segunda-feira, 2 de maio de 2011

PALESTINOS SE UNEM E AUMENTAM PRESSÃO POR ESTADO INDEPENDENTE


Em meio à onda de manifestações, protestos e rebeliões populares que tomam conta das ruas dos países árabes, que já derrubaram alguns presidentes-ditadores (Tunísia e Egito) e ameaçam defenestrar do poder alguns outros que se julgavam inatingíveis (Líbia e Síria), merece destaque um movimento tão surpreendente quanto inteligente, acertado pacificamente no silêncio dos gabinetes de negociadores, e que promete agitar ainda mais a região já em ebulição. 


No último dia 24 de abril, os grupos palestinos Hamas (que controla a Faixa de Gaza) e Fatah (responsável pela administração da Cisjordânia) anunciaram um acordo que não só encaminha o fim das disputas e divergências entre as duas facções como prevê a existência de um governo de coalizão que se encarregará de convocar e garantir a realização de eleições presidenciais e legislativas unificadas. 

Com a reaproximação e o adeus à cizânia, o povo palestino terá novamente representação única nas discussões sobre o processo de paz travadas com Israel e verá fortalecida a luta pela criação de um Estado palestino soberano e independente, com as fronteiras anteriores a 1967. A mais do que necessária unidade é também consagrada em um momento histórico importantíssimo e em contexto simbolicamente favorável, já que, como há muito não se via, os ventos de liberdade que sopram na região parecem colocar na defensiva as tendências e posturas autoritárias.   

O racha entre as duas facções palestinas aconteceu em 2006, por conta de eleições legislativas vencidas pelo Hamas e questionadas pelo Fatah. O que à primeira vista poderia funcionar como balança equilibrada e garantia de mais respaldo e legitimidade à causa palestina (Hamas com maioria no Parlamento e Fatah com o controle do Executivo) acabou, para alegria e festa do governo israelense, provocando fraturas e deixando vir à tona as estratégias de resistência muitas vezes antagônicas vislumbradas e defendidas pelos dois grupos, que se acusavam mutuamente: o Fatah condenava o que chamava de ações extremistas do Hamas, que por sua vez não aceitava o que considerava ser uma postura exageradamente conciliadora do "rival", que estaria inclusive cedendo a Israel em questões que seriam inegociáveis para os palestinos (definição das fronteiras e atribuições dos governos, por exemplo). 

Resultado óbvio: a divisão enfraqueceu as posições palestinas no já duro diálogo com Israel. O cenário era surreal: era como se existissem dois estados palestinos distintos (Faixa de Gaza e Cisjordânia), quando na verdade e concretamente o Estado Palestino ainda não saiu do papel. Não é preciso lembrar que Israel soube muito bem aproveitar-se do dividir para governar, estimulando inclusive as divergências para continuar negando ao povo palestino o direito à Pátria, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde a trágica partilha da Palestina, em novembro de 1947, por meio da resolução 181.  

Pois eis que o entendimento entre Hamas e Fatah inverte o jogo e pode novamente colocar os palestinos na ofensiva. Segundo reportagem de Roberto Simon publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, "a Autoridade Palestina - novamente a representante tanto da Cisjordânia quanto da Faixa de Gaza - pretende levar à abertura da Assembleia-Geral da ONU, em setembro, uma proposta de independência, a contragosto de Israel e EUA. A tendência é que a plenária das Nações Unidas aprove a resolução, estimam diplomatas e especialistas. Hoje, 118 países (incluindo o Brasil) já reconhecem a Palestina".

Em entrevista também publicada pelo Estadão, o político palestino Mustafá Barghout, independente e não alinhado com nenhum dos dois grupos, avalia que "esse pacto leva à reunificação dos territórios palestinos e dos governos, além de permitir uma estratégia comum aos palestinos. Ele ainda traz de volta a democracia palestina, dá a vida ao Parlamento e às demais instituições do Estado. Sobretudo, é uma oportunidade de ouro para a paz. Agora, ninguém pode recusar o diálogo com o argumento de que não há um interlocutor que fale por todos os palestinos. A população estava saindo às ruas para exigir o fim da divisão e nós lutamos muito para conseguir esse acordo."

É inegável que a morte de Osama Bin Laden tem potencial para se transformar em um grande trunfo para a reeleição do presidente Barack Obama. Será cantada em verso e prosa como um dos principais feitos da atual administração, algo que Bush Jr. perseguiu de forma obstinada - e não conseguiu concretizar. Alcançou status de diferencial, vantagem comparativa. Tem amplitude para emparedar discurso dos republicanos. 

Ainda assim, penso que a política é um pouco mais complexa do que uma relação de causa-efeito (matou Bin Laden, está reeleito); como diz o dito popular, muita água ainda vai correr por debaixo dessa ponte. E podem ser cursos d'água não muito tranquilos. Exemplo: se a proposta de independência palestina de fato for levada à ONU, colocará os Estados Unidos em lençois no mínimo incômodos e pouco confortáveis. A iniciativa irá mais uma vez chamar Obama à responsabilidade, em um momento que continua a ser delicado e de fortes pressões internas (políticas e econômicas) para o presidente dos EUA. 

Como destaca a matéria do Estadão, caso vote a favor dos palestinos, no Conselho de Segurança, Obama estará finalmente rompendo relações umbilicais que unem Estados Unidos e Israel desde a criação do Estado israelense, em 1948. Estará Obama disposto a fazer esse movimento, já com a campanha à reeleição em marcha, e lembrando que a comunidade judaica nos EUA influencia fortemente a disputa pela Casa Branca? 

Ao contrário, se decidir vetar o Estado Palestino, Obama também nessa questão se igualará aos falcões republicanos, se afastará ainda mais de sua base política progressista de apoio (já bastante desiludida com as inflexões do mandatário) e fará por fim crescer o considerável sentimento planetário de anti-americanismo, principalmente nos países árabes. A fatura será razoável. Valerá a pena pagar um preço tão alto?

A única maneira de garantir paz efetiva e duradoura à região do Oriente Médio é efetivar a existência de dois Estados independentes. O de Israel já é uma realidade. O que significa dizer que o direito dos palestinos a uma Pátria soberana não pode mais ser adiado. Parece que o bonde da História (e como ela tem sido generosa com Obama!) está mais uma vez acenando e oferecendo carona ao presidente dos EUA. A dúvida é: será que ele vai entender e atender a esse chamado?

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