domingo, 29 de maio de 2011

PASSEIO NA AVENIDA PAULISTA. E AS LIÇÕES DO PEQUENO DANIEL.

Acho que o pequeno Daniel, 5 anos, nem calcula o quanto me ensinou ontem (sábado). 

Andávamos pela avenida Paulista de mãos dadas, hora do almoço, um vento gelado. Brincávamos e ríamos. Ele só pensava em parar em uma banca para comprar o álbum de figurinhas da Copa América. A mãe e a irmã caminhavam um pouco à frente. Em sentido contrário, passou uma senhora que tinha os pés virados para trás. Notei que o pequeno acompanhou atentamente e durante um bom tempo a cena, o percurso feito pela mulher. Fiquei em silêncio. Ele esperou um pouco. Mas não se conteve.

- Pai, aquela moça que passou tinha problemas nos pés, né?
- É, filho.
- Mas ela fazia força e conseguia andar. Muito legal, né?
- Muito bom mesmo.
- E ninguém deve tirar sarro dessas coisas, né? É preciso respeitar.
- Com certeza. Não há motivo algum para tirar sarro.
- As pessoas são diferentes, né?
- Isso mesmo.

Alguns quarteirões adiante, olhos novamente atentos às esquinas, Daniel emendou nova conversa.
- Pai, não é justo essas pessoas morarem na rua, né? Todos deveriam ter suas casas, para não passar frio. Está muito frio hoje. Estou até com a mão no bolso!

Sem perder tempo, emendou:
- Pai, o pai do céu existe?
- Algumas pessoas acreditam que sim, filho.
- Você acredita?
- Não. E você?
- Eu acredito um pouco, mas também não acredito um pouco.
- Como assim?
- É que eu acho que ele faz coisas boas, mas também faz coisas ruins.
- O que você acha que é ruim?
- Ele deixar ter moradores de rua.

Apertei a mão dele. E estalei um beijo na testa do pequeno. 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

BEM-VINDOS À REPÚBLICA FEDERATIVA RURALISTA E OBSCURANTISTA DO BRASIL

A semana política que se encerra foi dura, doída. E não vou nem citar nesse post a acachapante e esmagadora vitória dos conservadores do Partido Popular na Espanha, nas eleições locais e regionais do domingo passado, em pleito que colocou os socialistas em posição mais do que delicada e defensiva - na verdade, em crise ideológica tremenda, profunda. Quero olhar mais especificamente para os lados de cá do Atlântico - afinal, nos últimos dias, aqui  no Brasil, os princípios humanistas, os valores dos direitos humanos e as visões de mundo à esquerda do espectro ideológico levaram uma saraivada de golpes. Foram ao corner. O árbitro abriu contagem.

Desde que as notícias de ganhos estratosféricos e aumento expressivo de patrimônio por conta de consultorias prestadas a empresas privadas vieram à tona (vinte milhões de reais de faturamento, apenas em 2010), tudo o que o todo-poderoso super-ministro da Casa Civil Antonio Palocci fez foi manter-se em silêncio inaceitável. Para ele, "ser rico não é um problema". 

Talvez não seja mesmo. O que se questiona são os instrumentos e caminhos percorridos para alcançar esse enriquecimento. Estamos falando de relações no mínimo estranhas e incômodas entre os setores público e privado - para não dizer espúrias ou estapafúrdias, abjetas. Pode afinal uma grande figura da República, eminência parda que conhece todos os caminhos e atalhos do governo, coordenador de campanha e futuro ministro, em troca de remuneração financeira considerável, oferecer e garantir informações privilegiadíssimas a seus clientes, que se beneficiam então desse conhecimento para fechar negócios e maximizar seus lucros? É disso que se trata, ministro Palocci. Parece ser discussão ética relevante, não? 

Para proteger e blindar Palocci, cedendo a chantagens dos ruralistas, o governo não teve vergonha alguma em barganhar, facilitar e ajudar a aprovar, na Câmara dos Deputados, o nefasto Código Florestal, na terça-feira, dia 24 de maio. Em êxtase, entre urros de alegria, a bancada ruralista aplaudiu e comemorou. Foi a festa da motosserra, do perdão aos desmatadores. 

Como muito bem destaca o deputado federal Valmir Assunção (PT-BA), que votou contra a proposta, em texto publicado pelo blog da Maria Frô, "praticamente, o relatório aprovado livra o agronegócio do adjetivo “desmatador” da maneira mais torta possível: ao invés de discutirmos formas de coibir a ação de um modelo de agricultura que, ao visar a exportação de commodities produzidas sob o sistema de monoculturas, de desrespeito às leis trabalhistas e, muitas vezes, sem cumprir o preceito constitucional da função social da terra, o relatório do deputado Aldo Rebelo abriu as porteiras para que a expansão deste modelo predador avance sob áreas antes protegidas. Mais ainda: possibilita que os desmatadores sejam anistiados, absolvidos. Uma vergonha!".

Enquanto os latifundiários comemoravam o caminho aberto para a agora institucionalizada devastação ambiental, eram assassinados por pistoleiros no Pará os líderes extrativistas José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, que combatiam os madeireiros locais e defendiam a floresta da região. Eram desde sempre cabras marcados para morrer, já tinham sido ameaçados e jurados de morte. Mas, sobre esse assunto, a presidenta parece ter pouco a dizer. Proteger Palocci é mais importante.

Se não fosse suficiente, na quarta-feira, 25 de maio, Dilma recuou diante das bravatas e vociferações de grupos religiosos fundamentalistas e suspendeu a distribuição dos kits anti-homofobia preparados pelo Ministério da Educação - e chancelados pela Unesco -, usando lamentavelmente o tosco argumento "o governo não deve incentivar ou fazer propaganda de opção sexual". Triste, pois o material tinha propósito claramente distinto - fomentar entre os estudantes de ensino médio a importância do respeito à diversidade.  

Muito bem fez Julian Rodrigues, Coordenador Nacional do Setorial GLBT do Partidos dos Trabalhadores, ao afirmar, em carta aberta à Presidenta reproduzida no blog do Raphael Tsavkko, que "o ESTADO BRASILEIRO É LAICO. Nossa Constituição traz entre seus princípios fundamentais o combate a toda forma de discriminação, a dignidade humana e o pluralismo. Esse “kit” foi objeto de uma sórdida campanha, cheia de mentiras e distorções, que criou um sentimento de pânico moral em setores da nossa sociedade. A maior parte das pessoas que o repudiam não conhece seu conteúdo. Não há nada de inadequado, qualquer conteúdo sexual, nenhum beijo, nada, absolutamente nada que poderia atentar contra a qualidade educativa do material".

É, foi mesmo uma semana terrível, repleta de mensagens políticas.

"Passada a eleição, Dilma montou o ministério e começou a governar. Como? Com o figurino idêntico ao usado no primeiro turno da eleição:  sem política, longe dos movimentos sociais, procurando agradar o “mercado” e a “velha mídia”. Foi uma escolha. Palocci tem a ver com isso. Coordenou a campanha. Ele quer um governo moderadíssimo, que não assuste a turma a quem dá “consultoria”, chama a atenção o jornalista Rodrigo Vianna, em seu blog.

Escreve  e alerta mais uma vez Rodrigo Vianna, em outro post no blog: "tenho afirmado que as escolhas de Dilma nesse início de governo afastam o governo de parte importante da base social que a apoiou (e que teve papel fundamental ao enfrentar a onda conservadora em que Serra tentou surfar em 2010). Apesar da economia seguir bem arrumada, o que deve levar à redução da miséria e das desigualdades (processo iniciado com Lula), temo que as escolhas de Dilma ajudem a consolidar a agenda conservadora – o que tornaria complicadíssimo o quadro para a centro-esquerda em 2014".

Em editorial da revista Carta Capital, edição que está nas bancas, Mino Carta destaca que "Antonio Palocci é apenas um exemplo de uma pretensa e lamentável modernidade, transformação que nega o passado digno para mergulhar em um presente que iguala o PT a todos os demais. Parece não haver no Brasil outro exemplo aplicável de partido do poder, é a conclusão inescapável. Perguntam os botões desolados: onde sobraram os trabalhadores? Uma agremiação surgida para fazer do trabalho a sua razão de ser, passa a cuidar dos interesses do lado oposto. Não se trataria, aliás, de fomentar o conflito, pelo contrário, de achar o ponto de encontro, como o próprio Lula conseguiu como atilado negociador na presidência do sindicato".

Vamos lá: ao contrário do que pretende fazer crer a mídia, o governo não acabou - talvez esteja mesmo apenas começando, de verdade. E quem foi mesmo que acreditou em namoros com a imprensa que faz oposição de fato, em flertes com setores conservadores e retrógrados da sociedade, em conciliações e entendimentos com fundamentalistas religiosos? 

Consigo compreender um governo de coalizão, com hegemonia progressista. Mas jamais um governo covarde, de rendição. Se um extra-terrestre visitasse hoje o Brasil, perguntaria, surpreso e cheio de estranhamentos: "mas que histórias são essas? O que aconteceu por aqui? Tinha a informação de que esse era um governo do Partido dos Trabalhadores, liderado por uma presidenta que enfrentou a ditadura militar e que em seu discurso de posse comprometeu-se a combater o preconceito, os privilégios e as injustiças sociais, a preservar o meio ambiente como patrimônio da humanidade e a valorizar a diversidade e os direitos humanos...". 

Pois é, meu caro amigo ET. Lamentavelmente, está mais para um governo da República Federativa Ruralista e Obscurantista do Brasil.


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Em tempo - Nesta sexta-feira, 27/05, em Rondônia, o líder camponês Adelino Ramos (sobrevivente do massacre de Corumbiara) também foi assassinado por pistoleiros (foram seis tiros). Sobre o crime, o governo federal tem novamente muito pouco a dizer. 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

JON LEE ANDERSON, REPÓRTER CONTADOR DE HISTÓRIAS




Fotos de Elisa Marconi


Li "Che Guevara, uma biografia", do jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, em 1997, logo depois que a obra foi lançada no Brasil. Chamaram-me muito a atenção - na verdade, um encantamento imediato - a mais do que minuciosa e cuidadosa pesquisa desenvolvida pelo autor a respeito das andanças e dos ensinamentos do guerrilheiro argentino-cubano e a maestria com que costurava e articulava todas as entrevistas feitas e as informações apuradas. É um texto denso, profundo, reflexivo, intenso nos detalhes e nos diálogos, mas absolutamente acessível e agradável, sem grandes malabarismos ou arroubos de sofisticações estilísticas. Uma boa história, bem contada - era disso que se tratava. Vale dizer que o livro ocupa atualmente lugar de destaque em minha estante, na seção "obras Che". 

Pois tive o privilégio de participar no último sábado, 21 de maio, de um encontro com Jon Lee (é assim que ele gosta de ser chamado) promovido pela Faculdade Cásper Líbero. Na ocasião, o jornalista contou que a vontade de escrever a biografia do Che nasceu depois de ter acompanhado e reportado, nos anos 1980, nos mais diferentes países do mundo, histórias de movimentos guerrilheiros, de guerras civis e de lutas por liberdades. "Che era sempre uma referência e inspiração, inclusive no Afeganistão, para os muçulmanos fundamentalistas. Não era um ídolo pop estampado em camisetas, mas um herói revolucionário fomentador de sonhos e de utopias", disse. "Era um idealista que achava que a única forma de mudar a sociedade era por meio da luta armada", completou.

O jornalista norte-americano não demorou muito a constatar que a bibliografia específica a respeito do médico guerrilheiro era escassa - além dos diários escritos na Bolívia, apenas alguns discursos compilados. Aquela história incrível ainda estava por ser contada, avaliou. Jon Lee abraçou o desafio. Foram várias as viagens para Cuba, até conquistar a confiança de pessoas que tinham convivido com Che e finalmente poder ter acesso a escritos inéditos do guerrilheiro, que pertenciam à viúva, Aleida. Fundamental foi também a viagem pela América Central feita em companhia de Alberto Granado, grande companheiro do Che, repetindo inclusive percurso que os dois inseparáveis camaradas já tinham feito no início dos anos 1950, quando jovens (e retratada no filme "Diários de Motocicleta", de Walter Salles, 2004). 

"Com essas andanças, conheci o Che jovem. Os diários me apresentaram ao pensamento político dele", revelou Jon Lee. Assim nasceu o livro, que consumiu cinco anos de trabalho e intensa dedicação do jornalista - e boa parte das economias dele. "Calculei que levaria dois anos no projeto. Foi mais que o dobro. Renegociei em três oportunidades os direitos com a editora. Houve um momento em que não podia mais pedir dinheiro, não tinha mais crédito. Só não vendi minha alma. Mas foi um privilégio poder me dedicar apenas ao livro". 

Desde 1998 atuando como repórter da revista The New Yorker, uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos, Jon Lee de certa forma acabou se especializando na arte de escrever perfis - Gabriel García Márquez, o rei Juan Carlos (Espanha) e o falecido ditador chileno Augusto Pinochet foram alguns dos personagens já retratados pelas letras sempre precisas do jornalista norte-americano. "Acabo me empolgando. Há sempre um editor a dizer chega, é preciso parar e cortar o texto, é revista, não é livro", admitiu. O perfil de Pinochet, disse, foi um dos mais marcantes. 

Jon Lee contou que chegou a ouvir o filho do ditador divertir-se e revelar a um amigo, sem constrangimento algum, que havia roubado de um país africano um objeto que era verdadeira relíquia arqueológica, enquanto a esposa dele, com salto alto, corria atrás de um coelho no jardim - e a criada, uniformizada, cuidava dos filhos do casal. Em outro momento da apuração, Jon Lee teve de dirigir o carro da filha de Pinochet (o motorista estava de folga), com destino a uma estância de vinho nas imediações de Santiago, onde encontrariam outras fontes da reportagem. Jon Lee, claro, errou o caminho. A dupla se perdeu. E foi parar na entrada de uma favela chilena. A senhorita Pinochet ficou histérica e começou a berrar: "vamos sair daqui, aqui moram os homossexuais, os terroristas e os ladrões". Jon Lee guardou bem essa sequência: homossexuais, terroristas e ladrões. 

Para o jornalista, aqueles dois episódios valeram mais do que muitas entrevistas. Eram representativos das mentalidades daquelas pessoas, das relações que estabeleciam com a sociedade, da superioridade e soberba que procuravam sustentar. "Apenas observei. E comecei a colocar carne em alguém que até então para mim era apenas um fantasma", lembrou. 

Já a reportagem mais recente de Jon Lee foi feita na Líbia, entre fevereiro e abril. Segundo ele, foi uma história de luto, a tragédia da guerra civil narrada a partir do assassinato de um jovem rebelde pelas tropas do ditador Muamar Kadafi. O pai buscou o corpo do filho por três semanas, recusando-se a aceitar a morte. Quando encontrou, o corpo estava praticamente intacto, muito bem preservado. Para os muçulmanos, é sinal divino de santidade, de alguém que luta por aquilo que é justo. "É uma história de sacrifícios, dos impactos que a morte pode ter e de como as pessoas buscam explicações espirituais diante de fatos tão cruéis. Assim é a guerra. Essa foi minha história", afirmou.

Antes da Líbia, o jornalista tinha passado sete meses no Sri Lanka, país mergulhado durante quase 30 anos (1983-2009) em uma sangrenta guerra civil. E foi essa a história que Jon Lee foi buscar. Depois de derrotados pelo governo, os militantes rebeldes do grupo "Tigre do Tâmil", que lutavam por um Estado independente, foram dizimados - estima-se as mortes em mais de cem mil. Outros milhares foram encaminhados a campos de concentração. "E ninguém estava escrevendo sobre o que estava acontecendo por lá. Foi muito difícil investigar, andar pelo país. Fiz viagens clandestinas. Foi um de meus trabalhos mais importantes, certamente". A reportagem, com 20 páginas, foi recentemente publicada pela New Yorker. 

"Escrevo em média quatro reportagens por ano. Cada uma delas me consome cerca de três meses de produção. Sim, sou muito privilegiado, pois tenho recursos da revista para trabalhar dessa forma e cerca de um milhão de assinantes e leitores que gostam de narrativas de fôlego", admite Jon Lee. Nessas coberturas de guerra, ele revela que uma das armadilhas é escorregar na divisão maniqueísta do mundo entre bons x maus. "Ser vítima não significa necessariamente ser do bem", sentencia. Para ele, a guerra torna todos perversos - e suscita vários dilemas morais. 

"É bom ter dúvidas, para que a gente se fiscalize o tempo todo". Jon Lee recusa o rótulo de jornalista-ativista e diz que prefere criar caminhos para que os leitores pensem criticamente, por conta própria. "Prefiro contar histórias que capturem o leitor e o transportem para a narrativa", disse. Para ele, o jornalismo é uma missão pública, que exige forte compromisso social. Se, diante de tantas situações cruéis e trágicas, já pensou em desistir das reportagens? Jon Lee responde: "Sou como as mulheres. Dar à luz é extremamente doloroso. Mas quando terminam de amamentar, elas já começam a pensar em outro filho".  

sexta-feira, 20 de maio de 2011

CARTA CAPITAL, QUE NÃO FAZ PARTE DO PIG, COBRA RESPOSTAS DE PALOCCI

Uma foto do ministro da Casa Civil e a seguinte chamada: "Quem, eu? Sim, ele mesmo, Antonio Palocci, pego em flagrante". Capa da Veja? Não, da edição que está nas bancas de Carta Capital, revista que é certamente referência de jornalismo decente, sério e bem feito. 

No editorial, Mino Carta destaca: "Há formas diversas de abuso. O ministro Palocci assusta ao sustentar: se outros pecaram, por que não eu?". Escreve Mino: "(... ) não faltam elementos de surpresa, a começar pelo fato de que este desabrido pessoal fala de centenas de milhões como se fossem bagatela em um país tão desigual quanto o nosso". Para ele, "o desfecho do presente enredo é até imprevisível, mesmo porque o instituto da impunidade continua em pleno vigor". 

A matéria de capa, assinada por Cynara Menezes e Sergio Lirio, com colaboração de André Siqueira, reforça "o estrondoso silêncio a cercar o escândalo que envolve o ministro". Diz que o caso é grave e cita o "extraordinário enriquecimento do ministro e sua firma de consultoria mal explicada". Perguntam os autores do texto: "O que torna Palocci um político tão protegido? Seria seu trânsito nos meios financeiros e empresariais? Ou sua postura de petista 'limpinho', que, apesar da barba, não causaria constrangimentos aos frequentadores dos restaurantes caros do eixo Rio-São Paulo?". Diz ainda a reportagem que a sociedade brasileira precisa de pronta resposta. E lembra que "a recusa do ministro em fornecer mais explicações sobre sua evolução patrimonial é um escárnio". 

Repito: Carta Capital faz Jornalismo, com "jota" maiúsculo mesmo. É contraponto de qualidade ao palanquismo partidarizado consagrado por boa parte da mídia velha. Pois então... será que agora será acusada pelos patrulheiros de fazer o jogo da direita? Será que os incondicionais defensores do governo vão dizer que a revista virou a casaca, que agora aderiu ao PIG (Partido da Imprensa Golpista)? Será que vão vociferar e gritar que Mino Carta é golpista e está querendo desestabilizar o governo Dilma? Pois é... o mundo é muito mais complexo do que o maniqueísta "ou tudo ou nada"...

Com a reportagem desta semana, Carta Capital nos oferece mais uma lição: o debate político a respeito do governo Dilma deve ser pautado por ideias, argumentos, ouvidos atentos, análises críticas. Sem vendas ou mordaças. Sem censuras, "isso pode, isso não pode ser dito". Sem adjetivos, rótulos, classificações e falsas divisões. Sem demonizar aqueles que não abrem mão de pensar e não manifestam "apoio incondicional" à administração federal. 

Assim como a revista, aguardo as explicações do ministro Palocci. E, patrulheiros, não faço o jogo da direita. Muito ao contrário. O contraponto à esquerda é mais do que necessário - urgente, na verdade.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

SÃO PAULO, AS ELITES BRANCAS E UM FESTIVAL DE PRECONCEITOS

Há uma parcela representativa da população da cidade de São Paulo, uma casta dominante privilegiada, que fala grosso e não perde uma oportunidade sequer para manifestar o profundo asco que alimenta desde sempre pelo povão. Faz questão de manter distância segura dos desvalidos, dos menos favorecidos e miseráveis da megalópole, vistos como ameaças, como lixo a ser descartado ou ignorado, farrapos humanos que acabam por tornar mais feio e desagradável o ambiente urbano.

Sonha essa casta com uma cidade para poucos, sem nenhum sentido público, humano ou coletivo, disponível e acessível apenas para aqueles que podem comprar os carros do ano, frequentar as lojas de marca e os restaurantes e baladas da moda. Para ser mais específico: estou falando das "elites brancas", expressão que acabou resgatada e se difundiu depois de ter sido usada pelo ex-governador Claudio Lembo (que, ironia do destino, está longe, muito longe de representar o pensamento progressista; muito ao contrário...) em entrevistas concedidas a veículos de comunicação, logo após os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), em maio de 2006.

Feito esse preâmbulo, importante para precisar a quem me refiro, desejo compartilhar com os leitores uma questão que tem me incomodado sobremaneira e a respeito da qual tenho refletido bastante: nos últimos tempos, estão concretamente as elites brancas paulistanas assumindo e manifestando abertamente práticas e discursos cada vez mais preconceituosos, egoístas, excludentes e intolerantes? Ou é apenas uma impressão minha, sem fundamento?

Ainda está muito presente em minha memória uma cena lamentavelmente vivida no primeiro turno da eleição presidencial de 2010. Ainda na fila de votação, em uma escola de classe média, bairro de Pinheiros, aguardando a chamada para me dirigir à urna eletrônica e registrar meu voto, ouvi comentários estapafúrdios e asquerosos de uns sujeitos muito bem vestidos, que faziam questão de bater no peito e anunciar que tinham estudado muito e se formado na USP. Diziam, em alto e bom som: "Precisamos derrotar a guerrilheira. Não dá para aceitar que o povo inteligente de São Paulo acabe se submetendo aos que vivem de bolsa-barriga do Nordeste. Aquelas pessoas não querem trabalhar, são vagabundos, só sabem fazer filho. E agora querem ter ainda mais filhos, para ganhar ainda mais dinheiro do governo. Na verdade, é o nosso dinheiro. Bom seria mesmo se São Paulo se separasse do restante do país". 

Pouco tempo antes, na Copa do Mundo da África do Sul, já havia ficado estarrecido com os comentários de pessoas supostamente esclarecidas, formadores de opinião que, em ambiente público, com respaldo, apoio e risadas de muitos colegas, ao acompanhar a festa de abertura do Mundial, sentiam-se à vontade para dizer: "nossa, já imaginou como estão fedidas essas negras suadas pulando como macacas no palco? Credo, jamais chegaria perto dessas pessoas. Que coisa horrorosa". 

O show de horrores continuou com a eleição da presidenta Dilma Rousseff, quando o twitter e as redes sociais foram invadidos por comentários que achincalhavam os nordestinos e que chegavam abertamente a pedir a morte dos habitantes da região Nordeste, tachados de burros, atrasados, vagabundos, preguiçosos, analfabetos, "uma gente feia e desagradável", além de uma série infinita de outros adjetivos depreciativos e preconceituosos. Parcela significativa dos posts tinha como fontes moradores da cidade de São Paulo, que voltaram a se manifestar no dia da posse da Presidenta, incentivando, sempre pelas redes sociais, um atentado contra Dilma.

Em novembro, a cidade de São Paulo já tinha sido palco de uma série tenebrosa de ataques e de agressões físicas contra homossexuais, principalmente na região da avenida Paulista; é a mesma metrópole que silencia diante de atos violentos (que muitas vezes levam a mortes) de moradores de rua e que aplaude entusiasmada ações higienistas medievais das administrações municipal e estadual, que fecham os parques e praças durante a madrugada e constroem rampas ásperas e irregulares, com intuito de espantar os "mendigos". São as mesmas pessoas, legítimas representantes das elites brancas paulistanas, que erguem as vozes e, indignadas, dedo em riste, condenam duramente a ascensão social vivida no Brasil nos últimos anos e a chegada das novas classes médias. "Os aeroportos viraram rodoviárias, eita povinho mal vestido fazendo check-in e esperando nas salas de embarque. Um horror!". Quantas vezes já não ouvi esse discurso, o senso comum, um dos mantras preferidos dos privilegiados da terra garoa...

Também no ano passado, vivi uma semana de agonias e decepções ao acompanhar muito de perto novamente formadores de opinião paulistanos a vociferar "são a escória, mata, pega, não deixa fugir, atira mesmo, é para matar, esse povinho não merece viver, fosse aqui em São Paulo e a coisa seria diferente, teriam outro tratamento, é só jogar bombas nas favelas e o problema estará resolvido, ninguém vai sentir falta"... Estavam todos com os olhos grudados na telinha da TV, sem piscar, em quase transe, acompanhando as invasões de morros no Rio de Janeiro pela polícia militar e pelo exército. Recentemente, comemoraram esses paulistanos (estive mais uma vez por perto para registrar os discursos) a morte de Osama Bin Laden. "Finalmente, demorou, mas deveriam ter torturado antes, ele nem sentiu a morte".

Finalmente, não poderia deixar de citar o episódio da estação Angélica do metrô, repudiada pela maioria dos moradores do bairro de Higienópolis (como ficou constatado por pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha), preocupados com a sempre incômoda presença dos trabalhadores, dos pobres, daquela "gente diferenciada" que vai fazer aumentar os índices de violência e a sujeira na região. O reduto (ou seria gueto?) dos abastados não quer ver sua praia invadida. O egoísmo de poucos (3.500, para ser mais preciso) pode se sobrepor ao interesse e necessidade de milhões? Sim. Assim pensa - e age - a elite branca paulistana.

Poderia citar aqui outras tantas situações semelhantes que presenciei nos últimos meses. Não há necessidade. Seria repetitivo, chover no molhado. Também não quero escorregar em generalizações injustas. Certamente há conflitos, fraturas, brechas, outras posturas. Mas minhas sensações e percepções - e é exatamente disso que se trata, sem nenhum viés científico mais apurado - me desnudam e revelam uma cidade cada dia mais distante, arisca, fria, silenciosa, sisuda, violenta, agressiva, cinzenta, intolerante, pouco receptiva à diversidade. Uma selva de pedra disposta a travar guerra contra aqueles que não pertencem às elites brancas.

É possível vislumbrar que esse espírito de soberba paulistano esteja de alguma forma ligado a um passado heroico retumbante - os bandeirantes que desbravaram o país e iniciaram o movimento de interiorização. Pode também estar conectado a uma espécie de DNA e traço de personalidade que anuncia orgulhosamente São Paulo como a locomotiva do país, aquela que lidera o desenvolvimento e a pujança nacionais, o que confere à cidade um certo ar de especial, de única, qualidades que, por oposição, acabam por marginalizar e excluir tudo aquilo que não é visto como genuinamente paulistano. 

São Paulo foi também o berço do adhemarismo, do janismo, do malufismo e, mais recentemente, do tucanismo, com duas breves e pontuais interrupções (os governos de Luiza Erundina, entre 1989 e 1992, e de Marta Suplicy, entre 2003 e 2006). Por aqui, em função desse terreno fértil e promissor, talvez a caixa de Pandora aberta durante a campanha presidencial do ano passado tenha reverberado de maneira ainda mais forte, reforçando e dando retaguarda de legitimidade à intolerância. O que se dizia apenas em locais privados, com certo receio e vergonha de reprimendas, alcança despudoradamente o espaço público - sem mais travas ou temores. É preciso ainda considerar o pavor incontido - e a ojeriza - que as elites brancas manifestam em relação às classes médias emergentes. São os invasores, a senzala que quer tomar conta da casa grande.

Tudo isso pode fazer sentido. Retomo então minhas inquietações iniciais - será que todas essas manifestações truculentas já diziam "presente!" e eu é que não as percebia? Ou de fato essa higienização intolerante vem assumindo contornos mais exacerbados, carregados e preocupantes?

Qualquer que seja a resposta, o fato é que, como diria Alvo Dumbledore, diretor de Hogwarts e mentor intelectual do bruxinho Harry Potter, estamos vivendo tempos difíceis. E sombrios.

domingo, 15 de maio de 2011

"EU PARTICIPEI DO CHURRASCÃO DOS DIFERENCIADOS"

(*) Texto de Luiza Pereira, quase 9 anos, estudante do Colégio Pentágono (unidade Caiubi) e filha do Chico Bicudo. As fotos são de Elisa Marconi.






Ontem, dia 14 de maio, eu e minha família fomos ao churrascão da gente diferenciada.

Fomos nos manifestar porque 3.500 pessoas do bairro de Higienópolis fizeram um abaixo-assinado para que não fosse construída uma estação de metrô por lá. 

Uma senhora chamada Guiomar falou que não queria que construíssem o metrô no bairro porque iria juntar gente diferenciada (ou seja, pobres).

Eu acho que isso não tem nada a ver, é um absurdo, essas pessoas são preconceituosas. Acho que todos têm direito a transporte público, sendo pobre ou não. E só porque certas pessoas têm menos dinheiro não quer dizer que sejam piores do que as que têm mais dinheiro.

Eu cheguei à manifestação com medo, porque tinha muita polícia, e fiquei assustada. Mas depois vi que estava tudo bem e que não tinha perigo.

E são exatamente esses os temas que estou estudando no colégio, o respeito à diversidade, a tolerância e os direitos de todos. 


quarta-feira, 11 de maio de 2011

MONTEIRO LOBATO ERA RACISTA. E AGORA?

Passei boa parte da infância esparramado no chão do escritório da casa de meu avô, cotovelos fixos no tapete, rosto apoiado nas palmas das mãos, concentração máxima, silêncio absoluto, completamente encantado com os livros de Monteiro Lobato e transportado para o mundo mágico das onças e dos bodoques de Pedrinho, das águas claras e dos príncipes-peixes de Narizinho, da torneirinha de asneiras da perspicaz boneca Emília, das sábias descobertas do Visconde de Sabugosa, dos medos, sustos e sinais da cruz da tia Nastácia, das histórias na varanda contadas por dona Benta. Era tarefa mais do que difícil fechar aqueles livros para cuidar da vida real. Eu precisava sempre ser "resgatado".

Sim,  tive conhecimento, bem mais adiante, já não mais criança, dos possíveis contornos e sugestões de comportamentos e dizeres racistas presentes na obra infantil do escritor nascido em Taubaté, interior de São Paulo, e um dos ícones (talvez o principal deles) da literatura infantil brasileira. O debate acadêmico a respeito dos deslizes racistas lobatianos não é recente.

E o que poderia ser até agora considerada uma questão de interpretações e análises, e portanto certamente marcada por desejáveis e saudáveis subjetividades, alcança outro patamar, bem mais grave, complicado e sério, penso, com a pubicação pela revista Bravo! (edição de maio, nas bancas), em matéria de capa, de trechos de cartas até agora inéditas de Lobato ao também escritor Godofredo Rangel e aos cientistas Renato Kehl e Arthur Neiva. Os documentos foram encontrados nos arquivos da Fundação Oswaldo Cruz e da Fundação Getúlio Vargas, ambas no Rio de Janeiro. 

O conteúdo das cartas é devastador, são verdadeiras "arrasa quarteirão". Primeira pista: as correspondências, como revela a reportagem com muita propriedade, estabeleciam conexões entre três confessos defensores da eugenia (a suposta e pretensa superioridade da raça branca, tese que procurou apresentar-se com lastro de conhecimento científico no final do século XIX e início do XX). 

O Monteiro Lobato que surge das cartas não é apenas "um homem de seu tempo, alguém que vivia impregnado por uma atmosfera cultural permeada ou contaminada por esses conceitos". É um sujeito assumidamente racista e preconceituoso, com convicção e consciência de tais ideais de intolerância, e disposto a defendê-los. Não há mais como tapar o sol com a peneira ou tentar dourar a pílula. É preciso reforçar, com clareza e precisão: estamos falando de alguém com visão de mundo e discurso racistas, que considerava os negros como sujeitos inferiores e de segunda categoria.

A reportagem faz referência a trechos de várias cartas. Há dois momentos em especial que são mais do que representativos (infelizmente) desse comportamento preconceituoso. Na primeira, enviada a Neiva, em 1928, Lobato escreve que "país de mestiços, onde branco não tem força para organizar Kux-Klan, é país perdido para altos destinos (...) Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva". Na segunda, também encaminhada a Neiva, em 1935, e comentando a mestiçagem e a negritude na Bahia, o escritor paulista escreve: "mas que feio material humano formiga entre tanta pedra velha! A massa popular é positivamente um resíduo, um detrito biológico. Já a elite que brota como flor desse esterco biológico tem todas as finuras cortesãs das raças bem amadurecidas".

Eu me senti exatamente como você, leitor, está se sentindo agora. Estarrecido, de certa forma inconformado, acuado. Mais do que tudo: agoniado. Mais uma vez: estamos objetivamente falando de um homem racista.

Mas a situação é bem mais complexa, porque estamos simultaneamente falando de um autor que soube como poucos captar, entender, respeitar e tocar a alma infantil, que compreendeu o que é ser criança em toda sua plenitude e que se dedicou a contar com maestria as coisas do mundo para os pequenos.

Vamos a partir de agora impedir que as crianças travem contato com esse universo riquíssimo de personagens e de peripécias, de estímulos e convites geniais à imaginação? Vamos demonizar e queimar em praça pública a obra de Lobato? Vamos transformar as caçadas de Pedrinho e os casamentos de Narizinho em agentes de males e de perversões? 

Sinceramente, desejo ardentemente que meus filhos continuem se alimentando das histórias contadas por Monteiro Lobato - que, aliás, eles já adoram. Estivemos no ano passado no Sítio do Picapau Amarelo, em Taubaté, a fazenda-museu que preserva as origens do escritor, e pude ver os olhinhos dos dois brilhando ao encontrarem e abraçarem a Emília, Pedrinho, Narizinho e tia Nastácia. Ainda hoje, por coincidência, a pequena (nem tanto, mas para sempre) Luiza comentou, durante o almoço: "pai, deixei o livro do Monteiro Lobato na escola, para ler nos intervalos. Não consigo parar. É sensacional". Não posso privá-los desse privilégio encantador, definitivamente.

A própria reportagem da Bravo!, muito sensata e equilibrada, reconhece que o escritor "é um dos mais talentosos de sua geração. Legou ao Brasil um bem inestimável: uma literatura infantil de altíssimo nível, que pode ser lida até hoje. As eventuais alusões racistas a personagens como Tia Nastácia não tiram o prazer da leitura - talvez constituam até um bom tema de discussão em aula". Penso que esse é mesmo o novo caminho a seguir, como também recomenda Ana Célia da Silva, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em entrevista publicada pelo portal Terra: "O que se deve fazer não é retirar a obra, que é preciosa, mas desconstruir o racismo contido nela". 

Tal tarefa de desconstrução do preconceito, de conscientização e desenvolvimento de postura crítica (e ao mesmo tempo lúdica), a ser desempenhada primordialmente por pais e professores, pode inclusive transformar a leitura de Monteiro Lobato em uma experiência ainda mais sofisticada e prazerosa.

Condenar com veemência e contundência, sem melindres, o Monteiro Lobato racista, sem deixar de exaltar sua habilidade narrativa e literária, garantindo que, com os devidos alertas e orientações, as crianças possam continuar se deliciando com o brilhantismo sem igual das histórias e dos personagens criados pelo escritor paulista. Esse é o encaminhamento que sugiro.

O debate está aberto, apenas começando. E você, o que pensa sobre o assunto?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

POR QUE O RECONHECIMENTO DA UNIÃO ESTÁVEL ENTRE HOMOSSEXUAIS É UMA VITÓRIA HISTÓRICA?

Porque, como afirmou em seu voto o ministro Ayres Britto, “em nenhum dos dispositivos da Constituição Federal que tratam da família está contida a proibição de sua formação a partir de uma relação homoafetiva. O sexo das pessoas, salvo disposição contrária, não se presta para desigualação jurídica. A preferência sexual é um autêntico bem da humanidade”.

Porque, como reforçou o ministro Luiz Fux, “o conceito de família só tem validade se privilegiar a dignidade das pessoas que a compõe. E somente por força da “intolerância” e do “preconceito”, duas questões abomináveis para nossa Constituição, se poderia negar esse direito a casais homossexuais”.

Porque, como lembrou a ministra Carmen Lúcia, citando Rui Barbosa, “o direito não dá com a mão direita para tirar com a mão esquerda”. Dessa forma, “não seria pensável que se assegurasse constitucionalmente a liberdade, e por regra contraditória, no mesmo texto, se tolhesse essa mesma liberdade, impedindo-se o exercício da livre escolha do modo de viver.  Aqueles que fazem sua opção pela união homoafetiva não podem ser desigualados em sua cidadania. Ninguém pode ser de uma classe de cidadãos diferentes e inferiores, porque fizeram a escolha afetiva e sexual diferente da maioria”.

Porque, como sustentou o ministro Ricardo Lewandowski, “a união homoafetiva estável no tempo e pública é hoje uma realidade. Tanto que, no último senso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apurou a existência de 60 mil casais em união homoafetiva no Brasil”.

Porque, como disse o ministro Joaquim Barbosa, “o reconhecimento dos direitos das pessoas que mantêm relações homoafetivas decorre de “uma emanação do princípio da dignidade humana”, segundo o qual todos, sem exceção, tem direito a igual consideração. O não reconhecimento da união homoafetiva simboliza a posição do Estado de que a afetividade dos homossexuais não tem valor e não merece respeito social. Aqui reside a violação do direito ao reconhecimento que é uma dimensão essencial do princípio da dignidade da pessoa humana”.

Porque, como avaliou o ministro Gilmar Mendes, “a ideia de opção sexual está contemplada na ideia de exercício de liberdade e do direito de cada indivíduo de autodesenvolver sua personalidade”.

Porque, como acrescentou a ministra Ellen Gracie, “todos os países da Europa ocidental já possuem esse entendimento e, recentemente, Argentina, Espanha e Portugal também aprovaram legislação no mesmo sentido. Canadá e a África do Sul obtiveram o mesmo avanço através de decisão jurisdicional, assim como hoje encaminha-se a votação também o nosso país”. Ao se referir ao premiê espanhol Luis Zapatero, disse que “não estamos legislando para pessoas distantes e desconhecidas, estamos alargando as oportunidades de felicidade para nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, nossos amigos e nossa família. Uma sociedade decente é uma sociedade que não humilha seus integrantes”.

Porque, como ressaltou o ministro Marco Aurélio, “em detrimento do patrimônio, elegeram-se o amor, o carinho e a afetividade entre os membros como elementos centrais de caracterização da entidade familiar. Alterou-se a visão tradicional sobre família, que deixa de servir a fins meramente patrimoniais e passa a existir para que os respectivos membros possam ter uma vida plena comum. As garantias de liberdade religiosa e do Estado laico impedem que concepções morais religiosas guiem o tratamento estatal dispensado a direitos fundamentais, tais como o direito à dignidade da pessoa humana, o direito à autodeterminação, à privacidade e o direito à liberdade de orientação sexual”.

Porque, para o ministro Celso de Mello, "a extensão às uniões homoafetivas do mesmo regime jurídico aplicado a pessoas de gênero distinto justifica-se e legitima-se pela direita incidência dos princípios da igualdade, liberdade, não discriminação, segurança jurídica e do postulado constitucional implícito que é o direito à busca da felicidade".

Porque, segundo o ministro Cézar Peluso, “as normas constitucionais não excluem outras modalidades de entidade familiar. Os elementos comuns de ordem afetiva e material de união de pessoas do mesmo sexo guarda exatamente uma comunidade com certos elementos da união estável entre homem e a mulher”.

E finalmente porque, na noite de 05 de maio de 2011, o Brasil foi dormir menos intolerante, menos truculento, menos preconceituoso, mais solidário, mais generoso, mais sintonizado com os valores dos direitos humanos. Mais civilizado. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

EUA E BIN LADEN - PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

Barack Obama conseguiu em menos de três anos o que George W. Bush tentou de forma obstinada durante durante mais de sete anos - matar Osama Bin Laden, o grande vilão da história recente dos Estados Unidos e alçado à condição de inimigo número um dos norte-americanos desde 11 de setembro de 2001. Botar as mãos no líder da Al-Qaeda era uma questão de honra para os republicanos. Constata-se agora que o governo democrata decidiu agir inspirado pelos mesmíssimos desejos e sentimentos.

Em quase cadeia internacional de rádio e televisão, no domingo (01 de maio), à noite, quando o twitter bateu o recorde de mensagens (cerca de cinco mil posts por segundo), Obama, tal qual um caubói do velho oeste, anunciou ao mundo: "pegamos Bin Laden. Eu comandei, eu liderei, eu acompanhei, eu dei as ordens". Ao término do discurso, recheado de mensagens eleitorais, virou as costas e saiu de cena em silêncio, sorriso incontido no rosto, de forma triunfal.

Obama reconheceu: a ordem não era pegar, mas matar Bin Laden. Mas até mesmo os nazistas, ao final da II Guerra Mundial e ainda sob a comoção planetária causada pela tragédia do Holacausto, tiveram direito a julgamento no Tribunal Internacional de Nuremberg. Bin Laden também não deveria tê-lo? 

Sim, Osama é criminoso, assassino, deveria ser punido e pagar por seus crimes horríveis; o que comandou em 11 de setembro de 2001 não foi uma ação revolucionária, mas um deplorável ato terrorista. Mas pode um Estado democrático desrespeitar as leis e tratados internacionais (incluindo a Convenção de Genebra, que fala na proteção de prisioneiros capturados com vida, já que os EUA falam tanto em "guerra" contra o terror)? Pode um Estado confundir justiça com vingança, trocar a civilização pela barbárie e executar sumariamente um criminoso, igualando-se a este e fazendo valer o "olho por olho, dente por dente"?

Em um primeiro momento, os EUA até tentaram "justificar" a ação, alegando que havia seguranças, que Bin Laden estaria armado e teria usado uma mulher como escudo... Farsas. E não demorou 24 horas para que todo esse discurso fosse negado - Bin Laden não estava armado, pouco pôde fazer, não havia mulher-escudo. Ainda assim, soldados estadunidenses fortemente armados, muito bem treinados e com equipamentos de última geração atiraram, provavelmente depois de terem conseguido render Bin Laden, e de uma curta distância. Que nome podemos dar a esse procedimento a não ser execução sumária?

A operação foi mantida em segredo e sequer comunicada às autoridades paquistanesas; a invasão do esconderijo de Bin Laden aconteceu no início da madrugada, quando a cidade já dormia, usando helicópteros que voavam a baixas altitudes, para escapar dos radares e sistemas de segurança do Paquistão (aliado dos EUA, não? Muy amigos...). A ação tinha de ser rápida, para também não dar tempo de que tropas paquistanesas chegassem ao local para saber afinal de contas o que estava acontecendo de tão importante. Pois podem então os EUA cruzar fronteiras de outro país, na calada da noite, sem autorização prévia e oficial? Podem invadir espaços aéreos? Podem solenemente ignorar soberania de outros Estados nacionais? Podem fazer poeira e jogar na lata do lixo as regras do Direito Internacional?

Não custa lembrar que as autoridades estadunidenses, CIA à frente, já reconheceram que as pistas principais a respeito do tal mensageiro misterioso que acabou por levar ao esconderijo de Bin Laden foram fornecidas por prisioneiros da base de Guatánamo, brutalmente torturados - o que os EUA em eufemismo torpe têm chamado de "técnicas coercitivas de interrogatório". É legal e legítimo portanto aceitar, institucionalmente e como política de Estado, a tortura como método de investigação? Os fins justificam os meios? Em nome da "guerra ao terror", vale tudo, inclusive atentar contra a dignidade humana?

Os precedentes estão dados. A porteira está escancarada. Quem será o próximo inimigo dos EUA a ser assassinado? Qual país terá suas fronteiras violadas? Onde serão instalados novos centros de tortura? 

O presidente Obama certamente não descerá do palanque para se dignar a apresentar respostas para essas questões. Nem precisa. Quando se trata afinal de defender o império da "guerra contra o terror", nada mais parecido com um republicano do que um democrata - e vice-versa. Não por acaso, Obama comemora a morte de Bin Laden em ato público realizado no chamado marco zero, onde ficavam as torres gêmeas derrubadas em 11 de setembro de 2001. Foi ali mesmo que George W. Bush declarou, megafone em punho, a "guerra ao terror", logo após os atentados. Faz sentido.

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Em tempo - apenas mais uma pergunta que não quer calar: depois de ordenar o assassinato de Bin Laden, o presidente Obama terá a dignidade de renunciar ao Nobel da Paz de 2009?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

PALESTINOS SE UNEM E AUMENTAM PRESSÃO POR ESTADO INDEPENDENTE


Em meio à onda de manifestações, protestos e rebeliões populares que tomam conta das ruas dos países árabes, que já derrubaram alguns presidentes-ditadores (Tunísia e Egito) e ameaçam defenestrar do poder alguns outros que se julgavam inatingíveis (Líbia e Síria), merece destaque um movimento tão surpreendente quanto inteligente, acertado pacificamente no silêncio dos gabinetes de negociadores, e que promete agitar ainda mais a região já em ebulição. 


No último dia 24 de abril, os grupos palestinos Hamas (que controla a Faixa de Gaza) e Fatah (responsável pela administração da Cisjordânia) anunciaram um acordo que não só encaminha o fim das disputas e divergências entre as duas facções como prevê a existência de um governo de coalizão que se encarregará de convocar e garantir a realização de eleições presidenciais e legislativas unificadas. 

Com a reaproximação e o adeus à cizânia, o povo palestino terá novamente representação única nas discussões sobre o processo de paz travadas com Israel e verá fortalecida a luta pela criação de um Estado palestino soberano e independente, com as fronteiras anteriores a 1967. A mais do que necessária unidade é também consagrada em um momento histórico importantíssimo e em contexto simbolicamente favorável, já que, como há muito não se via, os ventos de liberdade que sopram na região parecem colocar na defensiva as tendências e posturas autoritárias.   

O racha entre as duas facções palestinas aconteceu em 2006, por conta de eleições legislativas vencidas pelo Hamas e questionadas pelo Fatah. O que à primeira vista poderia funcionar como balança equilibrada e garantia de mais respaldo e legitimidade à causa palestina (Hamas com maioria no Parlamento e Fatah com o controle do Executivo) acabou, para alegria e festa do governo israelense, provocando fraturas e deixando vir à tona as estratégias de resistência muitas vezes antagônicas vislumbradas e defendidas pelos dois grupos, que se acusavam mutuamente: o Fatah condenava o que chamava de ações extremistas do Hamas, que por sua vez não aceitava o que considerava ser uma postura exageradamente conciliadora do "rival", que estaria inclusive cedendo a Israel em questões que seriam inegociáveis para os palestinos (definição das fronteiras e atribuições dos governos, por exemplo). 

Resultado óbvio: a divisão enfraqueceu as posições palestinas no já duro diálogo com Israel. O cenário era surreal: era como se existissem dois estados palestinos distintos (Faixa de Gaza e Cisjordânia), quando na verdade e concretamente o Estado Palestino ainda não saiu do papel. Não é preciso lembrar que Israel soube muito bem aproveitar-se do dividir para governar, estimulando inclusive as divergências para continuar negando ao povo palestino o direito à Pátria, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde a trágica partilha da Palestina, em novembro de 1947, por meio da resolução 181.  

Pois eis que o entendimento entre Hamas e Fatah inverte o jogo e pode novamente colocar os palestinos na ofensiva. Segundo reportagem de Roberto Simon publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, "a Autoridade Palestina - novamente a representante tanto da Cisjordânia quanto da Faixa de Gaza - pretende levar à abertura da Assembleia-Geral da ONU, em setembro, uma proposta de independência, a contragosto de Israel e EUA. A tendência é que a plenária das Nações Unidas aprove a resolução, estimam diplomatas e especialistas. Hoje, 118 países (incluindo o Brasil) já reconhecem a Palestina".

Em entrevista também publicada pelo Estadão, o político palestino Mustafá Barghout, independente e não alinhado com nenhum dos dois grupos, avalia que "esse pacto leva à reunificação dos territórios palestinos e dos governos, além de permitir uma estratégia comum aos palestinos. Ele ainda traz de volta a democracia palestina, dá a vida ao Parlamento e às demais instituições do Estado. Sobretudo, é uma oportunidade de ouro para a paz. Agora, ninguém pode recusar o diálogo com o argumento de que não há um interlocutor que fale por todos os palestinos. A população estava saindo às ruas para exigir o fim da divisão e nós lutamos muito para conseguir esse acordo."

É inegável que a morte de Osama Bin Laden tem potencial para se transformar em um grande trunfo para a reeleição do presidente Barack Obama. Será cantada em verso e prosa como um dos principais feitos da atual administração, algo que Bush Jr. perseguiu de forma obstinada - e não conseguiu concretizar. Alcançou status de diferencial, vantagem comparativa. Tem amplitude para emparedar discurso dos republicanos. 

Ainda assim, penso que a política é um pouco mais complexa do que uma relação de causa-efeito (matou Bin Laden, está reeleito); como diz o dito popular, muita água ainda vai correr por debaixo dessa ponte. E podem ser cursos d'água não muito tranquilos. Exemplo: se a proposta de independência palestina de fato for levada à ONU, colocará os Estados Unidos em lençois no mínimo incômodos e pouco confortáveis. A iniciativa irá mais uma vez chamar Obama à responsabilidade, em um momento que continua a ser delicado e de fortes pressões internas (políticas e econômicas) para o presidente dos EUA. 

Como destaca a matéria do Estadão, caso vote a favor dos palestinos, no Conselho de Segurança, Obama estará finalmente rompendo relações umbilicais que unem Estados Unidos e Israel desde a criação do Estado israelense, em 1948. Estará Obama disposto a fazer esse movimento, já com a campanha à reeleição em marcha, e lembrando que a comunidade judaica nos EUA influencia fortemente a disputa pela Casa Branca? 

Ao contrário, se decidir vetar o Estado Palestino, Obama também nessa questão se igualará aos falcões republicanos, se afastará ainda mais de sua base política progressista de apoio (já bastante desiludida com as inflexões do mandatário) e fará por fim crescer o considerável sentimento planetário de anti-americanismo, principalmente nos países árabes. A fatura será razoável. Valerá a pena pagar um preço tão alto?

A única maneira de garantir paz efetiva e duradoura à região do Oriente Médio é efetivar a existência de dois Estados independentes. O de Israel já é uma realidade. O que significa dizer que o direito dos palestinos a uma Pátria soberana não pode mais ser adiado. Parece que o bonde da História (e como ela tem sido generosa com Obama!) está mais uma vez acenando e oferecendo carona ao presidente dos EUA. A dúvida é: será que ele vai entender e atender a esse chamado?

domingo, 1 de maio de 2011

HARRY POTTER, UM BRUXINHO MAIS DO QUE LEGAL

(*) Luiza Pereira, 8 anos, estudante do 4º ano do Colégio Pentágono (Unidade Caiubi) e filha do Chico Bicudo


Desde 1997, o grande bruxinho Harry James Potter faz muito sucesso. Eu, Luiza, sou um exemplo desse sucesso, pois sou "pottermaníaca".

As histórias de Harry são divertidas - e ao mesmo tempo dão um pouco de medo. Gosto dele porque mostra que, se você tentar, tudo é possível. É só chamar Harry, Hermione, Rony e Gina, o quarteto fantástico, e eles virão ajudá-lo!

Draco Malfoy é filho de Lucio. Os dois são comensais da morte. E inimigos de Harry.

São muitos os personagens. Vou falar de um que é bem conhecido, pois é o principal inimigo de Harry. Lord Voldemort tem o poder de falar com cobras e dividiu sua alma em sete partes (horcruxes), para tentar viver para sempre e dominar o mundo. Mas o quarteto fantástico está disposto a fazer qualquer coisa para impedi-lo de se tornar imortal.

Nessa luta, Harry é um bruxinho inteligente e quer ajudar seus amigos. Hermione é muito esperta e Harry confia muito nela. Junto com Rony, e ajudados por Dumbledore, eles procuram as horcruxes.

Harry me encanta também porque é o único que conseguiu sobreviver à maldição da morte e porque ele sente quando alguém do exército do lorde das trevas se aproxima.

E tudo isso se resolverá no dia 15 de julho, quando a segunda parte de "Relíquias da Morte" chegar aos cinemas. Estou ansiosa!