domingo, 30 de outubro de 2011

OBRIGADO, NEYMAR! O SÁBADO DO DANIEL FICOU MUITO MAIS FELIZ!

Foto - Blog do Odir Cunha - www.blogdoodir.com.br


Era aniversário da mãe. Ele acordou umas oito horas - mais tarde que o normal. Estava quieto, incomodado, macambúzio. Uma carranca que ele não costuma carregar. Não tinha parada - andava de um lado para outro, como se procurasse algo. Tenta de cá, observa de lá, a mãe finalmente fulminou: "filho, você está nervoso com alguma coisa, preocupado?". Ele admitiu: "quero que o jogo do Santos chegue logo". Os ingressos já estavam comprados. Era dia de ver Neymar no Pacaembu. 

No almoço de comemoração, o humor melhorou um pouco, depois que ele comeu um espetinho de linguiça - e outro de coração de frango. Até me convidou para explorar o restaurante, apresentando e descrevendo cada objeto que encontrava pelo caminho. Mas não demorou muito e a carranca voltou - a mãe ganhou de presente uma camisa listrada do Corinthians. Ele saiu de lado, olhar desconfiado. Aproximou-se em silêncio de mim e disse: "pai, vamos embora. Quero colocar meu uniforme do Santos". Era preciso empatar aquele jogo de camisas.

Mais tarde, já devidamente uniformizado, enfrentou sem resmungar uma fila para lá de razoável, até que conseguíssemos chegar ao portão 17, que nos dava acesso às cadeiras laranjas do Pacaembu. Permanecia em silêncio, mas não era mau humor - era concentração, daquelas que só os torcedores de verdade conhecem. Assumimos nossos lugares a tempo de conseguir cantar os nomes dos jogadores - sinfonia que ele adora, e que entoamos juntos no carro, na volta da escola, e na hora do almoço (para desespero da mãe e da irmã). "Está cheio, né, pai?", animou-se, esboçando um sorriso ainda tímido. Adorou cantar o "vai para cima deles, Neymar", várias vezes. Segurou firme minha mão, apertando mesmo, quando o craque com o cabelo moicano loiro correu para a bola, para bater o pênalti, com menos de cinco minutos de jogo, e bem na nossa frente. "Gol!", gritou o estádio. Ele sorriu.

"Pai, o Arouca está jogando na lateral. O Adriano está marcando bem. Esse time do Atlético só bate! O Neymar é o melhor em campo. Por que o Rentería não chutou?". Um pouco mais solto, o Pequeno assumia ares de comentarista. Via bem o jogo. Te cuida, PVC! Só ficou assustado quando o estádio se revoltou com o gol legal de Neymar (que ele tinha comemorado pulando na cadeira), depois anulado pelo árbitro. Tentando escapar das vaias e do barulho ensurdecedor feito pela torcida, aninhou-se no meu colo, lábios tremendo, quase chorando, e me perguntou: "Pai, por que ele anulou o gol? Vai dar tudo certo?". Dei um beijo nele e respondi: "Vai". É, filho... torcer não é fácil.

Acalmou-se no intervalo, divertindo-se com as peripécias do Baleinha e do Baleião, os bonecos-mascotes que são responsáveis por distrair a torcida enquanto os jogadores retomam o fôlego. Voltou a olhar preocupado para mim, sem dizer uma só palavra, quando o Atlético empatou. Pulou com o segundo gol de Neymar. Comemorou o terceiro cerrando as mãos e erguendo os braços. E abriu finalmente um sorriso largo e impagável quando o craque fez o quarto. "Que golaço, pai". Abracei forte o Pequeno.

Sem mais carrancas, aproveitou a festa. Neymar deitava e rolava no campo - dribles, arrancadas, pedaladas, lançamentos. Como joga fácil. Futebol para ele é algo tão simples. Craque. Nas arquibancadas, o Pequeno respondia participando da "ola", que ia e vinha. Cantou o hino, empolgando-se no trecho que diz "nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter". Adorou ouvir a torcida gritando "olé". Leve, solto, calmo, arriscou até um "pai, falta muito para acabar?". Para ele, os 4 x 1, com quatro gols de Neymar, já estavam de bom tamanho. Para que mais?

Quando o árbitro apitou o final da partida, levantou e bateu palmas. Pediu: "pai, tira uma foto do bandeirão". Na saída, já na rua, queria uma camisa do Rafael. Não encontramos. Prometi procurar. "Então quero uma número 11, do Neymar". Fiquei de comprar. No elevador do prédio, perguntou: "quando é o próximo jogo?". Entrou em casa correndo, para alegria da mãe. Não demorou muito e já estava no quarto, jogando seu tradicional futebol de bexiga. Antes de dormir, ainda vimos na internet os melhores momentos do jogo. "Nossa, foi um golaço, né, pai?", comentou novamente, sobre o quarto gol. Foi dormir feliz.

O jogo contra o Atlético/PR foi o décimo primeiro que Daniel viu no estádio. O saldo é espetacular: dez vitórias e apenas um empate - ou seja, está invicto. Foram 30 gols a favor e só cinco contra. Viu a estréia do Neymar, em 2009. Viu os 9 x 1 contra o Ituano. Viu Giovani fazer gol - e jogar ao lado de Neymar e de Robinho. Viu o maestro Ganso em noite de gala. Viu Neymar fazer quatro gols na mesma partida. Já esteve na Vila Belmiro e no Pacaembu. Só não tive coragem ainda de levá-lo a finais. Mas, como ele é pé quente, estou pensando em mandá-lo para o Mundial, no Japão...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PORTAL G1 (GLOBO) DESMENTE A VEJA



QUE O LEITOR TIRE SUAS PRÓPRIAS CONCLUSÕES...

Revista Veja, edição 2239, 19 de outubro de 2011


Portal Veja, blog do Ricardo Setti, acesso em 24 de outubro de 2011




Portal G1, Globo, editoria de Política, acesso em 24 de outubro de 2011


"A ONDA" - O FASCISMO ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE

Capa do filme A onda

Por conta de uma aula em que conversei com os alunos sobre o avanços da extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa, acabei revendo o filme "A Onda" (2008, dirigido por Dennis Gansel, 106 minutos de duração). A narrativa já tinha me impressionado à época de seu lançamento (lembro-me que, ao final da trama, um aperto na garganta, fiquei em silêncio por algumas horas, remoendo os acontecimentos nela retratados). Torna-se ainda mais incômoda e impactante, se considerarmos as mudanças planetárias e as crises vividas nos últimos três anos e o consequente surgimento e a consolidação de movimentos fundamentalistas como o Tea Party estadunidense e as ações intolerantes patrocinadas por governos e agrupamentos políticos conservadores em diversos países europeus. "A Onda" permite ainda identificar registros de discursos e práticas fascistas que infelizmente reverberam com contornos cada vez mais nítidos também no Brasil.  

A história começa com um professor de ensino médio na Alemanha bastante desinteressado de sua profissão e desgostoso de suas aulas, que fica ainda mais frustrado quando é informado pela direção do colégio onde leciona que será o responsável por trabalhar em sala o tema "Autocracia" (seu desejo confesso era discutir "Anarquia"). Na outra ponta, encontrará alunos tão acomodados quanto perdidos, para quem estudar tornou-se uma tarefa sem importância ou significados. Para eles, a escola é sinônimo de obrigação enfadonha, um espaço chato e por quem manifestam solene desdém. Há uma cena ilustrativa dessa postura: em uma festa, dois jovens conversam e admitem: "a gente só quer diversão. Contra o que vamos nos revoltar? A falta de perspectivas é a marca da nossa geração".

O debate em classe começa como reflexo dessa dupla negação - um professor sem vontade e um grupo de alunos que só faz chacotas. Burocraticamente, o educador lança a pergunta: o que é autocracia? Continua: corremos risco de reviver na Alemanha um governo com poderes ilimitados? Resposta pronta dos estudantes, ligados no piloto-automático: claro que não, é impossível, aprendemos com o nazismo, estamos além disso, nossa democracia é sólida. Mas, quando cita os pilares fundadores de um regime autoritário - vigilância, disciplina, nacionalismo extremado, liderança, controle - e apresenta as condições sociais que favorecem o surgimento de tais experiências políticas - desemprego, inflação -, o professor percebe que   o grupo sai do estado de letargia e começa a debater, com entusiasmo. A isca tinha sido mordida. O professor percebe de imediato o que havia conseguido. Sugere dez minutos de intervalo. Pensa, andando de um lado para outro. A caixa de Pandora estava aberta.

Na volta à sala, os alunos encontram as mesas rigorosamente alinhadas e ordenadas em fileiras. Duplas tinha sido formadas - na imensa maioria das vezes, eram estudantes que não se suportavam. "Somos um grupo. É preciso pensar coletivamente. Um vai ajudar o outro. Espírito de equipe", justifica o educador. Mais uma ordem: ninguém fala sem autorização do professor (eleito pela turma o líder da equipe). Para falar, é preciso estar em pé, sempre. Ao final da aula, os olhos dos jovens brilham. Havia agora um rumo, um farol a seguir, unidade. "Foi uma energia estranha, que pegou todo mundo", comentaram em casa.  

O que se segue é a construção da identidade do grupo, os laços de pertencimento: marchas (o som dos sapatos sincronizados e ritmados batendo no chão da sala de aula é ensurdecedor; inevitável não lembrar das apresentações e dos desfiles militares nazistas), uniformes (todos de camisetas brancas e calças jeans), valores e código de conduta, gestos e saudações, símbolos visuais e, claro, o nome do movimento - "A Onda". Para disseminar a ideologia, recorrem às novas tecnologias e às redes sociais (de certa forma, o filme antecipa o potencial de mobilização que mais tarde internet e celulares viriam a desempenhar). 

Surgem os confrontos de rua com grupos anarquistas. Adesivos de A Onda são grudados em carros, nas vitrines de lojas, bancos e supermercados. Invadem a cidade. Na calada da noite, sem temer a polícia, um aluno escala os andaimes da prefeitura em reforma e, no topo do edifício, desenha uma gigantesca onda estilizada (assumida como o símbolo do grupo). Não há mais limites para o movimento, consolida-se a sensação de que são invencíveis, de que tudo podem e está ao alcance deles. O professor, o líder (o führer?), conquista finalmente não apenas o respeito, mas a reverência e admiração de seus comandados. Manipula para tirar vantagem e aproveita os dias de fama, já que o projeto que desenvolve com os estudantes é elogiado até mesmo pela direção da escola. Sim, há quem perceba que "a Onda se transformou em algo muito estranho". As duas alunas são imediatamente ignoradas, excluídas e perseguidas pelos adeptos do movimento, que cresce sem parar, conquistando inclusive o apoio de crianças. 

As cenas finais são arrebatadoras - lentamente, a porta se abre e o professor-líder entra em um auditório lotado pelos camisas-brancas de A Onda. Ele lê trechos de textos e impressões produzidas pelos próprios alunos a respeito do movimento, que afirmam que "saímos do tédio, alcançamos significados para nossas vidas, somos todos iguais, temos ideais pelos quais lutar". O espetáculo lembra as gigantescas manifestações nazistas - em clima de histeria coletiva, em êxtase, a plateia explode em gritos e aplausos de aprovação a um contundente discurso anti-globalização do professor, que vocifera: "Podemos tudo. Podemos escrever a história. A Onda é a resposta". Ele pára, repentinamente. E surpreende: "pois acabou. Não há mais A Onda. Fomos longe demais. Recriamos o fascismo". Arrependido, pede desculpas. Mas era tarde demais. A Onda tinha saído de seu controle. Não lhe pertencia mais.     

Importante lembrar que tudo isso acontece em apenas uma semana - é o que basta para o professor conseguir despertar o sentimento reacionário adormecido e chocar o ovo da serpente. Certamente não há modelos prontos e a simples transposição para a realidade seria um exercício intelectual reducionista, mas o filme é fonte de inspiração e referência obrigatória para refletir sobre o fundamentalismo, o racismo, a aversão aos imigrantes, o nacionalismo exacerbado que representa a negação de todos os diferentes, o ódio aos homossexuais, a intolerância e os preconceitos de todas as naturezas - discursos e práticas que se amplificam perigosamente nos Estados Unidos (onde o Tea Party defende que o Estado obedeça a preceitos bíblicos), em países europeus (proibição de uso de véus islâmicos na França, restrições aos imigrantes africanos na Itália, atirador norueguês a rechaçar e condenar o multiculturalismo) e também no Brasil (onde nem mesmo a economia em expansão e a estabilidade política conseguem mascarar suásticas pintadas nos muros de escolas, violência contra casais de homossexuais e ojeriza a negros e nordestinos).   

E para quem acha que há exageros em minhas preocupações, que não há mesmo mais espaço para experiências fascistas no mundo (era o que os jovens de A Onda defendiam no início da história, não?), cumpre destacar que o filme é baseado em uma experiência real, ocorrida em uma escola de Palo Alto, na Califórnia, em 1967.  

sábado, 15 de outubro de 2011

SER PROFESSOR

Já por volta dos dez anos, apaixonado pelas aulas de Língua Portuguesa e de Redação, pelos encantos da palavra escrita, pelo gosto e pelo cheiro de uma boa história, anunciava a quem interessado estivesse que desejava ser Jornalista. Jamais mudei de ideia - ao contrário, com o passar dos anos, a convicção só fez aumentar. No terceiro ano da Graduação - em Jornalismo, obviamente -, comecei a trabalhar como estagiário no Sindicato dos Professores de São Paulo, o querido SINPRO-SP. Continuei por lá depois de formado - e até hoje, agora como colaborador, mantemos a parceria. É um prazer, um orgulho. São quase vinte anos de aprendizados vivos e intensos (sim, os companheiros do Sindicato são para mim referências intelectuais e éticas, exemplos de figuras humanas e de mestres, no sentido mais profundo das palavras). Acompanhei e acompanho muito de perto as lutas, os sonhos, as angústias, as ações políticas, as mensagens cidadãs, as vitórias e as derrotas daqueles companheiros que sobretudo estabelecem a Educação como um direito de todos - e um caminho para a conquista da liberdade e da autonomia crítica. Foi inevitável e irresistível (ainda bem, muito obrigado!) - por conta deles, tornei-me também professor. Afinal, respeitadas as singularidades, o ser Jornalista e o ser Professor estabelecem estreitas relações: é preciso ser curioso, humilde, democrático, alimentar pelos saberes profunda devoção e respeito, apurar, pesquisar, procurar sempre, organizar e sistematizar, saber ouvir. E estar disposto a aprender sempre, a compartilhar informações e conhecimentos - seja com o público (leitor, ouvinte, telespectador, internauta, seja com os alunos em sala de aula). Nos dois casos, é fundamental estar atento às coisas do mundo, rechaçando preconceitos e intolerâncias, truculências e autoritarismos, valorizando argumentos e ideias e lutando pelo "bom, pelo justo e pelo melhor do mundo", como diria a militante comunista Olga Benário. Foi assim, por ser Jornalista apaixonado, que me tornei um apaixonado Professor. E, entre aulas particulares, aulas na Graduação e na Pós, lá se vão quase quinze anos de atividade docente. Não é fácil - o avanço do espetáculo e do consumo, o individualismo e o "umbiguismo" exacerbados, a consolidação de um conhecimento instrumentalizado, o falso mantra que diz que as novas tecnologias resolvem todos os nossos problemas, a mercantilização das relações humanas e profissionais, o desmanche político da carreira, o esgarçamento do tecido social e a perda de referências e valores que definem a humanidade e o ideal de civilização colocam muitas vezes o papel do professor em um encruzilhada e fazem da profissão uma atividade social infelizmente cada vez menos valorizada. É preciso resistir. A cada dia. Todos os dias. Porque, como lembram as palavras libertárias do mestre Paulo Freire, no livro "Pedagogia da Autonomia", e transformadas em homenagem pelo Instituto Paulo Freire neste ano, "sou professor a favor da decência e contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura da direita ou da esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura".   

terça-feira, 11 de outubro de 2011

REPORTAGEM = CONTAR BEM UMA BOA HISTÓRIA

Da esquerda para a direita: José Eugênio de Oliveira Menezes, Nélson Araújo,
Mônica Martinez e Dimas Kunsch



(*) Elisa Marconi, radialista e professora universitária

Entrei meio esbaforida na sala dos professores da Faculdade Cásper Líbero para cumprimentar um colega. Quase não consegui fazê-lo, porque notei que, de frente para o bebedouro e de costas para mim, um convidado muito especial para o encontro que aconteceria em breve tomava café com outros professores da instituição. A palestra que ele daria numa sala próxima começaria em instantes.

Antes de entrar nos detalhes do evento chamado "A narrativa na TV: reportagem e histórias de vida", que contou também com a presença da jornalista Mônica Martinez, professora das Faculdades Fiam/Faam, mas que pretendia mesmo era dar voz ao repórter e editor do Globo Rural, Nélson Araújo, jornalista com mais de 40 anos de experiência e 30 deles à frente do programa matinal dos domingos da Globo, permitam-me explicar.

Não sou fazendeira, nem tenho parentes no campo, nem nada a ver com isso, mas cresci assistindo ao Globo Rural. A TV chegou à minha casa apenas alguns meses antes de o programa estrear, em 1980. E, naquele tempo, eu e minha irmã acordávamos cedo, cedíssimo, por vontade própria, inclusive nos finais de semana. (Hoje também, mas por conta dos filhos, que acordam prontos para dominar o mundo às 6h30 de qualquer dia!). Assim, via de regra, acabávamos assistindo ao programa de temática rural. 

Desde então, sempre que podia, ligava na Globo para ver o programa. Eu gostava. Àquela altura, ainda não sabia bem qual a razão do encanto. Mas hoje sou capaz de arriscar: as narrativas, sempre elas! Fui estudar comunicação, fazer mestrado em comunicação e dar aula de comunicação em boa medida por conta dessa magia que é contar e ouvir histórias. Aliás, o próprio Nélson, quase no final da palestra, explicou: “Acho que faz parte da natureza, do instinto humano, buscar a narrativa. Por isso a gente gosta tanto”. Era isso, exatamente isso. 

Vamos então voltar alguns passos para chegar até esse ponto. O encontro foi organizado pelo Programa de Mestrado em Comunicação da Cásper Líbero, coordenado pelo professor Dimas Kunsch, que foi quem abriu a mesa dizendo que as narrativas, em qualquer canto, e também no jornalismo, são “uma forma possível, não única, legítima, não menor, sólida, vigorosa, de origem ancestral e com futuro garantido de aproximar e conhecer o mundo”. Ele continua: “Num tempo em que se anuncia a morte de tanta coisa, posso afirmar que a contação de história não irá morrer nunca, porque ela nasceu junto com a humanidade e que bom que tem gente olhando para isso, porque as narrativas nos fazem ficar encantados com o mundo e isso nos dá mais vontade de viver”. 

Em seguida, passou a palavra para Mônica Martinez, pesquisadora do chamado jornalismo literário, com livros e diversos artigos publicados a respeito do tema. Entre eles, este aqui, http://compos.org.br/, que possui um texto (escrito em co-autoria com o prof. José Eugênio de Oliveira Menezes) justamente sobre o trabalho de Nélson Araújo no Globo Repórter e a busca de um outro tempo narrativo, coisa nada comum na televisão brasileira.

Mas a expectativa era grande mesmo para ouvir Nélson. Antes disso, ainda, breve pausa para a plateia assistir aos dois primeiros blocos do Globo Rural #1500, uma edição comemorativa que apresentou uma única grande reportagem sobre o buriti – a palmeira das veredas dos sertões do Brasil – ao longo dos quatro blocos do programa. Quando a apresentação da reportagem é interrompida para que o palestrante comece sua fala, a plateia reclama, quer assistir mais. De fato, a história que o repórter nos conta é absolutamente sedutora, cheia de casos, referências, informações sobre a árvore, as veredas, o sertão... a maneira como o repórter vai encadeando as sequências impede o público de piscar. Aqui, um trechinho da reportagem: (http://glo.bo/npU1C1). 

lson finalmente toma lugar na mesa, agradece e responde a uma pergunta que Dimas fez enquanto a matéria era exibida. “Nunca me perguntaram se eu gosto de me ver na TV. O que gosto mais é da minha voz”, e se antecipa em pedir desculpas, porque justamente naquele dia, a voz estava falhando, em virtude de uma alergia/rinite/faringite e assemelhados. Simpático e carinhoso com a plateia, o jornalista começa esclarecendo alguns pontos. Primeiro, diz que nada do que faz tem como intuito ser estudado, comentado, objeto de pesquisa. “É uma decorrência, que me deixa agradecido”. Depois que, embora pareça que é ele sozinho tocando a reportagem, “TV não se faz sozinho. Tem uma equipe grande comigo, em campo e na redação, para viabilizar o trabalho. O repórter aparece na frente da câmera, mas por trás dela tem um grupo grande”. 

Isso posto, vem o primeiro susto. “Contabilizo que para cada minuto que vai ao ar, trabalhamos cerca de 10 horas. Sem contar o trabalho de campo mesmo, depois das gravações trabalhamos 10 horas para cada minuto. Por isso, o segredo é um só: trabalho. Muito trabalho”. De fato, o método de trabalho – com anos de provação – da equipe do repórter/editor começa com a pauta; passa por uma preparação bem rica, “o jornalista tem que colocar a cara dele também, não se chega despreparado para uma gravação, tenho a experiência de 40 anos, mas tenho o trabalho dos dias anteriores, em que estudei tudo sobre as veredas, sobre Guimaraes Rosa, sobre o sertão do país”; e ao chegar na gravação, “vou como um bebê, com pureza e ingenuidade entre aspas, pronto para me encantar e me surpreender com tudo aquilo".

lson assume que em geral sai da redação com ideias pré-concebidas, que são descartadas no primeiro minuto da gravação, porque nessa hora acontece o mais importante: “eu vou para saber, para perguntar, levo a minha curiosidade até o limite para saber onde chega. Um jornalista tem licença para perguntar, que é fruto da curiosidade dele e de todo mundo, é inerente”. Nélson, como a profa. Mônica Martinez, defende que o gosto pelas narrativas faz parte da natureza humana e que cabe a ele, como mediador do público com a história, contar de uma forma compreensível, interessante e sedutora.

Como se chega a isso? “Com trabalho, trabalho e mais trabalho. Eu faço e refaço, reescrevo até achar que está bem contada a história. Minha busca é por encontrar o melhor caminho para narrar, fugindo do óbvio, buscando o interessante”. Tomo a liberdade de interromper o relato para contar que entre os roteiristas de produtos não-ficcionais essa é a maior busca também, é a oportunidade de se imprimir uma marca pessoal ao trabalho. Gostamos de chamar de linha narrativa, é o caminho que se escolhe para contar a história. Desse trabalho de decupar imagens, falas e prever possibilidades de sequências se origina uma apostila, com mais de cem páginas, que é o esqueleto da reportagem. Imaginem só, leitores. Para cada matéria, um livro de 100, 150 páginas. E cada livro é reescrito mil vezes, até que fique com a cara que o repórter procura.

Digo cara porque Nélson Araújo dá um outro susto na plateia: “Eu não escrevo com palavras, a palavra é um suporte para trazer as imagens”. Numa pergunta feita ao final da apresentação, Nélson explica que quem folhear as páginas da apostila verá palavras, claro: os textos dos offs, as falas dos entrevistados transcritas e tal; mas elas são, na verdade, cavalos que transportam um pensamento imagético, fundamental para produzir produtos audiovisuais. E como a inspiração e o caminho não caem do céu por providência divina, o editor do Globo Rural atribui a criatividade ao repertório. “Entendo que esse repertório é como dar um pouco de mim, é a maneira de me colocar na história. Por que eu tenho de saber por que, afinal, eu estou contando aquela história. Há muitas coisas por trás de uma história: consciência ecológica, respeito ao parceiro, seja um funcionário, seja um cavalo”.

Nesse ponto, ele vira contador de causo e lembra da história de um adestrador francês que treina os cavalos sem constranger, sem pressionar, sem machucar o animal. “O cavalo é presa, é uma máquina de correr, tem uma força descomunal, mas vive com medo, tem o ímpeto de fugir, porque na natureza ele é presa. E ele não gosta de ser pressionado. O negócio é que ele aprende não quando é pressionado, constrangido, mas quando afrouxam a tensão. E nós também – foi isso que eu quis passar na reportagem. A gente aprende é no alívio e não na hora da porrada. Por isso, alguém que trata o cavalo não como máquina, mas como parceiro, dá uma história bonita, interessante, que precisa ser contada”, narra o tele-trovador artesão.

Para saber essas coisas, Nélson lê, adquire conhecimento e faz associações, narra essas relações entre as coisas. E explica o contexto. “O público precisa ter os conceitos e as explicações prévias para entender o que vou contar. A matéria tem de ter uma espécie de glossário, de vocabulário, de imaginário, para o público fazer as relações também. De resto, vou como um sitiante, que vai visitar um amigo, que também é proprietário rural. Eu fico curioso para ver a cerca nova da propriedade, ou para ver a nova engenhoca que ele inventou para arrancar as mandiocas maiores, ou para adubar o cafezal de maneira ecológica, é esse o interesse, é dessa natureza. Chego aberto para receber e, ao ter recebido, compartilho o que sei, o que vi, o que descobri nessa visita”. 


E história assim todo mundo gosta de ouvir. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ENSINAMENTOS DE MINO CARTA SOBRE JORNALISMO

O mediador levou cerca de cinco minutos para fazer as devidas apresentações e relembrar apenas algumas das experiências profissionais vividas pelo convidado da noite de abertura da 19 Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Ele subiu ao palco e, ao receber o microfone, confessou que naquelas situações fica sempre tentado a cantar "Strangers in the night", imortalizada na voz de ninguém menos que Frank Sinatra. A plateia (o auditório estava lotado) se animou e insistiu, entoando o tradicional coro de "canta, canta!". "A tentação é forte. Mas vou conter a empolgação. Resistirei", recusou elegantemente o jornalista Mino Carta, diretor de redação da revista Carta Capital. O que se ouviu então, e durante quase as duas horas seguintes, foram sinceras e mais do que relevantes lições sobre elementos e princípios do (bom) Jornalismo.  

Mino reconheceu que não seria exatamente portador de boas notícias. Apesar de vislumbrar que no longo prazo o Brasil será um país feliz e muito importante no cenário internacional, ressaltou que ainda não alcançamos tal estágio justamente por conta de nossas elites - que classifica como uma das piores e mais atrasadas do mundo. "A elite herdeira do ideal da Casa Grande cuidou para que as coisas por aqui continuassem medievais. É assim que nossas oligarquias sobrevivem". 

Por consequência lógica, completou Mino, o jornalismo não escapa desse cenário. Expressa e representa o que somos, como somos, os nossos conflitos - e atrasos. Ele citou como exemplo a cobertura feita pela mídia grande na semana passada a respeito do título de doutor honoris causa recebido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condecorado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po, uma das instituições mais importantes e renomadas do mundo na área), por conta da "revolução econômica e social pacífica promovida no Brasil nos últimos oito anos". 

Na entrevista coletiva ocorrida após a homenagem, repórteres brasileiros presentes à cerimônia faziam questão de não esconder o inconformismo com a conquista. Como lembrou Mino, um deles perguntou ao diretor do Instituto francês como era possível alguém receber o título sem que jamais tivesse lido livro algum... Um segundo questionou: como entregar algo tão grandioso a alguém que permitiu a corrupção em larga escala? E um terceiro ainda explicitou que era inexplicável que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não tivesse alcançado o mesmo grau. "Essas perguntas provam muita coisa", alertou Mino, reconhecendo que Lula, durante os dois mandatos, deixou de promover mudanças que o jornalista considerava importantes, mas também destacando que o balanço final que faz da "Era Lula" é positivo, além de reforçar que a eleição e o governo de um ex-metalúrgico significaram um divisor de águas na História do país, pela simbologia que carregam. "Naquele momento, indignados, os jornalistas estavam expressando o discurso dos patrões e claramente manifestando seu ódio de classe", confirmou. "Os donos de nossos meios de comunicação adorariam viver em uma democracia sem povo. E somos o único país do mundo onde jornalista chama o patrão de colega", completou, contrariado.

Sem minimizar a importância da universidade, Mino disse que é nas redações que se aprende a ser jornalista. Para tanto, segundo ele, é preciso reunir alguns talentos. O primeiro: lidar bem com o vernáculo. Segundo: desenvolver sólido conteúdo moral. Foi nesse momento que Mino recordou de seus tempos de enfrentamento com a ditadura militar, quando, revelou, entendeu com profundidade a serventia do jornalismo - se não para mais nada, para narrar as histórias daquele tempo horroroso, a partir do viés dos vencidos, daqueles que não tinham voz. 

Mino contou que foi também durante os anos de chumbo que leu "Entre o passado e o futuro", da filósofa alemã Hannah Arendt. De forma bem resumida, na obra a pensadora analisa a verdade que cada um carrega consigo - "são nossas opiniões ou tentativas de interpretação", diferenciou o jornalista, para em seguida acrescentar: "mas há uma verdade factual, contra a qual o jornalista não pode brigar". Mino fez uma pausa e tomou um longo gole d'água. "Tomei água. Eis uma verdade factual. É a ela que o jornalista deve fidelidade canina. É mais um fundamento básico da profissão". A partir do fato, o desafio é dar voz a todos os envolvidos, de maneira plural, sem preconceitos - e a opinião do repórter, admite Mino, pode até ser evidenciada, desde que honestamente anunciada como tal.

Para o diretor de redação de Carta Capital, no entanto, o jornalismo brasileiro não respeita essa premissa básica do buscar a verdade factual. "Omite quando convém ao dono do veículo, ao político, ao empresário. Isso quando não patrocina conscientemente a distorção, a invenção, a mentira. E dizia Hannah Arendt que, quando uma verdade vai ao fundo do mar, não pode mais ser recuperada", lamentou. Por fim, Mino fez questão de dizer com muita convicção que o jornalista precisa ainda ser movido por candente espírito crítico, para fiscalizar os poderes - os donos do poder, como diria Raymundo Faoro- e todos eles, não apenas o político.

Um aluno na plateia perguntou: se o cenário será diferente no longo prazo, o senhor consegue avaliar de onde virão as transformações? Mino foi incisivo: não tem fórmulas mágicas. Mas reconheceu que as mudanças passam pela democratização, pela regulamentação e pelo controle social da mídia. "É procedimento absolutamente normal em outros países democráticos. É indispensável para definir limites e deveres", afirmou. O problema, completou, é que os barões da mídia não querem nem pensar nessa hipótese e, sempre que o debate vem a público, saem gritando "estão querendo nos censurar, cercear a liberdade de expressão". O governo então recua, acomoda-se, lamentou mais uma vez Mino. Para ele, é uma dinâmica semelhante àquela que resultou na criação da Comissão da Verdade. "É difícil acreditar que, do jeito como foi concebida, poderá mesmo revelar alguma coisa". E fulminou, sem tergiversar: "O problema é que o poder, inclusive o petista, adora aparecer na TV Globo e dar entrevistas para as páginas amarelas da revista Veja".

Sobre a revista semanal da editora Abril, que Mino Carta ajudou a idealizar e a criar, ainda no final dos anos 1960, em plena época de terror da ditadura, o jornalista não dourou a pílula: "Veja é hoje monstruosa, hedionda. Eu criei um monstro". Para ilustrar, e mais uma vez provocado pela plateia, ele citou a recente matéria de capa sobre as "relações perigosas" do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. "Pois é, não tenho admiração divina alguma pelo senhor José Dirceu. Mas com aquele texto o que Veja conseguiu foi só imitar à perfeição o jornalismo feito por Rupert Murdoch. Mas o que esperar da Veja? É assim mesmo. É a Veja", disparou.