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segunda-feira, 21 de março de 2016

LIÇÕES DE HISTÓRIA

Eu confesso, amiga História: odiava suas aulas quando tinha 12, 13 anos e estava no ginásio, ditadura civil-militar agonizando e dando seus últimos suspiros. Eram um saco, agonia sem fim. Decoreba pura. O professor entrava em sala e, sem nem bem dar ‘bom dia’, virava as costas para a turma e massacrava a matéria na lousa, na forma de perguntas e respostas. ‘Quais as principais características da Idade Média?’. ‘Por que o Brasil foi dividido em capitanias hereditárias?’. Ele mesmo escrevia as respostas. Nossa tarefa? Copiar, copiar e só copiar, com todas as vírgulas e os dedões nos inícios de linhas para marcar os espaços de parágrafos. Todas as aulas eram assim. Cinquenta minutos insuportáveis, a gente torcendo para o relógio andar muito mais rápido e o sinal tocar logo. Compreende meu sofrimento? Nada fazia sentido. Não havia significados. Ao final do bimestre, no dia da prova, ele pegava o caderno de um bom aluno ou aluna, completo e caprichado, escolhia dez das perguntas anotadas e as ditava, determinando inclusive a quantidade de linhas que deveríamos deixar entre uma e outra. Exigia que respondêssemos da mesmíssima maneira como ele havia apresentado na lousa. Tarefa mecânica e instrumental. Sempre tive boa memória, tirava notas boas. Mas era só isso. Uma porcaria, pura perda de tempo.
No colegial, no entanto, querida História, nossa relação transformou-se em paixão arrebatadora. Tomei um susto logo na primeira aula. Era outro colégio, outro professor. Mas eu já tinha sido adestrado. No primeiro encontro, fiquei esperando nova coleção de perguntas e respostas. Estava preparado para simplesmente copiá-las. O professor, no entanto, fez pouquíssimos e pontuais registros na lousa. E começou a falar, com eloquência e organização de ideias invejáveis, combinando conceitos com exemplos. Uma delícia estonteante. E agora? Como anotar tudo isso? Personagens, datas, antecedentes, contextos, consequências, relações – tudo ganhava sentido, nos transportava para o palco dos acontecimentos. Fui escravo romano, servo na Idade Média, revolucionário na França, negro nos quilombos do Brasil, mulher lutando pelo voto, operário grevista do início do século XX, militante contra a ditadura de 1964… Saía das aulas viajando em relação a tudo o que havia sido dito. Comecei a pesquisar, fazer outras leituras. O mestre – era isso que ele era – exigia que fizéssemos seminários. Em nossas falas, nos bombardeava com inteligentes e certeiras perguntas, problematizando e nos tirando da zona de conforto. Apresentava múltiplas versões e interpretações sobre um mesmo episódio. Decoreba zero. As provas eram reflexivas, dissertativas. Numa delas, lembro-me com precisão, escrevi empolgadamente e sem parar seis páginas sobre a Revolução Francesa. Fui o último a deixar a sala, no limite máximo do prazo para entregar a avaliação. Seis páginas… não sei se o professor me xingou ao ser obrigado a ler tudo aquilo (éramos 60 alunos na turma, trabalhão danado). Ele sempre foi para mim querida referência e inspiração.
Desde então, sou só ouvido e amores para e por você, companheira História. É você quem me ajuda a entender esse mundão cada vez mais maluco em que nos metemos. Nos últimos tempos, ando lendo e relendo bastante sobre intolerâncias, perseguições, fascismo, golpes, democracia. Depois dos estranhamentos iniciais, nossa relação é agora pautada por encantamentos (alguns estranhamentos também, o que é sempre bom) e tornou-se estável. Como diz um grande amigo, casei com você. Não me venha, portanto, com crises de consciência, arroubos, espasmos ou mimimis de retrocessos. Para a frente é que andamos, sem farsas nem tragédias. Não há espaço para aventuras. Com você aprendi que o ditador mais perigoso é aquele dissimulado sedutor com carinha de bom moço que bate no peito para dizer ‘sou democrata’. Seus livros também me ensinaram que qualquer democracia, por mais imperfeita que seja, é sempre melhor que qualquer ditadura, de qualquer natureza (militar, midiática, jurídica). Há uma velha roupa enlutada e com cheiro de naftalina a vagar por aí e que não nos serve mais. Não custa lembrar o que está escrito no artigo primeiro da nossa Constituição, documento cidadão fundamental da História recente do país: ‘A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; o pluralismo político’.
Cumpra-se.
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Também disponível em http://ciencianarua.net/licoes-de-historia/

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

SEGREDOS

Há os literários, deliciosamente inventados pelas imaginações dos ficcionistas, como aquele que Capitu tentava esconder de Bentinho em “Dom Casmurro” – ou que um ciumento e paranoico Bentinho achava que a esposa mantinha guardado a sete vezes sete chaves.

Os econômicos e os políticos nem sempre são pautados por belezas ou honestidades. O mercado financeiro não raro funciona impulsionado pelo vazamento de informações privilegiadas e sigilosas; disputas partidárias são muitas vezes travadas por meio de dossiês confidenciais que desembarcam em redações jornalísticas, rapidamente alcançando o espaço público, sem as devidas checagens ou apurações.

Ocupações e manobras militares não existem sem códigos secretos e pesadíssimos jogos de simulações e de contrainformações. Várias foram as pistas falsas e os blefes propositalmente espalhados pelos Aliados antes do desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944, o chamado “Dia D”.

Existem também os inaceitáveis. Em nome da justiça, da memória e da verdade, arquivos da ditadura civil-militar brasileira deveriam ter sido abertos à sociedade há muito tempo. Segredos indecentes.

Pai, por favor, é coisa nossa, só nossa, não conta para ninguém. Nem para a mamãe. Pode confiar, filho. Ninguém vai saber. São os segredos embriagados de afetos e carinhos, profundas confianças. São comuns ainda aqueles que nos colocam em inesquecíveis roubadas, aquela bobagem na balada, por exemplo, nota baixa numa prova escondida dos pais. Não conta, não conta. Se você contar a minha, conto a sua! Quem nunca?

Quando eu era moleque, morria de vontade de descobrir ao menos alguns dos segredos secretíssimos que as meninas escondiam naqueles diários misteriosos, escritos em linguagens cifradas e malocados no fundo da gaveta mais protegida, com cadeado, só acessíveis às melhores amigas.

Cuidado com aquela sua pauta fantástica, caro repórter. Algum aventureiro inescrupuloso pode te ouvir e, num acesso de empolgação, decidir lançar mão da matéria, como se fosse dele. Guarde segredo. Revele a ideia no momento oportuno.

Tenebrosas transações envolvendo boleiros graúdos, rabiscadas por atmosferas de mistérios e cortinas de desconfianças, são cada vez mais frequentes. Segredos que, quando vêm à tona, desnudam negócios detestáveis e cheiros desagradáveis. Dentro de campo, os mágicos Messi e Neymar nos encantaram recentemente com um segredo provavelmente combinado nas madrugadas de concentração – o pênalti batido em dois toques, na goleada contra o Celta. Esperto e ligeiro, Suárez deve ter ouvido os cochichos trocados entre o argentino e o brasileiro. Atravessou a frente de Neymar (que deveria concluir a jogada, de acordo com o roteiro original) como um raio e mandou a bola para as redes.

Imaginem agora o que é guardar um dos mais importantes segredos da história da ciência durante quatro meses. Ser obrigado a fingir que não é com você, fazer cara de paisagem, tocar normalmente a rotina de trabalho, dizer (e tentar ser convincente) ‘ainda não sei, estamos analisando os dados’ quando perguntado diretamente sobre o assunto...
Coceira na língua. Atenção e cuidado redobrados para não abrir a guarda e, num instante de papo mais informal, amigos reunidos numa mesa de bar, deixar escapar a novidade e colocar tudo a perder. Ceia de Natal, festa de Ano Novo... e você lá, quietinho, resistindo heroicamente.

Não vale nem falar durante o sono, rolando na cama com o calor insuportável, sonhos e pesadelos. Vai que balbucia ‘ondas... ondas...’. E alguém escuta. Cobra a fatura no dia seguinte. ‘Eu disse isso? Que viagem. Não pira. Dormi como uma pedra. Acho que foi você quem sonhou’.

Nos últimos longuíssimos 120 dias (arredondando), foi essa a sofrida rotina do físico brasileiro Odylio Aguiar, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que fez parte do grupo internacional que confirmou, no início de fevereiro, as ondas gravitacionais que já tinham sido previstas há cem anos pelo gênio Albert Einstein.

A vontade confessa era berrar ‘descobrimos! Elas existem!’ a plenos pulmões e para todo mundo ouvir em setembro do ano passado, quando os registros de ondas geradas pela fusão de dois enormes buracos negros foram finalmente anotados pelos detectores do Observatório da Interferometria a Laser de Ondas Gravitacionais (LIGO), instalados nos estados da Louisiana e de Washington.

A fantástica descoberta, no entanto, precisou virar segredo, tão duramente guardado durante esses meses, para evitar novas decepções. Alarmes falsos e suspeitas depois não confirmadas sobre as ondas gravitacionais tinham sido anunciadas outras duas vezes pela comunidade científica internacional.

A angústia passou. Já era. Pode comemorar. O trabalho foi publicado. Agora finalmente transformada em informação que pertence à sociedade planetária, a novidade não mais secreta promete revolucionar a Física e o conhecimento que temos sobre o Universo. É a ciência que saborosamente se move no aconchego dos embalos de segredos.


E, cá entre nós, por favor, não contem para ninguém, não espalhem... segredo nosso... quem garante que o Odylio não guarda com ele novos segredos sobre estrelas, buracos negros, supernovas, matéria escura, antimatéria e ondas gravitacionais? ‘Calma, calma. Muita calma nessa hora. Só estamos analisando os dados’.


Originalmente publicado em http://ciencianarua.net/segredos/