domingo, 22 de março de 2015

PANELAS SELETIVAS

O doleiro Alberto Youssef afirmou, em um daqueles tantos depoimentos que fazem parte do processo de delação premiada, que o senador Aécio Neves recebeu recursos públicos desviados de Furnas, em esquema que também envolvia o então deputado federal José Janene, do Partido Progressista (PP). Não, fique tranquilo, meu caro, apurei e chequei. Não é denúncia de um daqueles insuportáveis blogueiros sujos. A declaração de Youssef foi gravada pela Justiça em vídeo, divulgado até mesmo pelo insuspeito jornal O Globo. Mesmo com a revelação explosiva, o boletim do tempo anunciado pelo Instituto DataClimadeAferiçãodeIndignações mostra temperatura amena aqui na vizinhança, tudo calmo e tranquilo. Céu de brigadeiro. Sem previsão de chuvas ou trovoadas, nem tempestades de raios. Barulho, gritaria? Ao contrário. Reina o silêncio. Nada de panelaços. O Tribunal de Justiça de São Paulo aceitou denúncia feita pelo Ministério Público contra empresas acusadas de formação de cartel para obter contratos privilegiados com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) durante governos tucanos em São Paulo, no escândalo que ficou conhecido como trensalão do PSDB. Natural que as narrativas jornalísticas sobre essas tenebrosas transações concentrem suas falas e holofotes sempre nas empresas, saindo de fininho e caladinhas quando se trata de lembrar que funcionários e políticos com penas menos ou mais nobres teriam participado da farra. Jornalismo é a arte de convencer o público a engolir teses pré-estabelecidas. Não? Melhor versão possível da realidade? Está lá, aceito o convite, vamos pensar juntos. É, faz sentido, não dá para falar em corrupção e corruptores sem que apareçam os corruptos, os bacanas que, na máquina pública, facilitaram os negócios para o cartel privado, obviamente tendo sido recompensados por tal generosidade. É... sei lá, talvez seja um estranho caso de corrupção... sem a presença de uma das pontas cruciais da engrenagem. Segurem aí, vou correr lá para a janela, porque agora vai. Barulho infernal! Todos juntos! É corrupção das grossas! Fora, corruptos! Nada. Panelas caladas, ausentes. Só consigo ouvir o tilintar dos pingos de chuva batendo no vidro. Além de continuar trabalhando, a garantir desde que o homem saiu das cavernas que não vai faltar água em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin, vejam vocês, tremenda coincidência, só pode ser, nem pensemos outra coisa, por favor, recebeu durante a última campanha eleitoral quase 80% (uns 13 milhões, quantia irrisória) dos 16 milhões de reais doados pelas treze empresas denunciadas por formação de cartel. Nada de estranho, ao contrário, as doações são todinhas legais e certamente foram feitas por conta dos lindos olhos do excelentíssimo governador, a enorme capacidade de comunicação dele, a eficiência administrativa no cuidado com a crise hídrica e o contingenciamento da reserva técnica do sistema Cantareira, jamais por relações perigosas passadas ou futuras entre os setores público e privado. Isso não existe. Intriga da opisição. Exatamente por essa razão é que as pessoas estão à toa na vida, a observar das janelas o ônibus que sobe preguiçosamente a ladeira, quase vazio, a ocupar inúteis faixas exclusivas. Sem bater panelas. Cem mil professores estão em greve no estado de São Paulo. Não querem só reajuste de salário, importante também, mas redução do número de alunos por sala de aula, bibliotecas e laboratórios funcionando e com bons acervos, critérios transparentes de contratação. Com expressão enfadonha - claro, ele tem mais com o que se preocupar, minha gente -, Geraldo vem a público para dizer que "todo ano é a mesma novela". Que saco, já cansou. Vale a pena ver de novo. É tudo o que o digníssimo tem a dizer sobre o movimento dos educadores. Por enquanto. Não demora muito e vai soltar os "baderneiros, arruaceiros, uma minoria de radicais". Sempre da minha janela, consigo ver as panelas a repousar nas mesas dos meus vizinhos, arroz, feijão, batata e bifinho acebolado, almoço de domingo sendo servido e deliciosamente degustado. Não dá, claro, para bater nelas. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), nosso Rasputin na presidência da Câmara dos Deputados, comunica em plenário um comunicado comunicando a comunicação que demitiu o ministro da Educação, Cid Gomes. Achacadores é muito bom. Cunha, que está na lista enviada pelo procurador-geral da República ao Supremo Tribunal Federal, não gostou da palavrinha. Palavrão. E, que surpresa, tem oráculo da grande mídia tornando mais nobre a lista das contas secretas no HSBC da Suíça (aquelas que serviam para valorizar dinheiro que depois era reinvestido no Brasil, em obras sociais. Ou não). Sonegação? Lavagem de dinheiro? Propina? Será? Não posso crer. Tem uns sobrenomes bem conhecidos na relação. Marinho, Saad, Frias... nossa, um daqueles carrões super chiques desceu desembestado a ladeira que observo aqui do quinto andar. Pista molhada, derrapou na esquina, cantando pneus. Quase atropelou uma senhora que atravessava na faixa de segurança. Foi xingada de tudo quanto é nome. Deu para ouvir tudinho daqui. Sem panelas, por obséquio. Não é o caso. Não vamos banalizar o protesto. Enquanto Paris e Madri definem a proibição de circulação de carros nas áreas centrais das duas cidades, o Ministério Público de São Paulo mandou a Prefeitura interromper a construção de ciclovias e ciclofaixas na cidade de São Paulo. Por falar em faixas, acho que vi algumas na avenida a pedir golpe. Não eram poucas, isoladas. Uma delas exigia "intervenção militar constitucional". Fora, Paulo Freire, seu marxista! Vá para Cuba! Vamos substituí-lo pelas filosofias de educação de constantinos e reinaldos. Quem é Paulo Freire? Empresta o celular? Posso usar o google? Ele já morreu? Sério? Faz tempo? No Congresso Nacional, a Frente Evangélica Parlamentar sugere boicotar a novela "Babilônia", por conta do beijo das atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Tirem da sala as crianças da tradicional família brasileira. Altruísta, o deputado federal cabo Daciolo (PSOL-RJ), destoando do restante do partido, achou por bem prestar homenagem aos policiais militares acusados de assassinar o pedreiro Amarildo de Souza. Razões de sobra para contestação. Panelas, panelinhas, paneleiras, paneladas, panelões ensurdecedoramente guardados nos devidos armários. Tudo na mais perfeita ordem. Lá fora, sinfonia de maritacas. A chuva passou. Reeleito em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu jura por deus que jamais irá permitir a criação do Estado da Palestina. Devo ter perdido um capítulo da história. Houve algum momento em que ele considerou essa possibilidade? Na Tunísia, o Estado Islâmico matou 21 pessoas que visitavam um museu. Em mesquitas no Iêmen, pelo menos mais 137 mortes assumidas pelo EI. Numa cidade do nordeste da Nigéria, foram encontradas, debaixo de uma ponte, amontoadas, 70 ossadas de vítimas do grupo fundamentalista Boko Haram. Aposto que agora o vizinho que vem sempre com panela e bumbo vai tocar bem alto. Muito alto. Extremamente alto. Errei. Deve estar cochilando. A sesta depois do almoço. Estão também descansando, as panelas. Os dias têm sido agitados. Precisam estar com espíritos renovados para quando a presidenta Dilma Rousseff aparecer novamente no Jornal Nacional. Aí, sim, vocês vão ver. Caçarolas, frigideiras, alumínio, barro, inox e cerâmica vão cantar e gritar bem alto de novo. Muito alto. Sem parar. Com direito a xingamentos e palavrões. Sinfonia paneleira seletiva dos raivosos.          

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