quinta-feira, 20 de junho de 2013

O MOVIMENTO NÃO DEVE NEGAR OS PARTIDOS POLÍTICOS

Já que estamos em momento de ebulição de ideias, aqui vão mais algumas, sobre tema que vem saudavelmente chacoalhando as reflexões de muitos companheiros. O fato é: o Movimento Passe Livre não é propriedade ou monopólio deste ou daquele partido - mas o MPL tem, organicamente, de forma marcada por disputas e contradições, conexões com partidos de esquerda, sobretudo com aqueles que se situam no que se convencionou chamar de esquerda radical. É um cenário de tensa independência, bem distante (e antes que as pedras comecem a voar) de cooptação ou de instrumentalização. Estão para além dos partidos, sem ser contra os partidos, como eles se definem. Já deu para perceber que a equação é complexa.

Parece-me arbitrário e anti-democrático, assim, gritar "sem partido" nas passeatas e exigir que esta ou aquela bandeira sejam abaixadas, retiradas (às vezes com violência) das marchas. Não tenho dúvidas de que os partidos no Brasil (para ficar no nosso caso específico) vivem tremenda crise de identidade e de legitimidade. Há desconfianças das mais distintas matrizes, sobretudo, arrisco dizer, por conta de um maniqueísmo empobrecedor que contaminou o nosso debate político nos últimos vinte anos e que aproximou, aqui e acolá, os discursos e as práticas do PT e do PSDB, com vernizes mais ou menos escuros ('privatizei menos, desonerei mais'...). 

Reconheço que o que está acontecendo nas ruas transcende esse 'sou legal, você é chato'. É algo novo, está em gestação, é quase anárquico (nas manifestações em Brasília, no estádio Mané Garrincha, na estreia do Brasil na Copa das Confederações, o comandante da PM estava transtornado por não reconhecer as lideranças do protesto, por não ter com quem negociar), horizontal, com forte presença nas redes sociais, a investir em coletivos. Precisa ser mais bem compreendido. Tem norte político. Oxigena. Renova. Faz bem.

Considero um risco tremendo, no entanto, a postura de negar 'a priore' os partidos políticos, por 'razões maiores' e em nome de um nacionalismo difuso, estranho e homogeneizador ('ah, sem bandeiras, só o verde e o amarelo, somos todos brasileiros, com muito orgulho e muito amor'). Quando são rechaçados dessa maneira, apolítica, a partir desse viés e régua, nos aproximamos perigosamente do que defendem os fascistas - contato direto com as massas, sem interlocutores ou intermediários. Daí para idolatrar a figura do grande líder (o fuhrer, o duce...) vai um passinho tão minúsculo, talvez imperceptível. 

Vá lá, reforçando, os partidos estão na berlinda, precisam se reinventar, restabelecer conexões com as ruas, abandonar os gabinetes de luxo. Sei lá (e quem sabe?) se serão incorporados, agregados, mimetizados, substituídos definitivamente por novos atores e forças políticas da democracia (essa palavrinha é fundamental para marcar posição). Mas, por enquanto, são interlocutores democráticos importantes, representativos, com destaque no jogo político. Não há (ainda) DEMOCRACIA sem partidos políticos.

Estou aberto aos novos ventos, sendo positivamente surpreendido a todo instante por turbilhão de novidades, por essa moçada bacana e inteligente, ouvindo e apreciando esse aprendizado tão bonito. Mas não vou embarcar nessa onda reacionária do "sem partido". Porque nós abrimos nas ruas a caixa de bondades, de sonhos, de utopias, de esperanças, de ampliação de direitos, de outro mundo possível. Veio junto, no entanto, a caixa de Pandora, horrorosa - e as maldades são muitas e estão soltinhas por aí, dos infiltrados no movimento aos reaças que invadem sorrateiramente as redes sociais e defendem as balas e o gás lacrimogênio da Tropa de Choque da Polícia Militar. 

Os desejos que surgem nas ruas são transformadores. Mas a direita tenta (e vai continuar tentando) se apropriar deles, ressignificá-los. É preciso estar atento e forte.   

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