terça-feira, 7 de junho de 2011

CASO PALOCCI - QUAL É O "XIS" DA QUESTÃO?


Um convite – vamos inicialmente refletir com responsabilidade sobre duas situações hipotéticas.

Seria admissível um jornalista formalmente contratado por assessoria de imprensa de uma secretaria de Saúde, com acesso facilitado a fontes e documentos mais do que relevantes, simultaneamente ser repórter investigativo de uma revista semanal de informações, editoria de saúde e qualidade de vida?

Seria adequado um cientista, sumidade e referência internacional em estudos sobre prospecção de petróleo em águas profundas, recebendo verbas públicas para desenvolver suas pesquisas e manter seu laboratório e orientandos, ser ao mesmo tempo contratado por uma gigante petrolífera do setor privado para produzir trabalhos sobre o tema?

Projetem agora essas indagações para peixes graúdos da República, alvos sempre interessantes e sedutores ao setor privado e com considerável valor de mercado, para que se possa então pensar com serenidade a respeito de situação que não é mais infelizmente hipotética. Aconteceu. Está acontecendo.

Bem, vou tentar desenhar, pois tem muito “progressista” fazendo uma força danada para não enxergar o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. 

Temos um ex-ministro da Fazenda todo-poderoso, semi-deus do mercado, com livre trânsito nas esferas financeira e empresarial e ainda figura destacada da República. É eminência parda que conhece todos os caminhos e atalhos do governo, as entranhas mais secretas do setor público. Ocupa cargo legislativo – é deputado federal, mais especificamente. Torna-se coordenador de campanha da candidata favorita à Presidência. Por consequência, é novamente candidatíssimo a ministro importante da República (o que se confirmaria logo depois da vitória da candidata em questão).

Simultaneamente, com os pés em duas canoas, mantém negócio próprio e assume a condição de sócio majoritário de uma consultoria de empresas privadas. Em troca de remuneração financeira considerável (vinte milhões de reais apenas em um ano é um valor que chama a atenção, certo?), oferece informações muito provavelmente privilegiadíssimas a seus clientes. Tais empresas se beneficiam então desse conhecimento especial (não teriam contratado o ministro apenas pela bela cor dos olhos dele, certo?) para fechar negócios, alcançar sucesso e maximizar lucros – o fim primeiro de toda empresa privada. Não há conflito de interesses?

Ainda que o ministro tenha garantido que a empresa de consultoria dele ficava de fora quando a proposta chegava a um estágio que envolvia órgão do setor público, é legítimo imaginar que tenha municiado seus clientes com dicas valiosas, estratégica e mercadologicamente falando, algo como “não procurem fulano, falem com ciclano, será mais produtivo; preencham a guia de tal e tal forma; organizem o relatório e a proposta contemplando tais e tais tópicos e dados; nessa demanda, é fundamental agregar tais e tais documentos – serão certamente solicitados. Antecipem-se; está para ser anunciado um mega empreendimento em tal área, fiquem atentos, preparem-se, o cenário é promissor”.

Afinal, que serviços eram mesmo prestados? Quais as informações que eram repassadas a essas empresas? Como o ministro-consultor fazia esse filtro e seleção? Não eram mesmo dados sigilosos, pouco acessíveis aos pobres mortais? Então... por que pagar tanto por "trabalho tão simples", que poderia ser feito por qualquer outro profissional competente? Por que Palocci foi O escolhido? De qualquer sorte não se estabelece uma relação estranha, para dizer o mínimo, entre o público e o privado? Esta fronteira, tão importante, não se dilui, não é violada, em benefício de pouquíssimos - apenas para quem pode pagar? E atentem: nos exemplos aqui usados, estou simplificando muito, mas bastante mesmo essas conexões, certamente mais complexas e perigosas.

É disso que se trata. Estamos fazendo perguntas pertinentes e relevantes, certo? Aliás, sem pré-julgar ou condenar, e respeitando a presunção da inocência, temos o direito cidadão de questionar, de exigir explicações precisas, não? Não é dessa forma que a cidadania republicana em nações democráticas é também exercida? Parece ser discussão ética e política de máximo significado.

O rei está nu, nuzinho. Mas não faltam “progressistas” a alardear galanteios e elogios – “nossa, que roupa linda e fina, está tudo muito bem”. No entanto, enquanto o rei insiste em desfilar publicamente sem roupas, diante dos aplausos de muitos, o governo da Presidenta se desgasta e começa a perder capital político.

3 comentários:

  1. Eles nunca vão se acusar, todos tem rabo preso lá. É mais fácil fazer tipo uma casa big brother e ficamors vigiando eles lá.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro". MATEUS, 6, 24.

    Não dá para querer ser agente público, mais especificamente Ministro Chefe da Casa Civil, e consultor de empresas que buscam o lucro com base na lógica capitalista do vale-tudo. Alguém será descuidado, relegado a um segundo plano.

    Tenho a impressão de que Antonio Palocci teve mais atenção pelos 20 milhões (de reais) do que pelos quase 200 milhões (de brasileiros): o dinheiro tende a ter mais peso do que as pessoas quando as pessoas se deixam enredar nesta espécie de conflito.

    É um absurdo que o então Ministro tenha ido à TV, no horário nobre, dizer que não havia nenhum problema em conciliar o inconciliável.

    Só deus sabe que interesses do povo brasileiro foram desconsiderados em troca dos 20 milhões.

    Como também dizia S. Lucas, no seu evangelho (cap. 16, v. 1-13), "Nenhum servo pode servir a dois senhores; ou há-de aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro". Não acredito que os interesses do povo brasileiro fossem mais caros ao ex-ministro do assegurar para si vultosos ganhos patrimoniais.

    ResponderExcluir