Acho que o pequeno Daniel, 5 anos, nem calcula o quanto me ensinou ontem (sábado).
Andávamos pela avenida Paulista de mãos dadas, hora do almoço, um vento gelado. Brincávamos e ríamos. Ele só pensava em parar em uma banca para comprar o álbum de figurinhas da Copa América. A mãe e a irmã caminhavam um pouco à frente. Em sentido contrário, passou uma senhora que tinha os pés virados para trás. Notei que o pequeno acompanhou atentamente e durante um bom tempo a cena, o percurso feito pela mulher. Fiquei em silêncio. Ele esperou um pouco. Mas não se conteve.
- Pai, aquela moça que passou tinha problemas nos pés, né?
- É, filho.
- Mas ela fazia força e conseguia andar. Muito legal, né?
- Muito bom mesmo.
- E ninguém deve tirar sarro dessas coisas, né? É preciso respeitar.
- Com certeza. Não há motivo algum para tirar sarro.
- As pessoas são diferentes, né?
- Isso mesmo.
Alguns quarteirões adiante, olhos novamente atentos às esquinas, Daniel emendou nova conversa.
- Pai, não é justo essas pessoas morarem na rua, né? Todos deveriam ter suas casas, para não passar frio. Está muito frio hoje. Estou até com a mão no bolso!
Sem perder tempo, emendou:
- Pai, o pai do céu existe?
- Algumas pessoas acreditam que sim, filho.
- Você acredita?
- Não. E você?
- Eu acredito um pouco, mas também não acredito um pouco.
- Como assim?
- É que eu acho que ele faz coisas boas, mas também faz coisas ruins.
- O que você acha que é ruim?
- Ele deixar ter moradores de rua.
Apertei a mão dele. E estalei um beijo na testa do pequeno.