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sexta-feira, 16 de agosto de 2013
A BANALIDADE DO MAL NARRADA PELO ROMANCE DE JOHN BANVILLE
Frederick Montgomery é um matemático respeitado, a vislumbrar promissora carreira de pesquisador na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Sem muitas explicações, talvez movido pelo desejo do desconhecido, tocado pela adrenalina das aventuras, a incapacidade de criar raízes, esquece as pesquisas e abandona repentinamente a academia. Casa-se com a jovem Daphne e com ela passa a desbravar ilhas paradisíacas na Europa. Sem dinheiro para bancar as extravagâncias crescentes, envolve-se com traficantes e, mergulhado em dívidas e ameaçado pelos criminosos, retorna à terra natal, uma cidadezinha chamada Coolgrange, na Irlanda, disposto a arrecadar o que estava devendo. Ou para fugir do problema. Deixa mulher e filho como reféns. Parece não se importar. Não fala mais neles. Em casa, reencontra a mãe, com quem guarda relações tensas e cheias de arestas e divergências, além de retomar contato com um velho conhecido, Charlie French, a quem considera como pai. Na esperança de recuperar obras de arte que tinham pertencido à família, vendidas pela mãe para garantir sustento, invade a mansão Whitewater, onde os quadros estavam agora expostos, e rouba a pintura "Retrato de uma mulher com luvas", do século XVII, que teria sido feita por mestre anônimo. Pego em flagrante por uma empregada da casa, mata a pobre coitada com uma, duas, três marteladas na cabeça. Passa nove dias na casa de Charlie, sem manifestar qualquer remorso ou arrependimento - nem evidencia preocupação em esconder as marcas do crime. Também não faz menção de fugir. Apenas aguarda o inexorável. É finalmente preso. Interrogado, confessa o assassinato. Na cadeia, escreve aquela que seria sua defesa no tribunal. É esse testemunho tenso, em primeira pessoa, que chacoalha e incomoda pela aparente naturalidade, quem conduz a narrativa de "O livro das provas", romance do irlandês John Banville publicado em 1989, lançado por aqui pela Record em 2002 e que agora tive a oportunidade de ler. É a história do assassino, de sua juventude às vésperas do julgamento. Ou não. Porque o que leitor acompanha é a reconstrução dos fatos comandada exclusivamente pelos desejos e anseios de quem talvez pretenda mais despistar e esconder do que revelar. É a fala, cínica e manipuladora, de um criminoso frio, de um psicopata, de uma mente perversa que cria e recria explicações e situações, misturando realidade com fantasia, que assume ter matado porque teve a chance de matar. Sem mais. E que quase nos convence. Quase. É daquelas obras para ser lida em uma sentada, a invadir a madrugada, sem respirar. Todas as palavras e parágrafos estão em seus devidos lugares, sem firulas, sem excessos, na medida certa. Por meio da ficção, Banville, destaque da última FLIP e um dos mais importantes escritores em língua inglesa da atualidade, pega o leitor pela mão e o convida a refletir sobre o mal, o desespero, a violência e os desvios de comportamento que assombram a existência humana.
terça-feira, 30 de julho de 2013
EM 'SAL", LETICIA WIERZCHOWSKI RETOMA SAGAS FAMILIARES
Durante várias décadas, homens de sobrenome Godoy foram responsáveis por cuidar com esmero do farol da ilha de La Duiva, que ilumina os caminhos e dá as referências de perigos escondidos no mar aos barcos que navegam pela região. Com a morte do marido Ivan, educado nas artes de entender o sobe e desce das ondas, o último dos Godoy que de fato soube controlar a pulsação daquele acende-apaga incansável de luzes, Cecília, a viúva, decide solicitar à capitania dos portos a contratação de um faroleiro profissional. Achava que era preciso colocar fim aos naufrágios que passaram a ser registrados por ali, em quantidade fora do comum. "O farol precisava de alguém à sua altura, um homem forte e jovem que pudesse domar-lhe o selvagem coração de luz, o ventre de concreto, as vísceras brancas e vermelhas". No fundo da alma, a velha senhora alimentava outro desejo: sozinha na ilha, queria aproveitar o tempo livre para dedicar-se a resgatar as memórias da família. "Sal", romance escrito pela gaúcha Leticia Wierzchowski e que chegou recentemente às livrarias, narra essas lembranças. O livro é um tapete colorido, várias camadas, tecidas pelas mãos hábeis da costureira/narradora Cecília. Deixando vir à tona amores profundos e remoendo dores ainda intensas, bem vivas, a matriarca mistura novelos de lã de cores variadas.
O entrelaçar das agulhas, que trabalham em ritmo frenético, permite ao leitor conhecer as trajetórias dos seis filhos do casal. Cada um deles é identificado por Cecília com uma cor. Lucas, o primogênito, é azul. Sente remorso pela morte súbita do pai e decide abandonar muito jovem a ilha. Julieta, sépia, não suporta a avó paterna, tem pesadelos com ela e é vítima de espécie rara de epilepsia. Eva e Flora são gêmeas e, embora associadas à mesma cor (magenta), escancaram personalidades opostas. A primeira é ardilosa, sedutora, encantadora de rapazes, a colecionar conquistas amorosas. Não suporta viver na ilha. Odeia ler. Adora nadar. A outra é romântica, sonhadora, conhecedora profunda das obras clássicas da Literatura. E escritora.
Artesã das letras, é Flora quem divide com Cecília a tarefa de preservar a história da família. Em "Sal", as vozes das duas se alternam, se completam, brigam. Lançam olhares distintos sobre o mesmo universo. A filha fica assustada, porque muito daquilo que ela escreve acaba acontecendo de verdade. As tramas se esparramam, difusas, convidando novos e decisivos personagens a participar do enredo. Por caminhos tortos, o romance produzido por Flora chega às mãos de Julius, professor da Universidade de Cambridge, estudioso da nova literatura latino-americana. Ele fica em êxtase, profundamente encantado com a competência narrativa da jovem e anônima autora que morava naquela ilha distante, litoral do Uruguai. Vai ao encontro dela. Começam a namorar. É apenas atração intelectual.
Porque Julius apaixona-se desbragadamente mesmo é por Orfeu, outro irmão de Flora, também mais velho que ela. Associado ao vermelho, intenso, libertário, leitor voraz, sofre desde criança com os olhares fulminantes de condenação do pai, que só aceita filho 'macho'. Busca abrigo nos braços compreensivos da mãe. E de outros rapazes. Por um tempo, esconde a homossexualidade (embora todos já soubessem). Quando decide assumi-la, foge da ilha para viver grande amor com o professor de Cambridge. Arrisca-se e morre por ele, longe de casa. Quem sai pelo mundo para tentar reencontrar o irmão, a pedido da mãe, é Tiberius, cor amarela, o caçula do casal Godoy. Tem premonições, consegue adivinhar o futuro. Depois de cumprir sua missão, de enfrentar agruras e de conhecer conquistas, o rapaz volta para a ilha, levando com ele o filho Santiago. Cecília, que se identifica com a cor branca (em tempo: Ivan é verde), vê as esperanças renovadas. Alegra-se com a possibilidade de cuidar do neto. O mais novo Godoy. O herdeiro. Um menino, cor violeta, que será apresentado ao farol da ilha de seus ancestrais. "Ainda posso, ainda tenho forças nestes meus braços. Meu coração alquebrado não esqueceu como se ama", comemora a matriarca.
Cecília, importante destacar, é uma narradora nada egoísta. Na costura que faz, dá vez a outros personagens: Ivan fala sobre Orfeu, Tiberius revela suas impressões sobre Lucas, Eva diz o que pensa sobre Flora. Não há censuras. A polifonia é marca de "Sal". Sim, a obra tem duas narradoras principais, a conduzir o leitor pela mão - mas a saga familiar é reconstituída a partir de um furacão múltiplo de vozes, que sistematiza sobreposição de sotaques, numa (compreensível) torre de Babel. Há momentos em que várias linhas são desfiadas ao mesmo tempo, e o leitor, instigado e curioso, passa a persegui-las, movendo-se de lá para cá, perguntando-se aonde a autora pretende chegar com tantos novelos sendo desenrolados. Será que vai perder o fio da meada? É recurso para não permitir desviar a atenção. Há de fato trechos em que essa dispersão parece exagerada. Um risco. Aos poucos, com habilidade e sutileza, as pontas vão se encontrando, os nós vão sendo dados. Há surpresas reservadas, claro. O que estava desconectado forma conjunto. E o tapete ganha contornos nítidos. O leitor consegue enxergá-lo, com todas as suas cores.
Em "Sal", publicado pela editora Intrínseca, Leticia retoma caminho que já havia seguido em livros anteriores, como "A casa das sete mulheres" e "Aparados" - esmiuçar histórias familiares, tratando das picuinhas e desavenças cotidianas, problemas ditos menores, mas que acabam por minar convivências, como as relações sempre conturbadas entre sogra e nora. Aborda também dúvidas e angústias mais profundas de todos nós (no romance, além do preconceito, do tabu a acompanhar a homossexualidade, e por conta da paixão de Orfeu e Julius, há sensíveis reflexões sobre o início da epidemia mundial de Aids, quando a síndrome não era conhecida, sequer tinha nome).
Ao conversar tão de perto com o passado e permitir-se acessar as caixas interiores mais íntimas, a matriarca Cecília faz um convite aos leitores, independentemente de idades: sempre é tempo de tecer tapetes coloridos e de fazer balanços de perdas e ganhos.
O entrelaçar das agulhas, que trabalham em ritmo frenético, permite ao leitor conhecer as trajetórias dos seis filhos do casal. Cada um deles é identificado por Cecília com uma cor. Lucas, o primogênito, é azul. Sente remorso pela morte súbita do pai e decide abandonar muito jovem a ilha. Julieta, sépia, não suporta a avó paterna, tem pesadelos com ela e é vítima de espécie rara de epilepsia. Eva e Flora são gêmeas e, embora associadas à mesma cor (magenta), escancaram personalidades opostas. A primeira é ardilosa, sedutora, encantadora de rapazes, a colecionar conquistas amorosas. Não suporta viver na ilha. Odeia ler. Adora nadar. A outra é romântica, sonhadora, conhecedora profunda das obras clássicas da Literatura. E escritora.
Artesã das letras, é Flora quem divide com Cecília a tarefa de preservar a história da família. Em "Sal", as vozes das duas se alternam, se completam, brigam. Lançam olhares distintos sobre o mesmo universo. A filha fica assustada, porque muito daquilo que ela escreve acaba acontecendo de verdade. As tramas se esparramam, difusas, convidando novos e decisivos personagens a participar do enredo. Por caminhos tortos, o romance produzido por Flora chega às mãos de Julius, professor da Universidade de Cambridge, estudioso da nova literatura latino-americana. Ele fica em êxtase, profundamente encantado com a competência narrativa da jovem e anônima autora que morava naquela ilha distante, litoral do Uruguai. Vai ao encontro dela. Começam a namorar. É apenas atração intelectual.
Porque Julius apaixona-se desbragadamente mesmo é por Orfeu, outro irmão de Flora, também mais velho que ela. Associado ao vermelho, intenso, libertário, leitor voraz, sofre desde criança com os olhares fulminantes de condenação do pai, que só aceita filho 'macho'. Busca abrigo nos braços compreensivos da mãe. E de outros rapazes. Por um tempo, esconde a homossexualidade (embora todos já soubessem). Quando decide assumi-la, foge da ilha para viver grande amor com o professor de Cambridge. Arrisca-se e morre por ele, longe de casa. Quem sai pelo mundo para tentar reencontrar o irmão, a pedido da mãe, é Tiberius, cor amarela, o caçula do casal Godoy. Tem premonições, consegue adivinhar o futuro. Depois de cumprir sua missão, de enfrentar agruras e de conhecer conquistas, o rapaz volta para a ilha, levando com ele o filho Santiago. Cecília, que se identifica com a cor branca (em tempo: Ivan é verde), vê as esperanças renovadas. Alegra-se com a possibilidade de cuidar do neto. O mais novo Godoy. O herdeiro. Um menino, cor violeta, que será apresentado ao farol da ilha de seus ancestrais. "Ainda posso, ainda tenho forças nestes meus braços. Meu coração alquebrado não esqueceu como se ama", comemora a matriarca.
Cecília, importante destacar, é uma narradora nada egoísta. Na costura que faz, dá vez a outros personagens: Ivan fala sobre Orfeu, Tiberius revela suas impressões sobre Lucas, Eva diz o que pensa sobre Flora. Não há censuras. A polifonia é marca de "Sal". Sim, a obra tem duas narradoras principais, a conduzir o leitor pela mão - mas a saga familiar é reconstituída a partir de um furacão múltiplo de vozes, que sistematiza sobreposição de sotaques, numa (compreensível) torre de Babel. Há momentos em que várias linhas são desfiadas ao mesmo tempo, e o leitor, instigado e curioso, passa a persegui-las, movendo-se de lá para cá, perguntando-se aonde a autora pretende chegar com tantos novelos sendo desenrolados. Será que vai perder o fio da meada? É recurso para não permitir desviar a atenção. Há de fato trechos em que essa dispersão parece exagerada. Um risco. Aos poucos, com habilidade e sutileza, as pontas vão se encontrando, os nós vão sendo dados. Há surpresas reservadas, claro. O que estava desconectado forma conjunto. E o tapete ganha contornos nítidos. O leitor consegue enxergá-lo, com todas as suas cores.
Em "Sal", publicado pela editora Intrínseca, Leticia retoma caminho que já havia seguido em livros anteriores, como "A casa das sete mulheres" e "Aparados" - esmiuçar histórias familiares, tratando das picuinhas e desavenças cotidianas, problemas ditos menores, mas que acabam por minar convivências, como as relações sempre conturbadas entre sogra e nora. Aborda também dúvidas e angústias mais profundas de todos nós (no romance, além do preconceito, do tabu a acompanhar a homossexualidade, e por conta da paixão de Orfeu e Julius, há sensíveis reflexões sobre o início da epidemia mundial de Aids, quando a síndrome não era conhecida, sequer tinha nome).
Ao conversar tão de perto com o passado e permitir-se acessar as caixas interiores mais íntimas, a matriarca Cecília faz um convite aos leitores, independentemente de idades: sempre é tempo de tecer tapetes coloridos e de fazer balanços de perdas e ganhos.
sábado, 7 de julho de 2012
O BOM ROMANCISTA É, POR DEFINIÇÃO, UM MANIPULADOR
ESPECIAL FLIP
| McEwan (esq.) e Jennifer falaram sobre construção de personagens e a relevância da pesquisa. A mediação foi de Arthur Dapieve (dir.) Foto - Divulgação FLIP |
Dois dos mais importantes autores em língua inglesa de nosso tempo,
porque recorrem às múltiplas vozes narrativas para lidar, com singularidades,
com uma agonia ancestral e universal, a incomodar o ser humano desde que nos
reconhecemos como tal: a passagem rápida e provocante do tempo, sempre a nos
desafiar e nos confrontar com nossa própria finitude, sem que jamais possamos
controlar essa dimensão. Foi recorrendo a esses atributos literários que o jornalista e
crítico musical de "O Globo", Arthur Dapieve, apresentou os
escritores Ian McEwan, nascido na Inglaterra e autor de obras como
"Reparação" e "Serena", que acaba de ser lançado no Brasil,
e Jennifer Egan, estadunidense autora de "A visita cruel do tempo",
que venceu o Pulitzer de Ficção de 2011. Os dois participaram da mesa
"Pelos olhos do outro", no início da tarde deste sábado, 7 de julho,
na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Travaram um diálogo
inteligente, instigante e sedutor sobre processos criativos e a respeito da importância do
romance em tempos de virtualidades e redes sociais.
Provocados pelo mediador, começaram contando como
constroem seus personagens. Ian revelou que suas escolhas não são conscientes.
Ele disse que embarca como um sonâmbulo na história, como se estivesse a pintar
um primeiro traço do rosto, depois outro, mais um - e quanto mais avança no
desenho do corpo e das expressões, mais se obriga a buscar traços cada vez mais
coerentes e harmônicos. "Quando começo, não faço a menor ideia de como
ficarão meus personagens, não consigo imaginá-los em definitivo. Eles simplesmente
vão aparecendo", contou. Jennifer observou que procura sempre partir de uma atmosfera, de um espaço-tempo estabelecido, e garantiu que não escreve sobre a própria
vida, nem se inspira em pessoas que conhece. "O que busco são as
contradições e tento me imaginar nas cabeças de outras pessoas".
Os dois concordaram com aquilo que consideram ser
uma característica absolutamente fundamental e definidora do romance: nessa dinâmica criativa, é preciso
encarnar outra pessoa, outra voz narrativa. "Deixar-se absorver e abrir-se
a outras mentes. Estamos sempre e invariavelmente nos apoiando nos
outros", marcou Ian, insistindo nessa palavra: outros. "Somos
inventivos, ousados", completou Jennifer. Para eles, revelar as histórias
a partir dos olhares e das percepções de mundo de alguém que não é exatamente o
autor é uma das razões que confere força e atrativos ao gênero e que impede o romance de morrer.
Ao falar sobre esforço de pesquisa na construção
da obra, a escritora estadunidense chegou a surpreender ao reconhecer que, para
escrever "Torreão", livro recentemente lançado no Brasil, tentou
inicialmente escapar desse esforço de apuração. "Achei que não havia
necessidade, que a história não exigia. Foi desculpa para minha preguiça",
continuou. Por conta dessa postura, ela admitiu que em diversos momentos da
história, enquanto escrevia, sentia certa falta de autoridade nas descrições.
"Não sabia por exemplo qual era o cheiro de uma prisão". Percebeu que
era preciso, ainda que minimamente, preencher essas lacunas - visitou então um
presídio, onde passou oito horas, atenta aos mínimos detalhes. "Fez uma enorme
diferença. A leitura tornou-se mais viva e iluminada".
Ian usou o exemplo do livro "Sábado", de 2005, que tem como protagonista um neurocirurgião, para detalhar o mergulho de
compreensão que procura desenvolver quando está escrevendo. Ele lembrou que
passou um bom tempo usando jaleco branco, em hospitais, acompanhando cirurgias. Aproveitou
para contar uma passagem divertidíssima: estava certa vez no centro cirúrgico
quando alunas de Medicina se dirigiram a ele para solicitar autorização para
acompanhar uma operação de aneurisma. Ele foi extremamente gentil e disse que ficassem à vontade - e foi
relatando o passo a passo da cirurgia, com pormenores. Ao final do
procedimento, as estudantes agradeceram a paciência dele. "Fico me
perguntando como elas se saíram nas provas, já que foram instruídas não por um
neuro, mas por um romancista", completou, arrancando gargalhadas da
plateia.
Quando solicitado pelo mediador a destacar as
virtudes que encontra nas obras de Ian, Jennifer não hesitou em apontar o fato
de serem histórias convincentes e empolgantes, marcadas por tensão e beleza nas
palavras, com cores e ritmos sedutores, além de os livros dele tratarem de uma
diversidade ampla de temas, personagens e pontos de vista. Já o inglês definiu
a obra da colega estadunidense como "permeada por realismos e descrições
competentes e minuciosas, com rigorosa articulação e concatenação de
ideias".
Instigado também a refletir sobre romances de
espionagem - "Serena" escancara essa trama de suspense -, Ian
arriscou dizer que muito provavelmente todos os romances de alguma maneira
buscam inspiração no trabalho dos espiões, "se considerarmos que temos a
consciência de que não podemos revelar tudo de uma só vez, que o trabalho do
romancista consiste exatamente em reter informações, para vazá-las lentamente,
aos pouquinhos, e nos momentos certos". Sobre essa estratégia, Jennifer
disse que as narrativas de espionagem são arquétipos que conseguem captar a
experiência da modernidade. "Temos sempre a sensação de que temos
informações secretas, só nossas, e que somos mais importante do que realmente
somos".
Ao comentar ainda o sucesso e a atração provocados pelos romances de
espionagem, que transitam o tempo inteiro pelo mundo dos segredos, em tempos de
superexposição midiática e de rompimento de fronteiras entre público e privado
graças às redes sociais, a autora estadunidense lembrou de um texto que
escreveu para o New York Times sobre a vida on-line de um grupo de adolescentes
homossexuais que não tinham se assumido como tal. Aqueles jovens consideravam
que o mundo virtual era para eles a vida real, pois era naquele momento e
plataforma que podiam ser eles mesmos, sem máscaras. No entanto, eram apenas
aparências e representações, simulações, já que na virtualidade também
precisavam mentir, eram adultos que se passavam por crianças, homens que se
diziam mulheres. Era um paradoxo impressionante. "Para os adolescentes,
era mesmo um universo de abertura e de liberdade. Mas tudo aquilo era falso. O
grupo criou uma série de personagens. Tínhamos algo muito próximo do
romance", recordou Jennifer.
Já no final do debate, alguém na plateia perguntou se os autores
tinham prazer em manipular seus leitores - as idas e vindas nas narrativas dos
dois são uma constante. "Claro, com certeza, é o maior prazer que tenho na
vida. Mas não é um prazer sádico. Pensem em quando estamos pescando trutas.
Quando conseguimos segurá-las, é comum fazer cócegas nas guelras delas, quando
elas entram numa espécie de transe, e a pesca se concretiza. Essa é uma
analogia possível para a relação que estabeleço com meus leitores", respondeu
Ian. Para Jennifer, todo bom romancista é, por definição e recusando o sentido
pejorativo da palavra, um manipulador. "Você vai conduzindo o leitor pela mão. A
questão é: com que objetivo? Se for para oferecer uma surpresa fantástica ao
final, vale a pena. É aceitável. Desejável. As surpresas são maravilhosas. Eu
as adoro".
Houve ainda tempo para que o mediador perguntasse sobre a
expectativa dos autores em relação ao Prêmio Nobel. Jennifer soltou uma sonora
gargalhada e disse que está bastante satisfeita, mesmo sem o reconhecimento da
Academia Sueca. Ian disse que é preciso lembrar de outros autores que também
não ganharam o Nobel, como James Joyce e Franz Kafka. "Estamos muito bem
acompanhados", finalizou.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
MODOS DE ESCREVER DE POLA E DE valter hugo
DE PARATY
Depois de acompanhar bem de perto a alegria desavergonhadamente estampada nos rostos dos pequenos, que participaram de conversas com Pedro Bandeira e Ilan Brenman, renomados escritores infanto-juvenis, dei uma rápida escapada para ver na Tenda do Telão a mesa 6 da Festa Literária Internacional de Paraty - que recebeu o título "Pontos de Fuga". A conversa reuniu nesta sexta-feira o angolano-português valter hugo mãe (assim mesmo, como ele escreve, com minúsculas), autor elogiadíssimo pelo inesquecível Nobel José Saramago, e a romancista argentina Pola Oloixarac, uma das convidadas mais badaladas da festa e incluída pela respeitada revista literária britânica Granta na lista dos vinte melhores jovens autores contemporâneos em língua espanhola.
Era uma mistura de sotaques e de estilos que se anunciava muito promissora - e o diálogo de fato valeu a pena. Mas já em seu início sugeriu também que a plateia teria de lidar, ao longo daquela hora e meia de reflexões, com percalços e incômodos que acabariam por tornar tortuosas algumas falas - especialmente no que disse respeito à escritora argentina.
Feitas as apresentações, como determina o cerimonial da FLIP, o mediador da mesa, jornalista Angel Gurría-Quintana, como deve ter sido combinado nos bastidores, pediu a Pola que lesse de imediato um trecho de seu romance "As teorias selvagens", que articula utopias e situações políticas com provocações sobre novas tecnologias. A expressão constrangida de Pola acabou por denunciá-la: não havia subido ao palco com sua "cola", as linhas previamente selecionadas. Tentando manter controle da situação, sereno, o mediador apontou dois caminhos: "podemos procurar seu livro. Ou você faz a leitura usando o exemplar em Português que está aqui". A argentina fez uso da segunda opção. Não funcionou.
Foi então que as páginas em espanhol finalmente apareceram. Alívio geral. Durou pouco. Fomos mais uma vez pegos de surpresa e o que era solução assumiu ares de novo obstáculo: a tradução simultânea da fala da argentina acontecia automaticamente, para todos, em som ambiente, e não apenas para os que tinham escolhido acompanhar com fones de ouvido. Conclusão: não foi possível ouvir os pedaços da história narrados pela voz da própria Pola. Para complicar: a ampla, geral e irrestrita tradução da fala da romancista, que infelizmente se estendeu por toda a palestra, parecia atrasada e fragmentada, truncada, com longas pausas tomando conta do ambiente, deixando pouco compreensíveis momentos significativos do depoimento.
Estranhamento - talvez seja essa a sensação a expressar mais de perto o que aconteceu com o público. O que mais se via eram olhares com contornos de pontos de interrogação e um burburinho que se transformou rapidamente em comentários incontidos do tipo "está muito ruim, não estou entendendo nada, ela não fala coisa com coisa". A avaliação foi confirmada ao final da palestra: na saída, havia um consenso que estabelecia que a tradução tinha mesmo atrapalhado a recepção mais precisa e nítida da fala de Pola (que, por si só, já parecia mesmo um tanto dispersa). Uma pena.
Do que foi possível garimpar, Pola disse considerar a cultura como um espaço em guerra e contou que em sua obra procura estabelecer pontes com os desejos humanos, tudo aquilo que gostaríamos de dizer mas não estamos anunciando abertamente. "Me divertia essa perspectiva de fazer comédia e de dar conta da paixão pelo conhecimento, que é a razão de ser da literatura". No entanto, de forma provocativa, ressaltou que desejava guardar distância de antigas tradições políticas da literatura latino-americana, que a argentina considera muito engajadas e disciplinadas - leia-se "certinhas".
Pola concorda que seu romance pretende assumir um certo caráter experimental e de laboratório. Lembrou que a obra é uma porta aberta para o debate sobre a moralidade de nossa época - característica aliás que considera uma tradição genuína da literatura argentina, presente em grandes autores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Contou ainda que para ela a construção de personagens é sempre uma enorme diversão. "São pessoas com quem eu gostaria de estar, de certa forma são meus amigos".
Não faltaram farpas para a crítica. "Quando uma mulher fala sobre ideias, com repertório e ambição intelectual, arruma-se sempre um jeito de banalizar a discussão e de torná-la trivial. Não tinha percebido esse comportamento até lançar o romance. Foi uma surpresa". Aproveitou ainda a chance para anunciar que está trabalhando em dois novos romances: um sobre plantas, tendo florestas brasileiras como cenário; o outro será sobre uma temporada que ela passou na Califórnia, Estados Unidos, em uma base militar da agência espacial norte-americana, a NASA.
Sem a tradução, e num português para lá de claro e acessível, a fala de valter hugo soou muito mais atraente e pôde ser mais bem aproveitada. Ao revelar detalhes de seu processo criativo, disse que o "escritor procura substituir com a literatura aquilo que lhe falta na vida real". Para ele, escrever é um trabalho sobretudo destinado a suscitar a percepção sobre o que o mundo tem de melhor, que são as pessoas. "Livros são máquinas de fazer ver e sentir". O angolano-português fez questão de deixar bem claro - suas obras não são auto-biográficas. "Não mereço, minha vida não é interessante, não sou James Bond ou qualquer outra celebridade do cinema", brincou.
valter hugo - um dos campeões de vendas de livros na loja da FLIP, ao lado do neurocientista Miguel Nicolelis - cresceu amedrontado pela ideia da morte. Contribuía para esse temor o fato de o pai dele sempre ter dito que morreria de cancro - o que de fato acabou se consumando. A primeira meta do escritor era completar 18 anos; depois, 33, a idade de Cristo. Com quase 40 (vai completá-los em setembro), fica se perguntando: "mereço viver tanto?".
Não por acaso, essa angústia em relação ao fim da vida evidencia-se no último romance dele - "a máquina de fazer espanhóis", em que o protagonista, um velho com 84 anos, tem de redescobrir e reinventar o sentido da vida em plena e avançada velhice. Este livro na verdade encerra uma quadrilogia, que nasce com "o nosso reino" (personagem principal é uma criança de oito anos), passa por "o remorso de baltazar serapião" (protagonista é um jovem com 20 anos), chega a "o apocalipse dos trabalhadores" (destaque para mulheres com 40) e se fecha com "a máquina...".
"Acabei construindo, juntando os quatro livros, uma história de um tempo normal de vida para um ser humano. A literatura me ajudou a compreender essa experiência fascinante chamada vida. Se eu morrer com 40, penso que não será tão dramático", voltou a brincar.
Sem perder tempo, emendou: tem muito prazer em escrever. "Não quero que o público fique com a referência de que meus textos são deprimentes". Contou então que se diverte em várias etapas de sua catarse criativa de escritor. "Tenho ataques de riso, dou gargalhadas, e muitas vezes até perco a piada e não sei mais o que queria escrever". Reconheceu: é literalmente tomado pelo processo, fica enfeitiçado pelas narrativas - interage com os personagens, fica esperando que batam à porta dele, não sabe se é dia ou noite. "O momento de escrever é salvação. É o melhor tempo do meu ano".
Sobre o peso da tradição da literatura portuguesa, disse que é fundamental valorizar os clássicos, sem perder de vista a exigência de pavimentar caminhos criativos de singularidade. E por falar em gênios escritores portugueses, em mais um momento de descontração, contou que já dormiu no quarto que pertenceu a Fernando Pessoa. No dia seguinte, os jornalistas queriam saber se fantasmas tinham aparecido (talvez o heterônimo Ricardo Reis?). "Dormi mal sim, mas porque a cama era péssima, muito estreita", divertiu-se, arrancando aplausos da plateia, cativada também pelo próximo projeto do autor. "Sinto a necessidade de ter filhos. O romance que estou a finalizar é sobre o perceber e o descobrir o que é ser pai".
Ao final, lendo uma carta com elogios ao Brasil, aos brasileiros, às mulheres brasileiras e até mesmo a Renato Russo e à canção "Tempo Perdido" ("todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo"), valter hugo caiu definitivamente nas graças do público presente, principalmente da ala feminina, de quem recebeu efusivos e demorados aplausos.
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