quarta-feira, 25 de março de 2015

MODELO REUTERS DE JORNALISMO

No Brasil, são registrados, em média, 54 assassinatos de indígenas por ano. (podemos tirar, se achar melhor). A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. (podemos tirar, se achar melhor). Ocupando o mesmo cargo, um trabalhador negro recebe cerca de 60% do valor pago a um trabalhador branco (podemos tirar, se achar melhor). Trinta mil jovens são mortos anulamente no país - quase 80% deles são negros. (podemos tirar, se achar melhor). Cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos no país (podemos tirar, se achar melhor). O Brasil lidera o ranking mundial de violência contra homossexuais - um assassinato a cada 28 horas. (podemos tirar, se achar melhor). Em 2012, aproximadamente 130 mil crianças e adolescentes foram vítimas de agressões por aqui. (podemos tirar, se achar melhor). Somente no estado de São Paulo, em 2014, quase mil pessoas foram mortas pela Polícia Militar. No mesmo período, dez policiais militares foram mortos em serviço (podemos tirar, se achar melhor). Quase duas centenas de trabalhadores rurais estão nas listas dos cabras marcados para morrer. (podemos tirar, se achar melhor). A classe média tradicional sente-se profundamente incomodada com a ascensão das novas classes médias e prefere ver pessoas 'mal vestidas' barradas em determinados lugares, além de gritar contra os diferenciados e miseráveis trazidos por estações de metrô. (podemos tirar, se achar melhor). O respeito aos direitos humanos é marca de identidade da sociedade brasileira. (aqui, podemos deixar. Não há problemas).

domingo, 22 de março de 2015

PANELAS SELETIVAS

O doleiro Alberto Youssef afirmou, em um daqueles tantos depoimentos que fazem parte do processo de delação premiada, que o senador Aécio Neves recebeu recursos públicos desviados de Furnas, em esquema que também envolvia o então deputado federal José Janene, do Partido Progressista (PP). Não, fique tranquilo, meu caro, apurei e chequei. Não é denúncia de um daqueles insuportáveis blogueiros sujos. A declaração de Youssef foi gravada pela Justiça em vídeo, divulgado até mesmo pelo insuspeito jornal O Globo. Mesmo com a revelação explosiva, o boletim do tempo anunciado pelo Instituto DataClimadeAferiçãodeIndignações mostra temperatura amena aqui na vizinhança, tudo calmo e tranquilo. Céu de brigadeiro. Sem previsão de chuvas ou trovoadas, nem tempestades de raios. Barulho, gritaria? Ao contrário. Reina o silêncio. Nada de panelaços. O Tribunal de Justiça de São Paulo aceitou denúncia feita pelo Ministério Público contra empresas acusadas de formação de cartel para obter contratos privilegiados com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) durante governos tucanos em São Paulo, no escândalo que ficou conhecido como trensalão do PSDB. Natural que as narrativas jornalísticas sobre essas tenebrosas transações concentrem suas falas e holofotes sempre nas empresas, saindo de fininho e caladinhas quando se trata de lembrar que funcionários e políticos com penas menos ou mais nobres teriam participado da farra. Jornalismo é a arte de convencer o público a engolir teses pré-estabelecidas. Não? Melhor versão possível da realidade? Está lá, aceito o convite, vamos pensar juntos. É, faz sentido, não dá para falar em corrupção e corruptores sem que apareçam os corruptos, os bacanas que, na máquina pública, facilitaram os negócios para o cartel privado, obviamente tendo sido recompensados por tal generosidade. É... sei lá, talvez seja um estranho caso de corrupção... sem a presença de uma das pontas cruciais da engrenagem. Segurem aí, vou correr lá para a janela, porque agora vai. Barulho infernal! Todos juntos! É corrupção das grossas! Fora, corruptos! Nada. Panelas caladas, ausentes. Só consigo ouvir o tilintar dos pingos de chuva batendo no vidro. Além de continuar trabalhando, a garantir desde que o homem saiu das cavernas que não vai faltar água em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin, vejam vocês, tremenda coincidência, só pode ser, nem pensemos outra coisa, por favor, recebeu durante a última campanha eleitoral quase 80% (uns 13 milhões, quantia irrisória) dos 16 milhões de reais doados pelas treze empresas denunciadas por formação de cartel. Nada de estranho, ao contrário, as doações são todinhas legais e certamente foram feitas por conta dos lindos olhos do excelentíssimo governador, a enorme capacidade de comunicação dele, a eficiência administrativa no cuidado com a crise hídrica e o contingenciamento da reserva técnica do sistema Cantareira, jamais por relações perigosas passadas ou futuras entre os setores público e privado. Isso não existe. Intriga da opisição. Exatamente por essa razão é que as pessoas estão à toa na vida, a observar das janelas o ônibus que sobe preguiçosamente a ladeira, quase vazio, a ocupar inúteis faixas exclusivas. Sem bater panelas. Cem mil professores estão em greve no estado de São Paulo. Não querem só reajuste de salário, importante também, mas redução do número de alunos por sala de aula, bibliotecas e laboratórios funcionando e com bons acervos, critérios transparentes de contratação. Com expressão enfadonha - claro, ele tem mais com o que se preocupar, minha gente -, Geraldo vem a público para dizer que "todo ano é a mesma novela". Que saco, já cansou. Vale a pena ver de novo. É tudo o que o digníssimo tem a dizer sobre o movimento dos educadores. Por enquanto. Não demora muito e vai soltar os "baderneiros, arruaceiros, uma minoria de radicais". Sempre da minha janela, consigo ver as panelas a repousar nas mesas dos meus vizinhos, arroz, feijão, batata e bifinho acebolado, almoço de domingo sendo servido e deliciosamente degustado. Não dá, claro, para bater nelas. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), nosso Rasputin na presidência da Câmara dos Deputados, comunica em plenário um comunicado comunicando a comunicação que demitiu o ministro da Educação, Cid Gomes. Achacadores é muito bom. Cunha, que está na lista enviada pelo procurador-geral da República ao Supremo Tribunal Federal, não gostou da palavrinha. Palavrão. E, que surpresa, tem oráculo da grande mídia tornando mais nobre a lista das contas secretas no HSBC da Suíça (aquelas que serviam para valorizar dinheiro que depois era reinvestido no Brasil, em obras sociais. Ou não). Sonegação? Lavagem de dinheiro? Propina? Será? Não posso crer. Tem uns sobrenomes bem conhecidos na relação. Marinho, Saad, Frias... nossa, um daqueles carrões super chiques desceu desembestado a ladeira que observo aqui do quinto andar. Pista molhada, derrapou na esquina, cantando pneus. Quase atropelou uma senhora que atravessava na faixa de segurança. Foi xingada de tudo quanto é nome. Deu para ouvir tudinho daqui. Sem panelas, por obséquio. Não é o caso. Não vamos banalizar o protesto. Enquanto Paris e Madri definem a proibição de circulação de carros nas áreas centrais das duas cidades, o Ministério Público de São Paulo mandou a Prefeitura interromper a construção de ciclovias e ciclofaixas na cidade de São Paulo. Por falar em faixas, acho que vi algumas na avenida a pedir golpe. Não eram poucas, isoladas. Uma delas exigia "intervenção militar constitucional". Fora, Paulo Freire, seu marxista! Vá para Cuba! Vamos substituí-lo pelas filosofias de educação de constantinos e reinaldos. Quem é Paulo Freire? Empresta o celular? Posso usar o google? Ele já morreu? Sério? Faz tempo? No Congresso Nacional, a Frente Evangélica Parlamentar sugere boicotar a novela "Babilônia", por conta do beijo das atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Tirem da sala as crianças da tradicional família brasileira. Altruísta, o deputado federal cabo Daciolo (PSOL-RJ), destoando do restante do partido, achou por bem prestar homenagem aos policiais militares acusados de assassinar o pedreiro Amarildo de Souza. Razões de sobra para contestação. Panelas, panelinhas, paneleiras, paneladas, panelões ensurdecedoramente guardados nos devidos armários. Tudo na mais perfeita ordem. Lá fora, sinfonia de maritacas. A chuva passou. Reeleito em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu jura por deus que jamais irá permitir a criação do Estado da Palestina. Devo ter perdido um capítulo da história. Houve algum momento em que ele considerou essa possibilidade? Na Tunísia, o Estado Islâmico matou 21 pessoas que visitavam um museu. Em mesquitas no Iêmen, pelo menos mais 137 mortes assumidas pelo EI. Numa cidade do nordeste da Nigéria, foram encontradas, debaixo de uma ponte, amontoadas, 70 ossadas de vítimas do grupo fundamentalista Boko Haram. Aposto que agora o vizinho que vem sempre com panela e bumbo vai tocar bem alto. Muito alto. Extremamente alto. Errei. Deve estar cochilando. A sesta depois do almoço. Estão também descansando, as panelas. Os dias têm sido agitados. Precisam estar com espíritos renovados para quando a presidenta Dilma Rousseff aparecer novamente no Jornal Nacional. Aí, sim, vocês vão ver. Caçarolas, frigideiras, alumínio, barro, inox e cerâmica vão cantar e gritar bem alto de novo. Muito alto. Sem parar. Com direito a xingamentos e palavrões. Sinfonia paneleira seletiva dos raivosos.          

sexta-feira, 13 de março de 2015

REVOLTADOS TORCEM POR CONFRONTO NA PAULISTA

O grupo "Revoltados Online", que defende explicitamente o impeachment da presidenta Dilma, promete marcar presença hoje na avenida Paulista, São Paulo, em frente ao prédio da Petrobras, no mesmo horário e local em que sindicatos e movimentos sociais e populares estarão marchando em defesa da empresa estatal, da democracia e da manutenção de direitos sociais dos trabalhadores. O encontro entre as duas manifestações sugere, no mínimo, canja de galinha, cautela e preocupação. Serenidade.
Os mais otimistas dirão que é tudo coincidência, que as ruas são públicas e a praça é do povo, que manifestações são direitos constitucionais. Correto. Sou daqueles que defendem que a política deve mesmo se fazer sempre presente nos espaços públicos, democraticamente.
Mas, vamos lá: por que raios os militantes revoltados pretendem aparecer na Paulista justamente hoje, já que o grande ato deles está, há muito, agendado para o próximo domingo, na mesmíssima avenida Paulista? Por que estar por lá também nesta sexta? Quais as razões e objetivos? Provocar? Arrumar confusão? Intimidar?
A declaração do líder revoltado Marcello Reis na Folha de hoje é uma boa resposta. Quando o jornal pergunta "você acredita que pode haver algum tipo de confronto?", responde o sujeito de bate-pronto que "tomara que haja, porque vamos entrar com todas as ações possíveis contra o sapo barbudo".
O cara diz publicamente que quer confusão. "Tomara que haja". É fala dele. Desejo de enroscos feios. Sem pudores. É mesmo uma expectativa que parece marcar com cores bem nítidas os espíritos de uma parcela razoável dos que estarão nas ruas no domingo (e hoje também, perigosamente). Insisto: reconheço e apoio o direito à manifestação e entendo, sinceramente, que a avenida abrigará e receberá também gente com motivos legítimos e de sobra para protestar.
Mas, atenção - há, nas lideranças e grupos que estão convocando e organizado o protesto, uma irresponsável disposição para instalar o caos, para "ir para o pau", para desestabilizar, para em seguida jogar a responsabilidade por confusões - que, no limite, podem envolver vítimas de confrontos físicos - no colo e nas costas do governo. É uma conduta impulsionada por ódio violento, instintos mais primitivos, destrutiva, disposta apenas a cumprir a missão messiânica de derrubar, de "tirar o PT do poder a qualquer custo, e o resto depois a gente vê como fica", sem propostas ou agendas políticas a oferecer como contrapartida, como bem já destacou o amigo Alceu Castilho.
Vazio de ideias. Almas truculentas. O binômio não é lá muito promissor. E o cenário torna-se ainda mais angustiante quando consideramos o preparo da nossa Polícia Militar para lidar com essas situações de rua. O tom tem sido, invariavelmente, a farta distribuição de sopapos, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral, além de prisões arbitrárias.
Tomara, mesmo, que a sexta-feira não seja treze.

quinta-feira, 5 de março de 2015

MATA-MATA GLOBAL

Sou favorável ao Brasileirão disputado no sistema de pontos corridos, mas reconheço que há razoáveis argumentos esportivos e boleiros para defender o mata-mata.
O que me incomoda profundamente e me deixa muito irritado é que a virada de mesa que está sendo comandada pelos próprios clubes (inteligentíssima, a CBF apenas observa o barco andar, para não se queimar ainda mais) leva em consideração apenas e tão somente a força da grana que ergue e destroi coisas belas e as pressões da emissora que monopoliza os direitos de transmissão do campeonato, preocupadíssima com a sangria de audiência que vem conhecendo.

Será que algum iluminado gestor (adoro essa palavrinha...) do nosso futebol pensou, ainda que por uma fração de segundo, em levar em consideração o que pensa o pobre torcedor (como escreveria Nelson Rodrigues), aquele tolo aficionado e incorrigível apaixonado que continua, a duras penas, a frequentar os estádios e as arenas, e que certamente terá seu orçamento doméstico ainda mais abalado por ingressos nas finais que certamente não serão vendidos a preços módicos?
Não conseguem perceber, nossos competentes dirigentes, que não há fórmula de disputa capaz de garantir espetáculos em campo (e arquibancadas lotadas, e televisores ligados nos jogos...) quando 698 boleiros abandonam os clubes brasileiros e partem para as mais diferentes regiões do planeta bola (China e "mundo árabe" são as bolas da vez)?
Com o torcedor, principal patrimônio do futebol, ignorado e achincalhado, e com a escassez cada vez mais gritante e angustiante de artistas habilidosos e mágicos em campo, mudar agora o sistema de disputa só servirá mesmo para reforçar os poderes (e o caixa) de quem manda há muitos anos nessa trolha.
Como se percebe, com tal domínio global, os resultados não têm sido - e continuarão não sendo - bons, ao menos para aqueles que gostam do futebol de verdade.
Danem-se esses saudosistas anacrônicos e românticos. Os tempos são outros. O mundo é dos espertos. O futebol? Um grande negócio. Para poucos. Gol da Alemanha.