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segunda-feira, 2 de novembro de 2015
DE ONDE VEM ESSA MALUCA PAIXÃO?
Vem desde antes de eu nascer. Dos chutes de primeira na barriga da minha mãe. Dos sonhos inocentes que já tinha com futebol enquanto era aconchegantemente protegido pela placenta e alimentado pelo cordão umbilical. Vem da primeira bola que ganhei, molequinho de tudo, ainda aprendendo a andar e a chutar. Do uniforme cinza de goleiro tão desejado, com luvas e joelheiras, que chegou naquele Natal dos meus cinco anos. Sim, fui arqueiro quando criança. Por pouquíssimo tempo. Não demorei muito para descobrir que minha bola era outra. Essa paixão tresloucada surge de modo incontido graças àquelas peladas que eu jogava sozinho no terraço estreito e comprido da chácara da minha querida São Bernardo do Campo de tantas lutas políticas, correndo atrás de uma pelota dente de leite, oval e murcha, imitando voz de locutor para narrar partidas épicas, inesquecíveis. E que golaaaçççooo!!!! Ela ficou pedindo me chuta, me chuta, ele encheu o pé! É culpa das bolas de meia, bolas de gude. Das bolinhas de tênis. De papel. Das tampinhas. Dos potinhos de iogurte. Das latinhas e garrafinhas de refrigerante. Tudo era bola. A gente chutava o que viesse pela frente. Num arroubo infantil de empolgação, bica sem medir a força, meu sapato (que não tinha cadarço) saiu voando. Só parou na vidraça da sala da diretoria na escola. Cacos espalhados. Meus pais foram chamados. Encanto que vem das caneladas e disputas heroicas com os primos Bicudinhos no quintal em ladeira e cheio de árvores ardilosas da casa de meus avós paternos em São Paulo. Daquele primeiro título paulista que comemorei, em 1978. Os primeiros Meninos da Vila. Da Copa de 78, na Argentina. Nelinho, Amaral, Batista, Zico, Roberto Dinamite, Dirceu. A batalha de Rosário contra a Argentina. A farsa da seleção peruana, que tomou de seis para colocar os hermanos na final. A ditadura sangrenta no país vizinho. Nos países vizinhos. Amor sublime e cego que explode graças à mágica Seleção de 1982, do mestre Telê Santana. Arte pura. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Jamais haverá meio-de-campo como aquele. Nunca mais. Do choro doído e inconformado imposto pelo italiano Paolo Rossi. Três gols. Brasil desclassificado. O que faço agora? Reforço a paixão ouvindo as histórias que meu avô materno narrava sobre Pelé e o único e absoluto Santos da década de 60. Orgulho que nem todos podem ter. Revela-se forte e implacável nas sístoles e diástoles aceleradas um sentimento que recorda o sangue escorrendo do joelho ralado no chão de ladrilhos vermelhos da escola. a canela roxa atingida pelo bico da chuteira do desleal adversário no torneio interclasses, a calça rasgada do uniforme (a bronca da mãe), o dedão do pé direito (sou destro!) quebrado e a distensão na coxa que escondi do técnico do time para poder disputar torneios contra outras escolas (mesmo manco), as pernas em brasa lanhadas nos campos de terra. É amor desmedido que lembra os clássicos jogos de botão no estrelão (meu Santos de acrílico era imbatível), o pênalti que bati na tabela de basquete numa final de campeonato (salão, não botão), as partidas que acompanhei com ouvido colado nos meus vários e queridos companheiros radinhos de pilha, os terceiros tempos invadindo as madrugadas, o dizer para a namorada 'espera só mais um pouquinho, está terminando o jogo' ou 'amanhã não dá, é dia de Santos', as aulas que matei em diferentes séries para ouvir ou ver amistosos da Seleção. Vem dos estádios, do cimentão das arquibancadas da Vila Belmiro, do Pacaembu, do Morumbi, do Canindé, do Parque Antártica, da rua Javari, da Comendador Souza. É tão forte a paixão tresloucada que foi capaz de sobreviver à seca de títulos da Seleção, ao Brasil do técnico Sebastião Lazaroni, aos dezoito anos de fila, das vacas magras e de times medonhos do Santos. Para explodir novamente, desavergonhadamente com os gols de Bebeto-Romário, Rivaldo-Ronaldo-Gaúcho, Giovanni, Robinho-Diego, Neymar. É paixão pelo drible. Pelo improviso. Pelo inesperado. Pela ginga. Pela malemolência. Pela malícia. Pela delícia de uma bola debaixo das canetas. Pelo chapéu. Pelo voleio. Pelo sem-pulo. Pela bicicleta. Pelo cruzamento milimetricamente feito, na cabeça do atacante. Pela meia-lua. Pelo drible da vaca. Pelo rolinho. Pela pedalada. Pelas improvisadas e impagáveis mesas-redondas com os amigos num bar, cerveja gelada e sem hora para acabar. Pela coleção de camisas. Pelas crônicas de Nelson Rodrigues. Pelas memórias de uma Copa no Brasil. É amor que me faz acompanhar os jogos da série A. Da B também. E da C, por que não? Partidas da D. Da série Z. Não existe? Inventemos já. Estaduais. Regionais. Várzea. Desafio ao Galo. Campeonato italiano. Espanhol, inglês, russo, argentino, mexicano, francês, português, holandês. Libertadores. Liga dos Campeões. Liga dos Perdedores. Liga dos Mais ou Menos. Qualquer liga. É paixão que obrigou a me virar nos 30 (ou nos 43) para acompanhar o maior número de jogos da rodada do último final de semana. Quando acaba, já começo a suar frio, síndrome de abstinência, e a pensar na do próximo final de semana. Cansa? Nunquinha. É eterna paixão imortal. Esclareci sua dúvida? Ave, futebol.
sábado, 6 de junho de 2015
PRAZER. NEYMAR JR
Não pode jogar, é muito moleque, sem experiência, irresponsável. Filé de borboleta. Aí ele foi campeão paulista em 2010. Com 18 anos. Não vale, é paulistinha, qualquer um ganha. E foi contra o Santo André. Ele foi lá e levantou a taça do bi Paulista. Contra o Corinthians, em 2011. Foi tri paulista, em 2012. Feito que o Santos não alcançava desde a época de Pelé. Quero ver ganhar título importante, driblar desse jeito contra time grande. Mas ele já tinha vencido a Copa do Brasil em 2010. Bela porcaria, aqui o que vale é o Brasileirão. Pois ele colocou no Memorial das Conquistas do Peixe a Copa Libertadores. Título continental, que só Pelé e companhia, nos anos 1960, tinham abocanhado. Ainda teve tempo de faturar uma Supercopa. No futebol europeu, esse moleque folgado vai desaparecer. Podem escrever. Partiu como o maior artilheiro do Santos depois da era Pelé - 138 gols. Antes de desembarcar no Barça, ele foi Campeão da Copa da Confederações pela Seleção Brasileira, com gol na final, no Maracanã. Putz, grande coisa, a Espanha é uma seleção velha e decadente. Nas primeiras semanas na equipe catalã, foi campeão da Supercopa da Espanha. Fazendo gol. Sorte de principiante. Não vai durar. Na segunda temporada por lá, a tríplice coroa - Espanhol, Copa do Rei e Champions League. Autor do gol do título. De quebra, tornou-se artilheiro do maior torneio de clubes do planeta bola. Dez goles. E antes que alguém diga "ainda falta uma Copa do Mundo", cuidado, Messi também não tem esse título. Nem Cristiano Ronaldo. Nem Platini. Nem Zico. Nem Sócrates. Nem Puskas. Nem Di Stéfano. Nem Eusébio. Nem Cruijff. Azar da Copa do Mundo, como diria mestre Tostão. Ainda não tem, completo. Para quem não conhece, muito prazer. Neymar Jr. Eu vi o moleque jogar. Muitas vezes. Obrigado, meu eterno camisa 11.
domingo, 3 de maio de 2015
SINAIS (E O VIGÉSIMO PRIMEIRO TÍTULO PAULISTA)
Vamos, moleque, vamos lá buscar essa taça. Vá lá, logo cedo, quando fiz o convite para o Daniel, quase uma intimação, a fala tinha muito mais jeito de preleção motivacional, vestiários e aquecimento, o pai que não quer ver o filho esmorecer. Nenhuma convicção de título. Vitória por dois gols não é fácil. Pauleira. Os dois times são equilibrados. Pênalti é loteria. Sofrimento. "Levanta e anda, vai", como canta Emicida. Fundinho de esperança. Porque o futebol é feito de sinais. Uma decisão, de infinitos sinais. Exatamente. Sinais. No domingo passado, quando Dudu estourou aquele petardo do pênalti no travessão da Arena Palestra, antigo gol das piscinas, Santos com um a menos em campo, comemorei. Comedidamente. Aliviado. Um trisco confiante, meus amigos e amigas boleiros e boleiras santistas. Uma decisão é feita de sinais. No comecinho da mesma primeira peleja, aliás, Arouca, santista de quatro costados, volante praiano de muitas glórias e conquistas, Paulistas e Libertadores, tinha deixado o campo, machucado. Sobe a placa. Substituição. Sinais. Aos que me perguntaram durante a semana qual meu palpite para a derradeira, em Urbano Caldeira, respondi: "a vantagem é verde. Não sei se perderam o título por conta do resultado magro na casa deles. Mas certamente deixaram de resolver a parada por lá. No Alçapão...". A galera palmeirense sentiu o baque. Saiu silenciosa e preocupada do estádio, uma semana atrás. Bom sinal. Outro. Hoje, lá fomos nós. #PartiuVilaBelmiro. Eu e o Dani descemos a Serra com as camisas da sorte. Com tradição boleira não se brinca. Ainda mais em final. No volante, pilotando a caravana, o amigo Zé, irmão santista que foi meu ombro e fiel escudeiro nos anos duros das vacas magras, quando o Santos era motivo de chacota na escola. Éramos os dois únicos santistas da classe. Resistimos bravamente.Trinta e cinco anos de amizade. Trinta e cinco anos correndo estádios atrás do Peixe. Na saúde e na doença. Na alegria e na tristeza. Juntos, arrisco dizer que faturamos 80% das finais que vimos, sem direito a margem de erro do Ibope ou do Datafolha. Temos agora a fiel companhia do pé quente Daniel (segura, Zé, o Joca vem na próxima). De casa, tensa, sem tirar os olhinhos da TV, a Lui manda bons fluidos. #TamoJuntoFilha. O almoço foi no Almeida, um dos mais charmosos e tradicionais restaurantes de Santos. O moleque estava uma pilha de nervos. Mudo. Respondia só com acenos de cabeça. E com sinais. Como deve ser numa final. Calma, filho, vai dar tudo certo. O time joga completo. Com Robinho. Com ele em campo, não perdemos. Uma final é repleta de sinais. File à francesa e cerveja gelada. Corta para Urbano Caldeira, sem mais delongas. Entra com o pé direito, Dani. Alçapão fervendo. Caldeirão. As cadeiras em que sentamos na semi contra o São Paulo estão vazias, Dani. Vamos nelas. Veio subindo um tiozinho com raminhos de arruda, não, galhos de arruda, não, quase árvores inteiras de arruda nas orelhas. Uma coroa romana, sem louros. Com arruda. Ave, César. O imperador é santista. Baita sinal. Boleiros e boleiras, o gol de David Braz foi na nossa frente. Vamos buscar a taça! Boleiras e boleiros, o gol do Ricardo Oliveira foi na nossa frente. Camisa nove. Daniel faz aniversário no dia 12 de maio. Hoje é 3 de maio. Faço as contas, bem rápido. Faltam nove dias. Camisa nove. Eu tinha dito que seria dele o gol do título. Foi o décimo primeiro tento do nosso centroavante no campeonato. Artilheiro do Paulista. Onze. Neymar Jr. O número da camisa que estou usando. Sinais. Muito sinais. Múltiplos. Evidentes. A taça. O time não desceu para os vestiários no intervalo - como naquele dezembro de 1995, quando num Pacaembu com energia que jamais vi num campo de futebol goleamos o Fluminense e avançamos à final do Brasileirão. Um maluco do lado me cutuca. Saca uma foto do celular. 'Mano, hoje de manhã deixei um chinelo estilizado de presente para o David Braz. É sério, olha só. Sabe como chama minha empresa? A Sorte. O primeiro gol foi dele". São muitos os sinais. O gol do Palmeiras também foi bem na nossa linha. Desse sinal eu não gostei. Dani desabou no choro, ameaçou não ver os pênaltis. De novo não, pai. Perdemos a decisão passada nas penalidades. Melhor também não lembrar desses sinais. Sai prá lá, azar de mico. Me dá a mão, filho. Vem cá. Vamos ver como no Brasil e Chile da Copa. A Vila enlouquece aos berros de 'é, Vladimir'. Ele era o goleiro reserva do Santos na final do Paulista de 2014, aquela em fomos derrotados nos pênaltis pelo Ituano. O arqueiro alvinegro titular era o Aranha. Que agora está no Palmeiras. Opa, os bons sinais voltaram. Vamos levantar essa taça. As três primeiras cobranças do Santos foram feitas por zagueiros. Escolhas arriscadas. Os três fizeram. Ousadia e alegria. Vladimir! Travessão! O Verdão perdeu duas. Só mais umazinha e a taça vem. As fileiras próximas viram-se todinhas para o Daniel. Solidárias. Garoto, é agora. Porra, você merece, peixinho. Sofreu prá cacete. Vai ser para você. Agora você vai chorar de novo. Mas vai ser de alegria. Presta atenção. De relance, meio sem querer, bato o olho nas nossas cadeiras. Fileira L. De Lucas. Lucas Lima. Duas vezes L. Camisa 20. Duas vezes 10. Pelé. O Rei. Eterno. Que abundância de sinais, minha gente! Não dá para perder o título com esse transbordamento de sinais! E, gol, gol, gol, gol, a taça é nossa! Nem sei quantos torcedores correram para pular e abraçar o Dani. Virou mascotinho, o símbolo da conquista. Distribuiu cumprimentos. Abraçou e tirou selfies com muita gente. Rapaz, com sua permissão, essa foto com ele é para guardar lá em casa, esse é santista, me disse um dos tantos anônimos em êxtase. Ligamos para a Lui, para comemorar, tão logo o sinal do celular deu o ar da graça. Sinais que atrapalham. Mas é preciso ligar. Com tradição não se brinca. Campeões mais uma vez, filha. Faixa no peito (não pudemos trazer a taça, lamentavelmente), voltamos pela avenida da praia. Itararé, já em São Vicente. Ali eu cresci. Lá vai um menino magrinho, canelas finas, correndo com a bola à beira mar. Dribla um, dribla outro, pára, levanta a cabeça. Achei que era eu. Infância. Adolescência. Molecagens. Futebol na areia. Putz, quanta história para contar. Zé, nessa praia, a gente passou boa parte das nossas vidas. Chico, nessas areias a gente passou uma parte muito boa das nossas vidas. Saudades. Vermelho. Sinal fechado. Aproveitei para abrir o vidro do passageiro. Deixei o vento salgado e molhado bater bem de leve no rosto. Cheiro e gosto de de seis, dez, quinze, dezoito anos. Quarenta e três anos. Sinais. Verde. O sinal abriu. Estrada, voltando para São Paulo. Palpites para o Brasileirão? Sei lá. Vou prestar atenção. Nos sinais. Exatamente. Falo nada. Só observo. Enquanto isso, com licença, vou lá comemorar com a Lui e com o Dani a taça que prometi que a gente ia levantar.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A MINHA SELEÇÃO SANTÁSTICA. E A SUA?
Em mais uma homenagem lúdica ao centenário do Glorioso Alvinegro Praiano, convido todos os santistas - e também torcedores de outros times que quiserem participar - a escalar suas seleções santásticas.
Fica combinado que só poderão ser listados jogadores que vocês de fato viram atuar, em campo. Como minhas primeiras memórias futebolísticas remetem ao ano de 1977, esse é meu ponto de partida.
E, sinto muito, mas a minha seleção alvinegra da Vila Belmiro joga com doze boleiros. Porque não seria digno deixar alguém da estirpe de Sergio Bernardino de fora dela.
Anotem aí:
1. Rodolfo Rodriguez - Porque aquela sequência de defesas contra o América de Rio Preto fala por si só.
4. Paulo César - Fundamental na campanha do título brasileiro de 2004.
2. Joãozinho - Um dos veteranos da primeira geração dos Meninos da Vila, 1978.
6. Alex - Um gigante na zaga, uma das Torres Gêmeas de 2002.
3. Léo - Guerreiro, coração santista, desde sempre.
5. Arouca - Só o Mano Menezes não gosta do futebol dele.
8. Renato - O dono do meio-campo em 2002.
10A. Giovanni - O Messias fez renascer a alegria do futebol arte santista.
10B. PH Ganso - O maestro de toques clássicos e geniais.
7. Robinho - Eternamente sete pedaladas...
9. Serginho Chulapa - Quem nos deu o título paulista de 1984 não poderia ser esquecido.
11. Neymar - E o raio caiu pela terceira vez na Vila Belmiro.
domingo, 8 de abril de 2012
UMA VIAGEM POR 100 ANOS DE FUTEBOL ARTE
Nem bem havíamos chegado em casa e a mãe perguntou:
- Daniel, gostou do filme?
- Sim, é bom.
- Tem músicas?
- Tem o hino do "sou o alvinegro da Vila Belmiro".
- Tem os jogos?
- Sim. Vários contra o Corinthians, mãe.
- Ah, é? Aquele do 7 x 1?, provocou a mãe, corinthiana.
- Não, né, mãe! Você acha que ia ter vitórias do Corinthians num filme do Santos?!
A irmã insistiu:
- Então foi bom?
- Foi lindo. Fala da final da Liberta, do Pelé, dos velhos tempos do Santos...
E "Santos - 100 anos de futebol arte" é assim mesmo - um filme repleto de histórias, de um time que tem muita história para contar. Enquanto a trajetória do glorioso alvinegro praiano era cantada em verso e prosa na telona, um filme em menor escala se desenrolava nas minhas memórias. Porque desde criança ouvia meu avô narrar, enquanto acompanhava os programas esportivos da rádio Atlântica, os feitos do time de branco que chegou até a parar guerra na África, no final dos anos 1960, para apresentar seu futebol arte, encantando e deixando boquiabertas platéias do mundo todo. Mais tarde, já moleque, e agora um quarentão, passei a ser personagem de vários dos episódios narrados no documentário.
Nas primeiras cenas do filme, dois santistas ilustres conversam sobre os hinos do Santos. Cosmo Damião, fundador da Torcida Jovem, não esconde a euforia por finalmente ver ser cantado a a plenos pulmões nas arquibancadas o hino oficial, aquele que lembra que "nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter". Até muito recentemente, os santistas entoavam apenas o "Leão do Mar", que diz que "agora quem dá a bola é o Santos", mas é uma espécie de segundo hino, extra-oficial, uma música de homenagem aos títulos - que, para o rapper Mano Brown, tem melodia muito mais bonita. Pode até ser, Mano. Mas é mesmo emocionante ver o ritmo de "sou alvinegro da Vila Belmiro" ser marcado com palmas e assobios nos estádios.
A história é contada de forma cronológica - a fundação, na mesma noite em que o Titanic afundaria (14 de abril de 1912), os vice-campeonatos paulistas no final dos anos 1920 e 30, o primeiro Paulistão (1935), o ataque dos cem gols. A Era Pelé, e nem poderia ser diferente, é protagonista de boa parte do documentário, com as conquistas do hexa brasileiro, do bi da Libertadores e do bi Mundial de Clubes. Pausa para cena inusitada: é curioso perceber, na imagem do jogo contra o Vasco, na noite de 19 de novembro de 1969, os zagueiros cariocas tentando cavar um buraco na marca do pênalti, na tentativa de atrapalhar a cobrança de Pelé. A artimanha, como conta a história, não deu certo, e o rei converteria ali seu milésimo gol.
Sobre o tento histórico, aliás, mais uma história saborosa, que na tela aparece contada pelo próprio Rei: na partida anterior, o Santos tinha jogado em Salvador, contra o Bahia. Houve uma jogada - e foram tantas, era tão comum, natural - em que Pelé disparou em direção ao gol, driblou um zagueiro, tirou o goleiro de cena e, quase sem ângulo, bateu para o gol. Praticamente em cima da linha, e antes que a pelota pudesse cruzá-la, o lateral esquerdo, depois de emendar um pique sensacional, conseguiu tirar a bola e evitar o gol santista. Cena rara: levou uma sonora vaia de praticamente todos os torcedores que estavam no estádio. Os soteropolitanos queriam ter o privilégio de ver o milésimo de Pelé.
Foi no dia do jogo de despedida de Edson Arantes do Nascimento que o escritor e roteirista José Roberto Torero tornou-se santista. O pai dele avisara: "vamos para a Vila Belmiro, vai ser o último". Era o dia 2 de outubro de 1974. Meu irmão, também santista, nasceria dois dias depois. Meu avô, como de costume, estava no estádio. E me contava que, no segundo tempo, repentinamente, sem ninguém avisar, Pelé pegou a bola no centro do gramado, ajoelhou-se e se virou, braços abertos, agradecendo, para os quatro lados do campo. O pai de Torero, mineiro discreto, que dizia "homem não chora", não conseguiu evitar as lágrimas. O estádio todo chorava. E Torero virou santista. Foi pego pelo coração.
Mano Brown lembra que, a partir de então, passamos todos a ser chamados de "viúvas do Pelé". E ficou um vazio mesmo. "Durante 18 anos, fomos casados com a musa da época, a Sophia Loren. E ela foi embora. Como fica?", compara o rapper. Os títulos começaram a rarear. Em 1978, ainda surgiriam os Meninos da Vila, representados pela irreverência black power de Juari, que na tela aparecem ao som da disco music da época ("Stayn' Alive", dos Bee Gees). Chico Formiga, técnico daquela equipe, confessa que não gostava de ver seus comandados dançar depois dos gols, nas comemorações. Mas rendeu-se à criatividade artística que marca até as comemorações santistas. Em 1984, mais um título paulista, contra o Corinthians, com gol dele - Serginho Chulapa, que diz no documentário que jamais perderia aquela partida contra o arqui-rival.
Surgem então breves menções aos anos das vacas magras. E foram longos dezoito anos de fila, vendo times muito ruins desfilar pelos gramados. Era difícil ser santista, ser zoado pelos colegas na escola. Mas não arredávamos pé. Continuei frequentando os estádios. O período é muito bem definido no documentário pelo jornalista Xico Sá: "O casamento continuava, nos tornamos companheiríssimos. Mas não tinha mais sexo".
Mas aí apareceu um tal de Giovanni, a nos mostrar que o futebol arte resistia, dava de novo o ar de sua graça. Quem estava no Pacaembu naquele final de tarde/começo de noite de 7 de dezembro de 1995 sabe do que estou falando. Naquela inesquecível vitória por 5 x 2 contra o Fluminense, arrasadora, semi-final do Brasileirão, vi um amigo de infância lascar um beijo na careca de um sujeito que tinha uns dois metros de altura, depois do quinto gol do Peixe. O cara não só não reclamou como abraçou meu amigo... Não queríamos sair do estádio. Cantamos e gritamos até a voz faltar.
Esperaríamos ainda longos sete anos para desvirar as faixas nos estádios, na conquista do Brasileirão de 2002, novamente contra o Corinthians, deliciosamente contra o Corinthians, quando vi, no Morumbi, "um neguinho de canelas finas" pedalar oito vezes antes de ser derrubado na área e abrir caminho para a vitória. Robinho e Diego, muito obrigado! (A dupla, aliás, protagoniza um dos momentos mais engraçados do documentário, quando contam as brincadeiras e zoações que faziam nos vestiários, antes das partidas). Era o segundo raio que caía na Vila Belmiro. E trazia definitivamente de volta o DNA ofensivo, o futebol arte. A nossa vocação.
O terceiro raio não demoraria - em 15 de março de 2009, Neymar marcaria seu primeiro gol como profissional pelo Santos, na vitória por 3 x 0 contra o Mogi Mirim, no Pacaembu. Eu e Daniel estávamos lá, obviamente. De lá para cá, já foram 95 gols, o quarto maior artilheiro depois da Era Pelé. Vi também Paulo Henrique Ganso, o maestro, dizer "não vou sair de campo", na final do Paulista de 2010, contra o Santo André, além de bater um escanteio para ele mesmo, em jogada genial, que o documentário resgata. Pelé-Coutinho. Robinho-Diego. Neymar-Ganso. Três raios implacáveis - os três a despencar na Vila Belmiro.
Chega então a explosão derradeira. A conquista da Libertadores de 2011 é outro momento mágico do documentário, já nos minutos finais do filme. As imagens do estádio Centenário, em Montevidéu, são lindas e impressionantes - as arquibancadas tremendo em amarelo e preto. Os Meninos da Vila não tremeram, trouxeram de lá valioso empate. E o mar branco do Pacaembu respondeu com a mesma intensidade, quarenta mil corações pulsando de nervosismo e tensão, quarenta mil vozes cantando "é um orgulho que nem todos podem ter", para finalmente explodir no grito de "tricampeão". Revivi cada segundo daquela noite mágica de 22 de junho - a letra do Ganso, a arrancada do Arouca, o chute seco e rasteiro do Neymar, o passe do Elano, a batida em curva do Danilo, a taça nas mãos do capitão Edu Dracena, o Muricy correndo pelo campo sem rumo, abraçado ao Rei Pelé.
A essa altura, no cinema, como havia acontecido no Pacaembu, já não era mais possível segurar as lágrimas. Daniel nem se mexia na poltrona, olhos atentos. A última cena do filme é enigmática e promissora: Neymar num Pacaembu em êxtase hipnotizante, já campeão da Libertadores, ajoelha no gramado e chora, cobrindo o rosto com a camisa. Ousadia e alegria. Tela preta. Créditos finais. Antes que a luz se acendesse, aplausos e gritos de "Santos!".
A história termina na telona. Consigo perguntar ao Daniel: "que parte você mais gostou?". Ele nem pensa para responder: "a final da Liberta. No Pacaembu". Foi a história que ele mais gostou. Porque essa também já é a história dele - e como ele torceu e sofreu naquela decisão contra o Peñarol.
Pois é, filho, temos uma semana para nos recuperar das fortes emoções. Sábado que vem, 14 de abril, tem mais, muito mais. É o dia do aniversário do Santos. Estaremos em Santos, para as comemorações oficiais, fazendo parte da história, e vendo a história acontecer. São 100 anos de futebol arte. Arte. "Tolstói, Dostoiévski, Santos... entram nessa categoria", como define Xico Sá. De fato, um orgulho que nem todos podem ter.
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"Santos - 100 anos de futebol arte"
Cine Livraria Cultura, Sala 2, sessões diárias, 14h
Conjunto Nacional - Avenida Paulista, 2073.
Até sexta-feira, 13 de abril.
Veja o trailer oficial do documentário
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