segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O MENSALÃO ERA DO PT. O METRÔ DE SÃO PAULO? DE NINGUÉM...

Vamos lá, um pouquinho mais sobre a arte midiática de esconder o autor e o crime. Manchete de primeira página do "Estadão" de hoje: "MP negocia delação para apurar propina em cartel".

Numa aula de Jornalismo para alunos do primeiro semestre, usaria esse exemplo para mostrar que temos aqui um título garboso e pomposo que diz... nada. Absolutamente nada. É o clássico anti-jornalismo, aquilo que, em nome do interesse público, não devemos fazer.

Perguntinhas básicas, sempre pensando na precisão da informação: Ministério Público de qual estado? Consequência lógica: quem é o governador desse estado? Seguinte: e a qual partido ele pertence? Mais: a propina foi paga a quem, por quem e para quê? Por fim, que cartel é esse?

Muitos agora vão responder "tontinho, é só o título, não dá para resolver tudo no título". Verdade. Vamos ao conjunto da obra. Linha fina: "acordo pode identificar pagamentos a agentes públicos no processo de compra e manutenção de trens em São Paulo". Agentes públicos? Sei não... genérico demais, não parece? Cabe muita gente nessa expressão. Apareceu "São Paulo". Ponto.

Li então o texto da capa. Tem 27 linhas, três colunas. Fala em "metrôs de São Paulo e Brasília". Não são citados, em trecho algum, os nomes dos três governadores do período em questão: Mario Covas, Geraldo Alckmin e José Serra. São "contratos assinados entre 1998 e 2007". Pasmem: não aparece no texto, em momento algum, uma sigla mágica, que jornalisticamente faz toda a diferença: PSDB. Repito: para a matéria do Estadão, na capa, essas quatro letrinhas, juntas e nessa ordem - PSDB -, não existem.

Pois é assim que se dá uma manchete, sem que se dê a notícia. Se for pressionado, questionado, o jornalão vai dizer "fizemos nossa parte, abordamos o assunto, não temos rabo preso com ninguém". A questão não é só dar destaque para o assunto, mas o tratamento (discursivo, sobretudo) que a pauta recebe.

A seguir o exemplo do "Estadão" de hoje, e se é verdade que esse tipo de manchete basta, é suficiente, deveríamos ter lido, em agosto do ano passado, algo próximo de "Tribunal começa julgamento de caso de corrupção". Certo? O que lemos, no entanto, em letras garrafais, foi algo parecido com "Supremo julga mensalão/mensaleiros do PT". Correto?

Porque, para os jornalões, há casos de corrupção que merecem ser detalhadamente revelados; em outros, o que se constata é malabarismo de discurso. Supostamente, informam. Verdadeiramente, escondem. Protegem.

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