sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O MACHISMO DO COMERCIAL DA HOPE E O FALSO ARGUMENTO DA CENSURA

São apenas 16 segundos - tempo mais que suficiente para reforçar o machismo ainda dominante em nossa sociedade. No primeiro quadro, vestido curto branco, coçando a cabeça, a modelo Gisele Bündchen surge constrangida para dizer ao marido que "bateu o carro dele". A tela estampa: "errado". Em seguida, Gisele, agora sedutora, calcinha e sutiã vermelhos, expressão marota e mãos na cintura, quase rebolando, volta a anunciar - "amor, bati seu carro, de novo". E essa é a maneira considerada "certa" pela peça publicitária (trata-se de uma campanha da marca Hope) de dar a informação ao marido.

Pois bem, nada contra Gisele Bündchen. Mas o anúncio de fato ajuda a reforçar e consolidar preconceitos e uma imagem distorcida da mulher. A mensagem final que fica é que, em condições normais de temperatura e pressão, apenas usando argumentos e sendo sincera, a esposa não será capaz de conter a ira do marido (que aliás parece preocupar-se mais com o automóvel avariado do que com a própria companheira acidentada). Já quando se expõe de forma apelativa, anunciando-se apenas como objeto sexual, mercadoria do desejo, uma coisa que promete barganha, recompensa e prazer (ao macho), aí sim reunirá as condições para muito provavelmente ouvir do marido "tudo bem, benzinho, não se preocupe, não tem problema... agora chega de conversa e vamos para a cama". 

A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM, popularmente conhecida como Ministério da Mulher), mobilizada por reclamações e protestos indignados, publicou nota de repúdio à campanha, lembrando que a propaganda "promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas. Também apresenta conteúdo discriminatório contra a mulher, infringindo os artigos 1 e 5 da Constituição Federal". 

A SPM solicitou ainda ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) que recomende a suspensão da campanha. Vale lembrar que o próprio Conar, no artigo 19 de seu Código de Ética, diz que “toda a atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à dignidade humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e aos símbolos nacionais”. Determina ainda o artigo 20 que “nenhum anúncio deve favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou de discriminação racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade”.

Sem demora, a solicitação feita pela SPM ao Conar já vem sendo tratada como “prática de censura”. Em artigo (disponível para assinantes) publicado nesta sexta-feira na Folha de São Paulo, o jornalista Fernando de Barros e Silva reconhece o que chama de “fashion-cafajestada” da propaganda, destacando ainda seu machismo vulgar; escreve também o colunista, no entanto, que a iniciativa da Secretaria das Mulheres é “uma medida obscurantista, além de desencadear o efeito contrário ao pretendido por essas feministas de tesoura”.

Certamente a liberdade de expressão é pilar fundamental da democracia – e a censura, uma prática a ser sempre repudiada e combatida. Mas será que a livre manifestação de ideias pode servir de álibi para falas e imagens que só fazem agredir a dignidade humana? Será que a liberdade de expressão não deve estar acompanhada da garantia e efetivação de outros direitos, além de harmonicamente articulada com deveres e responsabilidades? Pode ser considerada de forma isolada? Em nome dela, humorista pode impunemente dizer que “comeria a mãe e o bebê” ou “judeus de Higienópolis não querem ver o metrô por lá porque não desejam ser lembrados dos trens que os conduziam para os campos de concentração”? Será que, por conta da liberdade de expressão, deputados têm a prerrogativa absoluta de detonar e de se referir de forma mais que pejorativa e agressiva aos homossexuais? Pode uma peça publicitária, em nome de suposto humor, menosprezar a condição e a inteligência femininas, fazendo funcionar o vale tudo mercadológico, o vender a qualquer custo, pois se não for assim a liberdade de expressão estará sendo cerceada? Pode o livre pensar e dizer garantir o “direito” de pronunciar atrocidades contra negros e pobres, manifestando livremente preconceitos e exclusões? A trabalhar com esse raciocínio (perigoso), no limite Hitler teria todo o “direito” de vociferar publicamente e de defender a perseguição aos judeus, não? Caso contrário, se alguém ousasse pedir ou sugerir que o líder nazista fosse contido, estaria praticando censura... É assim que funciona? Mesmo? Notem só o terreno pantanoso por onde estamos nos arriscando caminhar.

Quem me conhece e acompanha meus textos neste Blog sabe bem que sou desde sempre, desde antes de nascer, convicto adversário da censura e fervoroso defensor da liberdade de expressão – que deve vir acompanhada, andar lado a lado, de forma coesa e coerente, do respeito à dignidade humana. Preocupa-me tremendamente o fato de “hoje em dia, o uso da expressão censura ter sido deturpado e estar servindo para sustentar o discurso dos empresários da comunicação quando a sociedade civil toma medidas contra veículos. A palavra (censura), que tem finalidades específicas, vem sendo usada para defender interesses comerciais”, como alerta com precisão o advogado e jornalista Rogério Farias de Tavares, professor do Centro Universitário UMA, de Belo Horizonte (MG), em entrevista recentemente publicada pelo Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO-SP).

Penso que o Conar prestaria de fato um serviço à democracia brasileira caso acatasse a solicitação (não é imposição) da Secretaria de Mulheres e recomendasse a suspensão da exibição do anúncio da Hope (porque o órgão de classe é instância consultiva e também não tem poder para simplesmente tirar a peça do ar). Não se trata de censura. Mas de respeito à dignidade humana e de responsabilidade social.
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Em tempo - o anúncio da Hope não é, claro, o único a desconstruir e menosprezar a condição feminina. Que o digam os comerciais de cervejas... Que o debate seja então ampliado. A democracia brasileira só terá novamente a ganhar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

INDIGNAÇÕES DO DIA...

* E nasceu oficialmente ontem o Partido Social Democrático, PSD, aquele que não é de oposição, não é governista, não é de centro, nem de direita, muito menos de esquerda. É oportunista.

* Não sei se a senadora Marta Suplicy seria a melhor opção do PT para a disputa da Prefeitura de São Paulo. Mas essa é uma discussão política que precisa ser encarada pelo partido, democraticamente. O debate não pode ser sufocado por vontades autoritárias e messiânicas. A ameaça mais recente, de privar o grupo que apóia Marta de espaços no governo federal e de verbas para futuras campanhas, é típica do coronelismo mais reacionário.

* E andam comentando pelas esquinas que José Serra já começou a bombardear a pré-candidatura de Bruno Covas à prefeitura de São Paulo. Vindo de quem vem...

* Na Arábia Saudita, uma mulher foi condenada a levar dez chibatadas por ousar dirigir - o que é proibido naquele país. E onde estão Obama e os EUA, para condenar a atrocidade? Ah, lembrei, os estadunidenses são aliados de primeira hora da monarquia saudita... Está na hora de uma boa Primavera Árabe por lá também, não?

* Ao incentivar a criação de novos assentamentos e colônias judaicas na Cisjordânia, o governo de Israel não apenas desdenha das pressões da comunidade internacional como reproduz aquilo que tão bem fazia o regime de apartheid com os negros na África do Sul - confina os palestinos a viver em guetos, dentro do território que pertence aos próprios árabes...

* É preciso legalizar o aborto. Porque estamos falando do direito ao corpo, de um tema de saúde pública - não de caso de polícia. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A COMISSÃO DA VERDADE, O ESTADO PALESTINO E OS VENTOS DA GUERRA FRIA


A aprovação, pela Câmara dos Deputados do Brasil, de uma Comissão da Verdade abençoada e legitimada até mesmo pelo DEM (o líder do partido, ACM Neto, subiu à tribuna do Parlamento para elogiar a iniciativa), e o anunciado e prometido veto do Império estadunidense ao reconhecimento do Estado palestino pela Organização das Nações Unidas sugerem que, lá, como cá, os ventos conservadores gestados durante o período da Guerra Fria continuam a soprar com relativa significância, impactos e intensidade. 

A ditadura que tomou de assalto o poder no Brasil, por meio de um golpe militar-civil concretizado em 1 de abril (o dia da mentira...) de 1964, foi tipicamente um produto da paranoica tese de combate ao comunismo a qualquer custo, disseminada pelos EUA depois do final da II Guerra Mundial. O aparato repressor instalado em nosso país perseguiu, censurou, exilou, torturou, matou, sumiu com os corpos de dezenas de militantes que foram assassinados por resistirem bravamente e por combaterem a tirania. 

Após a "transição lenta, gradual e segura" do general Golbery do Couto e Silva, que resultou numa redemocratização pactuada e que procurava ignorar as feridas do passado, o país vislumbrava, com a eleição da presidenta Dilma Rousseff, ter finalmente alcançado a possibilidade de acertar as contas com sua memória histórica (as frustrações e decepções com outros governos democráticos foram imensas, incluindo os oito anos de Lula, que mais fez acomodar e conciliar com os militares do que efetivamente avançar nas buscas dos desaparecidos e na abertura dos arquivos). A presidenta, afinal, foi vítima direta da intolerância dos militares, tendo sido presa e torturada nos porões da ditadura.

O projeto de Comissão da Verdade aprovado pelos deputados e agora encaminhado ao Senado, no entanto, embora seja preciso reconhecer que se trata de um avanço em relação aos governos anteriores, deixa no ar um sentimento híbrido de alívio e de frustração, de que Dilma fez o que Lula não fez, mas que era possível ter feito mais. Não é por acaso que só foi levado à votação em plenário depois de ter recebido o sinal verde das Forças Armadas e após também contemplar emendas e alterações impostas pelos partidos conservadores. Sim, as portas estão agora mais abertas para o esclarecimento dos crimes e violações de direitos humanos cometidos durante a ditadura. Não penso mesmo que fosse tarefa da Comissão estabelecer punições, papel que cabe ao Judiciário. Em entrevista a este Blog, em janeiro último, a presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Cecília Coimbra, dizia que "não estamos pedindo punição. Queremos investigação, publicização e responsabilização. O que vão fazer com essas pessoas é problema da Justiça". 

Reconheço honestamente que lacunas históricas relevantes deverão ser preenchidas. Mas não deixa de incomodar o fato de, no projeto aprovado pela Câmara, o período das investigações ter sido conscientemente ampliado (1946-1988), abarcando outros momentos históricos, para propositalmente desviar o foco e causar confusões, e diluir os efeitos da repressão efetivamente acontecida durante a ditadura. Além disso, o prazo para atuação da Comissão é relativamente curto - apenas dois anos, e dela farão parte apenas sete membros e 14 assessores, muito pouco para dar conta de um desafio bastante complexo - sem contar o orçamento irrisório destinado ao trabalho. "Ocorre que a Comissão Nacional da Verdade — na configuração em que foi aprovada e caso o Senado mantenha inalterado o texto do projeto — tende a resultar em mero embuste, um simulacro de investigação, tais as limitações que lhe foram impostas", avalia o jornalista Pedro Pomar, em artigo reproduzido pelo Blog do também jornalista Rodrigo Vianna.

Como ele mesmo destaca, "será preciso enorme pressão dos movimentos sociais para que ela represente qualquer avanço em relação ao que já se sabe dos crimes cometidos pela Ditadura Militar, e, particularmente, para que obtenha qualquer progresso em matéria de punição dos autores intelectuais e materiais das atrocidades praticadas pelos órgãos de repressão política". Sem mobilização, participação e acompanhamento muito próximo dos trabalhos da Comissão por parte da sociedade, dos militantes das esquerdas e dos grupos defensores dos direitos humanos, pode ser mesmo que o Brasil perca mais uma chance preciosa de permitir às novas gerações que conheçam de fato o que aconteceu em nosso país durante os anos de chumbo. Obviamente que falamos de cenários distintos - porém, mais uma vez, impõe-se a necessidade de organização e acúmulo de forças para enfrentar o conservadorismo dos militares e seus aliados, para que a agenda progressista possa pautar o andamento dos trabalhos da Comissão.

O fantasma da Guerra Fria parece também ter influenciado de forma decisiva o discurso patético e ameaçador feito pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (cada vez mais o mais republicano dos democratas...), na Assembleia Geral da ONU. A fala de Obama deu a nítida impressão que de que ainda estamos vivendo nos anos 1960/70. Disse ele que "os palestinos merecem um Estado para viver, mas essa paz só poderá acontecer entre israelenses e palestinos quando houver acordo entre eles. E a paz ainda não alcançou seus resultados. Estou convencido que não há atalho para resolver esse conflito que dure muito tempo. Paz é muito difícil de conseguir. E não se consegue simplesmente pedindo para entrar na ONU". 

O que o mandatário do Império faz é enrolar, empurrar com a barriga, protelar o que não é mais, sob qualquer ângulo da análise, possível de ser adiado: a criação do Estado palestino nas fronteiras anteriores a 1967, única saída razoável capaz de estabelecer justiça histórica e cumprimento do direito internacional. Enquanto usa sua retórica e insiste nas promessas vazias, a exemplo de antecessores, o Império ignora solenemente a resolução 181 da ONU, que determinou, em 1947, a partilha da Palestina e a criação de dois Estados, um árabe, outro israelense. Pactua ainda com ações imperialistas e colonizadoras patrocinadas pelo governo de Israel nos territórios ocupados, com os palestinos obrigados a viver em guetos, marginalizados nas terras que lhes pertencem, a exemplo do que acontecia com os negros durante o regime de apartheid sul-africano. 

Até aqui, e lá se vão mais de seis décadas de conflito, conversas e negociações significaram apenas a manutenção da ordem americana e da vontade de Israel. É essa a paz que Obama pretende estimular? Em artigo (disponível para assinantes do UOL) publicado na última terça-feira, 20 de setembro, na Folha de São Paulo, Ibrahim M. K. Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil, lembrou com muita propriedade que "a negociação com Israel, desde a conferência de Madri (1991) até hoje, resultou na quadruplicação do número de assentamentos e colonos em terras palestinas, na criação do muro da vergonha, no assassinato de milhares de líderes e cidadãos, na judaização de Jerusalém, capital ocupada do Estado da Palestina, no bloqueio de Gaza e em milhares de presos políticos". 

Durante a Guerra Fria, Israel foi ponta de lança para os interesses estratégicos estadunidenses no Oriente Médio, uma nação aliada numa potencial área de influência da antiga União Soviética comunista. O inimigo mudou (e os EUA sempre precisam dele...), é agora encarnado pela ameaça do "fundamentalismo islâmico", por isso o apoio incondicional ao governo israelense continua. Sem contar que, mesmo com o fim da "Era dos Extremos", como o historiador britânico Eric Hobsbawm chama o período de conflito ideológico entre capitalismo e socialismo, por lá ainda estão a Rússia, sempre a lembrar os tempos remotos da polarização, e a China, adversária de muitos dos interesses dos estadunidenses. E, a depender dos rumos da Primavera Árabe, talvez Israel passe mesmo a representar parceiro único dos EUA na região. 

No mesmo artigo citado acima, o embaixador da Palestina no Brasil destacou também que "o mundo está mudando. É preciso fazer uma leitura correta das primaveras populares. Os povos estão mais conscientes e participativos". Nesse sentido, é bastante inteligente a estratégia palestina de levar a discussão e a exigência de manifestação para ONU - ainda que os resultados possam não ser práticos ou imediatos, o que se anuncia é uma vitória política importante, que vai escancarar para o mundo e a comunidade internacional o isolamento - e a intransigência - de Estados Unidos e de Israel.

Lá, como cá, é preciso com urgência deixar para trás os ventos carcomidos e ultrapassados da Guerra Fria. Já superamos a primeira década do século XXI. Os tempos são outros. E, como já escrevi aqui no Blog, "o passado é uma roupa que não nos serve mais". 

sábado, 17 de setembro de 2011

CAPAS DE "VEJA" CONFIRMAM: A REVISTA NÃO FAZ JORNALISMO


A foto ideologizada que demoniza
o líder do MST e a "matéria" que trata a reforma agrária como
caso de polícia.

Momentos de delírio absoluto... 
Veja assume o papel de Mãe Dinah e 
faz do jornalismo um exercício de 
adivinhação e de futurismo. O motivo é político:
ocupar o espaço da oposição.

Pois é, era o presidente moderno e perfeito
para o Brasil da redemocratização. 
Jornalismo virou marketing político.
Deu no que deu...
Ilações e suposições, achismos e nenhuma novidade.
"Jornalismo" feito sem fontes.

Valeu até tentar invadir quarto de hotel.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária 
(ANVISA) viu-se obrigada a vir a público para dizer: 
cuidado, não é verdade!
A revista das celebridades.
Enquanto a revolução acontecia nas ruas do Egito,
a capa era sobre "bom-mocismo" (e notem ainda que
Veja chama árabes de "radicais islâmicos").


Em tom de alerta, o preconceito escancarado. Só faltou
completar a manchete e escrever: "essa
nova classe média não sabe mesmo votar!".

Gato por lebre - era a opinião da revista,
mas surgiu travestida de "reportagem". 

E o tal do ouvir sempre o "outro lado",
princípio elementar do bom Jornalismo?

Os dólares? Jamais apareceram. Apuração, rigor e precisão -
a gente não vê por aqui. Até os EUA disseram
que a revista estava exagerando.

O desejo da revista, antes da
eleição de Dilma...

... e o desejo da revista, quando
a eleição de Dilma já era inevitável.

O julgamento não tinha acontecido.
Mas a revista já estabelecia a sentença.
Jornalismo policialesco e espetacularizado,
versão I.

Precisa mesmo escrever alguma coisa?
Veja insiste no erro.

Jornalismo policialesco e espetacularizado,
versão II.

Uma das especialidades? Disseminar pânico e
histeria coletiva. "Jornalismo" de oposição, mais uma vez.

Equilíbrio e honestidade -
a gente também não vê por aqui.

Os tablóides sensacionalistas 
ingleses não fariam melhor.



E, vamos combinar, selecionei apenas algumas das capas mais representativas do "não jornalismo" praticado por Veja. Os leitores do Blog certamente se lembrarão de inúmeras outras...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

NO FANTÁSTICO, DILMA REFORÇA POLÍTICA COMO SHOW DA VIDA

Sem tergiversar (tenho certeza que a presidenta Dilma Rousseff prefere que seja dessa maneira): fiquei incomodado e lamentei profundamente que a entrevista exclusiva de vinte minutos em horário nobre tenha sido dada a um programa de entretenimento, o "show da vida". No domingão, final de noite, depois do almoço em família e da rodada do futebol, na maioria das vezes quem senta na frente da telinha e procura narrativas como as oferecidas pelo "Fantástico" está justamente disposto a manter a cabeça desligada, prolongando ao limite do impossível mais um final de semana que insiste teimosamente em escorregar pelos dedos, anunciando a agonia de mais uma segunda-feira de trabalho, transtornos, tarefas, reuniões e tensões. Estamos quase a dizer - 'não quero pensar, sem preocupações, só amanhã, mais um pouco, por favor'. É legítimo. Mas é preciso que se trate dessa maneira - como entretenimento.


A presidenta - e a assessoria dela - sabem disso. Não escolheram o Fantástico ao acaso. Não foi aleatório. Não foram obrigados. Foi feita uma opção. Antes de mais nada, depois de alguns dias em que se falou sobre propostas de regulação da mídia, seria bom mostrar afinidades, sintonias e encantamentos com a principal e mais poderosa emissora de TV do país, como a dizer "calma, nada muda, estamos no mesmo barco". A proposta da conversa também não era de forma alguma fazer pensar, mas tocar pelas sensações e emoções. Provavelmente a escolha foi mais uma peça de uma estratégia de popularização da imagem da presidenta, algo como "uma mulher como qualquer outra, informal, leve, risonha e brincalhona". As expectativas estavam explicitamente voltadas para a construção da marca de "alguém que também é comum, que tem desejos, vaidades, manias e vontades, como quaisquer outras brasileiras" - uma presidenta que cria empatias e identidades, capaz de cair no gosto popular. 

Não é difícil perceber que os marqueteiros (figuras cruciais da política como entretenimento) do Planalto não desgrudam os olhos dos tais índices de popularidade. Muitas das ações e das falas presidenciais têm sido guiadas por esses números mágicos de aprovação - ou trágicos de reprovação. Desde os recordes atingidos pelo ex-presidente Lula, a impressão que tenho é que se tornou uma obsessão conhecer como a opinião pública avalia ações de governo - o que obviamente tem lá sua importância, mas, ao mesmo tempo, quando elevada à enésima potência, faz dos administradores públicos reféns de institutos de pesquisas. Pensam em cada lance. Jogam para a plateia. Aguardam os aplausos. Ficam frustrados quando não os ouvem. E repensam suas ações e agendas. Egos precisam ser acariciados - sobretudo.

Mais uma vez, o Fantástico cai como uma luva para dar conta dessa demanda - depois de um período difícil, com turbulências, crises e demissões de ministros, eis agora a presidenta doce e meiga, que se reencontra com seu povo, arruma tempo para brincar com o neto, não gosta de ar condicionado (sabiam?), escolhe sem ajuda as roupas e está sempre muito bem alinhada (tem até usado mais saias, vejam só), faz a própria maquiagem (que bom!) e quer muito perder alguns quilinhos extras. A pauta da entrevista, que tragédia, poderia ter sido feita por uma criança de cinco anos, quem sabe até o neto da presidenta pensasse em questões mais relevantes, como chegou a ser comentado nas redes sociais. Mas e quem estava mesmo interessado no debate político?

Pois esse é justamente o ponto fundamental da discussão, o que mais me incomoda e para o qual desejo chamar a atenção - ao escolher o Fantástico e favorecer mais uma vez a lógica e a estética do entretenimento, sempre grandiosas e arrebatadoras, a presidenta faz submergir o complexo exercício de racionalidade que marca o debate político. Diante dos olhares desejosos de distração da opinião pública, em horário nobre, a política aparece banalizada, surge como frivolidade, algo secundário, curioso, superficial, simplificado, leve, quase sem conflitos, professoral - vá lá, um tema até interessante, mas não exatamente importante. 

Esse movimento, aliás (o que é mais preocupante e acachapante), parece ser a tendência dominante do atual governo - e também do anterior. Quais são afinal de contas as iniciativas políticas que estão sendo sustentadas e bancadas pela administração Dilma Rousseff? Para além do gerenciar a herança lulista, quais as transformações de fato que estão acontecendo na área social, por exemplo? Quais suas bandeiras e prioridades? Pois não nos disseram que o tal presidencialismo de coalizão era fundamental exatamente para garantir maiorias, a governabilidade e a implementação das ações de governo? Ah, entendi... as alianças não foram ideológicas, mas fisiológicas; não foram programáticas, mas pragmáticas. 

O que acontece é que a Política (com "P" maiúsculo mesmo)... não acontece. O Código Florestal aprovado pela Câmara dos Deputados não era o que Dilma queria - mas o governo também não fez força alguma no Parlamento para aprovar proposta alternativa. Temeu melindrar aliados ruralistas. Foi só a ala amiga-religiosa-reacionária gritar um pouco mais alto que o kit anti-homofobia que seria distribuído nas escolas públicas com intuito de combater o preconceito foi suspenso, sob a alegação que não é "consenso no governo". Dilma não quer a aprovação da emenda 29, diz ser contra a volta da CPMF, mas reconhece que a saúde de fato precisa de mais recursos. De onde virão, afinal? O governo não quer se comprometer. Abre mão de contrariar interesses - ou seja, de fazer política. Lava as mãos. Não quer se desgastar com a classe média (imagem é tudo, lembram-se?). Líderes de trabalhadores rurais são mortos. A presidenta não vem a público para condenar com veemência os assassinatos - e explicitar ao lado de quem está nessa disputa. Democratizar e regulamentar a mídia, quebrar monopólios da informação, cobrar impostos de grandes fortunas? Nem pensar. Podem achar que ela é muito radical, não? Sobre a abertura dos arquivos secretos, puxa vida, as mudanças de discursos já foram tantas que já nem sabemos mais o que Dilma pensa. E até mesmo a Comissão da Verdade, que era questão de honra, precisa das bênçãos do DEM (que patrocinou a ditadura militar) para ser aprovada, para "não causar traumas". Durma-se com um barulho desses.

Fica difícil. Respeitados os fundamentos e princípios da democracia, política significa tensão. Divergência. Debate. Disputa. Enfrentamento. Exige escolhas. E não aceita omissão. Nem medo. Como bem lembra o poeta, escritor e dramaturgo alemão Berthold Brecht, não adianta estufar o peito e nele bater dizendo "não gosto disso". Quando nos recusamos a fazer política, há certamente alguém disposto a fazê-lo por nós. Espaço vazio é espaço ocupado. Que o diga o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que em nome da conciliação, de afagos em republicanos e por imaginar que seus competentes discursos e belos olhos seriam suficientemente sedutores para governar o país, enfrenta atualmente a fúria fanática de um movimento chamado Tea Party. 

Não tenho dúvidas: lá, como cá, a desmobilização do debate que deveria marcar a esfera pública e ser a tônica da vida cotidiana, patrocinada por aqueles que tratam a política como mero produto do entretenimento, em grande medida é diretamente responsável pelo avanço do discurso e das práticas conservadoras.

sábado, 10 de setembro de 2011

LULA NEM ERA PRESIDENTE. E O JORNALISMO DA FOLHA JÁ NÃO SUPORTAVA O PT...

Num desses arroubos de nostalgia, fui reler minha dissertação de mestrado, escrita em 2001, defendida na ECA/USP em 2002, posteriormente transformada em livro ("Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil") e publicada pela editora Annablume em 2004. Tomo a liberdade de compartilhar com vocês um trecho da introdução (na verdade, são as três primeiras páginas do trabalho), pois me parecem extremamente atuais. Infelizmente.

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FOLHA DE S. PAULO
REPÓRTER FREE LANCER DE COTIDIANO

A Folha está selecionando currículos de profissionais interessados em trabalhar como repórter free lancer no caderno Cotidiano.

Os candidatos devem ter:
* boa formação cultural;
* experiência na cobertura de administração pública;
* domínio da língua portuguesa;
* conhecimentos de língua espanhola;
* domínio da língua inglesa.

Curso de pós-graduação concluído ou em andamento e conhecimentos do Novo Manual de Redação da Folha são habilitações desejáveis. O processo de seleção inclui testes de conhecimentos gerais, conhecimentos específicos, português e regras de padronização estabelecidas pelo manual, além de entrevistas. Envie seu currículo e um texto de 15 linhas com a descrição das principais contradições entre o discurso do PT sobre a moralidade administrativa e a prática de seus prefeitos eleitos em 2000, até o dia 14 de fevereiro de 2001, aos cuidados da Secretaria de Redação, sob a sigla C-876. Alameda Barão de Limeira, 425, quarto andar - CEP 01202-900, São Paulo, ou pela internet: treina@uol.com.br (Atenção - o currículo deve ser enviado no próprio corpo da mensagem).

O anúncio acima reproduzido foi publicado pelo jornal Folha de São Paulo no início do mês de fevereiro de 2001, no caderno de "Empregos". Ele é ilustrativo e significativo de alguns dos pecados cometidos cotidianamente pela chamada grande imprensa, e que vão desembocar naquilo que classifico como prática de um jornalismo caduco e simplista, mais preocupado com a desconstrução da informação e com a leitura parcial, dirigida, pré-estabelecida, atomizada e fragmentada de mundo do que com a perspectiva de serviço público contextualizador e panorâmico, que deve contribuir com a pluralidade e a multiplicidade de visões e informações.

Ao exigir e impor que o candidato à vaga escreva um texto descritivo, a Folha comete o primeiro pecado, pois pede ao jornalista que assuma uma postura apática e mecânica, que ele simplesmente sente-se ao computador e arrole uma série de argumentos, fatos e elementos do senso comum, que possam apenas comprovar, dar validade e credibilidade pública àquilo que o jornal já pensa e estabelece como verdade absoluta. Impõe-se a forma do produto. A empresa deixa de lado o potencial crítico do seu possível futuro jornalista, não pede que ele crie, corra, vá atrás, procure entrevistar, ler, argumentar, pensar, construir o seu texto. Entre a narração ativa (o jornalista que reporta e conta histórias) e a descrição passiva (aquela que junta e cola falas e frases feitas), a Folha prefere a segunda postura. Grosso modo, simplificando para ilustrar, é a diferença entre o "jornalista da rua" e o "jornalista de gabinete". Trata-se de uma postura política e editorial que se reflete nas notícias que chegam diariamente às bancas e às mesas do nosso café da manhã.

O segundo pecado se manifesta quando a Folha dirige o sentido e o significado do texto, dizendo "eu quero que ele seja assim". Quando afirma que a descrição tem de ser sobre "as principais contradições entre o discurso do PT sobre a moralidade administrativa e a prática de seus prefeitos eleitos em 2000", o jornal traça a linha de corte/recorte e faz a sua seleção política e ideológica, estabelece o seu viés do real. Aqui, determina-se o conteúdo. Em primeiro lugar: por que o PT? O noticiário de todos os grandes jornais, inclusive o da Folha, mostrava que, no momento em que foi publicado o anúncio, o dito mar de lama e as denúncias de corrupção recaiam justamente sobre outros partidos, sobretudo o PMDB e o PFL, com os holofotes voltados para a briga entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Mais ainda: e, afinal, quem não enxergasse ou encontrasse contradições entre a prática e o discurso petistas, quem achasse que eles eram coerentes, que os novos prefeitos eleitos pelo partido estariam fazendo administrações corretas e éticas, sustentadas por outras prioridades sociais? Deveria se considerar, a priori, impossibilitado de participar da seleção, incapaz de trabalhar no jornal? Como ficariam aqueles que pensam de outra maneira? Aliás: será que apenas um mês (os então novos prefeitos haviam assumido seus cargos em janeiro de 2001) seria um tempo suficiente para esse tipo de reflexão ou crítica? A Folha sobe no pedestal, determina e estabelece como verdade absoluta: há contradição entre o discurso e a prática do PT. As portas se fecham para a crítica, a reflexão, o contraditório, o diálogo, a oposição e o embate de idéias. Aceite o dogma e, se quiser trabalhar no jornal, trate de encontrar os "argumentos" para comprovar a tese escolhida. É isso o que diz o anúncio. Trata-se do pecado original da manipulação da informação.

Mas os pecados não terminam por aí: a Folha ainda pede ao candidato que escreva seu texto em 15 linhas. Trata-se de uma ode ao pensamento minimalista. Afinal, apenas para apresentar os seus critérios de seleção, o jornal usou mais que essas quinze linhas. O que eles valorizam e elogiam (concisão e capacidade de ser objetivo), num discurso que também tem seu viés ideológico, eu chamo de texto-relâmpago e fragmentado, que dá a impressão ilusória e a sensação de informar, mas que muito pouco ou quase nada acrescenta ao nosso repertório de conhecimentos e reflexões. Trata-se de endeusar a notícia-pílula (afinal, "o leitor não tem mais tempo para ler grandes reportagens"), numa postura que desconhece (ou faz questão de ignorar deliberadamente) as relações e contradições sociais. É o privilégio de uma linguagem que faz do mundo e das necessidades humanas uma seara desprovida de conflitos, que usa um discurso simplista e linear, superficial, incapaz de alçar vôos panorâmicos que permitam um olhar de mais longo alcance sobre as "coisas do mundo". É possível dizer tudo em uma linha? No limite, é. Resta saber se é saudável, se é justo, se é bom para a democracia e para a sociedade fazer sempre assim.

Jornalista passivo e mecânico, informação manipulada, texto fragmentado e relâmpago, compreensão comprometida ou anulada - eis aqui o samba de uma nota só que dá o tom e dita o ritmo, de maneira hegemônica, da orquestra industrial jornalística, nesse começo de novo século.

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Voltei. Escrevi tudo isso há dez anos. Minha pergunta é: mudou alguma coisa?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

EUA QUEREM VETAR CRIAÇÃO DO ESTADO PALESTINO

Em novembro de 1947, por meio da Resolução 181, a recém-criada Organização das Nações Unidas determinou a partilha da Palestina (sim, esse era o nome oficial da região), com a criação de dois estados, um árabe e outro israelense. A cidade de Jerusalém, sagrada para as três grandes religiões monoteístas do planeta (cristianismo, judaísmo e islamismo), ficaria sob responsabilidade e administração da própria ONU, representando uma espécie de “patrimônio da humanidade”. 

Com muita razão e legitimidade, os palestinos discordaram dos critérios de divisão (ficaram com 43% do território, embora lá vivessem 5 milhões de árabes; Israel, com 700 mil habitantes, foi premiada com 57% do território. Não é difícil vislumbrar também quem ficou com as melhores terras). As guerras que se seguiram entre os dois povos fizeram com que o Estado palestino jamais saísse do papel; Israel, com a conivência e o apoio das principais potências ocidentais, em nome de interesses geopolíticos, militares, econômicos e estratégicos, chegou a ocupar 100% do território (atualmente, controla aproximadamente 75% dele, ou seja, muito mais do que aquilo que foi determinado pela ONU. Vale lembrar que Israel desde sempre fez questão de solenemente ignorar as resoluções da entidade internacional).

A independência do Estado israelense, aliás, foi declarada de forma unilateral, em 14 de maio de 1948, quando a Organização das Nações Unidas ainda buscava uma saída negociada e pactuada para o conflito. Quem reconhece imediatamente a independência? Os Estados Unidos. E Israel, no ano seguinte, em 1949, foi aceita oficialmente como membro da ONU. O que se seguiu foi a dramática diáspora dos palestinos, que passaram a vagar como apátridas pela região, invariavelmente vítimas de massacres e de políticas truculentas e intolerantes do Estado israelense. 

Pois eis que, tentando retomar aquilo que lhes pertence por justiça histórica e direito internacional (reconhecido e determinado pela própria ONU, não é demais reforçar), os palestinos pretendem aproveitar a próxima Assembleia Geral da entidade, agora em setembro, nos dias 19 e 20, para declarar um Estado independente. O Brasil já se manifestou favorável à iniciativa. Mas os Estados Unidos, polícia do mundo, e mesmo sob a administração do “democrata” (cada vez mais republicano) Barack Obama, já avisaram que usarão inclusive o poder de veto que têm no Conselho de Segurança da ONU para enterrar a declaração de independência, mesmo que a proposta alcance apoio e maioria de votos da Assembleia. Alegam os EUA que o Estado palestino só pode ser criado por meio de negociação com Israel, e não de forma unilateral. Como? Pois essa exigência valeu em 1948, quando Israel anunciou sua independência? Dois pesos e duas medidas. 

Como manifestaram publicamente e em conjunto organizações de esquerda, palestinas e israelenses (sim, há fraturas e divergências em relação ao projeto totalitário de ocupação mantido pelo Estado de Israel), em documento oficial divulgado agora no início de setembro, “apoiamos a iniciativa palestina nas Nações Unidas – instituição que tem a responsabilidade de estabelecer as bases da paz internacional –, solicitando sua inclusão na ONU como membro pleno, o reconhecimento de seu Estado nas fronteiras de 4 de junho de 1967, com Jerusalém oriental como capital, e o fortalecimento dos esforços para acabar com a ocupação das terras do povo palestino. (...) Reconhecemos o direito do povo palestino, vivendo sob ocupação, de fazer uso de todas as formas legítimas de resistência, de acordo com as normas internacionais, para a remoção dos ocupantes de sua terra e por autodeterminação. Nesse contexto, enfatizamos a importância da luta popular conjunta de palestinos e israelenses”.

Esse movimento precisa crescer. A hora é agora. Todo apoio à criação do Estado palestino!

sábado, 3 de setembro de 2011

SILAS MALAFAIA, O PASTOR QUE "DÁ NOVO FÔLEGO AO CONSERVADORISMO RELIGIOSO"



No mês de julho, a revista Piauí escancarou o universo de desmandos e de relações perigosas e espúrias mantidas e patrocinadas pelo grão-duque do futebol brasileiro e presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. De certa forma, a publicação contribuiu para dar vida e contornos mais nítidos e organizados a um sentimento de indignação até então disperso e nebuloso. Veio à tona, com mais força nas redes sociais, mas também em marchas e manifestações que começam a se espalhar pelos estádios, o movimento "Fora, Teixeira!". 

Em agosto, Piauí revelou um então ministro da Defesa contaminado pela soberba e pela arrogância, que se julgava acima do bem e do mal e autorizado a dizer impunemente que o governo era "atrapalhado" e a chamar colegas ministras de "fraquinhas". Nelson Jobim cavou sua demissão, acontecida logo depois (e muito por conta) da publicação da matéria. 

Pois eis que a edição de setembro da revista, que acaba de chegar às bancas, traz como um dos destaques de capa uma reportagem ("Vitória em Cristo") sobre o líder evangélico Silas Malafaia, da Assembléia de Deus Vitória em Cristo, um personagem que "dá novo fôlego ao conservadorismo religioso" e "ataca feministas, homossexuais e esquerdistas enquanto prega que é dando muito que se recebe ainda mais", como aparece destacado na capa e no texto, de autoria mais uma vez de Daniela Pinheiro (a mesma que escreveu sobre Ricardo Teixeira). Aguarda-se ansiosamente a repercussão da matéria. 

Sem fazer alarde e apostando em jornalismo de qualidade (boa apuração, informação precisa, contrapontos, equilíbrio, histórias bem contadas e textos de fôlego e brilhantes), Piauí muito precisamente pode ser chamada de a melhor revista brasileira da atualidade, uma das boas invenções do nosso jornalismo nos últimos anos. Sem dar atenção aos defensores dos textos curtos e fragmentados, que garantem que o "leitor não tem mais tempo para ler, é preciso facilitar a vida dele e evitar que precise fazer sofisticados exercícios mentais e de leitura", a revista nos coloca mensalmente em contato com as histórias humanas, o velho e bom perfil, que, segundo Humberto Werneck, no livro "Vultos da República - Os melhores perfis da revista Piauí",  representa "o mais interessante dos gêneros jornalísticos". Ou, como escreve Sergio Vilas Boas em "Perfis e como escrevê-los", "os perfis cumprem um papel importante que é gerar empatias".

E é de fato impossível não se deixar tocar (no meu caso, de ficar indignado) pelo perfil de Malafaia escrito por Daniela. O que salta aos olhos, em minha leitura (sempre um processo marcado por singularidades), é o retrato de um sujeito preconceituoso, ambicioso, intolerante, truculento e perigosamente inteligente e articulado, muitas vezes com respaldo (quase adoração) dos fieis, que por tudo isso não deve ser apenas encarado como folclore, como chacota. Política e ideologicamente, é adversário a ser confrontado, porque o mundo fundamentalista que ele prega é radicalmente diferente, antagônico mesmo, dos valores sociais e humanos que defendo. 

Por isso mesmo, a leitura na íntegra do perfil é imprescindível, justamente para que se possa conhecer com mais detalhes com quem estamos lidando (e também, claro, para aprender jornalismo). Como contribuição, reproduzo abaixo alguns trechos do texto. Mas insisto - é preciso ler a reportagem inteira, de cabo a rabo. A revista está nas bancas.

Mercantilização da fé I - "Eu gasto milhões, milhões e milhões por mês com horário na televisão, congressos, cruzadas evangélicas, treinamento de pastores, abrindo novas igrejas. Como se paga isso? Não é um anjo do céu que desce com um cheque em branco para mim".  

Mercantilização da fé II (pregação de Malafaia durante um culto da igreja) - "Como a gente faz tudo isso? Só com a liberalidade e a fidelidade dos irmãos. Vamos zerar essa conta. Se você quiser fazer uma oferta especial, peça um envelope para você", disse a todos. "Vamos orar para Deus dar as verbas para vocês. Frutifica a semente que eu e meus irmãos plantamos!", gritou. Ouviam-se brados de "Aleluia", "Glória a Deus" e "Louvado". Alertou: "Ninguém pode ser constrangido a dar oferta. Ninguém é obrigado a dar. Ninguém quer que você tire o pão da boca das crianças nem que se endivide". (...) A repórter continua: "Dos cantos do auditório, saíram rapazes e moças distribuindo pilhas de envelopes onde se lia a frase: 'Minha semente para uma colheita abençoada', impressa sobre uma foto de ramos de trigo. Dezesseis deles também carregavam máquinas Cielo para o pagamento da doação em cartão de débito ou crédito. Na Vitória em Cristo, 30% das ofertas são acertadas no cartão. "Não se envergonhe, não se cale, você é um agente de Deus", disse Malafaia. O barulho de zíperes de bolsas e carteiras era ensurdecedor". (...) "Quando percebeu que o movimento dos obreiros havia cessado, deu a ordem: 'Levanta o seu envelope aí'. E, como uma onda feita por torcidas em estádios de futebol, os envelopes foram surgindo um a um e ficaram suspensos no ar. 'Glória a Deus', ele disse, antes de iniciar uma oração. Dias depois, calculou ter arrecadado dez mil reais naquela noite".  

Fiéis, religião e espetáculo - (repórter continua descrevendo um culto que reuniu cerca de 2.500 pessoas). "O público era, em sua maioria, de mulheres jovens, maquiadas e bem-vestidas, como se estivessem voltando do trabalho. Representavam a ascensão das classes populares brasileiras. Eram as novas secretárias,  telefonistas, recepcionistas. Os homens presentes vestiam terno e gravata ou paletó com camiseta por baixo". (...) Sua performance (de Malafaia) é uma combinação de memória prodigiosa e desempenho cênico. Ele é onomatopeico, careteiro e versátil no uso da voz - com a qual percorre uma escala extensa, do falsete quando imita alguém que faz uma pergunta tola, ao grave profundo que enfatiza uma frase mais solene".   

Discurso conservador - "O seu discurso (de Malafaia, novamente) é socialmente conservador, e suas trovoadas retóricas recaem sobre grupos organizados que militam pela afirmação das minorias e pelos direitos individuais. Considera-os liberais, termo que nas suas pregações ganha conotação pejorativa, deslizando no mesmo campo semântico de libertinagem: umbandistas, a esquerda da Igreja Católica, pastores de outras denominações religiosas, feministas, defensores do aborto e da eutanásia. Nos últimos tempos, o seu alvo predileto tem sido os gays".

Conservadorismo e machismo - "Aí vem a irmã dentro da igreja com a roupa arroxada, os dois melões de fora e o cara do lado só olhando, só no somebody love. (...) Se você está indecorosa, você peca e faz outro pecar! E se você deixa sua mulher sair assim, você é um mané, um otário! Bota o silicone que você quiser, minha irmã! Mas se você quiser ser o instrumento do pecado, a glória de Deus vai embora e você vai pagar a conta com Jeová!".

Homofobia e fundamentalismo bíblico - "Cada um faz sexo com quem quiser. O que tenho é o direito de falar que isso é pecado, que é condenado por Deus e que a Bíblia diz que é uma perversão. Agora, o que esse pessoal quer não é o direito de fazer sexo - porque isso já fazem e não vão parar de fazer. Eles querem é colocar uma mordaça na nossa boca para nos proibir de falar qualquer coisa sobre eles". 

Homofobia e fundamentalismo bíblico II - Num trecho da matéria, Elizete Malafaia, psicóloga e esposa do pastor, diz que "atendeu inúmeros gays e sustentou que a maioria teria sido abusada na infância. 'A homossexualidade é uma desorganização emocional e espiritual. Se a pessoa não perdoou o abuso, ela canaliza aquela raiva para a vingança e, inconscientemente, se torna um abusador também". 

Relações com a Rede Globo - "Silas Malafaia contou que, no final do ano passado, foi chamado para uma conversa pelo vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho. O dono da Globo lhe disse que a rede queria conhecer melhor o mundo dos evangélicos. E contou terem percebido, na emissora, que Edir Macedo 'não era a voz' dos protestantes no Brasil. Desde então, eles mantêm um canal de comunicação. 'Sabe quantas vezes apareci no Jornal Nacional só este ano?', perguntou o pastor, dando a resposta com a mão aberta. 'Cinco'".