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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

FÉRIAS. UM BRINDE AO ANO NOVO!

Foto: Um brinde às férias.


E QUE TAL APROVEITAR O JUSTO E MERECIDO DESCANSO PARA COLOCAR AS LEITURAS EM DIA?

A REVISTA GIZ, DO SINDICATO DOS PROFESSORES DE SÃO PAULO, PREPAROU UM ESPECIAL COM 22 SONORAS DE ESCRITORES BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, QUE FALAM SOBRE SUAS OBRAS (ROMANCES) RECENTEMENTE LANÇADAS E REVELAM AINDA DETALHES DE SEUS PROCESSOS CRIATIVOS.

PARA OUVIR OS PODCASTS, CLIQUE NO LINK - http://revistagiz.sinprosp.org.br/?p=4818

O BLOG VOLTARÁ À PROGRAMAÇÃO NORMAL EM MEADOS DE JANEIRO.

ABRAÇOS E ATÉ LÁ!

MUITO OBRIGADO E EXCELENTE 2014 PARA TODOS!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

EDNEY SILVESTRE REVISITA O TERROR DA DITADURA E O FRACASSO DOS ANOS COLLOR

No premiado romance de estreia, "Se eu fechar os olhos agora" (Record, 2009), Edney Silvestre arrastava sem pedir licença (que bom) o leitor para uma eletrizante trama que combinava assassinato, mistério, investigações policiais, racismo, machismo, corrupção e influências políticas da pior espécie, permeados por memórias e resquícios da ditadura de Getulio Vargas. Na obra seguinte, "A felicidade é fácil" (Record, 2011), não tão arrebatadora, menos tensa, mas igualmente bem escrita, o sequestro de quem se imaginava ser o filho de um publicitário rico e influente é o ponto de partida para um olhar aguçado sobre a soberba e a vida pautada pelo consumo das elites brasileiras, a contrastar com as mazelas e carências das periferias e dos que ocupavam a base da pirâmide, sem perspectivas de mudanças, no Brasil do início dos anos 1990.

Em "Vidas provisórias", que acaba de chegar às livrarias pela editora Intrínseca, reencontramos Edney em seus melhores momentos como contador de histórias, a conduzir a narrativa a partir dos universos de dois personagens presentes nas obras anteriores. Paulo, um dos garotos-detetive de "Se eu fechar...", é agora um jovem estudante de Direito que vive no Rio de Janeiro. Confundido com um militante da resistência armada de esquerda à ditadura civil-militar que se instalou no país em 1964, acusado de ter participado do sequestro do embaixador alemão, é preso e barbaramente torturado. Edney não poupa o leitor das descrições, dos choques, dos urros, dos cheiros, do sangue e das dores. Logo nas primeiras páginas já se lê: "Tossiu. A dor surgida nos pulmões percorreu imediatamente o corpo inteiro. Um gosto azedo subiu até a garganta e invadiu as narinas. Sentiu ainda mais dificuldade para respirar. Se ao menos conseguisse erguer o tronco. Se ao menos conseguisse. O tronco. O peso. Sobre as pernas. Se soltasse as mãos. As mãos. Os pés descalços. Sujos. Inchados. Era sangue, aquilo? No peito do pé e nos dedos?". Exilado na Suécia, depois de ter passado pelo Chile, o rapaz convive com as marcas físicas e psicológicas das sevícias. "Este é o grande poder dos torturadores. A dor não passa. O domínio deles continua", escreve o autor. Paulo casa-se com Anna, funcionária da Anistia Internacional, com quem tem dois filhos, Edward e Joseph. Torna-se funcionário da Unesco e, nos anos 2000, passa a percorrer o mundo a defender a democracia e os direitos humanos. O fantasma da ditadura, no entanto, não lhe dará sossego. Nunca mais.

Barbara, filha do motorista morto em "A felicidade é fácil", vive a absoluta falta de perspectivas, a desesperança e a decepção profunda com o Brasil governado por Fernando Collor de Melo. Foi a época em que, empurrados pelo desemprego, pela recessão e pelas poupanças confiscadas, as mentiras do caçador de marajás, milhares de brasileiros abandonaram o país e voaram para o gigante do norte, em busca de um sonho tão sedutor quanto falso de realização profissional, prosperidade e enriquecimento. Em terras estadunidenses, a jovem vive quase em cárcere privado voluntário, auto-reclusão, pânico permanente por ser imigrante ilegal, a paúra de poder ser presa a qualquer momento pelos órgãos de controle de imigração. Sem falar inglês, trabalha como faxineira e manicure de compatriotas, que buscam construir certa rede de proteção num país que não tolera estrangeiros. Encanta-se com Filipe, que morre vítima da Aids, aproxima-se de prostitutas e vê-se em determinado momento novamente ameaçada pela presença de políticos influentes e poderosos.

Nos mais de dez anos que passa no exterior, observa a mudança de perfil dos brasileiros que por lá chegam. No final dos 90, são as peruas que tomam conta da cidade de Nova Iorque. "São mulheres recentemente enriquecidas, de cabelos alisados e tingidos, idades apagadas por bisturis e injeções, faces e corpos alterados cirurgicamente, cobertas de penduricalhos, vestidas e calçadas de marcas famosas, carregando malas e bolsas de marcas famosas, carregando bolsas estampadas com nomes de costureiros, sapateiros e fabricantes  de malas".

As vozes dos dois protagonistas se intercalam, em capítulos que são diferenciados por agradáveis soluções gráficas. Chamam a atenção também os diálogos rápidos e cortantes construídos pelo autor, as breves palavras, às vezes falas que são quase grunhidos, mas que batem no leitor repletas de significados. É uma das marcas da narrativa.

Ao trazer à tona a história recente do Brasil, sobretudo nas lembranças amargas de Paulo, Edney recorre a um aspecto que já foi definidor do romance brasileiro em outras épocas: o fazer da Literatura um exercício de reflexão sobre a nossa sociedade, a nossa identidade. É uma característica que, como traço de unidade, parece já não mais fazer parte das preocupações principais da nossa geração contemporânea de escritores, pautados por saudável pluralidade temática e reconhecidos por habilidades com linguagens, mas que acabam por perder de vista a tarefa de discutir o país. No texto "A ficção que (não) discute a realidade", o professor e jornalista Fabio Silvestre reforça que "tema recorrente na literatura de autores clássicos como Machado de Assis e Graciliano Ramos, o Brasil tem sido um assunto pouco privilegiado por escritores contemporâneos".

Edney fura esse bloqueio - e de forma consciente. No booktrailer de "Vidas provisórias", diz que deseja que as pessoas se lembrem verdadeiramente o que é uma ditadura. No livro, ele escancara essa realidade. Em trecho que trata da Guerrilha do Araguaia, o militar diz a Paulo que "não sobrou nenhum terrorista para contar a história. Seus amigos revolucionários agora são considerados desaparecidos. E assim ficarão para sempre. Corpos esquartejados e carbonizados somem da História. (...) Os subversivos que me preocupam estão vivos. E estão se reagrupando. Nas fábricas, nas igrejas, nas redações, nas faculdades, até mesmo dentro das próprias Forças Armadas. Precisamos impedir isso. (...) Geisel é uma decepção. Mas vamos dar um jeito nisso, também".

As histórias se entrelaçam ainda na permanente sensação de não pertencimento, de fuga, de raízes que ficaram perdidas no passado, identidades arrancadas e apagadas, nas dores cruas do exílio. O final não é previsível, embora não chegue a ser surpreendente. Vidas provisórias que se cruzam. Prepara, talvez, mais um capítulo da saga romanesca de Edney. Quem sabe sejamos em dois anos (esse é o tempo médio da escrita dele) presenteados com um livro que tenha como pano de fundo os anos da chamada era Lula.

terça-feira, 30 de julho de 2013

EM 'SAL", LETICIA WIERZCHOWSKI RETOMA SAGAS FAMILIARES

Durante várias décadas, homens de sobrenome Godoy foram responsáveis por cuidar com esmero do farol da ilha de La Duiva, que ilumina os caminhos e dá as referências de perigos escondidos no mar aos barcos que navegam pela região. Com a morte do marido Ivan, educado nas artes de entender o sobe e desce das ondas, o último dos Godoy que de fato soube controlar a pulsação daquele acende-apaga incansável de luzes, Cecília, a viúva, decide solicitar à capitania dos portos a contratação de um faroleiro profissional. Achava que era preciso colocar fim aos naufrágios que passaram a ser registrados por ali, em quantidade fora do comum. "O farol precisava de alguém à sua altura, um homem forte e jovem que pudesse domar-lhe o selvagem coração de luz, o ventre de concreto, as vísceras brancas e vermelhas". No fundo da alma, a velha senhora alimentava outro desejo: sozinha na ilha, queria aproveitar o tempo livre para dedicar-se a resgatar as memórias da família. "Sal", romance escrito pela gaúcha Leticia Wierzchowski e que chegou recentemente às livrarias, narra essas lembranças. O livro é um tapete colorido, várias camadas, tecidas pelas mãos hábeis da costureira/narradora Cecília. Deixando vir à tona amores profundos e remoendo dores ainda intensas, bem vivas, a matriarca mistura novelos de lã de cores variadas.

O entrelaçar das agulhas, que trabalham em ritmo frenético, permite ao leitor conhecer as trajetórias dos seis filhos do casal. Cada um deles é identificado por Cecília com uma cor. Lucas, o primogênito, é azul. Sente remorso pela morte súbita do pai e decide abandonar muito jovem a ilha. Julieta, sépia, não suporta a avó paterna, tem pesadelos com ela e é vítima de espécie rara de epilepsia. Eva e Flora são gêmeas e, embora associadas à mesma cor (magenta), escancaram personalidades opostas. A primeira é ardilosa, sedutora, encantadora de rapazes, a colecionar conquistas amorosas. Não suporta viver na ilha. Odeia ler. Adora nadar. A outra é romântica, sonhadora, conhecedora profunda das obras clássicas da Literatura. E escritora.

Artesã das letras, é Flora quem divide com Cecília a tarefa de preservar a história da família. Em "Sal", as vozes das duas se alternam, se completam, brigam. Lançam olhares distintos sobre o mesmo universo. A filha fica assustada, porque muito daquilo que ela escreve acaba acontecendo de verdade. As tramas se esparramam, difusas, convidando novos e decisivos personagens a participar do enredo. Por caminhos tortos, o romance produzido por Flora chega às mãos de Julius, professor da Universidade de Cambridge, estudioso da nova literatura latino-americana. Ele fica em êxtase, profundamente encantado com a competência narrativa da jovem e anônima autora que morava naquela ilha distante, litoral do Uruguai. Vai ao encontro dela. Começam a namorar. É apenas atração intelectual.

Porque Julius apaixona-se desbragadamente mesmo é por Orfeu, outro irmão de Flora, também mais velho que ela. Associado ao vermelho, intenso, libertário, leitor voraz, sofre desde criança com os olhares fulminantes de condenação do pai, que só aceita filho 'macho'. Busca abrigo nos braços compreensivos da mãe. E de outros rapazes. Por um tempo, esconde a homossexualidade (embora todos já soubessem). Quando decide assumi-la, foge da ilha para viver grande amor com o professor de Cambridge. Arrisca-se e morre por ele, longe de casa. Quem sai pelo mundo para tentar reencontrar o irmão, a pedido da mãe, é Tiberius, cor amarela, o caçula do casal Godoy. Tem premonições, consegue adivinhar o futuro. Depois de cumprir sua missão, de enfrentar agruras e de conhecer conquistas, o rapaz volta para a ilha, levando com ele o filho Santiago. Cecília, que se identifica com a cor branca (em tempo: Ivan é verde), vê as esperanças renovadas. Alegra-se com a possibilidade de cuidar do neto. O mais novo Godoy. O herdeiro. Um menino, cor violeta, que será apresentado ao farol da ilha de seus ancestrais. "Ainda posso, ainda tenho forças nestes meus braços. Meu coração alquebrado não esqueceu como se ama", comemora a matriarca.

Cecília, importante destacar, é uma narradora nada egoísta. Na costura que faz, dá vez a outros personagens: Ivan fala sobre Orfeu, Tiberius revela suas impressões sobre Lucas, Eva diz o que pensa sobre Flora. Não há censuras. A polifonia é marca de "Sal". Sim, a obra tem duas narradoras principais, a conduzir o leitor pela mão - mas a saga familiar é reconstituída a partir de um furacão múltiplo de vozes, que sistematiza sobreposição de sotaques, numa (compreensível) torre de Babel. Há momentos em que várias linhas são desfiadas ao mesmo tempo, e o leitor, instigado e curioso, passa a persegui-las, movendo-se de lá para cá, perguntando-se aonde a autora pretende chegar com tantos novelos sendo desenrolados. Será que vai perder o fio da meada? É recurso para não permitir desviar a atenção. Há de fato trechos em que essa dispersão parece exagerada. Um risco. Aos poucos, com habilidade e sutileza, as pontas vão se encontrando, os nós vão sendo dados. Há surpresas reservadas, claro. O que estava desconectado forma conjunto. E o tapete ganha contornos nítidos. O leitor consegue enxergá-lo, com todas as suas cores.

Em "Sal", publicado pela editora Intrínseca, Leticia retoma caminho que já havia seguido em livros anteriores, como "A casa das sete mulheres" e "Aparados" - esmiuçar histórias familiares, tratando das picuinhas e desavenças cotidianas, problemas ditos menores, mas que acabam por minar convivências, como as relações sempre conturbadas entre sogra e nora. Aborda também dúvidas e angústias mais profundas de todos nós (no romance, além do preconceito, do tabu a acompanhar a homossexualidade, e por conta da paixão de Orfeu e Julius, há sensíveis reflexões sobre o início da epidemia mundial de Aids, quando a síndrome não era conhecida, sequer tinha nome).

Ao conversar tão de perto com o passado e permitir-se acessar as caixas interiores mais íntimas, a matriarca Cecília faz um convite aos leitores, independentemente de idades: sempre é tempo de tecer tapetes coloridos e de fazer balanços de perdas e ganhos.  

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A FORÇA DOS PERSONAGENS EM "A TRISTEZA EXTRAORDINÁRIA DO LEOPARDO-DAS-NEVES"

Um escrivão de polícia atormentado e insone, amparado por generosas e corriqueiras doses de whisky e comprimidos de anfetamina, divide suas atenções entre a rotina na delegacia e os cuidados não muito entusiasmados com o pai, senhor de idade com demência em estágio avançado (tentou duas vezes o suicídio), que gosta de ouvir do filho, antes de dormir, histórias sobre animais. Moram num sobrado no tradicional bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo - no térreo, funciona uma antiga mercearia ainda mantida pelo patriarca; o abrigo deles fica no andar de cima.

Bem perto, num casarão misterioso, sombrio, vive a Sra X, enfermeira especializada em geriatria, formada na Inglaterra e profundamente religiosa, responsável por cuidar de uma personagem enigmática, com um metro e vinte e cinco centímetros de altura e trinta e dois quilos de peso, a usar sempre uma capa vermelha. Identificada apenas como a "Criatura", sofre com uma doença que faz a pele ficar cheia de escamas e feridas, aparência terrível. Quase um monstro. Por conta da saúde delicada e da repulsa que provoca, passa boa parte do tempo enclausurada, incomunicável, recorrendo a leituras e à televisão. Os raríssimos programas para além das paredes da mansão são noturnos. Obrigatoriamente. Para sobreviver, as duas são ajudadas por um solidário e curioso entregador de supermercado (o único que quase consegue ver a Criatura na mansão). É ele quem faz chegar comida e outros mantimentos básicos até elas (muitas vezes colocando na conta do patrão). Obcecado pela vontade de arrumar namorada, motivo de chacota entre os colegas, o rapaz quase estupra uma jovem da igreja que frequenta.

Numa das aventuras fora do casarão, cuidadosamente planejada, a Sra X e a Criatura participam do Nocturama, passeio oferecido pelo zoológico da cidade, a permitir que os visitantes tenham contato direto com animais de hábitos noturnos. São levadas ao parque por um taxista sádico, dedicado a encontrar vítimas (primeiro gatos, depois carneiros e até moradores de rua) para saciar a gana enfurecida dos três cães rottweilers que ele cria. A Criatura deseja ardentemente conhecer de perto o leopardo-das-neves que, depois de se deixar encantar pela sonoridade da voz humana, foi capturado nas distantes montanhas da Rússia e atravessou o mundo até chegar ao cativeiro paulistano. Com a rejeição inicial e posterior morte da companheira de jaula, já no zoológico em São Paulo, o felino asiático entra em profunda depressão, com transtornos de comportamento. Refugia-se numa caverna. Só sai dela à noite. Desesperado, dilacera as patas dianteiras. Quase morre.

Naquela noite fatídica, depois de deixar a Sra X e a Criatura no portão de entrada do parque, num ímpeto de fúria e movido por instinto cruel, o taxista decide voltar para buscar seus cachorros em casa, faz meia volta e retorna com eles ao zoológico, para que lá pudessem se fartar impunemente com novo desafio - caçar impiedosamente os bichos soltos. As histórias se encontram. Os caminhos se cruzam. Explode uma narrativa tensa, com cenas eletrizantes e cortes rápidos, descrições detalhadas, a lembrar os escritos do mestre Edgar Allan Poe, misturando mistério, suspense, tragédia, mortes, o fantástico e o sobrenatural, uma tempestade, uma veterinária vaidosa e sem saber como reagir, casais movidos por falsas paixões, celulares sem bateria, orelhões de emergência que não funcionam e até espancamento, exigindo finalmente investigação policial, que será acompanhada e relatada pelo escrivão. O caso do Nocturama, como o episódio ficará conhecido, será (também) narrado ao pai do policial. Noturnamente, a embalar o sono do velho. Coincidência: terminei de ler "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves", romance mais recente do mato-grossense Joca Reiners Terron, na madrugada fria e chuvosa da terça para a quarta-feira (24-25 de julho), quando os termômetros em São Paulo marcavam temperaturas baixíssimas, perto de zero grau. Inspirador.

Ao demarcar ainda território com pistas paralelas, num emaranhado de tecidos que se completam, a narrativa coloca o leitor em sintonia com reflexões diretamente relacionadas à essência do ser humano e evidencia contradições que caracterizam megalópoles como São Paulo. Em mutações com sentidos inversos, o leopardo se humaniza, despertando solidariedade e preocupações, e a Criatura se bestializa, provocando sustos, medo e ojeriza. Sem saber ao certo como lidar com a velhice e a doença, o escrivão tem no pai um estorvo, uma atrapalhação, de quem deve cuidar quase que só por pena e obrigação, a confirmar a terceira idade como uma etapa descartável da existência e de quem desejamos distância. Quando garoto, o narrador revolta-se e dá uma surra num colega que não consegue esconder comportamento racista e o chama de sarará, dizendo que "ele não podia ser filho de um homem tão branquinho" (a mãe do protagonista era negra; o pai, judeu).

O taxista, no limite do desprezo absoluto pela vida, a fazer do diferente produto também descartável, sem culpa, é capaz de oferecer aos dentes afiados e implacáveis de seus cães um morador de rua, para arrefecer o instinto selvagem de destruição dos animais. "(...) em poucos segundos o cão mais jovem conseguiu mordê-lo na garganta. A última nota da execução musical  - um dó maior - foi o som da carótida do morador de rua se partindo". Na percepção do taxista, que circulava regularmente pelo Bom Retiro e imediações à procura de passageiros, a região central da cidade, durante a noite, abriga "putas e travestis nas calçadas escurecidas. Viciados em crack. (...) Mapeou os locais utilizados pelos noias para dormir. (...) Observou a dança dos corpos envoltos por cobertores malcheirosos. As chamas avermelhadas dos cachimbos improvisados".

Na visão do narrador, desde criança morador do bairro, "no comecinho da manhã, o Bom Retiro volta à vida e é tomado pelos comerciantes coreanos que batem papo nas portas de suas lojas, enquanto os velhos judeus que restaram vão à sinagoga rezar para que em breve possam aumentar o preço do aluguel pago pelos coreanos, e as ruas então são ocupadas pelo bolivianos, por toda a população de Santa Cruz de la Sierra e de La Paz juntas, que rezam para Ekeko lhes arranjar dinheiro fácil para retornarem a seu país, mas na verdade só conseguem ser explorados pelos coreanos, que devem seus aluguéis aos judeus".

Em debate recentemente realizado na Virada da Livraria Cultura, que reuniu também os escritores Daniel Pellizzari e Andréa del Fuego, Joca anunciou a disposição literária de abandonar os raciocínios tortuosos e as frases rebuscadas presentes em obras anteriores para apostar em narrativas de personagens. História de múltiplas vozes, embalada por conflitos mundanos e comportamentos complexos, não raro espantosos e repugnantes, "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves" registra com tintas bem nítidas essa reviravolta. E deixa o leitor com vontade de "quero mais".

segunda-feira, 22 de julho de 2013

ESCRITORES FALAM SOBRE DIVERSIDADE DE TEMAS NA LITERATURA BRASILEIRA



Dúvida cruel de uma tarde de domingo - acompanhar o debate sobre "A nova prosa brasileira", 15h, na Virada da Livraria Cultura, ou ver pela televisão os meninos da Vila contra o Coritiba, às 16h? Pensa de lá, calcula de cá, ajusta trajetos e desejos. Decidi finalmente substituir o "ou" pelo "e". Apostei na conciliação. Lá fui eu curiosamente ouvir os escritores Andréa del Fuego, Joca Terron e Daniel Pellizzari, legítimos representantes da chamada literatura nacional contemporânea, em debate mediado por André Conti, editor da Companhia das Letras. O jogo veio em seguida (os quinze primeiros minutos ouvi pelo rádio, no carro, na volta para casa, comemorando o gol do Neílton e ainda degustando as análises literárias e as histórias que tinha ouvido).

Instigados pelo mediador, os três autores dedicaram-se inicialmente a considerar e avaliar a multiplicidade de temas que marca nossa atual produção de livros, cenário diferente daquele vivido há quinze ou dez anos, quando o espectro de assuntos parecia bem mais limitado. Andréa concordou que é inegável o surgimento de novas vozes literárias e que, em breve, talvez cheguemos a um estágio onde todo leitor também será de alguma maneira escritor, principalmente por conta da internet. "A produção textual tem aumentado significativamente. Tem muita gente saindo do armário para as prateleiras, ainda que de forma independente. Claro que vamos ter de pensar sobre a qualidade de tudo isso. Pode ser ingenuidade, mas me parece interessante que seja assim, pois ainda temos poucos apreciadores da literatura brasileira, quando comparamos com os estrangeiros e os best sellers". Ela citou como exemplo o primeiro romance que escreveu, "Os Malaquias", lançado em 2010, uma narrativa rural, marcada por experimentalismo mágico, que se passa na roça de Minas Gerais, e que acabou conquistando elogios do público e dos críticos, garantindo-lhe inclusive o Prêmio José Saramago de 2011. "Era muito específico. Foi uma surpresa", reconheceu.

Depois de uma literatura pós-ditadura militar, nos anos 1990, marcada essencialmente por histórias urbanas, relacionadas à violência e à exclusão social, a constatação de Joca Terron é que seria obrigatório e inevitável que essa produção explodisse e se tornasse multifacetada, a representar divergências da própria sociedade brasileira. Ele alertou, no entanto, que esse movimento é ainda limitado, pois nossas principais editoras estão concentradas no eixo Sul-Sudeste, e quem produz literatura num outro cenário (o Centro-Oeste, por exemplo), com outras dicções e enredos, acaba por encontrar barreiras complicadas e nem sempre é bem recebido. "É cada vez mais evidente que a literatura é constituída coletivamente. Não dá mais para apostar só naquele gênio, que tem seu público cativo e seu estilo consolidado", reforçou. Para Pellizzari, a diversificação temática é um fenômeno diretamente associado ao amadurecimento dos autores - impactados pela internet, começam a escrever cada vez mais cedo. "Nos anos 90, a dinâmica era muito verticalizada e pautada pela mídia. Havia espécies de juízes específicos do gosto do público. Hoje, há dezenas de sites e de blogs, que recomendam autores distintos. Talvez mudanças nos escritores tenham sido empurradas por essa leitura mais horizontal. A partir daí, um autor influencia o outro, há trocas, impactos mútuos, até por contrastes, e nasce um circuito mais amplo".

Movimentando-se do geral ao particular, os três escritores não se furtaram também a explicitar características específicas de suas obras, sobretudo dos livros mais recentes de cada um deles. Pellizzari revelou que demorou muito - sete anos - para escrever "Digam a Satã que o recado foi entendido". Depois de apostar, em romances anteriores, naquilo que chamou de tradição mais formalista, queria falar sobre pessoas, desenvolver os personagens com mais profundidade, abordar variados pontos de vista, sugerindo como se formam consciências. Teve várias crises, não sabia muito bem como construir e conduzir essa história. "Foi uma mudança de perspectiva. Acho que consegui concretizar a polifonia que desejava". Terron afirmou que a ficção é uma arte relacionada à maturidade e que leva tempo para um escritor desenvolver e consolidar sua técnica. Ele lembrou que, ao final de "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves", muitos leitores perguntaram as razões que tinham levado o autor a abandonar as frases mais longas e rebuscadas. "Talvez porque elas fossem ruins", reconheceu. Assim como Pellizzari, preferiu apostar firme nos personagens. "É fascinante desenvolvê-los. É a isso que tenho me dedicado nos últimos tempos", completou.

Andréa já tinha uma carreira reconhecida com os contos e as narrativas infanto-juvenis. Depois do que chamou de uma corrida de dez quilômetros, ainda tinha dúvidas se teria fôlego e capacidade para correr uma maratona - escrever um romance. O de estréia, "Os Malaquias", representava mais acerto com relações familiares, consagrando o que ela chamou de oferenda aos ancestrais. A linhagem estava esgotada. Caminhar para onde? "Nesses momentos, é fundamental estar disposta a ser afetada", contou. Começou a estudar Filosofia. Foi apresentada a um escritor grego do século II, Artemidoro de Daldis, que era mestre em interpretar sonhos. Nasceu dessa inspiração o novo romance dela, "As miniaturas" (nesse momento, a plateia fez Andréa também reconhecer que "em botecos, já interpretara sonhos de amigos", com relativo sucesso e acertos...). A obra foi escrita enquanto ela estava grávida ("tinha nove meses, não sabia como ia ser minha vida com o bebê"). Sofreu ainda a pressão do patrocinador. Ela teve financiamento da Petrobras - e havia prazo fechado para a conclusão do livro.

"Se há amadurecimento literário, está justamente em ser mais capaz de perceber os exageros do texto e em jogar coisas secundárias fora. Fiquei satisfeita com o resultado final, mas prometi não ir mais atrás de bolsas. Teria trabalhado com mais tempo e paciência", contou. Talvez nadando contra a corrente, Andréa disse que gosta de ser editada e que jamais finaliza um livro sozinha. Lembrou de uma situação, durante a escrita de "As miniaturas", em que foi convocada pelo editor André Conti para discutir algumas passagens da obra. Sentiu um frio na espinha, imaginou que ouviria "é uma porcaria". Nada disso. Eram anotações e sugestões pontuais. Numa delas, num canto de página, Conti havia indicado: "brega!". Com exclamação mesmo. Era um trecho da trama onde descrevia masturbação masculina. "O garoto jamais diria isso que está escrito, me alertou o André. Tive de concordar com ele. Mudei".

Conti não se lembrava da anotação. Riu, junto com a plateia. Disse que seria interessante resgatar esses originais. Eu, confesso, fiquei curioso para saber como a cena foi resolvida. Vou ter de esperar mais um pouco. O livro de Andréa deve ser lançado na primeira semana de agosto.