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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

DE ONDE VEM ESSA MALUCA PAIXÃO?

Vem desde antes de eu nascer. Dos chutes de primeira na barriga da minha mãe. Dos sonhos inocentes que já tinha com futebol enquanto era aconchegantemente protegido pela placenta e alimentado pelo cordão umbilical. Vem da primeira bola que ganhei, molequinho de tudo, ainda aprendendo a andar e a chutar. Do uniforme cinza de goleiro tão desejado, com luvas e joelheiras, que chegou naquele Natal dos meus cinco anos. Sim, fui arqueiro quando criança. Por pouquíssimo tempo. Não demorei muito para descobrir que minha bola era outra. Essa paixão tresloucada surge de modo incontido graças àquelas peladas que eu jogava sozinho no terraço estreito e comprido da chácara da minha querida São Bernardo do Campo de tantas lutas políticas, correndo atrás de uma pelota dente de leite, oval e murcha, imitando voz de locutor para narrar partidas épicas, inesquecíveis. E que golaaaçççooo!!!! Ela ficou pedindo me chuta, me chuta, ele encheu o pé! É culpa das bolas de meia, bolas de gude. Das bolinhas de tênis. De papel. Das tampinhas. Dos potinhos de iogurte. Das latinhas e garrafinhas de refrigerante. Tudo era bola. A gente chutava o que viesse pela frente. Num arroubo infantil de empolgação, bica sem medir a força, meu sapato (que não tinha cadarço) saiu voando. Só parou na vidraça da sala da diretoria na escola. Cacos espalhados. Meus pais foram chamados. Encanto que vem das caneladas e disputas heroicas com os primos Bicudinhos no quintal em ladeira e cheio de árvores ardilosas da casa de meus avós paternos em São Paulo. Daquele primeiro título paulista que comemorei, em 1978. Os primeiros Meninos da Vila. Da Copa de 78, na Argentina. Nelinho, Amaral, Batista, Zico, Roberto Dinamite, Dirceu. A batalha de Rosário contra a Argentina. A farsa da seleção peruana, que tomou de seis para colocar os hermanos na final. A ditadura sangrenta no país vizinho. Nos países vizinhos. Amor sublime e cego que explode graças à mágica Seleção de 1982, do mestre Telê Santana. Arte pura. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Jamais haverá meio-de-campo como aquele. Nunca mais. Do choro doído e inconformado imposto pelo italiano Paolo Rossi. Três gols. Brasil desclassificado. O que faço agora? Reforço a paixão ouvindo as histórias que meu avô materno narrava sobre Pelé e o único e absoluto Santos da década de 60. Orgulho que nem todos podem ter. Revela-se forte e implacável nas sístoles e diástoles aceleradas um sentimento que recorda o sangue escorrendo do joelho ralado no chão de ladrilhos vermelhos da escola. a canela roxa atingida pelo bico da chuteira do desleal adversário no torneio interclasses, a calça rasgada do uniforme (a bronca da mãe), o dedão do pé direito (sou destro!) quebrado e a distensão na coxa que escondi do técnico do time para poder disputar torneios contra outras escolas (mesmo manco), as pernas em brasa lanhadas nos campos de terra. É amor desmedido que lembra os clássicos jogos de botão no estrelão (meu Santos de acrílico era imbatível), o pênalti que bati na tabela de basquete numa final de campeonato (salão, não botão), as partidas que acompanhei com ouvido colado nos meus vários e queridos companheiros radinhos de pilha, os terceiros tempos invadindo as madrugadas, o dizer para a namorada 'espera só mais um pouquinho, está terminando o jogo' ou 'amanhã não dá, é dia de Santos', as aulas que matei em diferentes séries para ouvir ou ver amistosos da Seleção. Vem dos estádios, do cimentão das arquibancadas da Vila Belmiro, do Pacaembu, do Morumbi, do Canindé, do Parque Antártica, da rua Javari, da Comendador Souza. É tão forte a paixão tresloucada que foi capaz de sobreviver à seca de títulos da Seleção, ao Brasil do técnico Sebastião Lazaroni, aos dezoito anos de fila, das vacas magras e de times medonhos do Santos. Para explodir novamente, desavergonhadamente com os gols de Bebeto-Romário, Rivaldo-Ronaldo-Gaúcho, Giovanni, Robinho-Diego, Neymar. É paixão pelo drible. Pelo improviso. Pelo inesperado. Pela ginga. Pela malemolência. Pela malícia. Pela delícia de uma bola debaixo das canetas. Pelo chapéu. Pelo voleio. Pelo sem-pulo. Pela bicicleta. Pelo cruzamento milimetricamente feito, na cabeça do atacante. Pela meia-lua. Pelo drible da vaca. Pelo rolinho. Pela pedalada. Pelas improvisadas e impagáveis mesas-redondas com os amigos num bar, cerveja gelada e sem hora para acabar. Pela coleção de camisas. Pelas crônicas de Nelson Rodrigues. Pelas memórias de uma Copa no Brasil. É amor que me faz acompanhar os jogos da série A. Da B também. E da C, por que não? Partidas da D. Da série Z. Não existe? Inventemos já. Estaduais. Regionais. Várzea. Desafio ao Galo. Campeonato italiano. Espanhol, inglês, russo, argentino, mexicano, francês, português, holandês. Libertadores. Liga dos Campeões. Liga dos Perdedores. Liga dos Mais ou Menos. Qualquer liga. É paixão que obrigou a me virar nos 30 (ou nos 43) para acompanhar o maior número de jogos da rodada do último final de semana. Quando acaba, já começo a suar frio, síndrome de abstinência, e a pensar na do próximo final de semana. Cansa? Nunquinha. É eterna paixão imortal. Esclareci sua dúvida? Ave, futebol.    

sábado, 6 de junho de 2015

PRAZER. NEYMAR JR

Não pode jogar, é muito moleque, sem experiência, irresponsável. Filé de borboleta. Aí ele foi campeão paulista em 2010. Com 18 anos. Não vale, é paulistinha, qualquer um ganha. E foi contra o Santo André. Ele foi lá e levantou a taça do bi Paulista. Contra o Corinthians, em 2011. Foi tri paulista, em 2012. Feito que o Santos não alcançava desde a época de Pelé. Quero ver ganhar título importante, driblar desse jeito contra time grande. Mas ele já tinha vencido a Copa do Brasil em 2010. Bela porcaria, aqui o que vale é o Brasileirão. Pois ele colocou no Memorial das Conquistas do Peixe a Copa Libertadores. Título continental, que só Pelé e companhia, nos anos 1960, tinham abocanhado. Ainda teve tempo de faturar uma Supercopa. No futebol europeu, esse moleque folgado vai desaparecer. Podem escrever. Partiu como o maior artilheiro do Santos depois da era Pelé - 138 gols. Antes de desembarcar no Barça, ele foi Campeão da Copa da Confederações pela Seleção Brasileira, com gol na final, no Maracanã. Putz, grande coisa, a Espanha é uma seleção velha e decadente. Nas primeiras semanas na equipe catalã, foi campeão da Supercopa da Espanha. Fazendo gol. Sorte de principiante. Não vai durar. Na segunda temporada por lá, a tríplice coroa - Espanhol, Copa do Rei e Champions League. Autor do gol do título. De quebra, tornou-se artilheiro do maior torneio de clubes do planeta bola. Dez goles. E antes que alguém diga "ainda falta uma Copa do Mundo", cuidado, Messi também não tem esse título. Nem Cristiano Ronaldo. Nem Platini. Nem Zico. Nem Sócrates. Nem Puskas. Nem Di Stéfano. Nem Eusébio. Nem Cruijff. Azar da Copa do Mundo, como diria mestre Tostão. Ainda não tem, completo. Para quem não conhece, muito prazer. Neymar Jr. Eu vi o moleque jogar. Muitas vezes. Obrigado, meu eterno camisa 11.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

EM 2011, NEYMAR JÁ ERA PARÇA DO BARÇA

Sei não. Parece que a caixa de Pandora apenas começou a ser aberta. Se for escancarada e revirada até o fundinho, muitas outras maldades provavelmente saltarão de lá, a nos atormentar e assombrar. Que me desculpem os amigos santistas que já conseguiram virar a página e seguir em frente, mas ainda não consegui digerir o fato de um desses monstrinhos maldosos ter nos anunciado que a transferência de Neymar foi efetivamente sacramentada no final de 2011, por coincidência na mesma época em que o contrato com o Santos foi renovado (o tal do "eu fico") - e apenas um mês antes do Mundial de Clubes, quando enfrentamos o Barcelona na final. 

Não estou me referindo a ilações ou a boatos que vez ou outra são plantados e reverberados midiaticamente, a contemplar interesses de grupos políticos internos, na disputa pelo comando do clube. A afirmação foi feita pelo vice-presidente do time catalão, Josep Maria Bartolomeu, em entrevista coletiva realizada logo após o desfile do craque brasileiro pelo Camp Nou: em novembro de 2011, o Barça pagou a Neymar pai a bagatela de dez milhões de euros (cerca de 28 milhões de reais), amarrando o negócio e firmando o compromisso da futura transferência, afastando assim a concorrência de outras verdadeiras fortunas que já estavam sendo oferecidas a Neymar por gigantes europeus como Real Madrid e Chelsea. 

Não me perguntem qual é a expressão jurídica que deve ser aqui usada, não tenho esse conhecimento técnico, mas a realidade é que, ali, naquele momento, um pré-acordo ficou combinado, um pré-acordo foi firmado. Eram os tais dez milhões de euros que já apareciam em balanços financeiros e prestações de contas do Barcelona, como informavam os jornais espanhóis, mas que Neymares (pai e filho) e a diretoria do Santos faziam questão de ignorar, assobiando dissimuladamente, fazendo cara de paisagem e respondendo, sempre que questionados ou provocados, com convicção, que "não havia acordo algum". Havia. Em novembro de 2011, Neymar Jr. foi alçado à condição de parça do Barça.

Agora que a informação tornou-se pública, na voz de fonte oficial e fidedigna, e reforçada no site do clube catalão, o staff de Neymar calou-se. Num primeiro momento, o silêncio reinou também nas salas da Vila Belmiro. O alvinegro, no entanto, ficou numa saia justíssima: se tivesse conhecimento do acordo fechado entre o menino gênio e o Barça em 2011, ainda que fosse um "acerto entre cavalheiros" (belo eufemismo, que os dez milhões de euros parecem desmentir), o clube brasileiro teria de imediatamente ter acionado a FIFA, para processar os espanhóis por tentativa de aliciamento do atleta, já que pré-contratos só podem ser pactuados seis meses antes do encerramento de qualquer outro compromisso. No limite, juridicamente, o negócio poderia até ser desfeito.

O Santos pressentiu o perigo, entendeu a armadilha. Acusou o golpe. À coluna Painel FC da Folha de São Paulo (5 de junho), o vice-presidente do clube, Odílio Rodrigues, disse que "nunca tivemos conhecimento deste acerto. Nunca nos foi dito nada pelo Neymar, pelo pai do Neymar ou pelo Barcelona. Não pretendemos fazer nada. Negociamos o Neymar com o Barcelona porque achamos que foi vantajoso para o Santos. E havia o desejo do Neymar em jogar no time".

Então ficamos assim: o Barça revela que o negócio já estava garantido e parcialmente pago em 2011, o staff de Neymar não nega e a diretoria do Santos afirma que, apesar de "só saber agora", pretende fazer nada e deixar por isso mesmo (a direção catalã garante que recebeu anuência do Santos). Estou, insisto, trabalhando com declarações públicas de fontes oficiais, não com suposições ou boatos. Se foi assim, posso imediatamente inferir que, desde o final de 2011, Neymar já era jogador do Barcelona, temporariamente e generosamente emprestado ao Santos, e que partiria para a Espanha, mediante pagamento do restante da bolada, no exato momento em que o clube catalão avaliasse que seria mais adequado e conveniente para seus projetos e interesses. 

Foi exatamente assim que aconteceu - enquanto a hegemonia de Messi e companhia no continente europeu foi capaz de se impor, o Barça achou por bem deixar Neymar no Santos, talvez para não criar atritos, imaginando que não deveria mexer no que estava dando certo. Esse tempo pode ter servido ainda tanto para projetar mundialmente a imagem de Neymar quanto para massagear o ego de Messi, que sabidamente não gosta de dividir espaços com outras estrelas ou sombras. Quando o caldo entornou, o fim de um ciclo se anunciou, a torcida começou a cobrar e a renovação tornou-se urgente, a plaquinha subiu, o Barcelona estalou os dedos, fez cumprir o que já estava sacramentado e levou o craque brasileiro. 

Não estou questionando o desempenho de Neymar em campo, com a camisa do Santos. Reconheço que o camisa 11 sempre honrou o manto sagrado. Mas tudo isso que acaba de vir oficialmente à tona nos leva a sugerir, por fim, que o tal do "projeto inovador e revolucionário no futebol brasileiro para manter por aqui nossos craques e mostrar definitivamente que não somos mais apenas exportadores de talentos" pode não ter passado de conversinha para inglês ver, uma farsa, jogo de cena. No palco, os atores principais estavam todos acertados, combinados. Era só questão de tempo. Na plateia, nós, torcedores tolos e bobos da corte, comemoramos e aplaudimos iludidos um enredo de teatro do absurdo. 

sábado, 25 de maio de 2013

O SANTOS DEVERIA TER SEGURADO NEYMAR

Não faço parte de comitês gestores. Não sou executivo, tampouco empresário. Não uso terno e gravata. Não tenho canetas para assinar (ou romper) contratos. Mas algumas contas elementares eu (acho) consigo fazer. E o fato incontestável é que, nas últimas quase cinco temporadas do nosso futebol, Neymar da Silva Santos Jr. garantiu ao Santos e aos santistas abundância de ganhos tangíveis e intangíveis - expressão que os marqueteiros e os diretores de clube adoram usar.

O menino-craque nos brindou com seis títulos - o tri Paulista, a Copa do Brasil, a Recopa Sul Americana e a Libertadores. Ficamos ainda com um vice mundial, fazendo reaparecer nossa marca e nosso escudo no cenário internacional. Voltamos a ser protagonistas, a receber holofotes e a ser novamente observados e respeitados pelo mundo da bola. Durante dois anos (2010-11), fomos o esquadrão a ser batido por aqui. Resgatamos o orgulho de ver em campo alguém que atuava por prazer, com ousadia e alegria, a honrar a cada instante e em todas as partidas a camisa do clube. Um craque. Foi o melhor que vi jogar, artista dono de repertório infinito de dribles e de toques refinados e desconcertantes, raciocínios rapidíssimos, lances de bailarino ou malabarista. Vestindo o manto sagrado, Neymar ganhou o Prêmio Puskas de gol mais bonito de 2011, oferecido pela FIFA. Foi finalista da mesma disputa no ano passado. Foi o único boleiro das Américas a ser incluído, por dois anos seguidos, na lista dos melhores do mundo da entidade máxima do futebol.

O moleque prodígio disputou 229 partidas pelo Santos. Marcou 138 gols. É o maior artilheiro do time depois da era Pelé, o décimo terceiro da história da nossa fantástica fábrica de gols. Arrematou prêmios atrás de prêmios - revelação, destaque, artilheiro, melhor do certame. Ganhou duas Bolas de Prata, outra de Ouro, um título de hors concours ("fora da disputa"), honraria até então exclusivamente oferecida ao Rei do Futebol, em eleições organizadas pela ESPN/Revista Placar. Por onde passou, Neymar mobilizou multidões de fãs, encheu os estádios de torcedores e de admiradores. Se o Brasil tem alguma chance de levantar o sexto título de Copa do Mundo no ano que vem, essa mínima possibilidade passa diretamente pelos pés do menino santista.

Os números são oficiais, conhecidos publicamente. Em 2009, o Santos tinha 19 mil sócios - atualmente, somos 65 mil, dos quais quase 52 mil pagam rigorosamente em dia suas mensalidades (importante fonte de arrecadação). Somos o quarto clube do Brasil com maior número de sócios adimplentes, atrás apenas de Internacional (82 mil), Grêmio (72 mil) e Corinthians (muito pouco na nossa frente, com 53 mil). No Estado, nadamos de braçada e superamos por gigantescas margens Palmeiras (24 mil) e São Paulo (20 mil). Muito por conta de Neymar (ou será que foi graças à bela barba do Laor?), a torcida do Santos cresceu e rejuvenesceu - conheço vários pais que, torcedores de outros clubes, se desesperam vendo seus filhos abraçando o alvinegro da Vila.

Em patrocínios de camisa, arrecadamos seis milhões de reais em 2009 - e 35 milhões de reais em 2012. O faturamento total do clube saltou de 70 milhões para 198 milhões, no mesmo período citado. Em 2011, nossos cofres receberam 25 milhões de reais com cotas de transmissão de TV, valor que triplicou e alcançou 75 milhões no ano passado - estamos no mesmíssimo patamar de São Paulo, Palmeiras e Vasco e abaixo apenas e tão somente de Corinthians e Flamengo, que tiveram cotas de 84 milhões cada. A marca Santos está hoje avaliada, segundo consultorias da área, em 380 milhões de reais (é a sexta do ranking nacional). 

Manter Neymar foi mesmo um péssimo negócio para o Santos. Só tivemos prejuízos. Era preciso mesmo vendê-lo - ou melhor, quase doá-lo. Ação entre amigos. Da negociação (algo próximo de 75 milhões de reais), o Santos deve abocanhar cerca de 40 milhões. Lucas foi vendido, no ano passado, por 108 milhões de reais. O Chelsea pagou 78 milhões por Oscar. O Zenit da Rússia investiu 150 milhões de reais no passe de Hulk. Para ter Thiago Silva, o Paris Saint Germain pagou 125 milhões ao Milan. A diretoria do Santos fez uma baita negócio. Eu é que não sei fazer contas. O Barcelona agradece.

Ironias deixadas de lado, e como já vimos, havia várias razões de "mercado" para lutar com muito mais afinco e carinho pela permanência de Neymar no Santos até o final do contrato, em julho de 2014 (que, aliás, quando foi renovado, em novembro de 2011, foi cantado em verso e prosa pelo mandatário santista como uma revolução no nosso futebol, a iniciar novos tempos, que deixariam para trás a 'colônia exportadora de craques'. Pois bem, esse documento inovador foi literalmente rasgado e jogado na lata do lixo). Se o camisa 11 tivesse ficado, o departamento de marketing do Santos que se virasse e mostrasse competência para viabilizar novas estratégias e ações para transformar o último ano dele por aqui em novos retornos financeiros para o clube. Será que os nossos doutos marqueteiros sabem que Neymar é o atleta com maior potencial de mercado do planeta? O jogador que o Santos 'vendeu' por 40 milhões de reais.

Para além dos euros, dos dólares, dos reais, confesso, tinha mais um motivo para defender Neymar no Santos até a Copa do Mundo. Era uma razão quase filosófica. Penso que teria sido fundamental mostrar, ainda que pontualmente, uma vezinha só, que o futebol ainda guarda resquícios de um esporte apaixonante, para além das ditaduras do negócio, e que os clubes entendem que, mais do que os ativos bancários, é preciso preservar e privilegiar os craques que dão espetáculo, que tratam a bola com carinho. 

Claro, podem começar a jogar pedras, é a visão de um romântico, ingênuo, anacrônico e sonhador. Por um tempo, tolamente, imaginei que a diretoria do Santos seria minha parceira nessa utopia. Fui traído. Era preciso fechar as contas, fazer dinheiro (da forma mais simplista e imediatista). O mundo é mesmo dos cifrões. E foi assim que Neymar se foi.

domingo, 6 de novembro de 2011

QUEM É O MELHOR JOGADOR DO MUNDO?

A discussão é bacana e provavelmente concorrerá com a reta final do Brasileirão, esquentando os papos de bares, além de fomentar análises mais avalizadas de jornalistas esportivos de diferentes redes e veículos. Não faço parte desse último grupo, mas como apaixonado por futebol desde antes de nascer, santista de coração e encantado pelos espetáculos oferecidos por Neymar, não vou me furtar a disparar alguns petardos analíticos. Não, não têm certamente qualquer rigor científico ou precisão matemática, mas também não são apenas chutes ou palpites aleatórios. Representam impressões de quem acompanha de perto, com frequência razoável, os diferentes campeonatos do planeta. E, quem sabe, poderão ainda ajudar a estimular esse instigante debate - ao menos até o dia 05 de dezembro, quando a FIFA e a revista francesa France Football anunciarão a lista com os três finalistas do Prêmio Bola de Ouro (melhor jogador do mundo em 2011). O vencedor será conhecido em 09 de janeiro, em Zurique, na Suíça.

É preciso comemorar desde já a presença de Neymar entre os 23 finalistas do Prêmio. É a primeira vez que um jogador brasileiro recebe a honraria, após atuar toda a temporada em um clube brasileiro. É histórico, uma recompensa ao esforço monumental feito pelo Santos para manter o craque no Brasil. Pode ajudar a transformar mentalidades. Em 2011, Neymar é também um invasor - todos os outros indicados jogam na Europa. Sei que alguém vai dizer que o Prêmio nem sempre irá agraciar, ao final, o melhor boleiro da Terra. Há interesses - políticos, financeiros, de patrocinadores, de empresários, de investidores, de marcas - capazes mesmo de sussurrar e reverberar nos ouvidos dos votantes. Paciência. É possível acontecer - embora, justiça seja feita, os últimos vitoriosos tenham sido merecedores do título. E, em 2011, se o futebol for de fato o único critério considerado - dribles, espetáculo, arrancadas, gols, tabelas, passes, trivelas, assistências, capacidade de decisão, improviso, encanto e o potencial para deixar torcedores boquiabertos -, Messi e Neymar já deveriam estar na lista final. Sem outras discussões. Por notório saber. Bastaria escolher o terceiro boleiro - que seria isso mesmo, coadjuvante, com muita honra.

Vá lá, já há alguém do outro lado da tela a resmungar "Neymar ainda não foi testado na Europa". Vale - até a página 2. Porque, vamos e convenhamos, a grande maioria dos zagueiros europeus, nacionalidades diversas, é bem fraquinha - não por acaso, andaram importando Lucio, Luisão, Alex, Thiago Silva, David Luis, Breno, como bem lembra o advogado e também santista Eryx Pereira, meu irmão, conhecedor atento do futebol. O próprio time do Barcelona - uma máquina invejável de jogar bola, o melhor time que já vi atuar, coletivamente falando - manifesta uma carência de zagueiros que é de assustar. E, ainda ecoando as palavras de Eryx, será que os campeonatos europeus são assim mesmo tão superiores ao nosso Brasileirão, na média? Não há nessa avaliação a confirmação de nosso complexo de vira-lata (como diria Nelson Rodrigues)? É verdade que nossa auto-estima vem assumindo outros ares nos últimos anos, deixamos de ser devedores e hoje somos credores do Fundo Monetário Internacional, temos voz ativa nos mais diferentes fóruns internacionais... mas, no futebol, o que parece é que ainda está enraizada em nossa alma uma percepção ainda forte de que "tudo que acontece lá fora é melhor do que aqui", não? Por aqui, temos São Paulo, Santos, Flamengo, Grêmio e Inter, todos campeões continentais e mundiais, além do Corinthians (título Mundial reconhecido pela FIFA, sem ter sido campeão continental), sem falar também em Cruzeiro, Vasco e Palmeiras, legítimos vencedores de Taças Libertadores. Será que somos tão menos assim mesmo? Provocação assumida: se o Milan disputasse o Brasileirão 2011, em que posição terminaria?

Neste ano em especial, penso ainda que os olhos dos técnicos e jornalistas que escolherão os finalistas do Prêmio estiveram, estão e estarão bem atentos aos dribles do Príncipe brasileiro. Barcelona, Real Madri, Manchester United, Chelsea, Internazionale, Milan conhecem Neymar. Querem Neymar. Aqui - e eis agora uma suposição assumida - não vou achar estranho se a FIFA, exatamente para tentar voltar a falar de futebol, incentivar, nos bastidores, uma final entre Neymar e Messi. Brasil x Argentina. América do Sul e Europa. O menino que foi cedo - o menino que ousou ficar (duas histórias fantásticas!). Maradona x Pelé. Dois craques atacantes decisivos. Campeões. Copa do Mundo no Brasil em 2014. Resgate do futebol arte. Barcelona e Santos classificados para o Mundial de Clubes de dezembro, evento organizado pela FIFA. Numa hipotética disputa entre Messi e Neymar, haverá elementos suficientemente fortes para a FIFA voltar a respirar só futebol - ainda que momentaneamente -, desviando o foco das atenções dos escândalos de corrupção e de pagamento de propinas e compras de votos para escolha de sedes de Mundiais. Divagações? Sei não.

Bem, mas vamos lá, sem esticar mais - um a um, seguindo a lista dos 23 da FIFA, em ordem alfabética, ofereço breves comentários a respeito dos que fazem parte desta seleção:

- Abidal - viveu momentos difíceis em 2011, com o diagnóstico de câncer no fígado, e é certamente um vencedor. Mas é apenas um lateral comum, como tantos outros, que às vezes atua como zagueiro (também sem brilho).
- Agüero - Jogou razoavelmente apenas e tão somente os últimos jogos disputados pelo Manchester City. Suficiente para estar na lista final?
- Benzema - Começou a temporada como reserva e chegou a ser criticado pelo próprio técnico do Real Madri, o português José Mourinho, que reconhecia a má fase do jogador.  
- Casillas - Com todo respeito aos arqueiros, mas seria o mesmo que dar o Prêmio de uma Copa do Mundo para um goleiro da Alemanha, quando o mesmo Mundial foi disputado por Ronaldo Fenômeno e Rivaldo. Ou seja, um disparate.
- Cristiano Ronaldo - Vai doer a mão, mas vou escrever: sabe jogar. Mas acha que joga bem mais do que sabe. E é o tipo de jogador mais preocupado com o telão do que com aquilo que acontece em campo. Atleta da sociedade do espetáculo, como o inglês David Beckham.
- Daniel Alves - Temporada boa no Barça, lamentável na Seleção Brasileira. Na média...
- Eto'o - Cracaço, mas faz tempo que esqueceu disso. Foi se esconder na Rússia.
- Fàbregas - Também não entra em campo de verdade faz tempo. Aliás, se alguém do Arsenal (por quem Fàbregas jogou meia temporada) merecia indicação, esse jogador chama-se Robin Van Persie.
- Fórlan - Estaria na lista se fosse pela temporada 2010. 
- Iniesta - Esse sabe muito, é uma das razões de ser do mágico time do Barça!
- Müller - É extremamente habilidoso, mas não alcança o status de craque.
- Nani - Com respeito, mas não deveria ter entrado nem na lista do Campeonato inglês. 
- Ozil - Grande jogador, mas chegou a ser reserva do Real em partidas importantes. Vale?
- Piqué - É zagueiro comum, sem qualquer atributo excepcional. 
- Rooney - Artilheiro. Ponto. Vale para ser melhor do mundo?
- Schweinsteiger - Muitos recursos técnicos, fundamental para o Bayern e a seleção alemã, mas um degrau abaixo ainda do título de craque. 
- Sneijder - O mesmo de Fórlan - ótima temporada em 2010.
- Luis Suárez - jogou o fino da bola durante boa parte do ano, artilheiro, solidário, técnico e inteligente, decisivo. Atuou muito bem tanto no Liverpool quanto na seleção uruguaia. Foi, aliás, destaque em 2011 do futebol uruguaio, que voltou a ocupar justo lugar de honra nos dois últimos anos.
- David Villa - Faz gols. O Borges também.
- Xabi Alonso - jogador de clube, habilidoso, é verdade, mas nada de extraordinário.
- Xavi - junto com Iniesta, é o motor do time mágico do Barça. Toques curtos e finos, assistências, presença sempre inteligente. Decisivo. Faz diferença.

Claro, deixei propositalmente Messi e Neymar para o final, porque estão anos-luz à frente de todos os outros. Sem exceção. O argentino é de outro planeta. A bola gruda no pé dele. Quando a gente acha que já esgotou o repertório, inventa mais alguma traquinagem brilhante. Deixa zagueiros para trás sem pedir licença. Joga em alto nível há vários anos. Em oito temporadas, 24 anos, já tinha marcado 239 gols em 393 jogos, com média de 0,60 por partida (dados computados até 01 de novembro). O brasileiro é um "monstro da bola", como define Antero Greco. Dá gosto vê-lo jogar (tive o privilégio de acompanhá-lo em campo várias vezes) - é como se brincasse seriamente com a pelota, que carrega com maestria e elegância, a disparar dribles e passes, imprevisíveis, que os adversários ficam sem entender de onde e como saíram. Quando olham, Neymar já passou - e comemora mais uma arte. Amadureceu. É decisivo. Ganhou uma Libertadores praticamente sozinho, fazendo gol na final. Como novamente destaca Antero, "futebol é feito de hipérboles, de exuberâncias - e Neymar esbanja nesses quesitos". Em três temporadas, são 96 gols marcados, em 173 jogos - média de 0,55 por partida (também até 01 de novembro). Já é um dos principais artilheiros do Santos. E reverenciado por Pelé, o Rei do Futebol.

Na minha lista de cinco finalistas, Messi e Neymar estariam em 2011 acompanhados de Iniesta, Xavi e Suárez. Três finalistas apenas? O argentino, o brasileiro e Iniesta, como fiel escudeiro. O melhor do mundo?........ 

Messi, ainda um nível acima de Neymar. E deixa eu terminar bem rápido o texto, pois o dedo coçou muito para escrever Neymar. Mas aí seria (ainda) o coração santista falando. 

Messi foi o melhor do mundo em 2011.


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EM TEMPO - É um problema que ainda não consegui resolver - muitos dos leitores não conseguem postar comentários por aqui (somem na rede, sequer aparecem para a moderação). Não sei o que acontece, sinceramente. Para tentar minimizar o problema, para os que desejarem, peço por gentileza que encaminhem esses comentários para o meu e-mail (chicobicudo2@gmail.com). Repassarei essas contribuições para cá, com os devidos créditos. Lembrando sempre que não serão liberados comentários intolerantes, agressivos e preconceituosos. Muito obrigado!

domingo, 30 de outubro de 2011

OBRIGADO, NEYMAR! O SÁBADO DO DANIEL FICOU MUITO MAIS FELIZ!

Foto - Blog do Odir Cunha - www.blogdoodir.com.br


Era aniversário da mãe. Ele acordou umas oito horas - mais tarde que o normal. Estava quieto, incomodado, macambúzio. Uma carranca que ele não costuma carregar. Não tinha parada - andava de um lado para outro, como se procurasse algo. Tenta de cá, observa de lá, a mãe finalmente fulminou: "filho, você está nervoso com alguma coisa, preocupado?". Ele admitiu: "quero que o jogo do Santos chegue logo". Os ingressos já estavam comprados. Era dia de ver Neymar no Pacaembu. 

No almoço de comemoração, o humor melhorou um pouco, depois que ele comeu um espetinho de linguiça - e outro de coração de frango. Até me convidou para explorar o restaurante, apresentando e descrevendo cada objeto que encontrava pelo caminho. Mas não demorou muito e a carranca voltou - a mãe ganhou de presente uma camisa listrada do Corinthians. Ele saiu de lado, olhar desconfiado. Aproximou-se em silêncio de mim e disse: "pai, vamos embora. Quero colocar meu uniforme do Santos". Era preciso empatar aquele jogo de camisas.

Mais tarde, já devidamente uniformizado, enfrentou sem resmungar uma fila para lá de razoável, até que conseguíssemos chegar ao portão 17, que nos dava acesso às cadeiras laranjas do Pacaembu. Permanecia em silêncio, mas não era mau humor - era concentração, daquelas que só os torcedores de verdade conhecem. Assumimos nossos lugares a tempo de conseguir cantar os nomes dos jogadores - sinfonia que ele adora, e que entoamos juntos no carro, na volta da escola, e na hora do almoço (para desespero da mãe e da irmã). "Está cheio, né, pai?", animou-se, esboçando um sorriso ainda tímido. Adorou cantar o "vai para cima deles, Neymar", várias vezes. Segurou firme minha mão, apertando mesmo, quando o craque com o cabelo moicano loiro correu para a bola, para bater o pênalti, com menos de cinco minutos de jogo, e bem na nossa frente. "Gol!", gritou o estádio. Ele sorriu.

"Pai, o Arouca está jogando na lateral. O Adriano está marcando bem. Esse time do Atlético só bate! O Neymar é o melhor em campo. Por que o Rentería não chutou?". Um pouco mais solto, o Pequeno assumia ares de comentarista. Via bem o jogo. Te cuida, PVC! Só ficou assustado quando o estádio se revoltou com o gol legal de Neymar (que ele tinha comemorado pulando na cadeira), depois anulado pelo árbitro. Tentando escapar das vaias e do barulho ensurdecedor feito pela torcida, aninhou-se no meu colo, lábios tremendo, quase chorando, e me perguntou: "Pai, por que ele anulou o gol? Vai dar tudo certo?". Dei um beijo nele e respondi: "Vai". É, filho... torcer não é fácil.

Acalmou-se no intervalo, divertindo-se com as peripécias do Baleinha e do Baleião, os bonecos-mascotes que são responsáveis por distrair a torcida enquanto os jogadores retomam o fôlego. Voltou a olhar preocupado para mim, sem dizer uma só palavra, quando o Atlético empatou. Pulou com o segundo gol de Neymar. Comemorou o terceiro cerrando as mãos e erguendo os braços. E abriu finalmente um sorriso largo e impagável quando o craque fez o quarto. "Que golaço, pai". Abracei forte o Pequeno.

Sem mais carrancas, aproveitou a festa. Neymar deitava e rolava no campo - dribles, arrancadas, pedaladas, lançamentos. Como joga fácil. Futebol para ele é algo tão simples. Craque. Nas arquibancadas, o Pequeno respondia participando da "ola", que ia e vinha. Cantou o hino, empolgando-se no trecho que diz "nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter". Adorou ouvir a torcida gritando "olé". Leve, solto, calmo, arriscou até um "pai, falta muito para acabar?". Para ele, os 4 x 1, com quatro gols de Neymar, já estavam de bom tamanho. Para que mais?

Quando o árbitro apitou o final da partida, levantou e bateu palmas. Pediu: "pai, tira uma foto do bandeirão". Na saída, já na rua, queria uma camisa do Rafael. Não encontramos. Prometi procurar. "Então quero uma número 11, do Neymar". Fiquei de comprar. No elevador do prédio, perguntou: "quando é o próximo jogo?". Entrou em casa correndo, para alegria da mãe. Não demorou muito e já estava no quarto, jogando seu tradicional futebol de bexiga. Antes de dormir, ainda vimos na internet os melhores momentos do jogo. "Nossa, foi um golaço, né, pai?", comentou novamente, sobre o quarto gol. Foi dormir feliz.

O jogo contra o Atlético/PR foi o décimo primeiro que Daniel viu no estádio. O saldo é espetacular: dez vitórias e apenas um empate - ou seja, está invicto. Foram 30 gols a favor e só cinco contra. Viu a estréia do Neymar, em 2009. Viu os 9 x 1 contra o Ituano. Viu Giovani fazer gol - e jogar ao lado de Neymar e de Robinho. Viu o maestro Ganso em noite de gala. Viu Neymar fazer quatro gols na mesma partida. Já esteve na Vila Belmiro e no Pacaembu. Só não tive coragem ainda de levá-lo a finais. Mas, como ele é pé quente, estou pensando em mandá-lo para o Mundial, no Japão...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOY LOCO POR TRI, AMÉRICA




Eu cresci usando o manto branco sagrado com duas estrelas douradas estampadas, altura do peito, lado esquerdo, acima do escudo. Tinha (e tenho) muito orgulho delas. Mas desdenhavam, faziam chacotas e diziam que aquilo não valia, porque eu nem era nascido quando as conquistas que justificavam aquelas duas estrelas tinham sido alcançadas. 

Eu cresci torcendo entusiasmadamente para o esquadrão que teve a honra de ser a equipe a abrigar o maior camisa 10 da história do futebol, o melhor de todos os tempos, o gênio incomparável, o Rei do futebol, o craque com mais de mil gols. Mas diziam que também não valia, porque eu jamais tinha visto uma jogada, um gol sequer de Pelé (a não ser, claro, em jogos gravados, arquivos de emissoras). Me chamavam de "viúva do Pelé". 

Cresci - e foram longos os anos difíceis de vacas magras - torcendo sem arredar pé e apaixonadamente por um clube que encantou o mundo, que mostrou como o futebol jogado como arte pode ser também eficiente e vencedor, que parou guerras, que deixou boquiabertos brasileiros, italianos, espanhóis, sul-africanos, argelinos, costa-riquenhos, argentinos, uruguaios... Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Era fácil recitar a escalação. Mas diziam que, mais uma vez, não valia, porque eu também não tinha visto estes craques desfilarem em campo. Enfim, era como se valessem apenas o imediato e o aqui e agora, como se só a História que a gente viu tivesse valor e pudesse ser contada e valorizada.  

Mas foi então que eu comecei a ver. Vi a primeira geração de Meninos da Vila, com Pita e Juari. Vi Serginho Chulapa bater na bola de canela e carimbar o Paulistão de 1984. Vi Giovani fazer tremer o Pacaembu e o título brasileiro de 1995 bater na trave - ou melhor, no apito do árbitro Marcio Rezende de Freitas. Vi Robinho chamar a responsabilidade e pedalar sete vezes diante de um Rogério atônito e aparvalhado. Foi quando veio o título brasileiro de 2002 - e as faixas das torcidas, até aquele dia de ponta cabeça, foram viradas. 

Fui até São José do Rio Preto, interior paulista, mais de 400 quilômetros de estrada, mais de nove horas de viagem (ida e volta) para ver de perto a oitava taça de Campeonato Brasileiro ser erguida. Vi o esquadrão alvinegro praiano abocanhar mais quatro títulos paulistas - aliás, em uma dessas finais, a de 2010, vi um Ganso já genial, craque maduro que sabe o que faz, dedo em riste, a bater no peito e dizer para o técnico: "não vou sair", garantindo a conquista de um time valente, que jogava com dois a menos. Vi o primeiro gol de um (mais ainda) franzino Neymar, que nem cabelo moicano ainda usava, no Pacaembu, num 3 x 0 contra o Mogi Mirim, em março de 2009. Vi um inesquecível 9 x 1 contra o Ituano. Vi o maestro Ganso reger a orquestra afinada e pródiga em goleadas na Copa do Brasil do ano passado, quando também contamos com a volta de Robinho, fundamental naquela conquista. Vi o primeiro gol do Arouca com a camisa do Peixe, contra o Corinthians, na última final paulista.

E ontem eu vi.... o Pacaembu lotado em festa, um mar branco a cantar, o bandeirão a ocupar toda a arquibancada, a esperança tensa e ao mesmo tempo confiante na chegada da terceira estrela. Vi Rafael, sempre seguro, quase não precisar pegar na bola. Vi Danilo fazer um golaço, um tapa de canhota com curva na redonda, a morrer no pé da trave direita do goleiro uruguaio. Vi Edu Dracena e Durval ganharem todas de cabeça e anularem o tímido ataque de camisas amarelas e pretas (liga não, xerife Durval, o gol contra foi mero acaso). Vi Leo, santista de alma e de coração, ser aplaudido de pé. Vi Adriano, limitado tecnicamente, correr o campo todo, um guerreiro incansável na marcação. Vi Arouca, peito estufado, bola grudada no pé, romper sem dó nem medo a defesa adversária, passar por cinco uruguaios e abrir caminho para a vitória, como que a dizer: "faz, Neymar". Vi Elano, ainda longe de sua melhor forma,  quase fazer um golaço de falta. Vi Zé Love perder gols, como de costume, mas participar talvez da melhor partida dele no ano. Vi o Ganso, genial, absoluto dono do meio de campo, cadenciar a partida, com toques sutis e repentinos, assistências milimétricas a encontrar companheiros sempre mais bem colocados - e aquele passe de letra no primeiro gol é realmente coisa para poucos iluminados boleiros. Vi Neymar decidir mais uma vez, com um gol de chapa, batida rápida, curta e seca na bola, que saiu traiçoeira e manhosa, fez ligeira curva e foi morrer no fundo da rede. Neymar foi feito provavelmente em forma de outro mundo, onde deve se jogar um futebol de outra dimensão. Não há como pará-lo. Ontem, eu vi um time jogando coletivamente, de forma inteligente, com raça, de forma coesa, sem cair na catimba uruguaia, combinando técnica e vontade imensa de ganhar.

Amigos secadores, eu vi o Rei Pelé correr pelo gramado de mãos dadas com o mago e vencedor Muricy Ramalho, um obstinado campeão (quem foi mesmo que disse que ele era ruim de mata-mata?). E vi finalmente a Taça Libertadores da América ser levantada pelo capitão Edu Dracena. Vou ver em breve essa taça no Memorial das Conquistas. Vou ver o Mundial de clubes, no final do ano (dezembro, Japão). E outra Libertadores, no ano mágico do centenário (2012). Santástico!

Carrego agora três estrelas no peito. E posso, com muito orgulho e com muito amor, falar com detalhes sobre a História de cada uma delas, de todas elas, as não vistas - e a que vi ser alcançada. Todas merecem respeito. Admiração. Reverência. São parte de um passado e de um presente só de glórias.

Porque nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter.

Soy loco por tri, América.