segunda-feira, 10 de julho de 2017

NOSSA QUERIDA SENHORITA SANTIAGO






Senhorita Santiago, é muito bom poder finalmente te conhecer. O desejo era antigo, você bem sabe. Andamos flertando já faz alguns anos. A grana, no entanto, nunca era suficiente. O investimento é razoável. Justo, não discuto. Você merece. Moçoila de muitos atrativos, múltiplas vozes e experiências. Até que, em janeiro último, sem mais delongas, ufa, conseguimos marcar o encontro. De lá para cá, nossos contatos foram muitos, todos virtuais. Investi algumas horas fazendo buscas mil. Conversei com outros tantos apaixonados por você, dona de muitos corações, acredite. Montei um roteiro que, imagino, talvez seja capaz de alcançar um tiquito de sua alma e de conhecer suas tantas ricas histórias. Tomara que seja assim. Ainda não consegui avistar um de seus principais e mais fascinantes encantos. Só senti. Passamos por cima dela, já no final da viagem. Fiz questão de acompanhar no mapa de bordo. Subiu aquele arrepio pela espinha, emoção meio adolescente, como se fosse o primeiro beijo. Minhas mãos ficaram suadas. O piloto fez questão de anunciar: 'senhores passageiros, estamos sobrevoando a Cordilheira dos Andes'. O breu da noite manteve o mistério. Quase sete horas, o relógio marcava. Sessenta graus negativos do lado de fora. Nada do branco da neve no topo das montanhas. Só a escuridão. A imagem que ainda carrego e consigo desenhar é a dos livros de Geografia, primário, ginásio, colegial, vestibular. A trombada das placas tectônicas em tempos remotos deve mesmo ter sido violentíssima. Um estrondo. Fez subir uma das mais imponentes cadeias montanhosas do planeta. O Aconcágua tem quase sete mil metros. Pude avistá-lo no mapa. Voávamos a dez mil metros de altitude. Só três quilômetros a mais. Um pouquinho mais baixo, dava para fazer um afago, um carinho. De leve. Respeitoso. Por enquanto, melhor manter distância. Mais seguro, ainda mais para um pretendente tolo, que morre de medo de avião. Amanhã, pés no chão, vamos nos conhecer pessoalmente. Não vejo a hora. Estou preparando o coração. O domingo, aliás, promete fortes emoções, senhorita Santiago. Por aqui, em terras santiaguenses, só se fala na melhor Seleção chilena de todos os tempos. A disputa da final da Copa das Confederações é contra a Alemanha. Bandeiras enfeitam a cidade. Camisas vermelhas circulam por todos os cantos, orgulhosas. Se me permite, marcamos de ver a decisão na Bellavista, seu bairro boêmio. Vamos torcer junto com os hermanos chilenos. El asilo contra la opresión. Se tudo der certo, a festa será ali mesmo, na Praça Itália, onde acontecem as grandes comemorações da cidade. Se a primeira impressão é que fica e vale, estamos definitivamente enamorados. Tens avenidas grandes. Ruas estreitas. Calçadões. Terminais de ônibus cheios. Gente circulando. Uma estação de metrô em cada esquina. Aos pouquinhos, você se revela, formosa e sedutora. Conhecer é um processo lento de descobertas. Eu sei, você tem razão, eu já devia ter virado a chavinha e desligado os neurônios verdes e amarelos, para pensar só em você. Não me leve a mal. Na ressaca da greve que teria sido e que não foi, fico cá matutando o que vai acontecer no Brasil nessa próxima semana. Os portais me contam que Eduardo Cunha resolveu delatar. Sei não. Assusta a apatia em que mergulhamos. Na esquina do hotel, friozinho delicioso de nove graus, o vento batendo no rosto, um jovem músico toca "Nothing else matters", do Metallica, no violão. Versão acústica. Esqueça os problemas. So close, no matter how far. Tão perto, tão longe. No mercadinho ainda aberto, Luiza e Daniel acharam um chocolate chamado Golpe. Compramos. O golpe. Tão perto, tão longe.

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Nem bem tínhamos colocado os pés fora da agência de viagens, encontro marcado com senhorita Santiago, arrisquei a profecia: o Chile estará na final da Copa das Confederações. Nós vamos ver a festa da torcida chilena. Foi ainda no começo do ano. A primeira parte da previsão feita por Pai Chico de Ogum se confirmou. Sobre a segunda, os búzios não consideraram que haveria – de novo – uma Alemanha no meio do meu caminho. Também não contavam com um zagueiro que resolveria sair driblando na frente dos atacantes alemães.
Desde ontem, quando por aqui desembarcamos, os chilenos avisavam: atenção, cuidado, programem-se, será um domingo especial. Não apenas pelo jogo, mas também pelas eleições primárias para definir candidatos a Presidente e deputados. Frente Ampla – à esquerda – e Chile Vamos – à direita – foram às urnas para escolher quem irá representá-los na disputa final de novembro, quando será eleito o sucessor de Michelle Bachelet. Comércio fechado. Ruas quase desertas. Sol, céu azul e frio. Santiago espreguiçava e demorava a acordar. Apatia e desencanto com a política. Havia o temor de um índice de abstenção recorde no pleito. O voto é facultativo. Além disso, nesse domingo, 2 de julho, nada nem ninguém seria capaz de concorrer com Claudio Bravo, Alexis Sanchez e, principalmente, com o rei Arturo Vidal. Os heróis do Chile, estampados em todas as capas de jornais com muito mais destaque que as primárias, entrariam em campo em São Petersburgo. Só La Roja salva e encanta.
Caminhando pela avenida Providência com a camisa do Chile, fui parado e entrevistado pelo repórter do portal Los 40, que já começava a medir a temperatura das ruas. ‘O Chile nos representa’. Cantamos juntos o tradicionalíssimo “Chi-chi-chi, le-le-le. Viva Chile!”, que embala e empurra a Seleção. Bandeiras nas fachadas dos prédios. Ônibus buzinando. O vermelho ditando moda na elegante senhorita Santiago. Passamos por uma feira livre. Entre barracas de peixes, frutas, verduras e temperos, ela apareceu e se apresentou. Foi de surpresa, sem aviso prévio. Um susto delicioso. Estava lá, no horizonte, brancura cristalina no topo. Belíssima. Formosa. Imponente. Poderosa. De uma força única, extraordinária. Reverbera no peito e na alma. Quem sou eu, diante da natureza? Muito prazer, Cordilheira dos Andes. Agora não somos mais amigos apenas dos livros de Geografia.
Na praça Itália, entrada do bairro Bellavista, endereço registrado das comemorações boleiras chilenas, senhorita Santiago pulsava em frequência aceleradíssima. As camisas vermelhas chegavam de todos os cantos, animadas e otimistas. Difícil mesmo foi conseguir encontrar um lugar para ver o jogo. No domingo especial, quase tudo fechado mesmo. Encontramos um boteco perdido e esquecido numa das ruas transversais. Nem perguntamos qual era o cardápio, o prato do dia, os preços. ‘Tem televisão?’. A recepcionista sorriu. Apontou. O aparelho já estava ligado na final. Sorte de viajantes, conseguimos uma mesinha no setor dos camarotes, visão privilegiada. Dez minutos depois, o boteco-arquibancada já tinha sido tomado pela torcida. Abarrotado. Na geral, tinha gente se acotovelando, em pé.
O el asilo contra la opresión foi lindamente cantado de olhos fechados, a plenos pulmões, em fraterna sintonia de agudos e graves com os jogadores enfileirados na arena de São Petersburgo. Ao sinal do chefe da torcida, o ‘Chi-chi-chi, le-le-le’ ecoou pela Praça. É de arrepiar a relação deles com La Roja. Tocante. Os primeiros vinte e cinco minutos foram de gritos empolgados. O Chile encurralou a Alemanha. Perdeu ao menos duas boas chances de gol. Parecia que profecia se realizaria, por completo. O narrador chileno torcia mais que Galvão Bueno. ‘Vamos, vamos. Chile. Esta tarde tenemos que ganhar. Jugar sin miedo!’. O garçom parou de servir. O senhor da mesa ao lado não mexia um músculo do rosto. A mocinha na outra ponta repetia ‘mierda, mierda, mierda’. Sem parar. Devia ser mandinga. Um garotão cheio de energia soprava a vuvuzela a cada ataque chileno.
Silêncio. Gol da Alemanha. Meu zagueiro, não se dribla desse jeito na defesa. Ainda mais contra os campeões do mundo. O jogo mudou. Os alemães encorparam. Os chilenos sentiram. O humor da torcida mudou. Resmungos. ‘No, no, no, no’. Um senhor enrolava e desenrolava a barba branca. O garçom ameaçou mudar de canal, talvez achando que aquele sintonizado estivesse zicado. Quase apanhou. Num dos tantos cruzamentos na área tentados – e errados – pelos jogadores chilenos, Daniel não aguentou. ‘Caramba, não acerta um! Parece o Copete!’. Um rapaz com a bandeira chilena nas costas assistiu aos últimos cinco minutos ajoelhado na cadeira, mãos na cabeça, ‘vamos, vamos, vamos’, entendendo aos poucos que não ia dar. Quando o atacante Sagal isolou a pelota, de frente para o gol, sem goleiro, e mandou o balão em Moscou, a Praça Itália tremeu em desespero. Não dava mais. Cem anos depois, na São Petersburgo que fez explodir a revolução, o exército branco derrotou o exército vermelho. Em silêncio, foram todos pedindo a conta, deixando o boteco. Cinco minutos depois, as gerais e arquibancadas estavam vazias.
Imaginei que a senhorita Santiago fosse anoitecer no mesmo silêncio, agora triste e melancólico, do início da manhã. Errei de novo. Melhor abandonar a curta vida de profeta. A festa prometida – e que a gente tanto queria ver - explodiu bonita e viva no monumento da Praça. Bandeiras, pulos, cornetas, cantorias. Uma gente feliz. Buzinaço. ‘El asilo contra la opresión’ foi mais uma vez entoado, afinado, voz única, com todos os sustenidos e falsetes. ‘Sabemos que estamos fazendo história. Gracias, La Roja. Por tudo’. Também agradeço. Experiência inesquecível. Quem foi que disse que é só futebol?
Ainda tem carro buzinando na avenida do hotel.

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Nas manhãs de inverno, quando logo cedinho é obrigada a abandonar os cobertores e a cama quentinha para se preparar para a escola, minha sobrinha e afilhada Maria Carolina resmunga e diz: ‘mãe, não é possível, só mesmo o tio Chico gosta desse frio’. Crianças são incontestavelmente sábias. Lembrei da pequena hoje, seis e meia da matina, quando acordei muito bem disposto, energia e humor nas alturas.
Fazia sete graus em Santiago. A sensação térmica devia ser de uns três, quatro. Vento polar de não deixar sentir as pontas dos dedos, das orelhas e do nariz, garoinha manhosa que ia e vinha. Inocente, perguntei ao Eduardo, guia que nos levaria a Valparaíso e Viña del Mar, cidades litorâneas e mais distantes das montanhas: ´lá as temperaturas são mais amenas?’. Ele sorriu: ‘Não, ainda mais frias, por causa das correntes marítimas’. Não posso mentir para a afilhada: dessa vez, até eu refuguei. Na primeira parada na estrada, loja de uma vinícola (o dono dela é Figueroa, craque e ex-zagueiro do Internacional de Porto Alegre), passei reto pelos vinhos e fui direto comprar mais um casaco. A máxima chegou hoje, no meio da tarde, a treze graus.
Foi quando um quinteto fantástico de turistas brasileiros (três mocinhas, dois rapazes, amigos para sempre) que estavam conosco na excursão resolveu apresentar cartão de visitas e as muito bem educadas e solidárias credenciais. Demoraram para retornar ao ponto de encontro, apesar dos insistentes pedidos do Eduardo para que o horário fosse rigorosamente cumprido, em nome do coletivo. Voltaram com as bolsas, sacolas e mochilas abarrotadas de garrafas de vinhos de todos os tipos e safras, tintos e brancos, suaves e secos, como se não houvesse amanhã.
Até aí, tudo bem. Só que eles resolveram começar a balada e os brindes no ônibus mesmo. Encheram as taças. ‘Saúde!'. Eduardo imediatamente pulou preocupado e fez o alerta: ‘no Chile, a lei não permite que se beba nas estradas. Se a polícia nos parar, seremos todos levados. Por favor, deixem a festa para o restaurante, no almoço’.
Foi a senha para que as agradáveis companhias resolvessem fazer valer a bacanésima máxima ‘se não for do meu jeito, vai ser de jeito nenhum’. Passaram a fazer troça de cada uma e de todas as informações e explicações dadas pelo guia. ‘O que esperar de um país que é só exportador de cobre para a China e nada mais’, desdenhou uma delas. Quando paramos em Viña del Mar para ver um totem original da Ilha de Páscoa – o impressionante e arrebatador Moai Del Ahu -, outra delas não deixou por menos. ‘Sério mesmo que vamos tirar foto com essa macaca?’. Criancinhas mimadas e birrentas, ilustres representantes do egoísmo umbiguista crônico e terminal que mata a humanidade, recusaram-se a descer do ônibus. Continuaram bebendo, ‘escondidas, escondidos’, como se ninguém estivesse vendo.
Na praia, Eduardo recomendou muito cuidado com o mar. A água é gelada, as ondas são fortes e o chão afunda de repente, sorrateiramente, avisou. ‘Não é como as praias do Rio de Janeiro, que você vai indo, vai indo, vai indo, e a água continua na cintura’. Com raiva na voz, a terceira amiga retrucou: ‘é que nós temos uma costa enorme e linda, coisa que vocês não têm’. Civilizado, o guia não respondeu. Apenas olhou firme, como quem dissesse ‘aguarde, vai chegar a hora’.
Demonstração extra e definitiva de maturidade, os bancos dos ônibus usados pelo quinteto durante a viagem foram propositalmente transformados em nojentos chiqueiros. Copos de plástico amassados, sacolas sujas, restos de comida. Quando o motorista deu partida e acelerou, depois da última parada em Valparaiso, ouvimos um estrondo. A senhorita das lindas praias brasileiras deu um berro. Eduardo correu para ver o que tinha acontecido. Uma garrafa de vinho tinha despencado do banco e caído no pé dela, em cheio. Deve ter doído um tanto. Sarcástico e rápido no raciocínio, o guia perguntou se a garrafa tinha quebrado. ‘Não’. ‘Ah, então não tem problema, está tudo bem’. Dane-se seu pé, deve ter pensado. Não consegui segurar a risada. A hora tinha chegado.
Sem bater de frente, a estratégia que, mesmo sem combinar, acabou sendo colocada em prática para que o quinteto não atrapalhasse o passeio foi encher o Eduardo de perguntas e dúvidas, incentivando que falasse. Ele foi dando informações preciosas sobre Geografia, História, Política, Economia e até Jornalismo. Sabe muito. A falação só fez crescer as expressões de irritação das figuras. Assim pudemos aproveitar e curtir a viagem – curta, mas valiosa.
Foi em Viña del Mar, estádio Sausalito, que o Brasil disputou os três jogos da primeira fase e a partida das quartas-de-final da Copa do Mundo de 1962, quando conquistamos o bicampeonato e, por causa da contusão de Pelé, apresentamos ao planeta Amarildo, o Possesso. Já arriscaram encarar uma praia de gorro, cachecol e com vários casacos pesados? Pois foi com essa indumentária bastante adequada que fomos devidamente apresentados às águas geladas do Oceano Pacífico (é a corrente de Humboldt, reforçou nosso guia), marzão que passa agora a ser também mais um amigo querido – e não apenas outra das tantas perguntas que caíam nas provas de Geografia. Caminhamos pela areia fofa, deixamos as marcas dos sapatos, corremos das ondas. Na semana passada, a cidade viveu ressaca das brabas. Ondas enormes invadiram a avenida beira-mar e foram fazendo estragos e deixando um rastro de destruição. Derrubaram postes e palmeiras enormes, quebraram janelas de restaurantes, inundaram casas e lojas, arrancaram placas do calçamento. Brinquei com Elisa: falta agora conhecer o Oceano Índico. Está lançado o desafio.
Valparaíso tem o charme dos costões, das ladeiras super íngremes com as casinhas coloridas, conjunto que forma paisagem que é uma mistura de Pelourinho, na Bahia, com Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A vista para o mar é mesmo exuberante, montanhas e oceano se abraçando fraternamente, lugar de sossego inspirador para os escritos de Pablo Neruda, que tinha uma de suas tantas casas (a acolher diferentes amantes) por lá.
Cena de cinema, roteiro pronto e muito bem acabado de comédia, vivemos ontem, domingo, no boteco em que vimos o jogo do Chile. Menos de dez minutos depois de ter feito o pedido, o garçom, um chileno elétrico e milongueiro, já tinha servido meu prato. Comemorei, serviço rápido e eficiente. Carne com batatas fritas. Daniel roubou uma batatinha, tasquei sal nelas.
Foi quando o garçom veio correndo e, num pinote, sem me dar tempo de reação, pegou o prato de volta, fazendo meia-volta, pedindo desculpas e dizendo ‘não é do senhor, não é do senhor’. Só pude dizer: ‘Já tem sal...’. Ele voltou rapidamente para a cozinha. Fez uma paradinha estratégica por lá, uns três minutinhos. Cara de paisagem, sem nem ficar vermelho, voltou com o mesmo prato, como se estivesse intacto e houvesse acabado de sair do forno, e o deixou na mesa de um rapaz com a camisa do Peñarol do Uruguai. Era o dono, de fato, da iguaria. ‘Está fresquinho, senhor. E a batata já tem um pouquito de sal’. Desejou bom apetite.
O casal ao nosso lado, que tinha acompanhado o roteiro do começo ao fim, caiu na gargalhada. Dei de ombros, sorri junto e disse: ‘então está tudo bem’. E o Oscar de melhor ator da temporada vai para o garçom do boteco!
Sete graus de novo em Santiago. A temperatura deve cair a três durante a madrugada. Boa noite, Maria Carolina. Durma bem quentinha.

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Por conta da presença imponente da Cordilheira dos Andes, que atua como um paredão que impede a dispersão e faz concentrar gases emitidos por carros e fábricas, Santiago sofre com a poluição. Os olhos ardem, coçam. Garganta arranha. A cidade ontem estava em estado de atenção – não era possível circular com carros particulares por várias ruas do Centro. Apenas ônibus tinham autorização para seguir. Agentes uniformizados atordoados tentavam organizar o fuzuê do trânsito, que já é caótico em dias normais e sem restrições. Uma coisa que descobrimos rapidinho é que os chilenos adoram buzinar. Está andando em marcha lenta? Demorou para cruzar o farol? Resolveu mudar de faixa? Parou para dar passagem para um pedestre? Tome mão na buzina! A sinfonia toca alto. Estridente.
A capital sofre também com o clima. Em média, são quinze dias de chuva ao ano, concentrados principalmente no outono. Fomos premiados – sem nenhuma ironia. Acordamos com o barulho da chuva dos Andes batendo nas janelas do quarto. Mais um privilégio oferecido pela natureza. Outra curiosidade: a capital não tem bueiros. Em manhãs como a de hoje, é preciso ter agilidade e jogo de cintura para desviar das enormes poças que se formam nas calçadas. Em alguns trechos, não há como escapar da água. Os pés quase congelam. Companheira chuva foi muito bem-vinda e atrapalhou em nada a programação da fanfarra Marconi Bicudo. Vestimos os casacões impermeáveis, compramos nossos paraguas (também conhecidos como guarda-chuvas) na entrada da estação Leones do metrô e continuamos a desbravar Santiago. Tínhamos um compromisso marcado com a História.
‘No podemos cambiar nuestro passado. Solo nos queda aprender de lo vivido. Esta es nuestra responsabilidad y nuestro desafio’. É essa fala da presidenta (e aqui eles usam presidenta mesmo) Michele Bachelet, gravada num enorme painel transparente, que recebe os visitantes na entrada do Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Num prédio enorme, arquitetura moderna, passando por três pisos, mergulhamos nas histórias dos anos tenebrosos da ditadura chilena. Capas e manchetes de jornais de 1973 anunciam a conspiração, disseminam o medo e preparam o golpe. Com imagens do Palácio La Moneda sendo bombardeado pelas Forças Armadas do país, é possível ouvir, com as bombas e tiros também estourando ao fundo, o último discurso feito pelo presidente Salvador Allende, via rádio Magallanes, quando já estava entrincheirado no gabinete presidencial. Eram nove horas da manhã do dia 11 de setembro de 1973. ‘Colocado em uma transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. Superarão outros homens esse momento cinza e amargo onde a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, se abrirão de novo as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor’.
Nas paredes, nos quadros, nos vídeos, nos áudios, nas fotos, nos equipamentos interativos, a sequência do terror se impõe de maneira implacável. O suicídio de Allende. O golpe. Toque de recolher. Congresso fechado. Centrais sindicais e movimentos estudantis colocados na ilegalidade. Tortura, assassinatos, desaparecimentos. Covas e valas coletivas. O horror. O fascismo sempre à espreita, a sufocar liberdades e sonhos. A força bruta dos tanques e das botas a pisotear ideias e divergências. Estão expostos numa das seções objetos – bolsas, sapatos, quadros, carteiras - feitos por presos políticos, nos centros de detenção.
É acachapante o encontro com cartas e desenhos produzidos por crianças, filhos de militantes de esquerda perseguidos e trucidados pela ditadura. Num deles, um garotinho que, pelo traço, calculo que deveria ter uns sete, oito anos, rabiscou um carro de polícia com sirene acesa - e os pais atrás de grades. ‘Donde están?’, era a pergunta, de uma angústia sufocante. Na mesma folha, o menino registrou: ‘Quero que Pinochet saia. Minha família está com fome. Queremos ser felizes’. Maria Eugênia Paris, filha de Enrique Paris, médico e assessor de Allende que morreu junto com ele na invasão do La Moneda, escreveu uma carta na escola que terminava com tocante e corajosa homenagem. ‘Meu pai foi um valente camarada do Partido Comunista que morreu com Allende pelo povo do Chile’. Meus olhos ficaram cheios d´água. É humanamente impossível passar pelo Museu e dele sair da mesma maneira como entramos, sem estar mexido, incomodado, sem experimentar um profundo e fundamental exercício de reflexão.
É violentamente avassaladora também a experiência vivida numa sala quadrada, toda envidraçada, sem sons ou objetos, onde estão acesas centenas de velas. Sentado num banco que fica bem no centro do ambiente, vê-se as fotos dos cinco mil mortos e desaparecidos pela ditadura penduradas numa enorme parede. Na vidraça lateral, está escrito ‘Nunca Mais’ em várias línguas. Dá um nó na garganta. A resistência popular e a reconquista da democracia também são narradas, com detalhes. Utopias e esperanças recriadas. A exposição permanente destaca ainda os trabalhos feitos por Comissões da Verdade em diferentes países. Na saída, também num painel iluminado, trecho de um discurso do político e diplomata chileno Orlando Letelier, assassinado nos Estados Unidos por agentes da ditadura. ‘Nasci chileno, sou chileno e morrerei chileno. Eles nasceram traidores, vivem como traidores e serão sempre conhecidos como traidores fascistas’.
A parada seguinte foi ainda mais intensa. Fizemos questão de visitar uma casa que foi usada pela DINA, a polícia política do regime de Pinochet, como centro clandestino de tortura. Fica na rua Londres, 38. Funciona atualmente como Espaço de Memórias. Nela, entre 1973 e 75, foram assassinadas 98 pessoas. 64 eram militantes do Movimento Revolucionário da Esquerda, 18 pertenciam ao Partido Comunista, dez ao Partido Socialista e seis que não tinham militância orgânica. 81 tinham menos de 30 anos. 14 eram mulheres – duas estavam grávidas. Na calçada, os nomes de todos eles estão gravados em paralelepídeos, para que jamais sejam esquecidos. No pé da porta de entrada, lê se um horrendo e necessário ‘meu filho foi torturado aqui’.
É um sobrado, casarão antigo, com tacos de madeira que fazem barulho e rangem quando pisamos neles, uma escada em caracol estreita que leva ao piso superior. Não foi reformado, para preservar o ambiente da época. São cômodos pequenos, apertados, sufocantes, opressores. A exceção é o salão onde eram feitos os interrogatórios. Na cozinha, os presos políticos eram submetidos a trabalhos forçados. No corredor, era feita a identificação e triagem deles. Ali já começavam as sevícias e brutalidades. A tinta do teto está descascando. Fechaduras, cadeados e trancas das portas estão enferrujados. Há buracos e riscos nas paredes. Tijolos e cimento estão expostos. O aperto no peito é insuportável. Os ombros pesam. Sensação de torpor. Na sala de torturas, imaginei o pau de arara, os choques elétricos, a cadeira do dragão, os socos e pontapés. Parei no meio da sala e explodi num choro tremido e dolorido. Fechei os olhos e sussurrei: ‘companheiros e companheiras chilenas, presente! Companheiros e companheiras que tombaram em toda a América lutando contra ditaduras, eternamente presentes!’. É muito forte mesmo.
Antes de sair, conversei num bom portunhol com o coordenador do Centro. Ele me perguntou de onde eu era. ‘São Paulo, Brasil’. Ele quis mais detalhes. ‘Moras no Centro?’. ‘No bairro de Perdizes. É perto’. ‘Sabes que há um centro parecido com esse em seu país, na cidade onde moras?’. ‘Sim, conheço. É o Memorial da Resistência, que funciona no antigo prédio do Dops. Fica perto da Pinacoteca e da Estação da Luz’. Ele arregalou os olhos, surpreso, sorrindo com satisfação. ‘Te felicito. Te felicito, meu amigo. Sabias que a imensa maioria dos brasileiros que passam por aqui não conhecem esse Memorial? Pergunto sempre. Não conhecem. O Brasil é o país da América Latina que menos se preocupa com as atrocidades cometidas por sua ditadura. Os chilenos queremos saber e contar tudo o que aconteceu. Um país sem memória é um país condenado a deixar que os erros sejam repetidos. Temer é um ditador’.
Nunca Mais. Nunca Mais. Nunca Mais. Nunca Mais. Nunca Mais. 

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‘Vocês foram se meter em protesto no Chile?’, perguntou um amigo de longa data. Quase isso. Não sabíamos que havia manifestação marcada para aquele local, naquela hora. Mas, já que estávamos passando por ali, por que não acompanhar de perto e prestar solidariedade aos companheiros e companheiras?
Quando descemos na estação República do metrô e subimos as escadarias que dão na avenida Libertador General Bernardo O’Higgins , a principal da cidade, ouvimos gritos e palavras de ordem. De repente, correria. Grupos de jovens com mochilas tomando conta de uma ponta da rua; na outra, carabineiros com caras de pouquíssimos amigos.
Descobrimos que era um ato de estudantes secundaristas da Escola de Aplicação, a exigir melhorias na Educação. Como polícia é polícia em qualquer lugar do mundo, o enorme furgão verde oliva – muito parecido com aqueles trambolhos da Tropa de Choque de São Paulo ou com os camburões do BOPE no Rio de Janeiro – começou a avançar sem dó sobre os estudantes, lançando fortíssimos e gelados jatos d’água na direção da molecada. Sem recuar, alguns adolescentes respondiam com pedras e voadoras nas laterais dos carros. Houve um momento em que o brucutu chegou bem perto. Corremos para buscar proteção. Deu vontade danada de começar a cantar ‘não acabou, tem que acabar. Eu quero o fim da polícia militar’. Em castelhano.
Depois que o protesto se dispersou, caminhamos por um bairro popular e periférico de Santiago, chegando até o número 2918 da rua Augustinas. É nesse endereço que fica o Liceu N2 Miguel Luis Amunategui, uma das escolas que, na chamada Revolta dos Pinguinos (alusão ao uniforme que usam; ficam mesmo parecendo pinguinzinhos), em 2006, foi ocupada pelos alunos e transformou-se numa referência das lutas estudantis na capital chilena. Em 2015, serviu como inspiração para as ocupações de centenas de escolas estaduais em São Paulo. Em suas manifestações, os secundaristas cantavam ‘acabou a paz, isso aqui vai virar o Chile’. Luiza fez questão de conhecer o lugar onde tudo começou, para beber na fonte e levar a experiência para as discussões estudantis paulistanas.
Andamos pelos calçadões do Centro histórico – inevitável não lembrar das rua Direita, XV de Novembro, São Bento... -, passamos pela Praça das Armas, onde está a enorme Catedral Metropolitana de Santiago. Há uma praga que se espalha pela agradabilíssima capital chilena: brasileiros que abordam todo e qualquer transeunte que acreditam ser compatriota, oferecendo as mil e uma maravilhas de excursões sensacionais para vinícolas, montanhas, litoral e qualquer outro passeio que se queira fazer. Distribuem panfletos, usam e abusam da lábia e das vantagens que imaginam portar. Preços mais baixos, horários flexíveis, vans que pegam e devolvem no hotel. A cada quadra, um desses caixeiros viajantes despenca na sua frente, num passe de mágica. O primeiro, ouvimos com atenção. Agradecemos e dispensamos o segundo com mais brevidade. A irritação, no entanto, foi crescendo. Porque as andanças começaram a ficar truncadas, mal conseguíamos prestar atenção na paisagem, nas pessoas. Quando o terceiro deu o ar da graça, respondemos que já tínhamos todo o roteiro fechado para essas e as próximas férias.
Depois do almoço, pintou vontade incontida de tomar um bom café. Precisávamos também de wifi, para responder e-mails e entrar em contato com a agência com quem, de fato, estamos desde o início acertando os passos da viagem. Não foi fácil encontrar e satisfazer essa combinação. Quando havia internet, o lugar estava lotado. Se mesas estavam disponíveis, internet não era oferecida. Depois de uns vinte minutos procurando, demos de cara com um lugar que, do lado de fora, parecia bem agradável, atraente e oferecia o pacote completo que desejávamos. Entramos comemorando. Opa. Só homens engravatados. Opa. Bati o olho numa garçonete loirona, com saltos, corpete e bunda de fora, anotando pedidos de alguns senhores. Opa. Elisa também foi rápida na percepção e, já puxando Luiza e Daniel e saltando de banda, disse ‘melhor não, acho que não é um lugar para crianças’. Tinha toda pinta de casa de tolerância. Daniel jura que viu nada. Na rua, rimos de curvar o corpo e fazer doer a barriga.
No simpático Centro Cultural de La Moneda, precisei fazer uma parada estratégica no banheiro. Pai e filho passaram por mim correndo. O garotinho devia ter uns quatro anos. Vinha trançando as pernas, cara de sofrimento e desespero. Conversavam em português, identifiquei rapidamente. O pai insistia ‘segura, segura’. O menino respondia ‘não vai dar, não vai dar’. Todas as casinhas estavam ocupadas. ‘Vamos fazer naquele de adulto. Eu te levanto’. Quando foi erguer o menino, ouviu. ‘Pai... não deu tempo. Já saiu’. A calça estava encharcada. Uma poça amarela no chão. Que merda, que merda’. ‘Não pai, foi só xixi’. ‘E agora, menino? Vamos ter que voltar para o hotel’. ‘Para tomar um bom banho, né? E trocar de roupa’. O pai estava perdidinho – abria a mochila, procurava uma cueca limpa e seca, sacava lencinhos umedecidos, enxugava as pernas do filhote. Num espasmo, meteu a calça mijada na pia, abriu a torneira. Reclamou do jato de água gelada. Ligou o secador de mãos. Colocou a calça embaixo dele. Não pude ficar para ver o final da saga. Tínhamos hora marcada para a tão aguardada visita monitorada ao Palácio de La Moneda.
(Gol do Santos, enquanto escrevo! Ouvimos buzinas na rua do hotel. A torcida santástica é imensa em Santiago!).
Nem todos os ambientes do palácio presidencial são abertos ao público, obviamente. Mas foi extraordinário conhecer salões que prestam homenagens a passagens e personagens relevantes da história chilena – num deles, a presidenta Michelle Bachelet recebe líderes e delegações estrangeiras; noutro, são realizadas conferências de imprensa -, além dos jardins, amplos pátios e da capela onde são realizadas tanto missas católicas como cultos evangélicos.
Perguntei a Pablo, o guia da visita, onde ficava o salão de onde o presidente Salvador Allende fez a última transmissão à nação pela rádio Magallanes, naquele trágico 11 de setembro de 1973, quando La Moneda foi bombardeado pelas Forças Armadas do país. Ele me apontou duas janelas no segundo piso do Palácio, numa área que hoje já não é mais usada. A primeira era do gabinete de onde Allende falou aos chilenos; a segunda, a sala em que foi encontrado, já morto (para não cair nas mãos de seus algozes traidores, o presidente se suicidou). Tirei fotos das duas, reverenciando e homenageando a memória do companheiro que sonhou construir uma sociedade socialista. Salvador Allende, presente!
Quando resgatou a história da formação do território chileno, as guerras de conquistas e as disputas entre criollos e a Espanha, Pablo já tinha feito questão de destacar que se tratava de uma versão da História. ‘Os indígenas a narram a partir de outras perspectivas e olhares’. Bravo. Na última parada da visita, ele falou sobre o golpe de Estado que derrubou Allende. Usou essa expressão: golpe militar. Sem eufemismos nem malabarismos de discurso, ainda que um soldado carabineiro estivesse acompanhando toda a nossa visita. Numa vitrine que guarda as medalhas com as imagens de todos os presidentes do Chile, Pablo chamou a atenção e provocou. ‘Perceberam quem não está nessa galeria?’. A figura ausente – Daniel já tinha notado – era Augusto Pinochet. ‘Foi um ditador. Não foi eleito pela população. Não é reconhecido, portanto, como alguém que deva estar nessa galeria’.
Um visitante então perguntou se o governo de Pinochet não tinha sido bom para os chilenos. ‘Do ponto de vista econômico, foi’, arriscou outro brasileiro que participava da excursão. Contei até dez mil para não levantar o debate sobre o Chile ter sido laboratório do neoliberalismo na América, sobre os Chicago boys que desembarcaram por aqui durante a ditadura, para aconselhar o governo e iniciar, por exemplo, o selvagem processo de privatizações da economia chilena. Pablo respondeu com muito mais propriedade e sabedoria que eu. Reconheceu as fraturas na sociedade, lembrando que Pinochet teve apoio não apenas das elites, mas também de setores populares. E decretou: “Mas um governo que signifique golpe, ruptura de um processo democrático e que não nasça da vontade popular jamais poderá ser chamado de bom’.
Antes de deixarmos o palácio, o grupo já tinha se dispersado, conseguimos trocar mais algumas ideias com Pablo. Elisa comentou que, no Brasil, ainda não enfrentamos as feridas deixadas pela nossa ditadura e que muitos ainda se referem ao golpe como revolução. Acrescentei: é impensável encontrar, no Brasil, uma galeria de presidentes que exclua Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Todos ditadores. Respeitoso e cuidadoso com a história do país vizinho, Pablo recorreu novamente ao universo chileno. ‘Sou um educador. Preciso ser honesto com os fatos históricos. Aqui, tivemos um golpe. Vivemos uma ditadura. É um imperativo moral narrar dessa maneira’.
Ainda sobraram alguns minutinhos para um papo agora informal sobre o atual cenário político brasileiro. ‘Voltamos a ter um presidente ilegítimo’, lamentamos. Pablo contou que os meios de comunicação no Chile são propriedade de empresários conservadores, que durante todo o ano passado fizeram estardalhaço e apoiaram o impeachment da presidenta Dilma. “Mas esconderam o caso do helicóptero com cocaína...’. Também aqui.
Uma viagem é feita de memórias.
Com memórias, também é escrita a História de um país.

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Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Amarildo, Garrincha, Vavá e Zagallo.
Te recuerdo, Amanda. La calle mojada, corriendo a la fabrica, donde trabajava Manuel. Son cinco minutos. La vida es eterna en cinco minutos.
A torcida em festa nas arquibancadas comemora o bicampeonato.
Os militantes apavorados nas arquibancadas tentam mandar sinais e mensagens de que ainda estão vivos.
Na tribuna de honra, Mauro levanta a taça do segundo Mundial brasileiro.
Na tribuna de honra, jovens são espancados e trucidados pela polícia da ditadura.
O vestiário canta, em êxtase.
Berros lancinantes, cheiro e choro de dor e terror são ouvidos no vestiário.
Garrincha recebe a pelota e prepara mais um drible desconcertante. Zito cruza a linha que divide o campo e leva a bola da defesa para o ataque. Lança Amarildo na ponta esquerda e corre para a área. Do banco de reservas, o técnico berra para Zito voltar. O volante desobedece. Amarildo cruza, na cabeça de Zito. Gol do Brasil. O segundo. O gol da virada contra a Tchecoslováquia.
Depois de passar por aquele mesmo gramado, tendo apanhado muito, bastante machucado, o cantor Victor Jara, autor de clássicos como ‘Te recuerdo, Amanda’, é transferido para outro estádio, onde tem as mãos esmagadas por coronhadas e, diante de seu violão, é desafiado pelos carabineiros: ‘toca agora suas canções comunistas’. Uma saraivada de tiros é disparada. Jara tomba, assassinado pela ditadura recém instalada no país.
Drible.
Fome.
Escanteio.
Água gelada, frio.
Tabelinha.
Venda nos olhos.
Abraços e soco no ar.
Pavor e soco na cara.
Orientações do técnico.
Choque elétrico.
Bronca pela jogada errada.
Ameaça por não delatar o companheiro.
Camisa suada.
Corpo coberto de sangue.
Os desavisados dizem que futebol e política não se misturam.
O estádio Nacional do Chile, palco da finalíssima da Copa do Mundo de 1962, foi transformado nos dias seguintes ao golpe de setembro de 1973 num imenso e abominável centro de detenção e torturas. Centenas de chilenas e chilenos foram mortos ali. Muitos foram enterrados em covas clandestinas. Os corpos jamais foram encontrados. São os desaparecidos.
Os desavisados insistem que futebol e política não se misturam.
O Chile pensa diferente: atualmente, no Estádio Nacional, há um setor das arquibancadas que preserva os assentos de cimento da década de 1970 e que, seja qual for o jogo, não pode ser ocupado por torcida nenhuma. Nesse espaço, um luminoso grita ao mundo: ‘um pueblo sin memoria es um pueblo sin futuro’.
Os desavisados repetem que futebol e política não se misturam.
Estivemos hoje no Estádio Nacional.
Encantados, porque ali, arte pura, o futebol brasileiro triunfou.
Entristecidos, porque ali a democracia chilena foi esmagada e a política, transformada em ódio, torturas e assassinatos.
Lembramos do Mané.
Reverenciamos o Victor.
Quando sentamos nas arquibancadas, os dois estavam conosco.
Já combinaram com os russos?, quis saber Garrincha.
Yo no canto por cantar. Ni por tener buena voz. Canto porque la guitarra tiene sentido y razón, dedilhou Jara. O violão estava com ele.
E os desavisados continuam a gaguejar que futebol e política não se misturam.

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É bom ir com uma calça por baixo. Mais a calça jeans? Também. Camisa de mangas compridas. Com a segunda pele. Ponha uma malha fina por cima. Um casaco mais quente. E o agasalhão preto acolchoado por cima de tudo. É quentinho, não deixa passar o vento. Não esqueça as duas meias e o gorro. Confesso que achei meio exagerado, nem estava tão frio assim no amanhecer de Santiago. Mas segui à risca as recomendações de Elisa, minha assessora para assuntos de indumentária para subir as montanhas. Ainda paramos para alugar calça impermeável, jaquetão flanelado, botas especiais e luvas térmicas. Estava me sentindo tão à vontade e com movimentos livres e ágeis como Neil Armstrong devia estar quando pisou na lua. Um verdadeiro astronauta, em plena Santiago. Um pequeno passo para um Bicudo, um salto gigantesco para alguém quem sonhava desde muito menino conhecer os Andes, expressão dessa Latino América por quem sempre fui apaixonado. Senti os ouvidos pipocando na subida, pequeno incômodo, bem suportável. Nada de enjôo, leve sensação de aperto na cabeça. A estrada estreita faz o trajeto de um corpo de serpente toda enrolada, pronta para dar o bote. Curva para lá, curva para cá, num zigue-zague que deve ser feito com muitíssimo cuidado e exige calma e perícia do motorista. A primeira meia hora nos dois mil e quinhentos metros de altitude da estação de Farellones foram supimpas, nenhum estranhamento. Estou podendo, pensei com meus botões, vai dar nada. Não me pega. A soberba tem prazo de validade, sobretudo para quem tem a pretensão de desafiar os limites impostos pela natureza. Convidei o Daniel e a Luiza para um futeneve. Dei dois piques, fingi um drible, chutei um blocão de neve. Estanquei na hora. A cabeça pesou. O corpo quase se fez em pedacinhos.Puxei o ar, que demorou para chegar até os pulmões.Sentei para respirar. Entendi com todas as letras o que é jogar uma partida de Copa Libertadores ou Eliminatórias na altitude. Pedi substituição, a plaquinha subiu. A peleja terminou em dois minutos. Nos três mil metros de Valle Nevado, estação seguinte, tudo parecia acontecer em câmera lenta. Bem de-va-gar, cal-ma-men-te. Descer uma escada de dez degraus foi quase como completar uma maratona olímpica. Andava como se estivesse flutuando, levitando, meio aéreo, um tanto desconectado da realidade, a cabeça agora doendo de verdade. O coração batia acelerado, tentando compensar o ar rarefeito. No almoço, quando entregou a conta, o garçom avisou: 'senhor, nesse valor não está incluída a propina'. Quase pedi a ele que fosse mais discreto, essas operações só podem ser discutidas na calada da noite, nos porões do Jaburu. Tem que manter isso, viu? Com tanta roupa e proteção, houve um segundo em que senti um calorzinho gostoso. Passou rápido. Os termômetros marcavam doze graus negativos - no começo da tarde, 'subiram' para menos sete. 'Hoje está bom', disse o rapaz que orientava a fila das boias que descem a rampa de gelo, com apenas uma camisa de mangas longas. 'Frio mesmo vai fazer amanhã'. No teleférico, que passeia lentamente pela estação, viagem panorâmica sem igual, cercado pelos paredões brancos, olhando o céu de um azul estúpido de lindo e sentindo o sol espreguiçar e dar os primeiros sinais de vida, fui observando cada detalhe, cada nascente de água, o recorte e o desenho de cada montanha. A paisagem é deslumbrantemente exuberante. Quis guardar todos os pedacinhos dela na minha alma. Nas minhas células. Para jamais esquecer. Fechei os olhos. Quase adormeci. Só ouvia o silêncio da paz, o barulho do sossego. O vento cantando e acariciando o rosto. Os Andes estavam ali, ao alcance das minhas mãos. Dei na Cordilheira um abraço fraterno. Disse a ela 'muito, muito obrigado. Até breve'. Se o paraíso dos ateus existe, deve ser parecido com o que conheci hoje. É lá que um dia eu quero morar.



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terça-feira, 15 de novembro de 2016

A MATEMÁTICA DO FUTEBOL


Salve, salve, torcedor brasileiro, torcedora brasileira. Estamos iniciando mais uma jornada boleira pela sua rádio Tique-Taca, a emissora que toca a bola, faz a tabelinha e tem o rabo preso só com você! E hoje a partida é decisiva. O Ganhamos nas Urnas, líder isolado do campeonato, 61 pontos, 16 vitórias, 13 empates e apenas três derrotas, joga fora de casa e tem pela frente a experiente, ardilosa e traiçoeira equipe do Vamos Dar o Golpe, vice-líder do certame, 54 pontos, 14 vitórias, 12 empates e seis derrotas. O comentarista Nerval Azedo, imortal das ondas sonoras e sempre rápido nos gatilhos seletivos, me lembra aqui que a fanática torcida do Golpe já realizou seis grandes manifestações de rua para exigir a anulação das seis partidas em que o time do coração foi derrotado. Alegam que atletas adversários fizeram mais gols do que poderiam fazer, pelo regulamento. São as chamadas pedaladas boleiras. O Parlamento da Bola Inquisidora deverá julgar em breve a questão. Impedimentos à parte, no campo e sem artimanhas, a vantagem é toda dos vermelhos das Urnas, que acumulam, desde que se enfrentaram pela primeira vez, em 1920, 138 vitórias contra os amarelos golpistas, que contabilizam 86 triunfos. Aconteceram ainda 92 empates entre as duas agremiações. Sem mistérios, os técnicos já divulgaram as escalações. O time da casa vai a campo num tradicional 4-4-2, que pode se transformar num 4-3-3 quando estiver atacando e num 3-5-2 na defesa. O visitante parece querer surpreender e abandona seu vencedor 4-2-3-1 para apostar num bem fechadinho 4-5-1. O líder tem o ataque mais positivo do campeonato, média de 2,65 gols por partida; a defesa menos vazada, 0,6 gol sofrido por jogo, além de se destacar também nos quesitos chutes a gol, 15,3, em média, e nas faltas recebidas, 28,9 de média. O segundo colocado tem protagonismo nas faltas e golpes baixos deflagrados. São 45 a cada jogo, média elevadíssima e assustadora, principalmente se considerarmos que são 18 pontapés abaixo da linha da cintura, 12 saltos no vácuo com joelhadas laterais, 8 cotoveladas, cinco cabeçadas no peito e outras duas dedadas nos olhos. Os levantamentos mais recentes apontam que, a seis rodadas do final do campeonato, o Ganhamos tem 87% de chances de conquistar o título. Será o pentacampeonato, o quinto caneco seguido. Já as possibilidades do Golpe de alcançar em campo sua primeira taça depois de um jejum de catorze anos são de 7%. Sem contar o tapetão, claro. No tribunal parlamentar, os horizontes são bem mais promissores para o atual vice. O embate de hoje reúne equipes posicionadas em extremos quando observamos as idades dos jogadores. São doze atletas com menos de vinte anos vestindo a camisa vermelha, contra nove com mais de trinta anos atuando com o fardamento amarelo, considerando titulares e reservas.
Cabralzinho arranca bruscamente os fones dos ouvidos e dá um murro na mesa. O jogo nem começou e ele já está arretado e irritado com a overdose de cardinais, ordinais e percentuais metralhados pelos narradores e comentaristas da rádio. Sente-se como se estivesse numa reunião de departamento do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. De que adianta essa numerologia toda? E se o cara deu trinta passes certos no jogo, mas todos eles de lado, burocraticamente? E se a equipe teve 80% de posse de bola, tendo ficado, no entanto, enrolando e trocando passes inúteis no campo de defesa, apenas esperando o tempo passar, sem chutar a gol durante os 90 minutos? E se o centroavante pegou só três vezes na bola, mas numa dessas oportunidades fez uma jogada linda, daquelas de entrar nas chamadas de todas as mesas-redondas televisivas, deixou dois zagueiros no chão, driblou o goleiro e marcou o gol do título? Números contam histórias, resmunga Cabralzinho. As matemáticas futebolísticas precisam transpirar também personagens, diálogos, enredos, conflitos e clímax. Os dois, três, terceiro, quarto e tantos por cento nasceram com evidente vocação literária. Não se orgulhe de apenas vociferar os números, me conte o que eles significam, pede o desolado torcedor, olhando para o celular ainda sintonizado na rádio, chiando em cima da mesa. Chega dessa história de fria exatidão. #Chateado.
Antes de voltar ao jogo, Cabralzinho decide: quando for ministro da Educação, vai incluir as questões de Matemática no caderno de Humanidades. Na reforma do ensino médio que irá sugerir, promete criar uma grande área transmegainterdisciplinar chamada Matemática Humanista do Futebol. Tudo isso será feito, ele se compromete, com amplo debate público, a representar a vontade popular, sem precisar recorrer a medidas provisórias. Primeiramente… Um pra lá, dois pra cá. É fogo no boné do guarda. Ripa na chulipa, pimba na gorduchinha. A bola ficou pedindo me chuta, me chuta… ele encheu o pé. E que golaço! Aguenta, coração. Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira.

Originalmente publicado em www.ciencianarua,net, 14 de novembro de 2016

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

BOLEIROS DO ÉDEN


Nem bem tinha chegado ao Paraíso dos Craques (sim, ele existe, é uma ala especial do Jardim do Éden, acessível apenas aos boleiros fenomenais), ainda tentando entender o que tinha acontecido e se adaptando à nova morada, e Carlos Alberto Torres foi logo dando as ordens.
- Vamos jogar sempre no 4-3-3, com laterais atacando o tempo todo. E vai ser um futebol bonito. Arte, como fez a Seleção de 1970. Nada de bicões ou caneladas.
Mauro Ramos e Bellini se apressaram a receber o mais novo e ilustre morador.
- Dá cá um abraço, Capita!
Um abraço de três gênios que levantaram a taça de campeões do mundo.
Ressabiado, Zito, o dono da bola do Éden, também com faixa de capitão (alvinegra) no braço, resmungou.
- Carlos Alberto, aqui quem define esquema de jogo sou eu.
Doutor Sócrates apaziguou.
- Calma, moçada. Podemos resolver essa parada democraticamente.
- Tudo bem, vamos pensar nos esquemas. Mas vocês já combinaram com os russos?, quis saber um baixinho das pernas tortas. Era o Mané.
- Só jogo se for no time do Garrincha, resmungou Nilton Santos.
- Topo ser reserva do Félix, sem problemas, disse mansamente Gilmar.
- E eu revezo com o Castilho, completou Félix.
Atento à conversa, Dener treinava embaixadinhas. 301, 302, 303, contava. Sem deixar cair a pelota.
- Vai demorar muito? Quero mais é jogar!, gritou o moleque.
Carlos Alberto e Zito terminaram de distribuir os coletes.
- Vai começar!, avisaram, juntos.
Um minuto de silêncio.
- Posso treinar esse time?
Todos olharam para o Capita e para o Zito.
Os dois sorriram. E responderam ao mesmo tempo, numa tabelinha ensaiada.
- Claro, Telê. Mestre Telê. Ninguém melhor que você para treinar esse time.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

TRISTEZAS

Acordou com a firme disposição de reverter o estado de espírito que tinha sido apontado pela filha no dia anterior, depois de ler mais uma das tantas crônicas que ele anda escrevendo. 'Pai, o texto está bacana. Mas o final é muito triste. Você anda muito triste'. Ainda era cedo. Resolveu tirar um dia de folga. Arriscou ligar para um amigo de infância, com quem não falava há anos. Conversaram um tanto. Muitas risadas. Preparou um belo café da manhã. Pão na chapa. Queijos. Sucos. Frutas. Bolos. Sentiu-se revigorado. Olhou de relance as manchetes dos jornais. Prefeito eleito de São Paulo vai privatizar até o Parque Ibirapuera. E a velocidade nas marginais vai subir de novo. Bateu desânimo. 'Vou sair para caminhar'. Viu na televisão do bar da esquina o discurso da primeira-dama vestida de princesa. Bela, recatada e do lar. Longe se vão os tempos da presidenta grosseira e histérica. Brasil angelical. Princesas. Vamos tirar o país do vermelho. Voltou para casa macambúzio. Entrou no banho. Deixou a água da ducha massagear as costas durante quase meia hora. Bateu a vontade de almoçar numa churrascaria. Lá se foi. Refestelou-se com alcatras e picanhas apimentadas, suas carnes preferidas. Voltou a sorrir. Sacou o celular e mandou uma selfie para a filha, fazendo uma careta. 'Melhor assim?'. Na mesa ao lado, um grupo de gestores, pulôveres coloridos amarrados nas costas, comemorava a aprovação, na Câmara dos Deputados, da medida que entrega o pré-sal brasileiro a empresas estrangeiras. Terminou de almoçar sem nem bem sentir o gosto da sobremesa. Torta de limão. Mastigava, mastigava, mastigava. Engolia. Mirava o infinito. Foi tirado do estado de transe pelo garçom. 'Mais alguma coisa?'. Pediu um café. Pagou a conta, mecanicamente. Débito. 'Eu prometi para minha filha'. Esboçou outro sorriso. Parou numa livraria. Sentiu-se acolhido. Passeou pelas prateleiras. Folheou lançamentos. Não resistiu. Comprou os novos do Vargas Llosa, do Cristovão Tezza, do Daniel Galera e da Elvira Vigna. Em êxtase, correu para chegar em casa e começar as leituras, interrompidas apenas para acompanhar, já início da noite, a partida do time do coração no Brasileirão. Vila Belmiro. Reta final do campeonato. Estreia da camisa nova. Vai dar Libertadores? Acho que sim. Alegria, alegria. Por impulso, puro vício, zapeou e parou no jornal global. Governo já tem os votos para aprovar a proposta de emenda constitucional que vai cortar gastos públicos. Supremo Tribunal Federal decide que prisões podem acontecer após condenações em segunda instância. Sem os repasses do Fies, cai número de alunos matriculados no ensino superior. Governo finaliza nesta quinta-feira texto da reforma da previdência. Sorumbático, desligou a TV. 'Filha, eu tentei. Me desculpe. Quem sabe amanhã'. Começou a escrever mais uma crônica. Triste.

sábado, 20 de agosto de 2016

RECADO DE NELSON RODRIGUES



Nelson Rodrigues já tinha cantado a bola - o escrete nacional precisa de carinho. Melhor ainda se for uma abundância de afagos, de beijos e abraços, transformados em intensa paixão, fundamental para para embalar a canarinho (e também para chupar um picolé). Nelson tinha orgulho danado da linda e extraordinária história dessa Seleção. Era a pátria dele. A pátria de chuteiras. Nos últimos anos, no entanto, se vivo fosse, desconfio que os textos inigualáveis dele estariam destilando raiva e transbordando impropérios sem fim. O que estão fazendo com a Seleção?!, esbravejaria. Por obra e graça dos intensos esforços da Confederação Brasileira de Falcatruas, entre Parreiras e Dungas, Teixeiras e Del Neros, Marins e gaúchos de bigodes, Paraguai e Peru, sete a um martelando na cabeça, apagões e eliminações vergonhosas acumuladas, futebol burocrático e brucutu desfilando em campo, o Brasil que encantou o planeta boleiro e foi imortalizado em verso e crônicas por Nelson passou a ser achincalhado. Motivo de piada. Bordoadas de todos os lados. Quando o Brasil entrava em campo, ele sentia falta "do choro que vem das entranhas, da dor que irradia e derrama dos olhos, do grito que rasga a garganta". Não havia mais paixão. Da sua cadeira cativa no Maracanã, talvez Nelson escrevesse - está uma porcaria mesmo. Mas não são os jogadores, estúpidos. Não maltratemos nossos jogadores. Não vamos destruir nosso craque. É a engrenagem. A cartolagem. "Em futebol, o pior cego é o que vê só a bola". Demitam todos. Deixem nossos boleiros jogar. Com a alma e a arte do nosso futebol. Nelson não conseguiu conter a alegria quando o anãozinho mudo foi defenestrado. Quem sabe? Cerrou os punhos e comemorou a contratação daquele outro gaúcho que fala bonito nas coletivas e que acha que os adversários falam muito. Será? Aplaudiu a manutenção do técnico que já estava no comando da olímpica. Bravo! Torceu o nariz e deu murros na mesa, é verdade, nos dois primeiros jogos do escrete. Com todo o respeito, mandou, não dá para empatar com África do Sul e Iraque. Continua faltando alma! Temeu a tragédia da desclassificação na primeira fase. Abriu um discreto sorriso de canto de boca na vitória contra a Dinamarca. Está com mais cara de Brasil. Voltou a chamar de canarinho após a goleada contra Honduras. Fazia tempo que não se referia dessa maneira à Seleção. Antes da final, avisou logo: não é revanche. Não tem nada que pensar em devolver os sete a um. Nelson chegou cedo hoje ao Maraca. Estava apreensivo. Tomou assento no lugar de sempre. Passou os cento e vinte minutos, mais os pênaltis, sem dizer uma palavra. Apenas mirava o campo. Comemorou como Pelé, saltando e socando o ar, o inédito ouro olímpico. No celular (sim, Nelson achou por bem aposentar a velha olivetti), ainda em êxtase, antes da cerimônia de premiação, digitou a crônica do campeão. "Amigos, falemos ainda do Brasil. Nesse momento, o mundo todo está de novo de olho no fabuloso escrete brasileiro. Eis a caridade que nos faz o escrete: dá ao roto, ao esfarrapado, uma sensação de onipotência. Não há distância entre nós e a equipe verde-amarela, ou por outra: há uma distância falsa, uma distância irreal. Na verdade, estamos encarnados no escrete". Não, ainda não é a redenção, completaria Nelson, já em casa, mais comedido, banho tomado, adrenalina da final já tendo passado. Talvez tenhamos começado a renascer. Hoje, continuou, vimos dribles e triangulações em campo. Tabelas. Um jeito mais alegre de jogar. Esquema mais bem definido. Alma. Oxalá seja mesmo um recomeço. Do além, do olimpo dos cronistas, terminou mandando um recado: 'Tite, não se esqueça. O escrete precisa de carinho'.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

POKEMON GOL


Entrei em grande estilo e de supetão no quarto da filha adolescente (vai hoje à primeira festa de quinze anos) e lasquei um tapão na porta, pulando e comemorando: “matei um pokemon”. Muito bem-humorada, como manda o manual internacional na adolescência, ela explodiu num espasmo de ira. “Não é assim que se joga, pai! Se liga, véi!”.
Eu me penitencio publicamente, sem necessidade de segredos de confessionário. Não faço a menor ideia de que jogo é esse. Sei que chegou tardiamente ao Brasil, depois de muitos resmungos e insistentes pedidos dos fãs enlouquecidos, incluídos aí os atletas olímpicos que já estão por aqui. Deve ser excitante mesmo.
Ontem vi um jovem que bufava e falava sozinho no vagão do metrô, esmurrando o celular e chacoalhando o aparelho no ar, enquanto desancava e xingava os pokemons de todos os nomes. Talvez quisesse matá-los. É possível? Mas não é só para capturar e treinar as tais criaturas? E depois, o que se faz delas?
Sou dos tempos em que a gente corria mesmo era para coletar pistas e decifrar enigmas para caçar um tesouro. Na avenida Paulista, final de tarde com vento gelado, casais andavam abraçados, celulares em ação... caçando pokemons. Já teve até gente que teve o aparelho móvel roubado enquanto corria alucinadamente atrás dos bichinhos. Especialistas sugerem que os pais sejam cautelosos e orientem os filhos sobre como lidar com a nova parafernália tecnológica, que mistura realidade e mundo virtual, tornando tudo muito mais confuso. Imaginem se na final olímpica dos cem metros rasos, poucos segundos antes do tiro de largada, alguém mais afoito na arquibancada levantar e gritar a plenos pulmões, para o estádio inteiro ouvir: ‘Fora, Temer!”. Não, perdão, esse grito é de outra crônica. O maluco grita mesmo é “tem um pokemon perto do pé direito do Usain Bolt!”. Que temeridade.
Já com espírito de Pierre de Coubertin à flor da pele, sem sair da frente da televisão, canais esportivos funcionando vinte e quatro horas por dia e invadindo madrugadas, tenho acompanhado todos os jogos de futebol – feminino e masculino – da Rio 2016. Num gole de café, mordida na barra de chocolate, um estalo. Deu vontade danada de pedir a um desses gênios empreendedores que desenvolvam um game capaz de me transportar, com todos os cheiros, cores e sons originais, reproduções perfeitas, às arquibancadas dos estádios em que, por razões diversas (não era nascido, falta de grana, não deu para viajar...), aconteceram pelejas futebolísticas que não consegui presenciar e acompanhar in loco. Já tem até nome a diversão. Pokemon GOL.
Com dois ou três cliques, tudo muito simples e intuitivo (não sou exatamente alguém afeito às tecnologias, como já devem ter percebido), o bichinho me empurraria e eu desembarcaria no Maracanã, 16 de julho de 1950. Tudo bem, vai ser sofrido, uma tragédia, vou ficar em silêncio depois do segundo gol do Uruguai, vou chorar no ombro do torcedor do lado quando o juiz apitar o fim da partida. Mas seria sensacional poder testemunhar aquela final de Copa do Mundo, ainda que virtualmente.
Avançaria em seguida mais alguns anos e comemoraria, no estádio da Luz, em Lisboa, Portugal, o primeiro título mundial de clubes do Santos, conquistado depois de goleada memorável sobre o Benfica (5 x 2, sem contar o baile). Pelé e Eusébio em campo. Para muitos, a melhor partida de futebol de todos os tempos. Com alguns ajustes e atualizações e uma versão mais avançada, pokemon GOL 2.0 (ou pokemon GOLAÇO), poderia levar comigo ao estádio meu avô (já falecido), o pequeno Daniel, meu filho, além do meu irmão Eryx, juntando três gerações de santistas.
Mais um tantinho de upgrade e alcançaríamos a possibilidade de interagir com os jogadores em campo. Meu destino seria então o estádio Sarriá, em Barcelona, na Espanha, 5 de julho de 1982. Brasil do mestre Telê Santana contra a Itália. Quando Oscar, zagueiro canarinho, no finalzinho do jogo mandasse aquele balaço de cabeça, eu, bem atrás do gol, gritaria para o Zoff, goleiro da Azzurra: “ei, bambino, olha o pokemon aí, no pé da trave!”. A maldita defesa linda que ele fez em cima da linha estaria apagada da história. Gol do Brasil. Empatamos, três a três. O resultado nos colocava na semifinal. Trituraríamos a Polônia, amassaríamos a Alemanha na decisão, 10 x 1, devolvendo com três extras a humilhação que aconteceria em 2014 (no meu pokemon GOL, Neymar não se machucaria contra a Colômbia nas quartas no Brasil, faria chover na semi e despacharíamos os germânicos, eternos fregueses, com um rotundo 7 x 1. Para o Brasil, reforço. Quem manda nesse pokemon GOL sou eu).
Tenho ainda uma vontade danada de ver na Vila Belmiro (tinha ingresso para aquele jogo, mas fiquei doente) o Santos x Flamengo do Brasileirão de 2011. Prometo não interferir nesse resultado final. Aceito a derrota, 5 x 4 para o Mengão. Só quero poder estar na minha cativa para me deliciar com a pintura de gol do Neymar. E com a arte renascentista boleira que o Ronaldinho desfilou em campo, um dos últimos suspiros de vontade de jogar bola do Gaúcho.
Na memória do meu pokemon GOL, cabem todos os jogos já disputados na história do futebol. O game seria permanentemente alimentado, ao final de cada rodada. Os filtros permitiriam que as escolhas fossem feitas por data, time, campeonato, estádio... é clicar, escolher e aproveitar. Não exige prática nem competências especiais. Não precisa capturar nem treinar ninguém. Diversão garantida.
Pokemon GOL. Alguém se habilita a desenvolver e me presentear com essa engenhoca? Gratidão boleira eterna. Como? Tem um pokemon na minha testa? Você quer capturá-lo? Sério? Tudo bem. Vá em frente

sábado, 23 de julho de 2016

GOL DA ALEMANHA



Numa quadrinha minúscula - uns cinco metros de comprimento - improvisada na frente do portão principal do estádio do Pacaembu, linhas laterais e de fundo desenhadas imaginariamente, golzinhos móveis montados, dois garotinhos corriam atrás de uma bola murcha. Pelada disputadíssima, com dribles, carrinhos, caneladas, muita catimba e resmungos. 'Você só faz falta!'. 'E você só reclama'. Nenhum dos dois queria perder. Palmeiras x Corinthians? Santos x São Paulo? Nada. Era um clássico internacional, talvez mata-mata da Copa dos Campeões da Europa. Um dos garotos vestia a camisa do Milan; o outro, a do Paris Saint-Germain. As respeitadas escolas italiana e francesa duelando, cinco títulos mundiais em campo. 

Já no auditório do Museu do Futebol, abrigado no mesmo Pacaembu, quem deu o tom da conversa neste sábado, 23 de julho, foi o badalado e não menos poderoso futebol alemão (quatro conquistas mundiais), em duas mesas de debates que marcaram o lançamento, no Brasil, do livro "Gol da Alemanha" (título original 'Franz, Jürgen e Pep'), escrito pelo espanhol Axel Torres e pelo germânico André Schön. Na obra, os dois autores, amparados por refinada pesquisa, trocam impressões e conversam animadamente sobre as transformações vividas pelos clubes e pela Seleção da Alemanha nas últimas duas décadas, até a conquista da Copa do Mundo de 2014. "Prepare-se para uma viagem no tempo ao lado de Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Jürgen Klinsmann, Thomas Tuchel, Ralf Rangnick, Jürgen Klopp, Pep Guardiola e muitos outros", anuncia a apresentação à edição brasileira.

A constatação de que esse renascimento deve-se fundamentalmente a uma mentalidade e um projeto que foram coletivamente desenhados e implementados não impede que "Gol da Alemanha" reconheça também que, em grande medida, o rencontro alemão com o sucesso e o protagonismo boleiro precisa ser creditado a um protagonista específico, figura-chave responsável pelas transformações: Klinsmann, ex-atacante do Bayern de Munique e da Seleção, treinador da Alemanha na Copa de 2006 e atualmente técnico dos Estados Unidos. "Ele quebrou paradigmas", afirmou o jornalista Gerd Wenzel, da ESPN/Brasil, em um das mesas realizadas no Museu. Wenzel lembrou que, quando foi contratado para treinar a seleção, em 2004, Klinsmann sofreu muitas críticas, porque havia outras boas opções no mercado. "O salto de qualidade dele foi ter se cercado de uma equipe altamente competente, na preparação física, de goleiros, abrindo ainda a possibilidade de adequar o jogo de acordo com o adversário. A partir dele, o técnico deixou de ser o todo-poderoso que tomava decisões sem consultar mais ninguém. Nascia ali o novo futebol alemão, de muita intensidade e trocas rápidas entre defesa e ataque, que não era mais só carrancudo ou mecânico e disciplinado", completou.  

O jornalista da ESPN/Brasil elogiou ainda a firme e convicta atuação de Klinsmann para vencer as resistências da torcida alemã a jogadores imigrantes que poderiam atuar pela Seleção. Não foi um processo suave nem tranquilo. Um choque de culturas explodiu. Os clubes não estavam inicialmente muito dispostos a aceitar a mistura, as torcidas reagiram de forma intensa contra a miscigenação. "Foi aí de novo que entrou o Klinsmann, brigando a todo instante contra essa mentalidade, dizendo que não era necessário apenas tolerar, o que é muito pouco, mas conviver com todas essas culturas e estilos no futebol, inclusive dentro de campo. Gradativamente, os estrangeiros foram futebolisticamente integrados", reforçou. Atualmente, o turco Özil, o tunisiano Khedira e o ganês Boateng são alguns dos destaques e ídolos da seleção alemã.     

Depois dos títulos mundiais de 1990 e da Eurocopa de 1996 (já visto muito mais como fruto da sorte do que do talento), sinais evidentes de que o futebol alemão havia parado no tempo e perdido o rumo surgiram com a desclassificação para a Croácia (derrota por 3 x 0) nas quartas-de-final do Mundial de 1998 e, principalmente, com o fiasco na Euro de 2000, quando foi eliminada já na primeira fase, tendo ficado em último lugar no grupo. "Até ali, estavam acomodados. Bem ou mal, ganhavam títulos, a moeda era forte, podiam comprar jogadores, os clubes não se preocupavam com as categorias de base. Com a desclassificação em 2000, a ficha caiu. Entre 2002 e 2014, foram construídos 52 centros de excelência na formação de novos atletas, diretamente ligados às escolas. A Alemanha tem atualmente 1.300 técnicos profissionais, atuando em tempo integral, trabalhando apenas com as jovens promessas. São mais de 25 mil clubes de futebol em funcionamento e 15 mil atletas, diversas categorias, registrados na federação. A premissa era clara: se houver um bom jogador perdido ou esquecido num vale ou nas montanhas, vamos encontrá-lo e formá-lo. Uma das exigências da Liga alemã, aliás, é o investimento em novos talentos", resgatou Leonardo Bertozzi, comentarista da ESPN/Brasil, durante o lançamento do livro. A média de público da Bundesliga, aliás, é a maior do mundo: quase 43 mil torcedores por jogo. 

Para João Paulo Medina, da Universidade do Futebol e que também participou do evento realizado no Museu, a mudança no futebol alemão aconteceu não apenas por conta de investimentos feitos em gestão, mas principalmente a partir da compreensão de que era preciso mudar o comportamento dos jogadores em campo. "Gestão não é apenas governança administrativa. mas também técnica, de estilo, como a gente deseja ver o time atuando. Hoje, países como a Islândia, com 300 mil habitantes, fazem um trabalho de preparação técnica muito mais qualificado do que aquele que é feito no Brasil", comparou. Para ele, não se trata de copiar e transportar para cá o chamado modelo de sucesso alemão, mas de buscar inspirações nas lições que os germânicos podem nos oferecer, em direção às nossas mudanças singulares.  Gustavo Vieira, gerente de futebol do São Paulo, completou o raciocínio destacando que os brasileiros ainda nos apegamos a um sentimento de identidade muito incentivado durante a ditadura militar, um "somos os melhores e sabemos fazer" repetido à exaustão, o que acaba por consolidar a concepção de que seríamos imbatíveis, eternos melhores do mundo, por inércia, e que as dificuldades atualmente enfrentadas seriam apenas momentâneas e serão naturalmente superadas. "Não é verdade. Precisamos construir objetivos e dizer o que queremos do futebol brasileiro no longo prazo, para cuidar e formar tecnicamente os talentos que temos e diminuir as distâncias que hoje nos separam dos países europeus". 

No livro "Gol da Alemanha", a tragédia do Mineirão, o histórico 7 x 1, é narrada em pouco mais de uma página. Nada além disso. "Fico constrangido em dizer isso, mas, para os germânicos, passou", reconheceu Wenzel. Segundo ele, a Alemanha já se debruça a analisar desafios que surgiram após a conquista do quarto título mundial, como o ritmo dos treinamentos e a intensidade com que passou a atuar a seleção (seriam responsáveis por frequentes contusões musculares dos boleiros?), além de procurar alternativas para substituir jogadores que estão se aposentando. "Estão mirando o futuro. Não é mais a Alemanha de 2014", concluiu.     

quinta-feira, 21 de julho de 2016

LÁ SE VAI JESUS



Um toque maroto e sutil de calcanhar, para deixar os zagueiros perdidos e Lucas Barrios na cara do gol. Oito minutos de jogo. Um a zero Palmeiras. Aos vinte e oito, escorou com categoria um cruzamento da esquerda. Verdão dois a zero. Quatro minutos depois, entrou rasgando pelo bico da área direita. Deixou o zagueiro sentado no gramado. O pé de apoio faltou, quase se desequilibrou. Até poderia ter cavado o pênalti. Sustentou. Não caiu. Direita, para a linha de fundo; não, esquerda, puxando de letra e buscando o ângulo do chute. Uma tacada seca de sinuca, rasteira, cruzada, que morreu no pé da trave direita do goleiro Fabio, estendido, atônito e sem reação. Trinta e dois minutos. Um, dois, três a zero Palestra e ponto de exclamação!, comemoraria o fanático alviverde Roberto Avallone, em êxtase catártico. Naquela noite de 26 de agosto de 2015, no Mineirão da tragédia dos 7 x 1, quando o Palmeiras eliminou o Cruzeiro nas oitavas-de-final da Copa do Brasil, Gabriel Jesus, credenciais boleiras já conhecidas, mas ainda promessa, passou a ser idolatrado e louvado pelos cânticos da galera palmeirense. Glória. Aleluia. Menos de um ano depois, titular absoluto e destaque do time, atacante arisco e habilidoso, já na condição de insubstituível, foi convocado para a Seleção olímpica. No time leve e ofensivo que o técnico Rogério Micale está montando, deve jogar ao lado de Neymar e de Gabriel, o xará do Santos. Baita ataque. Cabe até na principal. Oxalá (Jesus é ecumênico) dê certo. A água transformou-se em vinho, dos bons. E o perfume da bebida encorpada chegou ao Velho Continente. Deixai vir a mim os clubes europeus. A Juventus, da Itália, foi a primeira a flertar com o garoto. Turim, cidade moderna, passeio à margem do Rio Pó, a ligação com os babos e com as mammas, pátria de Andrea Pirlo e Del Piero, a possibilidade de jogar a Champions League com Buffon, Khedira, Daniel Alves e Dybala, dois títulos continentais, dois mundiais. Gabriel Jesus chegou a acionar os assessores para que o matriculassem num bom curso de italiano, até porque a segunda investida forte também veio da terra da Bota. A Inter de Milão sondou os empresários do boleiro. Enquanto a boataria crescia, o moleque, bem assessorado, o vírus do midia training já devidamente inoculado no sangue, tratava de despistar e de fazer juras de amor ao Palmeiras, sempre com sorriso no rosto, garantindo que sua intenção era cumprir o contrato até o final de 2019. 'O Palmeiras é minha casa, minha verdade, minha vida'. Bem-aventurados os que permanecem, porque deles é o reino da Academia. Mas... as cruzadas pelo futebol do brasileiro atravessaram a fronteira, saindo do berço do cristianismo para desembarcar na Espanha não menos fervorosamente católica. Perigo à vista. Catalunha versus a Capital. Guerra Civil Espanhola. O Barcelona despachou olheiros para acompanhar jogos do Palmeiras no Parque da Velha e Boa Aliança. Negócio fechado. A tentação é grande. Afasta esse cálice. Vale a pena ser reserva de luxo de Neymar, Messi e Suárez? O contrato não chegou. Esfriou. O Real Madrid, atual campeão europeu, deu o bote e decidiu usar a influência de Ronaldo Nazário, sempre próximo do clube merengue e conselheiro de Gabriel Jesus, para tentar seduzir o atacante. Os vendilhões do Templo não sossegaram. A Arca de Noé cruzou o oceano. Foi parar na Grande Ilha. Na Granja Comari, no intervalo de um dos treinos da olímpica, o celular do garoto (ainda) do Verdão tocou. Inglaterra. Manchester. Do outro lado da linha, um sotaque meio catalão, meio espanhol, um tanto alemão bávaro, já com pitadas de inglês. Pep Guardiola. O deus dos professores-treineiros. Quinze minutos. 'Sim, professor. Entendo, professor. Claro, professor. Puxa, imensa alegria. Quem não quer jogar no seu time, professor? Pode contar comigo'. Fechado. Trinta e dois milhões de euros, cento e quinze milhões de reais. Pai Nosso. Salve, Rainha. Ave, Maria. É muita grana. O Palmeiras ficaria com cerca de dez milhões de euros (30% dos direitos econômicos). Mas ainda tentaria avançar e abocanhar mais uma bolada do percentual dos empresários e investidores (porque jogador de futebol é fatiado em vários filetes). Agora vai. Negócio fechado. Nada. Ainda não. Não cobiçarás o jogador pretendido pelo próximo? Esquece. José Mourinho, o agora todo-poderoso treinador do outro gigante de Manchester, o United, fez birra e resolveu deixar explodir a rivalidade dos infernos (perdão, Jesus) vivida com Guardiola nos tempos de Barça x Real. Entrou no circuito e exigiu a contratação de Gabriel. A oferta: trinta e cinco milhões de euros. Milagre da multiplicação da grana. Duelo de titãs. Anjos e demônios. Virou questão de honra. De camarote, o Palmeiras se delicia com o leilão. Espera chegar aos quarenta milhões de euros. Negócio. Não roubarás. Por tudo que é sagrado. À noite, na Granja, Gabriel Jesus rezou. Demorou a dormir. O sono foi agitado. Teve visões. Esteve no paraíso. Jogando futebol, claro. Subiu o túnel e entrou em campo com a nove listrada, clássica, preta e branca. Juventus. Quando o aquecimento começou, vestia uma listrada. Azul e preta, belíssima, sem número. Internazionale. No primeiro toque na bola, saída de jogo, viu-se com a famosíssima, imponente e respeitada grená e azul. Barcelona. Ao tentar o drible, sofreu falta. Preparou-se para a cobrança. Olhou para o telão. Ajeitou o uniforme todo branco, liso. Real Madrid. Mirou o ângulo. Camisa azul celeste. Manchester City. Com o manto vermelho sangue vivo do Manchester United, viu a bola passar por cima da barreira, fazendo exatamente a curva e o caminho que tinha imaginado. Acordou entusiasmado, mas sem saber se a pelota tinha entrado. 'Será que foi gol?'. Sentou na cama. Aproveitou para tomar um gole d'água. Garganta seca. 'No meu paraíso não tinha camisa verde'. Fez o sinal da cruz. Voltou a dormir.