quarta-feira, 27 de junho de 2012

TORTURADOR BRILHANTE USTRA É CONDENADO PELA JUSTIÇA



Ontem, terça-feira, dia 26 de junho, Dia Internacional em Apoio às Vítimas de Tortura, veio a público a notícia da condenação do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra pela juíza Claudia de Lima Menge, da vigésima Vara Cível Central de São Paulo, que obriga o facínora a pagar indenização no valor de 50 mil reais por danos morais à família do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, militante que combateu a ditadura militar brasileira - e que foi morto, em 1971, sob terríveis torturas comandadas por Ustra, nos porões do regime. 

Além da coincidência da data, o fato guarda outra dimensão simbólica fundamental: foi a primeira vez que um agente da repressão, individualmente, foi condenado a arcar com reparações financeiras por conta de atrocidades cometidas em nome do Estado e da "segurança nacional". 

Assim como era comum na época, e a exemplo da narrativa mentirosa que se tentou construir a respeito do assassinato do jornalista Vladimir Herzog (para a ditadura, "suicídio"), o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) mentia ao dizer que Merlino tinha morrido atropelado, depois de se atirar na frente de um carro, na rodovia BR 116, quando era transportado para o Rio Grande do Sul. Mentira, sórdida mentira, que a sentença da juíza Claudia desmonta com brilhantismo ímpar, ajudando a recontar a História recente do país. 

Embora a condenação tenha ainda acontecido em primeira instância (cabe recurso), e para além da reparação financeira, a sentença merece ser lida na íntegra porque representa uma estupenda peça de reflexão sobre o arbítrio e o anos de chumbo e de defesa dos direitos humanos. É digna de ser compartilhada e comemorada por todos aqueles que continuam lutando pelo direito à memória e à verdade, pela democracia. 

Abaixo, reproduzo alguns trechos representativos desse espírito consagrado pelo texto corajoso da juíza.  




"Em 15/7/1971, em visita a sua família em Santos, Luiz Eduardo foi levado a força, sob a mira de pesado armamento, por agentes do DOI- CODI. Nos quatro dias subsequentes, militares mantiveram a família, inclusive a coautora Regina, sob constante vigilância, mas sem notícias sobre Luiz Eduardo, até que noticiado seu falecimento, por suicídio. Foi possível, porém, constatar que ele fora vítima de tortura, tendo em conta as condições em que se apresentava o corpo. Diversa, porém, foi a versão apresentada pelos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social): quando era transportado para o Rio Grande do Sul, para lá reconhecer colegas militantes, durante uma parada na proximidades de Jacupiranga, Luiz Eduardo teria se jogado à frente de um carro que trafegava pela rodovia e fora atropelado. Este o conteúdo lançado no atestado de óbito pelos técnicos no IML. Tempos depois, outras pessoas que estiveram no DOI-CODI na mesma época trouxeram relato de que Luiz Eduardo fora espancado durante 24 horas seguidas no “pau-de-arara” e, como consequência, passou a apresentar dores nas pernas, que, depois, se constatou ser sintoma de complicações circulatórias severas, que redundaram na morte dele, por falta de atendimento médico adequado e excesso nos atos praticados pelo réu. A coautora Maria Helena estava na França quando recebeu a notícia da morte de seu companheiro. Mesmo depois do fatídico evento, a família foi mantida sob constante vigilância por agentes do exército. Os espancamentos de Luiz Eduardo se deram sob supervisão, comando e, por vezes, por ato direto do requerido, que, então, era comandante do DOI-CODI e da operação OBAN (Operação Bandeirante, como foi denominado o centro de informações e investigações montado pelo exército em 1969, voltado a coordenar e integrar as ações dos órgãos de combate às organizações armadas de esquerda)". 

"Não é de olvidar, porém, que até mesmo a anistia assim referendada pela Corte Suprema não está infensa a discussões, tendo em conta subsequente julgamento proferido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em que o Brasil foi condenado pelo desaparecimento de militantes na guerrilha do Araguaia, enquadrados os fatos como crimes contra a humanidade e declarados imprescritíveis. No ponto, ostenta especial relevância considerar que a atual configuração inter-relacionada dos diversos países, integrantes de organizações internacionais voltadas para fins políticos, econômicos e sociais, e a intensa movimentação de pessoas entre as várias nações, faz com que a regulamentação acerca do respeito aos direitos humanos e das consequências dos atos praticados afronta deles transcenda largamente a posição soberana dos Estados para se basear, isto sim, em cada pessoa, como titular de direitos essenciais, independentemente da nacionalidade e do local em que esteja. Daí a relevância dos tratados internacionais acerca de direitos humanos, vez que como direitos essenciais não podem sofrer injunções ou considerações locais, com base no poder constituinte, quer originário, quer derivado. Como ensina Márcio Sotelo Felipe (www.viomundo.com.br), “além do fenômeno da convencionalidade sustentado pelo princípio da ‘pacta sunt servanda’, há normas de Direito Internacional que têm a característica da cogência. Após Nuremberg se reconhece que normas do Direito Internacional dos Direitos Humanos são cogentes. Derivadas dos costumes e de outras fontes formais do Direito, independem, para sua eficácia, da vontade dos sujeitos envolvidos numa relação jurídica. A racionalidade disto é clara. Trata-se de um imperativo moral transformado em axioma jurídico: como poderia a proteção da vida e dos direitos básicos da pessoa humana depender de um ato de vontade, em qualquer plano do fenômeno jurídico?” (…) “A ideia de que somente normas positivadas por meio de determinados procedimentos formais constituem o Direito independentemente de juízo de valor deve ser considerada hoje uma etapa primitiva do desenvolvimento do fenômeno jurídico. Isto porque a dignidade da pessoa humana deixou de ser postulado filosófico para tornar-se axioma jurídico. Está na raiz dos instrumentos internacionais de defesa dos Direitos Humanos que se seguiram à barbárie nazista: a Declaração Universal de 1948, o Pacto de Direitos Civis e Políticos, a Declaração de Direitos Econômicos e Sociais, a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e contra a Humanidade, de 1968, Convenção contra a Tortura, etc.”

"A prova oral deu integral respaldo ao relato feito constante da inicial. Narraram as testemunhas a dinâmica dos eventos, a elevada brutalidade dos espancamentos a que foi submetido o companheiro e irmão das autoras, que o levaram a morte, ora sob comando, ora sob atuação direta do requerido, na qualidade de comandante do DOI-CODI e da operação OBAN, vinculadas a manutenção e proteção do regime militar. Narrou a testemunha Laurindo Martins Junqueira Filho que: “Ustra era o Comandante da unidade e assistiu minha tortura, assistiu a tortura do meu companheiro que estava comigo. Ele não viu o Luiz Eduardo sendo torturado, mas ele era o Comandante da unidade de tortura e orientava essa tortura pessoalmente.” (…) “Após o contato com o Luiz Eduardo, eu recebi informações de um soldado do exército, que prestava serviço na Unidade da OBAN, de que o Luiz Eduardo tinha morrido, tinha sido torturado durante a noite. E esse soldado, de suposto nome Washington, de cor negra, veio até mim e falou que o Luiz Eduardo tinha morrido de gangrena nas pernas; tinha sido conduzido para um passeio – foi a expressão que ele usou – na madrugada, e que tinha sido várias vezes atropelado por um caminhão que prestava serviços para a unidade da OBAN. Isso teria se repetido tantas vezes que os órgãos dele tinham sido decepados pelo caminhão.” (fl. 802). A testemunha Leane Ferreira de Almeida, por sua vez, relatou que: “ouvi os gritos do Luiz Eduardo durante três dias, durante o período que as equipes comandadas pelo Major Ustra o torturaram.” Noticia também que, embora não tenha presenciado o momento da tortura de Luiz Eduardo, o requerido estava no local dos fatos. “Estava o Ustra. A coisa principal que ele estava fazendo naquele dia era torturar as pessoas que poderiam levar a uma pessoa que ele procurava muito fortemente; (…) Ele gritava esse nome pessoalmente enquanto ele era torturado no Pau-de-Arara. Parece um código, mas era o nome de um militante. O objetivo dele era chegar aos militantes. Quando eu não tive essa informação para dar, o Luiz Eduardo foi preso e passou a ser torturado na mesma sequência e sala que eu, durante três dias consecutivos. Todos os presos escutavam os gritos dele incessantemente, até sua retirada da Operação Bandeirantes, desacordado e colocado no porta-malas de uma carro. Isso foi visto por mim, no pátio do Presídio Bandeirantes, comandado pelo Major Ustra; colocado no porta-malas de um carro por quatro outros policiais da mesma equipe. Foi colocado no porta-malas do carro, desacordado. Parecia até que já morto.” 

"A brutal violência com que o requerido pautou sua conduta fez ainda mais gravoso o resultado final morte, dada a crueldade que, impingida a ente querido, acabou por atingir a esfera de dignidade das próprias autoras. A morte prematura por motivo político e com requintes de crueldade privou as autoras do convívio com seu companheiro e irmão, respectivamente. Por certo, a indenização almejada não será capaz de sanar a dor suportada pelas autoras, nem suprir-lhes a ausência do ente querido. Destina-se a minorar o intenso sofrimento. Muito se assemelham em seus objetivos a indenização aqui almejada e o trabalho da Comissão da Verdade, cujos integrantes foram recentemente empossados pela União. Como escreveu Flávia Piovesan em recente artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, edição de 6/5/2012: “Para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ‘toda sociedade tem o direito irrenunciável de conhecer a verdade do ocorrido, assim como as razões e circunstâncias em que aberrantes delitos foram cometidos, a fim de evitar que esses atos voltem a ocorrer no futuro’. O direito à verdade apresenta uma dupla dimensão: individual e coletiva. Individual ao conferir aos familiares de vítimas de graves violações o direito à informação sobre o ocorrido, permitindo-lhes o direito a honrar seus entes queridos, celebrando o direito ao luto. Coletivo, ao assegurar à sociedade em geral o direito à construção da memória e identidade coletivas, cumprindo um papel preventivo, ao confiar às gerações futuras a responsabilidade de prevenir a ocorrência de tais práticas"

sábado, 23 de junho de 2012

AS DIGITAIS DOS LATIFUNDIÁRIOS NO GOLPE NO PARAGUAI




Há muito ainda o que entender a respeito do golpe de Estado no Paraguai - e essa tarefa certamente não será cumprida se continuarmos recorrendo aos discursos e textos produzidos por Mervals, Azevedos, Jabores e quetais, que não escondem os sorrisos de contentamento e se apressam apenas em comemorar a queda de mais um presidente "esquerdista" na América Latina. É preciso romper esse cinturão reacionário - e, nesse sentido, as redes sociais e os blogs mais uma vez têm tarefa relevante (embora não suficiente) a cumprir. Para contribuir modestamente com esse movimento, recomendo uma leitura apurada e cuidadosa do documento acusatório apresentado pela oposição ao Congresso Nacional do país vizinho, que elenca as "justificativas" para a deposição de Fernando Lugo. No texto, são evidentes as digitais de rapina dos grandes fazendeiros paraguaios, a desenhar e pavimentar  o golpe. Eis uma das chaves para compreender o processo anti-democrático: Lugo inverteu prioridades e contrariou interesses de gente graúda. E bateu de frente com os circuitos privilegiados do poder. 

Diz um trecho emblemático do texto que "foi o governo do presidente Lugo o responsável exclusivo por instigar e facilitar as recentes invasões de terras na região de Ñacunday. A falta de respostas por parte das forças policiais diante das invasões dos sem-terra que não respeitam a propriedade representa apenas parcela desse comportamento cúmplice. O presidente Lugo tem usado  as forças militares para gerar um verdadeiro estado de pânico em toda a região, violando os direitos de propriedade. (...) E embora essas invasões se espalhassem por outros departamentos da República, Lugo se mostrava sempre com as portas abertas para líderes dessas invasões, dando mensagem clara à cidadania de seu apoio a esses atos de violência e aos delitos patrocinados por essas organizações. (...) Lugo submeteu as forças policiais aos interesses dos 'carperos' (sem-terra), que têm patrocinado todo tipo de abuso e agressão à propriedade privada".  

Chamo a atenção para a quantidade de vezes que se faz referência, de uma forma ou de outra, em pouco mais de dez linhas, "às invasões de sem-terra e às violações da propriedade privada". A repetição não é casual - ao tentar equacionar uma gravíssima chaga social vivida pelo Paraguai e colocar em marcha iniciativas de reforma agrária e de distribuição de terras, Lugo, que governava sem maioria no Congresso, deu a senha para que os fazendeiros colocassem o golpe em marcha. A roda reacionária já estava girando havia algum tempo. A morte de onze trabalhadores rurais e de seis policiais em uma reintegração de posse acontecida no último dia 15 de junho, em Curuguaty, distante 250 quilômetros da capital, fechou o cerco e colocou o presidente definitivamente na berlinda. A tragédia foi exaustivamente reverberada pela mídia oposicionista, a consolidar o clima de pânico e o discurso do "não há liderança, o país está acéfalo". Foi o suficiente para que os fazendeiros, em conluio com deputados e senadores oposicionistas, entrassem com o pedido de impeachment no Congresso, alegando "mau desempenho das funções" e jogando nas costas de Lugo a responsabilidade pelas mortes. 

O resto do roteiro - um jogo de cartas marcadas - já é conhecido: na quinta-feira, 21 de junho, a Câmara dos Deputados aprovou o pedido de abertura de impeachment; no dia seguinte, início da tarde, o Senado começou a julgar a solicitação. Lugo teve cerca de duas horas para apresentar sua defesa. Ao final da tarde, já tinha sido apeado do poder, e não era mais o presidente do Paraguai. Às oito da noite, o vice-presidente Federico Franco (que faz jus ao sobrenome), que já tinha cerrado fileiras com a oposição, tomou posse como novo mandatário máximo do país. Tudo isso durou cerca de 30 horas. "Não havia base suficiente para montar um processo de impeachment. O julgamento foi um fuzilamento sumário", registrou Clóvis Rossi, uma das poucas vozes midiáticas lúcidas até aqui, na Folha de São Paulo.

Sem eufemismos: o que aconteceu no Paraguai foi um golpe de Estado. 

Satisfeitíssimos com a nova realidade política, os latifundiários paraguaios, coordenados pela União de Grêmios de Produção (UGP), não tiveram o menor pudor ou constrangimento em simplesmente anunciar o cancelamento do tratoraço que estava marcado para a próxima segunda-feira, com objetivo de protestar contra a política agrária do governo Lugo. Sem esconder a felicidade, e ameaçadores, os fazendeiros mandam ainda recado aos líderes dos países que rechaçam o golpe: "os de fora não devem tentar interferir nos problemas internos do Paraguai".

segunda-feira, 18 de junho de 2012

DESISTE, ERUNDINA!

Agência Estado






São Paulo, 18 de junho de 2012
21h

Prezada deputada Luiza Erundina,

a senhora certamente não se recorda, nem poderia ser diferente. Mas, depois de fazer campanha e de comemorar sua vitória na eleição para a Prefeitura de São Paulo em 1988 (não votei, o voto aos 16 anos viria no ano seguinte), acabamos tendo um breve encontro no final de 1990 ou início de 1991 (a memória já não é tão precisa). Eu era um jovem estudante de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, passando do primeiro para o segundo ano. Havia pouco tinha conquistado meu primeiro emprego na área - estagiário do jornal "Folha Dirigida", especializado em concursos, recursos humanos e educação. Eu era um "foca", repórter iniciante, como dizemos no jargão da área. E fui escalado para acompanhar uma entrevista coletiva sua, no Parque do Ibirapuera (acho que era a sede da Secretaria de Administração), que anunciaria o projeto de criação das subprefeituras para a cidade de São Paulo. Fiquei tímido, confesso, quieto num canto, na presença de tantos colegas medalhões. Mas ouvi atentamente todas as suas falas e anotei todas as respostas. Ao final, a senhora estava tomando café e conversando com aqueles que eram, acho, seus assessores. Ousei me aproximar e, ressabiado, me apresentei. A senhora abriu um sorriso. Respondeu gentilmente todas as questões que fiz, durante quase meia hora, numa entrevista exclusiva que reafirmou em mim a convicção de que de fato estava em curso na cidade uma revolução administrativa - e de mentalidades.

Acompanhei seu governo com especial atenção, ora concordando, ora discordando, o que é normal em política. Mas sempre reconhecendo sua vontade incontida de fazer de São Paulo uma cidade solidariamente construída para todos, especialmente para os de baixo, as periferias, aqueles que não têm voz, nem vez. Inversão de prioridades, lembra-se? As elites brancas paulistanas ficaram inconformadas. Os mutirões de moradias nas franjas da cidade e o Movimento de Alfabetização de Adultos (MOVA) eram para mim retratos fiéis daqueles novos tempos. Não é sempre que se pode ter também no Secretariado figuras como Marilena Chauí, Paulo Freire, Helio Bicudo, Mario Sergio Cortella, Paul Singer, Ermínia Maricato, Dalmo Dallari. Por ser mulher, nordestina, petista, guerreira e sonhadora, por ouvir a senzala e não a casa grande, a senhora sofreu horrores com os preconceitos. Foi perseguida. Era comum, nas redações dos jornais (e sei disso por relatos de vários colegas), que as reuniões de pauta começassem com um sonoro "e aí, o que temos hoje contra a tia?". Campanha midiática orquestrada. Certamente a senhora não leu o último texto que publiquei aqui no Blog, que relata episódio que me marcou profundamente: no final da tarde do segundo turno, em 1992, quando seu candidato à sucessão era o atual senador Eduardo Suplicy, que tinha como adversário o nefasto Paulo Maluf, vi uma jovem militante malufista, na ilha que separa as duas pistas da avenida Paulista, a comemorar e gritar "Acabou, acabou! Não vamos mais ter que aguentar a nordestina nojenta e fedida!". Assim é o malufismo, minha querida ex-prefeita - o preconceito, a exclusão, a intolerância, a truculência, os privilégios, o retrocesso, a ditadura, a tortura, a Rota, as obras faraônicas superfaturadas para os ricos, a arrogância, o "rouba, mas faz", o "estupra mas não mata", o machismo...

E você (permita-me a informalidade) é diferente, Luiza, forjada em outras lutas. Você carrega na alma e no brilho dos olhos os sonhos de transformação do povo sofrido deste país. Você é sinônimo de honestidade e dignidade. Você é coerência. Você é a esperança de que a política não é só "mais um minutinho na televisão", mas a pulsação incontida e arrebatadora da utopia, de uma outra sociedade possível. Você é a representação das lutas contra a ditadura militar e pelos direitos humanos. É a mulher guerreira indomável, que não verga a espinha diante dos poderosos, das falas soberbas das elites. Enquanto muitos se perdem pelos (des) caminhos em negociatas e acordos espúrios, você resiste, insiste, nada contra a corrente. Enquanto muitos tornam-se pragmáticos e gerentes da ordem, você vem a público, ao ser escolhida vice na chapa petista, para dizer que "a classe trabalhadora não deve disputar apenas espaço de poder no Estado burguês”, afirmando que estava disposta a percorrer “favelas e cortiços para pedir votos", escancarando ainda, sem tergiversar, que "é o socialismo que garante a realização plena do ser humano. É em nome dessa utopia que estamos aqui.”  

Pois olhe bem para a imagem acima, Luiza. Eu sei, dói na alma, no fundo da alma. Intensamente. Certamente dói muito mais na sua alma. Você não merece estar nessa foto, Luiza. Por isso, o meu apelo: desiste, Erundina! Recue e recuse a possibilidade de ser vice-prefeita. Continuemos sonhando. Estaremos juntos. Mais uma vez. E não somos poucos.

Francisco Bicudo
     

domingo, 17 de junho de 2012

PARA MIM, CONTINUA VALENDO: "MALUF NUNCA MAIS".



Nestes quase 25 anos de carreira jornalística, fui processado uma única vez. Aconteceu em 1992, durante as eleições municipais paulistanas. O autor da ação? Paulo Salim Maluf. Eu trabalhava na assessoria de comunicação do Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO-SP), ainda como estagiário, e em companhia de dois brilhantes colegas - Violeta Marien, minha chefe desde sempre muito querida e exemplo de competência e de caráter, e Nelson Breve, àquela época também estagiário, e atualmente na presidência da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com quem muito aprendi sobre a arte da nossa profissão. 

Em uma das edições do "Jornal dos Professores", editado pelo Sindicato, já no segundo semestre daquele ano, publicamos uma reportagem que resgatava o passado e a trajetória política de Maluf, então candidato à Prefeitura paulistana, na sucessão da prefeita Luiza Erundina (o candidato do PT era o atual senador Eduardo Suplicy). Jornalismo feito com espírito público, como exercício narrativo que garante o pleno direito à informação. 

Mas Maluf não gostou do que leu no JP (como carinhosamente chamávamos o jornal). Decidiu nos processar por calúnia e difamação. A matéria, no entanto, apenas trazia à tona fatos de pleno conhecimento público e estava sustentada por apuração bem feita e por documentos. Lembro-me que o Sindicato chegou a ser visitado pela Polícia Federal, que pretendia apreender a edição do jornal antes que fosse distribuído (se não me falha a memória, o fato aconteceu na tarde de 29 de setembro, dia da votação do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, quando a sede estava às moscas. Por isso, os jornais puderam ser posteriormente enviados aos professores). Recebemos da diretoria do Sindicato todo respaldo político e jurídico. Não demorou muito e a Justiça nos deu ganho de causa - a ação foi considerada improcedente e fomos absolvidos. Esta aí um processo do qual me orgulho.

Naquele mesmo ano, no dia do segundo turno da disputa municipal (acho que ainda ocorria em novembro), eu e um amigo acordamos bem cedo e passamos a manhã e o início da tarde fazendo campanha para Suplicy nas franjas do bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Estivemos ainda na Vila Mariana e, por volta das cinco horas, com as urnas fechadas, decidimos caminhar até a avenida Paulista, mais precisamente até o edifício da Gazeta, tradicional ponto de encontro da militância petista na cidade (pausa para um suspiro nostálgico). Andávamos cabisbaixos, irritados, os boatos sobre as pesquisas de boca-de-urna já indicavam vitória acachapante de Maluf. Na verdade, tínhamos consciência da derrota desde muito antes; ainda assim, fomos às ruas, porque entendíamos que a disputa não era apenas momentânea, eleitoral, mas de fundo, política, de projetos ideológicos. 

Quando estávamos chegando ao número 900 da Paulista, na ilha que separa as duas pistas da avenida, veio correndo em nossa direção (estávamos com bottons, bandeiras, adesivos e camisas do PT) uma típica eleitora malufista, toda saltitante, com uma bandeira na mão, e gritando despudoradamente para quem quisesse ouvir: "Acabou, acabou! Não vamos ter mais que aguentar essa nordestina nojenta e fedida! Não vamos mais aguentar esses petistas baderneiros". Referia-se à prefeita Erundina e ao PT que ainda botava medo nas elites brancas paulistanas. Minha reação e do meu amigo foi imediata e não precisou ser combinada: paramos os dois na frente dela, a um palmo de distância, rostos quase colados, sem dizer uma palavra. Mas nossos olhares foram tão fulminantes e cortantes e nossas expressões fechadas e ariscas estiveram tão carregadas de significados e mensagens que a garota murchou na hora, recolheu a bandeira e continuou caminhando em silêncio. 

Recorro a estes dois episódios para minimamente tentar resgatar e lembrar aos incautos e desavisados o que representa a figura pública chamada Paulo Maluf e quais são os valores políticos consagrados pelo malufismo. Para mim, é impossível esquecer que o filhote da ditadura, como muito bem definiu o saudoso Leonel Brizola, fez carreira a partir de sua estreita associação e colaboração direta com o regime dos militares e dos torturadores. Foi cúmplice ativo do arbítrio. Enquanto os militantes de esquerda morriam nos porões da ditadura, Maluf assumia a condição de liderança política nacional. 

É típico representante do "rouba, mas faz", idealizador do "estupra, mas não mata", autor do "professora não é mal paga, é mal amada". É o administrador das faraônicas obras superfaturadas pensadas para beneficiar as elites e os bairros nobres da cidade, ignorando solenemente as carências e as necessidades dos mais pobres e das periferias. Tem ojeriza à pobreza. É o gerente higienista que demoniza e persegue movimentos sociais, que criminaliza greves, incentivador das práticas assassinas da Rota e das mais diversas e torpes formas de violações de direitos humanos, expoente de um conservadorismo intolerante e excludente, de uma cidade para poucos, de uma "democracia" restrita e limitada (apenas para os ricos, limpinhos e bem vestidos), além de machista (o "dona" Marta não nasceu por acaso) e preconceituoso. 

Sou de um tempo em que a gente ia para as ruas fazer campanha usando bottons e distribuindo panfletos onde se lia "Maluf nunca mais!" (usei o que está estampado na foto acima naquela campanha de 1992). Também sou de um tempo em que o PT dizia, na voz de Marta Suplicy: "Cala a boca, Maluf!". Pois estou ficando velho. Ultrapassado. Anacrônico, como diria o companheiro Fernando Amaral. Porque, para a disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2012 (exatos vinte anos depois de processado pela matéria no JP e da garota ignorante na avenida Paulista), Paulo Salim Maluf acaba de selar aliança com o PT e irá apoiar Fernando Haddad!

Está certo, vá lá, o PP, partido de Maluf, já faz parte da base aliada do governo federal, comanda inclusive o Ministério das Cidades, ou seja, a besta-fera política foi gestada há algum tempo e já não deveria representar surpresa. Para alguns, é até normal, consequência lógica, natural, por que o estranhamento? Fico arrepiado. E, penso, há nesse episódio específico algumas nuances que o transformam em uma tragédia marcada por requintes ainda mais carregados de crueldade.  

Primeiro porque estamos falando da cidade de São Paulo, berço do malufismo - e, por relação dialética, também da resistência ao malufismo, representada sobretudo pelo PT, que agora já não tem mais vergonha em se aliar formalmente ao antigo algoz. Sou também de um tempo em que os palanques do PT e do malufismo eram antagônicos, não se misturavam. Desta feita, não dá nem para tentar dourar a pílula e dizer que se trata de "aliança conjuntural entre partidos", porque a negociação aconteceu na planície, foi personalizada e travada diretamente com Paulo Maluf, que recebeu em troca inclusive a prerrogativa de indicar o Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, além da promessa de influência efetiva na administração municipal, em eventual vitória de Haddad. Mais: houve escrachado e escancarado leilão pelo passe de Maluf, que ameaçava apoiar José Serra, mas acabou fechando com o PT, porque a oferta certamente lhe foi mais vantajosa. O PT brigou firme e pesado pelo apoio de Maluf... O acerto entre cavalheiros é de dar engulhos: para não melindrar a militância e eleitores mais resistentes ao acordo, Maluf será "escondido" durante a campanha. Mas o PT agradece lisonjeado os minutos extras de televisão. Rasteiro. 

Por fim, cabe lamentar o fato de a aliança com o malufismo ter sido anunciada no mesmo dia em que se oficializou o nome de Luiza Erundina como candidata à vice-prefeita na chapa de Haddad. Confesso que por uma fração de segundo ousei esboçar um tímido sorriso, na esperança de que a presença de Erundina pudesse de fato ajudar a colocar a disputa paulistana em outro patamar. Porque a ex-prefeita tem estatura política para tanto - e por ela guardo especial carinho e profundo respeito e admiração. Durou pouco. Quase nada. Porque o passo adiante foi imediatamente sucedido por quatrocentos pulos para trás. Maluf junto com Erundina? Retrocesso doído. Na hora, só pude me lembrar da garota malufista que na Paulista, em 1992, gritava contra a "nordestina nojenta e fedida". 

Lamento, minha querida ex-prefeita, mas, como escreveu no facebook o Fernando Amaral, camarada de tantos outros carnavais e disputas políticas, com Maluf não dá - e, ainda nas palavras do Amaral, "exigir que se engula esta 'aliança' estratégica em nome de qualquer bom princípio não é ingenuidade, é pura crença de que as pessoas perderam mesmo qualquer capacidade de pensar, a visão crítica e, sobretudo, o juízo".

quinta-feira, 14 de junho de 2012

SOBRE SANTOS X CORINTHIANS

Prefiro sempre esperar passar o calor do jogo para escrever, deixar a adrenalina diminuir. Para tentar ser pelo menos um pouco mais equilibrado, menos apaixonado. Ninguém gosta de perder. Saí do estádio ontem bastante irritado. Passei a noite em claro. Quem me conhece sabe que sou torcedor do Santos desde antes de nascer. Mas não sou cego, nem burro. E o Corinthians foi bem superior ontem, principalmente no primeiro tempo. Teve a posse de bola, marcou a saída do Santos. Emerson fez um belo gol. E, como era esperado, o time administrou a partida no segundo tempo, mesmo quando ficou com dez. É verdade, virou ataque contra defesa, mas era um ataque pouco produtivo ou criativo, que em raras oportunidades conseguiu se aproximar da área adversária, e que começou a fazer cruzamentos desesperados para os dois atacantes, principalmente Alan Kardec, mais alto. Nas poucas chances do Santos, Cássio apareceu bem. Confesso que não gosto do estilo de jogo do Corinthians (que, aliás, é bastante diferente da proposta do Chelsea), mas essa é outra discussão. Há que se reconhecer que é uma estratégia muito eficiente, treinada - é a treinabilidade, como diria Tite. É um ferrolho defensivo, compacto, bem armado, que se entende por olhares, com uma dupla de volantes para lá de competentes, dois meias experientes e habilidosos (e tem são-paulino que ainda xinga o Danilo...) que ainda se dedicam a marcar e dois atacantes que não guardam posições fixas e que cumprem funções táticas importantíssimas (ontem, Jorge Henrique ajudou a acompanhar Neymar). O time marca poucos gols, mas não leva. Na minha velha cadeira cativa da Vila Belmiro, eu me perguntava ontem o que faria se estivesse jogando... porque não havia espaços para o Santos. A bola rodava, rodava, rodava, ia de uma lateral a outra, voltava para o zagueiro, o Ganso olhava, o Arouca tentava, o Neymar recuava, e não havia espaços. Não tinha profundidade. Não tinha tabela. Não tinha jogada de linha de fundo. Não tinha lançamento. Sim, o Santos jogou muito menos do que pode, mas não só porque estivesse em má jornada, o que é verdade, insuficiente para entender o que aconteceu. O Santos não jogou porque o Corinthians não deixou. Há que se reconhecer méritos do adversário. E, perdão, mas às favas com os chororôs - dos dois lados - sobre a arbitragem. O juiz fez o que tinha de fazer. Teve critério. O próprio Emerson reconheceu que a expulsão foi justa. Não teve qualquer interferência no resultado da partida, que foi disputada de forma dura, pegada, como bom jogo de futebol. Mas foi leal. Ainda tem o jogo de volta, claro, vou sofrer mais um pouco e passar mais uma noite em claro, perdendo ou ganhando. Mas acho que o Corinthians leva - e chega ao título, o que representará uma conquista justa. Por fim, aos que estão entupindo minha caixa com agressões, ofensas e palavras estúpidas, só posso dizer que lamento profundamente. Jamais, em tempo algum, agi dessa maneira. Não faz parte da minha personalidade, da minha índole. Vale por fim dizer que brincadeira sobre futebol é algo bastante diferente e saudável. Mais inteligente também. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A AUSÊNCIA DE MARTA E O CACIQUISMO LULISTA

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT paulistano ficaram acabrunhados, macambúzios e irados com a senadora Marta Suplicy. A ex-prefeita de São Paulo, depois de ter confirmado participação, deu o cano na convenção que oficializou o ex-ministro Fernando Haddad como candidato petista à disputa pela prefeitura de São Paulo. Marta sumiu, não deu inicialmente satisfações, desligou o celular - o mesmo fizeram seus assessores. No dia seguinte, alegou "motivos particulares" para a ausência. E ponto. Nada mais. Restaram aos organizadores da festa os sorrisos amarelos e as evasivas constrangidas, além de praticamente terem jogado a toalha para aceitar, de forma resignada, que a campanha terá mesmo de acontecer sem o apoio de Marta.

Não penso honestamente que dizer "sim, irei" para depois simplesmente sumir do mapa tenha sido o comportamento político mais adequado e equilibrado. De certa forma, reforça características marcantes e definidoras da personalidade de Marta, responsáveis inclusive, em boa medida, por derrotas eleitorais recentes: a arrogância e a soberba, o "umbiguismo" exacerbado. Entendo também que a última campanha dela à Prefeitura, em 2008, foi marcada por escolhas e decisões lamentáveis e desastrosas, que culminaram com aquela preconceituosa peça publicitária que peguntava se Kassab "era casado, se tinha filhos". Também tenho dúvidas se Marta seria a opção política (não apenas eleitoral) mais adequada para a disputa que se anuncia, capaz de agregar e de construir um projeto com condições de enfrentar ideologicamente e programaticamente o higienismo excludente, anti-social e cheio de proibições do kassabismo-serrismo. 

O fato, no entanto, é que a maioria do PT paulistano, sucumbindo aos apelos e ditames messiânicos do ex-presidente Lula, atropelou a ex-prefeita e detonou a pré-candidatura de Marta, impedindo-a de fazer valer um direito legítimo e democrático de qualquer filiado de qualquer partido - o de disputar as prévias que escolheriam o candidato da agremiação. A mão de ferro lulista foi implacável, sufocando resquícios de democracia interna e tirando coelho da cartola, sem espaços para divergências ou contestações.

É verdade, vamos lá, política não se faz com o fígado. Racionalidade é fundamental. Mas princípios e dignidade não podem ser abandonados pelas esquinas. Não há quem consiga me convencer que o líder comunista Luis Carlos Prestes agiu corretamente ao apertar a mão de Getulio Vargas, apoiando-o nas eleições presidenciais de 1950, depois de ter sido ele próprio, Prestes, vítima do autoritarismo getulista (passou quase dez anos preso), sem contar a deportação de Olga Benário para a Alemanha nazista, onde acabaria assassinada no campo de extermínio de Bernburg. Lembro do episódio para voltar à prefeitura paulistana e dizer que compreendo ser legítimo o direito de Marta de manter-se afastada da campanha, depois de, insisto, ter visto suas pretensões terem sido implodidas pelo caciquismo e coronelismo internos. 

Ora, quem agiu dessa maneira, truculenta e autoritária, imaginou mesmo que bastaria um estalo de dedos e uma nova ordem do grande líder para que Marta se engajasse automaticamente à campanha de Haddad, aparecendo sorridente ao lado dele nas fotos de campanha? As pontes foram implodidas, a interlocução caducou. Terão de ser cuidadosamente reconstruídas - e tal processo não poderá ser pautado por bravatas ou ameaças veladas, ao contrário, deveria ser conduzido com muita paciência. Pode levar mais tempo do que deseja o PT. É o ônus, o preço de uma escolha. Atordoado, o PT sabe que não tem esse tempo, e reconhece que a presença de Marta nas periferias da capital é fundamental para ajudar a levantar a candidatura Haddad. Noves fora, parte para a desqualificação.

Reside aqui a essência do texto, a discussão de fundo que pretendo sugerir: para além das picuinhas e arranca-rabos entre Marta Suplicy e Lula/PT, o que se lamenta é que o episódio todo sirva para reforçar, mais uma vez, que o PT se transformou em um partido como outro qualquer, onde decisões importantes são tomadas unilateralmente, por um líder carismático que tem inegavelmente sua importância histórica, mas que se julga com infalível capacidade de avaliação política, acima do bem e do mal, isento de erros, e que não aceita ser contrariado. Alguém que confia cegamente em seu faro político apurado - e que, mesmo quando está nu, é elogiado por seus companheiros.

O PT transformou-se num exército da vontade de um homem só. O lulismo engoliu o petismo, tal qual uma ameba a fagocitar o pedaço de alimento que encontra. Se era para renovar, que tal movimento viesse explicitado e legitimado pelo desejo manifesto das bases, que a militância tivesse tido a oportunidade democrática de dizer, no debate interno, "Marta, agradecemos seu governo, reconhecemos os avanços e conquistas, mas é hora de apostar na oxigenação do partido em São Paulo, é a hora do Haddad". 

Parece tarefa mais fácil, no entanto, crucificar e demonizar Marta (que tem seus defeitos e erros políticos, reforço) e dizer que "ao não comparecer à convenção e ao não apoiar Haddad, ela faz o jogo do Serra". Não vou ficar admirado se alguém comentar por aqui que, com este texto, estou alinhado com o pensamento do PIG - o Partido da Imprensa Golpista. Compra-se mais uma vez, sem qualquer espírito crítico ou de independência intelectual, a reducionista e obsessiva análise lulista - "quem não concorda com tudo o que o chefe diz e faz está contra ele e é aliado dos tucanos". Tão tosco quanto falso. Até porque, cabe lembrar, Marta não é a única vítima dos tentáculos lulistas neste processo eleitoral de 2012. Os diretórios do PT nas cidades do Rio de Janeiro e de Recife que o digam. 

domingo, 3 de junho de 2012

PITACOS SOBRE A SELEÇÃO BRASILEIRA



Costumo ver jogos de futebol - do Santos e da Seleção Brasileira, sobretudo, e por razões óbvias, mas também de tantos outros times e países - trocando mensagens com meus irmãos e com outros vários queridos companheiros, numa espécie de mesa-redonda que acontece via celulares, freneticamente, aproveitando potencial oferecido pelas novas tecnologias. Nem de longe temos a menor pretensão de atuar como comentaristas especializados, há na maioria das vezes mais divergências que consensos, mas é divertido, uma brincadeira que muitas vezes sugere reflexões inteligentes e respeitabilíssimas, de gente que adora futebol e que acompanha o esporte desde a tenra infância. Trago para cá, assim, alguns dos pitacos que torpedeei durante o jogo do Brasil contra o México.

Óbvio ululante, recorrendo ao inesquecível e genial Nelson Rodrigues: a seleção esteve apática e sem criatividade ou inspiração alguma neste domingo, mas penso que a expectativa criada por conta dos jogos contra Dinamarca e Estados Unidos, quando o Brasil apresentou-se bem (coletivamente e também com alguns destaques individuais), foi exagerada e fez também o tombo ser um pouco mais dolorido. Aqui, aliás, reside aquele que me parece ser um dos problemas da relação que se estabelece com a Seleção: vivemos de narrativas que são construídas como ondas, onde um lampejo de lucidez e dois bons jogos já são suficientes para alçar o Brasil à condição de grande favorito para qualquer conquista; em contrapartida, derrotas e jogos ruins são sinônimos da caça às bruxas e de "avisei, nada vai dar certo, a Copa já era, é uma seleçãozinha mesmo". Transitamos de um extremo a outro, santificando e demonizando, comemorando efusivamente ou detonando com raiva e desprezo.

No jogo de hoje, penso que ficou mais uma vez escancarado que o Brasil não sabe enfrentar uma equipe que procura fazer o mesmo jogo que o Brasil faz: marcar sob pressão, tentar recuperar a bola com rapidez, para pegar o adversário desarmado e desarrumado na defesa. Dinamarca e Estados Unidos assustaram-se com essa estratégia e passaram rapidamente a rifar a bola, que queimava nos pés dos defensores. O Brasil controlou os jogos e triunfou, de forma relativamente fácil, inconteste, sem sustos, principalmente contra os estadunidenses. O México entrou em campo para espelhar o Brasil: posse de bola, marcação forte, passes rápidos e chegada constante ao ataque, aproveitando a velocidade dos leves atacantes. A Seleção confundiu-se, entrou em parafuso. E o drama maior é que esse é o único estratagema idealizado por Mano Menezes. Se não dá certo... Guardadas as devidas proporções e opções distintas, é algo parecido com o que acontecia com a Seleção comandada por Dunga,  que era praticamente imbatível quando aguardava o adversário em seu campo, preparava o bote e avançava em contra-ataques mortais. Se o adversário decidia esperar no próprio campo, quanto sofrimento.

Minha impressão também é que Mano continua muito preso e enroscado com o esquema que idealizou quando comandava o Corinthians. Chegou a ser vencedor por lá, mas... Oscar faz o papel de Douglas, Hulk assume a função de Jorge Henrique, Damião finge que é Ronaldo e Neymar cumpre o que era tarefa de Dentinho. São pinos que ocupam lugares específicos e faixas quase imutáveis de atuação em campo. Não ousem rodar, trocar, transitar, confundir - essa parece ser a ordem que vem do banco. Tornam-se presas fáceis para a defesa adversária, com um agravante: os volantes da Seleção nem de longe conseguem funcionar como elementos que surpreendem e desmontam retrancas, chegando ao ataque com qualidade e precisão. Foi assim que Mano resolveu muitos jogos quando comandava o Corinthians, com Cristian e Elias. 

O que me parece mais grave, no entanto, é que dois anos praticamente já se passaram e Mano continua fazendo testes, experimentando. E o tempo urge. Depois de Londres, a Copa estará no horizonte. Será preciso treinar o time, não mais procurá-lo. Mas de qual time falamos mesmo? No gol, por méritos e por falta de alternativa, parece que o titular será mesmo Rafael. Nas laterais, Daniel Alves e Marcelo têm presença garantida. O zagueiro e capitão será Tiago Silva. No ataque, Neymar é barbada. E paramos por aqui. Dois anos antes da Copa, Mano tem cinco jogadores definidos. Quem é o outro zagueiro da Seleção? E os dois volantes? Os dois meias? Por fim, quem é o matador, o artilheiro, o centroavante do Brasil, aquele que vai decidir? Mano não sabe. Aqui, insisto, há motivo de sobra para preocupação.

E não adianta jogar a bola para o Neymar correr, nem atribuir a ele a responsabilidade pelas derrotas. É craque, menino prodígio, brilhante, capaz de lances e de jogadas que nem de perto passam pelo repertório de tantos outros bons jogadores. Mas não é perfeito, infalível, enfrenta e vai continuar enfrentando jornadas ruins, apagadas, bons marcadores. Na Seleção, por conta do esquema, não rendeu o que rende no Santos. Messi também é duramente criticado pelos hermanos por não atuar na Argentina como joga no Barcelona. Aqui, funciona novamente a narrativa maniqueísta em ondas: do céu ao inferno, do "quase Pelé ao só joga mesmo na Vila Belmiro". Bobagem. Aliás, Zico, Falcão, Careca, Sócrates, Romário, Ronaldo, Gaúcho, Raí e tantos outros também fizeram partidas que certamente desejam esquecer. Nem por isso deixam de ser gênios, monstros do futebol. Maradona refugou, falhou. Messi esteve muito aquém do que pode nos dois jogos do Barcelona contra o Chelsea, pela Copa dos Campeões da Europa. Teve provavelmente a bola do jogo nos pés. Desperdiçou o pênalti. Nem por isso deixa de ser, disparado, o melhor jogador do mundo, o melhor que vi jogar. Assim é o futebol.

Por fim, escrevi no Facebook durante o jogo, trago para cá: com todo o sincero e honesto respeito, sei que vem bordoada, mas acho no mínimo curioso esse "não torço para a seleção da CBF". Sim, há uma infinidade de bobagens e de desmandos, autoritarismos dos quais discordo profundamente, e é preciso mesmo criticar o futebol jogado até aqui pelo Brasil (ou a ausência dele). Acho legítimo torcer para a Argentina, para a Espanha, para o bom futebol - e até torcer contra o Brasil, 'porque não gosto desse futebol, não me encanta, não consigo mais ter empatia com o time, os jogadores são na maioria de times estrangeiros, o escrete não joga mais por aqui, prefiro os clubes...'. Não defendo nacionalismos ufanistas. Mas, insisto, o "da CBF" não cola. Porque, por exemplo, o Campeonato Brasileiro também é da CBF, muito da CBF, mais do que sempre da CBF, com todas as barbaridades que isso significa, e aí todo mundo acompanha, sofre, vibra, torce, faz bolão, tira sarro do amigo... e comemora o título, quando o time ganha. Não me lembro de alguém mandar devolver a taça de campeão brasileiro na rua da Alfândega, só porque era o "campeonato da CBF".