domingo, 17 de junho de 2012

PARA MIM, CONTINUA VALENDO: "MALUF NUNCA MAIS".



Nestes quase 25 anos de carreira jornalística, fui processado uma única vez. Aconteceu em 1992, durante as eleições municipais paulistanas. O autor da ação? Paulo Salim Maluf. Eu trabalhava na assessoria de comunicação do Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO-SP), ainda como estagiário, e em companhia de dois brilhantes colegas - Violeta Marien, minha chefe desde sempre muito querida e exemplo de competência e de caráter, e Nelson Breve, àquela época também estagiário, e atualmente na presidência da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com quem muito aprendi sobre a arte da nossa profissão. 

Em uma das edições do "Jornal dos Professores", editado pelo Sindicato, já no segundo semestre daquele ano, publicamos uma reportagem que resgatava o passado e a trajetória política de Maluf, então candidato à Prefeitura paulistana, na sucessão da prefeita Luiza Erundina (o candidato do PT era o atual senador Eduardo Suplicy). Jornalismo feito com espírito público, como exercício narrativo que garante o pleno direito à informação. 

Mas Maluf não gostou do que leu no JP (como carinhosamente chamávamos o jornal). Decidiu nos processar por calúnia e difamação. A matéria, no entanto, apenas trazia à tona fatos de pleno conhecimento público e estava sustentada por apuração bem feita e por documentos. Lembro-me que o Sindicato chegou a ser visitado pela Polícia Federal, que pretendia apreender a edição do jornal antes que fosse distribuído (se não me falha a memória, o fato aconteceu na tarde de 29 de setembro, dia da votação do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, quando a sede estava às moscas. Por isso, os jornais puderam ser posteriormente enviados aos professores). Recebemos da diretoria do Sindicato todo respaldo político e jurídico. Não demorou muito e a Justiça nos deu ganho de causa - a ação foi considerada improcedente e fomos absolvidos. Esta aí um processo do qual me orgulho.

Naquele mesmo ano, no dia do segundo turno da disputa municipal (acho que ainda ocorria em novembro), eu e um amigo acordamos bem cedo e passamos a manhã e o início da tarde fazendo campanha para Suplicy nas franjas do bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Estivemos ainda na Vila Mariana e, por volta das cinco horas, com as urnas fechadas, decidimos caminhar até a avenida Paulista, mais precisamente até o edifício da Gazeta, tradicional ponto de encontro da militância petista na cidade (pausa para um suspiro nostálgico). Andávamos cabisbaixos, irritados, os boatos sobre as pesquisas de boca-de-urna já indicavam vitória acachapante de Maluf. Na verdade, tínhamos consciência da derrota desde muito antes; ainda assim, fomos às ruas, porque entendíamos que a disputa não era apenas momentânea, eleitoral, mas de fundo, política, de projetos ideológicos. 

Quando estávamos chegando ao número 900 da Paulista, na ilha que separa as duas pistas da avenida, veio correndo em nossa direção (estávamos com bottons, bandeiras, adesivos e camisas do PT) uma típica eleitora malufista, toda saltitante, com uma bandeira na mão, e gritando despudoradamente para quem quisesse ouvir: "Acabou, acabou! Não vamos ter mais que aguentar essa nordestina nojenta e fedida! Não vamos mais aguentar esses petistas baderneiros". Referia-se à prefeita Erundina e ao PT que ainda botava medo nas elites brancas paulistanas. Minha reação e do meu amigo foi imediata e não precisou ser combinada: paramos os dois na frente dela, a um palmo de distância, rostos quase colados, sem dizer uma palavra. Mas nossos olhares foram tão fulminantes e cortantes e nossas expressões fechadas e ariscas estiveram tão carregadas de significados e mensagens que a garota murchou na hora, recolheu a bandeira e continuou caminhando em silêncio. 

Recorro a estes dois episódios para minimamente tentar resgatar e lembrar aos incautos e desavisados o que representa a figura pública chamada Paulo Maluf e quais são os valores políticos consagrados pelo malufismo. Para mim, é impossível esquecer que o filhote da ditadura, como muito bem definiu o saudoso Leonel Brizola, fez carreira a partir de sua estreita associação e colaboração direta com o regime dos militares e dos torturadores. Foi cúmplice ativo do arbítrio. Enquanto os militantes de esquerda morriam nos porões da ditadura, Maluf assumia a condição de liderança política nacional. 

É típico representante do "rouba, mas faz", idealizador do "estupra, mas não mata", autor do "professora não é mal paga, é mal amada". É o administrador das faraônicas obras superfaturadas pensadas para beneficiar as elites e os bairros nobres da cidade, ignorando solenemente as carências e as necessidades dos mais pobres e das periferias. Tem ojeriza à pobreza. É o gerente higienista que demoniza e persegue movimentos sociais, que criminaliza greves, incentivador das práticas assassinas da Rota e das mais diversas e torpes formas de violações de direitos humanos, expoente de um conservadorismo intolerante e excludente, de uma cidade para poucos, de uma "democracia" restrita e limitada (apenas para os ricos, limpinhos e bem vestidos), além de machista (o "dona" Marta não nasceu por acaso) e preconceituoso. 

Sou de um tempo em que a gente ia para as ruas fazer campanha usando bottons e distribuindo panfletos onde se lia "Maluf nunca mais!" (usei o que está estampado na foto acima naquela campanha de 1992). Também sou de um tempo em que o PT dizia, na voz de Marta Suplicy: "Cala a boca, Maluf!". Pois estou ficando velho. Ultrapassado. Anacrônico, como diria o companheiro Fernando Amaral. Porque, para a disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2012 (exatos vinte anos depois de processado pela matéria no JP e da garota ignorante na avenida Paulista), Paulo Salim Maluf acaba de selar aliança com o PT e irá apoiar Fernando Haddad!

Está certo, vá lá, o PP, partido de Maluf, já faz parte da base aliada do governo federal, comanda inclusive o Ministério das Cidades, ou seja, a besta-fera política foi gestada há algum tempo e já não deveria representar surpresa. Para alguns, é até normal, consequência lógica, natural, por que o estranhamento? Fico arrepiado. E, penso, há nesse episódio específico algumas nuances que o transformam em uma tragédia marcada por requintes ainda mais carregados de crueldade.  

Primeiro porque estamos falando da cidade de São Paulo, berço do malufismo - e, por relação dialética, também da resistência ao malufismo, representada sobretudo pelo PT, que agora já não tem mais vergonha em se aliar formalmente ao antigo algoz. Sou também de um tempo em que os palanques do PT e do malufismo eram antagônicos, não se misturavam. Desta feita, não dá nem para tentar dourar a pílula e dizer que se trata de "aliança conjuntural entre partidos", porque a negociação aconteceu na planície, foi personalizada e travada diretamente com Paulo Maluf, que recebeu em troca inclusive a prerrogativa de indicar o Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, além da promessa de influência efetiva na administração municipal, em eventual vitória de Haddad. Mais: houve escrachado e escancarado leilão pelo passe de Maluf, que ameaçava apoiar José Serra, mas acabou fechando com o PT, porque a oferta certamente lhe foi mais vantajosa. O PT brigou firme e pesado pelo apoio de Maluf... O acerto entre cavalheiros é de dar engulhos: para não melindrar a militância e eleitores mais resistentes ao acordo, Maluf será "escondido" durante a campanha. Mas o PT agradece lisonjeado os minutos extras de televisão. Rasteiro. 

Por fim, cabe lamentar o fato de a aliança com o malufismo ter sido anunciada no mesmo dia em que se oficializou o nome de Luiza Erundina como candidata à vice-prefeita na chapa de Haddad. Confesso que por uma fração de segundo ousei esboçar um tímido sorriso, na esperança de que a presença de Erundina pudesse de fato ajudar a colocar a disputa paulistana em outro patamar. Porque a ex-prefeita tem estatura política para tanto - e por ela guardo especial carinho e profundo respeito e admiração. Durou pouco. Quase nada. Porque o passo adiante foi imediatamente sucedido por quatrocentos pulos para trás. Maluf junto com Erundina? Retrocesso doído. Na hora, só pude me lembrar da garota malufista que na Paulista, em 1992, gritava contra a "nordestina nojenta e fedida". 

Lamento, minha querida ex-prefeita, mas, como escreveu no facebook o Fernando Amaral, camarada de tantos outros carnavais e disputas políticas, com Maluf não dá - e, ainda nas palavras do Amaral, "exigir que se engula esta 'aliança' estratégica em nome de qualquer bom princípio não é ingenuidade, é pura crença de que as pessoas perderam mesmo qualquer capacidade de pensar, a visão crítica e, sobretudo, o juízo".

5 comentários:

  1. Filho- da mesma forma "Maluf nunca mais"...
    da mesma forma, peço desculpas à minha candidata e o meu voto de sempre,Luiza Erundina mas, o dito pelo Amaral, eu também concordo.
    Como dizia meu saudoso pai "A que ponto chegamos.."
    beijos de seu pai.

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  2. Para mim, é isso: a possibilidade do ovo da serpente sendo trazida à cena política à cada estapafúrdia dessas.
    Também trago comigo, na minha folha funcional de professora concursada da rede pública estadual, as faltas seguidas da primeira greve que conseguimos fazer depois do AI-5, dando visibilidade aos problemas dos professores do Estado de São Paulo. Deparamo-nos com dificuldades imensas para organizar um múnimo de reação aqui em Santos. E , depois, redemocratização conquistada a sangue, suor e sola de sapatos nas ruas, o governo Montoro ou o próximo, não me recordo bem, propôs a anistia dessas faltas aos professores grevistas. Eu não quis. Para mim, não tinha honra. E fiquei com essas faltas na minha folha de serviços.
    Então, também digo: Para mim, Maluf nunca mais!!!

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  3. Maria Elizabeth Silva Savietto17 de junho de 2012 13:19

    meu nome é Maria Elizabeth Silva Savietto.

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  4. E ouviremos os cantos de "vocês vão deixar o Serra ganhar?" como mantra. Não é mantra, diria eu: é réquiem.

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  5. relatos importantes, Chico! Lembro-me de ter entrevistado o Maluf pessoalmente uma vez, pelo Estadão, junto com Marcelo Godoy e Flávio Mello. Sentei-me no mesmo sofá que ele. Nunca senti uma energia tão ruim no entrevistado como a dele.

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