quarta-feira, 30 de maio de 2012

POR QUE HÁ QUEM AINDA LEIA A VEJA?






Há alguns enigmas que para mim são indecifráveis.

A "revista semanal de informações" ignora todas as regras básicas e elementares do fazer jornalismo, ensinadas já aos estudantes do primeiro semestre do curso. Transforma teses pré-estabelecidas e construídas nos corredores da redação em pautas e "matérias" e, mesmo quando contrariada pelos fatos, não hesita em insistir e em publicar aquilo que já havia sido decidido como "verdade" pelos iluminados altos escalões da empresa. Briga com os fatos, cria o seu mundo próprio, impõe de forma autoritária - e enviesada - suas visões da realidade. Às favas com os escrúpulos de consciência, como já disse um filhote da ditadura nos idos dos anos 1960. Às favas também com os valores éticos que regem o jornalismo.

A pesquisa, etapa fundamental de toda boa reportagem que se preze e que mereça ser chamada como tal, quando acontece, se resume a um tosco e frágil recolher de "argumentos" e de dados que sirvam apenas para ajudar a legitimar e comprovar aquilo que já assumiu contornos de verdade inconteste. Aproveita-se de forma oportunista, leviana e utilitarista o que é considerado interessante para a sustentação da tese; eventuais informações que ajudem a questioná-la e derrubá-la são imediatamente descartadas e escondidas. 

Entrevistas? Só com os amigos do rei, aqueles que ajudam a exaltar e defender os interesses da publicação e a detonar aqueles que são considerados adversários e/ou inimigos da casa. Nada de pluralidade, diversidade, equilíbrio, honestidade, nada de contemplar as diferentes versões e testemunhos contraditórios a respeito de um mesmo assunto. O texto é reflexo de todo esse processo deturpado: impositivo, intolerante, editorializado, uma ode ao espetáculo, carregado de mensagens políticas e morais sectárias e reacionárias, vendendo opinião como se fosse informação. Muito mais publicidade que jornalismo. O adjetivo impera e substitui o substantivo. É preciso engolir o prato feito. Pensar? Nem pensar. Jamais.

A revista transforma militantes de causas sociais e dos direitos humanos em criminosos de alta periculosidade. Deixa escapar seu racismo, não esconde seu preconceito de classe, ao voltar baterias irascíveis contra o ex-presidente operário e nordestino. Não engole nem tolera a ex-guerrilheira que se tornou presidenta. Para a empresa, é uma lástima mesmo essa democracia com povo. Condena suspeitos que ainda não foram julgados. Funciona como palanque para celebridades. Vende drogas e medicamentos milagrosos que não têm aval da comunidade científica. Pretende reescrever a história do Brasil, apenas dando voz aos do andar de cima. Inventa grampos telefônicos que jamais apareceram. Grava imagens sem autorização em um hotel em Brasília e tenta invadir quarto ocupado por ex-ministro da República. Usa ilações, boatos, achismos e disse-que-disse para minar governos e derrubar ministros desafetos. 

Abriga em seu quadro de funcionários alguns dos mais ilustres representantes da Casa Grande nacional, a exigir desde sempre que a ralé volte para a Senzala. Mais recentemente, pasmem, vem sendo pautada por bicheiro preso pela Polícia Federal. Não se trata apenas de relação repórter-fonte, mas de determinar até mesmo em que seções da revista determinadas matérias deverão ser publicadas. Carlinhos Cachoeira assumiu o cargo de editor-chefe da revista. Sim, Carlinhos Cachoeira, confidente de Policarpo Junior e amigo de Demóstenes Torres, que por sua vez é parceiro de Gilmar Mendes. Diga-me com quem andas e te direi quem és.


Pois então - estamos falando de jornalismo? Ou de quadrilha? De máfia, quiçá?

Continuo sem compreender. O que faz então com que um sujeito ainda leia a Veja? O que move alguém a comprar a Veja? A fazer dela seu oráculo de informações e de referências de mundo? A repetir incondicionalmente, tal como mantra, as invencionices e cretinices que a revista publica semanalmente? A bater no peito e afirmar "ah, mas saiu na Veja!"? 

Não entendo... 

Um comentário:

  1. Magnífico. Devastador.

    Eis aí um enigma que também não consigo decifrar.

    www.sostenes.com
    @Limasostenes

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