sexta-feira, 10 de outubro de 2014

SOBRE PETROBRAS, DELAÇÕES PREMIADAS E JORNALISMO

Vou tentar brincar de ligar os pontos. Peço só um tiquinho de paciência.
Há denúncias - o que significa dizer ponto de partida para investigações, não conclusões cabais - de corrupção na Petrobras. É evidente que o Judiciário deve entrar em cena e investigar, com rigor, independentemente das colorações partidárias, sem comportamentos seletivos. Corruptos e corruptores (há grandes empreiteiras denunciadas também, não? Hum...). Seguindo os trâmites legais. Investigação demanda persistência, paciência, cautela, responsabilidade, justamente para não antecipar etapas ou cometer injustiças. Pode ser um processo longo, em geral mais demorado do que demanda a histeria por 'justiça' (ou seria vingança, chantagem?) de muitos 'formadores de opinião'.
Pois bem. Aparecem então um ex-diretor da Petrobras e um doleiro que, para escapar de condenação que poderia chegar a 50 anos de cadeia, se oferecem voluntariamente para fazer delação premiada. Trocando em miúdos, temos aqui a velha deduragem, como se dizia lá na minha vila. Nesse momento, os dois podem falar o que quiserem, o que der nas telhas deles. Ao se colocarem nessa posição, os sujeitos reconhecem e assumem ter cometido crime(s). São réus confessos. Estão acuados, isolados, assustados, guardam rancores e ressentimentos. São metralhadoras cheias de mágoas. Talvez (e aqui vai uma suposição) estejam raciocinando da seguinte maneira: 'eu caio, mas não vou sozinho', comportamento bastante comum nessas situações. É da natureza humana.
O processo corre em segredo de Justiça - ou seja, até aqui tudo o que se diz só pode ser de único e exclusivo conhecimento dos agentes públicos envolvidos na investigação. Ninguém mais. Exatamente para ainda preservar inocências, já que as provas não começaram a ser apuradas e levantadas. A Petrobras não consegue ter acesso aos depoimentos. Mas as gravações vazam, na íntegra, para veículos de comunicação. Quem vazou? Porque essa prática, salvo engano, também é criminosa.
Sem se importar - porque, claro, a imprensa nunca comete crimes, é sempre e eternamente perfeita e imaculada, infalível, neutra e imparcial -, o Jornal Nacional, principal telejornal da mais importante emissora de televisão do país, exibe, em horário nobre e para todo o Brasil, matéria de dez minutos sobre o tema, com trechos das gravações. Por coincidência, a veiculação se dá na noite da quinta-feira em que são divulgadas as primeiras pesquisas eleitorais do segundo turno (decepcionantes para o candidato tucano e para o deus mercado, que esperavam vantagem bem mais significativa sobre a adversária petista) e também quando o horário eleitoral gratuito é retomado.
As denúncias (até aqui sem provas) reverberam em rádios, portais, jornais impressos. O panfleto da Abril não deve ficar de fora da sinfonia, no final de semana. Cria-se um círculo (circo?) midiático vicioso, que se auto-alimenta. Todo esse material provavelmente será usado à exaustão pelas peças publicitárias da campanha e pelo próprio candidato do PSDB, nos debates que se avizinham. Ao que tudo indica, os depoimentos que compõem a delação premiada serão fatiados em doses homeopáticas, ao longo das próximas duas semanas - período que corresponde ao segundo turno da eleição. Coincidência novamente, claro como a luz do sol.
Aprendi com os muitos advogados que há na família - pai, mãe, irmãos, avôs, tios, primos - que um dos princípios basilares do Estado Democrático de Direito, inviolável, determina que 'todos são inocentes, até que se PROVE o contrário'. No Brasil, já faz tempo, estamos invertendo essa máxima, transformada agora em 'você é culpado porque eu quero e digo e dane-se se não conseguir provar sua inocência'. Pobre democracia.
E os veículos jornalísticos ainda alegam que estão "prestando serviço público", quando na verdade estão representando e publicizando poderosos interesses privados. Querem ter o direito de informar - mas se 'esquecem' que essa prerrogativa deve ser acompanhada do dever de fazê-lo com justiça, transparência, equilíbrio, honestidade e responsabilidade. Pobre jornalismo.
Pronto. Já podem me chamar de 'petralha corrupto'.

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