sexta-feira, 31 de outubro de 2014

NAMORO POLITICAMENTE PROIBIDO

Pediu licença, deu boa noite a todos. Primeiro jantar com a família da namorada. Estava tenso. Levou flores. Aceitou um copo d'água. Conversaram sobre amenidades. O calor, a brisa fresca, o trânsito, que loucura, cada vez mais caótico, futebol, a rodada do final de semana promete. Sorte de principiante, descobriu que torcia para o mesmo time do pai da moçoila. Agradou. Arrasou. Bastante articulado. Inteligente. Boa impressão. Engraçado. A mãe chamou a filha na cozinha. Precisava de ajuda. Não se conteve. 'Filha, muito simpático esse rapaz! Será que ele não quer ir para Miami com a gente no final do ano? A casa foi reformada, vamos passar o mês todo lá. Convida, vai! Convida!'. Riram baixinho. No jantar, antes que o convite pudesse ser feito, a conversa escorregou na política. Eleições. Segundo turno. Ousou dizer: 'votei na Dilma'. Cinco segundos de um silêncio pesado. Corrupto, safado, sem-vergonha, ladrão, burro, ignorante, mensalão, devolve o dinheiro da Petrobras, vai para Cuba viver com bolsa esmola, petralha! A garota chorava copiosamente. 'Mentiroso, cretino, você não me falou nada. Me enganou!'. Foi expulso da casa. O namoro? Proibido. A garota nunca mais ouviu falar dele.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

COMPARAR PROJETOS. E VOTAR DILMA

O primo Raphael Bicudo, craque economista com quem aprendo sempre, professor da FGV/SP, do Mackenzie e da Belas Artes, resume com precisão e competência a disputa que será decidida no próximo domingo:
"As eleições presidenciais caminham, mais uma vez, para a escolha entre dois projetos antagônicos em termos político-econômicos e sociais: (i) o social-desenvolvimentismo (Dilma) e (ii) o projeto neoliberal da Casa das Garças (Aécio).
A opção por um dos dois projetos através do voto implica na continuidade dos avanços sociais conquistados até aqui ou na possibilidade bastante grande de grave retrocesso político, econômico e principalmente social.
Vejamos:
- o projeto da Casa das Garças (Aécio): desde o início da campanha eleitoral enfatiza o corte de gasto público - pressuposto fundamental dessa proposta, bem como a inserção, a qualquer custo, da economia brasileira no cenário internacional. Para os economistas tucanos, o Brasil precisa de um choque de capitalismo, pautado por abertura comercial irrestrita e liberalização financeira. Não está fora da pauta também a privatização, o enxugamento do papel do Estado e autonomia total do Banco Central.
O pensamento econômico que norteia tal projeto está fundamentado em ideias que vêm de Chicago (a escola dos Novos Clássicos). É dai que saiu o “mantra” do tão propalado tripé macroeconômico: metas de inflação, metas de superávit primário e câmbio flutuante. A crença nas leis naturais do mercado e na estabilidade de preços como resolução de todos os outros problemas, inclusive os sociais, é a forma de pensar desses cientistas “ isentos” de qualquer juízo de valor – todos são completamente neutros – APESAR DE ATUAREM EM GRANDES BANCOS DE INVESTIMENTO E CORRETORAS.
O resultado líquido que deriva desse pensamento é o corte de gasto público, aumento da taxa de juros, redução do papel do Estado, tudo em nome da estabilidade de preços. Uma vez assegurada a tal estabilidade, a credibilidade no país fará com que o gasto privado nacional e principalmente o investimento externo conduzam o crescimento da economia. As questões sociais seriam resultado natural dessa estratégia.
- O projeto social-desenvolvimentista (Dilma): o projeto de Dilma, ainda não implementado na íntegra, por conta da força exercida pelo poder dos grandes grupos econômicos no Brasil e de fora, principalmente aqueles ligados a esfera financeira, poderá a partir de um segundo mandato ser aprofundado, o que seria fundamental para o avanço ainda maior das questões sociais.
A estratégia social-desenvolvimentista possui como elemento central a estabilidade macroeconômica (que não é só de preços) e sua compatibilidade com as questões sociais. Para isso, priorizam política macroeconômica conciliada com políticas industrial (para reindustrializar a indústria brasileira), infraestrutura, saúde, educação, habitação, bem como o alargamento do mercado interno, através, principalmente, dos investimentos em setores que produzam bens de consumo de massa com alto potencial de geração de emprego e renda.
Para isso, o papel do Estado se faz fundamental, bem como a abertura dos canais de acesso a participação popular (tão criticados pela mídia e a Casa Grande). Portanto, o modelo social-desenvolvimentista, através dos meios apontados acima, possui como finalidade uma distribuição de renda mais justa e uma vida cada vez mais digna para as pessoas."
Humildemente, assino com ele. E voto como ele. ‪#‎Dilma13‬

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

SOBRE PETROBRAS, DELAÇÕES PREMIADAS E JORNALISMO

Vou tentar brincar de ligar os pontos. Peço só um tiquinho de paciência.
Há denúncias - o que significa dizer ponto de partida para investigações, não conclusões cabais - de corrupção na Petrobras. É evidente que o Judiciário deve entrar em cena e investigar, com rigor, independentemente das colorações partidárias, sem comportamentos seletivos. Corruptos e corruptores (há grandes empreiteiras denunciadas também, não? Hum...). Seguindo os trâmites legais. Investigação demanda persistência, paciência, cautela, responsabilidade, justamente para não antecipar etapas ou cometer injustiças. Pode ser um processo longo, em geral mais demorado do que demanda a histeria por 'justiça' (ou seria vingança, chantagem?) de muitos 'formadores de opinião'.
Pois bem. Aparecem então um ex-diretor da Petrobras e um doleiro que, para escapar de condenação que poderia chegar a 50 anos de cadeia, se oferecem voluntariamente para fazer delação premiada. Trocando em miúdos, temos aqui a velha deduragem, como se dizia lá na minha vila. Nesse momento, os dois podem falar o que quiserem, o que der nas telhas deles. Ao se colocarem nessa posição, os sujeitos reconhecem e assumem ter cometido crime(s). São réus confessos. Estão acuados, isolados, assustados, guardam rancores e ressentimentos. São metralhadoras cheias de mágoas. Talvez (e aqui vai uma suposição) estejam raciocinando da seguinte maneira: 'eu caio, mas não vou sozinho', comportamento bastante comum nessas situações. É da natureza humana.
O processo corre em segredo de Justiça - ou seja, até aqui tudo o que se diz só pode ser de único e exclusivo conhecimento dos agentes públicos envolvidos na investigação. Ninguém mais. Exatamente para ainda preservar inocências, já que as provas não começaram a ser apuradas e levantadas. A Petrobras não consegue ter acesso aos depoimentos. Mas as gravações vazam, na íntegra, para veículos de comunicação. Quem vazou? Porque essa prática, salvo engano, também é criminosa.
Sem se importar - porque, claro, a imprensa nunca comete crimes, é sempre e eternamente perfeita e imaculada, infalível, neutra e imparcial -, o Jornal Nacional, principal telejornal da mais importante emissora de televisão do país, exibe, em horário nobre e para todo o Brasil, matéria de dez minutos sobre o tema, com trechos das gravações. Por coincidência, a veiculação se dá na noite da quinta-feira em que são divulgadas as primeiras pesquisas eleitorais do segundo turno (decepcionantes para o candidato tucano e para o deus mercado, que esperavam vantagem bem mais significativa sobre a adversária petista) e também quando o horário eleitoral gratuito é retomado.
As denúncias (até aqui sem provas) reverberam em rádios, portais, jornais impressos. O panfleto da Abril não deve ficar de fora da sinfonia, no final de semana. Cria-se um círculo (circo?) midiático vicioso, que se auto-alimenta. Todo esse material provavelmente será usado à exaustão pelas peças publicitárias da campanha e pelo próprio candidato do PSDB, nos debates que se avizinham. Ao que tudo indica, os depoimentos que compõem a delação premiada serão fatiados em doses homeopáticas, ao longo das próximas duas semanas - período que corresponde ao segundo turno da eleição. Coincidência novamente, claro como a luz do sol.
Aprendi com os muitos advogados que há na família - pai, mãe, irmãos, avôs, tios, primos - que um dos princípios basilares do Estado Democrático de Direito, inviolável, determina que 'todos são inocentes, até que se PROVE o contrário'. No Brasil, já faz tempo, estamos invertendo essa máxima, transformada agora em 'você é culpado porque eu quero e digo e dane-se se não conseguir provar sua inocência'. Pobre democracia.
E os veículos jornalísticos ainda alegam que estão "prestando serviço público", quando na verdade estão representando e publicizando poderosos interesses privados. Querem ter o direito de informar - mas se 'esquecem' que essa prerrogativa deve ser acompanhada do dever de fazê-lo com justiça, transparência, equilíbrio, honestidade e responsabilidade. Pobre jornalismo.
Pronto. Já podem me chamar de 'petralha corrupto'.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

AMIGOS, ESTOU PENSANDO EM CASAR DE NOVO

Confesso que andava meio acabrunhado com o facebook. Vontade danada de sumir por uns tempos, fazer hibernar minha conta, acatando conselho de alguns amigos que se arretaram e decidiram se afastar do festival de asneiras que assola a rede. Já não tinha mais Dramin B6 que desse jeito nas náuseas. Estava quase concordando com uma amiga muito querida, que costuma chamar o face de anticristo, por conta das intolerâncias, preconceitos e namoros com a Idade Média que encontramos por aqui. Mas eis que a engenhoca criada pelo geniozinho Zuckerberg me fez sorrir de novo. Acorda, Chico, deixa de ser ranzinza. Quanto pessimismo. Não reclama. Sua vida é bela. Fui obrigado a concordar. Compungido. Tomei um choque de realidade. Depois do que li hoje, nada mais tem importância - o fedor do debate político que anda insuportável, o fato de o Brasil estar sendo varrido por onda conservadora, os tempos cinzentos que se anunciam no horizonte. Tudo bobagem, babaquice e mesquinharia. Fundamental é mesmo prestar irrestrita solidariedade a quem confiou piamente em padrinhos de casamento e foi mortalmente traída. Sabes o que é isso? Terrível! Uma desgraça! Você entrega seu futuro nas mãos de alguém que você considerava pra caramba e... fica a ver navios. Abandonada. Esquecida. Jogada às traças. Como assim? Foi o que aconteceu com uma pobre coitada que resolveu usar o face para fazer um tocante e justíssimo desabafo. Em resumo, a rapariga dizia no texto que postou "estar muito chateada com um casal de padrinhos que não tem noção do quanto custa pra fazer um casamento". O drama: quando fez os convites, a moçoila especificou para cada casal convidado para abençoar o matrimônio quais os presentes que deveriam ser ofertados, definindo ainda prazos para as entregas. Ela precisava montar a casa dela, oras bolas. Como a data estabelecida já tinha estourado, e um presente ainda não havia chegado, ela resolveu conversar com os padrinhos furões. Tudo com muita educação e elegância, claro. Regras de etiqueta. Pois não é que os maledetos e ingratos tiveram a ousadia de dizer que não poderiam mais arcar com o presente combinado, pois tinham investido em equipamentos de um curso para o filho? Quanta audácia. Não satisfeita, a dupla teve a pachorra de dar apenas 500 reais para os afilhados, em espécie, para que pudessem gastar a verba da forma como julgassem melhor. Aí já é demais. Quinhentos mangos? E a noiva é lá senhora de aceitar esmolas? Justo para ela, que detesta e abomina o bolsa família, essa migalha doada a vagabundos. Teve impulso de rasgar o dinheiro, de cuspir nos padrinhos. No face, a rapariga traída escreveu "o que eu faço com 500 reais? Achei uma falta de consideração da parte deles. Se não iam poder dar o presente, por que aceitaram ser padrinhos? Depois, se sabiam que tinham uma responsabilidade como padrinhos, podiam muito bem ter esperado mais um pouco para o curso do filho. Afinal, eu estava contando com isso. Tô muito chateada e com muita vontade de desconvidar o casal, mas ele é o melhor amigo do meu noivo (imagina se fosse inimigo) e acho chato chamar alguém tão em cima da hora". Que situação. Daqui, só posso dizer: minha filha, tens toda a minha incomensurável solidariedade. Tremenda sacanagem. Absurdo. Que raios de padrinhos são esses que não entendem esse negócio chamado casamento? Mais, querida do face: preciso te agradecer, do fundo do coração. Porque você me acordou para a vida, me deu uma ideia genial. Vou pedir de novo a mão da Elisa Marconi em casamento. É, nossa união é apenas civil, vamos agora investir forte no matrimônio religioso. Sagrado sacramento mercantilista. Certamente vamos aprender com os erros tão tristemente relatados pela senhorita. Antes de fazer os convites para os padrinhos, faremos uma reunião solene e exigiremos declarações de imposto de renda, holerites e extratos de movimentações das contas correntes dos últimos três meses. A partir dessa triagem, será estabelecida a divisão dos presentes. Tudo com muita parcimônia. Queremos um apartamento novo, área nobre da cidade, terracinho gourmet, sauna, piscina, quadras, academia e pelo menos quatro vagas na garagem. Óbvio, câmeras de segurança espalhadas pelo condomínio, cercas eletrificadas e homens de preto nas guaritas e nos muros, armados, para reforçar proteção. Uma casa em Orlando, para passar as férias com o Mickey. Viagem de lua de mel para Cancún. Tinha pensado numa SUV, mas diferenciados já me disseram que é meio brega. Melhor exigir uma mercedes. Ah, vá, tudo bem, pode ser uma SUV também. Para variar. Ostentar. Tudo a nossa cara, Elisa! Nada mais de vida miserável! E seremos felizes para a sempre, até que a morte nos separe. Meus amigos, por essas e por outras é que não saio mesmo do face. Não arredo pé. É muita felicidade. Um manancial de ótimas ideias. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

VOU-ME EMBORA PRA REPÚBLICA DO NORDESTE

Meus queridos irmãos nordestinos, lamento muito, peço desculpas, mas a latrina fedorenta foi novamente destampada pelos bandeirantes civilizados aqui do estado que é a locomotiva da nação. E aí vocês já sabem como é, diarreia esclarecida e água barrenta diferenciada para todos os lados. Alto nível, sempre. Não do Cantareira. Das falas nossas de cada eleição. Porque aqui somos todos bem educados, muito informados, graduados, especialistas, doutores. Nada de grotões, dos quais queremos distância. E tome 'bolsa vagabundo, só pensam em ter filhos, ignorantes que não sabem votar, vermes da nação' e outras elegâncias quatrocentonas. Óbvio, já resgataram e vociferam o progressista e ancestral 'é preciso separar São Paulo desse resto do país. Não dá mais para aguentar essa ralé nordestina'. Pois querem saber, meus companheiros aí de cima? Tomem as rédeas do processo e da história e definam a separação. Desenhem as linhas divisórias. Proclamem a independência da República Nordestina. Antes que algum aventureiro o faça. Deixem o Sul maravilha a ver navios. Só peço que me concedam, por gentileza, a cidadania nordestina. Para mim, Elisa Marconi, Luiza e Daniel. Será uma honra imensa pular o muro, atravessar a fronteira e conviver com nossos iguais. Nas dores e nas delícias de sermos o que somos. Humanos. Recebam em terras de vocês essa família que tanto respeita e admira essa região e seu povo. Que prazer. Que alívio. Muito obrigado. De coração.