domingo, 27 de março de 2011

UM RELATO TOCANTE SOBRE ABANDONOS E MORTES DE MENINAS NA CHINA


Quem deseja conhecer um pouco mais sobre a milenar-moderna e ainda enigmática e complexa China tem como tarefa obrigatória a leitura das obras da jornalista e escritora chinesa Xinran Xue. 


Autora de "As boas mulheres da China" e de "Testemunhas da China - Vozes de uma geração silenciosa", ela foi um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) de 2009, quando, além obviamente de contar detalhes de sua carreira e de discorrer sobre seu estilo literário, aproveitou a oportunidade para revelar aspectos importantes a respeito da complicada e sofrida condição feminina na China, onde as mulheres são ainda consideradas seres de segunda categoria, ficando bem distantes daquilo que está acessível aos homens; no cotidiano, enfrentam uma série de privações e de dificuldades, associadas inclusive à questão da maternidade, do ser mãe.

E é esse mais especificamente o tema central do livro mais recente de Xinran lançado no Brasil - "Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida".  Trata-se de uma sensível e ao mesmo tempo desesperada tentativa de compreender (se é que é possível) como e por que milhares (seriam milhões?) de mães chinesas são capazes de abandonar suas filhas pelas ruas, praças, estações de trem ou em orfanatos; de oferecê-las para adoção ainda muito pequenas (sem jamais ter novamente notícias delas) ou até mesmo, em situações limite e mais localizadas, de "resolver" (é essa a expressão usada pela autora) bebês do sexo feminino logo após o nascimento - o que significa dizer, agora sem censuras ou eufemismos, que não raro essas meninas recém-nascidas são mortas poucos minutos depois de abrirem os olhos e de chorarem pela primeira vez, sendo na maior parte das vezes afogadas na água de bacias e de baldes usados no próprio parto. Sim, é isso mesmo - embora em menor número do que as abandonadas para adoção, há meninas chinesas mortas pelos pais, familiares, parteiras e médicos logo depois que nascem. 

Histórias perturbadoras
Reconheço abertamente que não consigo negar minha condição humana: há momentos na narrativa em que a visão chega a ficar turva, as letras se embaralham nas páginas, o coração ameaça sair pela boca, as pernas ficam bambas e os olhos se enchem d'água. A raiva ameaça explodir. É difícil seguir em frente. Mas é preciso. As perguntas são naturais e inevitáveis (e você, leitor do blog, certamente também as está fazendo): por que as mães  agem dessa maneira? Como são capazes de matar ou de aceitar como inevitável a morte das próprias filhas? E como conseguem depois lidar com as lembranças e marcas profundas desses assassinatos (é disso que se trata, não?) e infanticídio feminino? Quando a morte não é o fim, quais as circunstâncias que levam essas mães a abandonar suas filhas ou a entregá-las para adoção, diante da certeza de que jamais voltarão a ter notícias das pequenas? Novamente: como trabalham essas memórias e perdas/ausências?

Xinran se dispõe a construir uma narrativa capaz de ao menos identificar possíveis pistas de compreensão para essa perturbadora e angustiante realidade, sem que necessariamente as entenda como justificativas para tais comportamentos. A jornalista caminha no fio da navalha. Como anuncia na introdução do livro, "não discutirei que padrões de comportamento social deveríamos seguir. Julgar todo mundo pelos mesmos padrões é algo ignorante e autoritário".

Mais adiante, no entanto, ela alerta: "neste livro, o leitor encontrará histórias trágicas sobre o o que tradicionalmente tem acontecido com bebês abandonados do sexo feminino, e ainda continua a acontecer. As ferramentas que reforçam essas tradições, forjadas a partir da necessidade de sobreviver, têm sido ao longo dos séculos mantidas amoladas pelas mães - e ainda assim as vítimas são justamente mulheres e meninas".

Num exercício de livre pensar, a partir da leitura, fico imaginando como deve ter sido difícil, quase insuportável para Xinran costurar essa narrativa. Por um lado, identifica-se verdadeiramente com a dor profunda das mulheres, as marcas que nelas não se apagam, e reconhece que as mães chinesas são empurradas pelo sistema, pelas leis e pelas tradições do país a agir dessa maneira; ao mesmo tempo, sempre a partir da minha percepção, não as isenta de responsabilidades, não as trata como inocentes absolutas - e a escritora também não está disposta a camuflar ou minimizar o verdadeiro terror que sente por conta dessas mortes e abandonos. Não quer condenar, mas não consegue aceitar. Delicadíssimo. Um turbilhão de sentimentos conflitantes a acompanham ao longo do livro.

A própria jornalista admite que precisou de muita coragem e de tempo para vencer resistências e amadurecer a disposição para escrever o livro. Reconhece ter sido fortemente incentivada por cartas enviadas por mães que tinham abandonado suas filhas e por relatos de mães adotivas espalhadas pelo mundo (a autora estima que, em 2007, eram cerca de 120 mil as meninas chinesas adotadas, vivendo em 27 países). A partir desses impulsos, percebeu finalmente a importância que o livro poderia alcançar, ao assumir a tarefa de tornar conhecidas essas histórias. Afinal, essas filhas da China "criadas em países ocidentais têm pouca ou nenhuma possibilidade de saber quem são suas mães, como vivem, por que as abandonaram".

No blog da editora Companhia das Letras, resenha do livro reforça que "após relutar, (a autora) decidiu abordar esse delicado tema e dedicar um livro às centenas de milhares de mães chinesas que se viram levadas a rejeitar - e até mesmo a matar - suas bebês; pela primeira vez, elas teriam suas histórias ouvidas. São, é claro, histórias alarmantes, como a vez em que a própria autora testemunhou, em Yimeng, numa das áreas mais pobres da China, uma parteira afogar uma menina recém-nascida num balde de água suja".

Sociedade patriarcal – aos homens, tudo
Procurando com muito esforço escapar dos juízos de valores - o que nem sempre consegue, por razões óbvias -, a autora parte em busca de revelar o que empurra as mães chinesas a abandonar as filhas ou a participar das mortes das meninas, reunindo no livro uma série de relatos diferentes (são dez depoimentos). As histórias estão conectadas por dois aspectos principais: a política do filho único, que pretende controlar a explosão populacional na China, e, nesse caso talvez mais relevante, a condição subalterna e marginalizada que marca o ser mulher naquele país. 

Na China, apenas os homens, principalmente nas áreas rurais, são considerados capacitados ao trabalho e responsáveis por sustentar as famílias - patriarcalismo e machismo levados às últimas consequências. Além disso, por conta da legislação, somente homens têm direito a herdar as terras dos clãs. Se meninas nascem e interrompem essa linhagem masculina, a garantia do patrimônio também se perde. Ou seja, sob essa perspectiva, mulheres são ameaças e seres não desejados, homens são sossego e a garantia de continuidade da posse de bens materiais. A avaliação é pragmática e crudelíssima: as famílias desejam ardentemente meninos, que  sobrevivem; meninas devem ser "resolvidas".

"Meninas são sufocadas ou jogadas nos córregos da China há séculos, particularmente por pessoas mais simples, que acreditam dever aos ancestrais um primogênito ou ainda ouvem as previsões dos adivinhos", completa Xinran, em entrevista publicada pelo jornal O Estado de São Paulo.

Ainda me lembro com detalhes da história da menininha chinesa que foi abandonada pelos pais na plataforma de uma estação de trem no interior do país; da estudante da Universidade de Xangai que teve um caso com um professor e acabou engravidando - envergonhada, a família a obrigou a entregar a criança, uma menina, para adoção; do casal que colocou fim ao casamento e nunca mais se falou depois de entender que a filha que tinham tido deveria ser criada por uma família norte-americana; e da própria Xinran, que acabou por acolher uma bebezinha abandonada em um hospital, a quem chamou de Floco de Neve, mas viu-se rapidamente obrigada a devolvê-la para um orfanato -e nunca mais teve notícias da criança. 

Abrir os olhos do leitor
Para além de conectar, ainda que simbolicamente, todos esses relatos, elaborando uma espécie de rede de afetos e ao mesmo tempo de pedaços perdidos de vidas, o livro assume contornos de uma agoniada denúncia, um grito incontido que deseja anunciar ao mundo o que acontece com meninas chinesas. É como se a autora atuasse como grilo falante, a todo instante a nos soprar nos ouvidos "vejam, é assim que acontece, não é possível silenciar".    

Xinran não precisa, para tocar a alma do leitor, recorrer aos recursos tão comuns ao espetáculo. A jornalista lida com o que tem de melhor: a habilidade com as palavras, a informação bem apurada, a competência na costura narrativa dos depoimentos. A força e o impacto do livro estão justamente nos testemunhos das mães chinesas. Por isso é tão forte e soa tão autêntico. 

Não é, repito, leitura fácil. Mas é imprescindível. Porque, respeitadas soberanias, tradições e singularidades culturais, é preciso afastar o risco de se enveredar pelo perigosíssimo caminho do relativismo - há valores e pressupostos humanos que são universais, que definem a espécie humana (Homo sapiens, homem que pensa) e separam a civilização do obscurantismo. Vida digna e exercício pleno, feliz e saudável da maternidade são dois desses direitos inalienáveis. Xinran não fecha os olhos para essa exigência. E ajuda a abrir os nossos olhos para o drama das (agora um pouco menos) desconhecidas mulheres chinesas. 

2 comentários:

  1. Poxa,as Chinesas são tão lindas!Se eu tivesse grana adotaria uma menininha chinesa.Infelizmente o machismo ainda é grande no mundo todo.
    É verdade que o governo chinês vende as meninas para quem quer adotar?Eu já li isso em sites,mas não sei se é verdade.
    É um absurdo tratar uma criança como mero objeto pra ganhar dinheiro!

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