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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

FILHOTES DA DITADURA

O muro naquele trecho era baixo, pouco mais de um metro. Não tinha nem o antiquado e carcomido arame farpado com cacos de vidro nem a cerca eletrônica com câmeras de vídeo, parafernália moderna de segurança tão comum nos prédios de luxo da cidade. Alto, esguio, barba por fazer, uns vinte anos, André vestia camiseta preta e calça de moletom da mesma cor. Joana estava de cabelo preso, agasalho também preto, com capuz, mangas arregaçadas, bermuda jeans, tênis colorido e sem cadarço. Lino, o mais velho, perto de 40 anos, carregava uma mochila nas costas (parecia pesada) e, coincidência, trajava camisa preta de gola, mangas longas. Conversavam em tom bem baixo, quase sussurrando, como se não quisessem ser ouvidos. Eram quatro da manhã. A avenida estava praticamente deserta. Olharam para a direita, miraram a esquerda. Tudo certo. Num aceno de cabeça de Lino, movimentos ensaiados e sincronizados, pularam o muro, sem dificuldades.

Começaram a caminhar com passos largos, ritmados, deixando para trás túmulos imponentes e garbosos de várias famílias quatrocentonas paulistanas. Contornaram a capela, paredes amareladas já descascando. Joana fez o sinal da cruz, três vezes. Beijou o crucifixo preso a um cordão enrolado no pescoço. A missão daquela madrugada nem de longe lembrava os agitados dias de junho, quando tinham marcado presença nas manifestações que chacoalharam a capital paulista, sempre vestidos de preto, a queimar bandeiras vermelhas, dos movimentos negro e homossexual e a gritar "sem partido, minha única bandeira é a do Brasil, comunismo nunca mais!". Na escuridão silenciosa, André seguia um pouco atrás, ressabiado, um frio na barriga, tentando não aparentar medo. Não gostava dessa coisa de estar tão perto dos mortos. Tinha um nó na garganta, a sensação de estar sendo vigiado. Lembrou das histórias de fantasmas que ouvia da mãe, quando criança. Quase ao mesmo tempo, os três viraram à esquerda, estreita e longa alameda com jazigos ainda mais suntuosos dos dois lados, a marcar o caminho. Avistaram, barranco abaixo, um antigo casarão.

Lino fez sinal de positivo, confirmando satisfeito - 'é ali mesmo'. Desceram o escadão correndo, de dois em dois degraus. Plano seguido à risca, tudo previamente combinado, Joana deu a volta no casarão, certificando-se de que estavam realmente sozinhos. Sorriu. Área limpa. André deu uma voadora e meteu o pé na porta de madeira, que não ofereceu resistência e se abriu, rangendo. Lino já tinha retirado da mochila duas marretas. Joana agora segurava uma lanterna que timidamente iluminava o ossário - o suficiente para que, naquela penumbra, uma a uma as gavetas fossem sendo estouradas e violadas, a marretadas. Dezenas delas foram destruídas, sem dó ou pudor, com as ossadas sendo violentamente atiradas no chão, com raiva e adrenalina a mil. Lino e André espumavam, em êxtase. Tinham sangue nos olhos. "Filhos da puta!", praguejou o mais velho, fazendo questão de pisar em crânios e fêmures, agora todos espalhados e misturados, sem os pequenos cartões com informações preciosas, como datas e locais de origens. "Terroristas de merda, vergonha da nação!". Acertou um chute num crânio, que se espatifou na parede. Cuspiu em um pedaço que foi parar perto da porta, já do lado de fora do casarão. Elétrico por conta do comportamento do amigo, André, ensandecido, continuava distribuindo marretadas nas gavetas. "Odeio todos vocês. Escória do Brasil. Vermelhos do caralho". Joana continuava alerta, na entrada do ossário, montando guarda, uma picareta na outra mão, atenta a qualquer movimento estranho ou presença indesejada.

A invasão demorou pouco mais de dez minutos - e deixou fragmentos de madeira, gesso, cimento, sacos plásticos e ossos por todos os lados. Escreveram numa das paredes externas do ossário: "Viva a ditadura!". Em mais um aceno de Lino, guardaram as ferramentas na mochila e saíram correndo. Refizeram o caminho - o escadão, a alameda com os túmulos grandes, a capela, o muro. Ofegantes, já do lado de fora do cemitério, tarefa cumprida, respiraram aliviados. "Vamos beber no boteco ali da esquina, até amanhecer. Agora não passa ônibus. Merecemos. Precisamos relaxar e comemorar. Deu tudo certo", convidou Lino. Os três se abraçaram.

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Olhou pela janela da frente. A casa estava cercada. Tirou a arma da cintura - um velho revólver, que já tinha travado numa operação de invasão a um banco -  e decidiu tentar escapar pelos fundos. Não deu tempo sequer de chegar ao quintal. Ouviu o estampido seco, rápido. Sentiu dor lancinante, perto do joelho. Tombou, já sem muita consciência de onde estava. Os chutes vieram de todos os lados - na cabeça, nos ombros, no estômago, no joelho ferido. Desmaiou. Foi encapuzado e arrastado para uma veraneio cinza, placa fria.

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- Fala, comuna safado! Quem mais participou do roubo ao banco do Centro?

Ele era um farrapo humano, ferimentos espalhados pelo corpo, hematomas, dentes quebrados, ouvidos sangrando. Não conseguia falar. Mesmo que quisesse. Pensou em soltar informações falsas, para despistar, ao menos ganhar tempo, parar de tomar porrada. Não articulava as palavras. Começou a se contorcer, freneticamente. Choques elétricos. Um meganha chegou por trás e deu-lhe um murro na nuca. Curvou-se. Na volta, sem conseguir medir ou controlar os movimentos, bateu violentamente a cabeça na parede. Mais choques. Mijou. Cagou. Gritou. Palavras desconexas, desesperadas. Ninguém ouvia.

- Quero nomes, filho da puta. Me dá os nomes dos canalhas malditos! Todos eles. Você sabe. Você sabe! Fala, seu merda!

Jogaram água nele. Aumentaram a voltagem dos choques. Com um alicate, lentamente, arrancaram-lhe as unhas dos pés. Uma a uma. Outro meganha deu última tragada num cigarro, para depois apagá-lo no peito de Cesar, codinome Camilo, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) e integrante da célula de mobilização e comunicação da organização comandada pelo temido Carlos Marighella, inimigo número um da ditadura civil-militar brasileira, e que tinha sido friamente assassinado em emboscada na Alameda Santos alguns dias antes.

Arrastaram-lhe para perto de um enorme tanque. Água imunda, barrenta. Fétida. Foi puxado pelos cabelos - e mantido debaixo d'água por quase um minuto. Debateu-se, em desespero. Tentou respirar. Engoliu água. Vomitou.

- Deixa de ser burro, animal. Ninguém vai te ajudar. Acabou para vocês. Vamos pegar todos, um por um. Mas antes você vai falar.

A cabeça foi novamente mergulhada no tanque. E mais uma vez. Outra. Quase sem tempo para que ele pudesse recuperar o fôlego. E assim foi por mais de meia hora. Sentiu o coração estourar. O corpo inteiro estremeceu. Ainda pode sentir um cabo de vassoura sendo enfiado no ânus, ainda com a cabeça na água. Tentou buscar o ar, de novo. Não conseguiu. O corpo foi amolecendo, aos poucos. Lentamente. Puxou o ar. Não soltou. Já estava morto quando tiraram a cabeça dele do tanque. Era uma massa sem forma de órgãos. Tinha sido brutalmente torturado, durante três dias. No chão, desfalecido, sem vida, ainda levou pontapés. Urravam de raiva. O ódio era maior ainda, porque Cesar não tinha falado.

- Filho da puta, filho da puta. Canalha. Não falou. Burro. Vai queimar nos infernos, terrorista da porra. Um a menos! Viva o Brasil!, gritou o chefe dos torturadores, que ordenou que fosse seguido o procedimento operacional padrão. Cesar deveria ser enterrado como indigente, em vala clandestina.

- Vocês sabem o que fazer. Não deixem pistas. Não digam nada aos parentes. Será mais um que sumiu. Não vai fazer falta.

Cantaram em coro o hino nacional.

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Acordou estranhamente cedo naquela sexta-feira, emenda do feriado de Finados. Ainda estava tocada, abalada. O dia anterior tinha sido emocionalmente intenso - participara de um ato político que homenageara os mortos e desaparecidos pela ditadura e que exigia ainda que as ossadas agora guardadas no cemitério do Araçá, região oeste de São Paulo, fossem finalmente identificadas. Há fortes suspeitas de que algumas delas possam ser de militantes assassinados pelo regime de terror. Na cama, pelo celular, acessou o noticiário da internet. Deu um grito horroroso. "Ossário é invadido e violado no cemitério do Araçá", dizia a manchete de um dos portais.

Jogou longe os lençóis, tropeçou nos chinelos. Trocou-se em menos de cinco minutos. Nem tomou café. Precisava ir correndo ao cemitério. Uma das ossadas guardadas naquelas gavetas criminosamente arrebentadas a marretadas durante a madrugada provavelmente era do pai dela. Cesar. Ou Camilo. Camila - evidente homenagem à alcunha de guerra do militante da ALN - tinha só dois anos quando o pai foi preso e trucidado pela ditadura. Desde aquele longínquo dezembro de 1969, a família peregrina incansavelmente, em busca de informações sobre o paradeiro do companheiro de Marighella. Sempre esbarraram em negativas, falsas promessas, pistas desencontradas, registros fragmentados, ausência total de vontade política. Sofrimento sem fim.

As esperanças renasceram quando a vala clandestina do cemitério de Perus foi descoberta e aberta, em 1990, na administração da prefeita Luiza Erundina - que, aliás, também participara do ato político no Araçá, no dia de Finados. Mas a frustração que veio em seguida talvez tenha sido maior ainda. As ossadas passaram anos empacotadas e empilhadas num canto de um galpão quase abandonado na Universidade Estadual de Campinas, até serem transferidas para o Araçá. Mesmo depois de quase trinta anos da redemocratização do país, os familiares continuam lutando para que as ossadas sejam examinadas e identificadas. Permanecem firmes, embora às vezes a agonia a a sensação de abandono e fracasso sejam quase insuportáveis. Camila não se conforma - lembra que já passamos pelos governos do sociólogo uspiano, do líder operário do ABC e da militante presa e torturada. Em graus e situações diferentes, os três foram vítimas da ditadura. E nenhum deles, avalia, enfrentou de fato o desafio de exorcizar os fantasmas dos anos de chumbo. Nenhum deles garantiu o amplo direito à justiça. à verdade e à memória.

Naquela manhã de sexta-feira, Camila torcia para que o metrô andasse muito mais rápido. Não conseguia esconder a tensão. Mexia as pernas, batia os dedos na capa do livro que carregava (nem pensar em se concentrar na leitura de "Barba ensopada de sangue", romance premiado de Daniel Galera), olhava de um lado para outro do vagão. Tinha medo brutal de ter perdido os últimos vínculos materiais que poderiam ligá-la ao pai. Tinha as memórias, as histórias narradas pela mãe, pelos avós, pelos amigos de militância. Tinha fotos do pai com 22 anos, pouco antes de ser preso e assassinado. Mas queria o corpo. O direito ao luto. O velório. O enterro. O ritual de passagem. A despedida, tão necessária à espécie humana.

Subiu as escadas rolantes aos saltos, atropelando as pessoas, sentindo o coração bater na boca. No ponto de ônibus, bem em frente ao cemitério, estavam sentados dois rapazes - um jovem, outro mais velho, mochila nas costas - e uma garota, cabelos presos. Os três vestiam camisas pretas. Os olhares se cruzaram, fração de segundo, e rapidamente se desviaram. Camila entrou apressadíssima no cemitério. Queria ter notícias do pai. Precisava ter notícias do pai.

Depois dos brindes e da bebedeira de comemoração, que invadiram a manhã ensolarada da sexta-feira, Lino, André e Joana continuavam esperando o ônibus para voltar para casa. Tranquilamente. Impunemente.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

"DEIXEM-NOS ENTERRAR NOSSOS MORTOS E REALIZAR O LUTO NECESSÁRIO"

 
Texto de Tessa Moura Lacerda, filha de Gildo Macedo Lacerda, militante político da Ação Popular Marxista-Leninista assassinado e desaparecido pela ditadura civil-militar brasileira, em outubro de 1973. O texto foi lido na audiência pública de homenagem a Gildo realizada na Comissão da Verdade Rubens Paiva (Assembléia Legislativa de São Paulo), no dia 25 de outubro de 2013.
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Dizem (...) que [Creonte] proclamou a todos os tebanos a interdição de sepultarem ou sequer chorarem o desventurado Polinices: sem uma lágrima, o cadáver insepulto irá deliciar as aves carniceiras que hão de banquetear-se no feliz achado.” (Sófocles, Antígona, linhas 30-34).

Assim explica Antígona à sua irmã Ismene o que aconteceu a um de seus irmãos, Polinices. Na tragédia escrita por Sófocles no século V a.C., os irmãos Polinices e Etéocles morrem em uma guerra civil, este guiando o exército tebano, aquele o de Argos. Julgado traidor pelo tirano Creonte, que assume o poder de Tebas, Polinices deve permanecer insepulto: nas palavras de Creonte, “a Polinices, (...) quanto a ele foi ditado que cidadão algum se atreva a distingui-lo com ritos fúnebres ou comiseração; fique insepulto o seu cadáver e o devorem cães e aves carniceiras em nojenta cena.” (Sófocles, Antígona, linhas 225-235).

Neste mês de outubro de 2013, faz 40 anos que meu pai, Gildo Macedo Lacerda, foi torturado até a morte sob o governo ditatorial brasileiro. 40 anos atrás, a irmã mais velha de Gildo, Márcia Lacerda Alves, via o Jornal Nacional anunciar a morte de seu irmão em um suposto tiroteio no centro da cidade de Recife, na esquina da Av.Caxangá com a rua General Polidoro. Segundo a versão mentirosa oficial, Gildo, que havia sido preso em 22 de outubro de 1973, e José Carlos Matta Machado (também preso) delataram um encontro que aconteceria entre eles e um terceiro companheiro de codinome Antônio. Este, percebendo a emboscada, atirou em Gildo, que morreu no local. Poucos dias depois, minha mãe, então presa em Salvador, receberia a notícia da morte de seu marido pelo capelão do Exército, que lhe entregou um jornal com a notícia.

A farsa da versão oficial, o “Teatro da Caxangá” ou a prática do “Teatro dos Mortos”, além de encobrir os bárbaros assassinatos sob tortura de Gildo e José Carlos, tentou encobrir o assassinato de Paulo Stuart Wright ao se referir a “Antônio”, que teria conseguido fugir. Essas informações, eu sei de cor há nem sei quanto tempo. Na tentativa de reconstruir a história de Gildo, decorei as palavras que narram sua morte – ainda que sua morte tenha de fato ocorrido na tortura a que foi submetido. O que não consigo por nada gravar em minha memória é o nome das valas e dos cemitérios por onde passou o corpo morto de Gildo. Por meio de pesquisas no Dops/PE, o Grupo Tortura Nunca Mais em Recife (e particularmente uma pessoa: Amparo) descobriu em 1991 que o corpo de Gildo foi necropsiado no Necrotério Público de Santo Amaro, em Recife, para onde foi encaminhado pelo delegado Jorge Tasso de Souza; o corpo ficou inicialmente em caixão lacrado e foi enterrado como indigente no Cemitério da Várzea, em Recife. Os restos mortais de Gildo foram, em seguida, transferidos para uma vala comum no “Buraco do Inferno”, e, em 1986, para outra vala comum (com ossadas de pessoas mortas desde 1945), no Cemitério Parque das Flores – essa última vala, numa triste alusão à tragédia de Sófocles, uma vala a céu aberto.
Antígona não cede à irmã Ismene, recusa-se a obedecer o édito do tirano Creonte, e realiza os ritos jogando sobre seu irmão insepulto uma fina camada de terra com suas próprias mãos, porque para ela as leis do tirano ferem as leis dos deuses, as leis do governo tirano são leis injustas e, por isso, devem ser desobedecidas. Diz ela:

“Zeus não foi arauto delas para mim,/Nem essas leis são as ditadas entre os homens/ pela Justiça, (...);/ e não me pareceu que tuas determinações tivessem força/ para impor aos mortais até a obrigação/ de transgredir normas divinas, não escritas,/inevitáveis; não é de hoje, não é de ontem,/é desde os tempos mais remotos que elas vigem,/sem que ninguém possa dizer quando surgiram.”(Sófocles, Antígona, linhas 511-520, grifo meu).

Contra o tirano Creonte, que define a justiça como as leis particulares instituídas por seu regime particular (como os Atos institucionais de nossa ditadura), Antígona considera que a justiça é universal e atemporal. Há 25 séculos a Filosofia debate a questão da Justiça. Em linhas muito gerais pode-se dizer que há aqueles que afirmam a Justiça como uma verdade universal e atemporal, derivada dos deuses, de Deus ou da razão humana – a Justiça, nesse caso, porta uma necessidade, ela deve valer em qualquer tempo ou lugar; e, de outro lado, há os filósofos que consideram que Justiça é produto da convenção humana e, como tal, é sempre contingente e particular, já que enraizada em governos particulares. Mas o fato é que quer concebamos a Justiça como uma verdade atemporal e universal, quer a concebamos como o efeito de leis particulares, mesmo entre os defensores de uma justiça que só existe por consenso, que é contingente e produto de seu tempo particular, é muito difícil dar razão para uma lei como a de Creonte; mesmo para quem defende a justiça como pura convenção, é difícil explicar uma lei que obriga a deixar um irmão insepulto, ou uma lei que justifica a prisão e morte arbitrária de pessoas que se opõem ao regime que está no poder. Porque como diz o adivinho Tirésias, ao advertir o tirano Creonte, deixar que um morto jaza insepulto é matá-lo novamente: “Não firas um cadáver!” – exclama Tirésias, e questiona: “Matar de novo um morto é prova de coragem?” (Sófocles, Antígona, linhas 1141-1142).

Recusar os ritos fúnebres a uma pessoa não é apenas uma injustiça, é uma monstruosidade, é nos retirar nossa humanidade, aquilo que nos distingue enquanto seres humanos, é desumano, é inumano.

Na primeira aparição do coro na Antígona de Sófocles, o coro exalta a capacidade do homem – “Há muitas maravilhas, mas nenhuma/ é tão maravilhosa quanto o homem./ (...)/ homem de engenho e arte inesgotáveis. /(...)/ Soube aprender sozinho a usar a fala/ e o pensamento mais veloz que o vento (...)” (Sófocles, Antígona, linhas 385-405). Na versão da Antígona feita pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht, e que se inicia com um prólogo no qual duas irmãs veem seu irmão desertor assassinado por um soldado da SS de Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial, Brecht mostra quão longe pode ir o homem quando não reconhece os limites da humanidade e, nas palavras dele, “pisa implacavelmente sobre os demais”, quando impõe uma morte na morte, negando os ritos fúnebres a um morto, negando que os familiares pranteiem o seu ente querido, negando o direito humano de dar um túmulo a um pai, a um marido, a um filho, a um irmão; o direito humano de seguir em frente depois de uma morte inexplicável, incompreensível, seguir em frente, digo, sem o peso insuportável da responsabilidade de não ter dado ao seu parente um enterro digno. Quando o homem capaz de mil maravilhas, nega ao seu semelhante a possibilidade de ser humano e cumprir os ritos fúnebres como um dever para com seu familiar, ele nega a própria humanidade; como diz Brecht: [cito] “O homem não leva em conta o que é realmente humano, e assim, converte-se ele mesmo em um mostro prodigioso” (Brecht – Antigona,  p.87).

Por isso, em homenagem ao meu pai, avô de meus filhos, marido de minha mãe, que ficou viúva aos 22 anos, faço um apelo à sociedade brasileira: deixem-nos enterrar nossos mortos!

O que a ditadura brasileira fez não é apenas uma injustiça, é uma monstruosidade.  Deixem-nos enterrar nossos mortos, prantear nossos pais, filhos, maridos, amigos, companheiros. Deixem-nos cumprir o dever imemorial e humano de enterrar nossos entes queridos. É o mínimo que podemos fazer por pessoas que lutaram para que vivêssemos em uma democracia, com direito de fazer e dizer o que julgamos melhor, desde que dentro das leis democráticas instituídas.

Queremos que conste a causa mortis no atestado de óbito de Gildo Lacerda, porque assim ficará posto que ele morreu pelas mãos de um Estado ditatorial e jamais traindo seus companheiros, como a farsa da versão oficial quer colocar.

Queremos que se identifique os restos mortais de Gildo, porque assim poderemos fazer os ritos que seus pais não puderam e dar a meu pai o mínimo que se poderia dar diante do que ele nos deu em nome da democracia – sua vida.

            Queremos que todos os arquivos da ditadura sejam abertos – e ainda há arquivos fechados, como revelou a Folha de São Paulo em 21 de outubro de 2013 ao relatar a microfilmagem que o serviço de informações da Marinha, o Cenimar, fez entre 1972 e 1974. O nome de Gildo constava de uma lista de militantes e dirigentes de organizações de esquerda que deveriam ser presos e assassinados mostrada ao líder camponês Manoel Conceição, em 1972, quando ele estava preso no Cenimar e no DOI Codi do Rio de Janeiro. Queremos que todos esses arquivos possam ser livremente acessados; queremos entender por que Gildo foi morto – porque não nos basta saber que ele lutava contra a ditadura, queremos reconstruir, reconstituir sua vida.

Deixem-nos enterrar nossos mortos e realizar o luto necessário. Deixem-nos enterrar nossos mortos para dar significado a sua vida e esclarecer para toda a sociedade este ponto obscuro de nossa história.

domingo, 31 de março de 2013

POR QUE LEMBRAR O GOLPE?



Porque não dá para esquecer que os militares, com apoio de setores significativos da cantada em verso e prosa sociedade civil e com respaldo dos Estados Unidos, derrubaram um governo que havia sido democraticamente eleito, quase quatro anos antes. Foi um golpe, jamais uma revolução.

Porque não é possível perdoar as torturas, os assassinatos e os desaparecimentos patrocinados pelo aparato estatal que foi montado pela ditadura civil-militar que se instalou no Brasil após o golpe de Estado.

Porque não se tolera a censura que amordaçou e proibiu livros, canções, peças, filmes e matérias de jornais, interrompendo criminosamente a atmosfera de criatividade e efervescência artística que o Brasil vivia nos anos 1960, deixando como nefasta consequência um rastro de destruição da produção cultural e intelectual brasileira.

Porque os defensores da Educação Moral e Cívica iniciaram o movimento de sucateamento da educação pública brasileira, substituindo o "livre pensar e transformar" pelo "consumir e dar-se bem" como valores hegemônicos de nossas escolas, em todos os níveis.

Porque muitas das empresas de comunicação que hoje respiram os ares da democracia foram ativamente coniventes com o regime de terror, fosse mostrando em horário nobre televisivo que "tudo ia muito bem, obrigado, no Brasil"; fosse emprestando viaturas disfarçadas para transportar presos políticos para centros de tortura; ou fosse ainda publicando como verdadeiros os falsos informes da ditadura a respeito de "terroristas mortos em confronto com a polícia", quando na realidade os militantes de esquerda estavam sendo trucidados nos porões do regime.

Porque vários empresários com sobrenomes conhecidos auxiliaram a máquina de terror, vigiaram funcionários, delataram estudantes e financiaram a tortura. Alguns desses sujeitos, aliás, bastante sádicos, se regozijavam vendo os opositores da ditadura sendo arrebentados pelos trogloditas de plantão, fardados ou não.

Porque vivemos ainda os ecos da ditadura, em várias e diferentes esferas e dimensões. O que dizer, afinal, das torturas sistemáticas como prática naturalizada em nosso falido sistema prisional e das polícias militares que insistem em usar gás lacrimogênio para reprimir estudantes e movimentos populares?

Porque, entre parcela significativa de nossos jovens, sobrevivem - e se amplificam - os desejos ardentes de "ordem, autoridade, pega, mata e esfola", a flertar perigosamente com os germes de intolerância do fascismo.

Porque é preciso pressionar a Comissão da Verdade a, de fato, resgatar e publicizar a verdade histórica.

Porque uma sociedade que não cuida de suas feridas, permite que se apague sua memória e nega sua história não consolida sua democracia. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O AI-5. E TRECHOS DO MEU TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO


No dia 13 de dezembro de 1968, a ditadura civil-militar impunha à sociedade brasileira o Ato Institucional 5 e mergulhava o Brasil definitivamente nos anos de chumbo e de terror das torturas, desaparecimentos e assassinatos institucionalizados. 

Por coincidência, no dia 13 de dezembro de 1994, defendi, na ECA/USP, meu Trabalho de Conclusão de Curso - um perfil de Helena Pereira dos Santos, então presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e mãe de Miguel Pereira dos Santos, guerrilheiro revolucionário do Partido Comunista do Brasil (PC do B) covardemente assassinado pelos militares no Araguaia. O projeto foi orientado pela mestra Cremilda Medina. Fizeram parte da banca examinadora o professor Dalmo Dallari e a professora Maria Nazareth Ferreira. Aos três, meu eterno carinho e agradecimentos.

Naquela mesma noite de 13 de dezembro de 1994, uma sexta-feira, no auditório Freitas Nobre lotado, e com quase 23 anos, conheci Elisa Marconi, que se tornaria para sempre minha companheira de todas as lutas.

Dezoito anos depois, mergulhado em boa nostalgia, deu uma vontade danada de resgatar e de compartilhar alguns trechos do TCC, mais especificamente as "Considerações Finais" - até porque, e não sei se isso é bom ou ruim, me parece que continuam indicando reflexões relevantes e bastante atuais. Além de escancarar minha sempre assumida paixão pelo Jornalismo.  


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"O exemplo da guerrilha do Araguaia ilustra com perfeição essa situação: a luta dos familiares continua, há uma série de fatos que precisam ser esclarecidos, arquivos que devem ser abertos, sentimentos e situações que não podem ser represados ou contidos. Mas as elites e a imprensa passam ao largo de tudo isso, como se essa realidade simplesmente não existisse. Sabem no vespeiro que mexerão e nas consequências de se tocar em tal questão. Sabem que, se puxarem o fio, virá o novelo de lã inteiro. A saída, então, é fingir que nada disso existe. E, como no Brasil vale a máxima que diz que "não saiu na imprensa, então não existe", para a sociedade a guerrilha também passa a ser um completo mistério.   (...)

Mas não vou terminar esse trabalho com uma visão determinista e pessimista. Sim, a situação é complicada, são muitos obstáculos a superar, mas é exatamente desse ponto que devem surgir as forças transformadoras. E eu continuo acreditando muito na Universidade como pólo criador e irradiador de novos paradigmas. É na escola de Jornalismo, tão criticada e rebaixada e sem dúvidas repleta de problemas e de incapacidades, que aprendemos a sistematizar a profissão. Participamos de todo processo de produção do material jornalístico, parando para refletir sobre cada etapa. É nela que se adquire o senso crítico e onde se aprende não apenas a fazer, de maneira robotizada e burocrática, mas POR QUE fazer. É ela que deve estimular a criatividade e as iniciativas pioneiras nascidas no meio dos alunos, que deve garantir-lhes uma sólida formação humanística, nas áreas das Artes, História, Geografia, Política, Sociologia, que deve abrir espaço para os debates, as discussões.

A escola não deve sucumbir aos apelos das empresas capitalistas, adaptando-se ao mercado. Ao contrário, precisa se manter firme como instituição que tem como principal função formar cidadãos críticos, preparados para lidar com as mais diferentes realidades, ciente de que a verdade não é e não pode ser absoluta e que o jornalista é um sujeito que vive num mundo repleto de incongruências e de desafios, um mundo dinâmico, em constante transformação.

Algumas das experiências desenvolvidas, embora ainda muito tímidas, mostram que é possível e necessário acreditar e precisam ser aprimoradas. Livros-reportagens, pesquisas sobre novas práticas jornalísticas, seminários e encontros com profissionais de outras áreas, órgãos laboratoriais, semanas de Jornalismo e Trabalhos de Conclusão de Curso são algumas delas. Muito pouco? Pois bem, então que se incentive ainda mais o Jornalismo criador, renovador, transformador. Que se forme o jornalista capaz de sacudir o mundo. Que se tente de novo, e mais uma vez, e que não se pare nunca de tentar, de criar. Eis a razão maior de nossa existência. Que se inundem as redações com esses novos jornalistas, que formarão sólidos grupos de resistência ao pragmatismo reducionista. Que se mostre ao jornalista que ele também pode cercar as grandes empresas pelas bordas, nos sindicatos, nas ONGs, associações de bairros, imprensa alternativa. Que se faça da Universidade a nascente de ondas de contra-cultura, impregnadas pelo humanismo contextualizador, irrequieto, questionador, revolucionário, romântico, idealista, analítico, cheio de sentimentos e emoções, polifônico e polissêmico.

Afinal de contas, o Brasil tem uma História e histórias que precisam ser recontadas e reescritas, sem censuras, sem preconceitos, sem tabus. Histórias como a de Helena e dos guerrilheiros desaparecidos e assassinados no Araguaia. Histórias dos negros, índios, meninos de rua, favelados, famintos, dos que não têm seus direitos respeitados. Histórias de um povo. 

Este trabalho é minha pequena contribuição aos que acreditam numa nova forma de encarar a profissão. Responde a muitas das minhas angústias e aflições, permitiu que eu colocasse em prática aquilo que penso ser uma reportagem. (...) Selou também um compromisso político, determinou as linhas mestras de uma filosofia de vida. Com ele, começo a me tornar jornalista. Um jornalista apaixonado pelo que faz. (...) Meu diploma não servirá apenas para ficar pendurado na parede do quarto. Ele será minha arma e com ele farei minha revolução. E quando eu chegar à velhice para escrever minhas últimas palavras, meu último texto, quero olhar para trás e perceber que deixei uma mensagem, uma semente plantada para as gerações e companheiros que me seguiram. Com os olhos cheios de lágrimas, vou então estufar o peito, assinar o texto e dizer bem alto: valeu a pena!

Chico Bicudo
Dezembro de 1994"

quinta-feira, 12 de julho de 2012

JORNALISMO E GUERRILHA DO ARAGUAIA


Desembarcou nas livrarias, no mês de junho, o livro "Mata! O major Curió e as guerrilhas no Araguaia", escrito pelo jornalista Leonencio Nossa, repórter do jornal O Estado de São Paulo. Trata-se de um exemplo muito bem acabado de reportagem que reúne rigor de pesquisa com competência narrativa. A obra resgata um dos episódios mais relevantes - e pouco conhecidos - da nossa história recente, o foco guerrilheiro instalado pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) na região central do país, no final dos anos 1960 e início dos 70, quando a ditadura militar viu-se obrigada a mobilizar tropas e a enviar cerca de treze mil soldados para a área, com intuito declarado de literalmente exterminar os jovens que desejavam acabar com o regime de repressão. A pesquisa de Leonencio revela datas e  detalhes das condições em que foram assassinados, depois de capturados e presos, 41 guerrilheiros (o número total de resistentes é controverso), ajudando a desmontar o discurso oficial do "necessário enfrentamento com subversivos perigosos ocorrido no coração do Brasil". Ali foram cometidos crimes de guerra, patrocinados pelo Estado brasileiro.

Em palestra realizada no Sétimo Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e realizado na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, Leonencio contou que o interesse pelo Araguaia foi despertado em 1997, quando ele leu num jornal de Vitória (Espírito Santo), sua cidade natal, uma notinha a respeito da trajetória de Áurea Valadão, que estudava Física no Rio de Janeiro (UFRJ) e participou da guerrilha. "Algo me incomodou, mexeu comigo. E aquela matéria ficou martelando na minha cabeça".

Foi apenas em 2002, cinco anos depois, que o jornalista conseguiu visitar pela primeira vez a cidade de Curionópolis, fundada por prostitutas à época da explosão do ouro no garimpo de Serra Pelada e cujo nome presta homenagem evidente a Sebastião Curió, major responsável por comandar as operações de combate à guerrilha e que mais tarde administraria o município por quase dois mandatos (foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral ao final do segundo, em 2008, por compra de votos e abuso de poder econômico). Curió já tinha ameaçado, em várias oportunidades, escrever um livro em que prometia escancarar todas as suas memórias - e os arquivos que tinha guardado. Era justamente esse o livro que Leonencio desejava escrever. O jornalista viu-se diante do desafio de inverter a mão de direção e de convencer o militar a falar - para ele. "Faltava na bibliografia sobre o Araguaia um perfil do major Curió, que pudesse contemplar também as percepções e os depoimentos das pessoas simples, os anônimos da região amazônica, que nunca tinham sido ouvidos".

Na tentativa de conquistar a confiança do militar, foram várias as viagens feitas à região, horas e horas de conversas gravadas - e outras tantas colhidas em lugares barulhentos, para que não pudessem ser registradas, ou até mesmo passadas por meio de bilhetinhos em pedaços de papel -, além de experiências inusitadas. Leonencio chegou a exibir três filmes para Curió, para sensibilizá-lo, nesta ordem: "Nascido para matar", de Stanley Kubrick (que Curió achou fraco); "Platoon", de Oliver Stone (o militar adorou as armas exibidas); e "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola - que finalmente tocou o coração do major. "Para convencer uma fonte, não há passe de mágica. Foi um processo, há um jogo que se estabelece entre biógrafo e biografado. Ele via que eu não ia desistir, sabia que eu ia publicar o livro. E parece ter entendido a importância de participar, até para ficar menos vilão nessa narrativa", contou o jornalista. 

Segundo Leonencio, a relação exigiu exercício diário de distanciamento, para não virar amigo da fonte. "Quando você passa a gostar de ou a odiar uma figura, fica contaminado e perde de alcance os melhores momentos da trajetória que tenta narrar". Para ele, essa postura de transparência e honestidade e o fato de ter deixado muito claro para Curió qual é a razão de ser de um trabalho jornalístico - construir a melhor versão possível da realidade - foram determinantes para finalmente cativar o militar. "Ele sabia com exatidão o que eu estava fazendo", lembra. Ao final, Curió acabou cedendo e oferecendo ao repórter acesso privilegiado aos arquivos que até então eram mantidos trancafiados a sete chaves - anotações pessoais, relatórios, fotos e mapas que foram preciosíssimos na tarefa de colaborar para costurar o enredo. "É um tanto quanto subjetivo, reconheço, mas acho que chega um momento em que a gente não aguenta mais, é preciso contar os segredos que conhecemos, por mais terríveis que eles sejam. Penso que foi assim que se deu com Curió", afirmou Leonencio. "Foi ainda um sinal evidente de que os arquivos produzidos pelos órgãos de inteligência da repressão existem e precisam ser tornados públicos", completou.        

Para não ficar refém da fala de Curió, ele teve disposição e paciência para ouvir - algo raro em tempos de celebridades, quando muitos só querem falar e se expor - outras 150 pessoas, principalmente moradores humildes e desconhecidos da região do Araguaia, além de familiares dos guerrilheiros assassinados. "A diversidade é um preceito básico do jornalismo, que nos aproxima da história real", confirmou. Leonencio contou também que o processo de escrita andou junto com a apuração - "não esperei encerrar um para começar outro". A percepção de que o trabalho havia chegado ao fim deu-se a partir de três episódios: quando conseguiu entrevistar o sujeito que havia prendido Áurea Valadão; depois que pôde confirmar detalhes sobre barbaridades cometidas pelos militares, que deceparam cabeças de muitos guerrilheiros, como espécies de troféus; e quando esteve em um tradicional colégio da cidade de Vitória para procurar os boletins de dois militantes do PC do B que atuaram no Araguaia e acabou se deparando com sua própria ficha escolar. "Pensei: estou ficando maluco, é hora de publicar o livro".

Em 2007, concluiu um catatau que tinha aproximadamente 800 páginas. Mostrou os originais a um amigo que conhece bem a história do país. Educadamente, o colega disse que "não dava, não ia virar". O jornalista jogou tudo fora e recomeçou do zero. Em maio de 2009, frio na barriga: Leonencio ficou sabendo que um colega do "Jornal Nacional", da Rede Globo, havia procurado o major Curió e tentado convencer o militar a abrir os arquivos em uma matéria que seria produzida e veiculada pela emissora carioca. "Se aquilo tudo viesse à tona naquele momento, todo meu trabalho e o livro perderiam sentido", avaliou. A solução foi usar um truque jornalístico: Leonencio publicou, no "Estadão", uma reportagem especial sobre a guerrilha, dando conta conta especificamente das execuções e do número de mortos, desnudando algumas informações, mas preservando outras. No jargão da profissão, a Globo tinha sido "furada". E acabou perdendo o interesse por Curió. Leonencio pôode concluir a pesquisa e encerrar a escrita do livro, sem concorrentes. 

"É uma história com forte viés humanista, que procura compreender os sentimentos e a entrega daqueles jovens idealistas que foram para o Araguaia lutar contra a ditadura, e que não aceita os crimes de guerra cometidos pela repressão. Mas não sou irresponsável de dizer que é o relato definitivo. Que outros sejam escritos". 

No limite, o que a obra faz elegantemente é revelar as possibilidades e os limites de uma reportagem, justamente o tema da palestra de Leonencio no Congresso da Abraji. 

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Leia também entrevista com Leonencio Nossa publicada pela revista Giz, do Sindicato dos Professores de São Paulo

quarta-feira, 27 de junho de 2012

TORTURADOR BRILHANTE USTRA É CONDENADO PELA JUSTIÇA



Ontem, terça-feira, dia 26 de junho, Dia Internacional em Apoio às Vítimas de Tortura, veio a público a notícia da condenação do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra pela juíza Claudia de Lima Menge, da vigésima Vara Cível Central de São Paulo, que obriga o facínora a pagar indenização no valor de 50 mil reais por danos morais à família do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, militante que combateu a ditadura militar brasileira - e que foi morto, em 1971, sob terríveis torturas comandadas por Ustra, nos porões do regime. 

Além da coincidência da data, o fato guarda outra dimensão simbólica fundamental: foi a primeira vez que um agente da repressão, individualmente, foi condenado a arcar com reparações financeiras por conta de atrocidades cometidas em nome do Estado e da "segurança nacional". 

Assim como era comum na época, e a exemplo da narrativa mentirosa que se tentou construir a respeito do assassinato do jornalista Vladimir Herzog (para a ditadura, "suicídio"), o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) mentia ao dizer que Merlino tinha morrido atropelado, depois de se atirar na frente de um carro, na rodovia BR 116, quando era transportado para o Rio Grande do Sul. Mentira, sórdida mentira, que a sentença da juíza Claudia desmonta com brilhantismo ímpar, ajudando a recontar a História recente do país. 

Embora a condenação tenha ainda acontecido em primeira instância (cabe recurso), e para além da reparação financeira, a sentença merece ser lida na íntegra porque representa uma estupenda peça de reflexão sobre o arbítrio e o anos de chumbo e de defesa dos direitos humanos. É digna de ser compartilhada e comemorada por todos aqueles que continuam lutando pelo direito à memória e à verdade, pela democracia. 

Abaixo, reproduzo alguns trechos representativos desse espírito consagrado pelo texto corajoso da juíza.  




"Em 15/7/1971, em visita a sua família em Santos, Luiz Eduardo foi levado a força, sob a mira de pesado armamento, por agentes do DOI- CODI. Nos quatro dias subsequentes, militares mantiveram a família, inclusive a coautora Regina, sob constante vigilância, mas sem notícias sobre Luiz Eduardo, até que noticiado seu falecimento, por suicídio. Foi possível, porém, constatar que ele fora vítima de tortura, tendo em conta as condições em que se apresentava o corpo. Diversa, porém, foi a versão apresentada pelos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social): quando era transportado para o Rio Grande do Sul, para lá reconhecer colegas militantes, durante uma parada na proximidades de Jacupiranga, Luiz Eduardo teria se jogado à frente de um carro que trafegava pela rodovia e fora atropelado. Este o conteúdo lançado no atestado de óbito pelos técnicos no IML. Tempos depois, outras pessoas que estiveram no DOI-CODI na mesma época trouxeram relato de que Luiz Eduardo fora espancado durante 24 horas seguidas no “pau-de-arara” e, como consequência, passou a apresentar dores nas pernas, que, depois, se constatou ser sintoma de complicações circulatórias severas, que redundaram na morte dele, por falta de atendimento médico adequado e excesso nos atos praticados pelo réu. A coautora Maria Helena estava na França quando recebeu a notícia da morte de seu companheiro. Mesmo depois do fatídico evento, a família foi mantida sob constante vigilância por agentes do exército. Os espancamentos de Luiz Eduardo se deram sob supervisão, comando e, por vezes, por ato direto do requerido, que, então, era comandante do DOI-CODI e da operação OBAN (Operação Bandeirante, como foi denominado o centro de informações e investigações montado pelo exército em 1969, voltado a coordenar e integrar as ações dos órgãos de combate às organizações armadas de esquerda)". 

"Não é de olvidar, porém, que até mesmo a anistia assim referendada pela Corte Suprema não está infensa a discussões, tendo em conta subsequente julgamento proferido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em que o Brasil foi condenado pelo desaparecimento de militantes na guerrilha do Araguaia, enquadrados os fatos como crimes contra a humanidade e declarados imprescritíveis. No ponto, ostenta especial relevância considerar que a atual configuração inter-relacionada dos diversos países, integrantes de organizações internacionais voltadas para fins políticos, econômicos e sociais, e a intensa movimentação de pessoas entre as várias nações, faz com que a regulamentação acerca do respeito aos direitos humanos e das consequências dos atos praticados afronta deles transcenda largamente a posição soberana dos Estados para se basear, isto sim, em cada pessoa, como titular de direitos essenciais, independentemente da nacionalidade e do local em que esteja. Daí a relevância dos tratados internacionais acerca de direitos humanos, vez que como direitos essenciais não podem sofrer injunções ou considerações locais, com base no poder constituinte, quer originário, quer derivado. Como ensina Márcio Sotelo Felipe (www.viomundo.com.br), “além do fenômeno da convencionalidade sustentado pelo princípio da ‘pacta sunt servanda’, há normas de Direito Internacional que têm a característica da cogência. Após Nuremberg se reconhece que normas do Direito Internacional dos Direitos Humanos são cogentes. Derivadas dos costumes e de outras fontes formais do Direito, independem, para sua eficácia, da vontade dos sujeitos envolvidos numa relação jurídica. A racionalidade disto é clara. Trata-se de um imperativo moral transformado em axioma jurídico: como poderia a proteção da vida e dos direitos básicos da pessoa humana depender de um ato de vontade, em qualquer plano do fenômeno jurídico?” (…) “A ideia de que somente normas positivadas por meio de determinados procedimentos formais constituem o Direito independentemente de juízo de valor deve ser considerada hoje uma etapa primitiva do desenvolvimento do fenômeno jurídico. Isto porque a dignidade da pessoa humana deixou de ser postulado filosófico para tornar-se axioma jurídico. Está na raiz dos instrumentos internacionais de defesa dos Direitos Humanos que se seguiram à barbárie nazista: a Declaração Universal de 1948, o Pacto de Direitos Civis e Políticos, a Declaração de Direitos Econômicos e Sociais, a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e contra a Humanidade, de 1968, Convenção contra a Tortura, etc.”

"A prova oral deu integral respaldo ao relato feito constante da inicial. Narraram as testemunhas a dinâmica dos eventos, a elevada brutalidade dos espancamentos a que foi submetido o companheiro e irmão das autoras, que o levaram a morte, ora sob comando, ora sob atuação direta do requerido, na qualidade de comandante do DOI-CODI e da operação OBAN, vinculadas a manutenção e proteção do regime militar. Narrou a testemunha Laurindo Martins Junqueira Filho que: “Ustra era o Comandante da unidade e assistiu minha tortura, assistiu a tortura do meu companheiro que estava comigo. Ele não viu o Luiz Eduardo sendo torturado, mas ele era o Comandante da unidade de tortura e orientava essa tortura pessoalmente.” (…) “Após o contato com o Luiz Eduardo, eu recebi informações de um soldado do exército, que prestava serviço na Unidade da OBAN, de que o Luiz Eduardo tinha morrido, tinha sido torturado durante a noite. E esse soldado, de suposto nome Washington, de cor negra, veio até mim e falou que o Luiz Eduardo tinha morrido de gangrena nas pernas; tinha sido conduzido para um passeio – foi a expressão que ele usou – na madrugada, e que tinha sido várias vezes atropelado por um caminhão que prestava serviços para a unidade da OBAN. Isso teria se repetido tantas vezes que os órgãos dele tinham sido decepados pelo caminhão.” (fl. 802). A testemunha Leane Ferreira de Almeida, por sua vez, relatou que: “ouvi os gritos do Luiz Eduardo durante três dias, durante o período que as equipes comandadas pelo Major Ustra o torturaram.” Noticia também que, embora não tenha presenciado o momento da tortura de Luiz Eduardo, o requerido estava no local dos fatos. “Estava o Ustra. A coisa principal que ele estava fazendo naquele dia era torturar as pessoas que poderiam levar a uma pessoa que ele procurava muito fortemente; (…) Ele gritava esse nome pessoalmente enquanto ele era torturado no Pau-de-Arara. Parece um código, mas era o nome de um militante. O objetivo dele era chegar aos militantes. Quando eu não tive essa informação para dar, o Luiz Eduardo foi preso e passou a ser torturado na mesma sequência e sala que eu, durante três dias consecutivos. Todos os presos escutavam os gritos dele incessantemente, até sua retirada da Operação Bandeirantes, desacordado e colocado no porta-malas de uma carro. Isso foi visto por mim, no pátio do Presídio Bandeirantes, comandado pelo Major Ustra; colocado no porta-malas de um carro por quatro outros policiais da mesma equipe. Foi colocado no porta-malas do carro, desacordado. Parecia até que já morto.” 

"A brutal violência com que o requerido pautou sua conduta fez ainda mais gravoso o resultado final morte, dada a crueldade que, impingida a ente querido, acabou por atingir a esfera de dignidade das próprias autoras. A morte prematura por motivo político e com requintes de crueldade privou as autoras do convívio com seu companheiro e irmão, respectivamente. Por certo, a indenização almejada não será capaz de sanar a dor suportada pelas autoras, nem suprir-lhes a ausência do ente querido. Destina-se a minorar o intenso sofrimento. Muito se assemelham em seus objetivos a indenização aqui almejada e o trabalho da Comissão da Verdade, cujos integrantes foram recentemente empossados pela União. Como escreveu Flávia Piovesan em recente artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, edição de 6/5/2012: “Para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ‘toda sociedade tem o direito irrenunciável de conhecer a verdade do ocorrido, assim como as razões e circunstâncias em que aberrantes delitos foram cometidos, a fim de evitar que esses atos voltem a ocorrer no futuro’. O direito à verdade apresenta uma dupla dimensão: individual e coletiva. Individual ao conferir aos familiares de vítimas de graves violações o direito à informação sobre o ocorrido, permitindo-lhes o direito a honrar seus entes queridos, celebrando o direito ao luto. Coletivo, ao assegurar à sociedade em geral o direito à construção da memória e identidade coletivas, cumprindo um papel preventivo, ao confiar às gerações futuras a responsabilidade de prevenir a ocorrência de tais práticas". 

domingo, 1 de abril de 2012

PARA JAMAIS ESQUECER AS ATROCIDADES DA DITADURA MILITAR

Manifestação "Cordão da Mentira" - São 
Paulo, 1 de abril de 2012.

Fotos de Elisa Marconi



"Ao contrário dos outros países latino-americanos, no Brasil não houve justiça de transição. Os responsáveis por crimes como tortura e desaparecimento de corpos, chamados de lesa-humanidade, não foram julgados. O Estado brasileiro não investigou os crimes cometidos pela ditadura, mesmo tendo sido condenado internacionalmente pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Isso demonstra que os interesses que levaram os militares ao poder continuam fortes e operantes no cenário político. Não satisfeitos, os militares ainda resolveram satirizar e fazer pouco caso da sociedade brasileira, em mais uma confraternização de celebração. Peguntamos a eles: o que devemos celebrar?". (Trecho do manifesto do "Cordão da Mentira").

Pois é. Comemorar o golpe e a ditadura militar significa também comemorar a censura, as prisões, os assassinatos, os desaparecimentos, a tortura, a barbárie. Significa tripudiar sobre a dor das famílias que até hoje não sabem o que foi feito dos corpos de entes queridos. Significa valorizar um tempo de terror e de truculência institucionalizada. Significa achincalhar a memória da resistência democrática. Resumindo: é indecente. Nojento.

Aviso aos militares golpistas e às viúvas da ditadura: não esqueceremos! Dom Paulo Evaristo Arns, no obrigatório Brasil: Nunca Mais, destaca que "não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu. O 'desaparecido' transforma-se numa sombra que, ao escurecer-se, vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena".

E, como bem lembra novamente o manifesto do "Cordão da Mentira", "se a farsa continua, continuaremos a exigir o direito à justiça e à verdade". Jamais esqueceremos.





































Este texto faz parte da quinta blogagem coletiva do #desarquivandoBR