quarta-feira, 29 de junho de 2011

O JUIZ, O BISPO E A FORTE ONDA REACIONÁRIA


Há dois episódios recentes envolvendo direitos civis de homossexuais e a violência atroz chamada estupro que, de imediato, provocam náuseas. É compreensível que seja assim. Mas é preciso superar esse torpor inicial e transformá-lo em indignação e em atitudes humanistas e civilizadas reativas e propositivas, sob pena de permitirmos que insanidades obscurantistas ganhem ainda mais corpo e fôlego, cravando suas estacas de fé cega e fundamentalista no coração da razão que, em pleno século XXI, deveria nortear as relações humanas e sociais.

Em Goiás, muito orgulhoso e faceiro, o juiz Jeronymo Villas Boas decidiu simplesmente ignorar a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e anulou união civil firmada naquele estado por um casal de homossexuais, comparando essa relação a um ato criminoso. O magistrado usava ainda como "argumento" o conceito de família consagrado (segundo ele) pela Constituição do Brasil. Ousou ainda estabelecer que família é apenas aquela "capaz de gerar prole". Detalhe muito relevante: o juiz é também pastor da Igreja Assembleia de Deus, onde prega todos os domingos. Não se fez de rogado e chegou a deixar escapar em algumas entrevistas que deus o teria ajudado e conduzido na anulação da união do casal.

Esqueceu-se o nobre juiz que, em maio último, o STF decidiu, por unanimidade e em julgamento histórico, reconhecer o direito constitucional dos homossexuais à união estável. Em seu voto, o relator do processo, ministro Carlos Ayres de Britto, deixou muito claro que "a família é, por natureza ou no plano dos fatos, vocacionalmente amorosa, parental e protetora dos respectivos membros, constituindo-se, no espaço ideal das mais duradouras, afetivas, solidárias ou espiritualizadas relações humanas de índole privada", independentemente de o núcleo familiar ser formado por casais hétero ou homossexuais. Reforçando: a decisão do STF diz que a "família é o núcleo doméstico baseado no afeto". Ponto. Sem margem para interpretações de natureza homofóbica.

Analisando por outros ângulos, se o raciocínio construído pelo magistrado goiano fosse de fato considerado, casais heterossexuais que, por livre arbítrio, decidissem não ter filhos também não constituiriam famílias - o mesmo valeria para pais que, por qualquer impedimento, não pudessem gerar filhos. Importante lembrar ainda que preceitos e dogmas religiosos dizem respeito a grupos específicos, a comunidades nucleares, estão conectados a opções individuais, não podendo portanto pretender normatizar as relações coletivas e sociais ou ditar os parâmetros de funcionamento do Estado de Direito.

Claro, religiões devem ser respeitadas, mas servem como inspiração e referência de comportamentos apenas e tão somente para aqueles que professam e seguem determinada fé. Daí a segurança necessária instituída pelo Estado laico - que não é ateu e prega justamente a tolerância e a diversidade, a convivência civilizada entre os vários e os diferentes, os que acreditam e os que não acreditam. Estado de Direito e democracia são sustentados pela razão (que agrega) - jamais pela fé (que separa).  

Por fim, se ainda assim nenhum desses argumentos sensibilizasse o juiz Villas Boas, haveria o derradeiro e, sinto muito por informar, excelência, inquestionável: o STF reconheceu como constitucional a união estável entre homossexuais. Sem mais. Não há qualquer possibilidade de instância jurídica inferior afrontar essa decisão. Ou há ordem e estabilidade jurídicas, respeito às leis, ou entramos no campo do vale-tudo e das vontades pessoais, dos perigosos relativismos absolutos. O juiz pode até não gostar, não concordar com o que definiu o STF - está no direito dele, no plano individual. Mas deve acatar a norma, respeitá-la e segui-la, em suas sentenças judiciais. É a ordem coletiva constitucional. É assim que funciona a tal da democracia. O resto é fundamentalismo, fanatismo religioso, estado de exceção, desejo homofóbico delirante, obscurantismo do tribunal da Santa Inquisição.

Tenebrosas e inaceitáveis foram também as declarações do bispo Luiz Gonzaga Bergonzini, da cidade de Guarulhos, na região da Grande São Paulo, em entrevista originalmente publicada pelo jornal "Valor". Minhas mãos tremem de indignação e tenho confessas dificuldades em reproduzir a fala, mas disse em linhas gerais o religioso que as mulheres que são estupradas acabam não raro sendo coniventes com a violência - se não quisessem, não aconteceria.

Em artigo precioso publicado no Estadão, Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília (UnB), resgata a perversa entrevista e lembra que, ao resumir na matéria o que provavelmente acontece em seu confessionário, "o bispo pega a tampa da caneta da repórter e mostra como conversava com mulheres. "Eu falava: bota aqui", pedindo, em seguida, para a repórter encaixar o cilindro da caneta no orifício da tampa. O bispo começa a mexer a mão, evitando o encaixe". Para o bispo, o orifício da tampa de uma caneta resume a verdadeira história das mulheres estupradas - uma mulher que não consente com o ato sexual "resiste ao encaixe do cilindro na tampa da caneta".

É torpe, vil, nojento, asqueroso, medíocre, cruel, perverso, desumano. Não consegue o religioso vislumbrar a brutalidade do ato, a agressão e a violência profundas representadas pelo estupro, quando a mulher, por meio do exercício da força, da ameaça muitas vezes feita com uma arma na cabeça, perde por completo o direito de decidir o que fazer com o próprio corpo (e com a alma). Não respeita o religioso as marcas profundas - e que jamais se apagam - daquelas que sofrem com tal ato animalesco e criminoso. Inverte ele a mão de direção, desvia o foco, transforma a vítima em cúmplice-vilã - e o criminoso em inocente, alguém que só fez aquilo que a mulher quis que fosse feito, que apenas deu conta de um desejo incontido. Quanta estupidez. Engulhos. Ânsia. Parei para respirar.

Talvez seja a fala do religioso fortemente inspirada na narrativa ficcional bíblica de Adão e Eva, que solidifica a imagem da mulher perversa, cínica, dissimulada, guardiã dos males do mundo, sempre a postos para dar o bote e enganar homens ingênuos, inocentes, desprotegidos, divinamente talhados para o bem. Sacana e ardilosa, mesquinha, Eva teria induzido Adão a comer a maçã, o fruto proibido ofertado pela serpente, e a enveredar dessa maneira por caminhos não autorizados e/ou permitidos por deus aos simples mortais. Por conta dessa maligna ousadia feminina, deixamos de habitar o paraíso. Não foi assim?

Penso que não há como negar: o sinal amarelo de alerta e perigo medievais se anuncia nas esquinas. É preciso reconhecer que os "argumentos" usados pelo juiz e pelo bispo alcançam forte apoio popular e encontram ressonância nas mais diferentes instâncias do tecido social. Há uma tecla em que tenho batido com muita constância aqui no Blog, uma fala recorrente, que tomo a liberdade de repetir: vencer eleições e construir maiorias eleitorais é importante, mas apenas uma etapa de uma luta política muito mais profunda e complexa. É imprescindível construir hegemonia de valores, radicalizar princípios democráticos e garantir o respeito profundo aos direitos humanos, cotidianamente.

Está em curso no Brasil uma aguerrida e consciente onda conservadora, que precisa ser combatida na mesma medida. Silenciar e esconder a cabeça tal qual avestruz significa ser conivente e permitir avanços do obscurantismo medieval - até porque, a retaguarda fica exposta.  Como define a Física: espaço vazio é espaço ocupado. Ou, no dito popular: quem acha mole cava fundo. A rede libertária e as novas tecnologias são aliadas importantíssimas para tal exercício de resistência iluminista e chamamento da sociedade ao exercício cotidiano da racionalidade. Mas esse debate - e embate - precisam com urgência contaminar a arena pública, em toda sua plenitude e abrangência.

Talvez seja o momento, como sugere no twitter o advogado e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Tulio Vianna, de convocar em todo país marchas e manifestações em favor do Estado laico. O tempo urge.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOY LOCO POR TRI, AMÉRICA




Eu cresci usando o manto branco sagrado com duas estrelas douradas estampadas, altura do peito, lado esquerdo, acima do escudo. Tinha (e tenho) muito orgulho delas. Mas desdenhavam, faziam chacotas e diziam que aquilo não valia, porque eu nem era nascido quando as conquistas que justificavam aquelas duas estrelas tinham sido alcançadas. 

Eu cresci torcendo entusiasmadamente para o esquadrão que teve a honra de ser a equipe a abrigar o maior camisa 10 da história do futebol, o melhor de todos os tempos, o gênio incomparável, o Rei do futebol, o craque com mais de mil gols. Mas diziam que também não valia, porque eu jamais tinha visto uma jogada, um gol sequer de Pelé (a não ser, claro, em jogos gravados, arquivos de emissoras). Me chamavam de "viúva do Pelé". 

Cresci - e foram longos os anos difíceis de vacas magras - torcendo sem arredar pé e apaixonadamente por um clube que encantou o mundo, que mostrou como o futebol jogado como arte pode ser também eficiente e vencedor, que parou guerras, que deixou boquiabertos brasileiros, italianos, espanhóis, sul-africanos, argelinos, costa-riquenhos, argentinos, uruguaios... Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Era fácil recitar a escalação. Mas diziam que, mais uma vez, não valia, porque eu também não tinha visto estes craques desfilarem em campo. Enfim, era como se valessem apenas o imediato e o aqui e agora, como se só a História que a gente viu tivesse valor e pudesse ser contada e valorizada.  

Mas foi então que eu comecei a ver. Vi a primeira geração de Meninos da Vila, com Pita e Juari. Vi Serginho Chulapa bater na bola de canela e carimbar o Paulistão de 1984. Vi Giovani fazer tremer o Pacaembu e o título brasileiro de 1995 bater na trave - ou melhor, no apito do árbitro Marcio Rezende de Freitas. Vi Robinho chamar a responsabilidade e pedalar sete vezes diante de um Rogério atônito e aparvalhado. Foi quando veio o título brasileiro de 2002 - e as faixas das torcidas, até aquele dia de ponta cabeça, foram viradas. 

Fui até São José do Rio Preto, interior paulista, mais de 400 quilômetros de estrada, mais de nove horas de viagem (ida e volta) para ver de perto a oitava taça de Campeonato Brasileiro ser erguida. Vi o esquadrão alvinegro praiano abocanhar mais quatro títulos paulistas - aliás, em uma dessas finais, a de 2010, vi um Ganso já genial, craque maduro que sabe o que faz, dedo em riste, a bater no peito e dizer para o técnico: "não vou sair", garantindo a conquista de um time valente, que jogava com dois a menos. Vi o primeiro gol de um (mais ainda) franzino Neymar, que nem cabelo moicano ainda usava, no Pacaembu, num 3 x 0 contra o Mogi Mirim, em março de 2009. Vi um inesquecível 9 x 1 contra o Ituano. Vi o maestro Ganso reger a orquestra afinada e pródiga em goleadas na Copa do Brasil do ano passado, quando também contamos com a volta de Robinho, fundamental naquela conquista. Vi o primeiro gol do Arouca com a camisa do Peixe, contra o Corinthians, na última final paulista.

E ontem eu vi.... o Pacaembu lotado em festa, um mar branco a cantar, o bandeirão a ocupar toda a arquibancada, a esperança tensa e ao mesmo tempo confiante na chegada da terceira estrela. Vi Rafael, sempre seguro, quase não precisar pegar na bola. Vi Danilo fazer um golaço, um tapa de canhota com curva na redonda, a morrer no pé da trave direita do goleiro uruguaio. Vi Edu Dracena e Durval ganharem todas de cabeça e anularem o tímido ataque de camisas amarelas e pretas (liga não, xerife Durval, o gol contra foi mero acaso). Vi Leo, santista de alma e de coração, ser aplaudido de pé. Vi Adriano, limitado tecnicamente, correr o campo todo, um guerreiro incansável na marcação. Vi Arouca, peito estufado, bola grudada no pé, romper sem dó nem medo a defesa adversária, passar por cinco uruguaios e abrir caminho para a vitória, como que a dizer: "faz, Neymar". Vi Elano, ainda longe de sua melhor forma,  quase fazer um golaço de falta. Vi Zé Love perder gols, como de costume, mas participar talvez da melhor partida dele no ano. Vi o Ganso, genial, absoluto dono do meio de campo, cadenciar a partida, com toques sutis e repentinos, assistências milimétricas a encontrar companheiros sempre mais bem colocados - e aquele passe de letra no primeiro gol é realmente coisa para poucos iluminados boleiros. Vi Neymar decidir mais uma vez, com um gol de chapa, batida rápida, curta e seca na bola, que saiu traiçoeira e manhosa, fez ligeira curva e foi morrer no fundo da rede. Neymar foi feito provavelmente em forma de outro mundo, onde deve se jogar um futebol de outra dimensão. Não há como pará-lo. Ontem, eu vi um time jogando coletivamente, de forma inteligente, com raça, de forma coesa, sem cair na catimba uruguaia, combinando técnica e vontade imensa de ganhar.

Amigos secadores, eu vi o Rei Pelé correr pelo gramado de mãos dadas com o mago e vencedor Muricy Ramalho, um obstinado campeão (quem foi mesmo que disse que ele era ruim de mata-mata?). E vi finalmente a Taça Libertadores da América ser levantada pelo capitão Edu Dracena. Vou ver em breve essa taça no Memorial das Conquistas. Vou ver o Mundial de clubes, no final do ano (dezembro, Japão). E outra Libertadores, no ano mágico do centenário (2012). Santástico!

Carrego agora três estrelas no peito. E posso, com muito orgulho e com muito amor, falar com detalhes sobre a História de cada uma delas, de todas elas, as não vistas - e a que vi ser alcançada. Todas merecem respeito. Admiração. Reverência. São parte de um passado e de um presente só de glórias.

Porque nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter.

Soy loco por tri, América. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

MUITO PRAZER, NOVA CLASSE MÉDIA (PARTE II)

Definida a presença e a participação protagonistas da nova classe média no Brasil (com plenitude política e inserção cidadã, e não apenas como consumidora), pesquisadores e estudiosos do tema se esforçam para já sistematizar elementos que possam de alguma maneira ajudar a compor uma espécie de perfil de discursos e de comportamentos marcadores desse segmento social.

Na matéria de capa da Carta Capital desta semana, o diretor do Data Popular, Renato Meirelles, aponta algumas pistas e avalia que a ascensão econômica será necessariamente acompanhada de inclusão social e cultural e que a classe C vai ajudar a redefinir o conceito de cidadania. "Com acesso à informação, essa população vai cobrar mais do Estado. Como vai pagar mais impostos, entenderá que o que recebe do governo não é favor, é obrigação". 

É uma análise que sugere um percurso diferente daquele que é vislumbrado pelo sociólogo Rudá Ricci, para quem o novo segmento tem um componente fortemente conservador. "Essa população tem letramento, tem acesso à informação. Não lê, é verdade, mas sabe o que está acontecendo e escolhe seus candidatos de forma bem egocêntrica. São famílias egocêntricas. Por exemplo, vão à igreja para conseguir o sucesso, por isso fazem muitas novenas e promessas", afirmou, em entrevista publicada no site do SINPRO-SP. 

Ainda segundo o especialista, "são pessoas jovens, com até 25 anos, negras. Eles romperam portanto com a história dos pais, dos avós, dos bisavós e, por isso mesmo, consomem muito, porque querem se afastar a qualquer custo, como faria qualquer pessoa no lugar deles, do histórico de marginalidade que sempre existiu". E ele completa: "É muito consumista, espantosamente consumista. Essas famílias são conservadoras em termos religiosos e de hábitos sociais, desconfiam de tudo que é público, são conservadores politicamente e não por ideologia".

O cientista político André Singer surfa nessa mesma onda de reflexão e também considera a religião um elemento primordial para compreender as aspirações, as opções e os comportamentos daqueles que estão chegando e pedindo passagem. "A classe média emergente tende a votar de forma conservadora. O vínculo com setores religiosos, notadamente as igrejas evangélicas, além do individualismo e da falta de politização, podem fazer com que tal grupo se volte contra os partidos de esquerda nas urnas", afirmou, em matéria publicada pelo portal Terra em março passado.

Dialogando com estas reflexões, retomo aqui, em linhas gerais, o raciocínio desenvolvido no final do post anterior: estamos assim, as esquerdas, diante de mais um desafio de proporções e significados gigantescos. Sem cooptações, cabrestos ou coronelismos, mas com projetos e ideias, é preciso reconhecer o protagonismo cidadão e conquistar corações e mentes dessa nova classe média, para que participem ativamente, com independência, consciência e senso crítico, de maneira soberana, da árdua tarefa de construção de um socialismo humanista e tolerante. O que significa dizer que precisamos ocupar espaços, disputar discursos e consolidar democraticamente hegemonia de valores - e não apenas eventuais maiorias eleitorais. 

O sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor de “Os batalhadores brasileiros - Nova classe média ou nova classe trabalhadora?”, avalia, em entrevista reproduzida pelo blog do jornalista Luis Nassif, que “essa classe vai ser o fiel da balança do caminho tanto social quanto político que o Brasil irá tomar nos próximos anos. Ela tanto pode tender para um alinhamento com os setores mais conservadores de um liberalismo sem responsabilidade social – perspectiva hoje hegemônica na nossa esfera pública ainda que fora do poder político – ou, ao contrário, ser a ponta de lança de um projeto efetivamente mais inclusivo socialmente que jamais teve uma chance real entre nós. As classes sociais não são nem libertárias nem conservadoras em si. É a luta política que implica convencimento e voz ativa na esfera pública que decide, em cada caso, que tipo de orientação política vai prevalecer”.

De forma também muito lúcida, o filósofo Vladimir Safatle considera, em entrevista publicada pela Agência Carta Maior, que há limites para a ascensão da classe C, se não houver mudanças radicais na repartição da riqueza. “Precisamos de um discurso de esquerda alternativo que esteja em circulação no momento em que as possibilidades de ascensão social (da chamada classe C) baterem no teto”, diz.

Em busca do fundamental discurso alternativo, as esquerdas devem estar atentas a essa nova fotografia política, mantendo inquietos e rebeldes os espíritos, sonhando sempre e a todo instante com outros mundos possíveis. Como reforça o historiador britânico Eric Hobsbawm na Agência Carta Maior, carregamos a utopia, "a crença de que, de um modo ou de outro, a sociedade chegará a uma sociedade melhor, mais humana, do que a sociedade na qual todos vivemos atualmente".  

domingo, 19 de junho de 2011

MUITO PRAZER, NOVA CLASSE MÉDIA


A nova classe média,  na visão das elites brancas























Edição 651

Em um exercício muito livre e singular de reconstrução da História, procuro imaginar as expressões de horror estampadas nos rostos dos patrícios romanos, nos palácios suntuosos de mármore e nos banhos públicos, ao se darem conta da chegada dos povos bárbaros e da queda iminente da cidade que traduzia o poder, a soberba, o esplendor e a pujança do mais extenso e importante império construído na Antiguidade.

Guardadas as devidas proporções e respeitadas as óbvias diferenças históricas, tomo a liberdade de continuar cá com meus botões elocubrando mais um pouco. E me pergunto se aquelas expressões de terror dos romanos não seriam muito parecidas com as que agora vislumbramos nas caras e bocas, nos narizes torcidos e nas testas franzidas, nos semblantes de repulsa e ojeriza das elites brancas paulistanas, que se assustam e não se conformam com as recentes mudanças em nossa pirâmide social e com a consolidação da nova classe média no Brasil. Nesse sentido, os "diferenciados" seriam os novos godos, visigodos e ostrogodos, os bárbaros dos tempos atuais, que chegam para invadir nossas praias, nossos bairros limpinhos, contaminando as paisagens, desestabilizando o que já estava pactuado e tomando conta, sem pedir licença, de shopping centers e aeroportos. 

"Os setores mais conservadores, parte da (antiga) classe média, estão irritados com essa mudança na estrutura social. Se esse mal-estar não for bem trabalhado, esses setores acabam indo para a direita e passam a se colocar contra os grupos mais frágeis, como os nordestinos", confirma e avalia o economista Waldir Quadros, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em entrevista publicada pelo site do Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO-SP) em novembro do ano passado.

Sinto informar, mas para desespero histérico e alucinante das elites brancas, a nova classe média chegou para ficar. Ponto. Tremei, conservadores! Como revela a reportagem de capa da revista Carta Capital que está nas bancas, pesquisa inédita feita pela consultoria Data Popular, especializada em estudos de mercado, mostra que, graças a uma nova onda de inclusão, a classe C representará, em 2014, quase 60% da população brasileira (cerca de 12o milhões de pessoas), achatando as classes D e E e criando novas demandas para o Estado e as empresas. "A internet estará presente em 74% dos lares da população dessa faixa de renda, que vai de 300 a 1,3 mil reais ao mês per capita, segundo o critério usado pelo Data Popular. (...) Entre 2010 e 2014, subirá de 9,9% para 11,7% o índice de cidadãos da classe C com curso superior completo", diz a matéria. O texto, do repórter André Siqueira, indica ainda que “os novos consumidores serão os responsáveis por manter o giro da roda da economia, ao consumir mais educação, informação e buscar acesso a serviços de qualidade”. 

Constatada a nova fotografia, há questões cruciais a serem debatidas: qual será o jogo ideológico que será jogado pela nova classe média? Para aonde vai pender - esquerda, centro, direita? Que projetos de País estará disposta a apoiar e abraçar? Nesse movimento de subir degraus, quais serão suas aspirações culturais? Por favor, muito cuidado: nem de longe se trata de estabelecer diagnósticos frios e calculistas sobre animais exóticos enjaulados em um zoológico, mas de procurar compreender, de forma cidadã e com a máxima profundidade possível, de quem estamos falando, politicamente, quando consideramos essa nova classe média. 

Sim, porque fazer parte desse segmento envolve certamente o viés de renda e poder de consumo, a questão financeira, mas vai muito além dessa dimensão. O ser classe média significa também um certo estado de espírito, estabelecer e defender valores, referenciar e legitimar comportamentos, abraçar princípios e atuar na esfera pública sustentando visões próprias de mundo. Curiosidade confessa: como será que se manifestariam os novos "moradores" desse setor intermediário da pirâmide na hipótese de o País promover plebiscitos sobre temas que dizem muito sobre o que é uma sociedade, como aborto, pena de morte, desarmamento, reforma agrária, casamento entre homossexuais e regulamentação do uso de drogas? O que teriam a dizer a respeito destes assuntos?

Por enquanto, fiquemos com as perguntas. Sigamos pensando. Pretendo retomar a discussão no próximo post, alinhavando algumas reflexões que cientistas políticos, sociólogos e economistas já começam a encaminhar. Porque muito provavelmente a luta política passa a assumir novos ares e contornos e se coloca a partir de agora em outro patamar. E é preciso que as esquerdas estejam muito atentas e sejam capazes, com argumentos, de conquistar os corações e as mentes daqueles que fazem parte dessa nova classe média (o povão!) para a construção de um efetivo e duradouro projeto nacional de inclusão social e de radicalização da democracia e dos direitos humanos.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

REDES VIRTUAIS E ENCANTAMENTO POLÍTICO


(*) Texto de J. S. Faro, historiador e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Originalmente publicado no www.jsfaro.net e reproduzido aqui com autorização do autor.




O jornal El País dá conta de mais uma notícia sobre esse encantamento político representado pela emergência de movimentos que têm nas redes virtuais o seu principal veículo de sustentação e de organização. Desta vez, o episódio acontece na Arábia Saudita: proibidas pelas normas religiosas conservadoras, mas não legais, de dirigir automóveis, centenas de mulheres prometem desafiar os clérigos e sair às ruas para reanimar o movimento Women2Drives que se inspira não só nas suas reivindicações específicas, mas também nos exemplos recentes de mobilização do Egito e da Tunísia. Além da própria confusão que prometem para o trânsito em Riad, as manifestantes ostentam um outro símbolo de sua inserção na modernidade: organizam-se pelo facebook e pelo twitter (leia aqui a matéria do jornal espanhol).

Parece que o cenário do cotidiano vai absorvendo com uma certa rotina esses movimentos sobre os quais eu arrisco uma breve interpretação: são altamente dispersos em suas demandas e, justamente por isso, são também possuidores de uma forte energia arregimentadora (cabe de tudo um pouco nas suas cartas programáticas virtuais, a exemplo da enormidade de itens que o M-15 espanhol elencou na campanha pela reforma da democracia no país); são igualmente desprovidos de bases ideológicas consistentes e homogêneas que ofereçam ao seu impulso arregimentador uma perspectiva de permanência e de organização. Essas duas características - que, repito, vêm aqui a título de uma primeira interpretação pessoal - não esvaziam o seu significado político, mas acredito que explicam sua volatilidade. Tudo se passa como se a esfera pública vivesse alternadamente movimentos de expansão e de contração, de sístole e de diástole, ao final dos quais o que parece restar é a expectativa de que em outro lugar e sem muita demora aconteça mais um evento da mesma natureza.

Penso que estamos diante de um ciclo que tem toda a probabilidade de se constituir num instrumento para-institucional da vida política cuja eficácia maior é a ampliação dos níveis de argumentação que preenchem o imaginário dos segmentos sociais que encontraram na internet o seu instrumento discursivo, mas sem a correspondente eficácia nos níveis de deliberação - paradoxo de onde percebo a sua inconsequência. No final das contas, ainda permanece nas mãos dos canais convencionais da comunicação e da atividade política (a grande mídia, os partidos, os parlamentos, o Estado) o poder da decisão, quando esse mesmo poder não se manifesta pela via da repressão pura e simples, fato que fragiliza ainda mais as possibilidades de êxito desses vários eventos. No Egito, na Tunísia e na própria Espanha, esse parece ter sido o resultado mais concreto de todo o corre-corre que a mídia noticiou.

Essas considerações são feitas a propósito da entrevista que Clay Shirky concedeu ao suplemento Link, do Estadão. Lá pelas tantas, o professor da NYU, que não esconde seu entusiasmo pelas redes, diz com muita propriedade que o temor dos governos diante desses episódios de manifestação não é mais a disseminação da informação, mas o potencial mobilizador que eles têm, ou seja, não importa muito a lógica do grau de discernimento dos manifestantes, mas a sua forma física como ameaça de desestabilização. Passado o risco que esta última representa, o primeiro deles se dilui nos processos clássicos de comunicação, aqueles em que o sistema de forças permanece inalterado. 

Se isso é verdade - e é preciso conter o entusiasmo (irrefletido?) que o dinamismo das redes virtuais naturalmente cria para que uma análise mais detida de sua natureza possa ser feita, inclusive no âmbito acadêmico -, essa profusão de eventos pode se traduzir numa bolha de descontentamento que murcha na sequência de seu surgimento, ou um vazio que acaba por fortalecer as práticas conservadoras dos governos nas mesmas áreas onde o encantamento confundiu a velocidade da arregimentação com sua eficácia. Vamos voltar ao assunto...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

DILMA E OS ARQUIVOS SECRETOS - MAIS UM RECUO, PRESIDENTA?

Votei na Presidenta Dilma nas eleições do ano passado. Não foi um voto militante e esperançoso como o de outros tempos, mas certamente representou a melhor opção possível naquele momento. Tinha plena consciência de que “não seria o governo dos meus sonhos, mas a outra candidatura colocada com certeza representaria o governo de nossos pesadelos”, parafraseando editorial do jornal “Brasil de Fato” publicado à época. Pois bem. (Ainda) Não me arrependo. Mas, muito triste, duro admitir, as decepções só se acumulam – e com velocidade assustadora. Não bastassem códigos florestais e afins, temos agora o recuo da Presidenta em uma questão de fundamental importância para a História do país.

A lei 11.111/2005 estabeleceu que os documentos brasileiros considerados pelo Estado como “ultrassecretos” só poderiam ser disponibilizados ao público 30 anos depois de terem sido assinados – e ainda com a garantia de prorrogação desse prazo por infinitas vezes (quantas o poder público achasse necessárias). Ou seja, na prática, viabilizou-se a figura jurídica do sigilo eterno. No final de seu mandato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei que reduzia esse “prazo de segredo” para 25 anos – mas mantinha a renovação sem limites. Na Câmara, os deputados federais aprovaram uma emenda ao projeto, mantendo os 25 anos, mas permitindo apenas uma renovação – o que significa dizer que, na pior das hipóteses, um documento ultrassecreto chegaria ao conhecimento da população em 50 anos. Mas ainda falta o Senado se pronunciar a respeito.

Pois, surpresa, já no início desta semana os jornais estampavam em manchetes que, depois de ter sido entusiasta defensora do projeto aprovado na Câmara (chegou-se a aventar inclusive a possibilidade de o Senado confirmar a decisão dos deputados em 03 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Expressão), a Presidenta Dilma recuou em sua disposição inicial e aceitou manter, na votação que ainda deve acontecer no Senado, o sigilo eterno. Uma guinada de cento e oitenta graus, em direção à direita reacionária.

Dilma teria mudado de posição pressionada por dois ex-presidentes: José Sarney (aquele que adora censurar jornais e para quem os arquivos podem abrir “feridas perigosas”) e Fernando Collor de Melo (que trabalha com a tese de “aprofundar o debate sobre o tema”, o que para bom entendedor significa efetivamente postergar a discussão, tirar o foco do assunto e aguardar o melhor momento para aprovar o sigilo eterno na calada da noite, longe dos olhares atentos e das pressões da sociedade). Mas por que raios Dima cede a Collor e Sarney? E o que afinal temem Sarney e Collor? Bobagem minha: é natural que legítimos filhotes da ditadura militar ajam sem constrangimentos para arranhar o lento processo de fortalecimento da nossa democracia. Ah, sim, e agora os dois são “aliados” do governo, são líderes destacados da base governista...

O lamentável e profundamente decepcionante é que a Presidenta se renda a tais ameaças, bravatas e chantagens. Dilma conheceu muito de perto as atrocidades de uma ditadura, foi vítima do terror de Estado e sabe melhor do que muita gente o preço que um país paga quando se recusa a encarar de frente o seu passado. O que aconteceu com a Presidenta que, logo após a vitória eleitoral, em todas as entrevistas que se seguiram e até mesmo em seu discurso de posse, fez sempre questão de se anunciar como ferrenha defensora da liberdade de expressão, condenando de maneira enfática todo e qualquer instrumento de censura?

Porque é disso que se trata, Presidenta: impedimento legal, com anuência do governo, ao direito à informação e à livre construção da memória do Brasil. Apenas para sugerir um aspecto prático, Presidenta: em que condições poderia trabalhar a tão aguardada Comissão da Verdade, destinada a esclarecer crimes cometidos durante a ditadura militar, se o órgão tiver sua atuação cerceada e limitada pela existência de documentos ultrassecretos? Vamos continuar a contar nossa História pela metade, aos fragmentos? Por que então instalar a Comissão? Será apenas teatro, jogo de cena? Para inglês ver?

Lembrança importante: “Todos os cidadãos têm direito de acesso aos documentos de organismos públicos, da mesma maneira que tais organismos têm o dever correlato de proporcioná-lo. É o que a Constituição Brasileira assegura em seus artigos quinto (incisos XIV e XXXIII) e 216 (inciso IV, parágrafo segundo). Guindado à condição de princípio constitucional, o direito à informação é, ao lado de outros igualmente originários da Declaração Universal dos Direitos do Homem, pressuposto importante da transparência e visibilidade do poder que caracterizam o processo democrático”, alerta a Associação Nacional de História (ANPUH), em texto disponível no site da Rede Brasil de Direitos Humanos (no mesmo documento, há várias outras reflexões importantes).

No jornal “O Estado de São Paulo”, a vice-presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Vitória Grabois, classificou como “estarrecedora” a decisão de Dilma. Na mesma matéria, Maria Celina D’Araújo, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), lembrou que “há uma elite política civil que concorda com a restrição de liberdades”. Também no Estadão, o ex-ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, reforçou que “ninguém está propondo vazamento irregular de informações”.

Na "Folha de São Paulo", Gregory Michener, doutor em ciências políticas pela Universidade do Texas , escreve que “o prazo de proteção de 50 anos que o projeto de lei propõe já excede em muito os melhores padrões de referência. A lei norte-americana de liberdade de informação, adotada em 1966, estipula um período de proteção de 25 anos, que em raros casos pode ser ampliado a 50 anos. Na América Latina, poucas leis incluem prazos de proteção superiores a 15 anos. A lei do México, que serve como padrão regional e internacional, prevê prazo de 12 anos. A do Chile estipula prazo inicial de cinco anos, com a possibilidade de extensão por outros cinco”.

O que se coloca a todos os segmentos e redes progressistas da sociedade é a necessidade de estabelecer a luta política, de levar o debate para as mais diferentes instâncias públicas e de pressionar o Senado a de fato manter a decisão da Câmara e a acabar com o sigilo eterno dos documentos. Não será fácil.

Até porque, antes mesmo que eu conseguisse chegar ao final deste texto, já tive a infelicidade de ler nos portais notícia que diz que, com medo mais uma vez de enfrentar a bancada ruralista, o governo teria decidido também adiar a votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que pune com a expropriação da terra os produtores agrícolas que patrocinam trabalho escravo ou análogo.

Mais um recuo. Mais uma decepção. E a agenda política do País cada vez mais nas mãos dos conservadores. Até quando, Presidenta?

terça-feira, 14 de junho de 2011

UMA FASCINANTE VIAGEM PELO UNIVERSO DA NEUROCIÊNCIA


(*) Texto de divulgação - Editora Companhia das Letras








Comandar máquinas, robôs e próteses só pela força do pensamento, a ponto de tornar factível um projeto como o que ele hoje persegue, o de fazer paraplégicos voltarem a andar, é apenas uma das possibilidades próximas de um fascinante mundo novo apresentado pelo respeitado neurocientista Miguel Nicolelis em Muito além do nosso eu.

Outras, a exigir percurso técnico-científico um tanto mais longo e íngreme, são as conexões entre cérebros humanos, sem viés místico ou pensamento mágico, e o poder de experimentarmos no próprio corpo finas sensações tácteis – como a percepção do contato da sola do pé no solo de Marte –, com base em informações enviadas por robôs-exploradores desde planetas do sistema solar ou de regiões remotas do universo. 

E há por fim as fortes chances de vencermos, com as ferramentas desse novo mundo que Nicolelis vai desdobrando em cores intensas e fascinantes, dolorosas condições neurológicas e psíquicas, como as produzidas pelo Mal de Alzheimer, Parkinson, esquizofrenia, depressão profunda e outras doenças muito disseminadas nas sociedades contemporâneas. 

O livro poderia, assim, ser tomado como uma espécie de mapa do tesouro que dá acesso às maravilhas desse mundo que neurocientistas de ponta, e Nicolelis com lugar de destaque entre eles, vêm construindo nas últimas décadas, com o suporte de múltiplos campos do conhecimento e da tecnologia. 

Essa refinada obra de divulgação científica vai, entretanto, muito além disso. Em primeiro lugar, pela narrativa que o autor conduz com invejável mestria, entremeando delicadas memórias pessoais com didáticas explanações de seu campo de domínio científico. Ou fazendo suceder, ao relato sensível das experiências já realizadas por ele com macacos capazes de mover com o pensamento braços robóticos ou comandar, a partir de seu laboratório na Universidade Duke, a caminhada de um robô numa esteira no Japão, especulações futuristas capazes de deixar de cabelos arrepiados seus colegas mais céticos. 

Um pequeno exemplo de suas antevisões: “Nesse futuro, sentado na varanda da sua casa de praia, de frente para o seu oceano favorito, você poderá um dia conversar com uma multidão de pessoas, fisicamente localizadas em qualquer parte do planeta, através de uma nova versão da Internet (a “brainet”), sem a necessidade de digitar ou pronunciar uma única palavra. Nenhuma contração muscular envolvida. Somente através do seu pensamento”.  

Nicolelis é, sem dúvida, dono de uma escrita poderosa fora do jargão dos papers, capaz de transitar à vontade e de maneira envolvente entre planos e contraplanos, digamos, passando do interior do laboratório para a sociedade que receberá o que ali se gesta, das histórias da infância para a antevisão de um homem futuro que move robôs e avatares como suas reais extensões e molda, com isso, uma nova sociedade humana. 

Mas em paralelo à força da narrativa, Muito além do nosso eu é uma excepcional obra de divulgação científica pelo valor inestimável do conteúdo que torna acessível ao leitor, relativo a uma das áreas mais fascinantes e promissoras da pesquisa científica, seja em termos dos impactos que promete para a própria construção do conhecimento, seja em termos sociais. 

O livro situa muito bem os notáveis avanços e as divergências existentes hoje no interior da neurociência no contexto histórico de mais de um século. Trata-se de uma abalizada e sofisticada revisão da neurofisiologia, que torna clara a oposição entre localizacionistas e distribucionistas ou relativistas, entre os que tomam o neurônio como unidade de funcionamento do cérebro e os que preferem atribuir esse papel às redes neuronais.

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"Muito além do nosso eu"
Miguel Nicolelis
Editora Companhia das Letras
552 páginas
Lançamento - junho/2011

domingo, 12 de junho de 2011

O NOSSO VELHO CHICO

(*) Por Luiza, 9 anos e aluna do quarto ano do Colégio Pentágono (unidade Caiubi), e Daniel, 5 anos e aluno do G5 também do Colégio Pentágono (unidade Bartira). Os dois são filhos do Chico Bicudo e da Elisa Marconi.


Neste domingo, dia 12 de junho, fomos à exposição sobre o Rio São Francisco, no Parque do Ibirapuera, no Pavilhão das Culturas Brasileiras. Ronaldo Fraga tenta contar a história do Velho Chico com atrações divertidas e criativas.

Quem passa por lá encontra cenas de pescarias, fotos, vídeos e roupas que parecem escamas, são onduladas e têm desenhos de peixes. O mais legal é poder ver as fases e o caminho do rio.

Logo na entrada, a primeira coisa que encontramos foram fotos de pescadores, de navegantes e de peixes; quando olhamos para cima, encontramos peixes feitos de garrafas. No segundo piso, acredite, há roupas que falam. Elas contam a história do São Francisco, as músicas que existem sobre o rio!

Ainda no segundo andar, temos as comidas que podem ser retiradas do rio. Ah, e no primeiro andar vimos alguns dos personagens mais famosos do folclore da região, como a Mãe D'Água, a Pisadeira (que destrói as embarcações) e o Minhocão (causa inundações).

É verdade, são várias as atrações, maravilhosas. Nós adoramos. E você, será que vai gostar também?

LULA, DILMA E O DATAFOLHA

Em junho de 2003, cinco meses após a posse e ainda embalado pelo fato de finalmente a “esperança ter vencido o medo”, o então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tinha seu governo avaliado como “ótimo ou bom” por 42% da população, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha (2.630 pessoas entrevistadas, em 152 cidades); 43% consideravam a primeira administração petista como “regular” e 11% diziam que o governo era “ruim ou péssimo”.


De acordo com o levantamento, a aprovação maior do governo Lula se dava entre os estudantes (49%), aposentados (47%) e funcionários públicos (46%). Ficava também acima da média nacional entre os moradores da região Sul (49%), moradores do Norte e Centro-Oeste (47%), homens (46%) , jovens com entre 16 e 24 anos (46%) e entre os com nível superior completo (45%).

Já era possível notar naquela fotografia um otimismo razoável em relação à economia – 35% acreditavam na queda da inflação; 41% vislumbravam diminuição nas taxas de desemprego; 37% estimavam que o poder de compra dos salários iria subir e 55% esperavam melhoria geral no cenário econômico do país.

Neste domingo, 12 de junho, também cinco meses depois da posse da Presidenta, o Datafolha (2.188 entrevistados) mostrou que 49% dos brasileiros avaliam como “ótimo ou bom” o governo de Dilma Rousseff (eram 47% em março); para 38%, a administração é regular e 10% dizem que é “ruim ou péssima”. Em relação às expectativas manifestadas sobre a economia, os números soam contraditórios: 51% acreditam em alta da inflação e 32% temem aumento do desemprego; no entanto, a taxa dos chamados otimistas ainda é elevadíssima, pois 42% confiam que o cenário econômico geral vai melhorar e outros 37% (somando portanto 79%) acreditam que ficará como está.

A primeira constatação que salta aos olhos é óbvia: quando considerados os mesmos períodos (cinco meses depois das posses), a aprovação de Dilma é sete pontos percentuais superior àquela conquistada por Lula (49% x 42%). Como alerta com muita pertinência Diego Calazans, que se define como um “sócio-comunicólogo em formação”, em breve diálogo que travamos pelo twitter, boa parte desse capital político dilmista ainda pode ser constituído pela memória do governo Lula, o mais bem avaliado da História, tendo passado a faixa presidencial à sucessora com mais de 80% de aprovação popular, um recorde.

No entanto, em favor de Dilma, é preciso lembrar que, em seus primeiros 150 dias, Lula nem de longe viveu as agruras e o inferno de crises enfrentadas pela Presidenta (disputas na base aliada, fogo amigo, caso Palocci, derrota na votação do Código Florestal, PMDB cada vez mais faminto). Em tese, essas dificuldades – cada uma e todas elas – tinham potencial expressivo para abalar ou reduzir sensivelmente a popularidade de Dilma, o que parece não ter acontecido (aliás, para desespero da Folha de São Paulo, que não se conteve, não conseguiu esconder a decepção e estampou em manchete: “Dilma mantém aprovação, apesar de Palocci e inflação”).

Trocando em miúdos: Lula continua a ter sua contribuição, mas parece ser cada vez mais evidente e palpável que o julgamento que a população faz é do governo Dilma – para o bem e para o mal – e seria até mesmo injusto escantear ou menosprezar a participação da Presidenta na construção desses índices de aprovação (novamente, com todos os riscos envolvidos). Já existe, penso, uma percepção bastante razoável do que é o jeito Dilma de governar.

Outro viés importante a avaliar, muito bem destacado também no twitter pelo companheiro Fabio Silvestre, jornalista e professor universitário, é a conjuntura econômica vivida pelo país. Apesar mais de boatarias que de evidências (e, nas alcovas petistas, não são poucos os que garantem que a tese foi fortemente estimulada por “companheiros” interessados no enfraquecimento do ministro Guido Mantega), a inflação, depois de ligeira variação acima da meta estipulada, já dá sinais de arrefecimento.

Enquanto outros países (a lista é imensa: Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda, Estados Unidos, Egito...) continuam mergulhados nas consequências nefastas da crise econômica de 2008/2009, o Brasil segue firme seu rumo, até aqui em céu de brigadeiro. Em 2010, a economia brasileira cresceu 7,5% (taxa chinesa!), o que fez o país ser alçado à condição de sétima potência econômica do planeta, superando a Itália. Também em 2010, foram criados quase três milhões de novos empregos formais, outro recorde histórico.

Aqui, e novamente para tentar entender as aprovações de Lula e de Dilma com cinco meses de governos, vale a pena também comparar os cenários econômicos herdados. Lula, além de naquele momento inicial ainda lidar com a desconfiança dos mercados e das classes sociais mais baixas (em 2002, a eleição foi sustentada pelas classes médias, como defende o cientista político André Singer no artigo "Raízes sociais e ideológicas do lulismo"), recebera também um país destroçado. Nos anos FHC, o risco Brasil chegou a 2.700 pontos; o salário-mínimo era de 78 dólares; os créditos populares representavam apenas 14% do Produto Interno Bruto (PIB); em oito anos, foram criados cinco milhões de empregos; em 2002, a taxa de desemprego era de 12,2%.

Dilma assume certamente outro país: risco Brasil de 200 pontos; salário-mínimo de 210 dólares; créditos populares da ordem de 34% do PIB; 15 milhões de empregos formais gerados em oito anos, com 28 milhões de brasileiros tendo saído da linha de pobreza, e o consequente advento das chamadas novas classes médias; taxa de desemprego de 6,8% e o Brasil reconhecido no jogo das relações internacionais como um “global player”. Faz toda a diferença.

O que pretendo sugerir: depois de passar pelas mais diferentes experiências políticas e ideológicas (nacionalismo, desenvolvimentismo, ditaduras, neoliberalismo, lulismo), a população parece fazer o seguinte cálculo e análise: “disputas e crises fazem parte da política, independentemente dos partidos no poder. E quem afinal é capaz de garantir a melhoria efetiva da qualidade de vida para o conjunto da sociedade?”. No limite, como novamente lembra Fabio Silvestre, estão a consagrar o slogan democrata usado pela campanha de Bill Clinton, em 1992, quando derrotou George Bush pai: “é a economia, estúpido!”.

Sem desmerecimentos ou desqualificações, muito ao contrário: é uma avaliação legítima, com forte viés pragmático, certamente, mas ao mesmo tempo com considerável e respeitável grau de consciência política, pois considera os impactos sociais que as políticas econômicas conseguem oferecer. Ao analisar a escolha majoritária dos nordestinos por Dilma, no ano passado, a economista e socióloga Tânia Bacelar de Araújo, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), já anunciava que "aquele não era o voto da submissão, da desinformação ou da ignorância, mas o da auto-confiança recuperada, do reconhecimento do correto redirecionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados - alguns ainda insipientes e outros insuficientes". 

Suspeito que as oposições, lideradas pela mídia limpinha, em boa medida já compreenderam essa mensagem e devem voltar cada vez mais suas baterias de agressividade e contestações à política econômica do governo (ainda mais agora que Antonio Palocci, o queridinho dos mercados, se foi...). A tentativa de criar histeria coletiva por conta do "descontrole inflacionário" e de trazer de volta a loucura da remarcação de preços em cadeia dá um pouco do tom dessa postura, que, palpito, deverá ganhar contornos mais nítidos. Não por acaso, Dilma procurou dar respostas e escapar da crise política palocciana com o anúncio do programa "Brasil sem Miséria" - novamente, a economia que tenta alavancar desenvolvimento social.

Mais uma vez, e só para reforçar e fechar: a confortável situação econômica do Brasil, com evidentes ganhos sociais, ajuda a explicar muita coisa - incluindo a popularidade de Dilma.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O PMDB - LIVRE, LEVE E SOLTO


No editorial da revista Carta Capital que chegou às bancas nesta sexta-feira (10 de junho), Mino Carta avalia que, com a saída (ainda que tardia) de Antonio Palocci e a escolha de Gleisi Hoffmann para a Casa Civil, a presidenta Dilma Rousseff teria decidido finalmente assumir as rédeas do governo. Para o jornalista, "ao se afirmar de forma tão peremptória, a presidenta define seu poder, com um grau de independência que até dia 7 de junho aguardava a prova". Tomara que ele esteja certo. Os sinais de fumaça que chegam de Brasília, no entanto, sugerem que há outro ator político que não mais se envergonha de falar grosso e sai bastante fortalecido da crise, lançando olhares de evidente e crescente cobiça sobre quinhões cada vez mais representativos do consórcio que se estabeleceu para garantir a governabilidade da administração federal. Estou falando do PMDB.  


Para compreender o jeito PMDB de ser e de fazer política, o chamado "peemedebismo", é fundamental travar contato com as análises do cientista político Marcos Nobre, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em longo artigo recentemente publicado pela Folha de São Paulo, que merece ser cuidadosamente lido e debatido, o pesquisador conta como o partido aproveitou o período da ditadura militar para se organizar e crescer, constituindo "um modelo de gerenciamento de interesses adaptado à desigualdade e à fragmentação regionais". É a tal da federação de caciques (José Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer, Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon, Sergio Cabral, apenas para citar alguma figuras ilustres), que tem como propósito apenas "acomodar e gerenciar as desigualdades".


Para que esse projeto possa prosperar e acomodar interesses tão distintos, é preciso estar no poder - e se beneficiar diretamente dele, independentemente de qual seja a coloração do governo. Não é por outra razão que o PMDB tem participação destacada na redemocratização do Brasil, e desde a eleição de Tancredo Neves no Congresso Nacional, sai sempre sorrindo nas fotos dos governos que vão se sucedendo. Ajudou a sustentar Sarney, não esteve distante de Fernando Collor de Melo, bancou  Itamar Franco, associou-se a Fernando Henrique Cardoso e flertou desde o início com Lula, assumindo definitivamente o verniz governista após o escândalo do mensalão, em 2005. Com Dilma, ganha a vice-presidência. Para Nobre, a consequência dessa presença permanente no poder é "uma política de conchavo, de gabinete, ou quando muito, exclusivamente partidária. O debate público deve ser evitado ao máximo". 


O cientista político defende ainda que foi de fato após o mensalão que o governo Lula estabeleceu pacto formal com o PMDB. Fragilizado diante da crise política de gigantescas proporções, com as principais lideranças petistas defenestradas pelas denúncias, o governo precisava de um novo fiador. Oficializou o casamento com Temer e companhia, já vislumbrando inclusive a sucessão de Lula e o enfrentamento com o PSDB (a eleição polarizada e plebiscitária que Lula sempre desejou). A direita teria acusado o golpe, diante desse novo consenso social. "Como a peemedebização historicamente sempre jogou a seu favor, a direita perdeu inteiramente o pé diante de uma ocupação pela esquerda dessa cultura política. Ainda não conseguiu fincar posição para além de setores do mercado financeiro", analisa Nobre. Mas ele em seguida alerta: "se a ocupação pela esquerda do peemedebismo permitiu avanços, é essa mesma cultura política que tende, a partir de agora, a travar novas conquistas democráticas".


O preço dessa fatura, que já era alto durante o governo Lula, torna-se insuportavelmente elevado neste início de administração Dilma: permanência de Nelson Jobim no ministério, livre trânsito de peemedebistas nas articulações estabelecidas no Congresso Nacional, pressões e cotoveladas por cargos no segundo escalão, aprovação de um Código Florestal que permite desmatamento e absolve a motosserra, recuo na distribuição dos kits anti-homofobia nas escolas públicas de ensino médio, chegando ao ápice talvez com o destempero e os gritos dirigidos pelo vice Michel Temer ao então Ministro Palocci, quando este ameaçou e disse que a Presidenta demitiria os ministros do PMDB caso o partido desse os votos necessários na Câmara dos Deputados para a aprovação do Código Florestal (episódio que reflete extrema inabilidade política, aliás. Só ameaça ou blefa quem depois tem condições de colocar as cartas na mesa e de resolver o jogo. Não foi assim que aconteceu, ao contrário - Temer berrou, o governo amansou, ministros continuaram no cargo, e o PMDB se cacifou mais ainda). 

"Porque o peemedebismo é, na sua essência, conservador em todos os âmbitos. E opera com base em uma máxima que lhe garantiu a longa sobrevivência: sempre que algo dá errado, joga toda a responsabilidade da administração do condomínio nas costas do síndico",  destaca Nobre. Ele continua:  "o PT, como atual síndico do condomínio peemedebista, se apresenta como garantia e vanguarda de um processo que, em grande medida, não está de fato em suas mãos".  Eis a essência da tese defendida pelo cientista político da Unicamp: o condomínio é do PMDB, conjunturalmente administrado pelo PT, o síndico. É um arranjo extremamente cômodo para os caciques peemedebistas - o partido bate no peito e assume ser poder quando lhe é interessante. E se esconde nos discursos e diz que é apenas aliado quando o cenário se complica. Fatura o que é bom, joga no conta do síndico-PT as mazelas e os problemas do governo.  

Mais ainda: a recente crise envolvendo o ministro Palocci revela com clareza cruel que a ambição e a voracidade dos donos do condomínio não conhecem limites. Em matéria publicada pela Carta Capital, o jornalista Mauricio Dias escreve que "o PMDB quer mais poderes do que já tem, quer tornar Dilma sua refém". O texto cita inclusive uma fala do senador Renan Calheiros, que teria dito que "é hora de fazer um redesenho da articulação política do governo. E o PMDB quer e vai participar (desse processo)". 

O atual cenário político talvez esteja abrindo brecha e fratura para uma inflexão, uma mudança de rumos. Nobre é enfático: "a democracia brasileira só alcançará novos avanços a partir de agora se, de alguma maneira, começar a acertar contas com o peemedebismo". Confesso que gostaria muito de conseguir abraçar a convicção de Mino Carta, para quem, de certa forma, o governo com a cara da Presidenta Dilma começa agora. Meu receio, no entanto, com dor no coração, é ser obrigado a reconhecer que, pelo andar da carruagem, a Presidenta esteja definitivamente sendo fagocitada pelo PMDB. A ideia causa calafrios, sei disso. Tomara que eu esteja errado - e que a lucidez sempre presente de Mino Carta prevaleça.