A discussão é bacana e provavelmente concorrerá com a reta final do Brasileirão, esquentando os papos de bares, além de fomentar análises mais avalizadas de jornalistas esportivos de diferentes redes e veículos. Não faço parte desse último grupo, mas como apaixonado por futebol desde antes de nascer, santista de coração e encantado pelos espetáculos oferecidos por Neymar, não vou me furtar a disparar alguns petardos analíticos. Não, não têm certamente qualquer rigor científico ou precisão matemática, mas também não são apenas chutes ou palpites aleatórios. Representam impressões de quem acompanha de perto, com frequência razoável, os diferentes campeonatos do planeta. E, quem sabe, poderão ainda ajudar a estimular esse instigante debate - ao menos até o dia 05 de dezembro, quando a FIFA e a revista francesa France Football anunciarão a lista com os três finalistas do Prêmio Bola de Ouro (melhor jogador do mundo em 2011). O vencedor será conhecido em 09 de janeiro, em Zurique, na Suíça.
É preciso comemorar desde já a presença de Neymar entre os 23 finalistas do Prêmio. É a primeira vez que um jogador brasileiro recebe a honraria, após atuar toda a temporada em um clube brasileiro. É histórico, uma recompensa ao esforço monumental feito pelo Santos para manter o craque no Brasil. Pode ajudar a transformar mentalidades. Em 2011, Neymar é também um invasor - todos os outros indicados jogam na Europa. Sei que alguém vai dizer que o Prêmio nem sempre irá agraciar, ao final, o melhor boleiro da Terra. Há interesses - políticos, financeiros, de patrocinadores, de empresários, de investidores, de marcas - capazes mesmo de sussurrar e reverberar nos ouvidos dos votantes. Paciência. É possível acontecer - embora, justiça seja feita, os últimos vitoriosos tenham sido merecedores do título. E, em 2011, se o futebol for de fato o único critério considerado - dribles, espetáculo, arrancadas, gols, tabelas, passes, trivelas, assistências, capacidade de decisão, improviso, encanto e o potencial para deixar torcedores boquiabertos -, Messi e Neymar já deveriam estar na lista final. Sem outras discussões. Por notório saber. Bastaria escolher o terceiro boleiro - que seria isso mesmo, coadjuvante, com muita honra.
Vá lá, já há alguém do outro lado da tela a resmungar "Neymar ainda não foi testado na Europa". Vale - até a página 2. Porque, vamos e convenhamos, a grande maioria dos zagueiros europeus, nacionalidades diversas, é bem fraquinha - não por acaso, andaram importando Lucio, Luisão, Alex, Thiago Silva, David Luis, Breno, como bem lembra o advogado e também santista Eryx Pereira, meu irmão, conhecedor atento do futebol. O próprio time do Barcelona - uma máquina invejável de jogar bola, o melhor time que já vi atuar, coletivamente falando - manifesta uma carência de zagueiros que é de assustar. E, ainda ecoando as palavras de Eryx, será que os campeonatos europeus são assim mesmo tão superiores ao nosso Brasileirão, na média? Não há nessa avaliação a confirmação de nosso complexo de vira-lata (como diria Nelson Rodrigues)? É verdade que nossa auto-estima vem assumindo outros ares nos últimos anos, deixamos de ser devedores e hoje somos credores do Fundo Monetário Internacional, temos voz ativa nos mais diferentes fóruns internacionais... mas, no futebol, o que parece é que ainda está enraizada em nossa alma uma percepção ainda forte de que "tudo que acontece lá fora é melhor do que aqui", não? Por aqui, temos São Paulo, Santos, Flamengo, Grêmio e Inter, todos campeões continentais e mundiais, além do Corinthians (título Mundial reconhecido pela FIFA, sem ter sido campeão continental), sem falar também em Cruzeiro, Vasco e Palmeiras, legítimos vencedores de Taças Libertadores. Será que somos tão menos assim mesmo? Provocação assumida: se o Milan disputasse o Brasileirão 2011, em que posição terminaria?
Neste ano em especial, penso ainda que os olhos dos técnicos e jornalistas que escolherão os finalistas do Prêmio estiveram, estão e estarão bem atentos aos dribles do Príncipe brasileiro. Barcelona, Real Madri, Manchester United, Chelsea, Internazionale, Milan conhecem Neymar. Querem Neymar. Aqui - e eis agora uma suposição assumida - não vou achar estranho se a FIFA, exatamente para tentar voltar a falar de futebol, incentivar, nos bastidores, uma final entre Neymar e Messi. Brasil x Argentina. América do Sul e Europa. O menino que foi cedo - o menino que ousou ficar (duas histórias fantásticas!). Maradona x Pelé. Dois craques atacantes decisivos. Campeões. Copa do Mundo no Brasil em 2014. Resgate do futebol arte. Barcelona e Santos classificados para o Mundial de Clubes de dezembro, evento organizado pela FIFA. Numa hipotética disputa entre Messi e Neymar, haverá elementos suficientemente fortes para a FIFA voltar a respirar só futebol - ainda que momentaneamente -, desviando o foco das atenções dos escândalos de corrupção e de pagamento de propinas e compras de votos para escolha de sedes de Mundiais. Divagações? Sei não.
Bem, mas vamos lá, sem esticar mais - um a um, seguindo a lista dos 23 da FIFA, em ordem alfabética, ofereço breves comentários a respeito dos que fazem parte desta seleção:
- Abidal - viveu momentos difíceis em 2011, com o diagnóstico de câncer no fígado, e é certamente um vencedor. Mas é apenas um lateral comum, como tantos outros, que às vezes atua como zagueiro (também sem brilho).
- Agüero - Jogou razoavelmente apenas e tão somente os últimos jogos disputados pelo Manchester City. Suficiente para estar na lista final?
- Benzema - Começou a temporada como reserva e chegou a ser criticado pelo próprio técnico do Real Madri, o português José Mourinho, que reconhecia a má fase do jogador.
- Casillas - Com todo respeito aos arqueiros, mas seria o mesmo que dar o Prêmio de uma Copa do Mundo para um goleiro da Alemanha, quando o mesmo Mundial foi disputado por Ronaldo Fenômeno e Rivaldo. Ou seja, um disparate.
- Cristiano Ronaldo - Vai doer a mão, mas vou escrever: sabe jogar. Mas acha que joga bem mais do que sabe. E é o tipo de jogador mais preocupado com o telão do que com aquilo que acontece em campo. Atleta da sociedade do espetáculo, como o inglês David Beckham.
- Daniel Alves - Temporada boa no Barça, lamentável na Seleção Brasileira. Na média...
- Eto'o - Cracaço, mas faz tempo que esqueceu disso. Foi se esconder na Rússia.
- Fàbregas - Também não entra em campo de verdade faz tempo. Aliás, se alguém do Arsenal (por quem Fàbregas jogou meia temporada) merecia indicação, esse jogador chama-se Robin Van Persie.
- Fórlan - Estaria na lista se fosse pela temporada 2010.
- Iniesta - Esse sabe muito, é uma das razões de ser do mágico time do Barça!
- Müller - É extremamente habilidoso, mas não alcança o status de craque.
- Nani - Com respeito, mas não deveria ter entrado nem na lista do Campeonato inglês.
- Ozil - Grande jogador, mas chegou a ser reserva do Real em partidas importantes. Vale?
- Piqué - É zagueiro comum, sem qualquer atributo excepcional.
- Rooney - Artilheiro. Ponto. Vale para ser melhor do mundo?
- Schweinsteiger - Muitos recursos técnicos, fundamental para o Bayern e a seleção alemã, mas um degrau abaixo ainda do título de craque.
- Sneijder - O mesmo de Fórlan - ótima temporada em 2010.
- Luis Suárez - jogou o fino da bola durante boa parte do ano, artilheiro, solidário, técnico e inteligente, decisivo. Atuou muito bem tanto no Liverpool quanto na seleção uruguaia. Foi, aliás, destaque em 2011 do futebol uruguaio, que voltou a ocupar justo lugar de honra nos dois últimos anos.
- David Villa - Faz gols. O Borges também.
- Xabi Alonso - jogador de clube, habilidoso, é verdade, mas nada de extraordinário.
- Xavi - junto com Iniesta, é o motor do time mágico do Barça. Toques curtos e finos, assistências, presença sempre inteligente. Decisivo. Faz diferença.
Claro, deixei propositalmente Messi e Neymar para o final, porque estão anos-luz à frente de todos os outros. Sem exceção. O argentino é de outro planeta. A bola gruda no pé dele. Quando a gente acha que já esgotou o repertório, inventa mais alguma traquinagem brilhante. Deixa zagueiros para trás sem pedir licença. Joga em alto nível há vários anos. Em oito temporadas, 24 anos, já tinha marcado 239 gols em 393 jogos, com média de 0,60 por partida (dados computados até 01 de novembro). O brasileiro é um "monstro da bola", como define Antero Greco. Dá gosto vê-lo jogar (tive o privilégio de acompanhá-lo em campo várias vezes) - é como se brincasse seriamente com a pelota, que carrega com maestria e elegância, a disparar dribles e passes, imprevisíveis, que os adversários ficam sem entender de onde e como saíram. Quando olham, Neymar já passou - e comemora mais uma arte. Amadureceu. É decisivo. Ganhou uma Libertadores praticamente sozinho, fazendo gol na final. Como novamente destaca Antero, "futebol é feito de hipérboles, de exuberâncias - e Neymar esbanja nesses quesitos". Em três temporadas, são 96 gols marcados, em 173 jogos - média de 0,55 por partida (também até 01 de novembro). Já é um dos principais artilheiros do Santos. E reverenciado por Pelé, o Rei do Futebol.
Na minha lista de cinco finalistas, Messi e Neymar estariam em 2011 acompanhados de Iniesta, Xavi e Suárez. Três finalistas apenas? O argentino, o brasileiro e Iniesta, como fiel escudeiro. O melhor do mundo?........
Messi, ainda um nível acima de Neymar. E deixa eu terminar bem rápido o texto, pois o dedo coçou muito para escrever Neymar. Mas aí seria (ainda) o coração santista falando.
Messi foi o melhor do mundo em 2011.
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EM TEMPO - É um problema que ainda não consegui resolver - muitos dos leitores não conseguem postar comentários por aqui (somem na rede, sequer aparecem para a moderação). Não sei o que acontece, sinceramente. Para tentar minimizar o problema, para os que desejarem, peço por gentileza que encaminhem esses comentários para o meu e-mail (chicobicudo2@gmail.com). Repassarei essas contribuições para cá, com os devidos créditos. Lembrando sempre que não serão liberados comentários intolerantes, agressivos e preconceituosos. Muito obrigado!
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