domingo, 5 de junho de 2011

POBRE DISCUSSÃO POLÍTICA...

Um breve desabafo em uma cinzenta e gélida manhã paulistana de domingo: é triste e ao mesmo tempo estarrecedor constatar o empobrecimento profundo da discussão sobre política no Brasil. 

O caso Palocci trouxe mais uma vez à tona, em onda mais do que forte, raciocínios simplistas e superficiais, típicos de quem acredita em verdades absolutas e inquestionáveis e transforma o debate ideológico em um obscurantista e falso cabo-de-guerra dos puros contra os pecadores, dos verdadeiros contra os falsos, dos fiéis contra os traidores, daqueles que sabem tudo versus os que são toscos ou ingênuos, configurando uma espécie de Fla x Flu ou Corinthians x Palmeiras, em uma gritaria histérica que tenta se impor pela altura dos berros, sem qualquer disposição para ouvir – e pensar.  

Há certo discurso pretensamente iluminado e esclarecido que tenta se constituir como hegemônico (de fato, como dono exclusivo e sobretudo intolerante da verdade) na blogosfera e que diz que, por conta da distribuição de renda e de outros avanços sociais promovidos pelo governo Lula, somos agora todos obrigados a usar vendas, a tapar o nariz e a abandonar a preocupação com a dimensão ética de ações políticas e públicas (uma questão menor, claro, segundo esse discurso...), para passar a defender incondicionalmente, fala mansa e cabeças baixas, o que foi o governo Lula, o que é o governo Dilma e todas, absolutamente todas as propostas e condutas de todos os assessores palacianos - o que inclui defender cegamente Palocci e seus vinte milhões de reais conquistados em apenas um ano. Afinal, não há crime ou desvio de conduta, não há conflito de interesses ou tráfico de influência. São apenas maldosas ilações... Ah, a ordem é bater no governo de São Paulo. O do Rio de Janeiro? É aliado. Em qualquer circunstância. 

Se não for assim, se ousamos discordar dessa visão estabelecida de mundo e insistimos em exercer os legítimos direitos democráticos e fundamentais da dúvida, da pergunta, da divergência, do livre pensar e da crítica, estamos fazendo o jogo da direita. Somos aliados do Partido da Imprensa Golpista (PIG). Somos psolistas raivosos. Ou quem sabe petistas arrependidos. Românticos que perderam a noção do tempo e da História? Ora, somos todos ingênuos, quase imbecis, sonhadores que fazemos o jogo das elites. Cerramos fileiras com os reacionários, com os tucanos, com os demos. E só quem diz “amém” para tudo o que Lula e Dilma fazem e dizem é verdadeiramente de esquerda. 

Pobre discussão política. Está ficando chata, muito chata, em função do advento dos “novos senhores da verdade”. É preciso resistir, qualificar o debate político, estabelecer contrapontos, valorizar tensões argumentativas. Respeitosamente. Civilizadamente. Com disposição para ouvir e aprender. Sem rótulos ou achincalhamentos. Porque a esquerda é rica nas suas falas e análises - e não tem dono (s). 

Uma boa semana para todos os que continuam sonhando - e perguntando, duvidando, pensando...

Um comentário:

  1. Assino embaixo. E, os defensores incondicionais do governo Dilma deveriam ter em mente que a situação atual, ou seja, a manutenção dos olhos vendados em relação ao Palocci, acaba, com apenas 5 meses, com um governo promissor e que nos encheu de tão boas expectativas.

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