sexta-feira, 3 de junho de 2011

PALOCCI FALOU. SÓ PARA A GLOBO. E POUCO EXPLICOU.


Comentei no twitter, reforço aqui: lamentável, para dizer o mínimo, a decisão do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de oferecer "explicações" apenas e tão somente para o Jornal Nacional, da TV Globo, em entrevista exclusiva exibida na noite desta sexta-feira, 03 de junho, a respeito de seu enriquecimento meteórico (para não esquecer, foram 2o milhões de reais apenas em 2010) e das pontes eticamente mais do que questionáveis que construiu entre os setores público e privado (conflito de interesses? Tráfico de influência?).

Ao fazer essa opção, Palocci reforçou a lógica do mercado (audiência), passou por cima de noções básicas de cidadania, desprezou mais uma vez a inteligência da opinião pública, jogou na lama o direito ao amplo, plural e democrático acesso à informação (que deveria ser bandeira de luta do atual governo), evidenciou pequenez de espírito republicano e preferiu reforçar privilégios e poderes do principal conglomerado midiático do país - a vênus platinada. 

Por que não enfrentar a autenticidade, a espontaneidade e a diversidade de uma entrevista coletiva que, como diz o próprio nome, contempla muitos, e não apenas um? Pior: a tal explicação foi gravada. Como confiar que não foi também combinada, com ensaios, jogo de cartas marcadas, com questões previamente acertadas e definidas, até com possíveis (quiçá prováveis) vetos de Palocci, de maneira que o ministro pudesse preparar, ajustar e decorar suas respostas? Por que não enfrentar o "ao vivo"? Quem não deve não teme. Afinal, Palocci estava de fato disposto a dar satisfações à sociedade? Ou muito mais preocupado em manter as boas relações com a família Marinho e obter a bênção e a absolvição da Rede Globo? 

Claro que a entrevista ajudou ainda a segurar a audiência da Globo. Foi exibida apenas nos dois últimos blocos do JN. Durou pouco mais de 15 minutos. E foi marcada por evasivas, escapismos e repetição de raciocínios pré-construídos, sem novidades em relação ao que já vinha sendo divulgado e reverberado. O que significa dizer, avalio, que a corda apertou mais um pouco no pescoço de Palocci, que precisava dar satisfações cristalinas, muito precisas e contundentes.

O ministro insistiu que "todo faturamento da empresa foi registrado nos órgãos de controle tributário, que todo serviço foi feito por meio de notas fiscais regulares e que se tratava de uma empresa privada, registrada em nome dele e dos sócios, e que como tal ele prefere deixar os números de faturamento reservados, pois não dizem respeito ao interesse público". Será mesmo?

Sobre os 20 milhões de reais arrecadados apenas em 2010, Palocci reconheceu que "podem ser valores aproximados, não os tenho comigo agora". E disse que a concentração exagerada de ganhos nos meses finais do ano passado aconteceu por conta do encerramento das atividades da empresa. "Todos os contratos foram então quitados". Mas não havia multa por rompimento? Pagamento proporcional? Recebeu tudo de uma única tacada? Isso sem contar os lapsos seletivos de memória.

Garantiu ainda que sua empresa jamais atuou junto a órgãos públicos, fosse promovendo consultorias ou representando outras empresas. "Nunca dei consultoria para empresa privada que tivesse negócios com setor público. Isso a lei não permite. E tenho conhecimento da lei". Recusou-se mais uma vez, no entanto, a revelar nomes de empresas para quem trabalhou, com o argumento de que são idôneas e poderiam sofrer represálias. "Não tenho o direito de envolver terceiros em conflitos políticos". Vamos e venhamos: quantas outras empresas de consultoria, com mais tradição, experiência e estrutura, arrecadaram tanto e em tão curto espaço de tempo? Por que os valores cobrados por Palocci eram tão especiais? Seus serviços eram especiais? Essas ele também não respondeu.

O máximo que se permitiu identificar foram os setores de atuação das empresas para quem prestou serviços: "indústrias, em vários segmentos; setor financeiro; mercado de capitais, como bancos e fundos de investimentos; e serviços em geral". Para ele, "um conjunto de empresas que pouco têm a ver com órgãos públicos". Puxa... Bancos e fundos de investimentos têm mesmo pouca relação com governos? Em mais de uma oportunidade, reiterou a prerrogativa de não detalhar valores. E garantiu: "não recebi nenhum centavo que se referisse à política ou à arrecadação de campanha". 

Como um mantra, insistiu que "cumpriu rigorosamente as leis, que tudo está registrado e adequado e que é preciso aguardar as avaliações das instâncias competentes, como Receita Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e Procuradoria-Geral da União". Por fim, afirmou que "não há crise de governo, apenas uma questão de minha responsabilidade". 

Não vou tergiversar: generalidades, evasivas - o que já havia sido dito até aqui. Sem novidades. E Palocci precisava - muito - delas. Talvez tenha ganho alguma sobrevida, balão de oxigênio. Deve agora começar uma nova fase da batalha pelos discursos e pelas versões. Mas, ao que tudo indica, e mesmo reconhecendo que a realidade política é dinâmica, a essa altura nem mesmo o espaço privilegiado da TV Globo parece ser capaz de blindar Palocci e de garantir a permanência do ministro no cargo. O pós-Palocci já é discutido abertamente. 

Até porque, como escreveu o jornalista Ricardo Kotscho em seu blog, "na encruzilhada, podendo escolher entre vários caminhos, meu amigo e ex-colega de governo Lula escolheu o pior. Depois do longo silêncio, Palocci escolheu a guilhotina". Para Kotscho, é "a anatomia de uma queda anunciada".

4 comentários:

  1. Mais uma versão! A Biografia de vida pública e privada, não vem ao caso!Parece que o crime do Antonio Palocci são as suas competências de consultor e de analista, no campo da economia e da política! Alguem, já pesquisou os rendimentos de empresas de consultoria, que tenham competência reconhecida pelo mercado?

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  2. Parabéns pela lucidez.

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  3. Palocci mostra mais uma vez o perfil de uma herança patriarcal.Como não deve explicações sobre o número de faturamento da empresa dele,como não é assunto do interesse público?

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  4. Adorei Chiquinho! Beijos, Réja.

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