sexta-feira, 26 de outubro de 2012

MEU VOTO EM HADDAD


Comecei a campanha eleitoral para a prefeitura da cidade de São Paulo raivoso, de péssimo humor, na defensiva e dizendo quase sempre "não", reconheço. Já não suportava mais uma cidade cinzenta, excludente, preconceituosa - foi essa a referência limitada, sim, que acabei por construir, um tanto pelo que representaram as últimas administrações demo-tucanas instaladas por aqui, um pouco graças a meu estado de espírito e um tanto mais por lidar diariamente com discursos de privilégios para "os diferenciados" e de vetos para os nordestinos e os moradores de rua que "enfeiam" a metrópole.

Tive vontade de sumir quando se concretizou a aliança do PT com Paulo Maluf, nos jardins da casa nos Jardins, tive muitas ressalvas ao processo de escolha do candidato do partido para a disputa municipal (ao caciquismo que abortou as prévias, não ao candidato por fim indicado, para deixar claro). 

Obviamente rechaçava com todas as minhas forças a política do ódio pestilento patrocinada por José Serra, a truculência dele na construção da candidatura, a guinada reacionária à direita, o flerte com forças nefastas e obscurantistas da sociedade, a tática do espalhar boatos, a disposição do tucano para invariavelmente detonar imagens e carreiras públicas de adversários, o comportamento autoritário que se revela de forma cristalina no trato com jornalistas, a obsessão ressentida e amargurada por derrotar o PT e chegar ao Planalto. Naquele momento, o fenômeno Russomanno ainda não havia sido anunciado, mas, claro, por coerência ideológica, já dizia não também ao projeto policialesco e de práticas de xerife do consumidor representados pelo comunicador. 

Foram os tempos do "não". 

Decidi me recolher, num exercício inicialmente solitário e introspectivo de reflexão. Precisei conversar muito comigo mesmo. Aliás, sinceramente, nessa minha já razoável trajetória de eleições e disputas políticas (o primeiro voto aconteceu em 1989), essa campanha muito provavelmente tenha representado um dos momentos máximos e mais significativos de pensar e repensar minha sempre apaixonada (e também turbulenta) relação com a política.

Passei a ouvir, muito, na maior parte das vezes em silêncio. Acompanhei diariamente o horário eleitoral gratuito, no rádio e na TV, o noticiário, os eventos de campanha, as discussões nas redes sociais. Vi todos os debates entre os candidatos. Fui até passar um final de semana no Rio de Janeiro, cidade sempre maravilhosa, para respirar outros ares, e reencontrar a jornalista e amiga de coração Mariana Sgarioni, peça-chave desse meu movimento de renovações.

Foram também fundamentais nessa caminhada a paciência e as conversas diárias com a alma gêmea e companheira Elisa Marconi, os conselhos sábios e diários dos filhos Luiza e Daniel, a fala do cineasta e cunhado Tiago Marconi, às vésperas do primeiro turno da eleição ("Nas duas experiências do PT à frente prefeitura de SP o que observei foi a cidade se tornar mais pública, o que ninguém pode honestamente dizer que vê nas experiências de Serra e Kassab. Tem menos gente na rua de madrugada, tem menos artistas de rua, tem rampa anti-mendigo"), e o grito de alerta da Lisandra de Moura, advogada, administradora de empresas e, mais do que tudo, amiga desde tempos remotos ("meu inarrefecível humanismo me leva a fugir dos programas políticos que desmerecem o homem, que desprezam alguns homens, que denegam ao ser humano o direito de existir com liberdade, de buscar sua evolução como bem entenderem. Me afasto de jeitos de pensar que banalizam a vida e a dignidade das pessoas"). 

Aos poucos, fui me reencontrando e me reconciliando com a cidade - não mais aquela carrancuda, mas a do povo nas ruas, nas praças, nas periferias, de uma cultura viva e pulsante, a São Paulo que se inventa e reinventa a cada dia. A São Paulo onde nasci e passei a maior parte de minha vida (pausa para homenagem agradecida a São Bernardo do Campo, onde atravessei a infância). Foi assim que abracei a candidatura de Fernando Haddad.

Minha convicção, hoje, é que podemos destravar e desprivatizar a cidade, resgatando seu sentido público, olhando para as franjas da megalópole, onde o Estado deve de fato se fazer presente. Penso que é possível requalificar o debate político, falar de direitos e de cidadania e não apenas de poder de compra e de consumo, para colocar em marcha projetos inovadores e democráticos nas áreas de educação, saúde, transportes, moradia, meio ambiente.

"Em Haddad se realiza um ideal de político equilibrado, que alia visão lúcida das prioridades e talento administrativo para realizá-las. Tem posições firmes, mas é capaz de dialogar. Transita com desenvoltura da universidade ao sindicato", escreve o jurista e ex-ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos. "Haddad tem uma proposta civilizatória, inclusiva, solidária e justa", completa a filósofa Marilena Chauí. "Quem acredita no direito luta por ele. E foi isso que vimos no desempenho notável de Haddad no Ministério da Educação. Ele usou o direito no melhor sentido, no sentido do instrumento da justiça. Sem fazer concessões, mas com sensibilidade. Estou com Haddad pois quero uma sociedade justa, em que todos tenham acesso a seus direitos", reforça o jurista Dalmo Dallari. "São Paulo vai voltar a ser um bem público", faz coro a psicanalista Maria Rita Kehl.

Meu voto, portanto, não é mais apenas o da negação, mas o da convicção responsável e consciente. Não é aposta cega numa panaceia, mas uma escolha alegre e crítica, que me permitirá certamente dialogar de forma altiva e independente com a nova administração, caso Haddad seja eleito. Sim, será um governo de coalizão, de alianças, marcado por contradições. Teremos divergências. Não estou dando cheque assinado e em branco - nenhum voto responsável acontece dessa maneira, certo? Mas manifesto a confiança em tempos mais coloridos e generosos, no sentido mais amplo - e político - que essas palavras possam carregar. É um voto que mistura razão e emoção - como também acontece com todos. É um voto afirmativo.

No próximo domingo, meu voto em Haddad será serenamente o voto do "sim". É possível viver em outra São Paulo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário