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domingo, 22 de julho de 2012

SERRA E HADDAD DEVEM ESTAR PREOCUPADOS...


As eleições municipais serão tema recorrente neste Blog. Para começar a aquecer o debate político, vale a pena dedicar algumas linhas de reflexão à pesquisa divulgada neste sábado, 21 de julho, pelo Instituto Datafolha, que traz as intenções de voto para a Prefeitura de São Paulo. 

De acordo com o levantamento, que ouviu 1.075 pessoas nos dias 19 e 20 de julho, José Serra (PSDB) lidera a disputa com 30%, tendo oscilado negativamente um ponto percentual em relação ao cenário anterior (dados de 25 e 26 de junho). É seguido bem de perto pelo candidato do PRB, Celso Russomano, que subiu dois pontos - de 24% para 26%, embolando a corrida pela liderança e configurando uma situação de empate técnico, já que a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Os demais candidatos estão bem distantes: Fernando Haddad (PT) vai de 6% para 7%, exatamente o mesmo movimento feito por Soninha Francine (PPS). Gabriel Chalita (PMDB) mantém os 6%, e Paulinho da Força cresce de 3% para 5%. Carlos Giannazi (PSOL) repete o 1%.  

Os quartéis-generais das campanhas tucana e petista muito provavelmente tiveram acesso a esses números já na noite de sexta-feira. E, aposto, José Serra e Fernando Haddad, que agem desde sempre para forçar a polarização da disputa, foram dormir deveras preocupados e passaram o final de semana com um gosto amargo na boca, embora continuem aparecendo para o público com o discurso do "tudo vai bem, mantemos o otimismo cauteloso" - nem poderia ser diferente.

Mesmo sendo inegavelmente figura pública de envergadura nacional, ex-prefeito da principal cidade do país e ex-governador do estado mais rico, além de candidato a presidente em 2010, quando alcançou inclusive o segundo turno, José Serra patina na faixa dos 30% desde que seu nome passou a ser incluído nos levantamentos. Parece objetivamente ter atingido seu teto eleitoral. E aquele que era anunciado como imbatível, para quem a eleição paulistana eram favas contadas, pode não apenas não ser o vencedor - começa também a correr risco de ficar de fora de um eventual segundo turno na capital paulista. Imagino que, nos bastidores, sem deixar vazar para o público, o cenário possível (e terrível) já esteja sendo considerado pelos marqueteiros e coordenadores da campanha tucana, todos arrepiados e com cabelos em pé. 

Certamente as lideranças do PSDB avaliam ainda outros números significativos da mais recente pesquisa Datafolha. Serra já é conhecido por 99% do eleitorado - ou seja, praticamente o grau absoluto (e, destes, 78% afirmam que o conhecem "muito bem"). Não tem mais para quem "ser apresentado". A taxa de rejeição do tucano, mais uma variável fundamental, chega a 37%  (era de 35% em junho), a maior desde o início da série de pesquisas. A história é bastante perspicaz em mostrar que, com essa imagem negativa estratosférica, dificilmente um candidato consegue sair vitorioso. O exemplo mais recente, no universo paulistano, é o da ex-prefeita Marta Suplicy. Para fechar o calvário serrista, o tucano alcança modestíssimos 9% na pesquisa espontânea, quando não são mostrados para o eleitor os nomes dos candidatos. Em junho, Serra tinha 13% na espontânea - em um mês, perdeu quatro pontos percentuais. O índice atual dele é ligeiramente superior ao de Russomano, que chega a 7% nesse cenário.

As pedras no caminho do PSDB estariam sendo efusivamente comemoradas no comitê petista, caso os estrategistas da campanha de Haddad não precisassem se preocupar com as próprias fraquezas. O fato que me parece incontestável é que, até aqui, a candidatura de Haddad não emplacou. E decepciona. Mesmo depois da entrada mais firme de Lula na campanha, da convenção partidária, das aparições em programetes gratuitos de TV em junho, das participações em programas populares como o do "Ratinho" (com Lula a tiracolo), das incursões pelas periferias da cidade e do apoio de Paulo Maluf, Haddad escorrega nos 7% de votos. É verdade, tem índice baixo de rejeição (12%) e, entre os favoritos, é o menos conhecido (55% sabem quem ele é). Há espaço para crescimento. Mas, para efeito de comparação, e guardadas as singularidades e contextos, vale lembrar que Dilma Rousseff, que também tinha sido ministra de Estado e foi alçada à condição de candidata a presidente por vontade de Lula, atingia, na pesquisa Datafolha de 23 de julho de 2010 (antes, portanto, do início do horário eleitoral gratuito), 36% das intenções de voto, contra 37% de Serra. Marina Silva tinha 10%. Bem diferente, me parece.

Sobre Celso Russomano, cumpre destacar que a trajetória dele nas pesquisas é ascendente: 16% em dezembro do ano passado, 17% em janeiro, 19% em março, 21% em meados de junho, 24% no final de junho, para finalmente alcançar 26% na pesquisa mais recente. Há certamente uma parcela dessas intenções que se manifesta por conta do "recall", da lembrança próxima, da visibilidade do postulante. Russomano foi candidato a governador de São Paulo em 2010. Até o final de junho, apresentava o quadro "Patrulha do Consumidor", na TV Record, com audiência bastante razoável e cativa. Mas já faz quase um mês que não participa mais do tal programa, por conta da legislação eleitoral. Ainda assim, subiu. Eu colocaria à mesa também para reflexão portanto o fato de São Paulo ser uma cidade historicamente conservadora, mas já não mais suportar José Serra (quase 40% de rejeição), fortemente identificado com o prefeito Gilberto Kassab (PSD), que é por sua vez pessimamente avaliado pela população (nota 4,4, de acordo com o Datafolha, numa escala de zero a dez). Assim, minha hipótese é que uma parte desses votos conservadores estaria escorregando para a candidatura Russomano, o "fato novo" a ser sustentado. Já não seriam votos tão voláteis assim.

Os staffs das duas campanhas (Serra e Haddad) vão recorrer a partir de agora a todos os chavões, a justificar os cenários angustiantes: "é a fotografia do momento, a pesquisa que vale é a das urnas, o jogo ainda não começou, o paulistano só vai se preocupar com a eleição depois da Olimpíada, Lula e Dilma serão decisivos, Alckmin será fator diferencial, quem vai resolver mesmo será o horário eleitoral gratuito...". Reconheço que estamos falando de algo provisório, de conjunturas suscetíveis a mudanças e flutuações, mais ou menos profundas. Mas o fato concreto é que o ponto de partida para os candidatos tucano e petista para a reta final da campanha, por razões distintas, é muito ruim. 

Talvez esteja aqui a grande novidade sugerida pela pesquisa Datafolha: pode não acontecer a tão sonhada "mãe de todas as batalhas", anunciada com entusiasmo e cantada em verso e prosa por representativa parcela do exército lulo-petista, ansioso por fincar a bandeira com a estrela na capital paulista, que é considerada um dos últimos bastiões (o outro seria o estado de São Paulo) da oposição no país. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

EM SÃO PAULO, PT E PSDB VÃO SE ENGALFINHAR. CHALITA AGRADECE.



Crédito - www.livrepensar.wordpress.com
Crédito - www.marcocito.blogspot.com

































A ressaca carnavalesca se foi. Devem ser aceleradas a partir de agora as articulações e definições relacionadas às eleições municipais deste ano. E a possível (provável?) entrada do ex-governador José Serra (PSDB) na disputa pela prefeitura paulistana, ventilada ainda antes da folia dos desfiles e das marchinhas, mesmo que ainda não oficialmente confirmada, já provoca alvoroço e reviravoltas nas estratégias e discursos que vinham sendo gestados pelos principais partidos e candidatos ao cargo, modificando de forma significativa as posições e funções das peças que estavam espalhadas pelo tabuleiro da sucessão municipal em São Paulo. 

Petistas e tucanos estão mais uma vez ouriçados, com os nervos à flor da pele - e, curiosamente, a briga que se anuncia entre os dois partidos, que promete ser ainda mais renhida e sem escrúpulos ou limites do que em situações recentes (vencer em São Paulo tornou-se questão de honra, uma espécie de vida ou morte para os dois lados), pode abrir espaço para a vitória de um tucano recentemente convertido ao peemedebismo (tendo antes passado pelo PSB) e com cara de bom moço - Gabriel Chalita. 

O PSDB parece ter ficado aparvalhado e apavorado diante da possibilidade real de aliança formal do atual prefeito Gilberto Kassab (PSD) com o candidato petista, Fernando Haddad. Embora fosse um atentado ideológico (já discuti essa questão em outros textos do Blog), a parceria teria de fato, pragmaticamente, potencial para arrancar dos tucanos talvez o último efetivo bastião de resistência política do partido, o balão de oxigênio que lhes resta - a capital paulista, com impactos diretos também na sucessão estadual de 2014, pois fragilizaria por consequência e consideravelmente as pretensões de reeleição do governador Geraldo Alckmin.

A oposição ao governo federal, já praticamente sem discurso e sem rumo, seria solenemente enterrada, com o agravante simbólico de ver o prego no caixão ter sido colocado justamente no estado que o PSDB governa há 18 anos. Bateu o desespero no ninho tucano. Alckmin, tal qual um déspota, e depois de bancar as prévias internas, tenta desidratar as pré-candidaturas. Serra faz exigências e impõe condições para ser candidato. Se aceitar e vencer, o PSDB vai respirar aliviado. Ganhará sobrevida. Mas o ex-governador paulista verá ainda mais distante a chance de alcançar a Presidência da República, sua verdadeira obsessão - ou o eleitorado aceitaria, mais uma vez, encarar um mandato curto e oportunista, a fazer da Prefeitura apenas trampolim para o projeto nacional? O caminho estaria aberto para Aécio Neves, como deseja o grão-duque Fernando Henrique Cardoso.

Se perder - hipótese que deve ser seriamente considerada -, Serra não terá apenas decretado sua morte política, mas deixará o PSDB em péssimos lençóis. Por isso, se aceitar sair candidato, Serra e o PSDB irão para o tudo ou nada, e a vitória será uma questão de honra - e de sobrevivência. Por isso, a campanha que farão promete ser ainda pior e mais deplorável que os piores momentos vividos na disputa presidencial de 2010, principalmente se considerarmos o segundo turno. Serra não pensará duas vezes para bater forte e abaixo da linha da cintura, esparramando, de forma truculenta, seu rosário de baixarias e de barbaridades obscurantistas.  

Já o ex-presidente Lula deve ter ficado irritado com a turbulência repentina, em um céu que, na análise lulista, se anunciava de brigadeiro. A entrada de Serra na campanha, se confirmada, bloqueará uma aliança que foi fortemente alimentada e desejada pelo senhor de todas as ações no PT. Kassab, aliás, parece ter dado no petista aquilo que em futebol chamamos de nó tático. Em outras palavras, flertou, prometeu, estendeu a mão, namorou e finalmente deixou o noivo aturdido e agoniado no altar, abandonado, para voltar correndo para os braços do eterno amado (aqui, vale a pena ler o texto de Raphael Tsavkko).

O problema, penso, é que o estrago já está feito - e parece ser de proporções para lá de consideráveis: Marta Suplicy, que tem fortes raízes e ótima avaliação nas periferias paulistanas, é uma liderança política cada vez mais distante da candidatura Haddad; a possibilidade de aliança com o atual prefeito trouxe novamente à tona as fraturas do PT, e as peças podem não se colar a tempo de uma disputa que promete ser cascuda; o pouco da militância histórica que ainda resta (líderes comunitários, movimentos sociais, intelectuais) está cada vez mais desanimada e desconfiada; o PT corre o risco de seguir quase sozinho (antigos parceiros e aliados nacionais, como PDT e PSB, negociam com os tucanos em São Paulo); por fim, o PT acaba perdendo também o fôlego do discurso de oposição à administração demo-tucana de Kassab. Na primeira crítica ao atual prefeito, durante a campanha, bastará exibir na televisão aquele telão com a imagem trágica de Kassab acenando para os líderes e militância petistas, no evento de comemoração do aniversário dos 32 anos do partido. Xeque-mate. Que lástima...

A questão é que, para Lula, tornou-se também uma obsessão desalojar os tucanos do último bastião político que lhes resta. Não se assustem se o PT topar e mergulhar no jogo sujo e abandonar o debate político para investir numa cruzada santa e messiânica de tudo ou nada. A aproximação com líderes evangélicos de correntes religiosas para lá de conservadoras dá bem o tom da premissa sugerida por Lula e abraçada pelo PT - é preciso derrotar o PSDB em São Paulo, a qualquer custo.

No embate eleitoral (não necessariamente político) daqueles que estão ideologicamente cada dia mais próximos e parecidos, pode não sobrar pedra sobre pedra nos dois quartéis generais. Quem vai agradecer é Gabriel Chalita, o moço de fala mansa, autor de best sellers, cheio de idéias para a Educação, que exala religiosidade e guarda sorriso sedutor no rosto. Ele observa em silêncio o cenário que se anuncia. E comemora. Ainda que, em meio a destroços, Haddad e Serra cheguem ao segundo turno, Chalita tem plena consciência de que terá papel fundamental e protagonista na disputa, com cacife para quem sabe definir os rumos finais da eleição. Saberá certamente negociar esse apoio. Se chegar ao segundo turno para enfrentar Haddad, terá o apoio de Serra - e vice-versa. Em qualquer dos cenários, partirá como favorito.

E a cidade de São Paulo, que passou os últimos sete anos sob a batuta higienista demo-tucana de Kassab, poderá cair nas mãos daquele que sem pudores mistura política com religião e auto-ajuda, transformando debate em pregação. E que, eticamente, já declarou que não vê problemas em ter aproveitado (quase na íntegra) a dissertação de mestrado que fez na área de Ciências Sociais para produzir outra dissertação de mestrado, desta feita no curso de Direito. O que interessava mesmo era conseguir a dupla titulação, mesmo que com apenas um trabalho acadêmico original. Vale tudo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

CONSEGUEM OS PETISTAS EXPLICAR A ALIANÇA COM KASSAB?

Foto - Agência Estado (dezembro 2011)
O trator passou primeiro por cima da pré-candidatura da ex-prefeita Marta Suplicy, que desejava disputar a indicação do Partido dos Trabalhadores para novamente concorrer à administração municipal paulistana. Não cabe aqui discutir se ela seria efetivamente a escolha mais adequada, se teria densidade e viabilidade eleitorais, se representaria um projeto político capaz de promover certo renascer da cidade, depois de oito anos de demo-tucanismo-kassabismo.

O fato é que Marta tinha o legítimo direito de pleitear a vaga; e o PT tinha o dever de promover prévias para definir seu candidato à Prefeitura de São Paulo, consagrando uma prática historicamente defendida e respeitada em tantas outras situações pelo partido, justamente como exercício de um mecanismo que é tido politicamente como sinônimo de vida partidária oxigenada e democrática. Foi também essa mesma dinâmica de embate e debate internos uma das principais responsáveis, em eras remotas, por abrir espaço para que segmentos importantes da sociedade e da cidade, incluindo periferias e movimentos sociais, pudessem participar de forma mais viva e pulsante da definição não só do candidato, mas da construção de projeto político coletivo e de bandeiras de luta que posteriormente seriam defendidas publicamente durante a campanha. Era um PT que se definia como de massas e popular. 

Foi-se o tempo. O PT preferiu sucumbir às benesses do poder e aos ditames do lulismo e aceitou, submisso, praticamente em silêncio e cabisbaixo, sem resistência, tal qual alguém que apenas reage mecanicamente para cumprir ordens, que o ex-presidente Lula falasse grosso, apontasse o dedo e resolvesse sozinho: "o candidato será o ex-ministro Fernando Haddad".

Nas últimas semanas, o trator político se movimenta perigosamente, de forma ardilosa e com voracidade para consagrar mais uma ação política devastadora: o ex-presidente da República determinou que o PT considere seriamente a possibilidade de aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab, que teria a prerrogativa de indicar o candidato a vice na chapa de Haddad. Petistas e kassabistas se juntariam para derrotar os "adversários" do PSDB (que, pelos sinais emitidos até agora, não terá José Serra como candidato. Mas...). 

A "sugestão" do grande líder se transformou rapidamente em possibilidade concreta. Declarações dadas por importantes lideranças regionais do PT e publicadas pela grande mídia nos últimos dias são de arrepiar. O vereador Francisco Chagas afirmou que "nosso diálogo com Kassab não é artificial, irreal ou fora de contexto. O PT não pode mais ser um partido sectário". O também vereador Senival Moura completou: "Se há esse entendimento por parte do ex-presidente Lula, que tem uma visão muito ampla da política, e ele acha que isso é bom para o PT, não tem motivos para os vereadores se posicionarem contrariamente". Arselino Tatto foi taxativo: "Se o Lula é favorável, eu sou favorável. A opinião dele dentro do partido é muito forte. Para ganhar dos tucanos, temos que fazer todos os esforços. Apoio não se recusa".  Tudo isso sem contar os elogios rasgados feitos pela presidenta Dilma Rousseff ao prefeito Kassab em evento realizado durante o aniversário da cidade ("é um político agregador, capaz de unir pessoas diferenciadas"), 

Logo se vê que o lulismo transformou-se em fenômeno muito maior e mais relevante que o petismo - e o primeiro acaba por emparedar e engolir o segundo. O que resta é a vontade pessoal de uma liderança que tem e fez história, reconhecidamente, mas que passa a ser vista como infalível, inquestionável, pairando acima do bem e do mal, num messianismo tão nefasto quanto despolitizante. Diante da figura de Lula, todos se ajoelham, ninguém questiona, somem alternativas, críticas ou divergências. Fica apenas a obediência cega. Se o chefe mandou... Voto - ou aliança - de cabresto. Coronelismo partidário, se preferirem. Saudades de um PT que ficou perdido em algum lugar do passado.

As vantagens que Kassab pode alcançar com a possível (seria arriscado dizer provável?) aliança são evidentes: gratidão do governo federal (que pode se reverter em verbas e cargos públicos), verniz político de esquerda, vitamina eleitoral para interferir na disputa municipal deste ano como protagonista, além de já se posicionar bem em relação à sucessão estadual, em um possível enfrentamento com a candidatura à reeleição de Geraldo Alckmin, em 2014, quando poderá cobrar a fatura e exigir apoio do PT (ainda que seja em eventual segundo turno).


E o PT? Será que tem mesmo algo a ganhar? Vai correr o risco de ver sangrar e sacrificar votos que são identificados com o que ainda resta da história do partido, como os que se originam de setores da periferia e da intelectualidade? Será que as lideranças petistas que defendem a aliança estão mesmo convencidas de que conquistarão por simples atração os votos das classes médias conservadoras de São Paulo, que mantêm a ojeriza ao partido, por conta daquilo que ele já representou um dia? 

E, ainda que a vitória eleitoral venha, terá valido a pena, politicamente, a longo prazo, se mancomunar com as ações higienistas de Kassab, a demonização dos movimentos sociais, a militarização das subprefeituras, a especulação imobiliária, o abandono do transporte público, o sucateamento da saúde e da educação, a perseguição aos moradores de rua? Aliás, defenderá o PT em campanha todas essas práticas tipicamente kassabistas? Vai se sujeitar a aparecer na TV chancelando a truculência da Polícia Militar na Cracolândia, por exemplo? Mesmo que a prefeitura seja reconquistada, terá valido a pena ter oferecido lastro político e ter feito aliança com aquele que por sua vez não cansa de se anunciar como aliado de primeira hora de José Serra, um obcecado pela Presidência da República? 

Gostaria muito que o silêncio quase absoluto (sim, é preciso reconhecer, vozes pontuais e isoladas, quase heróicas, têm manifestado estranhamento e oposição à aliança) fosse rompido e que os petistas - e tenho ainda amigos, a quem respeito, no partido - estivessem dispostos a debater publicamente todas essas questões. Gostaria muito de ouvi-los contestar a aliança com Kassab. Sem medo do lulismo. 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

POR QUE DETONAR O ENEM?

Há cheiro de fritura ministerial no ar. A grande mídia limpinha, sem esconder sorrisos marotos de felicidade, anda sorrateiramente anunciando que, por conta dos problemas recentes ocorridos com o Enem (o Exame Nacional de Ensino Médio), mais especificamente com o Sistema de Seleção Unificado, o  Sisu (situações como pontuação zerada de candidatos, dificuldades para acessar o sistema, exposição indevida de informações sobre notas de estudantes), o ministro da Educação, Fernando Haddad, estaria sendo observado de muito perto pela presidenta Dilma Rousseff. Tradução (se é que é necessária): Haddad estaria na marca do pênalti, com os dias contados, podendo ser muito em breve demitido do governo.

A saída de Haddad representaria uma vitória política estratégica importante para os jornalões e companhia que, como já procurei discutir em outro post do blog, fazem o papel de oposição no Brasil. O atual titular da pasta da Educação, afinal, foi bancado pelo ex-presidente Lula. Investir na queda do ministro significaria matar dois coelhos com uma cajadada só: atingir duramente uma das áreas prioritárias do governo Dilma, que vem, desde antes da posse, recebendo atenção especial da presidenta, além de “reforçar” (sempre segundo a versão midiática que se pretende construir) a incompetência de Lula na escolha de seus auxiliares próximos e a “herança maldita” que teria deixado para a sucessora. Eis o efeito dominó midiático: atingir o Enem para derrubar Haddad, chamuscando Dilma e queimando Lula.

Não será de se estranhar também se tal queda estiver sendo sutilmente estimulada, nas catacumbas do poder, pelo “fogo amigo”, pelas disputas intestinas do próprio PT. Haddad, afinal, é invariavelmente lembrado e citado como possível candidato do partido à eleição municipal de 2012, na capital paulista. Seria uma forma de o PT, com sangue novo e renovado, tentar recuperar a administração da maior cidade do país, que já governou por duas vezes (com Luiza Erundina, entre 1989 e 1992, e com Marta Suplicy, entre 2001 e 2004).

Não menos importante, é preciso dizer com todas as letras que poderosos grupos privados têm agido sistematicamente, muitas vezes na surdina, com intuito de não deixar muitas marcas ou pistas, para minar o Enem, que mexeu com gente graúda. Por isso mesmo, assumiu a condição de uma importante vitrine (e vidraça) do governo federal. Penso ter sido positivo que o exame tenha se transformado em processo seletivo para as universidades públicas federais. Até então, a rede atuava com vestibulares dispersos e fragmentados, desconectados.

Foi avanço também a prova passar a valorizar conteúdos críticos, reflexivos e interdisciplinares, o raciocínio, e não mais decorebas. Pois é justamente aí que o bicho pega novamente e que entra o desconforto dos cursinhos pré-vestibulares: musiquinhas fáceis e apostilas têm agora pouca serventia. O mesmo vale para o ensino médio privado, que não raro, e salvo honrosas exceções (generalizações são sempre injustas), preocupa-se apenas em “preparar” (melhor seria dizer adestrar) os alunos para responder questões dos vestibulares, em uma proposta pedagógica muito distante da formação crítica e cidadã que deveria ser garantida aos jovens. No ensino médio, a imensa maioria das escolas formata projetos, grades e conteúdos, trabalha com conteúdos apostilados e pasteurizados, para garantir sucesso nos exames - e depois as instituições fazem marketing dos feitos, quando alcançados.

Como reforça o sociólogo Rudá Ricci, em texto publicado pela Agência Carta Maior em novembro do ano passado, o novo cenário incomodou. “Existe uma movimentação para politizar o tema. Vamos ter o avanço de uma oposição organizada, que junta as forças políticas que perderam a eleição nacional com escolas particulares e com cursinhos que têm muito interesse na manutenção do sistema de vestibular”.

O neurocientista Miguel Nicolelis, que conhece a fundo o Standart Admissions Test (SAT), exame norte-americano com o qual o Enem guarda muitas semelhanças, disse em entrevista publicada pelo blog Viomundo, também em novembro passado, que “o vestibular transformava o colegial numa câmara de tortura. Uma pressão insuportável. Um  inferno tanto para os meninos e meninas quanto para as famílias. Além disso,  um sistema humilhante, porque as pessoas que não podiam frequentar um colégio privado de alto nível sofriam com o complexo de não poder competir em pé de igualdade. Por isso os cursinhos floresceram e fizeram a riqueza de tanta gente, que agora está metendo o pau no Enem. Evidentemente  vários interesses estão sendo contrariados devido ao êxito do Enem.”

Tudo isso, no entanto, não isenta o governo federal de erros (e alguns foram graves mesmo) no gerenciamento do processo. Em 2009, as provas foram "vazadas", ainda na gráfica; no ano passado, foi uma grande bobagem impor aos estudantes condições estapafúrdias (não usar lápis!), no momento da realização do exame. Ajudou a criar animosidades. Questionários repetidos e cabeçalhos trocados não são erros aceitáveis em uma proposta pedagógica dessa magnitude e com essa importância. Da mesma forma, não cabem vazamentos de informações sigilosas dos estudantes, dificuldades de acesso, sistema lento, notas erradas, transtornos recentemente enfrentados pelos alunos que participaram do exame.

É preciso aceitar que o Enem cresceu – é muito difícil uma prova para quase cinco milhões de pessoas não comportar algum tipo de desvio. Por isso, torna-se urgente quem sabe pensar em avaliações periódicas de menor alcance, distribuídas ao longo do ano, em datas diferentes. Também seria razoável aplicar o exame de forma regionalizada e descentralizada. O procedimento ainda abriria espaço para avaliações mais sintonizadas com as especificidades regionais, sem perder noção de conjunto. O Enem, tal como está formatado, representa uma conquista, um grande avanço para a educação brasileira.

Ciente dessa conjuntura, Nicolelis destaca, na mesma entrevista já citada, que “o Brasil está tentando iniciar esse processo. Quando você inicia um processo dessa magnitude, com milhões fazendo exame,  é normal ter problemas operacionais de percurso. Isso faz parte do processo”. E o neurocientista candidatíssimo ao Nobel completa: “estamos caminhando para o Enem ser a moeda de troca da inclusão educacional. As crianças vão aprender que não é porque elas fazem cursinho famoso da Avenida Paulista que elas vão ter mais chance de entrar na universidade. Elas vão entrar na universidade pelo que elas acumularam de conhecimento ao longo da vida acadêmica delas. Elas vão poder demonstrar esse conhecimento sem estresse, sem medo, sem complexo de inferioridade. De uma maneira democrática. E, num futuro próximo, tanto as crianças de escolas privadas quanto as  de escolas públicas vão começar a entrar nesse jogo  em pé de igualdade”.

Sim, o Enem precisa ser debatido publicamente, criticado, melhorado, aperfeiçoado. Mas jamais abandonado, detonado, desqualificado  ou desconstruído. “A sucessão de problemas relacionados à aplicação do Enem tem gerado reações acaloradas. É compreensível que seja assim, especialmente entre alunos que se veem prejudicados com falhas tanto na organização quanto no conteúdo de provas. São erros que obviamente exigem correção. No entanto, o calor dos protestos não deveria ofuscar a lógica por trás do novo Enem, uma iniciativa de mérito, que pode trazer numerosos benefícios, uma vez superados problemas iniciais, muito deles relacionados a questões de logística”, escreveu na Folha de São Paulo Jorge Werthein, doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA). Para ele, "a lógica do Enem faz sentido, pois se fundamenta em uma nova visão educacional, mais compatível com o século XXI". 

Feitas as contas, é preciso muita atenção e cautela nesse debate, para não aceitar a sedução de cantos de sereias, e disposição firme para defender o Enem. Afinal, como se viu, o exame incomoda gente graúda – e essas forças não são tão ocultas assim.