quarta-feira, 18 de maio de 2011

SÃO PAULO, AS ELITES BRANCAS E UM FESTIVAL DE PRECONCEITOS

Há uma parcela representativa da população da cidade de São Paulo, uma casta dominante privilegiada, que fala grosso e não perde uma oportunidade sequer para manifestar o profundo asco que alimenta desde sempre pelo povão. Faz questão de manter distância segura dos desvalidos, dos menos favorecidos e miseráveis da megalópole, vistos como ameaças, como lixo a ser descartado ou ignorado, farrapos humanos que acabam por tornar mais feio e desagradável o ambiente urbano.

Sonha essa casta com uma cidade para poucos, sem nenhum sentido público, humano ou coletivo, disponível e acessível apenas para aqueles que podem comprar os carros do ano, frequentar as lojas de marca e os restaurantes e baladas da moda. Para ser mais específico: estou falando das "elites brancas", expressão que acabou resgatada e se difundiu depois de ter sido usada pelo ex-governador Claudio Lembo (que, ironia do destino, está longe, muito longe de representar o pensamento progressista; muito ao contrário...) em entrevistas concedidas a veículos de comunicação, logo após os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), em maio de 2006.

Feito esse preâmbulo, importante para precisar a quem me refiro, desejo compartilhar com os leitores uma questão que tem me incomodado sobremaneira e a respeito da qual tenho refletido bastante: nos últimos tempos, estão concretamente as elites brancas paulistanas assumindo e manifestando abertamente práticas e discursos cada vez mais preconceituosos, egoístas, excludentes e intolerantes? Ou é apenas uma impressão minha, sem fundamento?

Ainda está muito presente em minha memória uma cena lamentavelmente vivida no primeiro turno da eleição presidencial de 2010. Ainda na fila de votação, em uma escola de classe média, bairro de Pinheiros, aguardando a chamada para me dirigir à urna eletrônica e registrar meu voto, ouvi comentários estapafúrdios e asquerosos de uns sujeitos muito bem vestidos, que faziam questão de bater no peito e anunciar que tinham estudado muito e se formado na USP. Diziam, em alto e bom som: "Precisamos derrotar a guerrilheira. Não dá para aceitar que o povo inteligente de São Paulo acabe se submetendo aos que vivem de bolsa-barriga do Nordeste. Aquelas pessoas não querem trabalhar, são vagabundos, só sabem fazer filho. E agora querem ter ainda mais filhos, para ganhar ainda mais dinheiro do governo. Na verdade, é o nosso dinheiro. Bom seria mesmo se São Paulo se separasse do restante do país". 

Pouco tempo antes, na Copa do Mundo da África do Sul, já havia ficado estarrecido com os comentários de pessoas supostamente esclarecidas, formadores de opinião que, em ambiente público, com respaldo, apoio e risadas de muitos colegas, ao acompanhar a festa de abertura do Mundial, sentiam-se à vontade para dizer: "nossa, já imaginou como estão fedidas essas negras suadas pulando como macacas no palco? Credo, jamais chegaria perto dessas pessoas. Que coisa horrorosa". 

O show de horrores continuou com a eleição da presidenta Dilma Rousseff, quando o twitter e as redes sociais foram invadidos por comentários que achincalhavam os nordestinos e que chegavam abertamente a pedir a morte dos habitantes da região Nordeste, tachados de burros, atrasados, vagabundos, preguiçosos, analfabetos, "uma gente feia e desagradável", além de uma série infinita de outros adjetivos depreciativos e preconceituosos. Parcela significativa dos posts tinha como fontes moradores da cidade de São Paulo, que voltaram a se manifestar no dia da posse da Presidenta, incentivando, sempre pelas redes sociais, um atentado contra Dilma.

Em novembro, a cidade de São Paulo já tinha sido palco de uma série tenebrosa de ataques e de agressões físicas contra homossexuais, principalmente na região da avenida Paulista; é a mesma metrópole que silencia diante de atos violentos (que muitas vezes levam a mortes) de moradores de rua e que aplaude entusiasmada ações higienistas medievais das administrações municipal e estadual, que fecham os parques e praças durante a madrugada e constroem rampas ásperas e irregulares, com intuito de espantar os "mendigos". São as mesmas pessoas, legítimas representantes das elites brancas paulistanas, que erguem as vozes e, indignadas, dedo em riste, condenam duramente a ascensão social vivida no Brasil nos últimos anos e a chegada das novas classes médias. "Os aeroportos viraram rodoviárias, eita povinho mal vestido fazendo check-in e esperando nas salas de embarque. Um horror!". Quantas vezes já não ouvi esse discurso, o senso comum, um dos mantras preferidos dos privilegiados da terra garoa...

Também no ano passado, vivi uma semana de agonias e decepções ao acompanhar muito de perto novamente formadores de opinião paulistanos a vociferar "são a escória, mata, pega, não deixa fugir, atira mesmo, é para matar, esse povinho não merece viver, fosse aqui em São Paulo e a coisa seria diferente, teriam outro tratamento, é só jogar bombas nas favelas e o problema estará resolvido, ninguém vai sentir falta"... Estavam todos com os olhos grudados na telinha da TV, sem piscar, em quase transe, acompanhando as invasões de morros no Rio de Janeiro pela polícia militar e pelo exército. Recentemente, comemoraram esses paulistanos (estive mais uma vez por perto para registrar os discursos) a morte de Osama Bin Laden. "Finalmente, demorou, mas deveriam ter torturado antes, ele nem sentiu a morte".

Finalmente, não poderia deixar de citar o episódio da estação Angélica do metrô, repudiada pela maioria dos moradores do bairro de Higienópolis (como ficou constatado por pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha), preocupados com a sempre incômoda presença dos trabalhadores, dos pobres, daquela "gente diferenciada" que vai fazer aumentar os índices de violência e a sujeira na região. O reduto (ou seria gueto?) dos abastados não quer ver sua praia invadida. O egoísmo de poucos (3.500, para ser mais preciso) pode se sobrepor ao interesse e necessidade de milhões? Sim. Assim pensa - e age - a elite branca paulistana.

Poderia citar aqui outras tantas situações semelhantes que presenciei nos últimos meses. Não há necessidade. Seria repetitivo, chover no molhado. Também não quero escorregar em generalizações injustas. Certamente há conflitos, fraturas, brechas, outras posturas. Mas minhas sensações e percepções - e é exatamente disso que se trata, sem nenhum viés científico mais apurado - me desnudam e revelam uma cidade cada dia mais distante, arisca, fria, silenciosa, sisuda, violenta, agressiva, cinzenta, intolerante, pouco receptiva à diversidade. Uma selva de pedra disposta a travar guerra contra aqueles que não pertencem às elites brancas.

É possível vislumbrar que esse espírito de soberba paulistano esteja de alguma forma ligado a um passado heroico retumbante - os bandeirantes que desbravaram o país e iniciaram o movimento de interiorização. Pode também estar conectado a uma espécie de DNA e traço de personalidade que anuncia orgulhosamente São Paulo como a locomotiva do país, aquela que lidera o desenvolvimento e a pujança nacionais, o que confere à cidade um certo ar de especial, de única, qualidades que, por oposição, acabam por marginalizar e excluir tudo aquilo que não é visto como genuinamente paulistano. 

São Paulo foi também o berço do adhemarismo, do janismo, do malufismo e, mais recentemente, do tucanismo, com duas breves e pontuais interrupções (os governos de Luiza Erundina, entre 1989 e 1992, e de Marta Suplicy, entre 2003 e 2006). Por aqui, em função desse terreno fértil e promissor, talvez a caixa de Pandora aberta durante a campanha presidencial do ano passado tenha reverberado de maneira ainda mais forte, reforçando e dando retaguarda de legitimidade à intolerância. O que se dizia apenas em locais privados, com certo receio e vergonha de reprimendas, alcança despudoradamente o espaço público - sem mais travas ou temores. É preciso ainda considerar o pavor incontido - e a ojeriza - que as elites brancas manifestam em relação às classes médias emergentes. São os invasores, a senzala que quer tomar conta da casa grande.

Tudo isso pode fazer sentido. Retomo então minhas inquietações iniciais - será que todas essas manifestações truculentas já diziam "presente!" e eu é que não as percebia? Ou de fato essa higienização intolerante vem assumindo contornos mais exacerbados, carregados e preocupantes?

Qualquer que seja a resposta, o fato é que, como diria Alvo Dumbledore, diretor de Hogwarts e mentor intelectual do bruxinho Harry Potter, estamos vivendo tempos difíceis. E sombrios.

7 comentários:

  1. Chico, os bandeirantes eram suados, fedidos, barbudos, uma "gente diferenciada". E matavam índios a pau, vc sabe bem disso. Mesmo assim, ajudaram a formar o território brasileiro. Acho curioso que os sampaulistas se orgulhem dessas figuras... E mais: o que seria "tipicamente paulistano" se a metrópole se fez há tão pouco tempo, entrelaçada de gentes de todo o Brasil e mundo afora?

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  2. Caraca Chico, não há muita coisa a mais para dizer...talvez mais uma escrotidão que te escapou..." A empregada é um bicho em extinção.." comentario de Delfim Neto. Mas lendo tudo isso, percebo que já estou em abstinência de periferia, de população de rua, de pé no barro na favela, de relações diretas, sinceras, coerentes e colaborativas. Onde a diversidade é lema e a solidariedade sobrevivência. Temos muito que aprender com esse apartado povão, e não o contrário.Tenhamos coragem! Mas continuo acreditando, pelo menos no povão, os irmão!

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  3. Isso sem falar da não-elite-branca que se pensa elite-branca. Essa é a pior: está no metrô, no trabalho e não tem a mínima idéia que é minoria.. que é, também, parte da "gente diferenciada"!

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  4. Certamente a burguesia paulistana se acha superior e intocável. Discursos separatista, fundamentalistas, preconceituoso são ouvidos até de pessoas que se dizem contra o preconceito, mas não que se misturar com nordestinos, gays. Esse povo tem que acordar, e ver a história. Se não fosse por causa dos nordestinos, eles não estariam hoje usando seus Macs, Ipod, Ipad e gastando seu dinheiro na Europa e principalmente nas praias nordestinas. O "povinho", acorda pra vida, o que vocês tem hoje, muito foi conquistado atráves do trabalho de muitos nordestinos.

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  5. Pat, os bandeirantes eram fedidos e suados, mas forjaram a identidade paulistana. E fotografia não tem cheiro. Fatura-se o que é bom, esconde-se o que não é conveniente. Ricardo, camarada, muito bem lembrado o infeliz comentário do signatário do AI-5. Silvia, é a gente diferenciada que tem vergonha de mostrar seu valor. Péssimo. Daniel, SP deve muito aos irmãos nordestinos. Muito obrigado e abraços! Chico

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  6. Chico,
    Excelente texto!
    Não sei responder a sua pergunta. tenho também dúvidas.
    Mas talvez a conquista do poder pela "centro-esquerda" tenha sido um passo muito além do que esta elite branca esperava. Se antes eles ficavam quietos, porque não temiam nada, o país caminhava de acordo com seus interesses pessoais, agora, têm que se manifestar, porque o direito à assistência social do Estado está sendo implementado com o Bolsa Família, por exemplo. Acho que a hegemonia deste projeto LULA/DILMA é algo que contribuiu pra este vociferar. Por outro lado, sinto que isso não ocorre só em SP. É que SP é a principal cidade do país, e vc mora nela, mas aqui em JP a gente escuta cada coisa absurda também! Empregada é quase uma escrava. Babá, também. Rico não quer que pobre se misture. Enfim, a mesma nojeira paulistana, com sotaque diferente.
    Realmente, Alvo Dumbledore estava certo: vivemos tempos sombrios.
    Beijos pra ti, Elisa e pimpolhos.

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  7. Essa minoria preconceituosa não corresponde em 0,1% da sociedade paulistana. O preconceito não é exclusividade de paulistanos, gaúchos ou cariocas. Existe em todo o lugar.

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