quinta-feira, 29 de novembro de 2012

JOSÉ MARIA MARIN E O NACIONALISMO BOLEIRO DA DITADURA MILITAR


Na entrevista coletiva realizada em um hotel no Rio de Janeiro na manhã desta quinta-feira, para anunciar Luiz Felipe Scolari oficialmente como o novo técnico da Seleção Brasileira, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, não deixou por menos e aproveitou a oportunidade para, em seus discursos inicial e final, carregar nos velhos apelos ufanistas, exaltando a todo instante a capacidade, a competência e a dedicação dos brasileiros, como se estes fossem atributos só nossos, monopólios da nossa população, a nos tornar melhores e mais distintos que todos os outros cidadãos do mundo.

O tom das falas, às vezes flertando com ameaças, lamentavelmente lembrou os tenebrosos tempos de nacionalismo excludente, intolerante e nefasto da ditadura militar (origem política de Marin, aliás), quando era preciso "aniquilar os inimigos da pátria, salvar o Brasil e derrotar a ameaça que vinha do estrangeiro (o comunismo internacional)", quando se cantava "eu te amo, meu Brasil, eu te amo...", quando o verde e amarelo eram absolutos, quando se tinha aulas de Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil, quando se pregava "Brasil, ame-o ou deixe-o". 

Ao justificar a recusa à contratação do ex-treinador do Barcelona, Pep Guardiola, Marin disse que "apesar de o estrangeiro merecer de nossa parte o melhor respeito e o melhor conceito sobre suas qualidades e conhecimentos, nós o conhecemos como técnico apenas de uma equipe, e não de uma seleção, que é uma história bem diferente". Mas, vamos e venhamos: outros treinadores citados por Marin como aqueles que também acumulariam credenciais para dirigir a Seleção, como Tite, Abel e Muricy, são também conhecidos por trabalhos desenvolvidos em clubes. Ah, sim, mas são brasileiros, com muito orgulho e amor, e não desistem nunca - portanto, obviamente melhores que Guardiola, apenas pela nacionalidade.

O presidente da CBF continuou: "temos de lembrar que os títulos que conquistamos, e foram vários títulos, foram alcançados graças ao trabalho de nosso técnicos, brasileiros, e muitos deles inclusive levaram nosso trabalho para além de nossas fronteiras. Foram além, levaram conhecimentos, competência e capacidade para fora. Felizmente, nosso país tem um número muito grande de técnicos competentes, dedicados e merecedores de ocupar esse cargo (foi justamente aqui que ele citou Tite, Muricy e Abel, além de Vanderley Luxemburgo). Mais do que nunca, devemos valorizar aquilo que é nosso". Pois é, Felipão já comandou Portugal, Parreira já treinou Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes e África do Sul... Mas Guardiola não pode assumir o Brasil. Porque não é brasileiro. 

E Marin insistiu e concluiu: "lamento profundamente o fato de os brasileiros não conseguirem valorizar o que é nosso, não conseguirem enxergar os grandes feitos de nossos profissionais e de reconhecer que somos competentes e capazes". 

Só faltou o grande chefe passar em revista às tropas.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MANO CAIU. MINHA APOSTA? TITE

A casa de Mano Menezes caiu  - e a demissão do técnico aconteceu provavelmente no momento mais promissor ou, para quem preferir, menos confuso ou turbulento da curta passagem do treinador pela Seleção. Fato: o trabalho não era, no conjunto, merecedor de elogios. Mano patinou, titubeou, abusou do direito de fazer experiências, convocou jogadores que não teriam lugar numa equipe C do Brasil, colecionou derrotas contra os gigantes do futebol internacional, refugou e preferiu enfrentar esquadrões como Gabão, perdeu vergonhosamente a Copa América e laconicamente a medalha de ouro em Londres.

Noves fora, neste segundo semestre do ano, e novamente não tanto pelos resultados, Mano começou a esboçar finalmente uma equipe, um jeito de a Seleção jogar. A defesa parecia definida - Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo. Trouxe Kaká de volta e montou um bom meio de campo, com Ramirez, Paulinho e Oscar, além do craque do Real Madrid. Na frente, Neymar era unanimidade. Os desnecessários jogos contra a Argentina serviram para anunciar o goleiro - Diego Cavallieri - e o centroavante - Fred. Pronto. A Seleção entraria em 2013, ano de Copa das Confederações, período decisivo de preparação para o Mundial, com um time que, se não é espetacular, poderia se transformar em escrete competitivo, a agradar o torcedor, ainda que sem encher os olhos com futebol arte. 

Eis que Mano, sobrevivente dos fracassos dos títulos continentais e olímpico, quase rifado em tantos outros momentos muito mais atribulados, acabou caindo justamente quando se preparava para, enfim, começar a treinar e afinar a orquestra. Foi vítima da velha e conhecida politicagem da CBF, da intenção (tão falsa quanto uma nota de oito reais) de "construir nova era, de deixar no passado as mazelas do capo Teixeira", dos acordos e conchavos feitos na calada da noite. Talvez tenha servido mesmo apenas para esquentar e guardar lugar.

Com a demissão dele, está aberta a temporada de especulações e apostas sobre o sucessor e aquele que irá de fato comandar a Seleção na Copa que será realizada no Brasil. Não tenho bola de cristal, fontes secretas, contatos com dirigentes da CBF. Mas tomo a liberdade de registrar aqui meu palpite, que é isso mesmo, um palpite, mas que procura sustentação no que conheço e acompanho do mundo futebol.

Apostando: o próximo técnico da Seleção será Tite.

Explico: muito provavelmente, o Corinthians será campeão mundial no final do ano. A sequência do treinador terá sido perfeita: títulos do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial de Clubes. Profissional mais que testado e aprovado. Tem a seu favor ainda o fato de ter suportado uma pressão dos infernos e de ter saboreado com o clube paulista o troféu que era verdadeira obsessão da torcida. Sob fortíssimo estresse, respondeu positivamente. Foi campeão invicto. Vale lembrar que, depois da trágica eliminação para o Tolima em 2011, quem bancou Tite no time de Parque São Jorge foi... Andrés Sanchez, atual Diretor de Seleções da CBF, que poderá novamente servir como fiador do ex-companheiro. Com essas credenciais, até mesmo uma derrota considerada normal na final no Japão (placar apertado, jogo brigado, talvez decisão na prorrogação ou nos pênaltis) não representaria tragédia ou impedimento para o convite ao treinador corinthiano. Será que foi aleatoriamente que a CBF jogou para janeiro o anúncio do novo comandante?

Sobre os outros nomes especulados, todos carregam fardos bem mais pesados. Felipão, sempre lembrado por conta da conquista de 2002, saiu bem chamuscado de seu último emprego, e não pode deixar de ser considerado um dos protagonistas do rebaixamento do Palmeiras, quando perdeu o comando do time e não foi capaz de ter ascendência ou liderança sobre boa parte dos jogadores. A cotação dele já esteve melhor. Abel Braga acaba de renovar contrato com o Fluminense, campeão brasileiro, com vaga garantida na Libertadores de 2013. E, se a equipe carioca se recusou a liberar Muricy Ramalho em 2010, quando sequer o título nacional era realidade, por que abriria agora mão de seu comandante, quando há chances fortíssimas não só de boa participação, mas de conquista da taça continental? Seria incoerente. A torcida tricolor cobraria a fatura. Por fim, há Muricy, contra quem pesa o fato de já ter recusado a Seleção em 2010, que vem de derrota acachapante para o Barcelona na final do Mundial do ano passado, quando o que se viu à beira do gramado foi um treinador apático e resignado, sem saber como reagir diante da adversidade, além de ter feito um segundo semestre pífio, ridículo em 2012. Técnico estrangeiro? Sei não... Precisa de muito estofo para segurar a onda e de tempo para cair nas graças dos torcedores.     

O fato inegável é que, com a demissão de Mano, a conquista da Copa do Mundo de 2014 fica ainda mais distante, não só porque há tantas outras seleções em estágios técnicos e táticos bem superiores ao do Brasil (Espanha, Alemanha e Argentina, para citar apenas três), mas também porque o tempo urge. Que o Sobrenatural de Almeida nos proteja.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

UM GENOCÍDIO CHAMADO DE GUERRA


Sinceramente, não consigo aceitar que o que acontece nos territórios palestinos seja uma guerra, com "ataques e exageros dos dois lados". Será que foram mesmo 12 mil foguetes com grande poder de destruição lançados a partir da Faixa de Gaza nos últimos tempos, como se costuma afirmar por aí - e quase nenhum deles caiu de fato em território israelense? Não se trata então de poder elevado de defesa, mas de Estado quase imbatível, invulnerável, absolutamente bem protegido. Por que os foguetes palestinos são tão desorientados - e as bombas israelenses, tão certeiras, "cirúrgicas"?

Reforço esse aspecto porque, me parece, trata-se de um discurso muito semelhante ao que se via e ouvia na época da ditadura brasileira: era uma "guerra", o "terrorista" morria em conflito com as "forças da ordem", por coincidência sempre com vários e precisos tiros na cabeça, no peito... enquanto isso, o assassino estatal saía ileso, sem um arranhão ou ferimento sequer. Vivíamos os tempos do "enfrentamento total com os subversivos, fortemente armados, muito bem treinados, perigosos", mas o "tiro preciso e fatal" era "competência" de um lado só - o da repressão. Apenas para retomar o foco e citar a "batalha" mais recente no Oriente Médio - em oito dias, foram registradas (oficialmente, reconhecidas até mesmo por Israel) 153 mortes - 148 palestinos e 5 israelenses. É uma guerra? Para pensar. 

É importante também contextualizar e relembrar a origem do conflito palestino-israelense - a Partilha da Palestina, definida em 1947 pela ONU e que determina a existência de dois Estados livres, independentes e soberanos, jamais foi respeitada por Israel, que desde então age apenas e tão somente, e sistematicamente, institucionalmente, para eliminar os palestinos (ver mapas acima). Será que a gente consegue de fato avaliar o que é viver num território ocupado, submetido a condições animalescas de vida? Fome, miséria, falta de água e de medicamentos, barracas de lona e toda sorte de privações impostas pelo bloqueio israelense? 

O nazismo alemão e o apartheid sul-africano, no século XX, foram duas das experiências mais terríveis da História da humanidade, quando flertamos muito de perto com a bestialidade e a barbárie. Pois o Estado de Israel, com apoio de boa parte da população do país (há admiráveis fraturas e resistências, mas a sustentação é também inegável), consegue reunir num só elementos dos dois projetos
 citados. Trata-se de um Estado militarista, expansionista, autoritário, nacionalista (no pior sentido da palavra), que persegue e extermina sistematicamente o povo palestino, segregado e condenado a viver em guetos. E a dita comunidade internacional, Estados Unidos à frente, é conivente com o nazi-apartheid israelense.

Quando há um Estado terrorista e opressor em ação (e a política da direita nacionalista no poder em Israel é de nazi-apartheid), a resistência (inclusive armada) é consequência não só natural, mas desejável, uma forma de ação e luta política considerada inclusive pela carta de fundação da ONU. Foi assim que muitos judeus dignamente, legitimamente resistiram ao Holocausto nazista. Sim, há grupos extremistas que atuam nessas franjas e brechas (o Hamas é um deles), e as mortes de israelenses obviamente devem ser lamentadas e recusadas também. Sim, há grupos (minoritários) em Israel que não apoiam o genocídio, que reconhecem os direitos dos palestinos e são favoráveis a um acordo (verdadeiro) de paz. Também penso e defendo que os dois povos devem poder construir suas nações, em amplo sentido - e a estratégia razoável para alcançar esse cenário é a negociação política. Mas, novamente, é preciso considerar o pecado original. E a atuação unilateral e beligerante, sempre, de um Estado.

Trago para cá as reflexões do linguista estadunidense Noam Chomsky: "Israel usa sofisticados jatos e navios de guerra para bombardear densamente campos de refugiados, escolas lotadas, blocos de apartamentos, mesquitas e favelas, atacando uma população que não tem força aérea, não tem Marinha, não tem armas pesadas, nem unidades de artilharia, nem armamento mecanizado, nem comando de controle e sequer um Exército... E ainda chamam isso de guerra. Isso não é guerra, é um genocídio". 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

E VIVA A DEMOCRACIA RACIAL BRASILEIRA!

Foto: O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro no Brasil e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.
Respeito não tem cor nem raça. Respeito tem consciência.
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Boteco agitado em feriado paulistano ensolarado, com pancadas esporádicas e bem rápidas de chuva, sugerindo arco-íris no horizonte. Copos cheios ao alto.

- Um brinde ao grande Zumbi, que ao menos serviu para nos garantir essa terça-feira de merecido descanso e chopp gelado!, bradou um dos cinco amigos, na cabeceira da mesa.

Pausa de alguns segundos, para que todos pudessem estalar e virar os copos, em goles ávidos e sincronizados. Foi quando o rapaz que tinha puxado o brinde quebrou novamente o silêncio.

- Agora, pensando bem, e falando sério, acho injusto prá cacete ter um dia específico para comemorar os negros, uma data só para eles. OK, nada contra eles, mas por que esse privilégio?

- É porque todos os outros 364 dias são nossos, meu caro, dos brancos. Estamos em vantagem, sempre - respondeu sorrindo um segundo jovem, sem tirar os olhos de mensagens e e-mails que chegavam pelo celular.

Um terceiro rapaz fez sinal com os dedos para o garçom, pedindo mais uma rodada de chopp. E entrou na conversa.

- Não sou racista, cara, não tenho nada contra os negros, vejam bem, até tenho dois conhecidos que são meio escurinhos, são até legais, mas acho mesmo uma babaquice essa história de reverenciar consciência negra. Meu, a escravidão já acabou faz tempo, e o Brasil sempre foi muito generoso com todas as raças. O mundo inteiro reconhece isso. Somos uma democracia racial, como ensinou um professor meu no cursinho. É só comparar com o que aconteceu na África, como se chamava mesmo aquele regime? Isso, cara, apartheid. Ali sim houve racismo. Aqui, é tudo tranquilo, vivemos todos juntos e misturados, sem encrencas.

Um quarto rapaz, que até então estava mais preocupado em lançar olhares para lá de interessados e sedutores para as meninas da mesa ao lado, interrompeu momentaneamente o flerte para entrar no papo.

- Pois é, babaquice mesmo. Também não sou racista, minha família não é racista. Aprendemos a respeitar os negros. Lá em casa, a gente trata muito bem nossa empregada, uma negona gorda que é super atrapalhada, mas a gente releva, coitada. É meio lesada. Mas nunca atrasamos salário. Ela come do bom e do melhor, praticamente de graça.

- E o pior, mano, é que nem sempre elas levam tudo isso que fazemos em consideração. Uma negrinha abusada que trabalhou lá em casa e que até o filho dela levava para brincar com a gente saiu falando um monte e ainda colocou meu pai no pau, nessa maldita Justiça do Trabalho. Uma ingrata de marca maior. Traíra, véio! É isso. Não tem jeito, também não sou racista, longe de mim querer falar mal ou ser melhor que os outros, não é preconceito,  é fato. É o ditado popular quem diz: negro, quando não caga na entrada, esparrama merda na saída - sentenciou finalmente o quinto jovem, dando sua contribuição e fechando a primeira rodada do debate.

A conversa foi interrompida pela chegada de belíssimas porções de pasteizinhos e de calabresa acebolada, que foram imediatamente atacadas pelo grupo. Já eram quatro da tarde, tinham chegado ao boteco direto do futebol, sem almoçar. Deu tempo ainda de chamar mais uma rodada de chopp - o garçom entendeu prontamente o simples chacoalhar de cabeça e o copo mostrado por um deles. O que havia começado a conversa achou por bem esticar o assunto.

- Sabem o que me irrita mais? Essa porcaria de ditadura do politicamente correto. Cacete, agora não posso mais falar mal dos negros, mesmo quando tenho razão, não posso mais manifestar minha opinião? Tudo é racismo! Nem piada mais com negro a gente pode fazer! E a liberdade de expressão, cara, garantida pela Constituição? Como fica?

- Já que você tocou no assunto, vou falar mais um pouco - completou o colega que àquela altura já trocava mensagens por celular com uma das meninas ao lado. - Sinto muito, não é mesmo questão de ser racista, mas eu acho mesmo que os negros são mais violentos e preguiçosos. É só olhar os julgamentos, as prisões, os crimes cometidos nas periferias. Quem são os envolvidos? Negros, na maioria das vezes. Eu não penso duas vezes: na madruga, na volta da balada, se enxergar um negro com cara de suspeito, atravesso a rua a acelero o passo. Dane-se. Questão de segurança, véio! E se eles tivessem mesmo competência, estariam nas melhores escolas, universidades, em posições de destaque nas empresas. Porque quem tem competência se estabelece. É só ver o Pelé, agora o Joaquim Barbosa. Diz aí, vocês conhecem algum bom médico negro? Algum outro advogado de renome? Um engenheiro ilustre? Pois então...

Foi a deixa para que aquele que tinha a família processada pela ex-empregada voltasse à arena.

- E aí inventam essa porcaria das cotas, que funcionam como privilégio, né, cara? Porque, porra, o sujeito que não é de cor estuda, se esfola, paga, faz cursinho, consegue boas notas, mas no final quem entra na faculdade pública é aquele neguinho da perifa, protegido pelas cotas, e que vai inclusive derrubar a qualidade de ensino na faculdade? Caraca, mérito é mérito, mano! Não está certo isso aí não! Precisa rever essa parada. É justo tirar vaga de quem estuda?

Quando os quatro olharam, o Don Juan do grupo, ligeiramente embriagado, já fazia menção de se levantar para tomar assento na mesa das bonitonas ao lado. Antes, porém, anunciou:

- Meus caros, o papo está bom, mas está muito cabeça. Que Zumbi nos perdoe, mas não viemos aqui para passar a tarde inteira falando de negros e de racismo, né, galera? Até porque, já concordamos, não somos racistas, ninguém aqui é racista. Ponto final. Portanto, meu amigo Bola Sete, mais chopp aqui para o pessoal - gritou, chamando o garçom, negro, no que foi imediatamente atendido. E completou: 

- Um brinde ao Brasil, o país de todas as raças! Vamos ao que interessa!

Sem perder mais tempo, pulou finalmente para a mesa ao lado, já trocando sorrisos e afagos com a loira de lindos olhos azuis. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

PAI E FILHO CONVERSAM SOBRE A VIOLÊNCIA EM SÃO PAULO

O garoto, curioso desde pequeno, e agora inquieto adolescente, 15 anos, espinhas marcando o rosto, a voz alternando notas graves e agudas, entra na sala com a testa franzida.

- Pai, você que está lendo os jornais e acompanhando de perto, o que está acontecendo em São Paulo?
- Os jornais dizem que explodiu uma guerra, meu filho. É assustador e preocupante mesmo.
- Como assim, uma guerra?
- Pois é, acabei de ler nesta revista aqui uma reportagem que revela que a criminalidade saiu de controle, os bandidos não têm mais pudores ou constrangimentos, estão matando mesmo, matando policiais, incendiando ônibus, impondo toque de recolher, espalhando o medo e colocando a população em pânico. Uma barbaridade.
- Mas isso tudo começou quando?
- Há cerca de um mês, segundo os jornais.
- E por quê? Quais as razões dessa guerra? O que os bandidos querem?
- Bem, o cara daquele programa na televisão, ontem, no final da tarde, falou em vingança, em revide, em quebra de acordos, em listas de alvos a serem atacados, em chantagens do PCC.
- Vingança e chantagem? Por quê?
- Ele não explicou.
- E espere aí... você falou em acordos... bandidos e policiais têm acordos?
- Não sei, parece que sim. É o que estão noticiando.
- O governador não dizia que o PCC já tinha sido controlado, vencido, os líderes estavam na cadeia, segurança máxima?
- Pois é...
- Invadiram e ocuparam favelas.
- Não tem jeito.
- O pai do Arnaldo, que vive ouvindo rádio, comentou que os bandidos atacam apenas policiais militares, oficiais da Rota. A polícia civil não entra nessa história?
- É, bem pensado, não li notícias sobre ataques a policiais civis mesmo.
- Por quê?
- Boa pergunta!
- Caraca... Dá para saber como e por que tudo começou? 
- Vingança, chantagem, acordos, ameaças, disputas... É o que os jornais estão dizendo.
- Sei. Mas a mãe da Silvinha, internauta de carteirinha, disse que os policiais também estão matando...
- O sujeito da televisão dizia ontem que não tem jeito, que é preciso revidar, tem que ir para cima dos marginais e dos delinquentes, arrebentar com eles, trucidar mesmo e não deixar que tomem conta da cidade. É uma guerra.
- Mas policial pode atirar e matar assim, por vingança, por raiva, para revidar?
- É uma guerra.
- E só repressão resolve?
- É uma guerra.
- Entendi... mas então não é uma guerra só de bandidos de um lado e só de mocinhos do outro, é bem mais complicado, não?
- ........
- Tudo bem, pai, tudo bem, não esquenta. É uma guerra. Difícil de entender mesmo.
- É, filho.
- Só mais uma pergunta...
- Claro, claro!
- Por que é que você continua lendo esses jornais e revistas todos empilhados aí em cima da mesa?
- .......
- Ah, e posso desligar a televisão? Esse apresentador não pára de berrar.

domingo, 11 de novembro de 2012

PARECE QUE O STF NÃO SABE O QUE É DOMÍNIO DO FATO...


O ministro Joaquim Barbosa pode até espernear, tentar agredir verbalmente, levantar a voz, desqualificar, fazer jogo de cena, posar e falar para os holofotes midiáticos, como normalmente acontece quando é contestado em suas pretensas verdades absolutas. Mas é implacável e arrebatadora a entrevista de Claus Roxin publicada neste domingo pela Folha de São Paulo. 

Roxin, 81 anos, jurista alemão que ajudou a especificar e aperfeiçoar a teoria do domínio do fato, coloca os argumentos usados pelo relator do processo do mensalão na berlinda, confirmando um fundamento elementar do Estado Democrático de Direito: não é possível condenar sem provas. E todos são inocentes até que se prove o contrário. 

Perguntam Cristina Grillo e Denise Menchen, repórteres do jornal: "É possível usar a teoria (do domínio do fato) para fundamentar a condenação de um acusado supondo sua participação apenas pelo fato de sua posição hierárquica?"

O jurista alemão responde, de forma cristalina e precisa: "Não, em absoluto. A pessoa que ocupa a posição no topo de uma organização tem também que ter comandado esse fato, emitido uma ordem. Isso seria um mau uso (da doutrina). 

A Folha replica: "O dever de conhecer os atos de um subordinado não implica em co-responsabilidade?".

Roxin é novamente bastante objetivo: "A posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter que saber não basta. Essa construção ("dever de saber") é do direito anglo-saxão e não a considero correta. No caso de Fujimori (ex-presidente do Peru), por exemplo, foi importante ter provas de que ele controlou os sequestros e homicídios realizados".

Por fim, as repórteres questionam: "A opinião pública pede punições severas no mensalão. A pressão da opinião pública pode influenciar o juiz?".

Roxin finaliza: "Na Alemanha, temos o mesmo problema. É interessante saber que aqui também há o clamor por condenações severas, mesmo sem provas suficientes. O problema é que isso não corresponde ao direito. O juiz não tem que ficar ao lado da opinião pública".

Trocando em miúdos: o jurista que é referência internacional no assunto justamente por ter sido o responsável por consolidar a teoria está a sugerir que o Supremo Tribunal Federal não poderia ter usado o "domínio do fato" para garantir as condenações já estabelecidas, no caso do mensalão. 

A partir desse raciocínio, é possível reforçar a impressão de que a tese foi utilizada de forma enviesada, sem os devidos fundamentos jurídicos, com intuito de prestar contas para a opinião publicada, estabelecendo ainda condenações políticas, sem provas. 

E a quem os condenados agora podem recorrer?

sábado, 3 de novembro de 2012

MARCOS VALÉRIO ACUSA. IMPRENSA REPERCUTE. MAS NINGUÉM MOSTRA PROVAS. PODE?


Um minutinho de responsável e necessária reflexão, por gentileza, para que possamos avaliar os estragos causados pelo Supremo Tribunal Federal (SFT) ao definir recentemente condenações com base no "é impossível que não soubesse" e no tal "domínio do fato". A partir dessa decisão, divisora de águas, o que parece estar sendo consagrado e enraizado no país é a inversão total do princípio da presunção da inocência ("todos são inocentes até que se prove o contrário") - este sim um dos pilares de sustentação da democracia. 

O empresário Marcos Valério vem a público agora para fazer acusações gravíssimas contra o ex-presidente Lula, o ex-ministro Antonio Palocci e outras figuras importantes do PT, envolvendo na lista de suas novas "denúncias" inclusive o assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel. Os jornalões e panfletos que pretendem ser revistas reproduzem e reverberam indiscriminadamente essas acusações, apenas se pautando nas falas de Valério, sem qualquer investimento sério e responsável em apuração jornalística. Se ele falou, está falado. A palavra de Valério é tomada e vendida como a máxima expressão e verdade dos fatos. Cria-se um círculo vicioso, numa reação articulada em cadeia - com cristalino propósito de agendar e pautar a opinião pública (ou publicada). O STF, por sua vez, entra firme no jogo e já acena com a possibilidade de oferecer proteção para Marcos Valério. 

Mas, caramba: será que foi só agora que o empresário mineiro lembrou-se de que tinha tais informações tão contundentes? Estava com a memória fraca? Durante mais de seis anos, até para garantir sua absolvição ou redução de pena, teve inúmeras oportunidades de jogar essa lama no ventilador e não o fez... por quê? Só agora, que foi condenado a 40 anos de prisão, é que resolveu botar a boca no trombone, derrubando e contradizendo inclusive tudo aquilo que já tinha sido dito e apresentado pela defesa dele, no julgamento do Supremo, como representação da verdade? Então tudo aquilo que a defesa dele apresentou no STF pode ser considerado como informações que não correspondem à realidade dos fatos, jogo de cena? Como assim? O que vale, afinal: o que ele dizia antes? Ou o que passa a afirmar agora?

E a publicação semanal da maior editora do Brasil, por que não revela o áudio da fita que diz ter com a conversa com Marcos Valério? E os demais veículos, por que se deixam apenas pautar por "matérias" publicadas por outros veículos, num acordo de cavalheiros que significa apenas repetição de suposições e de ilações, sem apuração independente e consistente? O texto da Folha é acintoso e representativo dessa dinâmica: "Segundo o jornal "O Estado de São Paulo", Valério prestou depoimento a Gurgel no fim de setembro, quando teria mencionado Lula e o ex-ministro Palocci. Reportagem da revista "Veja" desta semana afirma que Valério teria informações sobre o envolvimento do PT com o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em 2002". Notem: é tudo construído na base do "ouvi dizer" (de outras fontes) e no condicional (teria mencionado, teria informações...). Cadê a notícia? Cadê a reportagem?  

Essa prática tem nome: denuncismo. Como escreve Felipe Pena no livro "Teorias do Jornalismo", "jornalismo investigativo não se baseia em denúncias, apenas começa com elas. A base mesmo é uma sólida pesquisa por parte do repórter". Lamentavelmente, além de espetáculo e entretenimento, Jornalismo se transformou também na arte de narrar para chantagear cidadãos e governos, em nome de uma ferrenha e truculenta oposição política, por conta da incapacidade de aceitar as regras do regime democrático - e recentes derrotas eleitorais. Quem não vence nas urnas tenta ganhar no grito, com ameaças.

Por que, no limite, o STF não exige que Marcos Valério revele então as provas que diz ter, obrigando-o a tornar públicos os documentos, gravações, contratos e extratos de operações financeiras capazes de colocar fim ao disse-que-disse? Quem acusa tem o ônus da prova, não? Ou será que passamos a viver num "Estado Democrático de Direito" onde qualquer um pode fazer a acusação leviana que quiser e bem entender, a qualquer tempo - e o sujeito acusado é que deve correr para provar que é inocente? Será que agora passamos a viver sob o domínio do "você é culpado e dane-se se não conseguir demonstrar o contrário"?  

Sei que a leitura desse texto já levou mais de um minuto. Não foi tempo perdido, avalio. Continuemos refletindo mais um pouquinho. Porque é de Democracia que estamos falando.