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sábado, 7 de novembro de 2015
LULA E FHC - QUANDO UNS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS
Não tenho procuração para defender A ou B e penso que crimes de qualquer natureza ou 'tamanho' devam ser todos investigados, independentemente do cargo ou status do suspeito, respeitados todos os trâmites e procedimentos determinados pelo Estado de Direito. Mas vamos lá, um minutinho de atenção para um modesto e simples exercício de análise de discurso. Observem as duas matérias abaixo, publicadas hoje pelo 'Estadão'. Estão na mesma página. A notícia sobre o ex-presidente Lula recebe destaque, está no alto, embora as doações já fossem conhecidas. O título sugere que foi Lula, pessoa física, quem recebeu o dinheiro, e não o Instituto Lula, o que faz muita diferença. A empresa é nomeada - Odebrecht. E quem faz a afirmação tem nome também, é a Polícia Federal, estratégia discursiva que pretende garantir legitimidade à afirmação. Argumento de autoridade. Passemos agora à segunda notícia, que vem abaixo, com menos destaque, embora essa fosse, jornalisticamente, a novidade - pela primeira vez, foram identificados repasses para o Instituto FHC. Notem também que, enquanto lá 'Lula recebeu...', aqui a 'empreiteira doou...'. Faz toda a diferença. Ações atribuídas a sujeitos diferentes. Além disso, a empreiteira não tem nome, é genericamente chamada de 'empresa'. O destinatário da grana é o Instituto FHC, não o ex-presidente FHC. E quem chancela a denúncia é um 'laudo', e não mais a PF. Generalidades, de novo. Pergunto - esse tratamento narrativo absurdamente diferenciado e seletivo é casual? Mera coincidência?
domingo, 2 de dezembro de 2012
SOBRE ANJOS, DEMÔNIOS E AS RESPOSTAS QUE O PT ESTÁ DEVENDO
Espero que me compreenda.
Trago para este texto memórias afetivas, angústias, críticas, muito mais que
respostas. É um fragmento desencontrado de desilusões, umas anunciadas, outras
nem tanto, mas estranhamente é também um mosaico de renovação de esperanças.
Busco aqui meu divã, a exorcizar anjos e demônios para fazer, quem sabe, a alma
e as entranhas doerem um pouco menos. Razão e emoção se misturam, se sobrepõem. Assim, se quiser, chame o post de desabafo. É um pouco assim mesmo. Caso sirva para ajudar a travar o bom debate, já estarei satisfeito. Porque o cenário político exige esse exercício profundo de reflexão.
Por um acaso talvez não tão casual, acabo de sair da leitura de
"Marighella". Na biografia do revolucionário, o jornalista Mario
Magalhães, com maestria, resgata os tempos generosos e terríveis de lutas
contra a ditadura militar, quando a imaginação pretendeu chegar ao poder. Décadas mais tarde, o poder de fato seria alcançado - mas a imaginação virou resignação. E o Partido dos Trabalhadores, ator político fundamental para a derrubada dos anos de terror, vive - mais um - momento
crítico de sua história. Como escreveu o jornalista Mino Carta, "o PT foi
antes envolvido por oportunistas audaciosos, depois por incompetentes
covardes".
Posso dizer
que vi o PT nascer, mesmo sem ter consciência daquela aurora bonita e
promissora. Morava em São Bernardo no final dos anos 1970, tinha seis anos
quando as greves estouraram, adorava quando a gente saía mais cedo da escola
(pura inocência infantil) e morria de medo quando via a tropa de choque e a
cavalaria da Polícia Militar com caras de poucos amigos nas ruas. Foi assim que
o PT começou a representar os sonhos e as utopias de parcelas significativas da
sociedade brasileira. Sem medo de ser feliz, vislumbrava construir
verdadeira democracia popular (o PT era isso, um partido do povo, nascido de
baixo para cima), viabilizando as estruturas e os atores de uma sociedade
socialista.
Lula, a
grande liderança do partido, é incontestavelmente uma das figuras políticas
mais importantes da História do Brasil, nos séculos XX e XXI. O migrante
nordestino que passou fome e sede, apanhou do pai, perdeu a primeira esposa, o
dedo no torno mecânico, que foi vítima dos mais vis preconceitos e discursinhos
nojentos, preso pela ditadura militar, chegou à Presidência da República por
meio do voto popular, o primeiro operário a ocupar a cadeira. Eis aqui um
sujeito porreta, danado de bom, por quem guardo profunda admiração. Carinho. A
trajetória dele é fascinante.
Mas, no
poder, Lula ficou maior que o PT. E o lulismo - misto de medidas econômicas
conservadoras, políticas sociais e de distribuição de renda, amplo arco de
alianças políticas e base social sustentada pelos menos favorecidos da pirâmide
- acabou rendendo-se e adaptando-se à real politik. Para o cientista político
André Singer, "o lulismo existe sob o signo da contradição. Conservação e
mudança, reprodução e superação, decepção e esperança num mesmo
movimento". Nessa dinâmica pendular, em nome da governabilidade, o PT
acomodou-se. Começou a gostar do jogo - de um jogo que toca a bola de lado,
administrando resultados, sem ousadia e alegria. O PT conciliou. Conchavou. Aos
poucos, muitas bandeiras de luta petistas foram ficando para trás, perdidas na estrada
- a reforma agrária talvez seja o exemplo mais gritante e lamentável. A
transformação radical das estruturas foi substituída pela premissa das
reformas, suaves. O lulismo caiu nos braços do capitalismo. Como projeto
político, assumiu viés messiânico, distribuindo ordens, passando
tratores e impondo verdades, a sugerir infalibilidade, a fomentar e comemorar o culto à personalidade, como se fora do lulismo não houvesse salvação
possível para a sociedade brasileira.
É legítimo
argumentar e questionar se Lula teria conseguido governar caso não tivesse
enveredado por esse caminho do consenso. A dúvida procede. São as mazelas e armadilhas do
presidencialismo parlamentarista de coalizão brasileiro, representação no
Congresso pulverizada e distribuída por mais de 20 partidos, forças hegemônicas
do mercado a pressionar e financeirizar a esfera pública. Sem os acordos, há quem defenda, a administração teria sido trucidada, teriam feito
pó dela, em pouquíssimo tempo. Para superar as resistências, entra em cena a tal da "aliança sob hegemonia programática do PT". Será que, sem esse arco, o destino inevitável teria sido o desgoverno? Tenho cá minhas dúvidas.
E, se for assim mesmo, então de que vale o poder, se, quando
conquistado, significa apenas a inexorável capitulação e o imediato escorregar
pelos dedos de desejos por mudanças, para finalmente tornar-se palatável e
amigável aos de sempre? Nas redes sociais, tomou contornos na semana que passou
a seguinte discussão, resumidamente: seria melhor o PT falando fino no governo
ou gritando grosso na oposição? Guardadas as devidas proporções, parece-me um
tanto com o infindável debate "futebol de resultados e vencedor versus futebol
arte, mas suscetível a derrotas". Não dá para jogar bonito e levantar
taças? Não dá para falar grosso também no governo?
Fagocitado
gradativamente pelo lulismo, e provavelmente deslumbrado com as benesses agudas
e sedutoras oferecidas pelo governo, picado pela mosquinha, o PT apequenou-se. Diante do dilema
tensionar para avançar ou pactuar para consolidar-se como porto seguro, optou
pelo segundo caminho. Como escreveu Mino Carta, "o PT atual perdeu a
linha, no sentido mais amplo. Demoliu seu passado honrado. Abandonou-se
ao vírus da corrupção, agora a corroê-lo como se dá, desde sempre com absoluta
naturalidade, com aqueles partidos que nunca foram". O mensalão, em 2005,
colocou o partido à beira do precipício. Naquele momento dramático, faltou
construir uma narrativa que combinasse de maneira inteligente e honesta
considerável pitada de humildade com ênfase e firmeza de princípios - aqueles
que desaguaram na fundação do PT.
Faltou vir a
público para, sem metáforas, zombarias ou oportunismos, sem tergiversar, dizer
"erramos, assumimos os erros, relançamos o pacto para, daqui em diante,
materializar ações políticas contundentes para coibir tais práticas". Como
calibrar o tom desse discurso? Tarefa para os dirigentes partidários e para os
intelectuais historicamente ligados ao partido, como sugere Elisa Marconi,
companheira de todas as horas. Não seria uma fala puramente moral, mas um
acordo político, republicano, embasado pelo repeito e cuidado irrestritos com a coisa
pública. Ao calar-se e omitir-se, ao insistir no prato feito do "não tenho
nada com isso, não fizemos nada que outros já não tenham feito", o PT
permitiu que outro discurso fosse forjado. Perdeu ali a guerra de narrativas. O
que viesse depois seria paliativo, remendo. Espaço vazio é espaço
ocupado.
O resultado
foi o implacável massacre midiático, que incutiu na opinião pública (ao menos em parte
dela, a publicada) o pressuposto que dizia que o único resultado aceitável
para o julgamento do mensalão seria a condenação a penas máximas de todos os
líderes e representantes do PT (com os outros réus, a preocupação era bem
relativa). De preferência, que saíssem do Supremo Tribunal Federal algemados, com requintes de
crueldade, direto para presídios de segurança máxima, com "direito"
quem sabe à tortura e pena de morte. A artilharia mirava fundamentalmente José
Dirceu, o demônio em forma de gente. O roteiro foi desde sempre conhecido - a
Veja denuncia, a Folha repercute no final de semana, o Jornal Nacional da Rede
Globo amplifica e fatia durante a semana. Ainda que não como antes, e sim com
fissuras e resistências, esses veículos continuam a pautar a agenda pública. Ou
não? Exagerei? Alguém duvida?
Foi a partir dessa agenda que o STF associou-se convenientemente à histeria forçada midiática, rendendo-se
a específico clamor popular sanguinolento. O plenário da Corte foi transformado
no cenário ideal para um show folhetinesco de exageros e de sensações próprias
do mundo do entretenimento. Caras, bocas, polêmicas gratuitas, transmissões ao vivo, holofotes... Foi preciso desencavar - e usar às avessas - uma tal teoria
do domínio do fato para condenar, mesmo sem provas disponíveis nos autos (o que
é diferente de afirmar que elas não existam). A maioria do Supremo,
capitaneada pelo mais novo herói e justiceiro da nação, pesou a mão na
dosimetria e foi implacável com o núcleo político do PT. José Dirceu pegou
quase 11 anos; José Genoíno, quase sete; e João Paulo Cunha, mais de nove anos,
se nada mudar nos recursos. Os que só aceitavam sangue aplaudiram efusivamente. Soltaram rojões.
A
carnificina da mídia e os desvios do Supremo não isentam nem justificam os
erros do PT. Gente grande no partido sujou as mãos. Cometeram crimes, que
careciam de julgamento, à luz e sob o rigor das leis e do Direito, não dos
perigosos exercícios de suposições, ilações e do "não é possível que não
soubesse". Tal comportamento só faz enfraquecer a democracia e abre
delicadíssimos precedentes. Minha convicção: o mensalão foi um nome fantasia de
forte apelo popular, a referendar o jogo midiático. Comprar meia dúzia de
parlamentares, de deputados que já faziam parte da base aliada, quando eram necessários ao menos 308 votos para aprovar emendas constitucionais, como era
o caso? Não parece um despropósito, uma tolice, se pensarmos na relação
custo-benefício?
Em minha análise, o que aconteceu foi caixa 2, arrecadação
irregular de recursos para pagamento de dívidas de campanha, inclusive de
partidos aliados. O que, novamente, não absolve o PT. Também não lhe dá o
direito de alegar que "todos os partidos são assim, não foi exclusividade
nossa, estamos pagando por aquilo que todos fazem, é do jogo político, foi
assim desde sempre e ninguém foi punido". Se era (é) assim, o PT foi
eleito para fazer diferente. E o financiamento público de campanhas, por
exemplo, bandeira que o partido empunhava? Se havia fantasmas no armário, o PT chegou ao governo para exorcizá-los, não para esparramar novas
assombrações.
Na hora de contar as histórias de terror, é relevante observar que a escolha dos fantasmas que serão publicamente anunciados é seletiva - a mídia que procura e acha lá é a mesma que, para dizer o mínimo, se cala cá, empurrando alguns fatos rapidamente ao fundo do oceano, na expectativa de que sejam esquecidos. O PT é surrado; o PSDB, preservado - ou, vez ou outra, toma um pontual pito público. O mensalão petista teve origens e mantém relações umbilicais com o mensalão tucano em Minas Gerais, a envolver figurões como Aécio Neves e Eduardo Azeredo. Enquanto o primeiro tornou-se mantra repetido aos quatro cantos, o segundo é solenemente ignorado pelo jornalismo nacional. Daqui a alguns anos, quem resgatar os jornais de hoje não saberá que aconteceu no Brasil algo gravíssimo conhecido como privataria tucana.
O falar sobre um mas não a respeito de outro esquema criminoso é apenas uma das cenas de um roteiro de perseguição (veremos em breve as razões) que ficou estabelecido desde a posse do primeiro mandato do ex-presidente Lula. O PT acreditou mesmo que seria diferente, que poderia convencer, com sua bela estrela vermelha, as empresas de comunicação a mudar de lado? Imaginou que receberia outro tratamento, tapete vermelho estendido, fartos afagos? Passou em algum momento pelas cabeças dos dirigentes petistas que os nobres sobrenomes que estampam os cabeçalhos de nossos jornais e revistas e os créditos finais de nossos telejornais deixariam assim tão facilmente de frequentar os luxuosos edifícios dos bairros nobres para se deliciar com as vielas das periferias visitadas pelo sapo barbudo? Sem respeitar limites, a mídia muitas vezes atua como Estado paralelo.
O pecado original: o PT e o governo Lula tiveram medo, não bancaram uma Lei de Meios, o controle social da informação - que, muito longe de estabelecer censura, garante o exercício responsável e plural do jornalismo, a definir deveres e direitos, e a proibir a propriedade cruzada dos veículos. Sequer o projeto chegou a ser encaminhado ao Congresso Nacional. Bem ao contrário, continuam a adular os mandarins da mídia, como chamaria Mino Carta, a abarrotar os cofres destas empresas com verbas públicas, por meio de campanhas de estatais e inserções publicitárias muito bem pagas. A vítima financia o algoz. Dorme com o inimigo. Que masoquismo é esse? Por fim, numa manobra covarde e lastimável, joelhos dobrados, o partido patrocinou a retirada do nome de Policarpo Junior, da Veja, do relatório final da CPI do Cachoeira, na semana que passou.
Esse jornalismo caduco já não manda mais, temos as redes sociais e os blogs, alguns responderão. É mesmo espaço democrático fundamental, que questiona, inverte mão de direção e, vez ou outra, é capaz de obrigar os jornalões a correr atrás do prejuízo. Mas ainda é insuficiente para travar a disputa em igualdade de condições, balança equilibrada. Pode ser que esse dia chegue. Ainda não é a realidade. A azeitada engrenagem Folha-Veja-Globo é implacável e invariavelmente aponta o que merece ser discutido ou não - e como vai ser travado esse debate. Provocação de botequim: se já tivéssemos conseguido superar essa armadilha, será que estaríamos falando de mensalão ou de pareceres forjados, com as abordagens que estamos usando? Quem nos canta o ritmo e dita a letra dessa canção? Pois então.
Quando nos damos conta, estamos mais uma vez surfando nas ondas midiáticas, discutindo a corrupção que assola o país, mas a partir exclusivamente de componente moralista, e da pior espécie. É um purismo que fotografa mocinhos e bandidos (isoladamente, sem contextos ou outras variáveis), como se "o ser correto e andar na linha" fosse monopólio dos iluminados e bem formados da sociedade, e como se os "bons costumes" correspondessem à única e absoluta medida de "qualidade da vida social". Permanecem camufladas variáveis políticas da corrupção - um sistema presidencialista com superpoderes (farta distribuição de cargos de confiança), refém de cartórios instalados no Parlamento e dependente das corporações e dos especuladores nacionais e internacionais para financiar campanhas e estruturas de marketing com custos estratosféricos. Eis o debate de fundo - não enfrentado. Porque a grita moralista contra a corrupção foi o que restou à desidratada e apática oposição partidária no Brasil, que tem assim seu papel de contraponto naturalmente substituído pelos meios de comunicação. No Brasil, não há atualmente partidos de oposição, mas jornalismo de oposição.
Presas ao mimimi do "cansei", por má fé, incompetência e/ou oportunismo, não querem as oposições reconhecer ou admitir que o Brasil mudou profundamente durante a chamada Era Lula. Sim, mesmo rendendo-se ao capitalismo, e até por civilizá-lo aqui e acolá, o metalúrgico fez deste outro país, com consideráveis avanços, quando as comparações são estabelecidas com os governos anteriores. Por esta razão também, é o presidente até aqui mais bem avaliado, idolatrado pelo povo, que foi diretamente beneficiado pelas políticas lulistas. O país deixou de ser devedor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e pagou a dívida externa. Em oito anos, foram criados 15 milhões de empregos formais, com carteira assinada. O salário-mínimo conheceu ganho real de quase 60%.
Nasceram o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Minha Casa, Minha Vida, o Luz para Todos. O Bolsa-Família, que dinamiza realidades locais e impulsiona a pequena economia, atendia 13 milhões de famílias em 2010, com orçamento de 13 bilhões de reais. Aproximadamente 28 milhões de brasileiros saíram da miséria e boa parcela deles foi imediatamente parar no grupo das "novas classes médias". O PIB cresceu 7,5% em 2010 - ritmo chinês. Em 2011, atingimos o menor índice de desigualdade social da história - entre 2001 e 2011, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda dos 10% mais pobres subiu 91,2%; a dos mais ricos, 16,6%. A base da pirâmide tornou-se estreita, enquanto a região intermediária dela tornou-se robusta.
O risco Brasil despencou. Foram criadas 14 universidades federais, além do ProUni. Na ciência e tecnologia, somos reconhecidos como "global player". O país voltou a ser respeitado em fóruns e organismos internacionais, a ser ouvido por lideranças mundiais, até chegar ao ponto de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter afirmado publicamente que "Lula era o cara".
Estarão rigorosamente corretos aqueles que, em contrapartida, afirmarem que, durante a Era Lula, a reforma agrária empacou, o agronegócio prosperou exorbitantemente, o clima esquentou, os bancos acumularam ainda mais riqueza, o setor privado da educação nadou de braçada, etnias e tribos indígenas foram condenadas à própria sorte, a violência contra negros aumentou, homossexuais padeceram nas mãos de bancadas religiosas. Faço coro com quem traz à tona tais constatações. "Foi um governo conservador, com inclinação de centro-direita, com ausência de participação popular e uma presença e atuação muito fortes de lideranças empresariais burguesas liberais, que foram o marco do governo", já afirmou o sociólogo Chico de Oliveira.
Negar que o país mudou e avançou, no entanto, me parece leviano, ainda que não tenha sido no ritmo desejado, com a profundidade que gostaríamos, e mesmo que tais transformações já não mais correspondam àquelas originalmente anunciadas pelo PT nos primeiros anos de lutas do partido. É equivocado ainda afirmar que o projeto do PT é o mesmo do PSDB - o primeiro movimentou-se ao centro, com pitadas de social-democracia; o segundo abraçou euforicamente a direita reacionária e udenista. Mas atenção, PT: as mudanças sociais não serão televisionadas. É burrice política tratar como aliado alguém que se faz de morto para engolir o governo na primeira oportunidade. Sempre que puderem, velhacos midiáticos vão produzir factoides, inventar declarações de fontes, exagerar em entrevistas, manipular dados. Jogam sujo.
Está em marcha no país - e não é fenômeno novo, vem
desde a posse primeira, como escrito acima - uma tentativa torpe de recontar a
história dos anos recentes no Brasil, a partir da ótica do andar de cima. Para
tanto, é fundamental implodir imagens públicas (especialmente algumas delas) e
desconstruir reputações. O alvo é Lula.
É preciso fazer dele um ator político inofensivo, para que não possa atuar com impacto nas próximas eleições presidenciais, relativizando e diminuindo ainda o que o governo do barbudo representou para o Brasil. Torna-se imperativo escancarar que "Lula não é o cara". Pior: é um cara nefasto, um impostor, lobo em pele de cordeiro. Não uso - e não vou usar aqui - a expressão PIG (Partido da Imprensa Golpista). É rótulo pouco preciso que serve para aliviar a barra e não raro justificar bobagens cometidas do lado de cá. Ajuda a vitimizar. Mas não vou aliviar para os meios de comunicação, que não escondem o gigantesco desejo de escantear Lula.
Minha hipótese política é: a mídia nativa nutre pelo ex-presidente profundo ódio de classe, por conta da origem social dele, das relações estabelecidas com o povão e as periferias, pelo fato de terem sido quebrados os guetos que separavam a casa grande da senzala e, principalmente, porque Lula mostrou que a democracia brasileira pode funcionar para o populacho, e não apenas para os abastados. As elites brasileiras, donos da mídia aqui incluídos, adoram a democracia - desde que ela não tenha o desagradável cheiro de povo.
É por isso que não entra na minha cabeça: por que dar de ombros, ignorar esse cenário, resignar-se diante dele e ainda por cima insistir em repetir erros primários, em cometer crimes, entregando o ouro a quem está do outro lado do balcão, que tem orgasmos políticos múltiplos a cada novo escândalo anunciado? O ex-presidente teve a chance de mudar a cultura política do país, de reforçar e qualificar relações e práticas republicanas. Mas não deu conta desse desafio.
Vá lá, a Polícia Federal opera com independência, os crimes de colarinho branco têm sido também investigados. Ponto para o governo. No conjunto da obra, no entanto, fechou-se os olhos para práticas antigas, o clientelismo, a troca de favores, a indicação de apadrinhados, a confusão entre o público e o privado. Não é por acaso que, agora e mais uma vez (lições não foram aprendidas?), é publicizada nova investigação da PF a respeito de relações escabrosas envolvendo gente muito próxima do ex-presidente. Nada me importa a vida privada de Lula. Não quero saber com quem ele dormia ou acordava. É a intimidade dele, a ser respeitada. A discussão é de outra natureza quando os braços dessa privacidade invadem a esfera pública.
Não adianta chorar, espernear, brigar com os fatos. Havia uma chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo com poder para barganhar - e conquistar - nomeações em agências reguladoras, além de pareceres forjados, negócios e contratos privilegiados, parentes contratados, diplomas falsos, sistemas do Ministério da Educação fraudados, mensagens eletrônicas falando de pagamentos, pressões por indicações. São os fatos. E não adianta recorrer à política do avestruz e dizer "não é comigo, eu não sabia". A batalha das narrativas será novamente perdida. Não é momento para soberbas, para posturas do tipo "estou acima do bem e do mal, o povo está comigo". Quem cala, consente. É perigoso apostar numa pretensa relação direta com as massas, que estará nas ruas para defender o líder popular quando e se alguém gritar 'é golpe'.
A sensação que resta é de irritadiço abandono. Porque, aqui embaixo, continuamos dando a cara a tapa e apanhando, enquanto os bailes nababescos seguem no andar de cima. Se de lá as respostas não chegam, como ficamos aqui? Se os graúdos não explicam, por que nós deveríamos fazê-lo? Tornamos-nos órfãos políticos. Porque o que em tese nos restaria é uma suposta esquerda também com cara de forte moralismo udenista e um anti-petismo tão ressentido quando rancoroso. Batem no peito para se apresentar como os donos da ética. São os "socialistas puros", os verdadeiros, que agora começam a se deparar com o monstro-devorador de ideologias da real politik. É um projeto que não me serve, não é meu número.
Com tantas confusões se misturando, e embora não tenha vocação alguma para profecias, me parece que a História está sendo generosíssima ao oferecer ao PT mais uma oportunidade - talvez a derradeira - de vir a público para um 'erramos' sincero, rotundo (como diria Leonel Brizola) e político. Pedir desculpas não é vergonha. Foi o jornalista Ricardo Kotscho quem matou a charada: chegou a hora da verdade para o PT. Para ele, "é preciso ter a grandeza de vir a público para tratar francamente tanto do caso do mensalão como do esquema de corrupção denunciado pela Operação Porto Seguro, a partir do escritório da Presidência da República em São Paulo, pois não podemos eternamente apenas culpar os adversários pelos males que nos afligem".
Cobramos explicações. Exigimos respostas. Sem mais demoras ou enrolações. Temos a consciência das perseguições, do ódio de classe, mas recusamos a ladainha do "coitadinhos somos nós". Novamente inspirado na leitura recente da biografia do Marighella, faço como os estudantes franceses no maio de 1968, depois reproduzidos em todo mundo: sou realista, peço o impossível. Vamos continuar sonhando e lutando. Com ou sem você, PT.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
VEJA, PERGUNTAR NÃO OFENDE...
A revista (Panfleto? Tampa de esgoto?) Veja diz que tem a gravação da entrevista com Marcos Valério ("matéria" de capa da edição que está nas bancas) botando a boca no trombone e acusando o ex-presidente Lula de ser o chefe do "mensalão", mas avisa que decidiu não divulgar o áudio para respeitar acordo feito com a fonte.
Singelas dúvidas:
1) Por que raios então a revista escreveu e reconheceu inicialmente, no editorial ("Carta ao Leitor") da mesma edição, que a tal entrevista não aconteceu e que foram ouvidos amigos e "interlocutores próximos" a Marcos Valério?;
2) Por que Marcelo Leonardo, advogado de Marcos Valério, veio imediatamente a público para reforçar e garantir que a revista jamais conversou com o cliente dele, sem que a publicação da Abril movesse um músculo para contestar a afirmação?;
3) Se essa gravação existe, por que não foi ainda encaminhada para a Justiça, para que os devidos procedimentos de investigação sejam adotados? A Veja tem prerrogativas de Ministério Público?;
4) Se Veja tivesse mesmo esse tiro de AR-15 contra Lula, por quem alimenta ódio de classe desde sempre, trancaria o troféu a sete chaves ou correria para espalhar a gravação por todos os canais e meios possíveis e imagináveis, fazendo um "estardalhaço final"? Não seria a tão desejada "bala de prata"? E fica guardada?;
5) Veja guardaria esse tesouro em plena campanha eleitoral (disputas municipais)?;
6) Desde quando a revista se comporta de forma ética, a ponto de honrar e respeitar acordos feitos com as fontes?
6) Desde quando a revista se comporta de forma ética, a ponto de honrar e respeitar acordos feitos com as fontes?
7) Por fim, por que diabos o governo federal continua sustentando esse panfleto (só o governo Dilma investiu cerca de 1,5 milhão de reais na Editora Abril, em inserções publicitárias)?
Só para saber. Perguntar não ofende.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
O CÂNCER DE LULA E O ÓDIO DAS ELITES
Nem bem a notícia sobre o câncer de laringe de Lula havia sido dada, na manhã do último sábado, e as redes sociais e os espaços para comentários de leitores em diversos sites e portais já tinham sido lamentavelmente transformados em esgoto fedorento, tamanha a quantidade de falas torpes e abjetas que começaram a ser postadas. Não vou aqui reproduzi-las, para não oferecer ainda mais espaço e visibilidade gratuitos para o rancor e a ignorância (entendida precisamente como falta de informação ou de argumentos), mas o que veio à tona, de forma efusiva, foram comemorações e regojizos, a agradecer a doença do ex-presidente e a desejar a ele vida curta, dentre tantas outras barbaridades.
O movimento foi tão brutal e desumano (às vezes penso mesmo se o ser humano merece ser chamado de Homo sapiens, aquele que pensa e sistematiza ideias com a razão...) que chegou a incomodar gente como o jornalista Gilberto Dimenstein, que, longe de ser um esquerdista (e de quem discordo na imensa maioria das vezes), apressou-se em publicar na WEB um texto onde reconhecia ter sentido "um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula. Fossem apenas algumas dezenas, não me daria o trabalho de comentar. O fato é que foi uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano. Pode sinalizar algo mais profundo". Tais ativistas de sofá, muitas vezes protegidos por anonimato e perfis fakes (quanta decência e coragem...), aproveitam-se de um drama humano para travar luta política, transformada ainda em guerra suja e lamacenta, da pior espécie, sem escrúpulos.
Para Francisco Fonseca, professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/SP), essa reação corresponde mais uma vez, e de forma cristalina, à ojeriza que as elites sempre manifestaram pela figura de Lula e por aquilo que ele representa - e os adeptos de tal tese encontraram na doença dele mais uma janela para a publicização desse rancor. "Não aceitam que um operário, retirante nordestino, sem a escolaridade formal tenha chegado à Presidência da República. Sempre que podem, buscam revanche. É disso que se trata. Claro que o governo Lula teve inúmeros problemas, mas também registrou avanços inegáveis. O Brasil mudou, para melhor. Mas as elites abandonam a discussão política e investem num forte preconceito social, de classe", avalia o pesquisador, em entrevista exclusiva ao Blog.
No limite, o que as elites explicitam é por tabela uma visão limitada e utilitarista da própria ideia de democracia, já que um dos principais feitos das duas eleições de Lula foi justamente mostrar que a democracia brasileira vale para todos. Como bem lembra o jornalista Mino Carta, estamos afinal a falar de um segmento privilegiado e egoísta da sociedade, que sofre de "umbiguismo" crônico, de uma das elites mais arcaicas e retrógradas do planeta, que tem saudades da Casa Grande e defende ferozmente uma democracia para 20%, sem o povo a incomodar.
O professor da FGV/SP (também autor do livro "O consenso forjado", editora Hucitec, 2005, que discute o papel da grande mídia na consolidação da agenda neoliberal no Brasil) lembra também que, em termos políticos, o Brasil vive, desde o início dos anos 1990, a polarização ideológica entre PT e PSDB, que de alguma maneira reflete a oposição entre pobres e ricos. "É a divisão de classes traduzida em partidos, e o PSDB tem bandeiras fortemente elitistas, que vão aparecer e se manifestar publicamente nessas situações, como já havia ocorrido inclusive na campanha presidencial do ano passado, quando a candidatura de José Serra flertou perigosamente com temas obscuros e de natureza privada", confirma.
Preconceito e ignorância se manifestaram também de forma igualmente asquerosa na campanha "Lula, vá se tratar no SUS", veiculada nas redes - e duramente criticada até mesmo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para quem essa postura é uma espécie de "recalque, um equívoco que ele não endossa". Ora, quando tiveram graves problemas de saúde, Sergio Motta, Roberto Marinho e Ruth Cardoso buscaram tratamento em modernos hospitais privados (Albert Einstein, Samaritano (RJ) e Sírio-Libanês, respectivamente). Orestes Quércia também buscou o Sírio, onde também estiveram internados Romeu Tuma e José de Alencar. Mario Covas foi atendido pelo sistema particular. E não coloco em questão as escolhas deles, fizeram as opções que mais acharam adequadas. É legítimo - e legal. Mas, assim como quem não quer nada, só por curiosidade mesmo, pergunto aos que defendem a campanha "Lula, faça o tratamento no SUS": o mesmo deveria ter valido para todos os outros aqui citados? A postura parece confirmar o preconceito e o ódio de classe: para quem pertence à elite, tudo bem, essa escolha é "natural", sem gritarias ou inconformismos. Já para o operário, que vem da plebe... "O argumento é novamente seletivo", destaca Fonseca.
Outra questão: quem bate no peito e vocifera que Lula deve se tratar no SUS defende também com convicção e honestidade que o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab devam oficialmente renunciar a carros particulares e a helicópteros para se deslocar pela cidade de São Paulo apenas de metrô e de ônibus, respectivamente? Avaliem por gentileza a encruzilhada: porque busca tratamento em hospitais privados, Lula é "incoerente"; caso escolhesse o SUS, seria acusado de 'tirar vaga de quem realmente precisa'. E aí? Como faz? Para mim, é muito claro: é ódio de classe. Para estes, é melhor deixar o ex-presidente sem atendimento mesmo.
Aliás, novamente, e sempre como curiosidade: por que o alvo dessa campanha tão "nobre, republicana e cívica" é apenas o ex-presidente Lula? Em artigo publicado na Agência Carta Maior, a jornalista Maria Inês Nassif escreve que "a obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. (...) Até na política as regras de boas maneiras devem prevalecer". E Paulo Moreira Leite, da revista Época, uma das raras vozes lúcidas que resta na mídia carcomida (mas que mostra que ainda há espaço para bom jornalismo na grande imprensa), chama a campanha de "hipocrisia" e lembra que "ironicamente, os mesmos adversários que impediram a manutenção de verbas para a saúde pública agora querem que o presidente se trate pelo SUS".
O jornalismo, aliás, merece um parágrafo à parte nessa análise. Foi estarrecedor perceber que, menos de meia hora depois da confirmação do câncer, rádios e emissoras de TV, principalmente, já estavam a reverberar o mórbido cenário "pós-Lula" - além obviamente de muitos colunistas aproveitarem a oportunidade para reforçar o fato de o tumor ser "na garganta" (nas entrelinhas, torcendo mesmo para que a voz de Lula silencie), o resultado de uma vida desregrada e regada a goles (com associação nem sempre sutil com o alcoolismo) e a cigarrilhas. O jornalista Luis Nassif lembra que, não por acaso, em grande medida o ódio contra o ex-presidente Lula vem sendo estimulado por órgãos de imprensa - e por seus colunistas e especialistas.
"São expressões mais acalentadas do elitismo de que falamos. A revista Veja é hoje a representante máxima e assumida da extrema-direita. Seus jornalistas são na verdade ideólogos, aquilo que o (Antonio) Gramsci (pensador italiano, 1891-1927) chamaria de intelectuais orgânicos. Meu palpite é que falam para uma audiência cada vez mais restrita, para guetos, para essas classes médias conservadoras", avalia Fonseca. Para ele, não há como não pensar em reforma da mídia. "Todo poder tem de ser controlado, democraticamente. É preciso seguir o exemplo da Argentina e combater, por exemplo, a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Não há democracia com concentração midiática", define.
E antes que as patrulhas reacionárias entrem em campo, uniformizadas e armadas até os dentes: não estou endeusando o ex-presidente Lula. Aqueles que acompanham o Blog conhecem bem as divergências (muitas delas de fundo) e críticas que tenho à chamada "Era Lula", quando avançamos, inegavelmente, mas quando também muitas vezes despolitizamos o debate e nos permitimos mover por messianismos, deixando portanto de avançar muito mais, em temas e áreas cruciais e prioritárias. Mas meus estranhamentos com o ex-presidente e com os dois governos dele são dessa natureza: política. E assim serão tratados, democraticamente, com argumentos, de forma civilizada e respeitosa.
Neste momento, o que tenho sinceramente a dizer é: força, Lula! Estamos torcendo por sua pronta recuperação!
sábado, 10 de setembro de 2011
LULA NEM ERA PRESIDENTE. E O JORNALISMO DA FOLHA JÁ NÃO SUPORTAVA O PT...
Num desses arroubos de nostalgia, fui reler minha dissertação de mestrado, escrita em 2001, defendida na ECA/USP em 2002, posteriormente transformada em livro ("Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil") e publicada pela editora Annablume em 2004. Tomo a liberdade de compartilhar com vocês um trecho da introdução (na verdade, são as três primeiras páginas do trabalho), pois me parecem extremamente atuais. Infelizmente.
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FOLHA DE S. PAULO
REPÓRTER FREE LANCER DE COTIDIANO
A Folha está selecionando currículos de profissionais interessados em trabalhar como repórter free lancer no caderno Cotidiano.
Os candidatos devem ter:
* boa formação cultural;
* experiência na cobertura de administração pública;
* domínio da língua portuguesa;
* conhecimentos de língua espanhola;
* domínio da língua inglesa.
Curso de pós-graduação concluído ou em andamento e conhecimentos do Novo Manual de Redação da Folha são habilitações desejáveis. O processo de seleção inclui testes de conhecimentos gerais, conhecimentos específicos, português e regras de padronização estabelecidas pelo manual, além de entrevistas. Envie seu currículo e um texto de 15 linhas com a descrição das principais contradições entre o discurso do PT sobre a moralidade administrativa e a prática de seus prefeitos eleitos em 2000, até o dia 14 de fevereiro de 2001, aos cuidados da Secretaria de Redação, sob a sigla C-876. Alameda Barão de Limeira, 425, quarto andar - CEP 01202-900, São Paulo, ou pela internet: treina@uol.com.br (Atenção - o currículo deve ser enviado no próprio corpo da mensagem).
O anúncio acima reproduzido foi publicado pelo jornal Folha de São Paulo no início do mês de fevereiro de 2001, no caderno de "Empregos". Ele é ilustrativo e significativo de alguns dos pecados cometidos cotidianamente pela chamada grande imprensa, e que vão desembocar naquilo que classifico como prática de um jornalismo caduco e simplista, mais preocupado com a desconstrução da informação e com a leitura parcial, dirigida, pré-estabelecida, atomizada e fragmentada de mundo do que com a perspectiva de serviço público contextualizador e panorâmico, que deve contribuir com a pluralidade e a multiplicidade de visões e informações.
Ao exigir e impor que o candidato à vaga escreva um texto descritivo, a Folha comete o primeiro pecado, pois pede ao jornalista que assuma uma postura apática e mecânica, que ele simplesmente sente-se ao computador e arrole uma série de argumentos, fatos e elementos do senso comum, que possam apenas comprovar, dar validade e credibilidade pública àquilo que o jornal já pensa e estabelece como verdade absoluta. Impõe-se a forma do produto. A empresa deixa de lado o potencial crítico do seu possível futuro jornalista, não pede que ele crie, corra, vá atrás, procure entrevistar, ler, argumentar, pensar, construir o seu texto. Entre a narração ativa (o jornalista que reporta e conta histórias) e a descrição passiva (aquela que junta e cola falas e frases feitas), a Folha prefere a segunda postura. Grosso modo, simplificando para ilustrar, é a diferença entre o "jornalista da rua" e o "jornalista de gabinete". Trata-se de uma postura política e editorial que se reflete nas notícias que chegam diariamente às bancas e às mesas do nosso café da manhã.
O segundo pecado se manifesta quando a Folha dirige o sentido e o significado do texto, dizendo "eu quero que ele seja assim". Quando afirma que a descrição tem de ser sobre "as principais contradições entre o discurso do PT sobre a moralidade administrativa e a prática de seus prefeitos eleitos em 2000", o jornal traça a linha de corte/recorte e faz a sua seleção política e ideológica, estabelece o seu viés do real. Aqui, determina-se o conteúdo. Em primeiro lugar: por que o PT? O noticiário de todos os grandes jornais, inclusive o da Folha, mostrava que, no momento em que foi publicado o anúncio, o dito mar de lama e as denúncias de corrupção recaiam justamente sobre outros partidos, sobretudo o PMDB e o PFL, com os holofotes voltados para a briga entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Mais ainda: e, afinal, quem não enxergasse ou encontrasse contradições entre a prática e o discurso petistas, quem achasse que eles eram coerentes, que os novos prefeitos eleitos pelo partido estariam fazendo administrações corretas e éticas, sustentadas por outras prioridades sociais? Deveria se considerar, a priori, impossibilitado de participar da seleção, incapaz de trabalhar no jornal? Como ficariam aqueles que pensam de outra maneira? Aliás: será que apenas um mês (os então novos prefeitos haviam assumido seus cargos em janeiro de 2001) seria um tempo suficiente para esse tipo de reflexão ou crítica? A Folha sobe no pedestal, determina e estabelece como verdade absoluta: há contradição entre o discurso e a prática do PT. As portas se fecham para a crítica, a reflexão, o contraditório, o diálogo, a oposição e o embate de idéias. Aceite o dogma e, se quiser trabalhar no jornal, trate de encontrar os "argumentos" para comprovar a tese escolhida. É isso o que diz o anúncio. Trata-se do pecado original da manipulação da informação.
Mas os pecados não terminam por aí: a Folha ainda pede ao candidato que escreva seu texto em 15 linhas. Trata-se de uma ode ao pensamento minimalista. Afinal, apenas para apresentar os seus critérios de seleção, o jornal usou mais que essas quinze linhas. O que eles valorizam e elogiam (concisão e capacidade de ser objetivo), num discurso que também tem seu viés ideológico, eu chamo de texto-relâmpago e fragmentado, que dá a impressão ilusória e a sensação de informar, mas que muito pouco ou quase nada acrescenta ao nosso repertório de conhecimentos e reflexões. Trata-se de endeusar a notícia-pílula (afinal, "o leitor não tem mais tempo para ler grandes reportagens"), numa postura que desconhece (ou faz questão de ignorar deliberadamente) as relações e contradições sociais. É o privilégio de uma linguagem que faz do mundo e das necessidades humanas uma seara desprovida de conflitos, que usa um discurso simplista e linear, superficial, incapaz de alçar vôos panorâmicos que permitam um olhar de mais longo alcance sobre as "coisas do mundo". É possível dizer tudo em uma linha? No limite, é. Resta saber se é saudável, se é justo, se é bom para a democracia e para a sociedade fazer sempre assim.
Jornalista passivo e mecânico, informação manipulada, texto fragmentado e relâmpago, compreensão comprometida ou anulada - eis aqui o samba de uma nota só que dá o tom e dita o ritmo, de maneira hegemônica, da orquestra industrial jornalística, nesse começo de novo século.
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Voltei. Escrevi tudo isso há dez anos. Minha pergunta é: mudou alguma coisa?
quarta-feira, 27 de julho de 2011
PRESIDENTA, QUE TAL APROVEITAR A ONDA E DEMITIR O JOBIM?
É uma questão de coerência política - se você não concorda com determinado projeto político, se tem ligações históricas umbilicais com outras visões ideológicas, se pensa com convicção que outros partidos poderiam fazer mais e melhor que aquele que está no poder e se manifesta divergências profundas e insuperáveis com propostas que são gestadas, idealizadas e patrocinadas por determinado governo, obviamente você não deve fazer parte deste governo. Deveria agir com lisura ética, hombridade e dignidade e buscar abrigo nas forças de oposição, ajudando a gestar ideias e iniciativas alternativas, instrumento aliás construtivo e fundamental para o fortalecimento da democracia.
Pois, surpresa, não é assim que acontece com o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de ocupar um dos cargos mais importantes da República, não se cansa de manifestar publicamente, sempre que mínima brecha se abre, suas insatisfações e discordâncias com os rumos dos governos Lula e Dilma Rousseff, dos quais fez e faz parte, invariavelmente indicando seu apreço incontido pela "Era FHC" e agindo, no interior das gestões comandadas pelo PT, para minar e implodir ações administrativas e políticas importantes. Jobim atua no governo como legítimo representante da oposição. É como se fosse escalado pelo técnico como homem de confiança do time, mas aproveitasse o privilégio para marcar gols (no plural mesmo) contra - e ainda cometesse o disparate de comemorar efusivamente tais feitos. Consagra, assim, a máxima do "dormindo com o inimigo".
A mais recente manifestação de um Jobim que é mais aliado da oposição que representante do governo deu-se na Folha de São Paulo de hoje, quarta-feira, 27 de julho, quando ao ser entrevistado pelo jornalista Fernando Rodrigues, o Ministro da Defesa não teve pudores em afirmar: "Eu votei no Serra em 2010". Ah, sim... e está fazendo o que então no governo que não é o do PSDB, ministro? A "resposta" está na entrevista: "Na avaliação dele, se o tucano José Serra tivesse derrotado a petista Dilma Rousseff, o governo "seria a mesma coisa" no manejo das recentes crises políticas, como a do combate à corrupção no Ministério dos Transportes". Puxa, "argumento" mais que suficiente e sustentável para "justificar" o fato de Jobim jogar com duas camisas, não é mesmo? Fiquei comovido.
Aliás, fica quase perdido na matéria da Folha um outro gol contra anunciado por Jobim. Historicamente, o Ministro sempre foi favorável à manutenção de sigilo eterno para documentos produzidos pelo Estado brasileiro e classificados como "ultrassecretos". Noticiou-se recentemente que teria recuado e passado a apoiar a mudança aprovada pela Câmara dos Deputados e que será em breve avaliada pelo Senado, que limita a 50 anos, no máximo, o não acesso a tais documentos. Mais uma vez sem constrangimentos, diz Jobim à Folha: "Vamos ser práticos. Daqui a 50 anos, se algum governo achar que tem algum documento [que não deve ser aberto], poderá alterar a lei." Ou seja, é só para inglês ver, tudo não passa de jogo de cena, de brincadeirinha, vamos enrolar e enganar a opinião pública... E ele, ministro de Estado, admite tudo isso publicamente!
Em junho, em uma das tantas comemorações que marcaram os 80 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Nelson Jobim já havia subido o tom das críticas e, para espanto e susto até dos amigos tucanos, como revela matéria do jornalista Leandro Fortes publicada pela revista Carta Capital, chegou a anunciar que estava no cargo, exclusivamente, por vontade de FHC, afirmando que "nunca o presidente (FHC) levantou a voz para ninguém. Nunca criou tensionamento entre aqueles que te assessoravam”. De acordo com a matéria, não economizou elogios ao ex-presidente. "E foi além, ao insinuar que os governos Lula e Dilma demoliram o que ele chamou de “processo político de tolerância, compreensão e criação”, supostamente construído nos tempos do tucanato. “Precisamos ter presente, Fernando, que os tempos mudaram”, falou a FHC". O arremate final, segundo o texto de Leandro Fortes, teria sido "quase um pedido público de demissão, uma citação do dramaturgo Nelson Rodrigues. “Ele dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia”, afirmou. “E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento”. Mais explícito, impossível", termina a matéria. Só para não perder a oportunidade: a que governo mesmo você pertence, Ministro Jobim?
Por fim, também para não perder o bonde, Nelson Jobim é aquele mesmo que, no final de 2009, bombardeou duramente o Plano Nacional de Direitos Humanos, terceira versão, recusando também a criação e instalação da Comissão da Verdade, destinada a apurar, levantar informações, investigar, publicizar e responsabilizar autores de crimes cometidos durante a ditadura militar (1964-1985). Diante da truculência de Jobim, que bateu forte na mesa e chegou a ameaçar pedir demissão, o governo Lula recuou, o PNDH3 foi desfigurado e a Comissão não foi instalada até hoje.
"Nelson Jobim tem a função de representar as demandas dos militares. Mas tem também outro papel, que tem relação não só com as questões da ditadura, mas está ligado diretamente a debates contemporâneos, como a Força Nacional, a intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. São questões que dizem respeito à segurança pública, a toda uma política militarizada que se concretizou no pós-ditadura, e que trata a pobreza como criminosa. É a tolerância zero, importada dos Estados Unidos, onde você mantém a população monitorada e criminaliza qualquer pequeno delito. É o que está acontecendo no Rio de Janeiro. O Nelson Jobim apoia esse tipo de ação e é uma figura importante do governo", avalia a historiadora Cecília Coimbra, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, em entrevista publicada por este Blog em janeiro passado.
Pois chegamos então a um ponto crucial da análise: qual a origem do poder de Jobim? Pois se o jabuti está belo e formoso no topo da árvore é porque alguém o colocou lá. Nelson Jobim foi inicialmente escalado para o Ministério pelo ex-presidente Lula e permaneceu no governo Dilma, ao que se sabe, como alguém que faz parte da cota pessoal do ex-presidente. Por quê? Melhor perguntar a Lula. Talvez ele tenha a resposta.
Mas a presidenta Dilma bem que poderia aproveitar as mudanças que estão sendo promovidas na Esplanada dos Ministérios para demitir também Nelson Jobim. Já passou da hora.
domingo, 12 de junho de 2011
LULA, DILMA E O DATAFOLHA
Em junho de 2003, cinco meses após a posse e ainda embalado pelo fato de finalmente a “esperança ter vencido o medo”, o então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tinha seu governo avaliado como “ótimo ou bom” por 42% da população, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha (2.630 pessoas entrevistadas, em 152 cidades); 43% consideravam a primeira administração petista como “regular” e 11% diziam que o governo era “ruim ou péssimo”.
De acordo com o levantamento, a aprovação maior do governo Lula se dava entre os estudantes (49%), aposentados (47%) e funcionários públicos (46%). Ficava também acima da média nacional entre os moradores da região Sul (49%), moradores do Norte e Centro-Oeste (47%), homens (46%) , jovens com entre 16 e 24 anos (46%) e entre os com nível superior completo (45%).
Já era possível notar naquela fotografia um otimismo razoável em relação à economia – 35% acreditavam na queda da inflação; 41% vislumbravam diminuição nas taxas de desemprego; 37% estimavam que o poder de compra dos salários iria subir e 55% esperavam melhoria geral no cenário econômico do país.
Neste domingo, 12 de junho, também cinco meses depois da posse da Presidenta, o Datafolha (2.188 entrevistados) mostrou que 49% dos brasileiros avaliam como “ótimo ou bom” o governo de Dilma Rousseff (eram 47% em março); para 38%, a administração é regular e 10% dizem que é “ruim ou péssima”. Em relação às expectativas manifestadas sobre a economia, os números soam contraditórios: 51% acreditam em alta da inflação e 32% temem aumento do desemprego; no entanto, a taxa dos chamados otimistas ainda é elevadíssima, pois 42% confiam que o cenário econômico geral vai melhorar e outros 37% (somando portanto 79%) acreditam que ficará como está.
A primeira constatação que salta aos olhos é óbvia: quando considerados os mesmos períodos (cinco meses depois das posses), a aprovação de Dilma é sete pontos percentuais superior àquela conquistada por Lula (49% x 42%). Como alerta com muita pertinência Diego Calazans, que se define como um “sócio-comunicólogo em formação”, em breve diálogo que travamos pelo twitter, boa parte desse capital político dilmista ainda pode ser constituído pela memória do governo Lula, o mais bem avaliado da História, tendo passado a faixa presidencial à sucessora com mais de 80% de aprovação popular, um recorde.
No entanto, em favor de Dilma, é preciso lembrar que, em seus primeiros 150 dias, Lula nem de longe viveu as agruras e o inferno de crises enfrentadas pela Presidenta (disputas na base aliada, fogo amigo, caso Palocci, derrota na votação do Código Florestal, PMDB cada vez mais faminto). Em tese, essas dificuldades – cada uma e todas elas – tinham potencial expressivo para abalar ou reduzir sensivelmente a popularidade de Dilma, o que parece não ter acontecido (aliás, para desespero da Folha de São Paulo, que não se conteve, não conseguiu esconder a decepção e estampou em manchete: “Dilma mantém aprovação, apesar de Palocci e inflação”).
Trocando em miúdos: Lula continua a ter sua contribuição, mas parece ser cada vez mais evidente e palpável que o julgamento que a população faz é do governo Dilma – para o bem e para o mal – e seria até mesmo injusto escantear ou menosprezar a participação da Presidenta na construção desses índices de aprovação (novamente, com todos os riscos envolvidos). Já existe, penso, uma percepção bastante razoável do que é o jeito Dilma de governar.
Outro viés importante a avaliar, muito bem destacado também no twitter pelo companheiro Fabio Silvestre, jornalista e professor universitário, é a conjuntura econômica vivida pelo país. Apesar mais de boatarias que de evidências (e, nas alcovas petistas, não são poucos os que garantem que a tese foi fortemente estimulada por “companheiros” interessados no enfraquecimento do ministro Guido Mantega), a inflação, depois de ligeira variação acima da meta estipulada, já dá sinais de arrefecimento.
Enquanto outros países (a lista é imensa: Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda, Estados Unidos, Egito...) continuam mergulhados nas consequências nefastas da crise econômica de 2008/2009, o Brasil segue firme seu rumo, até aqui em céu de brigadeiro. Em 2010, a economia brasileira cresceu 7,5% (taxa chinesa!), o que fez o país ser alçado à condição de sétima potência econômica do planeta, superando a Itália. Também em 2010, foram criados quase três milhões de novos empregos formais, outro recorde histórico.
Aqui, e novamente para tentar entender as aprovações de Lula e de Dilma com cinco meses de governos, vale a pena também comparar os cenários econômicos herdados. Lula, além de naquele momento inicial ainda lidar com a desconfiança dos mercados e das classes sociais mais baixas (em 2002, a eleição foi sustentada pelas classes médias, como defende o cientista político André Singer no artigo "Raízes sociais e ideológicas do lulismo"), recebera também um país destroçado. Nos anos FHC, o risco Brasil chegou a 2.700 pontos; o salário-mínimo era de 78 dólares; os créditos populares representavam apenas 14% do Produto Interno Bruto (PIB); em oito anos, foram criados cinco milhões de empregos; em 2002, a taxa de desemprego era de 12,2%.
Dilma assume certamente outro país: risco Brasil de 200 pontos; salário-mínimo de 210 dólares; créditos populares da ordem de 34% do PIB; 15 milhões de empregos formais gerados em oito anos, com 28 milhões de brasileiros tendo saído da linha de pobreza, e o consequente advento das chamadas novas classes médias; taxa de desemprego de 6,8% e o Brasil reconhecido no jogo das relações internacionais como um “global player”. Faz toda a diferença.
O que pretendo sugerir: depois de passar pelas mais diferentes experiências políticas e ideológicas (nacionalismo, desenvolvimentismo, ditaduras, neoliberalismo, lulismo), a população parece fazer o seguinte cálculo e análise: “disputas e crises fazem parte da política, independentemente dos partidos no poder. E quem afinal é capaz de garantir a melhoria efetiva da qualidade de vida para o conjunto da sociedade?”. No limite, como novamente lembra Fabio Silvestre, estão a consagrar o slogan democrata usado pela campanha de Bill Clinton, em 1992, quando derrotou George Bush pai: “é a economia, estúpido!”.
Sem desmerecimentos ou desqualificações, muito ao contrário: é uma avaliação legítima, com forte viés pragmático, certamente, mas ao mesmo tempo com considerável e respeitável grau de consciência política, pois considera os impactos sociais que as políticas econômicas conseguem oferecer. Ao analisar a escolha majoritária dos nordestinos por Dilma, no ano passado, a economista e socióloga Tânia Bacelar de Araújo, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), já anunciava que "aquele não era o voto da submissão, da desinformação ou da ignorância, mas o da auto-confiança recuperada, do reconhecimento do correto redirecionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados - alguns ainda insipientes e outros insuficientes".
Suspeito que as oposições, lideradas pela mídia limpinha, em boa medida já compreenderam essa mensagem e devem voltar cada vez mais suas baterias de agressividade e contestações à política econômica do governo (ainda mais agora que Antonio Palocci, o queridinho dos mercados, se foi...). A tentativa de criar histeria coletiva por conta do "descontrole inflacionário" e de trazer de volta a loucura da remarcação de preços em cadeia dá um pouco do tom dessa postura, que, palpito, deverá ganhar contornos mais nítidos. Não por acaso, Dilma procurou dar respostas e escapar da crise política palocciana com o anúncio do programa "Brasil sem Miséria" - novamente, a economia que tenta alavancar desenvolvimento social.
Mais uma vez, e só para reforçar e fechar: a confortável situação econômica do Brasil, com evidentes ganhos sociais, ajuda a explicar muita coisa - incluindo a popularidade de Dilma.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
DILMA NÃO É LULA? CLARO QUE NÃO!
Parece que está a se espraiar uma nova obsessão discursiva dos nossos jornalões e emissoras de televisão, um mantra que vem sendo recitado à exaustão, ainda antes do início do novo governo, mas com sonoridade e volume mais intensos a partir da posse: "Dilma não é Lula".
Um dos pontos centrais de comparação e apoio dessa estratégia política midiática (sim, é disso que se trata) foram os próprios discursos de posses: o de Lula, emotivo, tocando o coração do povo; o de Dilma, técnico e burocrático, sem gosto e sem cheiro, sem apelo popular. Na primeira semana de trabalho da Presidenta, marcação cerrada da mídia. Dilma, ao contrário de Lula, exige pontualidade, faz reuniões objetivas, define tarefas e cobra responsabilidades. Solicitou inclusive que, na sala onde se reúne com os ministros no Planalto, fosse instalado um relógio de parede, a lembrar permanentemente a todos os presentes a passagem de tempo.
Aliás, sem perder tempo, Dilma teria mandado tirar de seu ambiente de trabalho um exemplar da Bíblia e um crucifixo, objetos que teriam feito parte da rotina de Lula (a informação não demorou a ser desmentida pela Ministra Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação Social, via twitter). Sobre a tragédia provocada pelas chuvas (e pela inércia e irresponsabilidade dos governos locais) no Rio de Janeiro e a respeito da visita da Presidenta às áreas atingidas, Eliane Cantanhêde escreveu na Folha de hoje (disponível para assinantes) que "ao ir pessoalmente à região serrana do Rio de Janeiro ontem, a presidente Dilma Rousseff fez o que governantes têm de fazer. Dilma não titubeou e mostrou que não vai ser igual nem fazer tudo igual ao antecessor e mentor Luiz Inácio Lula da Silva, que, numa situação assim, ouvia, fazia cálculo político, avaliava perdas e ganhos. Às vezes ia logo; às vezes, não". Mais uma vez, na leitura feita pela mídia, Dilma não fez como Lula teria feito.
Bem, mas então Dilma não é Lula? Claro que não! Os dois obviamente carregam estilos diferentes de administração. O que não significa - longe disso - que representem projetos antagônicos, uma ruptura. A dinâmica é de continuidade, de apostas e ações comuns, mas naturalmente com marcas explícitas e intensas de singularidades e com visões de mundo independentes. Os dois têm suas virtudes - e seus defeitos. Não vivemos o tal do terceiro mandato (o "poste" que a mídia tentou criar ainda vai surpreender muita gente). Mas obviamente não falamos de um governo de oposição ao anterior.
O importante a pensar é: por que raios então a mídia limpinha tem insistido tanto nesse mantra, no "Dilma não é Lula", seja explicitamente, seja nas entrelinhas? Penso que as repostas estão conectadas a dois movimentos precisos, com objetivos bem delineados.
Primeiro: o que se quer é isolar Dilma e impedir que Lula possa servir como escudo de proteção da nova administração, se e quando for necessário, simulando (falsos) atritos e divergências entre os dois líderes, tornando finalmente a Presidenta uma presa mais frágil e fácil para movimentos futuros. Note-se que, para tanto, a mídia tem inclusive se manifestado disposta a pontualmente tapar o nariz e "elogiar" Dilma, como fez Cantanhêde ("Dilma fez o que governantes têm de fazer, não titubeou...").
Atenção, os elogios não são gratuitos, e estão diretamente conectados ao segundo movimento: desconstruir a imagem de Lula e esvaziar o ex-presidente, pelo menos em parte, do extraordinário capital político e de popularidade que conseguiu acumular durante os oito anos de mandato. Para tanto, é preciso apresentá-lo como preguiçoso, desleixado, não afeito a regras e horários, um sujeito que "deixou a vida levá-lo, o barco correr", acabou encontrando uma conjuntura favorável, soube se comunicar com as massas e, mais por sorte do que por competência e dedicação política, terminou fazendo um bom governo. Ao elogiar Dilma, tentam desqualificar Lula, por oposição.
Juntemos as duas pontas: Dilma isolada e fragilizada + Lula com sua imagem abalada = espaço aberto para candidatura oposicionista com mais chances de sucesso em 2014. É isso. Essa é a equação que a mídia tenta construir. Se vai dar certo, se vão ao final conseguir escrever o "como queríamos demonstrar" (cqd), são outros quinhentos. Como diria Garrincha, falta combinar com os russos... Mas o fato é que a sucessão presidencial já começou, com quatro anos de antecedência. Quem se recorda da eleição de 1989 vai se lembrar também que o "caçador de marajás" não surgiu repentinamente, às vésperas do pleito.
Salvo acidentes de percurso, vem aí Aécio Neves. É o mineiro bom de papo, moderno, conciliador e sobretudo bom gestor, a encarnar o tão desejado "pós-Lula". Já recebeu até as bençãos e o sinal verde de FHC, que afirmou que "o bonde andou e será a vez de Aécio".
Com outras palavras, já escrevi aqui: oposição no Brasil não é feita atualmente no Congresso Nacional, mas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, na Barão de Limeira, na Engenheiro Caetano Álvares e na Marginal Pinheiros, em São Paulo...
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