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sexta-feira, 4 de maio de 2012

QUEM VENCEU NA FRANÇA? A EXTREMA DIREITA.


A considerar as mais recentes pesquisas eleitorais, o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, deverá vencer a disputa pela presidência da França no próximo domingo, derrotando o atual titular do cargo, Nicolas Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP). A três dias do desembarque dos eleitores nas urnas, em segundo turno, os levantamentos oferecem ao socialista uma vantagem de, em média, seis pontos percentuais, o que não é garantia de vitória, mas representa margem de segurança razoável (sempre lembrando, claro, que essas fotografias não são absolutas e muitas vezes pregam peças). Para além do vencedor oficial - e lamentando profundamente o empobrecido e raso debate político que marcou a atual campanha e o fato também deplorável de na maior parte das vezes ter existido convergência e concordância entre o socialista e o conservador  -, o fato que me parece incontestável é que a efetiva vencedora política (embora não eleitoral) será a extrema direita, representada neste ano pela candidata da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen.

No primeiro turno, a votação da Frente (17,9%, ou 6,5 milhões de votos) foi recorde na história da agremiação e chegou a surpreender analistas políticos. Reportagem publicada pelo correspondente Andrei Netto, do jornal O Estado de São Paulo, avalia que "esse avanço só foi possível porque um eleitorado antes avesso à figura de Jean-Marie Le Pen agora se mostra seduzido pela juventude e pela modernidade de Marine. A base dos franceses que aderem às teses do partido não é evidentemente formada apenas pelos skinheads. Ela inclui também trabalhadores pouco politizados, de baixo nível educacional e empregados em postos precários". Ou seja, as propostas intolerantes, reacionárias e xenofóbicas são as mesmas, talvez até mais extremistas, mas agora surgem embaladas por um verniz de novidade, mais palatável e sedutor, do ponto de vista do marketing, da imagem e da forma. 

Ainda no Estadão, no caderno Aliás, Damon Mayaffre, doutor em História pela Universidade Nice-Sophia Antipolis, confirma que há um empobrecimento do discurso político na França. Para ele, os grandes conceitos como liberdade, igualdade, democracia, capitalismo e socialismo não param de rarear. O pesquisador afirma que há ainda um deslocamento do discurso de Sarkozy para a extrema direita, e um dos sintomas desse movimento é a denúncia sistemática que o atual presidente francês faz de todos os "corpos intermediários" da França, como a Justiça, os sindicatos e a imprensa. "Creio que nos últimos anos a UMP e Sarkozy brincaram com fogo. Tentaram recuperar o eleitorado de extrema direita com algumas de suas temáticas. (...) Creio que a UMP queimou os limites, sem perceber que contribuía para radicalizar seu próprio eleitorado". O resultado, ainda segundo o analista: ser neofascista na França não é mais vergonha.

Sem pudores ou amarras, e muito provavelmente escancarando suas verdadeiras visões políticas (não penso que a radicalização intolerante do discurso de Sarkozy tenha sido inconsciente ou não pensada), o atual presidente da França recorre, nos momentos derradeiros da campanha, à tática do medo (José Serra no segundo turno de 2010 adotou caminho semelhante). Como revela matéria de Clóvis Rossi na Folha de São Paulo, Sarkozy apela diariamente para o "risco de islamização da sociedade francesa"; vocifera contra a invasão de imigrantes; condena o uso das bandeiras vermelhas, pretendendo resgatar um anti-comunismo tosco e abestalhado, mas que costuma funcionar; por fim, alerta para o risco de a França se transformar em uma nova Grécia, como se a eleição dos socialistas representasse o inexorável agravamento da crise econômica que flerta com o país.

É o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, mas precisa ser dito: abrir a caixa de Pandora é relativamente simples. Ajuda a ganhar eleições, ainda mais em tempos de crise econômica, de encruzilhadas sociais e de dilemas profundos de identidade. Eleitoralmente, é muitas vezes caminho eficiente. Tem sido cada vez mais usual. Administrar politicamente depois esse legado e conviver com as maldades agora livres da caixa é que são elas. Olhos muito atentos à França. O fascismo ainda não é hegemônico. Mas agora transita livremente, perigosamente desavergonhado por lá. Como reforça o filósofo Vladimir Safatle, em coluna publicada na Folha de São Paulo logo após o primeiro turno das eleições, "a França é o país europeu que tem a extrema direita mais forte. Há uma enorme faixa de eleitores racistas e xenófobos dispostos a, agora, falar em voz alta".  

segunda-feira, 18 de abril de 2011

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE? NÃO. É A FRANÇA DA INTOLERÂNCIA.

Os ventos que sopram da França são pouco animadores. Viajam pelo mundo carregados de preconceitos e de comportamentos intolerantes, invariavelmente institucionalizados e transformados em leis e políticas públicas pelo governo do presidente Nicolas Sarkozy.

No último dia 11 de abril, entrou em vigor no país a lei que proíbe que as mulheres muçulmanas usem em público véus que cubram os rostos delas. O governo francês alega que, com a medida, pretende proteger a condição feminina (parte do princípio que o uso se dá por imposição dos homens, maridos ou pais); afirma ainda que seria uma forma de garantir o princípio do Estado laico. A punição para aquelas que descumprirem a nova legislação envolve multa de 150 euros e aulas de cidadania. 

Se o propósito de Sarkozy e sua trupe fosse de fato estabelecer a igualdade de gêneros, deveriam preocupar-se com outras questões (violência contra a mulher e salários desiguais, apenas para citar duas vertentes). Mais: será mesmo que apenas os homens muçulmanos são machistas e tentam controlar as vidas de suas companheiras, impondo a elas hábitos e costumes? Entre os católicos franceses, por exemplo, estão absolutamente bem resolvidas as assimetrias entre homem-mulher? A discussão parece desfocada.

Caso a outra motivação fosse mesmo fazer valer a laicidade, e adotando a linha de raciocínio "sarkozyniana", não deveria o governo proibir também a exposição de outros símbolos religiosos, como crucifixos e a estrela de David, em quaisquer lugares públicos? Por que o alvo é apenas o véu islâmico? Estado laico é aquele que não abraça religião alguma e pressupõe o livre arbítrio, a diversidade de crenças e espiritualidades, sem privilégio para nenhuma delas - incluindo o direito de ser ateu - e a convivência democrática entre todas as práticas. Não significa, em hipótese alguma, cerceamento e perseguição a uma religião específica. Se for assim, o Estado toma partido e faz opção - e obviamente deixa de ser laico. E o que se configura claramente com essa lei é a demonização dos diferentes, nesse caso representados por um grupo bem definido e focado, os muçulmanos, não raro e não por acaso vistos ainda como perigosos, por serem também "potenciais terroristas". É uma imagem que o Estado francês, ao agir com tal truculência e sectarismo, ajuda a reforçar no imaginário popular.

Fico imaginando o que as autoridades públicas francesas desejam "ensinar" nas tais aulas de "cidadania" previstas pela legislação às mulheres que ignoram a determinação e insistem em usar os véus... Será que esse espaço não será usado para verdadeiras lavagens cerebrais e exercícios velados (ou não) de pressões e do terror, mostrando às mulheres que ou elas passam a seguir as regras do jogo ou estarão sujeitas a punições e à execração pública, correndo risco, no limite, de ter de deixar o país? Não seria  muito mais uma (nem tão) sutil forma de coagi-las e de aculturá-las, pregando as supostas virtudes e superioridades dos valores e princípios de vida ocidentais e desqualificando o atrasado Islã? 

No domingo, 17 de abril, outra demonstração de intolerância: o governo francês fechou as fronteiras e impediu a passagem - e o desembarque - de um trem saído da Itália que transportava imigrantes africanos (a maioria tunisianos), que têm desesperadamente buscado refúgio na Europa por conta das crises enfrentadas pelos países de origem árabe do norte da África. Em agosto do ano passado, centenas (segundo versões oficiais) de ciganos que viviam na França foram expulsos do país e deportados principalmente para a Bulgária e a Romênia. Pouco antes, no dia 20 de julho, em discurso feito na Secretaria de Segurança Pública da cidade de Grenoble (sudoeste do país), o presidente francês já havia reforçado o viés xenófobo de seu governo ao estabelecer associação direta entre imigrantes e delinquentes e ameaçar "retirar a nacionalidade francesa de estrangeiros que cometessem crimes contra autoridades públicas ou funcionários de segurança do país". As iniciativas foram duramente condenadas pelo Comitê para Eliminação da Discriminação Racial da Organização das Nações Unidas (ONU).

O roteiro perseguido por Sarkozy é velho conhecido - e extremamente perigoso: diante de um cenário de crise econômica e de perda de popularidade, e vislumbrando as eleições presidenciais marcadas para 2012, apela para um nacionalismo mambembe e excludente, que faz do estrangeiro o invasor responsável por todas as mazelas e dificuldades vividas pelo país.

Em artigo publicado na Revista Espaço Acadêmico no já distante ano de 2002, o cientista político Antonio Inácio Andrioli analisava com muita propriedade a xenofobia que voltava a  assustar a Europa. As reflexões apresentadas naquele momento revelam-se infelizmente ainda atuais e podem ser lidas à luz singular do que acontece na França. Escreve o pesquisador que "idéias que se tinha como fora de moda, absurdas e retrógradas, podem novamente vir a ser atuais e modernas. Isso significa que as idéias não morrem pelo simples decurso do tempo e que, em conformidade com o espírito de uma época, podem retornar". Segundo ele, "é mais fácil responsabilizar os estrangeiros pelo desemprego, pela criminalidade e pela insegurança, do que entender as complexas razões dos problemas. As soluções apresentadas são, então, também bem simples e conduzem à xenofobia, quando os estrangeiros são tratados como concorrência indesejada". 

Os estragos patrocinados por Sarkozy podem ser ainda maiores: de acordo com pesquisas eleitorais divulgadas recentemente, a candidata da Frente Nacional (o partido da extrema-direita), Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, alcançaria cerca de 25% dos votos no primeiro turno, caso a disputa acontecesse hoje, e chegaria à frente de todos os demais postulantes ao cargo (incluindo Sarkozy). Beneficiada pela xenofobia que se alastra, Marine mantém fidelidade aos pressupostos defendidos pelo pai, mas apresenta-se com um verniz moderno e com fala mais suave e sedutora. Em entrevista à Folha de São Paulo (disponível para assinantes), o historiador francês Michel Winock reforça que "a natureza da Frente Nacional não mudou nada, mas Marine Le Pen conseguiu alterar e rejuvenescer sua imagem". Trata-se portanto de uma figura política ainda mais perigosa que o pai.   

É tarefa obrigatória acompanhar muito de perto o que acontece na França. Os ventos que nascem lá não demoram a influenciar outros países europeus - e terminam por atravessar o oceano Atlântico e desembarcar também por aqui. Foi assim com a Inconfidência Mineira, lembrada nesta semana por conta da passagem de mais um 21 de abril, e fortemente influenciada pelos ideais iluministas que impulsionariam também a Revolução Francesa de 1789.