está tudo numa boa, que não acontecerá nada".  

Basta. O silêncio é também criminoso, nefasto. Não é mais possível aceitar que a História nos seja negada. Nesse aspecto, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva representou profunda decepção. Espera-se que a presidenta Dilma Rousseff, que carrega no corpo e na alma as marcas da tortura, crie finalmente a Comissão da Verdade, com poderes para investigar, publicizar e estabelecer responsabilidades pelos crimes cometidos pelas forças da ditadura, entre 1964 e 1985. Para que não caiam no esquecimento as trajetórias de sonhos, de esperanças, de lutas e de resistências de Helena e de Miguel Pereira dos Santos, a quem presto reverência e homenagem, na semana em que o golpe completa 47 anos.

domingo, 27 de março de 2011

UM RELATO TOCANTE SOBRE ABANDONOS E MORTES DE MENINAS NA CHINA


Quem deseja conhecer um pouco mais sobre a milenar-moderna e ainda enigmática e complexa China tem como tarefa obrigatória a leitura das obras da jornalista e escritora chinesa Xinran Xue. 


Autora de "As boas mulheres da China" e de "Testemunhas da China - Vozes de uma geração silenciosa", ela foi um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) de 2009, quando, além obviamente de contar detalhes de sua carreira e de discorrer sobre seu estilo literário, aproveitou a oportunidade para revelar aspectos importantes a respeito da complicada e sofrida condição feminina na China, onde as mulheres são ainda consideradas seres de segunda categoria, ficando bem distantes daquilo que está acessível aos homens; no cotidiano, enfrentam uma série de privações e de dificuldades, associadas inclusive à questão da maternidade, do ser mãe.

E é esse mais especificamente o tema central do livro mais recente de Xinran lançado no Brasil - "Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida".  Trata-se de uma sensível e ao mesmo tempo desesperada tentativa de compreender (se é que é possível) como e por que milhares (seriam milhões?) de mães chinesas são capazes de abandonar suas filhas pelas ruas, praças, estações de trem ou em orfanatos; de oferecê-las para adoção ainda muito pequenas (sem jamais ter novamente notícias delas) ou até mesmo, em situações limite e mais localizadas, de "resolver" (é essa a expressão usada pela autora) bebês do sexo feminino logo após o nascimento - o que significa dizer, agora sem censuras ou eufemismos, que não raro essas meninas recém-nascidas são mortas poucos minutos depois de abrirem os olhos e de chorarem pela primeira vez, sendo na maior parte das vezes afogadas na água de bacias e de baldes usados no próprio parto. Sim, é isso mesmo - embora em menor número do que as abandonadas para adoção, há meninas chinesas mortas pelos pais, familiares, parteiras e médicos logo depois que nascem. 

Histórias perturbadoras
Reconheço abertamente que não consigo negar minha condição humana: há momentos na narrativa em que a visão chega a ficar turva, as letras se embaralham nas páginas, o coração ameaça sair pela boca, as pernas ficam bambas e os olhos se enchem d'água. A raiva ameaça explodir. É difícil seguir em frente. Mas é preciso. As perguntas são naturais e inevitáveis (e você, leitor do blog, certamente também as está fazendo): por que as mães  agem dessa maneira? Como são capazes de matar ou de aceitar como inevitável a morte das próprias filhas? E como conseguem depois lidar com as lembranças e marcas profundas desses assassinatos (é disso que se trata, não?) e infanticídio feminino? Quando a morte não é o fim, quais as circunstâncias que levam essas mães a abandonar suas filhas ou a entregá-las para adoção, diante da certeza de que jamais voltarão a ter notícias das pequenas? Novamente: como trabalham essas memórias e perdas/ausências?

Xinran se dispõe a construir uma narrativa capaz de ao menos identificar possíveis pistas de compreensão para essa perturbadora e angustiante realidade, sem que necessariamente as entenda como justificativas para tais comportamentos. A jornalista caminha no fio da navalha. Como anuncia na introdução do livro, "não discutirei que padrões de comportamento social deveríamos seguir. Julgar todo mundo pelos mesmos padrões é algo ignorante e autoritário".

Mais adiante, no entanto, ela alerta: "neste livro, o leitor encontrará histórias trágicas sobre o o que tradicionalmente tem acontecido com bebês abandonados do sexo feminino, e ainda continua a acontecer. As ferramentas que reforçam essas tradições, forjadas a partir da necessidade de sobreviver, têm sido ao longo dos séculos mantidas amoladas pelas mães - e ainda assim as vítimas são justamente mulheres e meninas".

Num exercício de livre pensar, a partir da leitura, fico imaginando como deve ter sido difícil, quase insuportável para Xinran costurar essa narrativa. Por um lado, identifica-se verdadeiramente com a dor profunda das mulheres, as marcas que nelas não se apagam, e reconhece que as mães chinesas são empurradas pelo sistema, pelas leis e pelas tradições do país a agir dessa maneira; ao mesmo tempo, sempre a partir da minha percepção, não as isenta de responsabilidades, não as trata como inocentes absolutas - e a escritora também não está disposta a camuflar ou minimizar o verdadeiro terror que sente por conta dessas mortes e abandonos. Não quer condenar, mas não consegue aceitar. Delicadíssimo. Um turbilhão de sentimentos conflitantes a acompanham ao longo do livro.

A própria jornalista admite que precisou de muita coragem e de tempo para vencer resistências e amadurecer a disposição para escrever o livro. Reconhece ter sido fortemente incentivada por cartas enviadas por mães que tinham abandonado suas filhas e por relatos de mães adotivas espalhadas pelo mundo (a autora estima que, em 2007, eram cerca de 120 mil as meninas chinesas adotadas, vivendo em 27 países). A partir desses impulsos, percebeu finalmente a importância que o livro poderia alcançar, ao assumir a tarefa de tornar conhecidas essas histórias. Afinal, essas filhas da China "criadas em países ocidentais têm pouca ou nenhuma possibilidade de saber quem são suas mães, como vivem, por que as abandonaram".

No blog da editora Companhia das Letras, resenha do livro reforça que "após relutar, (a autora) decidiu abordar esse delicado tema e dedicar um livro às centenas de milhares de mães chinesas que se viram levadas a rejeitar - e até mesmo a matar - suas bebês; pela primeira vez, elas teriam suas histórias ouvidas. São, é claro, histórias alarmantes, como a vez em que a própria autora testemunhou, em Yimeng, numa das áreas mais pobres da China, uma parteira afogar uma menina recém-nascida num balde de água suja".

Sociedade patriarcal – aos homens, tudo
Procurando com muito esforço escapar dos juízos de valores - o que nem sempre consegue, por razões óbvias -, a autora parte em busca de revelar o que empurra as mães chinesas a abandonar as filhas ou a participar das mortes das meninas, reunindo no livro uma série de relatos diferentes (são dez depoimentos). As histórias estão conectadas por dois aspectos principais: a política do filho único, que pretende controlar a explosão populacional na China, e, nesse caso talvez mais relevante, a condição subalterna e marginalizada que marca o ser mulher naquele país. 

Na China, apenas os homens, principalmente nas áreas rurais, são considerados capacitados ao trabalho e responsáveis por sustentar as famílias - patriarcalismo e machismo levados às últimas consequências. Além disso, por conta da legislação, somente homens têm direito a herdar as terras dos clãs. Se meninas nascem e interrompem essa linhagem masculina, a garantia do patrimônio também se perde. Ou seja, sob essa perspectiva, mulheres são ameaças e seres não desejados, homens são sossego e a garantia de continuidade da posse de bens materiais. A avaliação é pragmática e crudelíssima: as famílias desejam ardentemente meninos, que  sobrevivem; meninas devem ser "resolvidas".

"Meninas são sufocadas ou jogadas nos córregos da China há séculos, particularmente por pessoas mais simples, que acreditam dever aos ancestrais um primogênito ou ainda ouvem as previsões dos adivinhos", completa Xinran, em entrevista publicada pelo jornal O Estado de São Paulo.

Ainda me lembro com detalhes da história da menininha chinesa que foi abandonada pelos pais na plataforma de uma estação de trem no interior do país; da estudante da Universidade de Xangai que teve um caso com um professor e acabou engravidando - envergonhada, a família a obrigou a entregar a criança, uma menina, para adoção; do casal que colocou fim ao casamento e nunca mais se falou depois de entender que a filha que tinham tido deveria ser criada por uma família norte-americana; e da própria Xinran, que acabou por acolher uma bebezinha abandonada em um hospital, a quem chamou de Floco de Neve, mas viu-se rapidamente obrigada a devolvê-la para um orfanato -e nunca mais teve notícias da criança. 

Abrir os olhos do leitor
Para além de conectar, ainda que simbolicamente, todos esses relatos, elaborando uma espécie de rede de afetos e ao mesmo tempo de pedaços perdidos de vidas, o livro assume contornos de uma agoniada denúncia, um grito incontido que deseja anunciar ao mundo o que acontece com meninas chinesas. É como se a autora atuasse como grilo falante, a todo instante a nos soprar nos ouvidos "vejam, é assim que acontece, não é possível silenciar".    

Xinran não precisa, para tocar a alma do leitor, recorrer aos recursos tão comuns ao espetáculo. A jornalista lida com o que tem de melhor: a habilidade com as palavras, a informação bem apurada, a competência na costura narrativa dos depoimentos. A força e o impacto do livro estão justamente nos testemunhos das mães chinesas. Por isso é tão forte e soa tão autêntico. 

Não é, repito, leitura fácil. Mas é imprescindível. Porque, respeitadas soberanias, tradições e singularidades culturais, é preciso afastar o risco de se enveredar pelo perigosíssimo caminho do relativismo - há valores e pressupostos humanos que são universais, que definem a espécie humana (Homo sapiens, homem que pensa) e separam a civilização do obscurantismo. Vida digna e exercício pleno, feliz e saudável da maternidade são dois desses direitos inalienáveis. Xinran não fecha os olhos para essa exigência. E ajuda a abrir os nossos olhos para o drama das (agora um pouco menos) desconhecidas mulheres chinesas. 

sexta-feira, 25 de março de 2011

O QUE A CIÊNCIA TEM DE LEGAL?

(*) Luiza Pereira, 8 anos, estudante do 4º ano do Colégio Pentágono (Unidade Caiubi) e filha do Chico Bicudo


A ciência é uma disciplina que pode ser encantadora para todas as idades. Ela ajuda a conhecer e descobrir o corpo humano, as plantas e os animais e o nosso maravilhoso planeta Terra.

Para ser um cientista, você precisa de coisas simples, que são curiosidade e vontade de pesquisar.

No Colégio Pentágono (minha escola), nós temos um laboratório incrível e lá fizemos muitas experiências, tais como: a luva misteriosa, o ovo contorcionista, classificamos e comparamos animais e fizemos a fotossíntese.

Agora alguns cientistas que foram importantes: Albert Einstein (alemão), Galileu Galilei (italiano) e Charles Darwin (inglês). No Brasil, existe também um grande neurocientista, Miguel Nicolelis, que um dia pode ganhar o Prêmio Nobel.

E hoje, assim que acordei, li uma matéria muito interessante que conta a história de um ancestral dos mamíferos e explica a evolução das espécies. Está na página A-20 do jornal O Estado de São Paulo. 

terça-feira, 22 de março de 2011

FICA, GANSO!

O jogo assumia contornos dramáticos. Já bem perto do final, a placa sobe e indica mais uma substituição, a última permitida: deve sair o camisa 10. Bem na minha frente, quase na linha da grande área, perto da arquibancada verde do Pacaembu, expressão indignada, o craque olha para o treinador no banco de reservas e, com os dois dedos indicadores em riste, faz incisivo e repetido sinal de negativo. O camisa 10 não sai. Em grande medida, foi ele o responsável por garantir ao Santos o título paulista de 2010, contra o Santo André. E o que muitos enxergaram como um ato de rebeldia e insubordinação, como quebra de hierarquia a ser punida, eu classifico como momento máximo de lucidez e de maturidade, merecedor de elogios.

Paulo Henrique Ganso não é mais promessa. É jóia rara, craque, daqueles que enxerga outro jogo, invisível aos olhos dos simples mortais e dos boleiros comuns. Inteligente, clássico, andar sempre de cabeça erguida, drible curto, rapidez de raciocínio, procura o jogo, chama a responsabilidade, acelera a bola quando é preciso, cadencia a partida quando necessário - e num piscar de olhos e micro-fração de segundo é capaz de um lançamento mortal ou de uma refinada enfiada de bola nas costas do zagueiro, a colocar o ataque em condição privilegiada para marcar. Salvo tempestades e tragédias de última hora, será o dono da camisa 10 da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Sem concorrência. Ponto final.

Mas Ganso é também ainda um jovem, com muita vontade de desfilar seu futebol pelos gramados europeus. Justo, legítimo. A Europa traz glamour, transforma craques em astros midiáticos e celebridades, em pop stars planetários, faz fortunas - e, sugere-se, amplifica tremendamente as chances de se alcançar o posto de melhor do mundo. Ganso naturalmente sonha com tudo isso. Está no seu direito. Manifestou hoje esse desejo, de forma explícita, em reunião com a diretoria do Santos. Melhor que tenha sido assim, de forma honesta.

A diretoria do clube alvinegro, em uma novela que já se arrasta há alguns meses (pelo menos desde que Paulo Henrique machucou gravemente o joelho, em partida contra o Grêmio, em agosto do ano passado, tendo de passar por cirurgia e ficando sete meses longe dos gramados), fez mais uma tentativa para oferecer ao jogador um plano de carreira e aumento salarial, com propósito de renovar o contrato do atleta, colocando-o no mesmo patamar das estrelas da equipe, Neymar e Elano.

Depois de muitas idas e vindas, divergências incontornáveis sobre direitos de imagem, a última proposta colocada à mesa aumentava o salário de Ganso dos atuais R$ 130 mil mensais para cerca de R$ 400 mil. O jogador recusou, mais uma vez. Quer apenas e tão somente a redução da multa de rescisão prevista pelo atual contrato, de 50 milhões de euros para 35 milhões de euros, o que facilitaria imensamente sua saída para um clube europeu.

Esse número não deve ter sido tirado da cartola - desde o final do ano passado, os empresários que gerenciam a carreira de Ganso (estes sim de olhos bem gordos na polpuda parte que lhes caberia em uma provável negociação, já que têm 45% dos direitos econômicos do atleta) mantêm contatos permanentes com pelos menos dois times italianos, Milan e Internazionale, que, arrisco dizer, já devem ter deixado escapar a disposição para pagar no máximo e por coincidência... 35 milhões de euros. A conta fecha.

Mas por que afinal de contas o Santos deveria aceitar essa redução? A situação do clube é confortável - o atual contrato de Ganso vale até 2015, com a multa de 50 milhões de euros. O clube é detentor de 45% do passe. Em eventual transação pelo valor máximo, ganharia 22,5 milhões de euros; se a multa for diminuída, contemplando a pedida de Ganso (dono dos outros 10% do passe), o clube alcançaria pouco menos de 16 milhões de euros.

De acordo com a legislação em vigor, o clube não é dono e não pode prender o atleta. Corretíssimo. Avanço inquestionável da Lei Pelé, que colocou fim à relação de servidão e à escravidão no mundo do futebol. Mas, ironia, empurrou os jogadores para os colos dos empresários, figuras muito mais preocupadas com as comissões, as porcentagens nas vendas, os cifrões e contas bancárias bem abastecidas do que em de fato pensar estrategicamente as carreiras dos atletas que representam, sempre a atormentar e tumultuar o cotidiano dos clubes e a anunciar mundos e fundos às jovens promessas.

E o que se espera de Ganso? Que aja com o profissionalismo e a maturidade que até aqui marcaram sua trajetória. Que continue sendo o ídolo merecedor de toda a admiração, reverência, respeito e gratidão da torcida santista. Que não entre no jogo de chantagens promovido por empresários. Que não tumultue o ambiente do clube. Que não crie grupos e panelas no time. E que coloque brevemente um ponto final nessa novela.

Se decidir ficar no Santos, que aceite o aumento salarial que está sendo oferecido pela diretoria, capaz de reconhecer a importância e a grandeza do jogador. E que entenda que o clube deve ser protegido dos aventureiros de plantão por uma multa rescisória elevada, que seja coerente inclusive com os vencimentos pagos ao atleta.

De outra forma, concretizado mesmo o desejo de ir para a Europa, que o faça de forma serena, correta e legal, sem pressões ou bravatas. Basta aguardar a próxima janela de transferências para o exterior, no meio do ano, e acertar com o clube interessado o depósito integral da multa estipulada pelo atual contrato. Estaria assim liberado para atuar pelo novo clube. Perfeito. Justo. Sem traumas.

Enquanto isso não acontecer, que mantenha a grandeza de uma estrela e atue com responsabilidade e profissionalismo, cumprindo o contrato e participando com vontade e entrega dos treinos, das viagens, das partidas, dos campeonatos e de toda a rotina que envolve qualquer atleta com vínculo empregatício com o Santos Futebol Clube.

Porque, se é ótimo e civilizado que nenhum clube seja mais proprietário ou dono de qualquer jogador, é também necessário lembrar que há regras e contratos assinados, palavras empenhadas - por meio de documentos registrados. Que devem ser cumpridos, sem birras ou manhas, e com profissionalismo.

Pensa bem, Ganso. Fica, Ganso!

domingo, 20 de março de 2011

ANGÚSTIAS E DÚVIDAS SOBRE A VISITA DE OBAMA E A AÇÃO MILITAR CONTRA A LÍBIA

Assumo honestamente: tenho mais perguntas do que respostas. Este portanto é um post agoniado, marcado por dúvidas, muitas dúvidas, mas querendo justamente apresentar algumas das questões que me incomodam para que se possa, ainda que timidamente, no limite do que este blog é capaz de alcançar, fomentar o debate coletivo - e, quem sabe, ajudar a amadurecer possíveis reflexões.

Também me decepcionei profundamente com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Compreendo a correlação de forças, entendo que não é fácil lidar com falcões republicanos, Tea Party e afins fazendo oposição violentíssima. Mas penso que muitas das enormes esperanças vislumbradas com a eleição dele transformaram-se em profundas frustrações (rios de dólares para bancos, manutenção dos julgamentos de Guantánamo, reforço de tropas no Afeganistão, timidez no encaminhamento do processo de negociações entre palestinos e israelenses, acordos para aliviar os mais ricos de impostos nos EUA, apoio quase até o final ao ditador egípcio Hosni Mubarak). Minha impressão é que Obama investiu em movimentos e apostas equivocadas: cedeu e fez concessões aos inimigos (nesse caso, não são apenas adversários), distanciando-se de sua base popular, ideológica e institucional de apoio, isolando-se e colocando em risco a própria reeleição.

Não aceito em hipótese alguma a arrogância e a soberba dos serviços secretos estadunidenses que revistaram ministros e autoridades brasileiras durante a passagem de Obama por Brasília e exigiram que casas na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, fossem evacuadas, em nome da garantia de segurança. Tais aberrações arranharam tremendamente nossa soberania. Uma afronta mais do que desrespeitosa. Há que se repudiar ainda a prisão de estudantes e militantes de partidos de esquerda e de organizações sociais que protestavam contra a presença do presidente norte-americano no Brasil. Tais atos representam o contraponto e o contraditório e fazem parte da democracia. 

No entanto, sempre no entanto, penso ter sido extremamente importante a visita de Obama ao país. Antes de mais nada, há que se lembrar e reforçar que se configurou uma relevante e simbólica inversão de papéis: pela primeira vez na História, o mandatário do Império tomou a iniciativa de visitar o Brasil, sem que um chefe de Estado brasileiro tivesse antes pisado em solo norte-americano. Parece-me um reconhecimento do espaço que o Brasil ocupa atualmente nas relações internacionais. 

Vale destacar o discurso altivo e independente da presidenta Dilma Rousseff que, olhos nos olhos, na frente de Obama, tocou respeitosamente, mas de forma incisiva, em questões delicadas para os Estados Unidos e falou em parcerias e inovações tecnológicas, crise econômica e dólar desvalorizado propositalmente, multilateralismo e necessidade premente de uma integração mundial que se dê entre os iguais. Detalhe: Dilma fez o discurso em Português.

E, mesmo não alcançando ainda a contundência e a evidência desejadas, Obama manifestou "apreço à aspiração do Brasil de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU". Não foi o ideal, mas também não é pouco. Foi, até aqui, a declaração mais efetiva nesse sentido, e de certa forma uma inflexão ligeira no discurso encaminhado desde sempre pelos EUA. Obama disse também que "é hora de tratar o diálogo econômico com o Brasil tão seriamente quanto tratamos com a China e a Índia". Parece importante e significativo, não? 

Colocado esse cenário, fica a dúvida: não seria reducionista tratar a visita do presidente norte-americano apenas e tão somente a partir da perspectiva do imperialismo ianque e apenas com palavras de ordem como "Obama, go home"? 

E a Líbia?
Obviamente que ninguém, em sã consciência, pode aceitar ou chancelar a perspectiva de uma invasão ou de uma guerra. Quando a força das armas e dos tanques prevalece, é sinal de fracasso das negociações e da política - e do exercício da racionalidade humana. É o momento em que a barbárie supera a civilização. 

Também não há dúvidas: a decisão de enfrentar um país em seu próprio território envolve sempre uma discussão profunda e delicadíssima - a premissa da inviolabilidade das soberanias nacionais, garantida pela carta de fundação da ONU - e abre precedentes sempre muito perigosos. Escorrega-se para um terreno pantanoso, que pode tornar as relações internacionais exageradamente subjetivas, construídas a partir dos interesses das nações mais fortes e poderosas. Os riscos e impactos são gigantescos e perigosíssimos, insisto.

Sem ingenuidades: é cristalino como a água que a decisão de agir militarmente contra a Líbia não se deu apenas porque as grandes potências planetárias são "boazinhas, benevolentes e combatem ditadores". Há o petróleo líbio, que abastece em grande medida os EUA e os países europeus. Não dá para esquecer que Kadafi, que já foi o demônio, há algum tempo assumiu a condição de amigo dos EUA, para somente mais recentemente voltar a encarnar o mal. Claro ainda que outros ditadores sanguinários aliados (Arábia Saudita é o exemplo principal - e não é o único) não recebem o mesmo tratamento e sequer se cogita uma ação militar contra tais monarquias companheiras. Aos amigos, afagos. O jogo das relações internacionais é muitas vezes sustentado por projetos e interesses pragmáticos e não raro hipócritas e torpes.

Mas vamos lá: seria possível simplesmente fechar os olhos para a tragédia que acontece na Líbia e aguardar, de braços cruzados, Kadafi concluir sua vingança e genocídio? O sujeito está bombardeando a própria população, eliminando focos de oposição, colocando em marcha uma revanche marcada por ódio e ressentimento contra os que ousaram desafiá-lo. Chega ao requinte de crueldade de usar seres humanos como escudos de proteção contra ataques "inimigos". Vamos aceitar calados todas essas atrocidades animalescas, fingindo que nada está acontecendo? 

Há na Líbia um movimento popular autêntico, talvez ainda não tão organizado, mas disposto a derrubar a ditadura instalada no país há mais de 40 anos. É desejável ignorar solenemente essa rebelião, justa, legal e legítima? Se os EUA e os países europeus agem militarmente, são acusados de detonar uma guerra e de desrespeitar soberanias. Faz sentido, certamente. Mas, se permanecessem inertes e imóveis, não seriam por outro lado chamados de insensíveis, omissos e apoiadores indiretos do regime assassino? Não estaríamos agora a vociferar: "covardes!"? Obama foi com toda a razão duramente criticado por não agir contra Mubarak no Egito; agora, é detonado por agir contra Kadafi na Líbia. O que fazer? Como escapar dessa armadilha? Quais as alternativas a encaminhar e vislumbrar? Como resolver esse dilema tão complexo e profundo, tão marcado por sutilezas, nuances e contradições, a ser traduzido de certa forma por um "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"?    

Tenho dúvidas, muitas dúvidas, como anunciei no primeiro parágrafo do post, compartilhadas neste texto com os leitores. Em meio a tantas perguntas, uma convicção: não é mais possível olhar para o mundo com os olhos reducionistas do maniqueísmo, dos heróis versus bandidos, do bem versus o mal. Entre o preto e o branco, há várias e diferentes tonalidades de cinza.

sábado, 19 de março de 2011

VEJA, O PANFLETO QUE ESCONDEU A ENTREVISTA DE JOSÉ ROBERTO ARRUDA

O tiroteio verbal não deixou pedra sobre pedra. A entrevista de José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal, publicada pelo site da revista Veja no final da tarde de quinta-feira, 17 de março, é demolidora. Praticamente todos os demo-caciques foram citados - e bombardeados. 

Arruda, que em 2010 passou dois meses preso na sede da Polícia Federal em Brasília por ser o líder do esquema que ficou conhecido como "Mensalão do DEM" (arrecadação e farta distribuição de propina a aliados), afirmou à revista que, por ser o único governador do Democratas, "recebia pedidos de todos os estados. Ajudei todos". Garantiu que "tudo sempre foi feito com o aval do deputado Rodrigo Maia (então presidente do DEM)". Lembrou que, em 2008, recebeu em sua casa o senador Agripino Maia (RN), que tinha ido pedir "ajuda e 150 mil reais para a campanha da candidata à prefeitura de Natal, Micarla de Sousa (PV)". Já o senador Demóstenes Torres (GO) teria solicitado ao ex-governador a contratação "de uma empresa de cobrança de contas atrasadas". 

A lista de demos ilustres e de favores não pára por aqui. Na entrevista, Arruda revela ter sido procurado pelo deputado federal Ronaldo Caiado (GO), que acabou por intermediar encontro  do ex-governador com um empresário do setor de transportes, "que queria conseguir linhas em Brasília". Rodrigo Maia não foi poupado: "consegui recursos para a candidata à prefeita dele e do Cesar Maia no Rio, em 2008". Sobraram estilhaços ainda para ACM Neto. "Obtive doações para a candidatura dele à prefeitura de Salvador". 

Por fim, artilharia pesada também foi dirigida para os aliados tucanos, mais uma vez citando nomes. "No caso do PSDB, a ajuda também foi nacional. Ajudei o PSDB sempre que o senador Sérgio Guerra, presidente do partido, me pediu. E também por meio de Eduardo Jorge, com quem tenho boas relações".

Os demo-tucanos citados reagiram atacando Arruda e berrando aos quatro ventos que o ex-governador é um "bandido, deliquente e vagabundo". Isolado e acuado, Arruda pode estar mandando recados e lembrando que é arquivo vivo de muitas das maracutaias conduzidas pela oposição. Os que acusam o golpe e tentam desqualificar o ex-governador, no entanto, não são mais santos - bem ao contrário, parecem ter deixado rastros também imundos e pouco republicanos no trato com a coisa pública. Diga-me com quem andas e te direi quem és, lembra o sábio dito popular. Se até bem pouco tempo todos estavam juntos... 

A entrevista escondida
Esse enredo de comportamentos desprezíveis consegue ainda guardar mais um ato lamentável e absurdo: de acordo com Nélio Machado e Cristiano Maronna, advogados de Arruda, a entrevista foi feita pela revista Veja em setembro do ano passado, ainda antes do primeiro turno das eleições presidenciais, mas publicada apenas agora, seis meses depois da disputa. 

Uau! A mesma Veja que não mediu esforços para tentar detonar a candidatura de Dilma Rousseff (polvos, dossiês, grampos, capas contra a ex-ministra Erenice Guerra, ilações sobre o PT ser contra a liberdade de expressão, amplo espaço para o "ataque selvagem" contra Serra no Rio de Janeiro, na farsa da bolinha de papel) não teve pudores em esconder as declarações contundentes de Arruda e em não publicar o explosivo material contra os demo-tucanos. 

Não custa lembrar que o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo começou com uma entrevista do primeiro-irmão Pedro, veiculada pela mesma Veja; também o escândalo do mensalão do PT teve início com a entrevista do então deputado federal Roberto Jefferson, divulgada pela Folha. Ah, o estrago que uma entrevista pode causar - quando, claro, é de interesse da mídia e chega ao conhecimento público!

Não é preciso portanto queimar muita pestana e neurônios para concluir que o silêncio pretendeu claramente proteger a candidatura de José Serra que, naquele momento crítico da campanha, corria sério risco de ser derrotado no primeiro turno. A entrevista poderia ter representado o prego no caixão demo-tucano. 

Mais repugnante ainda (se é que é possível): como a seguir roteiro de acordo de cavalheiros, até mesmo a repercussão das declarações de Arruda agora divulgadas por Veja (aliás, por que no site, e não na edição impressa do final de semana?) foi bastante tímida. E estou sendo  otimista, pois o que a rigor aconteceu foi que os aliados jornalões Folha de São Paulo e O Estado de Paulo "esqueceram-se" (sim, só pode obviamente ter sido um lapso de memória dos diretores de redação...) de destacar em suas primeiras páginas, nas edições desta sexta-feira, 18 de março, as graves acusações feitas pelo ex-governador do DF. As matérias com o conteúdo da entrevista explosiva foram espalhadas sem alarde pelo noticiário político "normal", ficando diluídas e escondidas. Nas edições de sábado, 19 de março, novamente nenhuma linha sobre o assunto nas primeiras páginas.

A pergunta que não quer calar e que está reverberando pela blogosfera é: se não publicou a entrevista quando a conversa de fato aconteceu, por que Veja decidiu fazê-lo agora? O que teria motivado a revista a mudar de ideia - e de estratégia política? Estaria se sentindo ameaçada ou pressionada pelo próprio Arruda? Seria medo de ser "furada" por publicação concorrente e de acabar sendo desmascarada? Ou, como questiona o jornalista Rodrigo Vianna, a entrevista seria "um recado de José Serra aos demos que se aproximam de Aécio Neves (PSDB/MG), já que a nova direção do DEM está alinhada com o senador mineiro?". O ex-governador paulista é bastante conhecido por enviar "mensagens cifradas" aos adversários por meio dos veículos de comunicação. E acumulam-se as evidências de que as brigas intestinas pelo controle do PSDB são cada vez mais virulentas.

O silêncio e a manipulação
Será preciso acompanhar de perto o episódio para que as respostas possam ser mais precisas - por enquanto, são hipóteses e sugestões. O fato é que, mais uma vez, Veja reforça sua asquerosa disposição e vocação de fazer propaganda política explícita - e não jornalismo sério e honesto. Confirma um pressuposto estabelecido pelo saudoso jornalista - este sim merece ser chamado como tal - Perseu Abramo, que escreveu, em "Padrões de manipulação na grande imprensa", que a "ocultação é um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Este é um padrão (de manipulação) que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no momento das decisões de planejamento da edição, da programação ou da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta". Em setembro de 2010, a entrevista não era pauta, segundo avaliação da Veja; estranhamente, seis meses depois, alcançou finalmente o status de pauta. 

Perseu continua o raciocínio: "tomada a decisão de que um fato não é jornalístico, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa". A não ser, claro, que o veículo mude de ideia... É por conta da ocultação, segundo Perseu (e graças ainda aos padrões de manipulação de fragmentação e de inversão), que "a maior parte do material que a imprensa oferece ao público tem algum tipo de relação com a realidade. Mas essa relação é indireta. É uma referência indireta à realidade, mas que distorce a realidade. (...) Daí que cada leitor tem para si uma imagem da realidade que na sua quase totalidade não é real. É diferente e até antagonicamente oposta à realidade". 

Não é de hoje que Veja tem se tornado uma "revista" (mesmo entre aspas, nesse caso dói na alma escrever essa palavra)  cada vez mais dispensável, que briga com os fatos e com a realidade. Melhor mesmo seria recorrer a uma definição frequentemente usada pelo jornalista José Arbex: Veja transformou-se em "um panfleto de quinta categoria". O caso da entrevista de Arruda "não publicada para depois ser publicada" apenas ajuda a reforçar essa máxima.

domingo, 13 de março de 2011

COMO É BOM LER!

(*) Luiza Pereira, 8 anos, estudante do 4º ano do Colégio Pentágono (Unidade Caiubi) e filha do Chico Bicudo


Em pleno domingo de carnaval, o jornal "O Estado de São Paulo" divulgou que os estudantes brasileiros são os que têm menos livros em casa. Não apenas porque os pais não compram, mas sim porque eles também não gostam e não querem ler.

Mas eu pergunto, caro leitor: por quê?

Ler é uma delícia e ajuda a conhecer palavras novas e a fazer raciocínios, enfim.

Aqui vai outra pergunta: ler pouco? Por quê? Se gosta de livros de ação, leia; se gosta de livros de romance, leia; se gosta de comédias, leia.

Não importa qual a história. O importante é ler.

sexta-feira, 11 de março de 2011

CLUBES BRASILEIROS DESPERDIÇAM OPORTUNIDADE HISTÓRICA

Só para não perder o bonde, algumas impressões pontuais sobre a disputa envolvendo os clubes brasileiros, a CBF e a TV Globo. 

O Clube dos 13 (na verdade formado por 20 equipes) divulgou hoje, sexta-feira, o resultado da licitação/concorrência para transmissão dos jogos dos Campeonatos Brasileiros de 2012-2014. A única emissora a apresentar proposta (516 milhões de reais por ano) foi a Rede TV, "vencedora" portanto do processo. A surpresa do dia ficou por conta da Record que, em comunicado oficial, anunciou na última hora que desistia de participar do processo. Lamentavelmente, deve agora procurar cada clube, abrindo leilão no varejo.

A Globo já estava fora. Há muito se sabia que não encaminharia qualquer proposta. Julga-se acima do bem e do mal. Defende o capitalismo sem disputa. Sem ameaças. Sem concorrência livre. E sem riscos. A truculência autoritária da vênus platinada para tentar manter o monopólio da verdade no futebol é asquerosa. Esperta, seduziu primeiro Corinthians e Flamengo, os dois times de maior torcida (e mercado e renda e visibilidade e vendas...) do país. Rachou o grupo. Atraiu outros grandes (Fluminense, Vasco, Botafogo, Santos, Grêmio, Cruzeiro...), sabe-se lá com que promessas e acenos, pois vale lembrar que os bastidores de "negociações" não chegam ao grande público, perdem-se em "segredos", são considerados informações sigilosas. 

Pois como torcedor desde sempre do Santos Futebol Clube e sócio da agremiação há mais de 30 anos, gostaria muito de saber o que levou o presidente Luis Álvaro Ribeiro a decidir negociar individualmente com a Globo, ignorando o Clube dos 13. Quais as vantagens para o Santos, presidente? Por que essa preferência? Se futebol é negócio, os valores financeiros alcançados não seriam bem mais interessantes se os clubes fizessem valer a força do coletivo? 

No blog do jornalista Paulo Vinicius Coelho, um exemplo concreto desses valores: "o Coritiba já sabe quanto a TV Globo oferece pelos direitos de transmissão de seus jogos nos Campeonatos Brasileiros entre 2012 e 2014. Segundo o presidente Jair Cirino, a emissora acena com R$ 27 milhões anuais. Atualmente, o Coritiba recebe R$ 13 milhões, mas passaria a receber R$ 34,8 milhões pelo valor mínimo da licitação promovida pelo Clube dos Treze". Aceitar a oferta da Globo significa topar receber cerca de oito milhões de reais a menos por ano, se compararmos com a perspectiva indicada pelo Clube dos 13. Quantia considerável para qualquer clube, não?

Condenável também o recuo intempestivo e inesperado da Record, que fomentou expectativas (falsas, ilusórias, sabemos agora) para no frigir dos ovos seguir o péssimo exemplo da Globo. O episódio talvez sirva apenas para confirmar que, nessa saga, fica cada vez mais difícil encontrar abnegados benfeitores. Para ser mais preciso e correto: nessa história toda não há santos.


Falemos pois da toda-poderosa CBF. Ricardo Teixeira? Bem, dispensa comentários. Age como dono do espetáculo, como a dizer "o futebol brasileiro sou eu". E não há quem tenha coragem de dizer que o rei está nu, que caducou no poder, que seu reinado é nefasto para o futebol brasileiro. Ao contrário. Os clubes continuam a bajular e a fazer afagos e carinhos no rei. Por quê?

A postura dos clubes, aliás, deve ser duramente condenada. Flamengo, Corinthians e todos os outros dissidentes (são 12, no total) não formalizaram a saída do Clube dos 13. Por quê? Para rachar de fato e de direito, teriam antes de saldar dívidas astronômicas. Não têm esse dinheiro. Ao mesmo tempo, viram as costas para a entidade e, no balcão de negócios, tentam acertar "individualmente" os valores de transmissão. Colocam os pés em duas canoas. Situação cômoda, não?

Mas, se não oficializam o racha com o Clube dos 13, continuam sendo representados por ele, certo? É o que diz explicitamente o estatuto da entidade: "Pelo presente estatuto, os associados autorizam a entidade a negociar de modo coletivo e previamente, com terceiros, os direitos individuais a eles pertencentes, especificados na legislação vigente". Para todos os efeitos legais e jurídicos, os dissidentes continuam sendo associados. Pois então... O que a Justiça tem a nos dizer?

O cenário é tão caótico e absurdo que o pobre torcedor, como diria Nelson Rodrigues, corre sério risco de ter de acompanhar os jogos dos "times da Record", as partidas das "equipes da Globo" e, agora, quem sabe também os embates entre os "acertados com a Rede TV". A primeira não poderia transmitir jogos de "contratados" da segunda, que não poderia mostrar   jogos da terceira, que por sua vez estaria impedida de passar jogos da primeira e assim por diante, criando um círculo de bloqueios. Teríamos, de fato, dois  (ou três?) campeonatos sendo exibidos. Que bagunça! E ainda quem sabe a prerrogativa da toda-poderosa do Jardim Botânico de apontar o dedo e decidir a tabela do campeonato, minando a concorrência, como revela o blog do Perrone. 

Como escreveu o jornalista Rodrigo Vianna, "o futebol é algo tão sério para o brasileiro que o governo federal deveria intervir nessa história. Intervir, não: “arbitrar”. Já que a concorrência não vale, deixemos o Estado cuidar disso. Não digo que precisemos imitar a Argentina, com jogos transmitidos pela TV pública. Mas que tal a TV pública brasileira entrar na disputa, montar um pacote razoável de horários, e depois vender cada horário para uma emissora privada? Seria o fim do monopólio. E o fim dos espertalhões. Mas quem acredita nisso…".

Os clubes brasileiros tinham a chance de começar a reduzir a abissal distância que separa o nosso futebol do profissionalismo que caracteriza esse esporte na Europa. Estão jogando essa oportunidade histórica na lata do lixo. Para continuar sustentando o monopólio global - e os desmandos do rei.  

quarta-feira, 9 de março de 2011

ELETRODOS PODEM DETECTAR RISCO EM GRAVIDEZ

(*) Francisco Bicudo.
Matéria originalmente publicada pela revista "Unesp Ciência" (www.unesp.br/revista), edição de março de 2011. Reprodução autorizada.


Um exame simples, normalmente usado para avaliar a massa magra e gorda de pacientes hospitalizados, ambulatoriais e frequentadores de academias, tem se mostrado um indicador eficaz de um problema de saúde típico de um público completamente diferente: a pré-eclâmpsia, doença relacionada à elevação da pressão em gestantes. 

Conhecido como teste de bioimpedância, não dura mais do que cinco minutos, durante os quais o paciente fica deitado em uma maca, consciente. Pequenos eletrodos são colocados nos tornozelos, dedos dos pés, punhos e dedos das mãos. Uma corrente elétrica de baixa intensidade é acionada e percorre o organismo, encontrando nessa trajetória uma resistência que é oferecida pelos tecidos e órgãos, além de ser em parte absorvida pelas células (é a chamada reactância). A partir desses parâmetros, é possível definir características da massa magra (músculos e ossos), da gordura corporal e também a quantidade de água que está sendo retida pelo organismo.

Esse procedimento é capaz de produzir uma fotografia bastante nítida e precisa da composição corporal. Por essa razão, é corriqueiramente usado para avaliar jogadores de futebol em início de temporada, pessoas que procuram dietas e programas de emagrecimento e idosos dispostos a praticar exercícios físicos, além de pacientes com HIV e câncer.

A expectativa é que, em breve, também possa ser aplicado como método de diagnóstico antecipado da pré-eclâmpsia na gravidez. É o que sugerem os resultados de um trabalho realizado pela nutricionista Elaine Gomes da Silva no HC da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu. 



Clique aqui para ler o restante da matéria. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

QUE O PT NÃO SE DEIXE ENGANAR - KASSAB É SERRA.

Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo e atualmente no Democratas (DEM), é raposa política esperta. Hábil e discreto, não dá ponto sem nó. Já percebeu que o barco dos demos está fazendo água e que o naufrágio do partido é inevitável, questão apenas de tempo. Os números são implacáveis: no Senado federal, a bancada democrata despencou de 14 representantes para os atuais seis sobreviventes; o DEM conseguiu emplacar apenas 43 deputados federais nas eleições do ano passado (foram 65 em 2006, 84 em 2002). A agonia do zumbi político é pública. 

Kassab compreendeu também que a briga intestina entre tucanos paulistas e mineiros, entre aqueles que têm plumagens "intelectuais ou caipiras" não pode conduzir a porto seguro algum - ao contrário, tende a enfraquecer ainda mais a já esquálida oposição, completamente sem rumo ou visão estratégica e incapaz de vislumbrar qualquer mínimo projeto articulado ou mesmo ação pontual alternativa ou de resistência ao governo Dilma. Os demo-tucanos estão perdidinhos. 

Mas Kassab sabe para aonde correr. Tem óbvias pretensões eleitorais e políticas. O desejo primeiro é ser candidato a governador de São Paulo, em 2014. Se aparecer oferta mais tentadora? Negociações estarão sempre abertas. Assim é a política, não? Quantas surpresas! O fato é que o prefeito paulistano não deseja nem de longe permanecer inerte e esperar imóvel e calado até que seja puxado para o fundo do mar junto com o titanic das oposições.

Pragmático, Kassab assumiu entusiasticamente a operação desembarque imediato e deve em breve dar adeus aos que insistem em continuar tocando os violinos moribundos do DEM. Para não ser flagrado pela Lei Eleitoral e tentar escapar da perda de mandato, optou por fundar novo partido - o Partido da Democracia Brasileira (PDB). A agremiação deve receber logo de cara dissidentes outros do próprio DEM (o mais ilustre seria o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos), além de políticos de diferentes estirpes e linhagens (prefeitos, deputados federais e estaduais, vereadores e até mesmo governadores do PMDB, PTB, PR e PP). 

O movimento seguinte, observado um curto período de resguardo, seria uma fusão com o PSB. Assim, Kassab passaria a integrar a base de apoio do governo da presidenta Dilma Rousseff, sem necessariamente precisar romper com seu padrinho político, José Serra. Nem lá nem cá, abraçaria gregos e troianos. Manobra inteligente. Ao mesmo tempo, representaria alternativa à polaridade PT-PSDB, marca da política nacional desde 1994, e ameaçaria a posição de fiel da balança e de fiador de todos os governos, ocupada desde a redemocratização pelo PMDB. Graças ao casamento com os socialistas, tomaria ainda um "banho de esquerda" e assumiria um verniz mais "progressista", além de lançar raízes no Nordeste, região que representa atualmente o sonho de consumo para dez em cada dez políticos brasileiros. Estariam dadas as condições para Kassab reunir o rótulo de uma das noivas mais cobiçadas das eleições de 2014.

Aqui, adoto prudência e tomo canja de galinha (que não faz mal a ninguém): não me arrisco a elocubrar e a cravar qual será o cargo a ser disputado em 2014. Sim, a vontade é o governo de São Paulo, como já escrevi, mas a política por aqui é sempre muito dinâmica e flexível, suscetível a surpresas, e nas negociações e acertos de bastidores pode ser que apareça uma candidatura ao Senado, uma vaga de vice-presidente, quiçá até mesmo a promessa de um ministério importante e poderoso. Quem sabe...  o prefeito é jovem. Imaginar hoje o que acontecerá nas eleições de 2014 é puro exercício de futurismo. O fato inegável é que, no PDB-PSB, Kassab será personagem fortíssimo a influenciar o processo eleitoral vindouro. Não serão poucos os que pedirão conselhos e bênçãos ao atual prefeito paulistano.

O fato a lamentar é que o canto da sereia começa a seduzir partidos historicamente ligados à esquerda. É triste, mas o PC do B engoliu a isca e acha agora que "Kassab é um político que age com determinação e que ninguém pode dispensá-lo", como escreveu Walter Sorrentino, dirigente do partido. Triste capitulação, repito. Repugnante, para ser mais exato. Será que promessas de cargos e a perspectiva de comandar a Copa do Mundo em São Paulo estariam relacionadas a essa nova postura dos "comunistas", que abraçam o aliado "neo-esquerdista"? 

Rendição. Oportunismo. Princípios e valores abandonados. Ideologia jogada na lata do lixo. Aliança inaceitável, sob qualquer aspecto a ser considerado. Kassab, lá ou cá, continua sendo o prefeito das elites brancas, da exclusão e higienização social, das perseguições às minorias, da repressão às mobilizações populares, da truculência, da educação sucateada, da saúde privatizada, do ônibus a três reais, das enchentes e do descaso com o planejamento urbano, das grandes obras viárias em bairros nobres, em detrimento da periferia, da direita reacionária. Kassab continua sendo cria política de José Serra. Isso diz muito.

Espero que o PT não coloque também o pé nessa barca furada. Infelizmente, devo reconhecer que essa é uma torcida. Não uma convicção.    

quinta-feira, 3 de março de 2011

INTERNET E REBELIÃO: "É SÓ O COMEÇO".


Entrevista originalmente publicada pelo boletim "Outras Palavras" (www.outraspalavras.net), em 02 de março de 2011. Tradução de Cauê Ameni. Reprodução autorizada.

Os meios de comunicação passaram semanas centrando suas atenções na Tunísia e no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali; na sequência, como peças enfileiradas de dominó, foi a vez da “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.
Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial — em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Diante desse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sobre o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação.

Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países?

Na verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas páginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreiras da censura e a repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente. As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona-se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.

Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como consequência lógica, ainda que de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?

As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade, e talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.

A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõe de acesso à internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre “conectados” e “desconectados” – ainda maior que aquela que se dá nos países desenvolvidos?
O dado já está antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa de informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet — se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%. Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana está conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas havia um número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos e pudessem derrotar o ditador. A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.
Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?
Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone e número no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em twetts e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alto que tiveram que restaurá-la rapidamente. Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Ben Ali não caiu tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar da rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no Youtube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente, sem que atuasse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.
A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis cibernéticos no Egito — como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos líderes no futuro de seus países?
O importante das “wikirrevoluções” (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos. Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria, eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte algumas destas pessoas como símbolos de mudanças — ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 1968, ele era um autêntico anarquista. Rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea. Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente, um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.

A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro, para enfrentar com êxito os grandes desafios?
Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou aliam-se com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. Sem Al Jazeera não teria havido revolução na Tunísia.
Em um artigo intitulado “Comunicação e Revolução”, você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na Internet. Acredita que existam condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido como o que está percorrendo o mundo árabe?
Não, porque 72% do chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários — ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China — encontram-se muito longe. O governo resguarda-se demais, porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é hoje um problema para a maioria das pessoas, diferentemente do que ocorria na Tunísia e no Egito.
Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre da colaboração de milhões de usuários pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais, à nossa disposição?
Já transformou. Ninguém que está inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo esotérico: há uma inter-relação online/off-line. Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.
Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?
Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tema um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra. É o espaço social do nosso mundo, um lugar híbrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação e sobretudo pela comunicação na internet.