sábado, 15 de novembro de 2014

SE OS GRAÚDOS DAS EMPREITEIRAS RESOLVEREM ABRIR O BICO...

Um espectro ronda a disputa política nacional. É uma assombração que faz uma força danada para referendar a falsa premissa que sugere que a luta contra a corrupção é uma pauta exclusiva dos conservadores, dos partidos políticos localizados à direita do arco ideológico e sobretudo dos pitbulls midiáticos que se tornaram especialistas em semear ódio na sociedade. 

Pois esse fantasminha nada camarada mente. As esquerdas, os progressistas, também não aceitam e rechaçam com veemência as relações perigosas e espúrias entre os setores público e privado, o desvio de verbas, o pagamento de propinas, os caixas dois, jamais se anunciando coniventes com licitações fraudulentas ou obras conseguidas a partir de jogo de cartas marcadas. Não há como pensar em transformações de ordens ou avanços sociais significativos sem considerar e respeitar sobretudo o interesse coletivo, o bem público. As esquerdas sabem disso.    

A diferença - é aí essa divergência é brutal - manifesta-se no tratamento narrativo que se dá ao tema  corrupção. É uma guerra de discursos. Para a direita, esse é um debate meramente moralista, o "mar de lama que detona a República", uma fala superficial que separa "os puros dos sujos", os "éticos dos malandros", que seletivamente aponta o dedo para quais casos devem ser investigados (sempre aqueles localizados no jardim vizinho) e que se recusa a entender e combater as raízes mais profundas do problema. Não se pretende alterar o status quo. As esquerdas procuram enfrentar essa discussão a partir da análise política. Para além dos mocinhos e dos bandidos - afinal, seres humanos somos todos marcados por deslizes e contradições, as dores e as delícias de sermos o que somos -, é preciso encarar as mazelas e fraturas do sistema, para atuar sobre as causas, e não apenas em relação às consequências. 

Exemplo: enquanto a direita grita "petralhas corruptos, vivemos numa cleptocracia", as esquerdas consideram prioridade rever o financiamento de partidos e de campanhas políticas no Brasil, relação que está no cerne de todos os escândalos (independentemente da coloração partidária, do mensalão ao metrô de São Paulo) recentes (e ancestrais) vividos no país. Os milhões de reais doados por empreiteiras a candidatos de todos os grandes partidos não são entregues a fundo perdido. A fatura é sempre cobrada. E os governos de plantão, para além das siglas, rendem-se ao "é assim que funciona" para, em nome de uma suposta "governabilidade", aproveitar tais oportunidades para cobrar pedágios e alcançar recursos que vão custear campanhas que são milionárias e cada vez mais caras, além de bancar alianças.

As prisões de altos executivos de grandes empreiteiras nacionais representa, portanto, para as esquerdas, enorme avanço democrático. Não assustam - ao contrário, é pauta da agenda política progressista bastante antiga. Agora não mais apenas simbolicamente, mas a partir de ações concretas, a mensagem que pode estar sendo transmitida à sociedade é que não basta apenas atuar sobre os corruptos - é fundamental atacar também os corruptores. Sem privilégios ou condescendência com o andar de cima, os abastados da nação. 

E, se de fato os graúdos empresários resolverem abrir o bico e contar tudo o que sabem, sem manipulações instrumentalizadas nem depoimentos oportunistas ou seletivos, a base política de apoio da presidenta Dilma Rousseff vai sangrar. E não vai ser pouco. Que seja assim. Mas os tucanos e demos que agora comemoram com sorrisos efusivos e esfregar de mãos incontidos - insisto, se a disposição para investigações for ampla e irrestrita - em breve deverão estar também chorando. As barbas - e as penas - devem ser colocadas de molho. Que seja assim também. Não há santinhos nessa história.  

Nessa nova etapa da mesma guerra de narrrativas, as oposições já colocaram as tropas em movimento. O roteiro é velho conhecido - fazer dos desmandos na Petrobras mais um capítulo de uma saga que tem como único e exclusivo protagonista o PT. A intenção evidente é restringir as apurações à administração petista. Os "puros" saem a campo justamente para, dedo em riste, denunciar "o maior escândalo da história da República" e reivindicar o monopólio da ética. O objetivo político é claro: desgastar o governo Dilma. Respeitados os marcos da democracia, essa disputa não é só legal - é legítima. 

Mas vale lembrar que, até agora inconformados com o resultado das urnas, não são poucos os setores e atores que militam na oposição dispostos a investir na máxima lacerdista do "não pode ganhar. Se ganhar, não pode assumir. Se assumir, não deve governar". De forma irresponsável, apostando fichas num inaceitável terceiro turno eleitoral, flertando perigosamente com serpentes golpistas e vozes truculentas que chegam das ruas, não medem esforços para quem sabe ganhar no grito algo que não foram capazes de alcançar por meio dos votos.Ao agir dessa maneira, não só colocam em risco o regime democrático como só fazem destilar ódios que vão dramaticamente contaminando nosso cotidiano (vociferações intolerantes e preconceituosas contra nordestinos e delírios separatistas são apenas a pontinha desse iceberg).  

A tarefa das esquerdas é movimentar as placas tectônicas e cobrar da Polícia Federal e demais instituições que as investigações não parem, que sejam profundas e que não escolham contas bancárias ou siglas partidárias. A Camargo Correa, por exemplo, que já escapou da Operação Castelo de Areia, interrompida sabe-se lá por quais pressões (ou talvez tais interesses sejam bem conhecidos, vai saber...), é uma das responsáveis pela construção do Rodoanel de São Paulo. Vamos falar da Dersa e de Paulo Vieira de Souza, mais conhecido nos meios políticos e empresariais como Paulo Preto? Vamos falar dos indícios fortíssimos que sugerem que foram desviados cerca de 425 milhões de reais do Metrô de São Paulo, com farta distribuição de caixinhas para políticos e gestores públicos, durante os já longos e fartos anos de administração tucana no estado? Vamos falar das doações milionárias das empreiteiras nesta última campanha eleitoral, beneficiando com polpudos valores tanto o caixa de Dilma quanto o de Aécio Neves? OAS, Andrade Gutierrez, UTC e Odebrecht estão no topo da lista dos maiores doadores das duas campanhas - petista e tucana. 

As empreiteiras não escolhem bandeiras ideológicas. Fazem negócios - não raro, negociatas. Querem ganhar contratos públicos. Em qualquer governo. Por consequência e coerência, investigações sobre essas grandes corporações não podem se retringir a um partido específico. Polícia Federal, follow the money. Todos os 'moneys'. 

Por fim, modesta sugestão à presidenta Dilma: nessa guerra política e de narrativas que pode de fato levar a resultados históricos, silenciar e fingir que nada está acontecendo não é a melhor estratégia a recomendar aos generais.   

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