segunda-feira, 18 de junho de 2012

DESISTE, ERUNDINA!

Agência Estado






São Paulo, 18 de junho de 2012
21h

Prezada deputada Luiza Erundina,

a senhora certamente não se recorda, nem poderia ser diferente. Mas, depois de fazer campanha e de comemorar sua vitória na eleição para a Prefeitura de São Paulo em 1988 (não votei, o voto aos 16 anos viria no ano seguinte), acabamos tendo um breve encontro no final de 1990 ou início de 1991 (a memória já não é tão precisa). Eu era um jovem estudante de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, passando do primeiro para o segundo ano. Havia pouco tinha conquistado meu primeiro emprego na área - estagiário do jornal "Folha Dirigida", especializado em concursos, recursos humanos e educação. Eu era um "foca", repórter iniciante, como dizemos no jargão da área. E fui escalado para acompanhar uma entrevista coletiva sua, no Parque do Ibirapuera (acho que era a sede da Secretaria de Administração), que anunciaria o projeto de criação das subprefeituras para a cidade de São Paulo. Fiquei tímido, confesso, quieto num canto, na presença de tantos colegas medalhões. Mas ouvi atentamente todas as suas falas e anotei todas as respostas. Ao final, a senhora estava tomando café e conversando com aqueles que eram, acho, seus assessores. Ousei me aproximar e, ressabiado, me apresentei. A senhora abriu um sorriso. Respondeu gentilmente todas as questões que fiz, durante quase meia hora, numa entrevista exclusiva que reafirmou em mim a convicção de que de fato estava em curso na cidade uma revolução administrativa - e de mentalidades.

Acompanhei seu governo com especial atenção, ora concordando, ora discordando, o que é normal em política. Mas sempre reconhecendo sua vontade incontida de fazer de São Paulo uma cidade solidariamente construída para todos, especialmente para os de baixo, as periferias, aqueles que não têm voz, nem vez. Inversão de prioridades, lembra-se? As elites brancas paulistanas ficaram inconformadas. Os mutirões de moradias nas franjas da cidade e o Movimento de Alfabetização de Adultos (MOVA) eram para mim retratos fiéis daqueles novos tempos. Não é sempre que se pode ter também no Secretariado figuras como Marilena Chauí, Paulo Freire, Helio Bicudo, Mario Sergio Cortella, Paul Singer, Ermínia Maricato, Dalmo Dallari. Por ser mulher, nordestina, petista, guerreira e sonhadora, por ouvir a senzala e não a casa grande, a senhora sofreu horrores com os preconceitos. Foi perseguida. Era comum, nas redações dos jornais (e sei disso por relatos de vários colegas), que as reuniões de pauta começassem com um sonoro "e aí, o que temos hoje contra a tia?". Campanha midiática orquestrada. Certamente a senhora não leu o último texto que publiquei aqui no Blog, que relata episódio que me marcou profundamente: no final da tarde do segundo turno, em 1992, quando seu candidato à sucessão era o atual senador Eduardo Suplicy, que tinha como adversário o nefasto Paulo Maluf, vi uma jovem militante malufista, na ilha que separa as duas pistas da avenida Paulista, a comemorar e gritar "Acabou, acabou! Não vamos mais ter que aguentar a nordestina nojenta e fedida!". Assim é o malufismo, minha querida ex-prefeita - o preconceito, a exclusão, a intolerância, a truculência, os privilégios, o retrocesso, a ditadura, a tortura, a Rota, as obras faraônicas superfaturadas para os ricos, a arrogância, o "rouba, mas faz", o "estupra mas não mata", o machismo...

E você (permita-me a informalidade) é diferente, Luiza, forjada em outras lutas. Você carrega na alma e no brilho dos olhos os sonhos de transformação do povo sofrido deste país. Você é sinônimo de honestidade e dignidade. Você é coerência. Você é a esperança de que a política não é só "mais um minutinho na televisão", mas a pulsação incontida e arrebatadora da utopia, de uma outra sociedade possível. Você é a representação das lutas contra a ditadura militar e pelos direitos humanos. É a mulher guerreira indomável, que não verga a espinha diante dos poderosos, das falas soberbas das elites. Enquanto muitos se perdem pelos (des) caminhos em negociatas e acordos espúrios, você resiste, insiste, nada contra a corrente. Enquanto muitos tornam-se pragmáticos e gerentes da ordem, você vem a público, ao ser escolhida vice na chapa petista, para dizer que "a classe trabalhadora não deve disputar apenas espaço de poder no Estado burguês”, afirmando que estava disposta a percorrer “favelas e cortiços para pedir votos", escancarando ainda, sem tergiversar, que "é o socialismo que garante a realização plena do ser humano. É em nome dessa utopia que estamos aqui.”  

Pois olhe bem para a imagem acima, Luiza. Eu sei, dói na alma, no fundo da alma. Intensamente. Certamente dói muito mais na sua alma. Você não merece estar nessa foto, Luiza. Por isso, o meu apelo: desiste, Erundina! Recue e recuse a possibilidade de ser vice-prefeita. Continuemos sonhando. Estaremos juntos. Mais uma vez. E não somos poucos.

Francisco Bicudo
     

8 comentários:

  1. Chico, te apoio. Em algumas situações - Para existir democracia é necessário haver resistência. Essa é a hora da resistência. (Democracia não combina com o Maluf e nem o Malufismo).

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  2. Eita, Chico.

    Minha relação com a Luíza, embora de muita admiração e respeito, não é tão apaixonada.

    Me lembro da ida dela para o Governo Itamar e de como ficara puto com aquilo, me lembro das crises com o partido durante e depois da administração. Me lembro da campanha de 96 (que campanha triste... a do "Sim", num aceno de que a política estava morrendo para para dar ensejo, voz e vez aos marqueteiros e suas fórmulas mágicas). Me recordo também de ter votado nas prévias de 96 contra a Erundina (aliás, coordenei a campanha de uma das pré candidatas à prefeita, a Tereza Lajolo. O outro candidato era o Mercadante).

    "Entonces", em vários momentos foi uma relação conturbada, de admiração pela administração e por ela, pelo grau de animosidade que ela enfrentou quando foi prefeita da cidade (fomos na frente da Câmara naquele episódio patético do Tribunal de Contas, que queria o "impeachment", lembra?). Mas de crítica... muita crítica. Infelizmente somos ácidos - você me conhece e sabe que posso ter exagerado nas tintas - nos embates... (Como agora, talvez???)

    Mas, já no XI, em 94 coordenei um evento na Sala dos Estudantes, em que várias entidades, inclusive o Centro Acadêmico, pedíamos voto na Luíza para o Senado, contra o Tuma (que acabou se elegendo, junto com o Serra). Foi um dos dias mais marcantes da minha militância no movimento estudantil: Ao pedir o voto na Luíza relatei a história da Luíza Erundina, primeira prefeita, prefeita que encarou uma mídia absolutamente preconceituosa (lembra da Pan pedindo a cabeça dela todo dia no "Jornal da Manhã"?), a prefeita que teve a coragem de abrir a vala comum de Perus, uma vala clandestina no cemitério de Perus destinada a esconder corpos de militantes políticos, de mortos pela polícia e de indigentes), a prefeita que não permitiu aos órgãos municipais acobertassem ainda mais mortes no Massacre do Carandiru, agindo com a firmeza e com uma dignidade poucas vezes presenciadas na história brasileira... (Foi um baita discurso, Chico... meu lado leonino está se segurando aqui). E, mais do isso, a constatação de que ali estava uma das mulheres mais importantes da vida política do PT, do país e do mundo. Erundina está no mesmo patamar do que o Lula, por sua grandeza. Evidente, o sapo foi presidente e eteceteras e tals, mas não estamos discutindo "importância do cargo", muito menos um concurso de mitos, e sim importância e estatura, histórica e política.

    Me decepciona o vínculo partidário de Erundina com o PSB, embora entenda que para ela pouco espaço de intervenção partidária existia no PT após a eleição de 94, após derrota na eleição para o Senado e, antes, da barca furada que foi exercer cargo de ministra no governo do Itamar. Porque o PSB, especialmente em SP, é uma legenda "contraditória", para usar um bom eufemismo para não ferir suscetibilidades. Luíza, candidata a prefeita em 2004, tinha como vice ninguém mais ninguém menos do que Michel Temer, que é um dos símbolos máximos do fisiologismo, do patrimonialismo e do clientelismo que assolam a vida política brasileira.

    Mas trata-se de uma parlamentar exemplar. Luíza foi uma das mais duras críticas à política de acomodação do Governo Lula na área das telecomunicações. Participa incansavelmente da luta pela abertura dos arquivos da ditadura militar, se empenha em alterar a anacrônica legislação fundiária do país.

    E como você disse no texto, Luíza tem uma trajetória digna, de respeito, honestidade. de zelo com a coisa pública. Luíza tem, sim, sido importante nos debates sobre o socialismo, pontuando a necessidade de sairmos desta lógica "melhorista" para uma lógica de transformação.

    Ler o seu texto, apaixonado - e elegante como sempre - me emociona e me dá vontade de entregá-lo na mão da Erundina: "Prefeita, será mesmo?"

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  3. Ah... vou lembrar também que minha militância política não começou no PT. E digo isso para reafirmar que reconheço que o exercício da política não é imutável, estanque. Com meu pai e minha mãe participei de comícios do PMDB, especialmente do Montoro, e das "Diretas Já". E, depois, do PSDB. Sim, fui "tucano" lá pelos idos de 89. Na faculdade, com o contato com outras gentes e com outras forças políticas, na luta pelo impeachment do Collor, na oposição ao Maluf comecei a militar no PT, organicamente. Coerência não é nunca mudar de sigla partidária, na minha modestíssima opinião. Coerência é tentar não mudar de lado... Abraço, Chico.

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  4. Olha Chico, trabalhei cerca de um ano ao lado dela e imagino a acidez que deve estar tomando seu estômago. Acho que teremos boas surpresas, mesmo que isso signifique a continuidade do atraso aqui em São Paulo.

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  5. Juro que suas palavras me emocionaram. Cheguei num ponto em que não espero muito da política porque sempre, em nome do poder, acaba-se entrando num vale tudo. E nesse caso específico tenho a impressão de que o PT abraçou o tal vale tudo para não deixar a prefeitura nas mãos dos tucanos...Infelizmente, estão se igualando aos tucanos tomando esses rumos. Lamentável até para mim que já não tenho grandes esperanças na política que se faz hoje.

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  6. Vamos lá Erundina, melhore a sua biografia !!! Desista !!!

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  7. Não desista, mas lidere essa chapa, com PT ou sem, ou até mesmo sem nenhuma legenda, que hoje se tornou algo sem significado.

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  8. eu NUNCA votei no PT.
    eu NUNCA votei na ESQUERDA.
    minhas convicções políticas são bem distintas das da Ex-Prefeita...

    ainda assim sou obrigado a concordar que temos na sra. Luiza Erundina uma das mais dignas pessoas envolvidas com a política partidária no Brasil atualmente

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