Mostrando postagens com marcador fascismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fascismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"A ONDA" - O FASCISMO ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE

Capa do filme A onda

Por conta de uma aula em que conversei com os alunos sobre o avanços da extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa, acabei revendo o filme "A Onda" (2008, dirigido por Dennis Gansel, 106 minutos de duração). A narrativa já tinha me impressionado à época de seu lançamento (lembro-me que, ao final da trama, um aperto na garganta, fiquei em silêncio por algumas horas, remoendo os acontecimentos nela retratados). Torna-se ainda mais incômoda e impactante, se considerarmos as mudanças planetárias e as crises vividas nos últimos três anos e o consequente surgimento e a consolidação de movimentos fundamentalistas como o Tea Party estadunidense e as ações intolerantes patrocinadas por governos e agrupamentos políticos conservadores em diversos países europeus. "A Onda" permite ainda identificar registros de discursos e práticas fascistas que infelizmente reverberam com contornos cada vez mais nítidos também no Brasil.  

A história começa com um professor de ensino médio na Alemanha bastante desinteressado de sua profissão e desgostoso de suas aulas, que fica ainda mais frustrado quando é informado pela direção do colégio onde leciona que será o responsável por trabalhar em sala o tema "Autocracia" (seu desejo confesso era discutir "Anarquia"). Na outra ponta, encontrará alunos tão acomodados quanto perdidos, para quem estudar tornou-se uma tarefa sem importância ou significados. Para eles, a escola é sinônimo de obrigação enfadonha, um espaço chato e por quem manifestam solene desdém. Há uma cena ilustrativa dessa postura: em uma festa, dois jovens conversam e admitem: "a gente só quer diversão. Contra o que vamos nos revoltar? A falta de perspectivas é a marca da nossa geração".

O debate em classe começa como reflexo dessa dupla negação - um professor sem vontade e um grupo de alunos que só faz chacotas. Burocraticamente, o educador lança a pergunta: o que é autocracia? Continua: corremos risco de reviver na Alemanha um governo com poderes ilimitados? Resposta pronta dos estudantes, ligados no piloto-automático: claro que não, é impossível, aprendemos com o nazismo, estamos além disso, nossa democracia é sólida. Mas, quando cita os pilares fundadores de um regime autoritário - vigilância, disciplina, nacionalismo extremado, liderança, controle - e apresenta as condições sociais que favorecem o surgimento de tais experiências políticas - desemprego, inflação -, o professor percebe que   o grupo sai do estado de letargia e começa a debater, com entusiasmo. A isca tinha sido mordida. O professor percebe de imediato o que havia conseguido. Sugere dez minutos de intervalo. Pensa, andando de um lado para outro. A caixa de Pandora estava aberta.

Na volta à sala, os alunos encontram as mesas rigorosamente alinhadas e ordenadas em fileiras. Duplas tinha sido formadas - na imensa maioria das vezes, eram estudantes que não se suportavam. "Somos um grupo. É preciso pensar coletivamente. Um vai ajudar o outro. Espírito de equipe", justifica o educador. Mais uma ordem: ninguém fala sem autorização do professor (eleito pela turma o líder da equipe). Para falar, é preciso estar em pé, sempre. Ao final da aula, os olhos dos jovens brilham. Havia agora um rumo, um farol a seguir, unidade. "Foi uma energia estranha, que pegou todo mundo", comentaram em casa.  

O que se segue é a construção da identidade do grupo, os laços de pertencimento: marchas (o som dos sapatos sincronizados e ritmados batendo no chão da sala de aula é ensurdecedor; inevitável não lembrar das apresentações e dos desfiles militares nazistas), uniformes (todos de camisetas brancas e calças jeans), valores e código de conduta, gestos e saudações, símbolos visuais e, claro, o nome do movimento - "A Onda". Para disseminar a ideologia, recorrem às novas tecnologias e às redes sociais (de certa forma, o filme antecipa o potencial de mobilização que mais tarde internet e celulares viriam a desempenhar). 

Surgem os confrontos de rua com grupos anarquistas. Adesivos de A Onda são grudados em carros, nas vitrines de lojas, bancos e supermercados. Invadem a cidade. Na calada da noite, sem temer a polícia, um aluno escala os andaimes da prefeitura em reforma e, no topo do edifício, desenha uma gigantesca onda estilizada (assumida como o símbolo do grupo). Não há mais limites para o movimento, consolida-se a sensação de que são invencíveis, de que tudo podem e está ao alcance deles. O professor, o líder (o führer?), conquista finalmente não apenas o respeito, mas a reverência e admiração de seus comandados. Manipula para tirar vantagem e aproveita os dias de fama, já que o projeto que desenvolve com os estudantes é elogiado até mesmo pela direção da escola. Sim, há quem perceba que "a Onda se transformou em algo muito estranho". As duas alunas são imediatamente ignoradas, excluídas e perseguidas pelos adeptos do movimento, que cresce sem parar, conquistando inclusive o apoio de crianças. 

As cenas finais são arrebatadoras - lentamente, a porta se abre e o professor-líder entra em um auditório lotado pelos camisas-brancas de A Onda. Ele lê trechos de textos e impressões produzidas pelos próprios alunos a respeito do movimento, que afirmam que "saímos do tédio, alcançamos significados para nossas vidas, somos todos iguais, temos ideais pelos quais lutar". O espetáculo lembra as gigantescas manifestações nazistas - em clima de histeria coletiva, em êxtase, a plateia explode em gritos e aplausos de aprovação a um contundente discurso anti-globalização do professor, que vocifera: "Podemos tudo. Podemos escrever a história. A Onda é a resposta". Ele pára, repentinamente. E surpreende: "pois acabou. Não há mais A Onda. Fomos longe demais. Recriamos o fascismo". Arrependido, pede desculpas. Mas era tarde demais. A Onda tinha saído de seu controle. Não lhe pertencia mais.     

Importante lembrar que tudo isso acontece em apenas uma semana - é o que basta para o professor conseguir despertar o sentimento reacionário adormecido e chocar o ovo da serpente. Certamente não há modelos prontos e a simples transposição para a realidade seria um exercício intelectual reducionista, mas o filme é fonte de inspiração e referência obrigatória para refletir sobre o fundamentalismo, o racismo, a aversão aos imigrantes, o nacionalismo exacerbado que representa a negação de todos os diferentes, o ódio aos homossexuais, a intolerância e os preconceitos de todas as naturezas - discursos e práticas que se amplificam perigosamente nos Estados Unidos (onde o Tea Party defende que o Estado obedeça a preceitos bíblicos), em países europeus (proibição de uso de véus islâmicos na França, restrições aos imigrantes africanos na Itália, atirador norueguês a rechaçar e condenar o multiculturalismo) e também no Brasil (onde nem mesmo a economia em expansão e a estabilidade política conseguem mascarar suásticas pintadas nos muros de escolas, violência contra casais de homossexuais e ojeriza a negros e nordestinos).   

E para quem acha que há exageros em minhas preocupações, que não há mesmo mais espaço para experiências fascistas no mundo (era o que os jovens de A Onda defendiam no início da história, não?), cumpre destacar que o filme é baseado em uma experiência real, ocorrida em uma escola de Palo Alto, na Califórnia, em 1967.  

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

JOVENS E FASCISMO, UMA COMBINAÇÃO EXPLOSIVA

Fiquei pensando muito sobre os posts de jovens incitando atentados contra Dilma. Incomodam sobremaneira. Não consigo ficar calado. Partilho da mesma indignação de Eduardo Guimarães, do blog da cidadania. (http://www.blogcidadania.com.br)./Sinto muito, mas não consigo aceitar "justificativas" capengas como "não sabem o que fazem, são inocentes, era tudo apenas brincadeira, não entenderam o que quiseram dizer".

Sim, na minha percepção e leitura, esses jovens sabem bem o que escreveram. Têm consciência do conteúdo e da intensidade das mensagens postadas - são expressões daquilo que pensam. Publicizaram sentimentos e desejos que efetivamente carregam. Tensionaram. Provocaram. Buscaram fama, holofotes. Sentiram-se respaldados e encorajados quando as mensagens se avolumaram - a velha perspectiva do bando que se sente fortalecido. Provavelmente comemoraram a repercussão conquistada. E, para escapar de punições, para limpar a barra, adotam agora o discurso do "não foi bem assim, estamos sendo perseguidos, estamos sendo vítimas de radicalismos". Tentam inverter a mão de direção - posam de vítimas. De forma enviesada, alegam cerceamento da liberdade de expressão. E muitos apagam/trocam seus perfis nas redes sociais. Mas, na web, não há como escapar: o que foi escrito torna-se em cinco segundos eternizado.

Triste, mas verdadeiro: eis a mentalidade desses jovens, que Claudio Lembo (longe, mas muito longe mesmo de ser um progressista!) chamou de "elite branca". São jovens individualistas, arrogantes, egoístas, consumistas, reacionários, preconceituosos. Adotam como lema uma espécie de "eu posso, eu faço". Julgam-se superiores, por uma série de razões (cor da pele e conta bancária, por exemplo). Pensam apenas no próprio umbigo. Não são movidos por valores ou princípios, mas por prazeres pontuais, efêmeros e passageiros. Não têm projetos, vivem o momento. Importam-se mais em TER/ACUMULAR do que em SER/COMPARTILHAR. Na ânsia de alcançar desejos, de colecionar o que entendem como vitórias, não medem esforços, não reconhecem limites. Acham que podem tudo. Confundem liberdade com libertinagem, acham que livre expressão é poder escrever ou dizer atrocidades impunemente, sem consequências. Fazem questão de ignorar que direitos estão associados a deveres. São na imensa maioria das vezes mimados, não sabem ouvir "não". Quando cobrados, não hesitam em jogar responsabilidades nas costas de terceiros, em fugir, em dizer "não é comigo, não é bem assim, não fui eu".

E não tenho muitas dúvidas em afirmar: infelizmente, são espelhos de seus pais, da educação que (não) receberam. Por ação/omissão, os pais criaram esses jovens dessa maneira. Muitos, aliás, são egocêntricos, auto-referentes, acham mesmo que o mundo é só deles. Compartilham visões. Pensam também que nordestinos, negros e pobres não devem ter vez - são inferiores. Têm certeza que a mulher é ser de segunda categoria. Desprezam homossexuais. São truculentos reprodutores de preconceitos. Estão apenas transferindo, de geração para geração, o "elite branca way of life". Sinceramente, não sei se há espaço possível para interlocução ou diálogo com esse segmento. É visão de mundo arraigada, introjetada, enraizada. Isso não significa que devemos silenciar e aceitar passivamente as bobagens que dizem. Ao contrário. Espaço vazio é espaço a ser ocupado. É preciso contestá-los e isolá-los, democraticamente, sem usar dos mesmos métodos deles, mas não permitindo que conquistem novos adeptos, para que não avancem para além dos espaços que já ocupam. Precisam ser a minoria da minoria, sempre. Uma minoria que grita, que faz barulho - mas que não passa disso. Modestamente, penso que esse é o desafio que nos está colocado.

E, claro, reconheço com convicção que nem todos os jovens são assim. Felizmente, há parcela representativa da juventude sintonizada com os valores dos direitos humanos. São jovens admiráveis, lutadores. São jovens que sonham, que brigam por um mundo melhor, que combatem com firmeza intolerância e preconceito. Cerramos fileiras. Já aos que desejavam um atentado contra Dilma, é preciso dizer que não estão acima do bem e do mal, que não devem confiar na impunidade. Incitar publicamente a violência é crime previsto pelo artigo 286 do Código Penal. Apagaram mensagens e perfis? Já foram mapeados, as memórias estão registradas, como bem lembra @eduguim. Não, não é ameaça. São documentos, apenas.

Penso que vivemos mesmo tempos complexos, talvez obscuros. Conseguimos construir maioria eleitoral e vencer as três últimas disputas presidenciais. Importante. Mas penso ser preciso reconhecer com muita serenidade e sinceridade que até aqui fracassamos na tarefa de alcançar hegemonia de valores. Não podemos perder de vista tal horizonte. Isso significa inclusive pensar o papel político que será cumprido pelas novas classes médias, qual o jogo que irão jogar. Não é bobagem, não é pouco: há um sentimento fascista que ganha cores e contornos, que é publicamente assumido, não mais envergonhado. Como bem lembra o jornalista Rodrigo Vianna, em post no twitter, "há uma direita louca para botar asinhas de fora. É preciso disseminar valores de solidariedade e justiça para conter fanáticos da nova direita".
Muitas das lutas que travaremos nos próximos anos certamente estarão direcionadas a combater esse sentimento-discurso-movimento. Os tais jovens que escreveram clamando por atentados contra Dilma provavelmente estarão na linha de frente desse grupo. De certa forma, será mais fácil localizá-los, pois estão abertamente se manifestando. Por outro lado, dificuldades para confrontá-los serão maiores também, pois estão se organizando. É um grupo que tem aliados e porta-vozes poderosos (políticos, intelectuais, jornalistas, veículos de comunicação). Não será fácil. Mas, insisto, é fundamental disputar e construir hegemonia de valores. Para além de avanços econômicos e sociais, sempre importantes, é preciso revolucionar mentalidades, até para que conquistas sejam duradouras.

Nas ditaduras, maiorias são impostas pela força bruta das armas. Esse é o mundo dos fascistas. Nas democracias, corações e mentes são tocados pela força bonita das ideias e dos argumentos. Esse é o nosso mundo.