domingo, 30 de janeiro de 2011

O QUE ACONTECE NO EGITO? MELHOR NÃO PERGUNTAR PARA A VEJA.


Pode ser que eu seja o problema, muito chato, crica ou exigente. Mas as revistas semanais de informação brasileiras parecem definitivamente ter perdido pé da realidade e revelam-se cada vez mais distantes e desinteressadas de acontecimentos importantíssimos e que estão ajudando a recontar a história contemporânea. Neste final de semana, quem aguardava análises e relatos de fôlego sobre Tunísia, Egito e afins deu com os burros n'água.


Enquanto as ditaduras árabes no norte da África e no Oriente Médio são tensionadas, chacoalhadas e algumas até derrubadas por gigantescas manifestações de rua e revoltas populares, sabem qual a capa da Veja que está nas bancas? Uma instigante e imperdível "matéria" sobre a "renovação do bom-mocismo", estrelando os globais Angélica e Luciano Huck (segundo a revista, formam "um casal celebridade perfeito para um mundo politicamente correto"). Durma-se com um barulho desses. 

Outras duas não ficam muito atrás. Na Época, destaque para "O guia essencial dos imóveis"... Isto É abriu espaço principal para "O novo astro da fé", contando a trajetória de um ex-lavrador que agora comanda a igreja evangélica que mais cresce no país. Apenas Carta Capital, honrando os bons critérios jornalísticos e sintonizada com o interesse público, trouxe na capa "A convulsão árabe". 

Esse descaso ajuda a explicar ao menos em parte o nosso profundo desconhecimento a respeito do que se passa em uma região estratégica e mais do que relevante do planeta. Estamos considerando não apenas sua dimensão histórica (berço das grandes civilizações antigas), mas também interesses e disputas políticas atuais (apoio dos Estados Unidos às ditaduras como forma de combater o que norte-americanos chamam de "eixo do mal", Irã e Hamas incluídos na lista, além do intuito de estabelecer um cinturão de proteção a Israel), variáveis econômicas (comércio, petróleo e área de passagem entre ocidente e oriente) e religiosas (presenças representativas das três grandes crenças monoteístas, com óbvio destaque para o islamismo). Mais recentemente, é preciso registrar ainda a cobiça pela água, bem raro e portanto valiosíssimo na região, que deve inclusive ser protagonista, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), de boa parte dos conflitos e guerras que darão o tom da segunda metade do século XXI. 

Apenas essas razões - e, reconheço, o alcance da análise é limitado - já seriam suficientes para exigir uma cobertura midiática mais próxima, atenta e periódica da região. Mas como não é assim que acontece (o espelho do próspero colonizado lança olhares respeitosíssimos e de reverência ao norte desenvolvido, mas se recusa a focar o sul pobre, não raro abandonado e ignorado), somos invariavelmente pegos de surpresa. Estamos agora nos perguntando: o que está acontecendo no Egito? 

É honesto admitir também que não sou especialista no assunto - muito longe disso, minha postura é muito mais de um curioso jornalista, professor e cidadão do mundo - e que não tenho assim a pretensão de pautar o debate ou de formular ou construir análises originais. Nada disso. O que procuro fazer neste post é muito mais sistematizar uma espécie de guia de leituras, a partir das pesquisas que fiz, trazendo à tona a contribuição  de alguns textos e autores que, estes sim, me foram muito úteis e podem oferecer respostas bem mais precisas e profundas à questão acima colocada. 


Jovens, desemprego, corrupção e liberdades
Tomo a liberdade de recomendar que esse percurso comece com a reportagem de capa de Carta Capital (versão impressa, nas bancas, não disponível na internet). O jornalista Antonio Luiz Costa desenvolve uma espécie de viagem panorâmica mais aberta sobre o tema, analisando as diferentes manifestações de inquietações sociais nos países árabes (Tunísia, Argélia, negociatas da Autoridade Palestina com o governo de Israel) até pousar a lente de análise no Egito. Escreve ele que "afirma-se que o exército egípcio é mais poderoso que o da Tunísia e está ao lado do regime, mas mais poderosos e leais eram, supostamente, os do xá do Irã e da União Soviética. Diz-se também que há menos participação da classe média nos protestos, mas se isso for verdade, pode significar apenas que a reviravolta, se vier, será mais drástica e violenta". 

Em texto publicado no blog Viomundo, Luiz Carlos Azenha ressalta que os principais agentes mobilizadores das manifestações no Egito são os jovens desempregados, que não conseguem sequer se aproximar dos padrões de consumo que lhes são apresentados diariamente, pelas emissoras de televisão a cabo e via satélite. Para ele, "democracia nos países árabes resultaria em governos menos submissos aos Estados Unidos, mais 'antenados com as ruas' e, portanto, muito mais agressivos em defesa dos direitos e dos interesses dos palestinos".

Para além do desemprego, jovens lutam também por liberdades e contra uma ditadura corrupta e sanguinária, encastelada no poder há 30 anos (Hosni Mubarak foi "eleito" presidente pela primeira vez em 1981). O jornalista britânico Robert Fisk, profundo conhecedor da realidade do mundo árabe, destaca em artigo originalmente publicado pelo The Independent e reproduzido pelo Viomundo que "a sujeira das ruas e das favelas, os esgotos a céu aberto e a corrupção de todos os funcionários do Estado, as prisões sobrecarregadas, as eleições risíveis, o vasto, esclerosado edifício do poder, tudo isso, afinal, arrastou os egípcios para as ruas das cidades". Fisk afirma que o levante no Egito ainda não representa uma revolta islâmica, embora não descarte essa possibilidade. O jornalista, aliás, manifesta preocupação justamente com o vácuo de poder que pode surgir com uma eventual queda de Mubarak, já que a oposição organizada no Egito foi destroçada. "Onde estão as vozes de liderança?", pergunta.


A hipocrisia dos EUA e o silêncio da mídia
Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nos brinda com dois textos riquíssimos. No primeiro, mais precisamente uma entrevista publicada pelo portal Terra, o especialista lembra que por enquanto as manifestações concentram-se nas grandes cidades e que o medo de Estados Unidos e Israel é justamente que se espalhem como rastilho de pólvora por todo o país, a exemplo da Revolução  Iraniana de 1979. Para Nasser, ainda falta apoio internacional aos jovens egípcios que tomam conta das ruas. Ele critica duramente o papel hipócrita desempenhados pelos Estados Unidos, duros nas críticas dirigidas ao Irã, mas condescendentes com as violações de direitos cometidas pelo regime tirano de Mubarak. "O Egito é a grande peça do tabuleiro de xadrez do Oriente Médio, uma garantia contra os movimentos chamados radicais". 

No segundo texto, artigo publicado pela Agência Carta Maior, o professor da PUC/SP resgata indicadores demográficos e socioeconômicos do país. Atualmente, 80 milhões de pessoas vivem no Egito. Dois terços são jovens com menos de 30 anos - e 90% deles estão desempregados. 40% da população vive com menos de dois dólares por dia. E o país ocupa a trágica 101ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. "As mobilizações populares na Tunísia, no Egito, no Iêmen e em outros lugares são um alerta para o chamado mundo desenvolvido e seria um grande avanço para a democracia se esta região que permanece imersa na violência, em fraudes eleitorais e miséria crescente da população recebesse o devido apoio internacional nesse momento", reforça. 

Diferenças importantes entre os levantes na Tunísia e no Egito são apontadas pelo articulista Gilles Lapouge, no jornal O Estado de São Paulo. Segundo ele, a primeira nação pretendia-se moderna, laica e tolerante; por lá, a educação é notável, com jovens muito cultos. "Na Tunísia, são os jovens universitários que estão na origem dos tumultos. No Egito, quase não se veem estudantes. Estão lá, mas na espera". Mesmo reconhecendo afastamentos, no entanto, Lapouge admite as semelhanças entre os dois processos históricos. "Tanto no Cairo quanto na Tunísia, as ações são conduzidas por jovens e o fundamentalismo islâmico se mantém discreto". 

O jornalista Raphael Tsavkko Garcia pondera, em texto postado no blog dele, que um governo, ainda que uma ditadura, só consegue mesmo se sustentar enquanto o povo o considera legítimo. "Somente a legitimidade popular garante a sobrevivência de um regime. Chega um momento em que a pressão da população, a desobediência civil e o descontrole causado pelo não funcionamento das estruturas mais básicas do Estado acabam por destruir as bases desse mesmo Estado". 

Com duras críticas ao silêncio da nossa mídia, que acaba por transformar o Egito quase em um ilustre desconhecido para todos nós, o também jornalista e blogueiro Eduardo Guimarães avalia, em seu Blog da Cidadania, que "os choques entre população egípcia e as forças de repressão da ditadura estão sendo de um grande didatismo para a humanidade, ao deixarem claras as hipocrisias americana e midiática, que mantêm regimes contrários aos EUA sob fogo cerrado, enquanto silenciam sobre os regimes simpáticos à potência decadente do Norte, por mais criminosos que sejam". Pelas razões acima apontadas por Nasser, a mão que bate no Irã é a mesma que acaricia o Egito...


Redes sociais
Termino o post sugerindo algumas reflexões e saudáveis provocações sobre o papel que as redes sociais estão desempenhando nas revoltas que se alastram pelo mundo árabe. Não são poucos os que afirmam que "as revoluções estão sendo tuitadas". (aliás, sobre o tema, sugiro a leitura de artigo escrito por Malcolm Gladweel e recentemente publicado pelo caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo). 

Reconheço a enorme importância e o caráter libertário dos blogues, do twitter, do facebook e de outras tantas ferramentas e a contribuição de todas para o desenrolar dos acontecimentos. Mas penso que é preciso relativizar o protagonismo a elas atribuído. Há uma certa sensação de "salvadores da pátria" no ar, quando, penso, a rede aparece fundamentalmente em dois momentos que, sim, são cruciais e estão diretamente conectados: comunicação (saber o que está acontecendo) e mobilização (capacidade de juntar as pessoas). 

Mas, se o povo não estivesse nas ruas, o que afinal poderia ser tuitado? Será que se os manifestantes apenas permanecessem acomodados diante das telas de seus computadores e celulares, disparando fotos e mensagens, o governo da Tunísia teria de fato caído? Mubarak, todo-poderoso, estaria seriamente ameaçado? 

Revolução ainda se faz na rua. Foi assim na França de 1789, na Rússia de 1917. Está sendo assim na Tunísia e no Egito de 2011. Ditadores têm mesmo é medo do povo gritando, enfrentando os tanques e as forças de repressão e chacoalhando os portões e as grades dos palácios. Tiranos tremem quando o povo assume sua condição de protagonista da História, ocupando espaços públicos. É nesse momento - quando o "extraordinário se torna cotidiano", como bem definiu Ernesto Che Guevara - que as revoluções acontecem. E, insisto, o extraordinário se concretiza nas ruas. 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

DEMOCRATIZAR OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO. SEM TERGIVERSAR.


Peço licença aos leitores para retornar a um tema que considero de fundamental importância para o momento histórico que estamos vivendo - a necessidade urgente de democratização dos meios de comunicação no Brasil. 

Em post aqui publicado, no dia 12 de janeiro, reconheci ter ficado entusiasmado com a nomeação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações; no mesmo texto, no entanto, também escrevi que "o sinal amarelo acendeu quando li a entrevista concedida pelo ministro à Folha de São Paulo, no dia 7 de janeiro. Exageradamente conciliador e até mesmo recuando em relação a declarações anteriores, ele sugeriu "colocar para o debate público" o projeto de regulação dos meios formatado pelo ex-ministro Franklin Martins (uma resposta genérica, evasiva, sem se comprometer com o efetivo apoio à proposta)". 

Pois é. Lamentavelmente, devo admitir que o tom de amarelo tornou-se um pouco mais acentuado nos últimos dias, em função de novas declarações do ministro publicadas pela mídia grande. Tomei um susto ontem, quinta-feira, quando peguei O Estado de São Paulo e li a manchete principal: "Governo vai propor concessão única para todas as mídias". 

Pensei com meus botões: ora, quer dizer então que abandonaremos o fundamental debate sobre a proibição da propriedade cruzada dos meios? Trata-se de medida importantíssima para combater monopólios e ajudar a evitar a imposição de verdades absolutas, desmontando o consenso e buscando pluralidade de narrativas. De forma bem simplista: não é possível aceitar que, em um determinado espaço geográfico, quem tem tem jornal possa ter também revistas, emissoras de TV e de rádio, canais a cabo... 

Um exemplo usado pelo professor Venício de Lima ajuda a detalhar o que estamos dizendo: "atuando apenas em dois mercados regionais, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o Grupo RBS reúne seis jornais, 24 emissoras de rádio AM e FM, 21 canais de TV, um portal de internet, uma empresa de marketing e um projeto na área rural, além de ser sócio da operadora de TV a cabo NET". O que esperar de um cenário como esse a não ser o autoritário samba de uma nota só midiático? Onde estão as alternativas de comunicação e de informação, os contrapontos, a diversidade, o oxigênio renovador e não viciado? 

Em outro artigo, o mesmo Venício mostra os recuos do governo de Barack Obama em relação à proibição de propriedade cruzada nos EUA - e os efeitos nefastos dessa leniência para a democracia. Ao comentar a fusão da Comcast - principal operadora de TV a cabo e também de internet dos EUA - com a gigante NBC, o professor reforça que "o negócio de 30 bilhões de dólares, isto é, a compra de 51% da NBCU pela Comcast, faz surgir o maior grupo de comunicação dos Estados Unidos. A Comcast passa a controlar também um enorme leque de programas de televisão e um arquivo com mais de quatro mil filmes. A nova empresa terá 16,7 milhões de assinantes de banda larga, 23 milhões de usuários de TV por assinatura, estações de transmissão e dezenas de canais que incluem a rede de televisão NBC, USA Network, Bravo e MSNBC, além da participação de 32% no serviço de vídeos online Hulu". 

Continua Venício: "o que isso representa para o mercado de comunicações nos EUA? Para Josh Silver, a fusão autorizada pela FCC possibilita à Comcast "fundir" a internet com a TV a cabo, vale dizer, desfrutar de enorme vantagem sobre competidores e liberdade plena para determinar os preços a serem cobrados por seus programas e serviços. Pior de tudo, a fusão diminui ainda mais o que sobra de vozes independentes e da diversidade na televisão americana". 


Debate superado. Será mesmo?
Como se vê, lá, como cá, os perigos são imensos. E qual a "justificativa" oferecida pelo ministro Paulo Bernardo para abandonar a tese da proibição à indesejada propriedade cruzada? O Estadão diz que "o governo está convencido de que o desenvolvimento tecnológico tornou a discussão obsoleta. O conceito de convergência das mídias, que consolidou o tráfego simultâneo de dados e noticiários em todas as plataformas - da impressa à digital -, pôs na mesa do ministro um projeto de concessão única". 

Longe de mim, ministro, negar o potencial rebelde, transformador, libertário e questionador da internet e das redes sociais. Mas a web é também universo marcado por contradições, abrindo brechas para a atuação dos conglomerados. Além disso, será que, em termos de alcance, difusão e poder, podemos colocar a rede no mesmo patamar das emissoras abertas de TV, por exemplo, que invadem diariamente 100% dos lares nacionais, ministro? Outra reflexão: quando as tradicionais famílias proprietárias dos meios no Brasil consagram seus portais (UOL, Globo.com...), não estão reforçando a concentração e ampliando as perspectivas de domínio oferecidas justamente pela possibilidade de cruzar as propriedades? 

Como analisa o professor Laurindo Leal Filho, no Blog do Miro, "os limites à propriedade cruzada, portanto, devem ter como referência o tamanho do público atingido pelas empresas de comunicações, sejam ouvintes, leitores, telespectadores e até mesmo internautas. Junto com restrições mais rigorosas à propriedade de diferentes meios nas mesmas áreas geográficas".

Pois bem, e tentando deixar de lado ingenuidades: sim, o Estadão está movendo peças no tabuleiro, montando o jogo a partir de seus interesses, jogando a isca, tentando definir a agenda e diminuir a margem de manobra e de interlocução/ação do governo. Até aí, nenhuma novidade. O que assusta e preocupa são as respostas (ou a falta delas, mais uma vez) que vêm do governo. 


Evasivas ministeriais
Ontem, no twitter, Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, perguntou ao ministro Paulo Bernardo se procediam as informações publicadas pelo Estadão. Escreveu o ministro, também no twitter: "basta ler a matéria para concluir que não decidimos nada. Quando houver decisão, enviaremos ao Congresso". 

Entendi... melhor dizendo, não entendi coisa alguma... Vamos lá: espremendo bem, qual o significado efetivo dessa resposta? O "não decidimos ainda" quer dizer "fiquem sossegados, nem estamos pensando nisso, o jornal não apurou direito, publicou uma grande bobagem, a proibição da propriedade cruzada é prioridade para o governo?". Ou, ao contrário, significa que "embora uma decisão ainda não tenha sido tomada, manter a propriedade cruzada é uma tese que está sendo mesmo considerada pelo governo?". O fato triste e a lamentar é que, se não há resposta precisa e cabal, se o que fica explicitado é a "saída estratégica pela direita" do leão da montanha, podemos elocubrar à vontade - e no limite entender que  o governo não está de fato convencido da relevância e da necessidade da proibição.

Bem lembra Eduardo Guimarães que "a simples hipótese de que o fim do projeto de proibição da propriedade cruzada esteja sendo cogitado é assustador". 

Foi então que nuvens cinzentas avançaram firmes e assustadoras sobre o sinal amarelo,  quando abri o Estadão de hoje, sexta-feira, e li que "o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, confirmou que há estudos do governo para a criação de licença única para as diversas mídias", embora tenha reforçado que "a regulamentação ainda será objeto de consulta pública e vai ser debatida em ritmo seguro". Arrepiei. 

E o que mais me chamou a atenção no texto foi a insistência de figuras importantes do atual governo (Walter Pinheiro, do PT/BA, por exemplo), o tempo todo a bater na tecla e a reforçar a tese de que a regulamentação deverá acontecer a partir da "realidade da convergência digital". Negaram categoricamente a possibilidade de manter tudo como está, em relação à propriedade cruzada? Em momento algum.


É preciso enfrentar os empresários
Ao ler a Folha de São Paulo de hoje, arrepios se transformaram em pontadas no estômago. Texto publicado no caderno Poder, página A6, diz que "não está nos planos de Dilma enviar o projeto de regulação da mídia ao Congresso sem consenso com os empresários do setor. Defende um debate técnico sobre o tema, sem contaminações ideológicas como no governo passado".

Mas que pretensa discussão fria e objetiva é essa, Presidenta? Como tratar o tema apenas de forma "técnica", se estamos falando de políticas públicas e cidadãs fundamentais para a garantia de consolidação da democracia? Ah, sim, novamente: pode ser jogo de cena do jornal, balão de ensaio da Folha, movida por seus interesses? Certamente. Mas, infelizmente, até agora nenhum representante do governo veio a público para desmentir ou contestar essa informação. Diz o dito popular que "quem cala, consente". Se não há o contraditório...

A essa altura, o leitor irá dizer que apenas a proibição da propriedade cruzada não é suficiente para garantir democracia. Concordo. Mas trata-se de medida fundamental para fazer o país avançar nesse sentido. O governo Dilma precisa deixar de tergiversar sobre a democratização da comunicação, precisa chamar a responsabilidade, tomar as rédeas do processo e pautar o debate, com clareza, sem evasivas, escapismos, entrelinhas ou mensagens subliminares. Esse é o momento. 

Nas democracias, governar significa também debater, negociar, ouvir, respeitar divergências. Mas sem abandonar princípios que servem justamente para reforçar a vida democrática. E sem capitular diante das pressões e das ameaças de grupos privados poderosos, pouquíssimo preocupados com o bem-estar comum, e interessadíssimos na maximização de seus lucros. 

Se o Brasil deseja de fato consolidar sua democracia, em sentido amplo, não pode adiar a regulamentação da mídia e a aprovação de uma Lei de Meios. Em entrevista reproduzida pelo blog Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, o jurista Fabio Konder Comparato diz esperar que "o governo da presidenta Dilma Rousseff não se acovarde, nem diante do oligopólio empresarial de comunicação de massa, nem perante os chefes militares, que continuam a defender abertamente os assassinos, torturadores e estupradores de oponentes políticos, durante o regime castrense de 1964 a 1985".

Esta também continua sendo a sincera expectativa deste blogueiro. Apesar do sinal amarelo. A conferir. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

UM CASO EXTRAORDINÁRIO DE CURA DA AIDS

Nas leituras preparatórias para as aulas de "Jornalismo Científico", que recomeçam em breve, acabei retomando reportagem de capa publicada pela revista Época sobre o caso de Timothy Brown, norte-americano que se curou da aids. Para incentivar a discussão por aqui, recuperei, juntei e ampliei mensagens que postei no twitter, em dezembro passado.

Imagino que, em função dos enigmas e dos desafios que a aids coloca para as comunidades científicas brasileira e internacional (não foi possível ainda por exemplo chegar a uma vacina) e do alcance da epidemia mundial (atualmente, são cerca de 33 milhões de pessoas infectadas pelo vírus em todo mundo, segundo dados da Unaids), o "caso Timothy" deverá provocar bons debates e ajudar a levantar muitas dúvidas em sala de aula.

Antes de mais nada, é preciso dizer que a cura do norte-americano representa uma conquista especialíssima, um episódio isolado, que está longe, muito longe de poder significar a cura para os milhões de infectados pelo HIV. Durante o tratamento, e por conta do acompanhamento médico, Tim, além da aids, descobriu que tinha leucemia. Precisava passar por transplante de medula. Aí é que entra a exceção da exceção: cientistas conseguiram encontrar um doador de medula "dois em um", que era não só geneticamente compatível (o que já não é tarefa simples), mas que também apresentava uma mutação genética raríssima nas células de defesa - a ausência de moléculas chamadas de CCR5.

Essa mutação impede que o HIV ataque, "grude", invada e destrua as células de defesa. Ou seja, com a mutação, e sem as moléculas CCR5, desliga-se a chave que garante ao vírus devastar o sistema imunológico. Assim, a pessoa pode conviver com o HIV, sem jamais desenvolver a doença. Foi isso mesmo que escrevi: a pessoa pode ter o vírus, mas não ter aids. É uma situação de estranha harmonia, que a ciência sabe que é possível, mas que ainda não consegue explicar. E por que pouquíssimas pessoas têm células com resistência? Também não há respostas. O fato é que, graças ao transplante, Tim conseguiu "importar" essa vantagem comparativa.

Por isso é que as repórteres Cristiane Segatto e Marcela Buscato, com muita responsabilidade e cuidado, escrevem na matéria que "o caso de Tim é extraordinário em dois sentidos da palavra: é notável e raro. Raríssimo. Sua recuperação se deve a uma conjunção improvável de condições favoráveis. É algo que não pode ser reproduzido em larga escala". Portanto, alertam as autoras do texto, "o caso de Tim não representa a esperada cura da aids". 

As ressalvas e ponderações, muito bem colocadas, não tiram no entanto a importância do feito científico. Os estudos e investigações que virão sobre a recuperação de Tim devem sugerir novas estratégias de combate à doença. Tais investigações poderão "revitalizar a pesquisa com objetivo ambicioso de curar a doença", como também e tão bem destacam as repórteres.

Como se vê, cada avanço consagrado pelas pesquisas levanta inúmeras outras dúvidas e questões, numa aventura de curiosidades que ajuda a compor uma sucessão de verdades provisórias. Eis a beleza da narrativa científica.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

COMISSÃO DA VERDADE - PARA QUE SERVE?

(*)  João Batista de Abreu, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF). Artigo originalmente publicado pelo "Observatório da Imprensa", edição de 18 de janeiro de 2011. Reproduzido pelo blog com autorização. 



Professor, poeta, cronista e um dos maiores conhecedores da obra de Carlos Drummond de Andrade, o mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tropeçou em pedras no meio do caminho ao condenar a criação da Comissão da Verdade, para investigar os crimes praticados em nome do Estado brasileiro durante o regime militar.

Independentemente da posição ideológica de cada cidadão brasileiro, as famílias têm o direito de localizar seus entes desaparecidos, assim como o Estado democrático tem o dever de colaborar para que seja recuperada a veracidade dos episódios da trama política, mesmo os mais escabrosos. Do contrário deixaremos insepulto um cadáver que mancha a tradição do país e, particularmente, das Forças Armadas brasileiras e de membros do Ministério Público, que fingiam ignorar as denúncias apresentadas pelos réus e advogados de defesa durante audiências na Justiça militar.

O livro Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira, em que Frei Betto narra os suplícios do frei dominicano Fernando de Brito, ex-preso político, traz um depoimento importante sobre a relação entre os torturadores e o Estado:

"A tortura no regime militar brasileiro é sistêmica; suas diretrizes foram definidas pelo Conselho de Segurança Nacional. Portanto não deriva de abusos. Os agentes do DOI-CODI usam codinomes, trajes civis e são impedidos de corte militar dos cabelos. Atuam em grupos de três a cinco, e seus endereços são preservados".


História preservada

Quase todos os países da América e da Europa Oriental que viveram sob ditaduras durante a Guerra Fria instauraram comissões para investigar os crimes de Estado. A vizinha Argentina – onde a repressão foi muito mais violenta do que no Brasil – tornou públicos documentos secretos e prendeu oficiais e ex-presidentes envolvidos em assassinatos e desaparecimentos. Uruguai, Chile e Peru seguiram o mesmo caminho e recuperaram a história dos tempos do arbítrio. Somente o Brasil insiste em varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Se é verdade que um grupo de sete pessoas não tem poder bastante para levantar os nomes dos torturadores, que cometeram as maiores atrocidades em dependências militares como o DOI-CODI, em São Paulo, e o quartel da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, então poderíamos questionar qualquer decisão da Justiça criminal, porque sete é o número de jurados que decidem a sorte dos acusados de crime de morte, nos julgamentos em primeira instância.

Por que não tornar público os nomes de empresários que financiaram a Operação – paramilitar – Bandeirantes (Oban), criada na ante-sala dos gabinetes oficiais? Por que não divulgar os nomes de donos de jornais que emprestavam veículos para operações antiguerrilha? A quem interessa manter os jovens brasileiros à margem dessa página obscura de nossa História?

O historiador francês Marc Bloch, herói da Resistência, cunhou um pensamento peculiar sobre a importância do conhecimento. Preso pela Gestapo em Lyon, à espera do fuzilamento, escreve uma carta ao filho de seis anos sobre o valor de se estudar História. Primeiro, ele questiona a idéia de que um conhecimento profundo evitaria a repetição dos erros do passado. Se assim fosse, não haveria nazismo. Para quem pensa que a História serve para combater as injustiças sociais, Bloch argumenta que, se assim fosse, não estaria ele prestes a ser fuzilado. Para que serve a História? Poderíamos dizer que serve para mostrar que em tempos de arbítrio, seja qual for o matiz da ditadura, os crimes de Estado não atingem apenas aqueles que se opõem ao regime, mas a toda uma geração que viveu sob o signo do medo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

POR QUE DETONAR O ENEM?

Há cheiro de fritura ministerial no ar. A grande mídia limpinha, sem esconder sorrisos marotos de felicidade, anda sorrateiramente anunciando que, por conta dos problemas recentes ocorridos com o Enem (o Exame Nacional de Ensino Médio), mais especificamente com o Sistema de Seleção Unificado, o  Sisu (situações como pontuação zerada de candidatos, dificuldades para acessar o sistema, exposição indevida de informações sobre notas de estudantes), o ministro da Educação, Fernando Haddad, estaria sendo observado de muito perto pela presidenta Dilma Rousseff. Tradução (se é que é necessária): Haddad estaria na marca do pênalti, com os dias contados, podendo ser muito em breve demitido do governo.

A saída de Haddad representaria uma vitória política estratégica importante para os jornalões e companhia que, como já procurei discutir em outro post do blog, fazem o papel de oposição no Brasil. O atual titular da pasta da Educação, afinal, foi bancado pelo ex-presidente Lula. Investir na queda do ministro significaria matar dois coelhos com uma cajadada só: atingir duramente uma das áreas prioritárias do governo Dilma, que vem, desde antes da posse, recebendo atenção especial da presidenta, além de “reforçar” (sempre segundo a versão midiática que se pretende construir) a incompetência de Lula na escolha de seus auxiliares próximos e a “herança maldita” que teria deixado para a sucessora. Eis o efeito dominó midiático: atingir o Enem para derrubar Haddad, chamuscando Dilma e queimando Lula.

Não será de se estranhar também se tal queda estiver sendo sutilmente estimulada, nas catacumbas do poder, pelo “fogo amigo”, pelas disputas intestinas do próprio PT. Haddad, afinal, é invariavelmente lembrado e citado como possível candidato do partido à eleição municipal de 2012, na capital paulista. Seria uma forma de o PT, com sangue novo e renovado, tentar recuperar a administração da maior cidade do país, que já governou por duas vezes (com Luiza Erundina, entre 1989 e 1992, e com Marta Suplicy, entre 2001 e 2004).

Não menos importante, é preciso dizer com todas as letras que poderosos grupos privados têm agido sistematicamente, muitas vezes na surdina, com intuito de não deixar muitas marcas ou pistas, para minar o Enem, que mexeu com gente graúda. Por isso mesmo, assumiu a condição de uma importante vitrine (e vidraça) do governo federal. Penso ter sido positivo que o exame tenha se transformado em processo seletivo para as universidades públicas federais. Até então, a rede atuava com vestibulares dispersos e fragmentados, desconectados.

Foi avanço também a prova passar a valorizar conteúdos críticos, reflexivos e interdisciplinares, o raciocínio, e não mais decorebas. Pois é justamente aí que o bicho pega novamente e que entra o desconforto dos cursinhos pré-vestibulares: musiquinhas fáceis e apostilas têm agora pouca serventia. O mesmo vale para o ensino médio privado, que não raro, e salvo honrosas exceções (generalizações são sempre injustas), preocupa-se apenas em “preparar” (melhor seria dizer adestrar) os alunos para responder questões dos vestibulares, em uma proposta pedagógica muito distante da formação crítica e cidadã que deveria ser garantida aos jovens. No ensino médio, a imensa maioria das escolas formata projetos, grades e conteúdos, trabalha com conteúdos apostilados e pasteurizados, para garantir sucesso nos exames - e depois as instituições fazem marketing dos feitos, quando alcançados.

Como reforça o sociólogo Rudá Ricci, em texto publicado pela Agência Carta Maior em novembro do ano passado, o novo cenário incomodou. “Existe uma movimentação para politizar o tema. Vamos ter o avanço de uma oposição organizada, que junta as forças políticas que perderam a eleição nacional com escolas particulares e com cursinhos que têm muito interesse na manutenção do sistema de vestibular”.

O neurocientista Miguel Nicolelis, que conhece a fundo o Standart Admissions Test (SAT), exame norte-americano com o qual o Enem guarda muitas semelhanças, disse em entrevista publicada pelo blog Viomundo, também em novembro passado, que “o vestibular transformava o colegial numa câmara de tortura. Uma pressão insuportável. Um  inferno tanto para os meninos e meninas quanto para as famílias. Além disso,  um sistema humilhante, porque as pessoas que não podiam frequentar um colégio privado de alto nível sofriam com o complexo de não poder competir em pé de igualdade. Por isso os cursinhos floresceram e fizeram a riqueza de tanta gente, que agora está metendo o pau no Enem. Evidentemente  vários interesses estão sendo contrariados devido ao êxito do Enem.”

Tudo isso, no entanto, não isenta o governo federal de erros (e alguns foram graves mesmo) no gerenciamento do processo. Em 2009, as provas foram "vazadas", ainda na gráfica; no ano passado, foi uma grande bobagem impor aos estudantes condições estapafúrdias (não usar lápis!), no momento da realização do exame. Ajudou a criar animosidades. Questionários repetidos e cabeçalhos trocados não são erros aceitáveis em uma proposta pedagógica dessa magnitude e com essa importância. Da mesma forma, não cabem vazamentos de informações sigilosas dos estudantes, dificuldades de acesso, sistema lento, notas erradas, transtornos recentemente enfrentados pelos alunos que participaram do exame.

É preciso aceitar que o Enem cresceu – é muito difícil uma prova para quase cinco milhões de pessoas não comportar algum tipo de desvio. Por isso, torna-se urgente quem sabe pensar em avaliações periódicas de menor alcance, distribuídas ao longo do ano, em datas diferentes. Também seria razoável aplicar o exame de forma regionalizada e descentralizada. O procedimento ainda abriria espaço para avaliações mais sintonizadas com as especificidades regionais, sem perder noção de conjunto. O Enem, tal como está formatado, representa uma conquista, um grande avanço para a educação brasileira.

Ciente dessa conjuntura, Nicolelis destaca, na mesma entrevista já citada, que “o Brasil está tentando iniciar esse processo. Quando você inicia um processo dessa magnitude, com milhões fazendo exame,  é normal ter problemas operacionais de percurso. Isso faz parte do processo”. E o neurocientista candidatíssimo ao Nobel completa: “estamos caminhando para o Enem ser a moeda de troca da inclusão educacional. As crianças vão aprender que não é porque elas fazem cursinho famoso da Avenida Paulista que elas vão ter mais chance de entrar na universidade. Elas vão entrar na universidade pelo que elas acumularam de conhecimento ao longo da vida acadêmica delas. Elas vão poder demonstrar esse conhecimento sem estresse, sem medo, sem complexo de inferioridade. De uma maneira democrática. E, num futuro próximo, tanto as crianças de escolas privadas quanto as  de escolas públicas vão começar a entrar nesse jogo  em pé de igualdade”.

Sim, o Enem precisa ser debatido publicamente, criticado, melhorado, aperfeiçoado. Mas jamais abandonado, detonado, desqualificado  ou desconstruído. “A sucessão de problemas relacionados à aplicação do Enem tem gerado reações acaloradas. É compreensível que seja assim, especialmente entre alunos que se veem prejudicados com falhas tanto na organização quanto no conteúdo de provas. São erros que obviamente exigem correção. No entanto, o calor dos protestos não deveria ofuscar a lógica por trás do novo Enem, uma iniciativa de mérito, que pode trazer numerosos benefícios, uma vez superados problemas iniciais, muito deles relacionados a questões de logística”, escreveu na Folha de São Paulo Jorge Werthein, doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA). Para ele, "a lógica do Enem faz sentido, pois se fundamenta em uma nova visão educacional, mais compatível com o século XXI". 

Feitas as contas, é preciso muita atenção e cautela nesse debate, para não aceitar a sedução de cantos de sereias, e disposição firme para defender o Enem. Afinal, como se viu, o exame incomoda gente graúda – e essas forças não são tão ocultas assim.  

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

OS DISCURSOS DE OBAMA

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, faz na próxima terça-feira, dia 25, o tradicional e importante Pronunciamento do Estado da União, discurso em que, diante do Congresso Nacional, o chefe do Executivo anuncia as diretrizes e prioridades políticas e econômicas para o ano que se inicia.

A expectativa é que Obama trate de temas como a geração de empregos, medidas para enfrentar a crise econômica que ainda atormenta o país, cortes de gastos públicos e de impostos e também da reforma do sistema de saúde, que foi revogada pela maioria republicana na Câmara dos Deputados, em 19 de janeiro, mas que deverá ser mantida pela maioria democrata no Senado.

É provável ainda que Obama aproveite a oportunidade para cobrar civilidade e tolerância no debate político, condenando radicalismos e posições extremistas à direita, a exemplo do que fez no discurso proferido diante de 15 mil pessoas no ginásio da Universidade do Arizona, no dia 12, quando prestou homenagem às vítimas do atentado de Tucson (seis mortos e 13 feridos, entre eles a deputada democrata Gabrielle Giffords).

Na ocasião, em claro recado enviado à oposição de ultra-direita liderada pela ex-candidata republicana a vice-presidente Sarah Palin e pelo Movimento Tea Party, Obama afirmou que "no momento em que nosso discurso se torna fortemente polarizado, no momento em que estamos excessivamente dispostos a colocar a culpa por tudo que nos aflige naqueles que não pensam como nós, é importante fazer uma pausa e garantir que conversemos de uma maneira que cure, e não de uma maneira que fira".

O Pronunciamento do Estado da União acontecerá ainda em um momento em que, por uma série de razões (acordo de desarmamento nuclear com a Rússia, sinais de ligeira recuperação da economia, diálogo com a China e a rápida e convincente resposta no episódio de Tucson, para citar algumas), Obama começa a respirar e a recuperar popularidade. De acordo com o Instituto Gallup, a aprovação do presidente chegou a 53% agora em janeiro (era de 47% em outubro passado; 78% logo após a posse).

É um alento para uma administração que, em meio a erros consideráveis e que merecem ser apontados, lamentados e duramente criticados (ampliação das tropas no Afeganistão e acordos com republicanos para aliviar os mais ricos de impostos; certa timidez no processo de paz entre palestinos e israelenses; a retomada de processos contra presos em Guantánamo), foi capaz na primeira metade do mandato de garantir a volta dos Estados Unidos aos fóruns internacionais de diálogo e de negociação, retomando a diplomacia e abandonando a tese das “guerras preventivas”. Além disso, tirou de zonas nebulosas e trouxe à tona debates fundamentais, que têm mobilizado parcelas representativas da sociedade e justamente por isso suscitado a ira dos conservadores, como o combate ao aquecimento global, a permissão para pesquisas com células-tronco embrionárias, o direito ao aborto, a garantia dos direitos dos imigrantes e dos homossexuais e, talvez vitória mais emblemática e concreta, a aprovação do sistema público e universal de saúde, antiga demanda do Partido Democrata.

É fato que Obama patinou na comunicação com a sociedade (justo ele, que fez da internet, das entrevistas e dos discursos recursos decisivos na conquista da Presidência); também demorou a compreender o peso que o bom desempenho da economia nacional tem na agenda norte-americana e na avaliação do governo.

Mas não é possível minimizar nessa análise a oposição implacável – truculenta e preconceituosa – feita por setores mais conservadores do Partido Republicano (Sarah Palin à frente), pelo Tea Party, pelos fundamentalistas religiosos (defensores dos valores “puros” da pátria), pelos pregadores da supremacia racial branca. E não é fácil enfrentar uma adversária aguerrida,  nociva e poderosa como a rede de TV FOX, principal responsável por amplificar e publicizar, em nível nacional, as teses da extrema-direita norte-americana, espalhando por consequência a cultura de ódio que toma conta dos Estados Unidos, como revelam artigo do professor Venício de Lima publicado no último dia 18, no Observatório da Imprensa, e texto do jornalista Antonio Luiz Costa, na revista Carta Capital.

O Pronunciamento do Estado da União poderá ser mais um passo decisivo para Obama nessa trajetória de reafirmação de seu programa de governo, de recuperação de apoio popular e restabelecimento de canais de interlocução com a sociedade. Não custa lembrar que o presidente norte-americano é reconhecidamente um mestre na arte dos discursos, que em geral procuram equilibrar razão (bons argumentos) com emoção (convites à ação).

O momento é propício portanto para lembrar um outro discurso de Obama – o da vitória, feito em 05 de novembro de 2008, no Grand Park de Chicago, quando o primeiro presidente negro da história dos EUA falou para mais de 200 mil entusiasmados eleitores, depois de ter recebido nas urnas mais de 69 milhões de votos (53% do total).

O texto, claro, é longo, bem longo. Mas, paciência, pois vale a pena ser lido. É um documento histórico, eternizado por um presidente que, na modesta opinião deste blogueiro, com avanços e recuos, acertos e erros, e mesmo longe de representar o governo de nossos sonhos, está ajudando a mudar um pouco do semblante carrancudo da História que vinha sendo escrita.
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"Boa noite, Chicago! Se houver nesta sala uma única pessoa que ainda duvide que a América seja um lugar onde tudo é possível, que ainda se pergunta todos os dias se o sonho de nossos fundadores continua vivo, que ainda questiona a força de nossa democracia, esta noite é sua resposta.
É a resposta dada pelas filas que se estenderam ao redor de escolas e igrejas em um número como esta nação jamais viu, pelas pessoas que esperaram três ou quatro horas, muitas delas pela primeira vez em suas vidas, porque achavam que desta vez tinha que ser diferente e que suas vozes poderiam fazer esta diferença.
É a resposta pronunciada por jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, indígenas, homossexuais, heterossexuais, incapacitados ou não-incapacitados. Americanos que lembraram ao mundo inteiro a mensagem de que nunca fomos simplesmente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de Estados vermelhos e Estados azuis.
Somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.
É a resposta que conduziu aqueles que durante tanto tempo foram aconselhados por tantos a serem céticos, temerosos e duvidosos sobre o que podemos conseguir para colocar as mãos no arco da História e apontá-lo mais uma vez em direção à esperança de um dia melhor.
Demorou um tempo para chegar, mas esta noite, pelo que fizemos nesta data, nestas eleições, neste momento decisivo, a mudança chegou à América.
Esta noite, recebi um telefonema extraordinariamente cortês do senador McCain. O senador McCain lutou longa e duramente nesta campanha. E lutou ainda mais longa e duramente pelo país que ama. Aguentou sacrifícios pelos EUA que sequer podemos imaginar. Todos nos beneficiamos do serviço prestado por este líder valente e abnegado. Parabenizo a ele e à governadora Palin por tudo o que conseguiram e desejo colaborar com eles para renovar a promessa desta nação durante os próximos meses.
Quero agradecer a meu parceiro nesta viagem, um homem que fez campanha com o coração e que foi o porta-voz de homens e mulheres com os quais cresceu nas ruas de Scranton e com os quais viajava de trem de volta para sua casa em Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.
E não estaria aqui esta noite sem o apoio incansável de minha melhor amiga durante os últimos 16 anos, a rocha de nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama da nação, Michelle Obama. Sasha e Malia amo vocês duas mais do que podem imaginar. E vocês ganharam o novo cachorrinho que está indo conosco para a Casa Branca. Apesar de não estar mais conosco, sei que minha avó está nos vendo, junto com a família que fez de mim o que sou. Sinto falta deles esta noite. Sei que minha dívida com eles é incalculável. À minha irmã Maya, minha irmã Auma, meus outros irmãos e irmãs, muitíssimo obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a todos vocês. E a meu diretor de campanha, David Plouffe, o herói não reconhecido desta campanha, que construiu a melhor campanha política, creio eu, da história dos Estados Unidos da América. A meu estrategista chefe, David Axelrod, que foi um parceiro meu a cada passo do caminho. À melhor equipe de campanha formada na história da política.
Vocês tornaram isto realidade e estou eternamente grato pelo que sacrificaram para conseguir. Mas, sobretudo, não esquecerei a quem realmente pertence esta vitória. Ela pertence a vocês. Ela pertence a vocês.
Nunca pareci o candidato com mais chances. Não começamos com muito dinheiro nem com muitos apoios. Nossa campanha não foi idealizada nos corredores de Washington. Começou nos quintais de Des Moines e nas salas de Concord e nas varandas de Charleston.
Foi construída pelos trabalhadores e trabalhadoras que recorreram às parcas economias que tinham para doar cinco, dez ou vinte dólares à causa.
Ganhou força dos jovens que negaram o mito da apatia de sua geração, que deixaram para trás suas casas e seus familiares por empregos que lhes ofereciam pouco dinheiro e menos sono.
Ganhou força das pessoas não tão jovens que enfrentaram o frio gelado e o ardente calor para bater nas portas de desconhecidos, e dos milhões de americanos que se ofereceram como voluntários e organizaram e demonstraram que, mais de dois séculos depois, um governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.
Esta é a vitória de vocês. Além disso, sei que não fizeram isto só para vencerem as eleições. Sei que não fizeram por mim.
Fizeram porque entenderam a magnitude da tarefa que há pela frente. Enquanto comemoramos esta noite, sabemos que os desafios que nos trará o dia de amanhã são os maiores de nossas vidas - duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira em um século.
Enquanto estamos aqui esta noite, sabemos que há americanos valentes que acordam nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para dar a vida por nós.
Há mães e pais que passarão noites em claro depois que as crianças dormirem e se perguntarão como pagarão a hipoteca ou as faturas médicas ou como economizarão o suficiente para a educação universitária de seus filhos.
Há novas fontes de energia para serem aproveitadas, novos postos de trabalho para serem criados, novas escolas para serem construídas e ameaças para serem enfrentadas, alianças para serem reparadas.
O caminho pela frente será longo. A subida será íngreme. Pode ser que não consigamos em um ano nem em um mandato. No entanto, América, nunca estive tão esperançoso como estou esta noite de que chegaremos.
Prometo a vocês que nós, como povo, conseguiremos. Haverá percalços e passos em falso. Muitos não estarão de acordo com cada decisão ou política minha quando assumir a presidência. E sabemos que o Governo não pode resolver todos os problemas.
Mas sempre serei sincero com vocês sobre os desafios que nos afrontam. Ouvirei a vocês, principalmente quando discordarmos. E, sobretudo, pedirei a vocês que participem do trabalho de reconstruir esta nação, da única forma como foi feita nos Estados Unidos durante 221 anos, bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada sobre mão calejada.
O que começou há 21 meses em pleno inverno não pode acabar nesta noite de outono.
Esta vitória em si não é a mudança que buscamos. É só a oportunidade para que façamos esta mudança. E isto não pode acontecer se voltarmos a como era antes. Não pode acontecer sem vocês, sem um novo espírito de sacrifício.
Portanto façamos um pedido a um novo espírito do patriotismo, de responsabilidade, em que cada um se ajuda e trabalha mais e se preocupa não só com si próprio, mas um com o outro.
Lembremos que, se esta crise financeira nos ensinou algo, é que não pode haver uma Wall Street próspera enquanto a Main Street sofre.
Neste país, avançamos ou fracassamos como uma só nação, como um só povo. Resistamos à tentação de recair no partidarismo, na mesquinharia e na imaturidade que intoxicaram nossa vida política há tanto tempo.
Lembremos que foi um homem deste estado que levou pela primeira vez a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre os valores da auto-suficiência e da liberdade do indivíduo e da união nacional.
Estes são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata conquistou uma grande vitória esta noite, fazemos com certa humildade e a determinação para curar as divisões que impediram nosso progresso.
Como disse Lincoln a uma nação muito mais dividida que a nossa, não somos inimigos, mas amigos. Embora as paixões os tenham colocado sob tensão, não devem romper nossos laços de afeto.
E àqueles americanos cujo apoio eu ainda devo conquistar, pode ser que eu não tenha conquistado seu voto hoje, mas ouço suas vozes. Preciso de sua ajuda e também serei seu presidente.
E a todos aqueles que nos vêem esta noite além de nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, a aqueles que se reúnem ao redor dos rádios nos cantos esquecidos do mundo, nossas histórias são diferentes, mas nosso destino é comum e começa um novo amanhecer de liderança americana.
A aqueles que pretendem destruir o mundo: vamos vencê-los. A aqueles que buscam a paz e a segurança: vamos apoiá-los.
E a aqueles que se perguntam se o farol da América ainda brilha tão fortemente, esta noite demonstramos mais uma vez que a força autêntica de nossa nação vem não do poderio de nossas armas nem da magnitude de nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e firme esperança.
Lá está a verdadeira genialidade dos EUA: que o país pode mudar. Nossa união pode ser aperfeiçoada. O que já conseguimos nos dá esperança sobre o que podemos e temos que conseguir amanhã.
Estas eleições contaram com muitos inícios e muitas histórias que serão contadas durante séculos. Mas uma que tenho em mente esta noite é a de uma mulher que votou em Atlanta.
Ela se parece muito com outros que fizeram fila para fazer com que sua voz fosse ouvida nestas eleições, exceto por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Nasceu apenas uma geração depois da escravidão, em uma era em que não havia automóveis nas estradas nem aviões nos céus, quando alguém como ela não podia votar por dois motivos - por ser mulher e pela cor de sua pele.
Esta noite penso em tudo o que ela testemunhou durante seu século na América - a desolação e a esperança, a luta e o progresso, as vezes em que nos disseram que não podíamos e as pessoas que se esforçaram para continuar em frente com esta crença americana: sim, nós podemos!
Em uma época em que as vozes das mulheres foram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela sobreviveu para vê-las serem erguidas, expressarem-se e estenderem a mão para votar. Sim, nós podemos.
Quando havia desespero e uma depressão ao longo do país, ela viu como uma nação superou o próprio medo com uma nova proposta, novos empregos e um novo sentido de propósitos comuns. Sim, nós podemos.
Quando as bombas caíram sobre nosso porto e a tirania ameaçou o mundo, ela estava ali para testemunhar como uma geração respondeu com grandeza e a democracia foi salva. Sim, nós podemos.
Ela estava lá pelos ônibus de Montgomery, pelas mangueiras de irrigação em Birmingham, por uma ponte em Selma e por um pregador de Atlanta que disse a um povo: "Superaremos". Sim, nós podemos.
O homem chegou à lua, um muro caiu em Berlim e um mundo se interligou através de nossa ciência e imaginação. E este ano, nestas eleições, ela tocou uma tela com o dedo e votou, porque após 106 anos na América, durante os melhores e piores tempos, ela sabe como a América pode mudar. Sim, nós podemos.
América, avançamos muito. Vimos muito. Mas há muito mais por fazer.
Portanto, esta noite vamos nos perguntar se nossos filhos viverão para ver o próximo século, se minhas filhas terão tanta sorte para viver tanto tempo quanto Ann Nixon Cooper. E o que eles verão? Que progressos faremos?
Esta é nossa oportunidade de responder a esta chamada. Este é o nosso momento. Esta é nossa vez.
Para dar emprego a nosso povo e abrir as portas da oportunidade para nossas crianças, para restaurar a prosperidade e fomentar a causa da paz, para recuperar o sonho americano e reafirmar esta verdade fundamental: de muitos, somos um, e enquanto respirarmos, teremos esperança.
E quando nos encontrarmos com o ceticismo e as dúvidas, e com aqueles que nos dizem que não podemos, responderemos com esta esperança eterna que resume o espírito de um povo: sim, nós podemos.
Obrigado. Que Deus os abençoe. E que Deus abençoe os Estados Unidos da América".
(livre tradução + apoio site Terra + “Discursos que mudaram o mundo” – Coleção Folha)