sexta-feira, 10 de junho de 2011

O PMDB - LIVRE, LEVE E SOLTO


No editorial da revista Carta Capital que chegou às bancas nesta sexta-feira (10 de junho), Mino Carta avalia que, com a saída (ainda que tardia) de Antonio Palocci e a escolha de Gleisi Hoffmann para a Casa Civil, a presidenta Dilma Rousseff teria decidido finalmente assumir as rédeas do governo. Para o jornalista, "ao se afirmar de forma tão peremptória, a presidenta define seu poder, com um grau de independência que até dia 7 de junho aguardava a prova". Tomara que ele esteja certo. Os sinais de fumaça que chegam de Brasília, no entanto, sugerem que há outro ator político que não mais se envergonha de falar grosso e sai bastante fortalecido da crise, lançando olhares de evidente e crescente cobiça sobre quinhões cada vez mais representativos do consórcio que se estabeleceu para garantir a governabilidade da administração federal. Estou falando do PMDB.  


Para compreender o jeito PMDB de ser e de fazer política, o chamado "peemedebismo", é fundamental travar contato com as análises do cientista político Marcos Nobre, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em longo artigo recentemente publicado pela Folha de São Paulo, que merece ser cuidadosamente lido e debatido, o pesquisador conta como o partido aproveitou o período da ditadura militar para se organizar e crescer, constituindo "um modelo de gerenciamento de interesses adaptado à desigualdade e à fragmentação regionais". É a tal da federação de caciques (José Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer, Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon, Sergio Cabral, apenas para citar alguma figuras ilustres), que tem como propósito apenas "acomodar e gerenciar as desigualdades".


Para que esse projeto possa prosperar e acomodar interesses tão distintos, é preciso estar no poder - e se beneficiar diretamente dele, independentemente de qual seja a coloração do governo. Não é por outra razão que o PMDB tem participação destacada na redemocratização do Brasil, e desde a eleição de Tancredo Neves no Congresso Nacional, sai sempre sorrindo nas fotos dos governos que vão se sucedendo. Ajudou a sustentar Sarney, não esteve distante de Fernando Collor de Melo, bancou  Itamar Franco, associou-se a Fernando Henrique Cardoso e flertou desde o início com Lula, assumindo definitivamente o verniz governista após o escândalo do mensalão, em 2005. Com Dilma, ganha a vice-presidência. Para Nobre, a consequência dessa presença permanente no poder é "uma política de conchavo, de gabinete, ou quando muito, exclusivamente partidária. O debate público deve ser evitado ao máximo". 


O cientista político defende ainda que foi de fato após o mensalão que o governo Lula estabeleceu pacto formal com o PMDB. Fragilizado diante da crise política de gigantescas proporções, com as principais lideranças petistas defenestradas pelas denúncias, o governo precisava de um novo fiador. Oficializou o casamento com Temer e companhia, já vislumbrando inclusive a sucessão de Lula e o enfrentamento com o PSDB (a eleição polarizada e plebiscitária que Lula sempre desejou). A direita teria acusado o golpe, diante desse novo consenso social. "Como a peemedebização historicamente sempre jogou a seu favor, a direita perdeu inteiramente o pé diante de uma ocupação pela esquerda dessa cultura política. Ainda não conseguiu fincar posição para além de setores do mercado financeiro", analisa Nobre. Mas ele em seguida alerta: "se a ocupação pela esquerda do peemedebismo permitiu avanços, é essa mesma cultura política que tende, a partir de agora, a travar novas conquistas democráticas".


O preço dessa fatura, que já era alto durante o governo Lula, torna-se insuportavelmente elevado neste início de administração Dilma: permanência de Nelson Jobim no ministério, livre trânsito de peemedebistas nas articulações estabelecidas no Congresso Nacional, pressões e cotoveladas por cargos no segundo escalão, aprovação de um Código Florestal que permite desmatamento e absolve a motosserra, recuo na distribuição dos kits anti-homofobia nas escolas públicas de ensino médio, chegando ao ápice talvez com o destempero e os gritos dirigidos pelo vice Michel Temer ao então Ministro Palocci, quando este ameaçou e disse que a Presidenta demitiria os ministros do PMDB caso o partido desse os votos necessários na Câmara dos Deputados para a aprovação do Código Florestal (episódio que reflete extrema inabilidade política, aliás. Só ameaça ou blefa quem depois tem condições de colocar as cartas na mesa e de resolver o jogo. Não foi assim que aconteceu, ao contrário - Temer berrou, o governo amansou, ministros continuaram no cargo, e o PMDB se cacifou mais ainda). 

"Porque o peemedebismo é, na sua essência, conservador em todos os âmbitos. E opera com base em uma máxima que lhe garantiu a longa sobrevivência: sempre que algo dá errado, joga toda a responsabilidade da administração do condomínio nas costas do síndico",  destaca Nobre. Ele continua:  "o PT, como atual síndico do condomínio peemedebista, se apresenta como garantia e vanguarda de um processo que, em grande medida, não está de fato em suas mãos".  Eis a essência da tese defendida pelo cientista político da Unicamp: o condomínio é do PMDB, conjunturalmente administrado pelo PT, o síndico. É um arranjo extremamente cômodo para os caciques peemedebistas - o partido bate no peito e assume ser poder quando lhe é interessante. E se esconde nos discursos e diz que é apenas aliado quando o cenário se complica. Fatura o que é bom, joga no conta do síndico-PT as mazelas e os problemas do governo.  

Mais ainda: a recente crise envolvendo o ministro Palocci revela com clareza cruel que a ambição e a voracidade dos donos do condomínio não conhecem limites. Em matéria publicada pela Carta Capital, o jornalista Mauricio Dias escreve que "o PMDB quer mais poderes do que já tem, quer tornar Dilma sua refém". O texto cita inclusive uma fala do senador Renan Calheiros, que teria dito que "é hora de fazer um redesenho da articulação política do governo. E o PMDB quer e vai participar (desse processo)". 

O atual cenário político talvez esteja abrindo brecha e fratura para uma inflexão, uma mudança de rumos. Nobre é enfático: "a democracia brasileira só alcançará novos avanços a partir de agora se, de alguma maneira, começar a acertar contas com o peemedebismo". Confesso que gostaria muito de conseguir abraçar a convicção de Mino Carta, para quem, de certa forma, o governo com a cara da Presidenta Dilma começa agora. Meu receio, no entanto, com dor no coração, é ser obrigado a reconhecer que, pelo andar da carruagem, a Presidenta esteja definitivamente sendo fagocitada pelo PMDB. A ideia causa calafrios, sei disso. Tomara que eu esteja errado - e que a lucidez sempre presente de Mino Carta prevaleça. 

2 comentários:

  1. Muito boa análise. O PMDB de fato é muito perigoso. E poderoso. A desarticulação do PSDB ao perder o beneplácito do PMDB é prova cabal disso.

    Mas tomara mesmo que vc esteja errado! Ter como governantes de fato os caciques de índole duvidosa do PMDB realmente barra quaisquer possibilidades de avanço para o país.

    Que para nosso bem a opinião de Mino Carta prevaleça e que estejamos a assistir o real início do governo Dilma. Governado por Dilma.

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  2. Enquanto o PMDB estiver no centro das decisões do Brasil, esse país vai continuar no atraso, infelizmente. è um antro de políticos atrasados e oportunistas. Lamentavel

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