terça-feira, 18 de junho de 2013

OCUPAMOS SÃO PAULO. E FOI LINDO.

























"Pai, se cuida, dá notícias", pediu Luiza. Dei um beijo estalado nela. Outro no Daniel. Prometi que tudo ficaria bem. Celular num bolso, documento no outro. Só. Se fosse preciso correr... Mas a tensão foi logo embora. Sai pra lá, PM, que hoje vai ser diferente. Nada de repressão. O Largo estava lindo, colorido, cartazes, balões, faixas, passeatas e caravanas que chegavam de todos os cantos, com todos os cantos. "O povo acordou! O povo acordou!"

Já não dava mais para avistar onde a multidão começava - nem onde terminava. Encontrei muitos, não encontrei vários, desencontrei de outros tantos, me perdi de alguns, lembrei de muita gente querida que não estava ali - mas estava ali. Recebi mensagens, fiquei sem sinal, a bateria do celular acabando. Revi alunos, ex-alunos - e como foi gratificante cruzar com vocês naquela imensa sala de aula. "O povo unido, jamais será vencido!". Arrepiei. Revisitei minha história, cada fragmento dela. São Bernardo, Diretas Já, 1989, outras campanhas eleitorais, caras-pintadas. Sorri sozinho, agradecido. No prédio à frente, projetado em laser, letras garrafais, era possível ler "Movimento Passe Livre". Aplausos.

Partimos. Ocupamos. Cada pedacinho dessa cidade. A marcha era de todos - e fomos todos iguais naquela noite. Mas ela era sobretudo dos jovens - livres, aguerridos, alegres, conscientes, politizados, irreverentes, engraçados. Deram o tom da conversa. Que tem norte político, sim, embora muitos insistam em dizer que "falta foco, que são mimados, estão despreparados". Acompanhei um rapaz de uns 18 anos de um movimento social de viés progressista olhar firme para um sujeito bem mais velho que carregava bandeira de um partido de esquerda e dizer, com serenidade, mas convicto: "cara, você quer substituir um sistema por outro sistema. Não dá. Entenda. Mudou. A história é outra". 

Tem nego que vai pirar. Porque é horizontal, de baixo para cima. É isso: não tem dono. Não tem 'capo'. Sem patrulhas, sem aparelhos. Sem rótulos ou ismos reducionistas. Escapa do convencional. É oxigênio renovado. Está dando nó nas cabecinhas de um monte de especialistas que adoram enquadrar. É anárquico, no melhor sentido da expressão, livre, soberano, desgarrado, rebelde; pulsa na batida e na voz do coletivo. Mas é político, insisto, e tem lado - quer discutir a tarifa zero, a violência policial, a mobilidade urbana, os gastos da Copa, a qualidade dos serviços públicos, o racismo, a homofobia. Explodiu. Ninguém segura. Vamos nessa. "Ô motorista, ô cobrador. Me diz aí se seu salário aumentou"


Evidente que há disputa, infiltrados, tensionamento, aparecem sempre os oportunistas que tentam surfar na onda e impor outras pautas, desviar as agendas. Inevitável. O fascismo à espreita. Não passarão. "Ei, reaça, saia dessa marcha!". Como escreveu o camarada Fernando Amaral, "a rua é de quem quer um outro mundo possível. Que venham novos ares". Acho que eles chegaram, queridão. Eu vi. Senti. Gostei. Passamos por lojas chiques, lanchonetes, restaurantes, prédios de luxo, bancos, ônibus que acabaram ficando ilhados. Os motoristas recebiam flores, eram convidados para fotos. Panos brancos chacoalhavam nas janelas. Em alguns pontos, chuva de papel picado. Em algumas vitrines, funcionários animados arriscavam passos de dança e coreografias.

Quando estávamos chegando à avenida Juscelino Kubitschek, tinha um mar de gente ainda cruzando a Rebouças, e uma multidão que já chegava perto da Marginal Pinheiros. 65 mil? Vocês estão de brincadeira! Mais, muito mais. E o tal do patrimônio público continuava intacto. Onde estão mesmo os vândalos, governador? Quem são os baderneiros? Qual é o protocolo de segurança que precisa ser seguido, meu caro prefeito? Depredações, quebradeiras? Quais? Onde? Para que bala de borracha, gás lacrimogênio, bomba de efeito moral? Vocês devem estar até agora em estado de choque - não, não falo da tropa, mas das expressões aparvalhadas dos dois. Continuam sem entender patavina. Até quando? "Que coincidência! Sem a polícia, não teve violência".

A essa altura, os joelhos doíam. A coluna doía. Mas a alma mandava continuar seguindo em frente. "Pula, sai do chão, contra o aumento do busão!". O que está acontecendo? Não sei. É novo, diferente. É muito bom. Vamos aproveitar. Que tal ouvir o que os jovens têm a dizer? Com a palavra, os protagonistas. "O povo acordou! O povo acordou!"

Quando voltei para casa, mais de onze da noite, feliz e cansado, enquanto muitos procuravam rotas alternativas, fiz questão de procurar o trânsito das multidões. Fui cair no meio da Paulista, sem tirar a mão da buzina, ainda encantado, enquanto muitos pulavam e festejavam em volta do carro. Escolhi sentir por mais um tantinho os ares e a alma de uma cidade que voltou a ser acolhida pelos braços do seu povo. Nas ruas.

Em casa, mais uma surpresa, olhos marejados, lágrimas: Luiza e Daniel tinham pendurado na janela um pano branco, para evidenciar apoio às manifestações. Obrigado, pequenos. Voltei bem, tudo certo, como combinamos. Bom sono. Preparem-se. Vem mais por aí. "Vem pra rua! Vem pra rua!". É a História. E, já dizia o poeta, o futuro não é mais como era antigamente.  O mundo é de vocês. Amanhã vai ser maior ainda.




9 comentários:

  1. Também estive lá, e você conseguiu expressar exatamente as impressões que tive. Foi lindo, foi do povo. Como você mesmo disse, não precisamos temer o povo. Não teve polícia e também não teve violência. Vi cenas que me fizeram acreditar novamente que as pessoas de bem são a maioria. Tive provas disso. Vi uma meia dúzia querendo bagunçar, chegaram a derrubar uma máquina de refrigerantes, que estava ao lado de uma banca de jornal, para saquear. Levaram uma enorme vaia, além de gritos de "Sem Vandalismo" e desistiram. Aí aconteceu algo lindo: pessoas se juntaram para levantar a máquina e colocar novamente no local. Não somos baderneiros. Nem vândalos. Somos pessoas do bem, querendo melhores condições para todos.

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  2. tudo muito legal...mas, cá entre nós, reacionários só poderiam existir no caso da revolução... Esta passou longe do Brasil... no que o país do pt difere do país do psdb? a economia é exatamente a mesma, com o mesmo círculo vicioso. as quadrilhas só mudaram de lugar, ou ficaram maiores...Por menos, outro maluco sofreu impedimento. Não tenho orgulho disso,mas não sou universitário.. No entanto penso ter uma boa visão do que é o país hoje, pois não tenho ufanismo partidário, da mesma forma que a maioria do pessoal que foi às ruas dizem querer distancia.

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  3. Leio esse texto com lágrimas nos olhos. Emocionante e comovente!

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  4. Eu tenho o maior orgulho de te ter como referência! Grande mestre. Grande gênio.

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  5. É isso... esse é caminho. O gigante acordou!

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  6. De um povo heróico, o brado retumbante!!!!
    Lindo de se ver, lindo de se ouvir, impossível conter as lágrimas.
    Tenho me sentido mais brasileira do que nunca. E aquela desesperança que insistia em oprimir meu peito, minha alma, está dando lugar para uma esperança linda e louca de que sim, nosso país ainda tem jeito. Vamos fazer por onde!!
    Vivian Marcondes

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  7. Esse texto mostra o que realmente sentimos e vivemos lá ontem na Sé. Foi Lindo! Foi emocionante!
    O povo acordou! Vem pra rua você também!

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