domingo, 30 de junho de 2013

E NÃO É QUE O CAI-CAI VIROU CRAQUE?

Texto originalmente publicado no portal "Eu Sou Santos" (www.eusousantos.com.br). Aqui, foi ligeiramente atualizado...

Foto- www.tribunadabahia.com.br


O menino era marrento, decidido. Futebol de craque desde muito cedo – o toque de classe, o drible curto, o improviso artístico. Tornou-se profissional aos 16 anos, absoluto na equipe que é uma das maiores do mundo em todos os tempos. Segurou a bronca. Vai prá cima deles. Ele foi. Em quatro anos, conquistou seis títulos, fez 138 gols pelo clube, foi eleito destaque em vários campeonatos, marcou o gol mais bonito do planeta em 2011. Representou.

Mas...

Ora bolas, foi tudo obra do acaso, uma grande coincidência. Sorte. Muita sorte, coisa de principiante. Porque, de fato, o moleque era um grande produto de mídia. Puro marketing, invenção da sociedade do espetáculo. Ídolo falso, fabricado. Mala. Um cai-cai que subvertia as regras do jogo, cavava faltas e tentava enganar juízes e a torcida. Levanta logo, seu trouxa, babaca, deixa de simular, não foi nada! Olha, é um perigo, se nada for feito, se ninguém tomar providência, esse moleque mimado vai virar um monstro. Cuidado! E que cabelo ridículo! Era um falastrão a praticar o anti-jogo, mais preocupado com os holofotes televisivos e com as propagandas e os patrocínios do que em jogar futebol. Até porque, vamos e venhamos, enfrentar essas equipes medíocres e seus zagueiros cabeçudos e caneludos que existem no Brasil é fácil. Duvido que faria essas mesmas firulas improdutivas e esses lances ridículos de foquinha em gramados europeus. Vai ser quebrado, trucidado, com toda a razão. E lá o juiz não marca qualquer faltinha não. Era um falastrão, baita de um pipoqueiro, amarelão, sempre sumia em decisões. Foi vaiado no Morumbi, foi vaiado no Mineirão.

Mas...

Aí o moleque resolveu seguir o conselho de muitos e foi respirar os ares futebolísticos da Catalunha. Que baita jogador! Nossa! Sensacional! É craque, dos melhores que já vi jogar nos últimos tempos. Dá gosto vê-lo em campo. São poucos. Gênio. Não sentiu a pressão na estreia da Canarinho nas Confederações, com menos de três minutos já tinha emendado um balaço de direita no ângulo do goleiro. Uma pintura. Um mestre da bola, tem tudo para ser um dos melhores do mundo em breve. E aquele sem pulo de canhota no segundo jogo, sem tirar o olho da bola, a acompanhar a trajetória dela, e a abrir o placar contra adversário casca grossa? Correu, marcou, roubou bolas, distribuiu chapéus. No fim, sabe-se lá como, fingiu que ia para a linha de fundo, travou a passada, mudou a rota, passou no meio de dois e deixou o companheiro na cara do gol para ampliar o placar. Foi o melhor da partida, sem sombra de dúvidas. Lindo ainda foi o golaço de falta, no jogo contra quem tem quatro títulos mundiais – batida seca, calculada, milimétrica, a bola a estufar as redes e a atingir o ângulo de um dos melhores goleiros do mundo, que só pôde observar. Maravilha! Brilhante! Viram como a equipe caiu de produção depois que ele foi substituído? É um craque. E o escanteio na cabeça do Paulinho contra a Celeste? Que perfeição... Na final, um canhotaço (mais um) no ângulo do Casillas e uma deixadinha manhosa para o Fred. Foi eleito o melhor jogador da Copa das Confederações. Escolha justíssima! O Maracanã rendeu-se ao talento do Moleque.


Pois é. Um craque. Nada como a experiência internacional para fazer nascer um craque... 

terça-feira, 25 de junho de 2013

DIVAGAÇÕES SOBRE O PLEBISCITO E A CONSTITUINTE

Aspectos positivos - sou favorável aos mecanismos que colocam em prática a ideia de democracia direta e participativa, justamente porque fazem do povo o ator protagonista de seu cotidiano político ("todo poder emana do povo e por ele deve ser exercido", "do povo, pelo povo, para o povo"), e desde que tais iniciativas signifiquem sempre aperfeiçoamentos e avanços para o exercício da cidadania e para a consolidação dos direitos humanos, e não retrocessos obscurantistas. Ao anunciar a proposta, a presidenta Dilma sai do gabinete, mostra iniciativa, sugere que as vozes das ruas foram minimamente ouvidas e ainda empareda a oposição, que até agora reclamava do imobilismo do governo e fazia da reforma política uma de suas reivindicações principais, mas que recua firme no discurso e passa a falar em "chavismo, golpe, em medida autoritária". Penso ser relevante também encontrar caminhos viáveis para fazer destravar reforma que é para lá de urgente para a nossa democracia e que o Congresso Nacional vem empurrando com a barriga há anos, há décadas, qualquer que seja a legislatura, exatamente porque os parlamentares não estão dispostos a mudar regras que estão sempre a beneficiá-los. Atuam em causa própria. Parece-me politicamente ingênuo imaginar que, repentinamente, num estalo de "consciência cívica, democrática e republicana", deputados e senadores acordariam desse sono profundo e se mostrariam dispostos a mudar de postura e a fazer tramitar a reforma.

Dúvidas, muitas dúvidas - Concordo com o professor Renato Janine Ribeiro quando diz que "a política não é só a arte do possível, mas também poder de criação". Se é fato que a atual Constituição brasileira não prevê Constituinte parcial, "as crenças de advogados e juristas não substituem o direito de criar coisas novas". Muitas vezes, é assim que a democracia avança e as transformações se concretizam. Mas, efetivado esse avanço e dado esse passo, que garantia futura teremos de que o mesmo argumento e pressuposto não poderá ser utilizado para convocar plebiscitos sobre Estado laico, aborto, pena de morte, redução da maioridade penal, como alerta a amiga Fabiane Hack, com evidentes riscos e possíveis retrocessos para a democracia brasileira? É fundamental considerar e ponderar tais aspectos. Além disso, não está claro como funcionaria esse processo. O plebiscito terá de ser regulamentado e convocado pelo Congresso Nacional - mas haveria vontade política e celeridade para tanto? Por que, se a reforma política está parada na Casa há anos? Haveria campanha, horário eleitoral gratuito? Se a população autorizar a instalação da Assembleia restrita, quem dela irá participar? Os próprios parlamentares da atual legislatura, da próxima, a ser eleita em outubro de 2014 (que não precisariam mais dos 3/5 para aprovação da matéria, bastaria a maioria simples, o que facilitaria a tramitação da proposta)? Ou, ao contrário, seriam eleitos constituintes exclusivos para tal finalidade? Se for assim, apenas os partidos políticos poderiam apresentar candidatos, ou seria permitida a participação de "independentes", a dar contornos a uma espécie de comissão de notáveis chancelada pela população? Uma vez instalada a Comissão, quais as garantias teríamos de que se limitaria a deliberar exclusivamente sobre a reforma política, sem tentações de invadir outros capítulos ou artigos da Constituição? E, uma vez definida a reforma, passaria novamente por referendo popular?

Pois então... Vamos pensar e conversar?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

DEFENDER A DEMOCRACIA. NÃO PASSARÃO.

Lênin já dizia que 'não há prática revolucionária sem teoria revolucionária'. Não se trata apenas de bravata, de frase feita, de palavra de ordem. Em política, há momentos em que a gente acumula forças e tensiona, e há situações em que a gente se encontra para pensar e conversar, para debater e formular. Ação e reflexão, combinadas de forma inteligente.

As manifestações contra o aumento nas tarifas de transporte público, chamadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) e que tomaram as ruas do país nos últimos dias, nasceram bonitas, cheias de vida, arrebatadoras. Tinham pauta. Tinham foco. Tinham lado. Eram contra os aumentos das passagens, mas não eram só os vinte centavos - era também o desejo de destravar a discussão sobre mobilidade urbana, qualidade do transporte público, sistema de gerenciamento e lucros das empresas. Os atos mostraram uma faceta fundamental da política, com a qual talvez já não estivéssemos mais acostumados, a premissa progressista de que a cidade, a pólis, se faz e se inventa também nas ruas.

Era uma agenda de esquerda, de ampliação de direitos e de radicalização da democracia - e também por isso as primeiras manifestações foram duramente reprimidas pela Tropa de Choque da Polícia Militar. Foi bonita a festa, pá (a festa política, com conteúdo, não o oba-oba de desfiles em passarelas, como se passou a ver depois, sobretudo ontem). E importante vitória foi alcançada - a revogação do aumento, com as passagens voltando a custar três reais, por conta da pressão popular.

Mas, e aqui já escrevi exatamente dessa maneira, o destravar a caixa de bondades representou também abrir simultaneamente a caixa das maldades, e dela pularam coisas fétidas e horrorosas, sobretudo um fascismo que já andava por aí à espreita, latente. Fizemos o jogo da direita? Não. Atuamos no espaço público para ampliar direitos. Mas, e vale como autocrítica, talvez tenhamos subestimado ou avaliado equivocadamente o grau de insatisfação com a política, com os partidos, um rancor e ressentimentos profundos em nossa sociedade, ódios incontidos, e não consideramos a capacidade rápida de as forças reacionárias se apropriarem do movimento, de darem outro sentido às manifestações. Os sinais do fascismo eram evidentes - mas, sinceramente, não considerei que as raízes já pudessem ser tão profundas.

Ontem, nas ruas, ao menos aqui em São Paulo (e pelos relatos que ouço e leio não foi muito diferente no resto do Brasil), o fascismo venceu. Tomou conta da avenida Paulista. Deu o tom das manifestações. Fez valer o 'sem partido'. Arrancou e queimou bandeiras. Atacou militantes de esquerda. Hostilizou os movimentos sociais, o movimento negro, os homossexuais. Escancarou sua intolerância. Berrou a plenos pulmões que 'meu partido é o Brasil; o povo unido não precisa de partido', em truculenta negação do ideal de democracia. Ficou perigoso.

Está tudo muito estranho. As ruas estão estranhas. Os discursos estão estranhos. As redes sociais estão estranhas. As narrativas midiáticas estão estranhas. É hora de serenar. De arrefecer os ânimos. De acumular. Não de abandonar a luta, mas de carregá-la para outros espaços - olhar mais para dentro do que para fora. É preciso voltar a juntar, a reunir, ler, pensar, duvidar, refletir, conversar. É tempo de fazer avaliações, de tecer e costurar novas pautas, da autocrítica, do balanço de acertos e erros. Pausa para a reflexão.

Contra a barbárie, ofereço a ideia. É o que está a nosso alcance. Vamos debater? Conheço muitos que vivem as mesmas angústias, que estão na mesma sintonia, com as mesmas preocupações. Tem uma moçada muito interessante e inteligente que participou pela primeira vez de manifestações e está ávida por discutir política. Vamos juntar?

Não vou brigar com os democratas. Não vou brigar com a democracia. Nossa tarefa coletiva e histórica é defendê-la e protegê-la, contra o avanço dos fascistas - dos que são assumidos, dos enrustidos e até daqueles que não sabem que são, mas são. Não passarão. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O MOVIMENTO NÃO DEVE NEGAR OS PARTIDOS POLÍTICOS

Já que estamos em momento de ebulição de ideias, aqui vão mais algumas, sobre tema que vem saudavelmente chacoalhando as reflexões de muitos companheiros. O fato é: o Movimento Passe Livre não é propriedade ou monopólio deste ou daquele partido - mas o MPL tem, organicamente, de forma marcada por disputas e contradições, conexões com partidos de esquerda, sobretudo com aqueles que se situam no que se convencionou chamar de esquerda radical. É um cenário de tensa independência, bem distante (e antes que as pedras comecem a voar) de cooptação ou de instrumentalização. Estão para além dos partidos, sem ser contra os partidos, como eles se definem. Já deu para perceber que a equação é complexa.

Parece-me arbitrário e anti-democrático, assim, gritar "sem partido" nas passeatas e exigir que esta ou aquela bandeira sejam abaixadas, retiradas (às vezes com violência) das marchas. Não tenho dúvidas de que os partidos no Brasil (para ficar no nosso caso específico) vivem tremenda crise de identidade e de legitimidade. Há desconfianças das mais distintas matrizes, sobretudo, arrisco dizer, por conta de um maniqueísmo empobrecedor que contaminou o nosso debate político nos últimos vinte anos e que aproximou, aqui e acolá, os discursos e as práticas do PT e do PSDB, com vernizes mais ou menos escuros ('privatizei menos, desonerei mais'...). 

Reconheço que o que está acontecendo nas ruas transcende esse 'sou legal, você é chato'. É algo novo, está em gestação, é quase anárquico (nas manifestações em Brasília, no estádio Mané Garrincha, na estreia do Brasil na Copa das Confederações, o comandante da PM estava transtornado por não reconhecer as lideranças do protesto, por não ter com quem negociar), horizontal, com forte presença nas redes sociais, a investir em coletivos. Precisa ser mais bem compreendido. Tem norte político. Oxigena. Renova. Faz bem.

Considero um risco tremendo, no entanto, a postura de negar 'a priore' os partidos políticos, por 'razões maiores' e em nome de um nacionalismo difuso, estranho e homogeneizador ('ah, sem bandeiras, só o verde e o amarelo, somos todos brasileiros, com muito orgulho e muito amor'). Quando são rechaçados dessa maneira, apolítica, a partir desse viés e régua, nos aproximamos perigosamente do que defendem os fascistas - contato direto com as massas, sem interlocutores ou intermediários. Daí para idolatrar a figura do grande líder (o fuhrer, o duce...) vai um passinho tão minúsculo, talvez imperceptível. 

Vá lá, reforçando, os partidos estão na berlinda, precisam se reinventar, restabelecer conexões com as ruas, abandonar os gabinetes de luxo. Sei lá (e quem sabe?) se serão incorporados, agregados, mimetizados, substituídos definitivamente por novos atores e forças políticas da democracia (essa palavrinha é fundamental para marcar posição). Mas, por enquanto, são interlocutores democráticos importantes, representativos, com destaque no jogo político. Não há (ainda) DEMOCRACIA sem partidos políticos.

Estou aberto aos novos ventos, sendo positivamente surpreendido a todo instante por turbilhão de novidades, por essa moçada bacana e inteligente, ouvindo e apreciando esse aprendizado tão bonito. Mas não vou embarcar nessa onda reacionária do "sem partido". Porque nós abrimos nas ruas a caixa de bondades, de sonhos, de utopias, de esperanças, de ampliação de direitos, de outro mundo possível. Veio junto, no entanto, a caixa de Pandora, horrorosa - e as maldades são muitas e estão soltinhas por aí, dos infiltrados no movimento aos reaças que invadem sorrateiramente as redes sociais e defendem as balas e o gás lacrimogênio da Tropa de Choque da Polícia Militar. 

Os desejos que surgem nas ruas são transformadores. Mas a direita tenta (e vai continuar tentando) se apropriar deles, ressignificá-los. É preciso estar atento e forte.   

terça-feira, 18 de junho de 2013

OCUPAMOS SÃO PAULO. E FOI LINDO.

























"Pai, se cuida, dá notícias", pediu Luiza. Dei um beijo estalado nela. Outro no Daniel. Prometi que tudo ficaria bem. Celular num bolso, documento no outro. Só. Se fosse preciso correr... Mas a tensão foi logo embora. Sai pra lá, PM, que hoje vai ser diferente. Nada de repressão. O Largo estava lindo, colorido, cartazes, balões, faixas, passeatas e caravanas que chegavam de todos os cantos, com todos os cantos. "O povo acordou! O povo acordou!"

Já não dava mais para avistar onde a multidão começava - nem onde terminava. Encontrei muitos, não encontrei vários, desencontrei de outros tantos, me perdi de alguns, lembrei de muita gente querida que não estava ali - mas estava ali. Recebi mensagens, fiquei sem sinal, a bateria do celular acabando. Revi alunos, ex-alunos - e como foi gratificante cruzar com vocês naquela imensa sala de aula. "O povo unido, jamais será vencido!". Arrepiei. Revisitei minha história, cada fragmento dela. São Bernardo, Diretas Já, 1989, outras campanhas eleitorais, caras-pintadas. Sorri sozinho, agradecido. No prédio à frente, projetado em laser, letras garrafais, era possível ler "Movimento Passe Livre". Aplausos.

Partimos. Ocupamos. Cada pedacinho dessa cidade. A marcha era de todos - e fomos todos iguais naquela noite. Mas ela era sobretudo dos jovens - livres, aguerridos, alegres, conscientes, politizados, irreverentes, engraçados. Deram o tom da conversa. Que tem norte político, sim, embora muitos insistam em dizer que "falta foco, que são mimados, estão despreparados". Acompanhei um rapaz de uns 18 anos de um movimento social de viés progressista olhar firme para um sujeito bem mais velho que carregava bandeira de um partido de esquerda e dizer, com serenidade, mas convicto: "cara, você quer substituir um sistema por outro sistema. Não dá. Entenda. Mudou. A história é outra". 

Tem nego que vai pirar. Porque é horizontal, de baixo para cima. É isso: não tem dono. Não tem 'capo'. Sem patrulhas, sem aparelhos. Sem rótulos ou ismos reducionistas. Escapa do convencional. É oxigênio renovado. Está dando nó nas cabecinhas de um monte de especialistas que adoram enquadrar. É anárquico, no melhor sentido da expressão, livre, soberano, desgarrado, rebelde; pulsa na batida e na voz do coletivo. Mas é político, insisto, e tem lado - quer discutir a tarifa zero, a violência policial, a mobilidade urbana, os gastos da Copa, a qualidade dos serviços públicos, o racismo, a homofobia. Explodiu. Ninguém segura. Vamos nessa. "Ô motorista, ô cobrador. Me diz aí se seu salário aumentou"


Evidente que há disputa, infiltrados, tensionamento, aparecem sempre os oportunistas que tentam surfar na onda e impor outras pautas, desviar as agendas. Inevitável. O fascismo à espreita. Não passarão. "Ei, reaça, saia dessa marcha!". Como escreveu o camarada Fernando Amaral, "a rua é de quem quer um outro mundo possível. Que venham novos ares". Acho que eles chegaram, queridão. Eu vi. Senti. Gostei. Passamos por lojas chiques, lanchonetes, restaurantes, prédios de luxo, bancos, ônibus que acabaram ficando ilhados. Os motoristas recebiam flores, eram convidados para fotos. Panos brancos chacoalhavam nas janelas. Em alguns pontos, chuva de papel picado. Em algumas vitrines, funcionários animados arriscavam passos de dança e coreografias.

Quando estávamos chegando à avenida Juscelino Kubitschek, tinha um mar de gente ainda cruzando a Rebouças, e uma multidão que já chegava perto da Marginal Pinheiros. 65 mil? Vocês estão de brincadeira! Mais, muito mais. E o tal do patrimônio público continuava intacto. Onde estão mesmo os vândalos, governador? Quem são os baderneiros? Qual é o protocolo de segurança que precisa ser seguido, meu caro prefeito? Depredações, quebradeiras? Quais? Onde? Para que bala de borracha, gás lacrimogênio, bomba de efeito moral? Vocês devem estar até agora em estado de choque - não, não falo da tropa, mas das expressões aparvalhadas dos dois. Continuam sem entender patavina. Até quando? "Que coincidência! Sem a polícia, não teve violência".

A essa altura, os joelhos doíam. A coluna doía. Mas a alma mandava continuar seguindo em frente. "Pula, sai do chão, contra o aumento do busão!". O que está acontecendo? Não sei. É novo, diferente. É muito bom. Vamos aproveitar. Que tal ouvir o que os jovens têm a dizer? Com a palavra, os protagonistas. "O povo acordou! O povo acordou!"

Quando voltei para casa, mais de onze da noite, feliz e cansado, enquanto muitos procuravam rotas alternativas, fiz questão de procurar o trânsito das multidões. Fui cair no meio da Paulista, sem tirar a mão da buzina, ainda encantado, enquanto muitos pulavam e festejavam em volta do carro. Escolhi sentir por mais um tantinho os ares e a alma de uma cidade que voltou a ser acolhida pelos braços do seu povo. Nas ruas.

Em casa, mais uma surpresa, olhos marejados, lágrimas: Luiza e Daniel tinham pendurado na janela um pano branco, para evidenciar apoio às manifestações. Obrigado, pequenos. Voltei bem, tudo certo, como combinamos. Bom sono. Preparem-se. Vem mais por aí. "Vem pra rua! Vem pra rua!". É a História. E, já dizia o poeta, o futuro não é mais como era antigamente.  O mundo é de vocês. Amanhã vai ser maior ainda.




domingo, 16 de junho de 2013

CHEGOU O DIA. OCUPA, SÃO PAULO!

Não é raro receber como resposta algumas expressões desconfiadas e de estranhamento quando digo que estarei hoje no Quinto Ato pela Tarifa Zero, no Largo da Batata, 17h, em São Paulo. Fica um ponto de interrogação no rosto de alguns interlocutores. Já chegaram a me dizer, discretamente, que "deixe disso, você já passou dos 40, tem dois filhos, não é mais um adolescente rebelde sem causa. Não seja Peter Pan. O que vai fazer lá?". Pois é isso mesmo. Vou ao Ato porque tem jangada no mar, tem arrastão cívico, e não consigo ficar à toa na vida, em casa, no sofá, vendo a banda passar. Porque a hora é agora - e não vou esperar acontecer. Vem, vamos embora. São Paulo destravou. Está bonita, pulsante. Alguma coisa acontece no meu coração. A juventude, responsável por tantas e tamanhas mudanças históricas importantíssimas, achou por bem redescobrir, como se fora brincadeira de roda, que a política é sonho, é utopia, é esperança. É fazer do impossível o possível. Nesse novo tempo, apesar dos perigos, da força mais bruta, estão novamente nas ruas, quebrando as algemas. Querem ter voz ativa, nos seus destinos mandar. Estão nos convidando, generosamente, a todos nós. Por que não? Alegria, alegria! Vou ao Ato porque, talvez por um defeito de nascença, carrego no DNA a mesma esperança, o gene da indignação, o desejo incontido de transformação. Sou um sujeito político. Faz parte do meu show. Na praça estarei para ser coerente com minha condição de educador - e para fazer valer, no espaço público, aquilo que discuto com meus alunos em sala de aula. Vou lá ouvir e aprender. Além disso, lugar de jornalista é na rua, certo? Vem pra rua! É lá que a cidadania se inventa e se reinventa, criativamente, em alto e bom som. No Ato estarei porque tenho dois filhos - e, como diz o filósofo Mario Sergio Cortella, o mundo que queremos para os nossos pequenos depende fundamentalmente dos filhos que estamos criando para esse novo mundo. Lu, Dani, lá estarei também por vocês. Com vocês. Sempre. Somos tão jovens. Todos. E temos todo o tempo do mundo. Porque a juventude é também um estado de espírito, para além das idades registradas em certidões de nascimento. Os sonhos não envelhecem. Por isso, continuo tendo em mim todos os sonhos do mundo. Apesar dos 40. Amanhã há de ser outro dia.
Temos um compromisso. Espero vocês.     

sexta-feira, 14 de junho de 2013

SÃO PAULO, 13 DE JUNHO DE 2013

(*) Tiago Marconi, cineasta


Fazia tempo que eu não ia a uma manifestação. Ontem passei o dia tentado a ir ao quarto ato  contra o aumento da tarifa de ônibus, nem tanto pela causa da tarifa, obviamente legítima (nunca fui a uma manifestação do MPL antes), mas pela dimensão que o protesto tomou na  terça-feira, pelo simples ato de tomar as ruas por uma causa legítima, o que não deveria sequer ser uma questão num estado democrático de direito. Depois de resistir bastante por ter outras coisas para fazer, acabei convencido a ir. Era bem possível que eu não conseguisse trabalhar e ficasse lendo notícias da manifestação, portanto valia mais pegar o metrô e ver a cara da coisa acontecendo do que ler os relatos dos outros.

Na estação República, encontrei uma velha conhecida de infância, amiga de adolescência, da minha idade (31) e certamente veterana de manifestações, com cara  desconfortável, não de um medo imediato, mas de um sentimento ruim. Carregava um tripé e, ao lado do marido (que fez questão de chamar de companheiro), disse que tinha dois filhos para criar e para eu ter cuidado. Eu só sabia de um filho mas nem consegui perguntar nada. O que seria uma conversa besta e gostosa entre velhos conhecidos que provavelmente não voltarão a se encontrar tão cedo foi interrompida pela tensão da cidade. Eles tinham que ir, eu também, encontrar outra amiga. No Teatro Municipal, tudo estava lindo, como continuou até a Consolação, onde a PM foi pra cima (e é sempre assim, hoje até o Elio Gaspari escreveu, mas é sempre assim).  Estava meio claro que aconteceria. Saímos do meio da confusão, atravessei a Consolação, cheirando meu vinagrinho num lenço do centenário do Corinthians, e fui andando entre os carros parados na Caio Prado.

Os carros  parados. A ironia, essa espécie de deusa pagã, colocou o engarrafamento recorde do ano entre o protesto de terça e o de quinta, numa quarta-feira ordeira e pacata na megalópole (nem Corinthians teve). A reivindicação do direito de ir e vir para legitimar a repressão, portanto, provoca imediato riso em qualquer paulistano minimamente sensível a ironia, a despeito de viés ideológico. Sem contar que é simples assim: numa democracia, pessoas têm o direito de  se juntar e fazer passeata por qualquer motivo e os carros devem esperar.

Discussão de direitos à parte, o fato é que o pau comia. Subimos a Augusta, até que percebi que o longo quarteirão entre a Marquês de Paranaguá e a Dona Antônia de Queirós estava muito cheio de manifestantes, carros e ônibus, e é fundamental ter para onde correr, desviamos para a Frei Caneca, com a idéia de ir para a Paulista. Quando vimos que o Choque bloqueava a Frei Caneca, pensei em subir pela Peixoto Gomide, mas acabamos resolvendo voltar pro Centro. Na Augusta, vinha o Choque, na Haddock Lobo, vinha o Choque, na Bela Cintra, não sei mas imagino, na Consolação, vinha o Choque. Paramos na Angélica. Descemos pro Centro, para a casa da minha amiga, de lá para um bar na Santa Cecília, encontrar outros amigos que estavam na manifestação. Isso já eram dez horas da noite. As bombas na Consolação foram às sete. Saindo do metrô, os funcionários estavam fechando a porta, pessoas corriam pra entrar (populares correndo sempre melhoram a história), subimos, vimos uma turma de uns 30 ou 40 manifestantes, gritando, indo em direção ao metrô, mas com todo jeito de quem simplesmente ia embora. Se eu tiver algum leitor de fora de SP: a Santa Cecília não tinha nada a ver com o trajeto da passeata, pensando no Centro como um mapa múndi, seria como sair da Europa pro Brasil e acabar nos EUA. Optamos por dar a volta na igreja e não passar na muvuca, decisão muito sábia, pois quando saíamos  do Largo da Santa Cecília, 5 viaturas Blazer passaram no sentido dela e, já na esquina da Frederico Abranches com a Dona Veridiana, passamos por PMs que avançavam resolutos e gritavam entre si "cadê a 12?", "quem está com a 12?".  Assustado, não parei para ver o que aconteceu com os manifestantes que ficaram entre as portas fechadas  do metrô Santa Cecília e os quase 40 PMs. Andamos um pouco mais até o bar, onde ficamos ouvindo por mais quase uma hora os helicópteros rondando nossas cabeças.

Fui em algumas manifestações desde 2000, com bomba de gás, sem bomba de gás, com correria, sem correria, com uma quantidade desproporcional de policiais, sem quantidade desproporcional de policiais. Vi abusos policiais e sadismo descarado em estádios de futebol. Vi o despejo de uma ocupação de terra, talvez a situação mais triste que presenciei. Mas nunca tinha visto nada parecido com hoje em termos de aparato policial, de duração de uma operação tão grande. Imagino que os policiais devam estar comemorando porque realmente foi impressionante o preparo para bloquear todos os possíveis acessos à Paulista (mas o povo chegou, claro, o povo é o povo) e a disposição para mandar bomba e bala de borracha e porrada com o cassetete em quem apenas estava na rua (manifestante, repórter, transeunte). Devem estar rindo de terem podido prender gente por porte de vinagre.

Dois argumentos contra esses protestos – que aparecem costumeiramente quando tratamos de quaisquer protestos – têm me incomodado. O primeiro é o da depredação de patrimônio público e privado. Numa turma de 10 mil pessoas, a chance de ter quem se comporte como moleque, sendo ou não, é sempre grande, mas é uma minoria ínfima, como se pode ver pelos pequenos estragos que causam. Vidros de estação, vidros de banco (enquanto você lê "vidro de banco", ele já recuperou o prejuízo só nos juros), lixeiras. Seria legal fazer um cálculo (não sou a pessoa para isso) somando o custo de uma operação militar desse porte e dessa duração, mais o custo de atendimento aos feridos nos hospitais públicos, mais os estragos causados pela PM (alguém que sigo no twitter viu a bomba deles entrar no ônibus que foi "queimado por manifestantes"). Se o problema é dinheiro, patrimônio, e eu obviamente não acho que seja, vamos comparar os custos. Mais importante que isso, no entanto, é o fato de que a repressão nunca se restringe a quem comete excessos.

O outro argumento me diz respeito pessoalmente. A tentativa de deslegitimação de um movimento porque os manifestantes são de classe média. Primeiro porque não acho que seja totalmente verdade (e, até onde sei, não existem dados a respeito). E ainda que fosse, nenhum dos supostos privilegiados está ali lutando por seus próprios privilégios, as reivindicações são para todos. Ou alguém acha que evitar o aumento da passagem de ônibus contraria os interesses de quem é pobre e mora longe? O questionamento da violência arbitrária e ilegal tampouco é uma pauta que diga respeito exclusivamente à classe média, pelo contrário. Quando ela acontece nesta parte da cidade, a repercussão é enorme, inclusive.

O terror generalizado de ontem em pleno miolo da metrópole é mais uma chance para pensarmos no papel que atribuímos, enquanto sociedade, a uma polícia militar, essa instituição que carrega o golpe de 64 em seu brasão. Tivemos essa chance no massacre conhecido por Operação Castelinho e na matança de jovens na periferia em reação aos ataques do PCC em 2006, por exemplo (ambas sob o mesmo governador) – situações de execução de criminosos e inocentes, em geral de origem pobre. Se é preciso que a truculência se dê desse lado da ponte para termos essa nova oportunidade, isso mostra que nossos problemas são muito maiores do que a PM simplesmente. Mas, ainda assim, oportunidade, quando aparece, se deve aproveitar.


Nos vemos segunda, dia 17, às 17h, no Largo da Batata. Porque a praça é do povo.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CÓDIGO DE CONDUTA DO PROTESTO CIVILIZADO E LIMPINHO


1 - As lideranças do movimento e os responsáveis pela organização do protesto, qualquer que seja a natureza da iniciativa, pretenda a ação o que pretender, devem entrar em contato com as autoridades legalmente constituídas pelo menos três anos antes da realização do ato;

2- A partir desse contato inicial, será agendada uma reunião entre as partes, ocasião em que os manifestantes deverão entregar à administração pública um relatório detalhado, contendo os motivos do protesto e um plano de ações (roteiro) para o ato pretendido, além de nomes completos, endereços, RGs, fotos recentes e e-mails de todos os que serão autorizados a participar da manifestação;

3- Após análise cuidadosa do relatório, e caso a iniciativa venha mesmo a ser aprovada, as autoridades definirão, unilateralmente, a melhor data, local e horário para a realização do protesto. Caberá aos manifestantes apenas acatar a decisão, sem contestações ou contra-propostas;

4- No dia do protesto, todos os manifestantes, previamente cadastrados, deverão estar no local marcado com ao menos uma hora de antecedência. Serão recebidos pelas forças de segurança que, depois de revista, indicarão, mediante apresentação de senhas com códigos de barra, os lugares reservados, numerados e que cada um deverá ocupar;

5- Todos os participantes deverão obrigatoriamente trajar vestimentas que não atentem contra a moral e os bons costumes das nossas famílias (estamos falando de famílias formadas por homem-mulher-filhos, obviamente); deverão ainda ter colado, nas costas e de forma bem visível, um adesivo onde se lerá "sou manifestante civilizado, não faço baderna";

6- O ato acontecerá necessariamente em local fechado (ginásios, anfiteatros, auditórios), em regiões afastadas e com pouco ou nenhum movimento, para não atrapalhar o trânsito. Haverá transmissão ao vivo (apenas imagens, sem som) para quem estiver nas ruas, a partir de telões instalados em dois pontos estratégicos da cidade (não mais do que isso, para evitar tumultos). Jornalistas selecionados com antecedência poderão apenas e tão somente entrevistar as autoridades e fontes oficiais, jamais os manifestantes;

7- O ato de protesto deverá durar no máximo quinze minutos. Músicas e palavras de ordem serão permitidas, desde que também previamente comunicadas e aprovadas pelas autoridades competentes, e contanto que o barulho não ultrapasse quinze decibéis (não será permitido o uso de microfones, megafones e afins). Também estarão proibidas canções que representem convite à violência (nada de "vem pra rua", por exemplo);

8 - Ao final do ato, os manifestantes, em fila indiana, lentamente e com a mão direita tocando o ombro do colega da frente, serão ordeiramente retirados do local, sempre em silêncio, e depois de terem sido novamente fotografados, por medida de segurança. Todos deverão imediatamente dirigir-se a suas residências, sem dar um pio. Não serão toleradas esquisitas e subversivas rodinhas de conversas;

9 - Por fim, os participantes do protesto deverão assinar termo de compromisso que garantirá que as redes sociais não serão usadas para discutir e repercutir a manifestação. O que tiver sido debatido em local fechado de lá não deverá sair. A publicação de fotos ou de textos estará terminantemente proibida.

10 - Importante reforçar que todas as medidas aqui elencadas têm como único e democrático intuito garantir a constitucional liberdade de expressão e o direito ao protesto civilizado e limpinho, bem cheiroso, a respeitar a ordem, a rotina e a tradição pacífica e cordata de nossa sociedade, evitando assim que tais atos possam ser confundidos com iniciativas baderneiras e arruaceiras. 



Atenção - o texto acima carrega elevadas doses de ironia...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

MEU RESPEITO AOS TURCOS!

(*) Silvia Macedo Chiarelli, educadora e proprietária da Escola Alecrim


Estou em Istambul em visita à minha filha, Teté, que mora em Beshiktas, um bairro próximo de Taksim. 

Como está sendo noticiado aí no Brasil, um projeto de reurbanização do governo pretende derrubar 600 árvores de um parque na Praça Taksim, no coração de Istambul, para a construção de um shopping center no local. Muitas pessoas ocuparam o parque para impedir o corte das árvores e, sexta-feira passada, 31 de maio, a polícia invadiu o parque para expulsar os manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo, jatos d’água e muita violência.

O que aconteceu depois, e continua acontecendo, é emocionante. Uma manifestação popular que foi crescendo ao longo dos dias, o protesto foi tomando o país! Parece que quanto mais a polícia reprime, mais gente aparece e a ameaça da derrubada das árvores acabou se transformando num protesto político sem precedentes nos últimos 90 anos do país. Trouxe à tona uma série de insatisfações contra o governo que os turcos não querem mais calar: se fala em autoritarismo, na arbitrariedade nas tomadas de decisão, na falta de escuta, em algumas questões econômicas, em posições retrógradas e muito conservadoras... E isso contra um governo com popularidade baseada no sucesso da política econômica. Milhares de pessoas tomaram as ruas em muitas cidades do país!

Como a casa da Teté é no meio do caminho, sábado acabamos participando de parte da passeata do pessoal que veio do lado asiático, pela ponte, em direção à Praca de Taksim (fala-se em 40.000 pessoas que atravessaram a ponte a pé!). Foi das coisas mais bonitas e emocionantes que já vi: pessoas de todas as idades, cantando, empunhando bandeiras da Turquia, uma festa. Vinha mais gente das ruazinhas laterais, os carros que passavam no sentido oposto buzinavam em apoio, muita gente batia panela nas janelas dos prédios... incrível! 

A polícia está reprimindo as manifestações com uma violência absurda, muito gás lacrimogêneo e canhões de água. Mesmo assim, os protestos continuaram durante o final de semana inteiro, em muitos pontos da cidade. Vale dizer que são pacíficos até a ação da polícia começar: aí surgem as barricadas, pedras, etc... 

O movimento foi organizado através das redes sociais, não tinha nenhum partido político por trás da mobilização popular. Tive a oportunidade de presenciar cenas incríveis: gente distribuindo água, máscaras, limão e leite com água (que dizem amenizar os efeitos do gás). Panos brancos em alguns estabelecimentos sinalizavam abrigo possível em caso de necessidade. 

As bandeiras nas janelas das casas, nas vitrines das lojas também se transformaram numa marca do protesto.

A partir da segunda-feira, os protestos voltaram a se concentrar na Praça de Taksim, o início marcado para as 9 horas da noite. Além disso, diariamente às 9 da noite em ponto uma barulheira danada continua tomando as ruas: panelas batendo, buzinas, apitos e vuvuzela durante muitos minutos. Para lembrar que podem não estar presentes na Praça, mas continuam mobilizados, insatisfeitos, querendo mudanças.

Ontem à noite bati panelas em sinal de apoio, quis mostrar meu respeito e admiração pelos turcos. Confesso que senti uma pontinha de inveja!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

EM 2011, NEYMAR JÁ ERA PARÇA DO BARÇA

Sei não. Parece que a caixa de Pandora apenas começou a ser aberta. Se for escancarada e revirada até o fundinho, muitas outras maldades provavelmente saltarão de lá, a nos atormentar e assombrar. Que me desculpem os amigos santistas que já conseguiram virar a página e seguir em frente, mas ainda não consegui digerir o fato de um desses monstrinhos maldosos ter nos anunciado que a transferência de Neymar foi efetivamente sacramentada no final de 2011, por coincidência na mesma época em que o contrato com o Santos foi renovado (o tal do "eu fico") - e apenas um mês antes do Mundial de Clubes, quando enfrentamos o Barcelona na final. 

Não estou me referindo a ilações ou a boatos que vez ou outra são plantados e reverberados midiaticamente, a contemplar interesses de grupos políticos internos, na disputa pelo comando do clube. A afirmação foi feita pelo vice-presidente do time catalão, Josep Maria Bartolomeu, em entrevista coletiva realizada logo após o desfile do craque brasileiro pelo Camp Nou: em novembro de 2011, o Barça pagou a Neymar pai a bagatela de dez milhões de euros (cerca de 28 milhões de reais), amarrando o negócio e firmando o compromisso da futura transferência, afastando assim a concorrência de outras verdadeiras fortunas que já estavam sendo oferecidas a Neymar por gigantes europeus como Real Madrid e Chelsea. 

Não me perguntem qual é a expressão jurídica que deve ser aqui usada, não tenho esse conhecimento técnico, mas a realidade é que, ali, naquele momento, um pré-acordo ficou combinado, um pré-acordo foi firmado. Eram os tais dez milhões de euros que já apareciam em balanços financeiros e prestações de contas do Barcelona, como informavam os jornais espanhóis, mas que Neymares (pai e filho) e a diretoria do Santos faziam questão de ignorar, assobiando dissimuladamente, fazendo cara de paisagem e respondendo, sempre que questionados ou provocados, com convicção, que "não havia acordo algum". Havia. Em novembro de 2011, Neymar Jr. foi alçado à condição de parça do Barça.

Agora que a informação tornou-se pública, na voz de fonte oficial e fidedigna, e reforçada no site do clube catalão, o staff de Neymar calou-se. Num primeiro momento, o silêncio reinou também nas salas da Vila Belmiro. O alvinegro, no entanto, ficou numa saia justíssima: se tivesse conhecimento do acordo fechado entre o menino gênio e o Barça em 2011, ainda que fosse um "acerto entre cavalheiros" (belo eufemismo, que os dez milhões de euros parecem desmentir), o clube brasileiro teria de imediatamente ter acionado a FIFA, para processar os espanhóis por tentativa de aliciamento do atleta, já que pré-contratos só podem ser pactuados seis meses antes do encerramento de qualquer outro compromisso. No limite, juridicamente, o negócio poderia até ser desfeito.

O Santos pressentiu o perigo, entendeu a armadilha. Acusou o golpe. À coluna Painel FC da Folha de São Paulo (5 de junho), o vice-presidente do clube, Odílio Rodrigues, disse que "nunca tivemos conhecimento deste acerto. Nunca nos foi dito nada pelo Neymar, pelo pai do Neymar ou pelo Barcelona. Não pretendemos fazer nada. Negociamos o Neymar com o Barcelona porque achamos que foi vantajoso para o Santos. E havia o desejo do Neymar em jogar no time".

Então ficamos assim: o Barça revela que o negócio já estava garantido e parcialmente pago em 2011, o staff de Neymar não nega e a diretoria do Santos afirma que, apesar de "só saber agora", pretende fazer nada e deixar por isso mesmo (a direção catalã garante que recebeu anuência do Santos). Estou, insisto, trabalhando com declarações públicas de fontes oficiais, não com suposições ou boatos. Se foi assim, posso imediatamente inferir que, desde o final de 2011, Neymar já era jogador do Barcelona, temporariamente e generosamente emprestado ao Santos, e que partiria para a Espanha, mediante pagamento do restante da bolada, no exato momento em que o clube catalão avaliasse que seria mais adequado e conveniente para seus projetos e interesses. 

Foi exatamente assim que aconteceu - enquanto a hegemonia de Messi e companhia no continente europeu foi capaz de se impor, o Barça achou por bem deixar Neymar no Santos, talvez para não criar atritos, imaginando que não deveria mexer no que estava dando certo. Esse tempo pode ter servido ainda tanto para projetar mundialmente a imagem de Neymar quanto para massagear o ego de Messi, que sabidamente não gosta de dividir espaços com outras estrelas ou sombras. Quando o caldo entornou, o fim de um ciclo se anunciou, a torcida começou a cobrar e a renovação tornou-se urgente, a plaquinha subiu, o Barcelona estalou os dedos, fez cumprir o que já estava sacramentado e levou o craque brasileiro. 

Não estou questionando o desempenho de Neymar em campo, com a camisa do Santos. Reconheço que o camisa 11 sempre honrou o manto sagrado. Mas tudo isso que acaba de vir oficialmente à tona nos leva a sugerir, por fim, que o tal do "projeto inovador e revolucionário no futebol brasileiro para manter por aqui nossos craques e mostrar definitivamente que não somos mais apenas exportadores de talentos" pode não ter passado de conversinha para inglês ver, uma farsa, jogo de cena. No palco, os atores principais estavam todos acertados, combinados. Era só questão de tempo. Na plateia, nós, torcedores tolos e bobos da corte, comemoramos e aplaudimos iludidos um enredo de teatro do absurdo. 

domingo, 2 de junho de 2013

MADAME TRESLOUCADA NO TRÂNSITO

Série "Crônicas da Classe Média Paulistana" - 

Essa aqui aconteceu em abril, postei no face. É a mais completa tradução do "classe média paulistana way of life". Foi numa terça-feira, meio da tarde, para escapar do rodízio. No caminho para a universidade, rumo a mais uma jornada noturna, dirigia tranquilamente, ouvindo Bayern x Barcelona (foi o jogo dos 4 x 0 para os alemães), quando passei pela frente de uma escola infantil. Horário de saída. Uma mãe carregada de mochilas (quase não se via o rosto da moçoila) puxava preocupada quatro crianças pelas mãos. Pedia passagem. Motoristas civilizados e educadíssimos fingiam que não era com eles e seguiam em frente. Reduzi a marcha. Parei. Fiz sinal para atravessarem. A mãe agradeceu, as crianças sorriram e agradeceram. Mas a sujeita que vinha atrás de mim - dirigindo uma daquelas máquinas modernosas, super luxuosas, último tipo, nem sei o nome da tranca - resolveu enfiar a mão na buzina. Começou a agitar os braços e a me xingar. Quem me conhece um pouquinho só sabe como adoro esse tipo de situação. Permaneci parado por mais uns trinta segundos, impávido que nem Muhammed Ali, sem tirar do ponto morto, mesmo depois da travessia da família. A senhora da super máquina se descabelava. Esqueceu a mão na buzina. Comecei a andar a dez por hora, bem devagar, carro no meio da pista - e ela desesperada, porque não conseguia passar pela esquerda. Nem pela direita. Jogava o carro, tentava. Nada. Na esquina seguinte, parei novamente. Dei passagem para uma senhora atravessar a rua. A essa altura, a madame do carangão queria pular na minha jugular. Resolveu então escapar por uma travessinha, buzinando ainda mais alto e com metade do corpo para fora da janela, a elogiar todos os meus parentes. Deve ter parado numa farmácia próxima para tomar dose cavalar de calmante. Eu fui dar aula com a alma lavada. Bem leve.