
Pesquisa Datafolha para a cidade de São Paulo, domingo, 07 de outubro, considerando votos válidos, com margem de erro de dois pontos (para mais ou para menos):
José Serra (PSDB) - 28%
Celso Russomanno (PRB) - 27%
Fernando Haddad (PT) - 24%
Resultado final das eleições em São Paulo (dados do Tribunal Regional Eleitoral, com 99,69% das urnas apuradas):
José Serra - 30,76%
Fernando Haddad - 29%
Celso Russomanno - 21,59%
Datafolha, não me venha com churumelas - vocês "erraram" feio, muito feio. Será que "erraram" mesmo? Sei lá, me veio a pergunta. Só pergunta. Dúvida. Vai ver interessava bastante ao jornal da alameda Barão de Limeira, historicamente ligado ao serrismo, sugerir/bancar um segundo turno entre Serra e Russomanno. Seria provavelmente mais fácil para o tucano derrotar o representante da Igreja Universal do que enfrentar o petista. O instituto tentou dar um empurrãozinho? Vai ver que sim. Só estou perguntando.
Os números são implacáveis: os 27% de Russomano na pesquisa poderiam ser, no máximo, 29%; no mínimo, 25%. Mas ele chegou ao final da disputa com 21,59%. São três pontos e meio de diferença, se considerado o patamar mínimo. Não há margem de erro que segure.
Em relação a Haddad, os números gritam também: de acordo com o Datafolha, o petista poderia chegar, no máximo, a 26%. Chegou com 29%, coladinho em Serra. Mais três pontos. Também não há mágica de segurança que dê conta.
Claro, já sei, foram "os movimentos de última hora, não é possível captar todos os humores dos eleitores, muita gente só decide na cabine, o instituto já apontava essa tendência, a corrida embolou no final...". Serão muitos os argumentos a "explicar essas sutis diferenças". No limite, como sempre, vão alegar que o método é seguro, que já acertaram mais que erraram. Argumento de autoridade. Não serve, não vale. Aliás, por coincidência, enquanto escrevo acompanho também o programa TV Folha, exibido pela TV Cultura (venda de espaço para jornal-empresa em emissora pública, mas essa é outra discussão). Mauro Paulino, diretor do Datafolha, está por lá, fazendo "análises e projeções sobre o segundo turno". Nenhuma palavra sobre as discrepâncias entre a pesquisa do domingo e os votos apurados nas urnas. Nenhuma.
Aliás, leitor, veja na foto acima que a Folha (justiça seja feita, o Estado de São Paulo usou do mesmo artifício) usou duas manchetes diferentes, em clichês distintos, na mesma edição de domingo. A primeira, nas bancas já no final da tarde do sábado, era muito mais incisiva; a segunda, que chegou aos assinantes domingo cedinho, era bem mais tímida e preparava o terreno para o "tudo pode acontecer". Por quê? Sei lá. Na graduação, aprendi que você só muda a manchete de um clichê para outro quando o assunto é também outro, urgente, justamente no caso de ser preciso atualizar a edição, para dar conta de algum fato acontecido na última hora, que não se conseguiu contemplar num primeiro momento (se tivesse acontecido mais um incêndio em favela em São Paulo, por exemplo, fato bastante comum em tempos de Serra-Kassab). Mas, se o assunto continuava sendo o mesmo, qual a razão da mudança da chamada?
Publicada em maio passado, matéria de capa que fiz para a revista "Cálculo - Matemática para Todos" já alertava: "2012 - Ano de eleições. Ano de estatística. Ano de erros". Dizia um trecho da reportagem: "autores de livros didáticos sobre estatística dizem que, para que uma amostra da população represente bem o que pensa a população inteira, cada membro da população tem de ter a chance de ser incluído na amostra. Isso significa que, se qualquer instituto quer organizar uma pesquisa para saber em qual prefeito os paulistanos vão votar, cada paulistano deve ter uma chance diferente de zero de ser ouvido. Na amostragem por cotas (que é a usada pelos institutos), contudo, assim que o instituto escolhe o lugar em que vai realizar as entrevistas (por exemplo, o mercadão), ele automaticamente exclui todos os paulistanos que nunca vão ao mercadão. A chance de que tais paulistanos sejam ouvidos fica igual a zero. (...) José Ferreira de Carvalho, professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da Statistica Consultoria, traduz essa cena toda numa palavra: subjetividade".
O lamentável é que não foi a primeira vez que o Datafolha cometeu tal "erro subjetivo". Os exemplos são vários, muitos foram listados na matéria citada, da revista "Cálculo". Também não será o último episódio. Até quando nossas instituições democráticas permitirão que os institutos continuem a tentar influenciar com suas pesquisas os processos eleitorais?