quinta-feira, 31 de julho de 2014

RECEITA PARA CHEGAR AOS 50% DE VOTOS

Há coisas na vida que, confesso, já desisti de entender. Por exemplo: os 50% de intenção de votos em certo governador tucano que administra o maior estado da nação e, candidato à reeleição, provavelmente sairá vencedor da disputa já no primeiro turno. Trata-se de fenômeno que escapa das minhas modestas capacidades de análise. Indecifrável. Já pedi até ajuda aos universitários. Refugaram. Passaram a vez. Tentei recorrer às ciências políticas, à sociologia adorniana e da Escola de Frankfurt, à ideia dos aparelhos ideológicos do Estado, à reificação da mercadoria, aos estudos culturais latino-americanos sem dinheiro no banco, aos realistas, aos idealistas, à geometria analítica, à teoria dos conjuntos, à regressão à média, ao teorema de Pitágoras, ao como queríamos demonstrar e à análise combinatória. Em momento de desespero sufocante de necessidade de compreensão, apelei de olhos fechados para as ervilhas amarelas e verdes, tentei fazer como aquele descabelado linguarudo e apostar corrida com a luz, recorri à física quântica e à bioinformática, fui estudar de novo cálculo estequiométrico e gritei 'socorro' para o acelerador de partículas que conseguiu confirmar a existência do Bóson de Higgs.Nada funcionou. Nadinha. Não há cristo (nem mesmo ele) que consiga me apresentar explicações minimamente convincentes para tamanha tragédia que se anuncia. Um segundinho... Num estalo que veio como faísca, acabo de lembrar de um conto do mestre Machado, chamado "Teoria do Medalhão". Em linhas bem gerais, e assumindo o assassinato literário (me perdoe, Bruxo do Cosme Velho), a história sugere o que fazer para ser um medalhão - aquele sujeito bacana, boa pinta, líder de equipes, que jamais manifesta opinião própria, abusa dos clichês de linguagem e reproduz o senso comum para cair no agrado de todos. É um libelo contra a mediocridade que contamina as sociedades. O cretino que convence. Será que é por aí? Vai ver talvez então exista uma fórmula para cair nas graças da população, bater 50% no Ibope/Datafolha e reeleger-se em primeiro turno. O que fazer? Prioridade número um - arrebentar os reservatórios de água do Estado. Puxar deles até o que não têm. Volume morto nas torneiras! Algum técnico boi de piranha se encarrega de garantir que a situação está sob total controle e que não será preciso adotar racionamento. Importante também é prometer quilômetros e quilômetros de metrô, estações espalhadas por todas as regiões da capital do estado, exibindo gráficos mirabolantes e coloridos e animações impressionantemente futuristas e escalafobéticas durante a campanha. Para depois deixar todas essas promessas dormirem tranquilamente em gavetas da administração. O que sair do papel terá certo custo extra, não previsto nos orçamentos originais, recursos não contabilizados, sabem como é, umas relações, sei lá, meio esquisitas com empreiteiras e empresas estrangeiras, uns negócios chamados pela Justiça de propinas (palavrinha esdrúxula, nem sei o que é isso), uns depósitos amigáveis em contas de figurinhas carimbadas. Aposte ainda em deixar o poder público ser submetido aos ditames do crime organizado. Mas garanta sempre, nas entrevistas coletivas e não coletivas, que a organização criminosa foi destroçada, não ameaça mais nem mesmo uma formiguinha. Jogo de cena. Espetáculo. Não esqueça. Em protestos de rua, deixe a Polícia Militar descer o cacete e o cassetete nos manifestantes. Democraticamente. Convoque a Tropa de Choque. Viaturas. Bombas de gás lacrimogênio. Balas de borracha. Meta a bota na porta e faça a limpa nas periferias e favelas. Poucos são mesmo os que se importam com o que acontece com nessas franjas infestadas de bandidos. Governe para os homens de bem. Sucateie Saúde e Educação. Não repasse verbas para a Santa Casa. Desvalorize os professores. Arrende as estradas, a preços de ocasião, autorizando a cobrança de tarifas de pedágio escorchantes. Vinte e cinco contos para andar cinquenta quilômetros, descer a Serra do Mar e desembarcar na Baixada. Se o trânsito enroscar, rasgue mais pistas marginais. Com asfalto do bom e do bonito, claro. Transporte público? Nem pensar. Jamais atrapalhe a vida dos motoristas de carrões. Finalmente, sempre que questionado, escancare sua expressão de picolé de chuchu e repita bem pausadamente o ensaiado "estamos trabalhando. Já instalamos comissão para investigar o assunto. O que nós queremos é trabalhar para as pessoas. A culpa é do PT". Funciona. 50% de votos! Por quê? Não faça pergunta difícil. Continuo não sabendo. Mas vou correndo lá reconhecer firma, registrar em cartório e solicitar patente desse método infalível. Antes que algum marqueteiro aventureiro lance mão dele.

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