sábado, 6 de setembro de 2014

DESCULPAS? NÃO ACEITO

No estádio de futebol, partida transmitida ao vivo para todo país, não teve o menor pudor de berrar e de xingar de macaco o goleiro do time adversário. Mas foi sem querer, tensão do momento, o time estava perdendo. Arrependeu-se, chorou sem lágrimas. Pediu desculpas, a intenção nunca foi ofender. No programa de humor ou no palco de uma dessas comédias stand-up, contou piada fazendo troça da homofobia. Morreu de rir da própria fala, quase perdeu o fôlego, achando-se estratosfericamente engraçado. Aproveitou para dizer que judeus do bairro de Higienópolis não querem metrô porque a última vez que eles chegaram perto de um vagão de trem foram parar em Auschwitz. Como tudo era afinal só mesmo um espetáculo, show, entretenimento, não perdeu a oportunidade de tirar sarro também dos nordestinos, que não reclamam de viver sem água, sem eletricidade e sem papel higiênico. Mas foi tudo piada, tranquilo, sem essa de politicamente correto, por favor, o que se desejava era só fazer rir, sem ofensas ou preconceitos. Achou tudo tão normal e inofensivo que nem precisava pedir desculpas. O garanhão engravatado desferiu uma violentíssima cotovelada no rosto da moça que tentava falar com ele. A garota foi parar na UTI de um hospital, traumatismo craniano. O mancebo disse que agiu por impulso, sem pensar, ela estava enchendo o saco. Perdeu o controle. Nada de machismo, violência contra a mulher. Culpa de um instinto instantâneo. Pede desculpas. O governo federal não tem muito a fazer sobre os casos de racismo e a respeito dos assassinatos de negros. Mas pede desculpas. A candidata que tinha incluído no programa de governo a aprovação da lei que criminaliza a homofobia e o casamento de homossexuais pede desculpas, mas não era bem isso, houve um erro de diagramação. Sumiu tudo, num passe divino de mágica. O candidato com penas não tem mesmo muito a dizer sobre a violência contra a mulher. Nem pede desculpas. Não está preocupado com o tema. Sem que ninguém pedisse desculpas, quarenta mil negros foram assassinados no Brasil em 2013, a imensa maioria nas periferias, franjas e favelas das grandes cidades. Higienização social. Podemos dormir tranquilos. Não há racismo no Brasil. Sem que ninguém peça desculpas, um homossexual é assassinado a cada 26 horas no Brasil. Intolerância perversa. Não estressem, a homofobia é realidade apenas de outros países. Aqui, não. Sem qualquer pedido de desculpas, foram quase 50 mil os estupros registrados no Brasil em 2013, sem contar os casos não notificados pelas mulheres humilhadas. Sem desculpas. A culpa, lógico, é de quem sai com roupas provocantes na rua. Está pedindo para ser atacada. Se souber se vestir e se comportar como menina de bem e de família, nada vai acontecer. Amém. Caros, me desculpem. Não há desculpas. 

Um comentário:

  1. Muito bom. Chico. É isso mesmo. E ainda contamos com esses "pedidos de desculpa" apenas quando a câmera aponta. Então é mais "fácil" criminalizar a mulher que cometeu crime de injúria racial do que a torcida inteira que estava gritando.. Brasil.

    ResponderExcluir